O nascimento da metapsicologia: a obra inicial de Freud
Capítulo 4 - Metapsicologia da representação
Capítulo 4 - Metapsicologia da
representação
Em primeiro lugar, uma vez que Freud propôs que o simples do ponto de vista psíquico corresponderia a um complexo do ponto de vista neurológico, uma imagem – uma representação simples – deve corresponder a um processo associativo, e uma representação complexa, como à de palavra, deve corresponder, portanto, a uma rede de processos associativos. Desse modo, não é possível, nos correlatos da representação, distinguir algo simples: estes só existem enquanto complexos, pois só com a associação surge o correlato de uma representação. Mas, do lado psicológico, podem haver representações simples, assim como representações complexas, que resultam da associação das primeiras. Freud usa para se referir aos elementos constituintes da representação de palavra tanto o termo Bild (imagem) como Vorstellung (representação); este último termo, no entanto, é sempre usado para se referir aos complexos associativos que formam a representação de palavra (Wortvorstellung) e à de objeto (Objektvorstellung). Mas, para se referir à imagem de movimento da fala, por exemplo, Freud utiliza tanto Sprachbewegungsvorstellung quanto Sprachbewegungsbild.
Dessa forma, enquanto do ponto de vista fisiológico a associação é o processo constituinte dos correlatos das representações, do ponto de vista psicológico a associação continua sendo um processo que ocorre entre as representações simples para a constituição das representações complexas, ou seja, nesse sentido, a associação continua sendo concebida de uma forma próxima como o era pela psicologia associacionista.
O conceito de associação proposto por Freud não deixa de apresentar algumas dificuldades. Por um lado, Freud recusa a idéia de Meynert, segundo a qual a aprendizagem consistiria num processo puramente cumulativo, numa mera soma de elementos simples, o que se evidencia no modo como descreve a perda da linguagem no sujeito afásico e no modo como propõe que: 1) a aprendizagem consista num processo de sobreassociação; 2) as representações se sobreponham umas às outras; e 3) isto explique como ocorre a desorganização na fala nos afásicos – uma desorganização de acordo com princípios funcionais e não de acordo com determinantes puramente anatômicos.
A idéia de sobreassociação parece se opor a uma concepção mecanicista de associação como à de James Mill e parece se aproximar mais da “química mental” de Stuart Mill, segundo a qual a associação reorganiza os elementos associados, fazendo com que o resultado não consista na mera soma dos elementos quando tomados isoladamente, além de fazer com que novas propriedades apareçam no complexo assim formado. Mas, por outro lado, a possibilidade afirmada por Freud de se retornar às representações primariamente estabelecidas a partir das mais recentes, percorrendo a cadeia associativa no sentido contrário ao de sua constituição, parece tornar problemática essa concepção da associação como uma química mental, pois se é possível retornar às representações anteriormente formadas parece ser necessário que elas conservem sua identidade, que não tenham suas propriedades modificadas ao longo do processo de sobreassociação. No entanto, apesar dessas dificuldades, talvez não seja impossível conciliar esses pontos de vista: o fato de propriedades novas surgirem apenas em função do modo próprio de organização dos fenômenos complexos não inviabilizaria o retorno aos elementos constituintes como “método” para a elucidação desses processos. Em outras palavras, se se trata, de fato, na perspectiva freudiana, de uma “química mental ” ao estilo de Stuart Mill, isso não configuraria um obstáculo absoluto à proposição da “análise” como opção metodológica, lembrando que já se apontou como Freud formula a idéia mesma de uma “psicanálise” como uma referência, por alusiva e metafórica que seja, aos procedimentos da química analítica.
Uma segunda característica da representação é o fato de ela consistir, pelo menos em parte, em uma construção mental e não apenas em uma cópia das sensações. A informação sensorial é, segundo a concepção freudiana, sucessivamente reorganizada ao longo de seu percurso da medula ao córtex e, aí, como visto, ela experimenta um último processo de reorganização; portanto, os correlatos das nossas representações seriam construções do sistema nervoso, rearranjos da informação recebida do mundo externo, constituídos de acordo com os princípios funcionais desse sistema. Desse modo, pode-se dizer que nossas representações seriam constituídas por um funcionamento inato a partir de conteúdos adquiridos. Quanto a esse ponto, Freud claramente se distancia dos autores associacionistas mencionados anteriormente, pois, para eles, nenhum fator subjetivo interferiria na construção de nossas representações; a mente seria mera receptora passiva das impressões sensoriais. Uma vez que, para Freud, o que se torna consciente é o correlato de um processo que representa o último estágio de reorganização da informação sensorial, nossas representações corresponderiam ao ápice de um processo cujos estágios anteriores nos são totalmente inacessíveis: não teríamos conhecimento das etapas da construção das nossas representações, nem de suas determinações, o que implicaria reconhecer que o acesso aos estímulos provenientes do mundo externo só ocorre de forma muito indireta, por meio de uma série complexa de mediações.
As representações de palavra seriam sobreassociadas umas às outras, de forma que vários níveis de processos associativos correspondentes aos diferentes estágios do desenvolvimento do sujeito pudessem coexistir. Nesse processo de sobreassociação, as representações mais antigas transfeririam seu significado às mais recentes, formando, assim, séries associativas de mesma significação. Como a representação de palavra, ao menos no caso dos substantivos, adquiriria seu significado por meio de sua associação com a representação de objeto, haveria várias cadeias de representações de palavra que, em última instância, denotariam os mesmos objetos, e como estes adquirem significado, conforme o que Freud propõe no “Projeto de uma psicologia” (1895), a partir de sua associação com nossas sensações corporais (Gabbi Jr., 2003), haveria várias cadeias de representações de palavra que, em última instância, denotariam a mesma sensação corporal.
