O nascimento da metapsicologia: a obra inicial de Freud
Capítulo 3 - O conceito de aparelho de linguagem
Capítulo 3 - O conceito de aparelho de
linguagem
Os processos associativos que constituiriam o aparelho de linguagem consistiriam no último estágio da série de reorganizações sucessivas da informação sensorial proveniente do mundo externo. Segundo Freud, os estímulos que incidissem sobre a medula seriam reorganizados ao longo de seu caminho até o córtex, onde eles passariam por outros processos associativos e, então, seriam mais uma vez por eles reorganizados. Os complexos associativos formados por esses processos corticais possuiriam concomitantes psíquicos que, no caso da área da linguagem, consistiriam nas representações de palavra e, nas demais regiões corticais, nas representações de objeto.
Freud formula essa hipótese da reorganização funcional dos estímulos em substituição à idéia de Meynert de que haveria uma projeção topograficamente exata da periferia do corpo no córtex. Ele recusa duas hipóteses que seriam condições necessárias para a ocorrência dessa projeção ponto por ponto: primeiro, a de que o número de fibras que parte da periferia é idêntico ao que ingressa no córtex; segundo, a de que na passagem dessas fibras pelos núcleos de matéria cinzenta intercalados em seu caminho não se daria nenhuma espécie de alteração na natureza ou na significação do material conduzido.
Contra a primeira dessas hipóteses, é mencionada uma constatação de Henle, segundo a qual o número de fibras que conecta a periferia do sistema nervoso à medula seria maior que o número de fibras que conecta esta última ao cérebro. Portanto, de acordo com as características anatômicas do sistema nervoso, só entre a periferia sensório-motora e a medula seria possível haver uma projeção
ponto por ponto dos estímulos recebidos.5 Por causa dessa redução do número de fibras no caminho da medula ao córtex, uma unidade sensorial que alcançasse o cérebro deveria corresponder a várias unidades sensoriais que alcançassem a periferia. Assim, deveria haver, forçosamente, uma reorganização da informação sensorial ao longo de sua condução ascendente. Com base nisso, Freud propõe que a relação entre a periferia do sistema nervoso e a medula pode ser chamada de “projetiva”, como queria Meynert, mas que a relação entre esta e o córtex deve ser chamada de “representativa”:
[…] uma unidade de substância cinzenta que pertence a um
nível superior não pode corresponder à uma unidade periférica,
mas tem que estar relacionada com várias de tais unidades.
Isto também vale para o córtex cerebral e é, portanto, adequado
empregar termos diferentes para esses dois tipos de
representação no sistema nervoso central. Se chamamos
“projeção” ao modo como a periferia está refletida na medula
espinhal, sua contraparte no córtex cerebral poderia
convenientemente ser chamada uma “representação”
(Repräsentation), o que implica que a periferia do corpo não
está contida ponto a ponto no córtex cerebral e sim por fibras
selecionadas com uma diferenciação menos detalhada (Freud,
1891, p. 66).
Contra a segunda condição necessária para a projeção ponto por ponto dos estímulos – ou seja, contra a hipótese de Meynert de que as fibras retenham sua identidade mesmo após atravessar vários núcleos de matéria cinzenta –, Freud argumenta que as várias fibras provenientes das diferentes partes do sistema nervoso se conectam no interior desses núcleos e que, a cada fibra aferente, correspondem várias fibras eferentes em um mesmo núcleo. Dessa forma, não seria possível que a informação aferente fosse exatamente igual à eferente.
Se observarmos a maneira como a mielinização avança
paulatinamente de um núcleo a outro e como, em um mesmo
núcleo, para cada feixe de fibras aferentes emergem três ou
mais feixes eferentes, essas massas cinzentas, e não os feixes
de fibra, parecem ser os órgãos do cérebro. Se seguimos o
curso de um feixe sensorial aferente tal como o conhecemos e
consideramos como características suas freqüentes
interrupções nos núcleos cinzentos e sua arborização através
deles, podemos supor que o significado funcional de uma fibra
muda ao longo do seu caminho até o córtex cerebral cada vez
que ela emerge de um núcleo (Freud, 1891, p. 67).
Portanto, no caminho da medula ao córtex, o material sensorial seria sucessivamente reorganizado de acordo com os princípios funcionais do sistema nervoso. Assim, os estímulos que chegassem ao córtex – isto é, o material constituinte dos correlatos das representações – possuiriam uma relação muito indireta com os estímulos periféricos, e o processo associativo cortical faria um último rearranjo nesse material, tornando essa relação ainda mais indireta. Dessa forma, os correlatos das representações consistiriam no estágio final de um processo de reordenação da informação periférica, e, assim, as representações mentais corresponderiam apenas ao ápice desse processo, de forma que seriam desconhecidas todas as suas determinações anteriores:
[…] os feixes de fibras, que chegam ao córtex cerebral depois
de haver passado por outras massas cinzentas, mantêm
alguma relação com a periferia do corpo, porém já não refletem
uma imagem topograficamente exata dela. Contêm a periferia
do corpo da mesma maneira que – para tomar um exemplo do
tema que nos interessa aqui – um poema contém o alfabeto,
isto é, uma disposição completamente diferente que está a
serviço de outros propósitos, com múltiplas associações dos
elementos individuais nas quais alguns podem estar
representados várias vezes e outros estar totalmente ausentes
(Freud, 1891, p. 68).
