O nascimento da metapsicologia: a obra inicial de Freud
Parte I - A desconstrução do localizacionismo: origens e pressupostos do conceito freudiano de representação
Parte I - A desconstrução do
localizacionismo: origens e
pressupostos do conceito freudiano
de representação
Capítulo 1 - A afasia e a linguagem
segundo
Wernicke e Lichtheim
Historicamente, segundo Clarke & Jacyna (1987), foram propostas três concepções principais de como o cérebro atua. De acordo com a primeira dessas concepções, o cérebro funcionaria como um todo, com todas as suas partes possuindo uma significação funcional igual, de modo que não seria possível nenhuma localização de funções específicas em regiões individualizadas. Esta posição foi defendida, entre outros, por Albrecht von Haller. Franz Joseph Gall (1758-1828) propôs uma outra hipótese, segundo a qual as subdivisões morfologicamente distintas do cérebro (hemisférios cerebrais, cerebelo, corpos quadrigêmeos, medula oblongata) seriam funcionalmente compostas, e as diversas funções aí situadas seriam relativamente independentes umas das outras. Essa segunda concepção do funcionamento cerebral pode ser chamada de “teoria da localização de funções cerebrais compostas”, como sugerem Clarke & Jacyna (1987). Pierre Jean Marie Flourens (1794-1867) formulou uma terceira concepção, de acordo com a qual cada uma das grandes subdivisões do cérebro seria funcionalmente unitária, ao invés de funcionalmente composta, como as considerava Gall. Essas funções, segundo ele, constituiriam a “ação específica” da subdivisão, e as várias ações específicas trabalhariam juntas para produzir uma “ação comum” do cérebro. Dessa forma, Flourens acaba por aceitar, ao 0m e ao cabo, a hipótese de que o cérebro funcione como um todo integrado. Como a crítica de Freud endereça-se, principalmente, às teoria de Wernicke (1848-1905) e de Lichtheim (1845-1915), que, de certa forma, podem ser consideradas como estando em continuidade com as concepções de Gall sobre o funcionamento cerebral e sobre a localização da linguagem, estas últimas serão brevemente descritas na continuidade, como ponto de partida para o comentário das teses localizacionistas.
Gall foi o primeiro neurologista a sugerir que a massa cerebral, aparentemente uniforme, seria constituída por vários órgãos independentes, que seriam a sede das faculdades morais e intelectuais do homem e executariam as funções das quais essas faculdades dependem. Ainda segundo Clarke & Jacyna (1987), a teoria de Gall possuía dois princípios básicos: o princípio da localização funcional composta e o da existência de faculdades psíquicas inatas. Gall dedicou-se mais a este último princípio, que afirmava que a mente possuiria 27 faculdades mentais independentes, localizadas em 27 órgãos distintos, desdobrados sobre a superfície do cérebro, e que a dimensão desses órgãos variaria proporcionalmente ao desenvolvimento da faculdade que ele abrigasse, o que tornaria possível, em princípio, que as características morais e intelectuais da alma fossem deduzidas a partir das medidas do crânio. Como um ou outro órgão cerebral poderia se desenvolver em diferentes graus em indivíduos da mesma espécie, as características da personalidade de uma pessoa poderiam ser inferidas a partir da forma e da configuração externa do crânio. Esses órgãos seriam funcionalmente independentes e, por isso, cada um deles – ou cada uma das partes de que se compõem – poderia ser atingido isoladamente pela doença.
De acordo com Head (1926), a doutrina de Gall está composta de duas partes, cujo valor é bastante distinto. Por um lado, ela introduziu um novo modo de abordar a estrutura e as funções do sistema nervoso, mas, por outro, formou a base do que foi chamado de “craniologia” – a dedução do caráter e das faculdades mentais a partir da forma e das medidas do crânio –, o que conduziu ao desprestígio de sua doutrina como uma espécie de charlatanismo. Apesar disso, diz Head, a craniologia adquiriu um significado importante para as teorias sobre a afasia, pois, por meio dela, Gall estabeleceu pela primeira vez uma localização cortical para a faculdade da linguagem, localização esta que, surpreendentemente, era muito próxima àquela que, mais tarde, Bouillaud e Broca chegaram por meio da aplicação do método clínico-patológico. Partindo da constatação de que as pessoas que têm olhos grandes e proeminentes possuem uma boa memória verbal, Gall concluíra que essa faculdade tinha sua sede na parte do cérebro que fica logo atrás das órbitas, ou seja, nos lobos frontais. Subseqüentemente, o estudo de casos, em que danos na região frontal estavam associados à perda da memória verbal, corroboraria, segundo ele, a sua hipótese. Para Gall, não obstante, a correlação entre lesões cerebrais e a perda de determinadas funções possuía apenas uma função secundária: essa associação serviria somente para confirmar as hipóteses formuladas por meio do método cranioscópico, que consistiria em correlacionar certas qualidades intelectuais e morais com as proeminências cranianas.
