O nascimento da metapsicologia: a obra inicial de Freud

Capítulo 8 - Representação e consciência no “Projeto”

Capítulo 8 - Representação e

consciência no “Projeto”

 

Em Sobre a concepção das afasias, Freud havia sustentado que os processos psíquicos seriam concomitantes a uma parte dos processos que ocorrem no sistema nervoso e que esses dois tipos de processos deveriam ser tratados de maneira independente. Nessa concepção não havia lugar para o conceito de representação inconsciente, o qual, no entanto, revelou-se imprescindível para a explicação do mecanismo de produção das neuroses. De acordo com a doutrina da concomitância, que Freud emprestou a Jackson, o psíquico seria restringido ao consciente, e, portanto, falar de representações inconscientes seria um contra-senso, a não ser num sentido figurado. Talvez esse seja um dos principais motivos que levaram Freud a modificar essa concepção sobre a relação entre o psíquico e o consciente no “Projeto”. Nesse texto, a noção de psíquico é expandida e ultrapassa a de consciência, e o paralelismo – se é que se pode assim denominálo – passa a definir a relação entre parte dos processos psíquicos inconscientes, que seriam processos nervosos, e os processos conscientes, cuja natureza não é, contudo, especificada. Com isso, a noção de representação inconsciente pode ser incorporada à teoria. A afirmação de Freud de que a consciência estaria “além dos desempenhos científico-naturalistas”, ao contrário dos processos psíquicos inconscientes, parece sugerir a atribuição de uma natureza aos fenômenos conscientes distinta daquela atribuída aos processos psíquicos inconscientes, mas isso não chega a ser claramente afirmado.

Apesar de a consciência estar fora do domínio da ciência natural, Freud tenta caracterizar os processos físicos que seriam concomitantes a ela. Haveria um grupo independente de neurônios – o sistema ω – que seria responsável pela produção das qualidades sensoriais, as quais estariam relacionadas com as características temporais da quantidade. O sistema ω forneceria signos de qualidade à ψ e da ocupação de tais signos pelo eu decorreria a consciência de uma representação. Essa hipótese do signo de qualidade, apesar de apresentar uma série de dificuldades, como foi comentado anteriormente, permite especificar em parte a relação entre a consciência e a representação: das representações que se constituíssem em ψ, apenas aquelas cujos signos de qualidade fossem focalizados pela atenção se riam conscientes. Dessa forma, apenas uma pequena parte das nossas representações seria passível de consciência, e a inconsciência passaria a ser o estado predominante e, em todo caso, a condição originária das representações.

Com a modificação da doutrina da concomitância e a identificação de parte dos processos psíquicos a processos nervosos, a psicologia ficaria cindida entre uma neuropsicologia, que trataria dos processos psíquicos inconscientes, e uma outra estratégia de abordagem, que deveria dar conta dos processos mentais conscientes. Assim, a separação epistemológica entre a neurologia e a psicologia, enfatizada como necessária por Freud no texto sobre as afasias, daria lugar a uma separação interna à psicologia, entre uma psicologia do inconsciente e uma psicologia da consciência. A metapsicologia deveria consistir, então, numa psicologia especulativa do inconsciente, isto é, numa neuropsicologia especulativa, nos termos especificados.

Em Sobre a concepção das afasias, Freud havia afirmado que os correlatos da representação consistiriam em processos associativos corticais, mas as características desses processos não haviam sido explicitadas. As noções de neurônio, barreira de contato e de facilitação introduzidas no “Projeto” destinaram-se a esclarecer em que consistiria a associação e quais elementos estariam envolvidos no processo associativo. A associação ocorreria pela circulação de quantidade entre os neurônios e dependeria da facilitação das barreiras de contato situadas entre eles. Quando uma barreira fosse facilitada, dois neurônios ficariam associados e teria início, então, o processo que levaria ao surgimento de uma representação. Esta consistiria, portanto, num grupo de neurônios ocupados, cujas barreiras de contato estivessem facilitadas. Mas seria necessária a facilitação entre pelo menos dois neurônios para que uma representação se constituísse, ou a ocupação de um neurônio isolado poderia corresponder já a uma representação? No texto sobre as afasias, Freud afirmara que os correlatos das representações só surgiriam com a associação. Considerando que, no “Projeto”, Freud identifica a representação ao seu correlato, pode-se inferir que só com a facilitação surgiria uma representação. Em uma passagem do “Projeto” Freud deixa isto claro: “[...] é o momento de recordarmos que as ocupações de percepções não são nunca ocupações de neurônios isolados, mas sempre de complexos” (Freud, 1895/1950, p. 41). A representação, então, consistiria, como dito, em um circuito de neurônios ocupados e, na ausência de ocupação, a representação continuaria existindo como possibilidade de repetição de processos, visto que as facilitações permaneceriam e possibilitariam seu ressurgimento. Uma vez que a representação passe a ser concebida como um processo cortical, e não mais como o concomitante de um processo cortical, a distinção entre representações simples e complexas, mantida ainda no texto sobre as afasias para o nível psicológico, tende a desaparecer. Neste último texto, uma imagem acústica, por exemplo, seria uma representação mental simples, concomitante a um processo associativo cortical. No “Projeto”, essa imagem passa a ser o próprio processo associativo e, assim, não seria mais possível diferenciar taxativamente entre representações simples e complexas. A representação consistiria sempre num processo dinâmico e complexo.