É provável, como visto, que Freud tenha fundamentado essa hipótese da reorganização dos estímulos periféricos na teoria de Jackson. Segundo este autor, o sistema nervoso consistiria num mecanismo sensório-motor da base ao topo, em que seria possível diferenciar três níveis de evolução da estrutura e da função nervosa: os “centros inferiores”, os “intermediários” e os “superiores”. Os centros sensório-motores superiores evoluiriam a partir dos intermediários; estes, a partir dos inferiores, e estes, por sua vez, a partir da periferia. Cada um deles representaria o mesmo material do nível inferior de uma forma diferente, além de incluir novos materiais. Nas palavras de Jackson, os centros inferior, intermediário e superior seriam, sucessivamente, “representativos”, “re-representativos” e “re-re-representativos” (Jackson, 1884). Portanto, as informações sensoriais e motoras seriam sucessivamente reordenadas, e o último nível de organização consistiria na base física dos processos psíquicos, em que estes só poderiam representar de forma triplamente indireta as informações da periferia.
Em suma, o aparelho de linguagem seria constituído por processos associativos incluindo os elementos acústicos, cinestésicos e visuais que entrariam na composição das palavras e que consistiriam no último estágio de reorganização dos estímulos periféricos. Haveria dois processos distintos nesse aparelho, o fisiológico e o psíquico, os quais, embora ocorrendo lado a lado, possuiriam características próprias, tendo, por isso, de ser tratados separadamente, segundo as diretrizes freudianas.
A fisiologia do aparelho
Do ponto de vista fisiológico, o aparelho de linguagem seria constituído por processos associativos funcionalmente similares, que se sobreporiam uns aos outros, ou seja, que se sobreassociariam na mesma região cortical. Dessa forma, haveria vários níveis de funcionamento coexistindo no aparelho de linguagem, cada um dos quais corresponderia a momentos diferentes do desenvolvimento da linguagem na vida do indivíduo. O aparelho poderia ser estimulado por meio de duas vias: da periferia sensorial ou do restante do córtex. No primeiro caso, haveria repetição ou leitura de palavras e, no segundo, a fala espontânea. Esta última consistiria na estimulação das associações de palavras pelas associações de objetos.
Como as lesões parciais na área da linguagem afetariam os níveis de funcionamento numa ordem que vai dos superiores e mais recentemente estabelecidos para os inferiores e mais arcaicos, os modos de funcionamento primários voltariam, nesses casos, a prevalecer. Freud propõe que as diferentes atividades da linguagem continuem sendo efetuadas pelas mesmas vias, mediante as quais se aprende e que, embora no funcionamento normal possam ser empregadas abreviações e substituições, em condições patológicas o aparelho seria forçado a retornar aos modos de associação primários. Ele recusa parcialmente a hipótese de Charcot de que todos os elementos da linguagem estariam, inicialmente, dotados de direitos funcionais equivalentes e que ficaria a cargo da prática ou da organização individual fazer com que um elemento específico da linguagem se tornasse o fator coordenador dos demais. Freud argumenta, ao contrário, que os estudos dos transtornos de linguagem, até aquele momento, não haviam fornecido apoio para essa hipótese e que, embora no funcionamento normal essa preferência habitual possa existir, nas enfermidades as linhas de associação primariamente empregadas sempre voltam a prevalecer. Assim, a atividade do elemento acústico possuiria um papel central nas atividades lingüísticas como um todo, pois todos os outros elementos estariam associados ao acústico e, além disso, seria por meio dele que as associações da linguagem se vinculariam às associações de objetos, de modo que a fala voluntária e a compreensão das palavras dependeriam também dos elementos acústicos. Como será visto, são as representações de objeto que desempenharão a função de atribuir significado às representações de palavra.
Como os diversos casos de afasia podem ser explicados por meio dessa concepção da fisiologia do aparelho de linguagem? Os pressupostos adotados por Freud sobre a localização de funções cerebrais tornam inviável a explicação dos casos de afasia unicamente a partir da localização da lesão, como faziam os localizacionistas: Freud se opõe tanto à suposição de que os transtornos afásicos podem ser explicados unicamente a partir da localização da lesão – idéia defendida por Wernicke e Lichtheim – quanto à hipótese, formulada por Grashey, de que alguns tipos de afasias poderiam ser explicados apenas com referência a fatores puramente funcionais. Ao recusar essas duas concepções extremas, Freud assume uma posição intermediária, segundo a qual em todos os transtornos afásicos devem haver interrupções de fibras associativas e alterações funcionais globais.
Freud enuncia essa posição intermediária após estudar alguns casos de afasia motora transcortical e um caso de afasia amnésica relatado por Grashey. Ele analisa três casos do primeiro tipo – um relatado por Magnan e os outros dois por Hammond –, cujos sintomas eram aqueles considerados característicos da afasia motora transcortical (incapacidade de falar espontaneamente, com preservação da capacidade de repetir palavras ouvidas). Mas, desses casos, apenas o de Magnan havia resultado de uma lesão que podia ser considerada transcortical; nos outros dois, a lesão situava-se na área cortical motora. A partir disso e do fato de que o caso com sintomas de afasia motora transcortical relatado por Heubner resultava de uma lesão na área sensorial cortical, Freud conclui que esse tipo de afasia resulta de um rebaixamento no nível de funcionamento do centro motor, que pode decorrer tanto de lesões na área sensorial quanto de lesões na área motora da linguagem: uma vez que os elementos motores são estimulados a partir dos acústicos, qualquer problema nos últimos afetaria os primeiros. Freud faz uso aqui de uma hipótese de Bastian, de acordo com a qual é possível distinguir três estados de redução da excitabilidade de um centro. Num primeiro estágio, o centro não seria mais capaz de reagir à estimulação voluntária, mas seria ainda capaz de reagir à estimulação de outro centro e à estimulação sensorial direta; num segundo estágio, o centro só reagiria a esta última forma de estimulação; e, num terceiro, o centro não reagiria mais. Na afasia motora transcortical, o centro motor seria encontrado no segundo desses estágios e, com esse raciocínio, Freud enfatiza a necessidade de se considerar os fatores funcionais envolvidos na produção das afasias. Mas se, por um lado, os distúrbios afásicos não podem ser explicados unicamente a partir da localização da lesão, por outro, a presença desta não pode ser totalmente descartada. Assim, Freud discorda da hipótese de Grashey de que a afasia amnésica poderia ser explicada como um distúrbio exclusivamente funcional.