Segundo Young (1990), após Gall, a história da pesquisa das funções do cérebro passaria a envolver, entre outras coisas, a aceitação progressiva do método experimental em detrimento do método cranioscópico e o desenvolvimento do ponto de vista de que o sistema nervoso está organizado em termos sensório-motores. Essa mesma visão sensório-motora também foi aplicada aos fenômenos mentais pela psicologia da associação de orientação empirista, e, com isso, a hipótese das faculdades mentais inatas acabou sendo abandonada: essas faculdades foram reduzidas a agregados de unidades sensoriais e motoras elementares, adquiridas por meio da experiência e unidas mediante conexões de tipo mecânico ou, posteriormente, por meio de um processo concebido de modo análogo à síntese química. Mas, apesar desse distanciamento das teses de Gall, o princípio básico deste último sobre a localização das funções cerebrais compostas continuou sendo aceito por aqueles que recusavam a hipótese de que o cérebro atuaria como um todo indissociável (Head, 1926).
Em 1825, Jean Baptiste Bouillaud (1796-1881) publicou um artigo em que sustentava, com base em uma série de evidências clínicas, que a perda da fala corresponderia a uma lesão nos lobos frontais do cérebro, uma descoberta que, se confirmada, reabilitaria a visão de Gall sobre a localização do órgão cerebral da linguagem articulada. Bouillaud se opunha à visão de Flourens – predominante na ciência da época – de que o cérebro não exerceria influência direta sobre a fala e sustentava que os movimentos desta última seriam regulados por um centro cerebral independente, situado em algum lugar dos lobos frontais. Essas investigações envolveram uma mudança substancial em relação à ênfase metodológica presente no trabalho de Gall, pois as correlações estabelecidas por Bouillaud eram entre sintomas clínicos e lesões cerebrais, ou seja, o método cranioscópico de Gall estava sendo cada vez mais substituído pelo método correlativo clínico-patológico (Young, 1990). As hipóteses de Bouillaud foram severamente atacadas, pois eram facilmente associadas à frenologia de Gall, rejeitada pela maioria dos médicos e cientistas de sua época.
Por volta de 1861, alguns dos integrantes da geração posterior a Bouillaud – entre eles Broca – defenderam o princípio da localização cerebral de Gall associado ao método clínicopatológico utilizado por Bouillaud e, ao contrário deste último, conseguiram que suas idéias fossem aceitas nos meios médicos e científicos franceses e, posteriormente, europeus. Neste mesmo ano, Broca apresentou à Sociedade Anatômica de Paris o caso de um paciente afetado por uma afasia motora, cuja lesão, segundo suas conclusões, havia se iniciado em uma área circunscrita da terceira circunvolução frontal. A partir disso, Broca inferiu que nessa região se situava uma faculdade específica que coordenava os movimentos da linguagem. Ele sustentou a idéia de que o que se encontra prejudicado na afasia motora é apenas essa faculdade, apoiando, assim, a concepção de Bouillaud, segundo a qual esses movimentos seriam coordenados pelo cérebro. Contudo, Broca considerava que essa faculdade de coordenação dos movimentos era intelectual, o que o impediu de aceitar a hipótese de que a fala fosse uma função motora e não intelectual. Após as apresentações de Broca e de outras que pareciam confirmar suas constatações, o ponto de vista de que os diversos segmentos da superfície dos hemisférios seriam a sede de diferentes funções – ou seja, uma nova versão do princípio da localização das funções cerebrais compostas de Gall – voltou a predominar. Essas comunicações, que pareciam comprovar a localização da área motora da linguagem, tiveram uma grande repercussão no mundo médico de Paris, e, a partir de então, a localização das funções da fala se tornou uma questão central nas pesquisas neurológicas (Young, 1990).