Em Sobre a concepção das afasias, Freud havia sustentado que os estímulos periféricos seriam submetidos a vários níveis de reorganização ao longo de sua condução da medula ao córtex, onde eles dariam origem a processos associativos – sendo, portanto, mais uma vez reorganizados –, os quais seriam os correlatos das representações. Desse modo, as representações seriam construções do sistema nervoso; elas possuiriam uma relação muito indireta com os estímulos periféricos. A hipótese sustentada no “Projeto” de que os órgãos sensoriais funcionariam como filtros para os estímulos externos, permitindo a passagem apenas de estímulos com períodos específicos, torna o acesso ao mundo externo ainda mais indireto: além do sistema nervoso dar novos arranjos aos estímulos externos, fazendo com que estes representem o mundo externo muito indiretamente, apenas parte de tais estímulos lhe seria acessível.

De acordo com a teoria exposta no “Projeto”, haveria duas formas de consciência: uma consciência imediata, que decorreria unicamente das propriedades da percepção, e uma consciência mediata, que seria intermediada pelos signos lingüísticos. Enquanto houvesse apenas representações de objeto em ψ, não seria possível a rememoração consciente de uma representação, a não ser que esta consistisse em imagens de movimento. Portanto, em princípio, todas as representações de objeto seriam inconscientes e, posteriormente, com o estabelecimento das associações da linguagem, parte delas poderia se tornar consciente. A possibilidade de rememoração da representação decorreria de sua associação com a representação de palavra. A imagem cinestésica da palavra, como toda imagem de movimento, produziria uma percepção e, portanto, despertaria signos de qualidade, tornando possível a rememoração das representações de objeto a ela associadas. Por isso, com a constituição das associações lingüísticas, surgiria um segundo tipo de consciência, intermediada pelas representações de palavra.

Haveria três tipos de representações inconscientes: aquelas associadas a representações de palavra, mas cujos signos de qualidade não fossem ocupados pelo eu ou não fossem despertados; aquelas que nunca estiveram associadas a representações de palavra; e aquelas cuja associação com a palavra estivesse impedida. No primeiro caso, embora inconscientes, as representações seriam “suscetíveis de consciência”, utilizando os termos de Breuer (Breuer & Freud, 1895). No segundo e no terceiro caso, elas seriam “insuscetíveis de consciência”. O último seria o caso das representações reprimidas responsáveis pela produção dos sintomas das neuroses. A representação inconsciente que estaria na origem dos sintomas neuróticos seria uma representação de objeto cuja associação com a representação de palavra estivesse inviabilizada, para impedir sua rememoração e a conseqüente produção de desprazer dela resultante. Como disse Freud em O inconsciente: “A representação não apreendida em palavras [...] fica para trás, no interior do inconsciente, como algo reprimido” (Freud, 1915, p. 198). Dessa forma, já no “Projeto”, o inconsciente não coincide com o reprimido. As representações reprimidas, isto é, as que tivessem sua associação com a representação de palavra impedida, constituiriam apenas uma parte da totalidade das representações insuscetíveis de consciência, pois aquelas que não chegaram a ser associadas a representações de palavra também não poderiam se tornar conscientes. Haveria, assim, um grupo de representações que permaneceria insuscetível de consciência, em razão do fato de nunca ter sido associado a representações de palavra, e um outro grupo cujo acesso à palavra existiu um dia, mas que se encontra atualmente impedido.