Grashey – psiquiatra que foi diretor de um hospital de saúde mental na Baviera e, depois, do hospital da Universidade de Würzburg (Greenberg, 1997) – analisa o caso de um homem de 27 anos, a quem ele se refere como V., que sofrera uma fratura na parte de trás do crânio, que provocou inicialmente, entre outros problemas, uma surdez verbal, a qual dias depois foi parcialmente revertida e deu lugar a um outro distúrbio de linguagem – segundo Freud, um caso típico de afasia amnésica. Esse segundo quadro poderia ser resumido da seguinte forma: o paciente, embora reconhecesse os objetos, tornara-se incapaz de fornecer os seus nomes, mas podia escrever o nome perdido e, então, reproduzi-lo oralmente, encontrando, portanto, as palavras por meio da escrita (Grashey, 1889). Grashey analisa esse caso de acordo com o seguinte diagrama da linguagem:
A: Centro das imagens acústicas.
B: Centro das imagens de objeto.
C: Centro dos símbolos (letras, palavras e números impressos e
escritos).
D: Centro das imagens motoras da fala.
F: Núcleo dos nervos articulatórios.
G: Centro das imagens motoras da escrita.
H: Centro dos centros motores funcionando durante a escrita.
Figura 3 Diagrama da linguagem.
Há duas rotas de condução conectando os centros A e B, assim como os centros A e C. Em cada caso, eles operam em direções opostas, como é ilustrado pelas flechas.
Para explicar o caso de V. a partir desse diagrama, seria necessário supor que a via B-A estivesse impedida, apesar de o sentido contrário (A-B) não o estar, pois o paciente não encontrava as imagens acústicas associadas aos objetos, embora fosse capaz de apontar um determinado objeto quando lhe solicitavam isso, o que comprovava a manutenção da capacidade de reconhecer os objetos. Seria necessário supor também que a via C-A não funcionasse para números, pois o paciente podia encontrar as imagens acústicas de letras e de palavras, mas não de números. Além disso, seria preciso admitir a existência de uma conexão direta entre B-G: a rota normal da escrita, segundo ele, seria B-A-C-G, mas o paciente, embora tendo B-A impedido, podia escrever os nomes dos objetos. Grashey argumenta que explicar esse caso a partir de todas essas hipóteses seria um procedimento arbitrário:
[…] é minha firme convicção que suposições tais como essas
não explicam, realmente, nada, elas meramente fornecem outra
descrição dos fatos a serem explicados, e qualquer sintoma
podia ser explicado em tal caminho ad hoc (Grashey, 1889, p.
529).
Ele formula, então, uma outra suposição para explicar o caso: as funções dos centros para imagens de objetos, imagens acústicas e símbolos estariam prejudicadas. O paciente podia reter em sua memória imagens acústicas de objetos e símbolos (imagens visuais da escrita), familiares ou não, apenas por um curto período, e esta redução do tempo de retenção das imagens na memória, segundo ele, explicaria a afasia amnésica de V.
Grashey complementa isso com a tese de que a compreensão correta de um elemento acústico, visual etc. apenas é possível se os elementos singulares dos quais este é composto puderem ser mantidos na memória por um tempo suficiente para que todas as partes sejam acessadas; assim, o fator crucial na percepção de um objeto ou símbolo seria a duração temporal de sua formação. Ele afirma que a palavra é percebida por nós numa ordem sucessiva. Uma letra precisaria de cerca de 0,06 segundo para ser percebida e, portanto, uma palavra de quatro letras necessitaria de mais ou menos 0,24 segundo, e assim por diante. Já os objetos são percebidos instantaneamente: em 0,06 segundo seria possível perceber um objeto visual em sua totalidade. As partes constitutivas de um objeto ou de um número não corresponderiam àquelas das imagens acústicas que se referem a eles, ao menos nas línguas ocidentais.
Em contraste, os elementos singulares das imagens acústicas e das imagens quirocinestésicas e glossocinestésicas coincidiriam quase perfeitamente. Assim, para que a imagem visual de um objeto excitasse uma palavra, a primeira teria de ser mantida na mente por um tempo suficientemente longo para que todas as letras da palavra pudessem emergir. Se a imagem do objeto fosse mantida por um tempo inferior ao necessário, apenas uma parte da palavra, uma letra ou sílaba, surgiria. Mas, no sentido contrário, as coisas iriam se passar de modo diferente. Uma palavra excitaria a imagem de um objeto instantaneamente, e não uma parte da imagem acústica excitaria uma parte da imagem de objeto, por exemplo. Então, mesmo se a memória para a imagem acústica durasse apenas 0,06 segundo, ela seria suficiente para evocar a imagem total de um objeto. A partir disso, Grashey conclui que o mesmo distúrbio, isto é, um decréscimo da duração máxima da capacidade de manter uma imagem na memória, pode afetar severamente a transição da imagem de objeto para a imagem acústica, sem qualquer prejuízo na direção contrária.