Treze anos mais tarde, em 1874, Carl Wernicke, valendose do método clínico-patológico, estabeleceu a localização da área sensorial da linguagem na região temporal esquerda do cérebro, mas recusou a hipótese das faculdades psíquicas inatas de Gall, que ainda havia sido aceita por Broca. Ele sustentou que, nessa região, localizava-se o centro sensorial da linguagem, o qual consistiria num local de armazenamento das impressões sensoriais elementares resultantes da experiência perceptiva. Portanto, Wernicke aceitou o princípio básico de Gall da localização funcional composta, mas recusou tanto o seu método quanto a sua concepção das faculdades inatas.
A dedução da localização de funções mediante a associação entre lesões específicas e a perda de certas capacidades – ou seja, com a utilização do método clínico-patológico – fundamentavase em dois pressupostos básicos já presentes na teoria de Gall: em primeiro lugar, na hipótese de que cada região do cérebro fosse a sede de uma função diferente e, em segundo, na hipótese de que cada uma dessas funções fosse independente, ou seja, de que uma lesão circunscrita pudesse afetar apenas uma determinada função, deixando as demais intactas. Em suas críticas, Freud procurou mostrar que, além de se apoiar nesses dois pressupostos básicos, a teoria de Wernicke fundamentava-se também na hipótese de que os fenômenos neurológicos e psicológicos possuiriam as mesmas propriedades. Ele argumentou, então, que a teoria sobre o funcionamento normal e patológico da linguagem construída a partir de tais pressupostos era insuficiente para explicar as características dos fenômenos que pretendia abordar e, a partir dessa recusa, formulou uma nova concepção sobre a “área” e o “aparelho” de linguagem, apoiando-se em uma maneira própria de conceber a localização das funções cerebrais e a relação entre os fenômenos psíquicos e neurológicos. Desses esforços resultaram os contornos de uma nova concepção da natureza e do modo de funcionamento das representações. Por isso, toma-se como ponto de partida as teorias de Wernicke e Lichtheim, antes de passar para a desconstrução empreendida por Freud do esquema teórico em que estes fundamentaram suas conclusões.
Wernicke tornou-se uma figura dominante na teorização sobre as afasias desde a publicação de sua primeira monografia em 1874, na qual identificava e localizava a área sensorial da linguagem na porção posterior da primeira circunvolução temporal, local ainda hoje chamado de “área de Wernicke”. Em Sobre a concepção das afasias, Freud refere-se aos seguintes textos de Wernicke: “O complexo sintomático das afasias” (1874) e “Novos trabalhos sobre a afasia” (1885). No que se segue, algumas das idéias às quais se dirige a crítica de Freud, presentes nesses dois textos, serão expostas e comentadas, na medida em que isso contribuir para a compreensão do desenvolvimento da argumentação freudiana.
A teoria de Wernicke sobre as afasias consiste, como ele mesmo afirmou em sua monografia de 1874, em uma aplicação aos processos normais da linguagem e às afasias dos ensinamentos de Meynert sobre a anatomia e a fisiologia do cérebro em geral. Wernicke procura fundamentar anatomicamente os processos normais e patológicos da linguagem; embora rejeite as tentativas anteriores dos frenologistas de localizar funções psíquicas complexas, como o amor ou a generosidade, em regiões cerebrais específicas, ele mantém a idéia de que seria possível estabelecer a localização anatômica das funções psíquicas mais elementares. Uma percepção visual poderia, assim, estar relacionada com a terminação cerebral do nervo ótico, uma percepção acústica com a terminação do nervo acústico etc. Segundo sua teoria, apenas essas funções poderiam estar localizadas em regiões específicas, e todas as funções mais complexas resultariam da associação de diferentes regiões corticais. Para Meynert, o sistema nervoso funcionaria à maneira de um mecanismo reflexo, transmitindo a excitação da periferia aferente para a eferente. Neste processo, haveria uma etapa intermediária, que consistiria na passagem da excitação pelas obras associativas que conectam as diferentes partes do córtex entre si. Quando o córtex recebesse uma excitação simultânea de duas vias aferentes, seria estabelecida uma conexão entre ambas e, depois disso, o influxo de excitação seria conduzido para outra região. O córtex seria o órgão principal do cérebro, e todas as outras partes do mesmo seriam suas auxiliares. Seria constituído por duas áreas funcionalmente distintas: uma área motora, que estaria localizada na região frontal, contendo imagens de movimento, e uma área sensorial, que estaria localizada na região temporal, contendo imagens sensoriais. Essas duas regiões se conectariam por meio de “fibras associativas” – que seriam as fibras que ligam as diferentes regiões do córtex entre si – e estariam conectadas com a periferia do sistema nervoso por meio de “fibras projetivas” – que seriam as fibras que conduzem as informações sensoriais da periferia do sistema nervoso ao córtex e que conduzem as informações motoras no sentido inverso. Assim, todos os feixes de fibras do cérebro ou ingressariam ou se originariam no córtex (Amacher, 1965).