Ele sustenta, então, que a redução da duração temporal de uma imagem na memória é suficiente para explicar o distúrbio de V. Este podia encontrar as imagens de objeto a partir das imagens acústicas, porque, como as primeiras surgem instantaneamente, o tempo de retenção da imagem acústica (0,06 segundo) seria suficiente para tanto. Já o contrário não seria possível, porque o tempo de retenção da imagem de objeto (0,06 segundo) seria suficiente para evocar apenas uma letra. Mas, como as partes das imagens acústicas, visuais, quirocinestésicas e glossocinestésicas da palavra corresponderiam umas às outras inteiramente, a imagem acústica da letra que emergia poderia excitar a imagem quirocinestésica correspondente, e esta, por sua vez, a glossocinestésica, que faria ressurgir a imagem acústica. Ou seja, o paciente poderia 0xar as imagens acústicas com o auxílio das outras imagens sensoriais da palavra. Essa conclusão levou Grashey a considerar que as afasias amnésicas poderiam ser explicadas apenas a partir de fatores funcionais:
Eu acredito ter fornecido evidências suficientes para a
existência de uma desordem afásica que nem se baseia em
uma destruição funcional dos centros nem em um distúrbio de
condução das rotas conectivas (Grashey, 1889, p. 543).
Freud discorda da explicação que Grashey propõe para o caso de V., assim como da conclusão de que as afasias amnésicas resultam unicamente de fatores funcionais dela decorrentes. O fato de Grashey ter descartado a hipótese de que esse tipo de afasia poderia ser explicado pela interrupção das vias postuladas em seu esquema é mencionado por Freud como um mérito de Grashey; mas, ainda assim, ele discorda da conclusão de que esse tipo de afasia poderia ser explicado exclusivamente a partir de uma alteração fisiológica no aparelho de linguagem. Freud considera que, embora o artigo de Grashey não tenha alcançado êxito em seu principal objetivo – a saber, fornecer uma explicação puramente funcional da afasia amnésica –, há vários outros aspectos nele que podem reivindicar um valor permanente:
Foi o primeiro estudo que investigou a relação mútua dos
centros de linguagem e sua dependência a respeito do centro
das imagens acústicas e o primeiro que nos permitiu vislumbrar
o complicado e tortuoso curso das associações que servem de
base para o processo da linguagem (Freud, 1891, p. 57).
Greenberg (1997, p. 168), por sua vez, sugere que as hipóteses de Grashey sobre o “complicado e tortuoso curso das associações” serviram de inspiração para o conceito freudiano de sobredeterminação.
Prosseguindo, Freud argumenta que a redução da duração temporal da imagem de objeto não poderia provocar um transtorno do tipo considerado e cita, em favor dessa hipótese, um caso que havia sido relatado por Rieger. Este caso era similar ao de V. O paciente tinha dificuldade de encontrar os substantivos e adjetivos na linguagem espontânea e, para proferir os nomes dos objetos que lhe eram apresentados, era necessário que estes fossem constantemente incitados. Depois de algum tempo, as palavras surgiam explosivamente, ao contrário do que ocorria com o paciente de Grashey. Nesse caso, o distúrbio não podia ser explicado unicamente a partir da redução da duração temporal das imagens sensoriais. Freud sugere então que, além da deterioração na memória, deveria haver uma lesão localizada no centro para as imagens acústicas, a qual teria provocado uma alteração funcional
do mesmo, que se enquadraria no primeiro dos níveis6 de redução de excitabilidade propostos por Bastian: o centro não reage mais voluntariamente, mas continua reagindo em associação com outro centro e à estimulação sensorial direta. Ele explica que, no caso de V., o centro para as imagens acústicas não podia ser estimulado diretamente mediante a associação de objeto, mas ele permitia a condução dos estímulos às imagens visuais da palavra, associadas às imagens acústicas. A primeira parte das imagens visuais das palavras podia ser percebida durante a fração de tempo em que o estímulo do objeto permanecesse, e, por meio da repetição desse processo, todas as partes da imagem visual emergiriam e suscitariam a imagem acústica. Portanto, a lesão no centro acústico teria impedido a reação voluntária desse centro, mas a capacidade de reagir em associação com outro centro teria permanecido intacta. A atividade do centro acústico seria, então, auxiliada pela do centro visual, do quirocinestésico e do glossocinestésico. De acordo com a classificação das afasias que Freud propõe no final do texto, esse caso de afasia amnésica será considerado um caso de afasia assimbólica.
Desse modo, tanto os fatores topográficos quanto os funcionais estariam envolvidos na produção dos transtornos afásicos, de acordo com o que Freud propôs. A reação do aparelho a uma lesão dependeria da localização desta última em relação à periferia ou ao centro da área da linguagem e do grau de destrutividade da lesão, sua gravidade ou extensão. Essa reação poderia ocorrer de três formas distintas. Em primeiro lugar, se a lesão estivesse situada na periferia e fosse muito extensa, ela poderia suprimir das associações da linguagem todos os elementos de um determinado tipo. Nesse caso, além dos elementos específicos danificados (acústicos, visuais ou motores), todos os outros que dependessem deles também seriam prejudicados. É por isso que um problema na área acústica afetaria todas as atividades da linguagem. Em segundo lugar, se a lesão fosse periférica, mas parcial ou pouco extensa – ou seja, se não atingisse todos os elementos de um certo tipo –, o grupo de elementos atingido sofreria uma alteração funcional de acordo com os níveis de redução da excitabilidade propostos por Bastian. Primeiro, não reagiria mais à estimulação voluntária; depois, não mais reagiria à estimulação a partir dos outros centros; e, por último, nem mesmo à estimulação sensorial direta. Em terceiro lugar, se a lesão se situasse na região central da área da linguagem, ela provocaria uma regressão funcional no aparelho, de acordo com o que havia sido proposto por Jackson. As associações seriam afetadas na ordem das mais complexas, menos organizadas e menos automáticas para as mais simples, mais organizadas e mais automáticas, ou, dizendo de outra forma, na ordem das mais antigas para as mais recentes.
Assim, quanto mais periférica fosse a lesão, mais seu efeito estaria relacionado com sua localização, e, se fosse central, ela tenderia a provocar uma retrogressão funcional no aparelho como um todo. Na verdade, também no caso em que houvesse redução da excitabilidade do centro (Bastian), haveria uma regressão funcional, pois a alteração afetaria as atividades desse centro na ordem das mais complexas para as mais simples – a atividade voluntária seria a primeira a ser afetada, e a decorrente da estimulação direta seria a última. Entretanto, nesse caso, a regressão seria local, ou seja, atingiria apenas o grupo de elementos danificados, enquanto no caso da lesão central ela atingiria o aparelho como um todo. Freud afirma que:
Ao avaliar as funções do aparelho de linguagem em condições
patológicas, estamos adotando como princípio reitor a doutrina
de Hughlings Jackson, segundo a qual todos esses modos de
reação representam instâncias de retrogressão funcional
(dissolução) de um aparelho altamente organizado e
correspondem, portanto, a estados anteriores de seu
desenvolvimento funcional (Freud, 1891, p. 100).
Com essa concepção sobre o funcionamento normal e patológico da linguagem, Freud introduz um fator subjetivo na explicação das afasias (Geerardyn, 1997). Segundo a teoria aqui formulada por Freud, a sintomatologia das afasias dependeria também do modo particular de desenvolvimento das associações lingüísticas em cada sujeito afásico, o que faria com que cada caso de afasia fosse, sob certo aspecto, um caso singular.
Em suma, os processos fisiológicos que constituem o aparelho de linguagem seriam processos associativos similares, que produziriam uma última reordenação no material perceptivo e nos quais os elementos acústicos desempenhariam um papel central e organizador. O aparelho seria estimulado, inicialmente, a partir da periferia do sistema nervoso e, posteriormente, também a partir das associações de objeto. No funcionamento normal, as associações primárias poderiam ser substituídas por outras mais práticas, mas, no funcionamento anormal, os modos de associação primários voltariam inevitavelmente a prevalecer. A menos que uma lesão na área da linguagem afetasse todos os elementos das associações lingüísticas de um determinado tipo, os processos associativos sofreriam uma regressão funcional, a qual poderia ser local ou afetar o aparelho como um todo, dependendo da localização periférica ou central da lesão. Resta examinar, agora, em que consistiriam os processos psíquicos concomitantes a esses processos fisiológicos.
A psicologia do aparelho
Do ponto de vista psicológico, o aparelho de linguagem seria constituído por representações de palavra, que, embora funcionassem como uma unidade, consistiriam em complexos constituídos por imagens acústicas, visuais, quirocinestésicas e glossocinestésicas. Essa hipótese sobre os elementos constituintes da palavra já estava presente em Wernicke, Grashey, Bastian e Déjerine, entre outros. O que pode ser considerado novo na concepção de Freud sobre a representação de palavra é o modo como ele pensa os processos associativos que ocorrem entre seus elementos constituintes, lembrando que Freud usa o termo “associação” para se referir tanto aos processos fisiológicos quanto aos processos psicológicos envolvidos.
Do ponto de vista psicológico, a “palavra” é a unidade funcional
da linguagem: é uma representação complexa constituída por
elementos acústicos, visuais e cinestésicos. Devemos o
conhecimento desta estrutura à patologia, a qual demonstra
que as lesões orgânicas que afetam o aparelho de linguagem
ocasionam uma desintegração da linguagem correspondente a
tal constituição […]. Geralmente se consideram quatro
constituintes da representação de palavra: a “imagem acústica”
ou “impressão acústica”, a “imagem visual da letra” e as
“imagens ou impressões glossocinestésicas e
quirocinestésicas”, porém esta constituição parece ainda mais
complicada se se considera o provável processo de associação
implícito nas diversas atividades da linguagem (Freud, 1891, p.
86).
Temporalmente, a imagem acústica seria a primeira a se formar; em seguida, a imagem glossocinestésica, a imagem visual da letra e, por último, a quirocinestésica. Todas as imagens se associariam à imagem acústica ou por meio de tal imagem; portanto, ao menos inicialmente, todas as atividades da linguagem dependeriam dela. A fala espontânea, a repetição de palavras e a compreensão das palavras permaneceriam sempre dependentes da imagem acústica, uma vez que a imagem cinestésica só seria acessada por meio dela e uma vez que seria apenas por meio da imagem acústica que a representação de palavra se associaria à representação de objeto, associação da qual dependeria o significado das palavras. Freud afirma que, ao menos no caso dos substantivos, é a representação de objeto que atribui significado à representação de palavra.
A representação de objeto consistiria também num complexo associativo, mas esse complexo não seria constituído apenas por representações acústicas, visuais e cinestésicas, como ocorre com a representação de palavra; outros tipos de imagens (tácteis, olfativas etc.) poderiam integrá-la. A representação de objeto, assim como a de palavra, possuiria como correlato um processo associativo, que consistiria no último estágio de reorganização do material perceptivo, pois a concepção de Freud sobre o processo de condução dos estímulos da periferia ao córtex não se restringe às informações relacionadas à linguagem, mas refere-se ao processo de condução da informação sensorial em geral. Além de a representação de objeto ser constituída por uma variedade maior de elementos sensoriais, a possibilidade de novos elementos se acrescentarem a ela nunca cessaria, ao contrário, mais uma vez, do que acontece com a representação de palavra. Uma vez que as imagens acústicas, visuais e cinestésicas de uma determinada palavra se constituíssem, não haveria novos elementos a serem acrescentados àquela representação; novas representações de palavra poderiam se constituir e se associar às anteriores, mas não seria possível que percepções diferentes da mesma fossem vivenciadas. Mas, em relação à representação de um objeto específico, sempre haveria a possibilidade de que, por exemplo, percepções visuais de diferentes ângulos ou percepções tácteis de suas diferentes partes fossem vivenciadas a cada vez e, assim, acrescentassem novos elementos à representação. É por isso que Freud afirma que a representação de objeto seria um complexo aberto – ao passo que a representação de palavra seria um complexo fechado –, pois sempre permaneceria a possibilidade de que novos elementos se acrescentassem aos anteriores.