Freud comenta em sua monografia sobre as afasias que algumas passagens de Meynert sugerem que ele considerava haver uma projeção ponto a ponto da periferia do corpo no córtex, mas, não obstante, há outras afirmações que parecem contradizer esse ponto de vista. Mesmo assim, Freud trata a teoria desse autor como se ela de fato contivesse essa hipótese, o que se justifica, segundo ele, pelo fato de outros estudiosos que aceitaram os princípios gerais da doutrina de Meynert terem propagado esse conceito de uma projeção completa e topograficamente exata do corpo sobre o córtex. Os processos associativos corticais seriam os concomitantes físicos dos processos psíquicos, sendo que o concomitante físico de uma percepção atual e o de sua memória teriam a mesma localização cortical. Segundo Freud, para Meynert, a constituição das imagens mnêmicas no córtex consistiria em um processo de ocupação de células desocupadas: deste modo, deveria haver “lacunas funcionais” no córtex que possibilitariam a aprendizagem:
[…] sob a influência dos ensinamentos de Meynert, tem-se
desenvolvido a teoria de que o aparelho de linguagem é
formado por centros corticais distintos; supõe-se que suas
células contenham as imagens de palavras (representações de
palavras ou impressões de palavras); diz-se que este território
está separado por uma área carente de função e que os centros
estão ligados reciprocamente pelos feixes associativos (Freud,
1891, p. 69).
O propósito de Wernicke é aplicar essa teoria geral de Meynert à linguagem. Segundo ele, a área da linguagem seria constituída por um centro sensorial, um centro motor e uma região associativa que conectaria ambos os centros entre si. Em sua monografia de 1874, ele propõe que:
A região inteira da primeira circunvolução primordial, o giro ao
redor da fissura de Silvius em associação com o córtex da
insula, funciona como um centro da linguagem. O primeiro giro
frontal (Leuret), que é motor na função, atua como um centro
motor das imagens de movimento; o primeiro giro temporal, que
é de natureza sensorial, pode ser considerado como o centro
das imagens acústicas… Portanto, o primeiro giro temporal
pode ser considerado como o centro terminal do nervo acústico,
e o primeiro giro frontal (Leuret), incluindo a área de Broca,
como o centro terminal dos nervos que controlam a musculatura
da linguagem (Wernicke, 1874, p. 103).
O esquema a seguir é, então, proposto para representar a área da linguagem:
O: Área occipital.
F: Área frontal.
T: Área temporal.
S: Fissura de Sílvio.
a: Terminação central do nervo acústico.
b: Área das impressões cinestésicas para a linguagem articulada.
a : Entrada do nervo acústico no bulbo. 1
b : Via centrífuga da linguagem. 1
Figura 1 Área da linguagem.
Para Wernicke, as imagens mnêmicas consistiriam em modificações permanentes do sistema nervoso central, resultantes da estimulação sensorial e dos movimentos realizados. Essas modificações permanentes consistiriam na diminuição da resistência nas vias neurais que conduzem os estímulos, em decorrência da repetição da mesma combinação de estímulos sensoriais, idéia que se assemelha, em certos aspectos, à noção de facilitação (Bahnung) formulada por Freud no “Projeto”. As imagens mnêmicas estariam armazenadas nos centros corticais, e a associação entre essas imagens seria realizada por meio das fibras associativas subcorticais. Assim como para Meynert, a constituição das imagens mnêmicas consistiria em um processo de ocupação de células corticais desocupadas, o que transparece claramente na seguinte afirmação de Wernicke: “Meynert estima que o córtex contém 600 milhões de células. Estas fornecem uma abundância de áreas de armazenamento para as incontáveis impressões sensoriais” (Wernicke, 1874, p. 93).