Essa concepção de objeto proposta por Freud provém, pelo menos em parte, da concepção de objeto formulada por Stuart Mill (1843). Segundo este, quando dois fenômenos que nunca foram vivenciados ou pensados separadamente fossem percebidos juntos com muita freqüência, seria produzida uma “associação inseparável” entre eles, a qual tornaria impossível pensá-los isoladamente, a não ser que alguma experiência subseqüente viesse dissolver a associação. De tal associação inseparável e da “capacidade de expectativa” da mente humana resultariam a idéia de um objeto externo e a crença na sua existência, segundo Mill. A idéia de um mundo exterior a nós resultaria do fato de que, ao vivenciarmos um conjunto de sensações associadas e que nos parecem inseparáveis, em razão de nossa capacidade de expectativa – ou seja, a capacidade que possuímos de conceber, após termos sensações reais, que novas sensações podem vir a ser vividas em associação com as anteriores e que, em determinadas condições, as mesmas sensações podem retornar –, passaríamos a considerar que tais sensações sempre poderão ser vivenciadas novamente, por nós e por outros, sob determinadas circunstâncias, e que outras sensações ainda desconhecidas poderão ser acrescentadas às demais. De acordo com Mill, essa concepção de “sensações possíveis” fornece um caráter de permanência que se oporia ao caráter efêmero de nossas sensações singulares e, a partir dessa diferenciação, seríamos levados a considerar que ambas são coisas diferentes, que as possibilidades de sensações existem independentes de nós, ou seja, que existem objetos externos dos quais as sensações provêm. Ao expor sua concepção de objeto, Freud faz referência a essas idéias de Mill. Diz ele:
A idéia ou conceito de objeto é ela mesma outro complexo de
associações composto pelas mais diversas impressões visuais,
acústicas, cinestésicas e outras. Segundo o ensinamento da
filosofia, a idéia de objeto não contém outra coisa; a aparência
de uma “coisa”, cujas “propriedades” nos são transmitidas por
nossos sentidos, se origina somente do fato de que ao
enumerarmos as impressões sensoriais percebidas de um
objeto deixamos aberta a possibilidade de que se acrescente
uma grande série de novas impressões à cadeia de
associações (J. S. Mill) (Freud, 1891, p. 90).
Portanto, tanto para Freud quanto para Mill, a representação de objeto consistiria num complexo de impressões sensoriais e, por isso, nossa idéia de uma coisa no mundo só poderia ser uma inferência, ou uma “crença”, que se originaria a partir desse agregado de impressões e da nossa capacidade de expectativa.
O vínculo entre a representação de palavra e a representação de objeto seria formado sempre por meio da associação entre a imagem acústica da primeira e, normalmente, a imagem visual da segunda. Segundo Freud, embora usualmente a imagem visual seja o elemento central da representação de objeto e seja por meio dela que essa representação se associa a de palavra, seria possível também que a palavra fosse estimulada por meio de outros elementos constituintes da representação de objeto. O seguinte esquema é proposto por Freud para ilustrar essas representações e suas relações:
Como a representação de palavra se constitui? Segundo Freud, o primeiro passo na aprendizagem da linguagem consistiria em associar a imagem acústica de uma palavra a uma impressão de inervação dos músculos da fala. Quando o sujeito falasse, surgiria uma imagem glossocinestésica – ou seja, o segundo elemento da representação de palavra – e, simultaneamente, uma segunda imagem acústica, decorrente do som produzido pelo próprio sujeito, seria percebida e associada às duas primeiras. Inicialmente, essa segunda imagem acústica não seria idêntica à primeira, pois, na fase inicial do desenvolvimento o sujeito empregaria uma linguagem própria. Essa linguagem seria pouco a pouco aperfeiçoada, por meio de tentativas de fazer coincidir a imagem acústica resultante do som emitido pelo próprio sujeito à imagem acústica resultante do som pronunciado pelas pessoas que o cercam. Então, em sua origem, a fala surgiria e se desenvolveria sob a forma de um esforço para a repetição de palavras. A imagem acústica decorrente do som que o sujeito emite e a imagem glossocinestésica manteriam, ao longo de toda a vida, uma função corretiva da linguagem. Freud diz que, na linguagem contínua, a emissão de uma segunda palavra só ocorre depois que a imagem acústica ou que a imagem cinestésica da palavra precedente foi percebida. A parafasia decorreria, então, da perda dessa função corretiva.
O terceiro elemento a integrar a representação de palavra seria a imagem visual. Esta última seria associada à imagem acústica durante a aprendizagem da leitura. Inicialmente, as imagens visuais das letras seriam associadas às imagens acústicas tomadas isoladamente. Depois, uma sucessão de impressões de inervação e de impressões cinestésicas de letras, estimuladas pelas imagens visuais por meio das imagens acústicas, seria reciprocamente conectada, formando um padrão, e assim surgiria a capacidade de ler as palavras. Ao se enunciar uma palavra, seria possível perceber que suas imagens acústicas e cinestésicas são idênticas às que eram usadas anteriormente e, a partir dessa associação entre a palavra lida e a já conhecida, a primeira adquiriria seu significado. Ou seja, a palavra mais antiga – que já estaria associada à representação de objeto e, por isso, já possuiria significado – o transmitiria à nova. A partir de então, o sujeito poderia ler com compreensão.
Segundo Freud, a compreensão do material lido se efetuaria após a transmissão dos estímulos dos elementos visuais para os elementos motores, mediante a associação desses últimos com as imagens acústicas. Portanto, as palavras seriam compreendidas como que as repetindo para si mesmo, e o mesmo ocorreria com as palavras ouvidas. Na compreensão destas últimas, a imagem acústica estimularia a imagem glossocinestésica, esta estimularia novamente, de forma retroativa, a imagem acústica e, esta, finalmente, incitaria a representação de objeto. Dessa forma, para Freud, a compreensão das palavras ocorreria por um caminho bem mais tortuoso do que para Wernicke, pois ela não consistiria simplesmente na associação da imagem acústica da palavra às associações de objeto, mas envolveria também as imagens glossocinestésicas. Por isso, a compreensão do material lido poderia ser prejudicada por problemas com as imagens visuais, acústicas ou glossocinestésicas, e a compreensão das palavras ouvidas poderia ser prejudicada por problemas na imagem acústica ou na glossocinestésica. Todo tipo de compreensão da linguagem, é claro, também poderia ser afetado por problemas nas associações de objeto. Na aprendizagem de novas línguas, como já mencionado, as novas palavras se sobreassociariam as da língua materna e, a partir de tal associação, as primeiras adquiririam seu significado.
O quarto elemento constituinte da representação de palavra – a imagem quirocinestésica – seria formado em associação com a imagem visual e com a imagem acústica na aprendizagem da escrita. Quando a figura produzida pela escrita a partir dessa imagem quirocinestésica fosse percebida, uma nova imagem visual, em razão de sua semelhança com aquela anteriormente estabelecida na leitura, seria sobreassociada a esta.
Uma vez que as representações de palavras podem sobreassociar-se umas às outras, também do lado psíquico haveria vários níveis de processos associativos coexistentes, os quais corresponderiam aos sucessivos estágios de desenvolvimento da linguagem. Nas afasias, a regressão aos processos fisiológicos anteriormente estabelecidos seria acompanhada pela regressão aos processos psíquicos mais antigos. Esses processos primários, assim como os processos fisiológicos aos quais correspondem, não “voltariam a ocorrer” propriamente, mas apenas “voltariam a predominar”, visto que todos os níveis de processos coexistiriam. Na verdade, Freud atribui, de certa forma, as mesmas características aos processos fisiológicos e aos psicológicos: ambos seriam processos associativos e sobreassociativos que representariam os diferentes momentos do desenvolvimento da linguagem e que, nos casos patológicos, sofreriam uma regressão funcional na ordem dos mais recentes para os mais antigos. A diferença seria que, enquanto do ponto de vista neurológico a associação seria uma operação constituinte dos correlatos das representações, do ponto de vista psíquico ela ocorreria entre as representações simples e, assim, a uma associação psíquica corresponderia uma rede associativa neurológica.
O fato de a representação de palavra consistir num complexo de impressões acústicas, visuais e cinestésicas não configura nenhuma novidade em relação às teorias da época; o que parece ser original na concepção de Freud é a idéia de sobreassociação, a qual é incompatível com a idéia de que cada um dos correlatos das impressões sensoriais esteja armazenado em uma célula singular e que a sua constituição ocorra por um mero processo de expansão topográfica. A interdependência das diversas atividades da linguagem proposta por Freud já havia sido sugerida, pela primeira vez, por Grashey, como já comentado.
Segundo Freud, a partir do esquema proposto, os diversos tipos de afasias poderiam ser classificados em três grupos: as “afasias verbais”, decorrentes de danos nos correlatos das representações de palavra; as “afasias assimbólicas”, decorrentes de danos nos correlatos das associações entre representações de palavra e de objeto; e as “afasias agnósicas”, as quais consistiriam num problema puramente funcional, resultante de lesões nos correlatos das representações de objeto. Como destas últimas representações dependeriam a fala espontânea e a compreensão das palavras, qualquer problema com elas prejudicaria também a linguagem.
Na afasia verbal seria possível explicar três tipos de sintomas a partir da localização da lesão: 1) incapacidade de reconhecer letras, se a lesão se situasse na área visual e fosse completa, ou seja, se atingisse todos os elementos visuais; 2) incapacidade de escrever, se o mesmo ocorresse com os correlatos das imagens quirocinestésicas; e 3) incapacidade de repetir ou falar espontaneamente e prejuízo da compreensão da linguagem escrita ou ouvida, se a lesão se situasse na área das impressões glossocinestésicas e fosse completa.
A afasia assimbólica, por sua vez, poderia aparecer em estado puro ou em associação com a afasia verbal. O primeiro caso decorreria de uma lesão circunscrita à área onde ocorreria a ligação entre as associações de palavra e as de objeto; nesse caso, a fala voluntária e a compreensão das palavras seriam inviabilizadas; o segundo caso – a afasia assimbólico-verbal – resultaria de lesões no elemento acústico. Neste caso, uma vez que todas as atividades da linguagem dependeriam desse elemento, e que seria por meio dele que a palavra se conectaria ao objeto, todas as atividades da linguagem seriam afetadas de alguma forma. Se a incapacidade tanto para encontrar uma palavra, quando dado um objeto, quanto para compreender o significado das palavras é chamada de assimbolia, e a palavra é um símbolo do objeto, pode-se concluir, portanto, que os casos de afasia assimbólica não consistem apenas em distúrbios da linguagem, como os de afasia verbal, mas também, num sentido mais amplo, em distúrbios da simbolização.