Freud (1891) comenta que Wernicke considerava cada uma das imagens mnêmicas individuais como estando contida em uma célula singular. Segundo Eggert (1977), Wernicke não atribuiu cada traço de memória individual a uma célula singular, mas sim a circuitos celulares e suas fibras associativas. Eggert cita uma passagem de Wernicke de um texto posterior, “Fundamentos de psiquiatria” (1900), que demonstraria isto.
Por meio de uma organização muito singular dessas células
estimuladas, uma imagem, que poderia ser projetada num
espaço específico, surge… Eu concordo com Sachs e
Goldscheider que a memória representa uma conexão funcional
dos elementos percebidos simultaneamente ligados pelos
caminhos associativos (Wernicke, 1900 apud Eggert, 1977, p.
26).
Não é possível dizer, apenas por esta passagem, que a afirmação de Freud sobre Wernicke é incorreta, uma vez que o texto de Freud foi escrito nove anos antes da passagem citada por Eggert, embora, nas duas monografias a que Freud de fato se refere, não haja nada que confirme sua afirmação de que, para Wernicke, as imagens mnêmicas individuais estariam armazenadas em células singulares.
A constituição das imagens acústicas e motoras nos centros de linguagem seria uma conseqüência do mecanismo reflexo, que caracterizaria o estágio inicial do desenvolvimento da linguagem. A imagem acústica da palavra ou da sílaba seria transmitida, durante o processo reflexo, para a área sensorial do cérebro, e a inervação do movimento produzido seria transmitida como imagem motora para a área frontal. No estágio inicial da aquisição da linguagem, a criança apenas repetiria as palavras ouvidas, por meio da associação da imagem acústica com a imagem motora da palavra. Essa associação, segundo Wernicke, constituiria o “conceito de palavra”: após sua constituição, o conceito de palavra seria associado ao “conceito de objeto”, adquirindo, assim, um significado. O conceito de objeto corresponderia a uma unidade funcional formada pela associação das diferentes impressões sensoriais decorrentes da percepção dos objetos (Wernicke, 1885). Para as imagens acústicas e motoras da palavra, como visto, Wernicke estabeleceu uma localização exata, mas não para o conceito de objeto: este estaria disperso por diferentes regiões corticais. A associação entre o conceito de palavra e o conceito de objeto seria levada a cabo pelas chamadas vias de condução transcorticais da linguagem. A partir dessa associação, o estímulo para a linguagem poderia partir dos conceitos de objeto, ou seja, desse momento em diante poderia surgir a linguagem espontânea. Inicialmente, o estímulo seguiria do centro dos conceitos (postulado
por Wernicke em 1885) 1 para o centro sensorial e, deste, para o centro motor; depois passaria a estimular diretamente o centro motor. Em “Sobre a concepção das afasias”, Freud dá a seguinte descrição da concepção de Wernicke sobre o processo fisiológico da fala:
[…] segundo seu ponto de vista, os sons da linguagem eram
levados pela via do nervo acústico a uma região situada no
centro sensorial da linguagem, de onde os estímulos eram
transmitidos à área de Broca, o centro motor da linguagem, que
enviava à periferia o impulso para a linguagem articulada
(Freud, 1891, p. 19).
Em sua monografia de 1874, Wernicke, de fato, concebe o mecanismo fisiológico da fala da forma descrita por Freud, mas, em sua monografia de 1885, aperfeiçoa essa idéia e, então, a produção da fala espontânea passa a ser concebida como envolvendo um processo mais complexo.
Na compreensão de palavras ouvidas, o conceito de palavra seria primeiro excitado e, então, excitaria o conceito de objeto e, na fala espontânea, ocorreria o inverso. Como a linguagem falada seria adquirida por meio da repetição das palavras, a imagem acústica da palavra continuaria sendo necessária para a escolha adequada de palavras na fala espontânea. Wernicke afirma que, por meio da via a-b, as imagens acústicas exerceriam esta função corretora e que essa via, mesmo sem ser simultaneamente inervada, continuaria exercendo esse papel de auxiliar na linguagem falada espontânea, mas não explica como tal intervenção seria possível. Segundo ele, a presença de parafasia acompanhando a afasia sensorial seria decorrente da ausência desse monitoramento inconsciente exercido pela via a-b.