Todos os casos de afasia aqui descritos seriam resultantes de lesões completas ou, no caso da assimbolia pura, de uma lesão circunscrita à área que conecta as representações de palavra as de objeto. As lesões parciais na região periférica da área da linguagem, como visto, provocariam uma redução da excitabilidade dos elementos atingidos pelo distúrbio, e, deste modo, os sintomas seriam manifestações dessa redução. Quando isso ocorresse, os elementos menos prejudicados forneceriam apoio para os mais prejudicados, independentemente da ordem de estabelecimento das associações Segundo Freud, os processos patológicos consistiriam em regressões a níveis anteriores do desenvolvimento da linguagem, mas a hierarquia primária não precisaria necessariamente ser seguida, no caso de lesões parciais:
[…] as afasias não fazem outra coisa que reproduzir um estado
que existiu no curso do processo normal de aprendizagem da
fala […]. Há apenas uma diferença: quando aprendemos
estamos limitados pela hierarquia dos centros que começam a
funcionar em épocas diferentes: primeiro o sensorial acústico,
logo o motor, o visual e, finalmente, o gráfico. Nos casos
patológicos, no entanto, o centro que menos sofre é aquele cuja
ajuda é buscada em primeiro lugar (Freud, 1891, p. 57).
Essa hipótese de Freud, provavelmente, fundamenta-se na idéia de “compensação” desenvolvida por Jackson, segundo a qual, no caso de lesões cerebrais, as partes intactas compensariam, na medida do possível, as atividades prejudicadas das áreas atingidas. Por isso, os sintomas não seriam puramente negativos, ou seja, não resultariam apenas da inatividade ou da deficiência de determinadas áreas, mas seriam, em parte, manifestações da atividade das áreas que sobreviveram à lesão, que forneceria então sua determinação positiva.
As lesões na parte central da área da linguagem, como já afirmado, produziriam uma regressão funcional no aparelho como um todo; nesses casos, as representações de palavra primariamente adquiridas seriam as últimas a serem prejudicadas e as mais recentemente adquiridas seriam afetadas em primeiro lugar. Portanto, isso deve resultar em um retorno às formas primárias de uso da linguagem, cujas características específicas iriam depender do modo como as capacidades lingüísticas tivessem se desenvolvido no indivíduo afásico.
Assim, do ponto de vista psicológico, o aparelho seria constituído por representações de palavra, que consistiriam em complexos de impressões acústicas, visuais e cinestésicas associadas de acordo com certos princípios e regras específicas. As palavras seriam sobreassociadas umas às outras, e, dessa forma, o significado das primariamente estabelecidas seria transmitido às outras, de forma que haveria várias cadeias de palavras que, em última instância, denotariam um mesmo objeto. As impressões visuais e cinestésicas só seriam acessadas por meio das acústicas, e, assim, as afasias não resultariam apenas da perda de certas imagens, mas também da impossibilidade de acessá-las.
Em suma, o aparelho de linguagem consistiria em vários níveis de processos neurológicos associativos, concomitantes a vários níveis de processos psicológicos também associativos, que, em conjunto, constituiriam as representações de palavra. Embora esses dois tipos de fenômenos apresentassem as mesmas características globais, a uma associação psíquica corresponderia uma rede associativa neurológica. A informação sensorial que chegasse à medula sofreria uma reorganização ao longo de sua condução ao córtex, e os processos associativos que ocorressem no aparelho de linguagem representariam o último estágio de reorganização dessa informação perceptiva. Assim, a informação perceptiva que se torna consciente seria, em grande parte, uma construção subjetiva, e não apenas uma cópia passiva do mundo externo. Em casos de lesões na área da linguagem, haveria uma regressão funcional que poderia ser global ou local; quando isso ocorresse, os níveis associativos inferiores e mais primitivos voltariam a prevalecer. O fato de Freud ter concebido a área da linguagem como uma área homogênea, onde os processos associativos estabeleceriam as diferenciações, e de ter concebido a afasia como uma regressão a estágios anteriores do desenvolvimento fez com que os fatores individuais passassem a desempenhar um papel determinante nas afasias. Essas poderiam definir-se como prejuízos apenas da linguagem ou como prejuízos também da capacidade de simbolização em geral. No primeiro caso, apenas as associações que constituíssem as representações de palavra seriam atingidas e, no segundo, as associações que conectassem esta última às representações de objeto seriam também afetadas. A representação de palavra seria um complexo associativo constituído por elementos acústicos, cinestésicos e visuais, que adquiriria significado por meio de sua associação com a representação de objeto. Esta consistiria também num complexo semelhante de impressões sensoriais, mas, ao contrário da representação de palavra, a representação de objeto seria um complexo aberto, e disto resultaria a crença em objetos existentes independentemente de nossa percepção. As palavras seriam sobreassociadas umas às outras, e, nesse processo, o significado das já constituídas seria transmitido para as que a elas se sobreassociassem.
Resta examinar, agora, quais conseqüências para a formulação de um conceito de representação são acarretadas por essa teoria sobre a fisiologia e a psicologia da linguagem proposta por Freud.
5 Freud comenta que até é possível que o número de fibras corticais aferentes seja próximo ao número de fibras que conectam a periferia à medula, mas parte das fibras que alcançam o córtex não parte da medula e, assim, de qualquer forma, não seria possível haver uma projeção topograficamente exata entre a periferia e o córtex.
6 Nessa parte, Freud menciona o segundo nível de redução da excitabilidade de um centro, mas, de acordo com as duas outras descrições desses níveis feitas por ele (Freud, 1891, p. 45 e p. 113), o caso do paciente de Grashey possui as características do primeiro nível: incapacidade de reagir voluntariamente, com preservação da capacidade de reagir em associação com outro centro e à estimulação sensorial direta. No segundo nível, o centro só reagiria a esta última.