Os transtornos afásicos eram considerados, por Wernicke, como meras decomposições da função da linguagem. Em 1874, ele propôs a existência de três tipos de afasias que poderiam resultar de lesões na área da linguagem: a “afasia sensorial”, que resultaria de lesões no centro sensorial; a “afasia motora”, que resultaria de lesões no centro motor; e a “afasia de condução”, que resultaria de lesões nas fibras associativas que conectam os dois centros. Mais tarde, Wernicke (1885) ampliou o seu modelo para as afasias, passando a levar em consideração os funcionamentos subcortical e transcortical da linguagem. Essa modificação foi influenciada por algumas hipóteses formuladas por Lichtheim no período entre 1884
e 1885. 2 Lichtheim acrescentou ao esquema das afasias que Wernicke propusera em 1874 um “centro dos conceitos”, ou seja, expandiu tanto a camada superior do esquema quanto a camada inferior na sua descrição de afasia de condução periférica e de surdez periférica para a linguagem, posteriormente chamadas por Wernicke de “afasia motora subcortical” e “afasia sensorial subcortical”. O esquema proposto por Lichtheim é o seguinte:
A nomenclatura entre parêntesis é a proposta por Wernicke em
substituição à de Lichtheim:
A: Centro acústico.
B: Centro dos conceitos. M: Centro motor.
1: Afasia nuclear (afasia motora cortical).
2: Surdez para a fala nuclear (afasia sensorial cortical).
3: Parafasia de condução (afasia de condução).
4: Afasia de condução central (afasia motora transcortical).
5: Afasia de condução periférica (afasia motora subcortical).
6: Surdez para a fala de condução central (afasia sensorial
transcortical).
7: Surdez para a fala de condução periférica (afasia sensorial
subcortical).
Figura 2 Esquema das afasias proposto por Lichtheim.
Wernicke adota a proposta de Lichtheim e acrescenta ao esquema que havia proposto as vias subcorticais e transcorticais envolvidas na linguagem. Ele introduz, então, em sua monografia de 1885, quatro outros tipos de afasias: as afasias sensorial e motora subcorticais e as afasias sensorial e motora transcorticais. Somente para o centro sensorial, para o centro motor e para a região associativa situada entre esses centros, Wernicke continua estabelecendo uma localização anatômica precisa.
A “afasia sensorial cortical” seria caracterizada por um prejuízo da compreensão da linguagem falada, pela incapacidade de repetir e pela presença de parafasia na linguagem espontânea. A diferença entre a “afasia sensorial subcortical” e a anterior consistiria apenas na ausência de parafasia. A “afasia sensorial transcortical” também apresentaria prejuízo na compreensão da linguagem falada e parafasia na linguagem espontânea, mas a capacidade de repetir palavras não se encontraria prejudicada.
Na “afasia motora cortical”, a compreensão da linguagem permaneceria intacta, mas o paciente apresentaria um vocabulário limitado e uma incapacidade de falar espontaneamente, assim como de repetir palavras. A diferença entre a “afasia motora subcortical” e a anterior consistiria na integridade do conceito de palavra. Na “afasia motora transcortical”, a linguagem espontânea estaria impedida, mas a capacidade de repetir palavras permaneceria intacta, assim como a compreensão da linguagem falada. A “afasia de condução” apresentaria como sintoma apenas parafasia, e a linguagem articulada, assim como a compreensão das palavras, não seria prejudicada. No caso do centro dos conceitos, segundo Wernicke, se apenas uma esfera sensorial fosse prejudicada, ocorreria uma agnosia; se várias delas fossem prejudicadas, ocorreria a demência.
Os tipos de afasias postulados por Lichtheim foram deduzidos de seu esquema da área da linguagem. Wernicke, em sua monografia de 1885, afirma que as novas formas de afasia por ele propostas, ao contrário das anteriores (afasia sensorial, motora e de condução), ainda não teriam sido constatadas empiricamente.
* * *
Meynert e Wernicke consideravam que os fenômenos psíquicos eram os correlatos dos fenômenos neurológicos, embora, na maior parte das vezes, falassem desses dois tipos de fenômenos como se fossem idênticos. Por exemplo, quando Wernicke afirma que o conceito de palavra é constituído pelas imagens acústicas e motoras “localizadas nos centros de linguagem”, ele parece considerar que as modificações nas células dos centros são as imagens que compõem a palavra, e não apenas seus correlatos fisiológicos. Sendo assim, a representação simples, tanto para Meynert quanto para Wernicke – se consideramos somente o modo como Freud expõe a teoria desses autores –, seria a correlata de um engrama contido em uma célula singular de um centro cortical, e esse engrama, por sua vez, seria uma cópia dos estímulos que incidissem sobre a periferia do sistema nervoso, uma vez que os mesmos seriam projetados no córtex sem experimentar nenhuma alteração ao longo desse percurso. Os correlatos físicos das representações complexas resultariam de associações mecânicas entre os correlatos das representações simples, e essa associação seria determinada, antes de tudo, pela simultaneidade da incidência dos estímulos sobre o sistema nervoso. Desse modo, seria atribuído ao sistema nervoso um funcionamento totalmente passivo, pois tanto a constituição dos correlatos das representações simples quanto dos correlatos das representações complexas seriam inteiramente determinados por fatores externos.
Forrester (1983) considera que a concepção sobre o funcionamento do sistema nervoso que fundamentava a teoria localizacionista das afasias se apoiava na psicologia associacionista. Outros autores também apontaram essa relação entre o localizacionismo e o associacionismo. Amacher (1965) sugere que é pertinente comparar a visão de James Mill sobre os processos fundamentais da mente com a visão de Meynert e que, embora Meynert não tenha fundamentado explicitamente sua psicologia em James Mill, ele pode ter derivado suas suposições psicológicas de autores germânicos que incorporaram algumas das concepções da tradição britânica em seus trabalhos.
Para James Mill, assim como para Meynert, a mente receberia e associaria os estímulos que chegam aos órgãos sensoriais, e essa associação aconteceria de acordo com a contigüidade da recepção desses estímulos, ou seja, sem uma intervenção ativa do funcionamento mental. Os objetos externos enviariam impressões sensoriais ao organismo, e estas se agrupariam em nossa mente em virtude da contigüidade de sua formação. As representações complexas consistiriam em agregados de representações simples, que resultariam de conexões mecânicas, e, portanto, todas as propriedades das primeiras estariam já presentes nas últimas, isto é, as propriedades da representação complexa consistiriam na soma das propriedades dos elementos simples que a compõem (Simanke, 2006). Nossas percepções seriam, então, cópias das sensações, e as rememorações, tão-somente reativações menos intensas dessas percepções. Segundo Amacher (1965), Meynert teria procurado descrever os concomitantes nervosos para os processos mentais que os psicólogos associacionistas haviam descrito.
A crítica freudiana vai se opor a praticamente cada um dos tópicos dessa teoria neurológica e psicológica. Passa-se, portanto, à análise dessa verdadeira desconstrução empreendida por Freud do esquema das afasias de Wernicke e Lichtheim, no contexto da qual irão tomar forma suas hipóteses sobre a área e o aparelho da linguagem.
1 O centro dos conceitos foi postulado primeiro por Lichtheim e, depois, adotado por Wernicke. Este discordou de Lichtheim quanto ao caminho da estimulação que segue do centro dos conceitos para o centro motor da palavra, ou seja, quanto ao caminho em que ocorre a fala espontânea. Lichtheim considerava que ela ocorria apenas a partir de um caminho (B-b da 0gura 2), e Wernicke, a partir de dois (B-a-b, inicialmente, e, mais tarde, B-b). Esse centro corresponderia ao conjunto dos conceitos de objetos e, portanto, não possuiria uma localização anatômica exata. Segundo Eggert (1977), ambos, Wernicke e Lichtheim, enfatizaram que a localização desse centro não é possível e que os processos superiores, na verdade, envolvem o córtex como um todo.
2 Greenberg (1997) comenta que Ludwig Lichtheim (1845-1915) era um seguidor e um expositor influente da visão de Wernicke, mas era uma figura menos importante, cujos diagramas esquemáticos da função da linguagem no cérebro foram apontados como incorretos por vários pesquisadores.