Assim, para se conhecer o significado originário de uma palavra, seria necessário percorrer essa cadeia no sentido inverso ao de sua constituição, pois só assim seria possível chegar à representação inicial da sensação corporal, isto é, ao ponto de origem do significado da palavra. Muito embora Freud, nesse texto sobre as afasias, não tenha se estendido sobre como a representação de objeto adquire significado, no “Projeto de uma psicologia” ele desenvolve a teoria de que, para se compreender uma representação perceptiva, é necessário rastreá-la até uma sensação corporal. Freud propõe que, inicialmente, o processo de juízo ou de reconhecimento dos objetos consista numa tentativa de rastrear as
percepções até ocupações7 oriundas do próprio corpo, ou seja, consista num esforço para encontrar um caminho que leve das representações de objeto, formadas na parte do sistema de memória que recebe as ocupações perceptivas (ψ do manto), até as representações de vivências corporais, que se constituem na parte do sistema de memória que está em contato direto com o interior do organismo (ψ do núcleo). Citando Freud (1895/1950, p. 47):
O julgar, mais tarde um meio para reconhecer o objeto que
talvez tenha importância prática, é, assim, originariamente um
processo associativo entre ocupações vindas do exterior e
ocupações provindas do próprio corpo, uma identificação entre
notícias ou ocupações de φ e de dentro.
Por que o reconhecimento de um objeto dependeria de sua associação com uma experiência corporal? Uma vez que é a necessidade de se livrar do desprazer – ou seja, de fazer cessar o fluxo de excitação proveniente do interior do corpo que incide sobre o sistema ψ do núcleo – que leva o sujeito a atentar para as ocupações perceptivas, todos os objetos seriam inicialmente separados em dois grupos: os “objetos de desejo”, que são associados com a supressão do desprazer, e os “objetos hostis”, que são associados com o aumento do desprazer. Portanto, originariamente, seriam as sensações corporais de prazer e desprazer que atribuiriam significado aos objetos, porque seria a necessidade de se livrar do desprazer que levaria o sujeito a atentar para as percepções.
Seria possível supor, então, que a representação de objeto adquire significado por meio de sua associação com sensações corporais de prazer e desprazer, e a representação de palavra, mediante sua associação com a representação de objeto. Em última instância, portanto, as palavras seriam referidas sempre a sensações corporais. Em uma passagem dos Estudos sobre a histeria (Freud, 1895), Freud parece referir-se a essa relação, ao discutir o papel da linguagem na sintomatologia histérica:
Todas essas sensações e inervações pertencem à expressão
das emoções, que, como nos ensinou Darwin (1872), consistem
em operações em sua origem significativas e apropriadas; em
geral elas se encontram hoje debilitadas a tal ponto que sua
expressão lingüística nos parece uma transcrição figurativa,
contudo, muito provavelmente, uma vez tudo foi dito
literalmente e a histeria acerta quando restabelece para suas
inervações mais intensas o sentido originário da palavra (Freud,
1895, p. 193).
Um último aspecto da representação a ser considerado é sua relação com a consciência. Freud ainda considera, em Sobre a concepção das afasias, que o psíquico se restringe ao consciente e, conseqüentemente, que toda representação é, por sua própria natureza, acessível à consciência. Os correlatos das representações seriam processos associativos que deixariam atrás de si modificações, as quais, por sua vez, possibilitariam a rememoração. Porém, só quando o mesmo processo tornasse a ocorrer, a representação emergiria novamente. Dessa forma, as referidas modificações corticais seriam condições necessárias para a representação, mas não suficientes. Falando nos termos do “Projeto”, a representação emergiria somente quando houvesse uma quantidade percorrendo o caminho facilitado, e, assim, quando o processo cessasse, a representação deixaria de existir enquanto tal, embora continuasse existindo como possibilidade. Ao falar sobre os processos associativos correlatos das representações, Freud afirma:
Esse processo não é incompatível com a localização. Começa
em um ponto específico do córtex e a partir daí se difunde por
todo o córtex e ao longo de certas vias. Quando este fato tem
lugar, deixa atrás de si uma modificação, com a possibilidade
de uma recordação na parte do córtex afetada. É muito
duvidoso que esse fenômeno fisiológico esteja de algum modo
associado com algo psíquico. Nossa consciência não contém
nada que possa justificar, do ponto de vista psicológico, o termo
“imagem latente de recordação”. No entanto, cada vez que o
mesmo processo cortical volta a ser suscitado, o fenômeno
psíquico anterior emerge novamente como recordação (Freud,
1891, p. 71).
Portanto, nesse texto, o psíquico continua sendo identificado à consciência, e só é possível falar de “inconsciente” para designar uma ausência de consciência que implicaria também, rigorosamente falando, a ausência de fenômenos propriamente psíquicos. Assim, de acordo com as concepções aqui apresentadas, a expressão “representação inconsciente”, se não considerada uma expressão figurada ou um modo de se expressar pouco rigoroso, seria autocontraditória, pois a representação estaria, por definição, inteiramente incluída no domínio dos processos conscientes.
Quais desenvolvimentos teóricos vão permitir a Freud falar de “representações inconscientes”, ou seja, vão permitir a dissociação entre “representação” e “consciência” que distingue a psicanálise? Nos textos sobre as neuroses, publicados no período entre a monografia sobre as afasias (1891) e a redação do “Projeto” (1895), o termo “subconsciente”, assim como “inconsciente”, é empregado em algumas ocasiões para caracterizar certos aspectos do mecanismo psíquico das neuroses, mas Freud não chega a atribuir uma natureza decididamente psíquica às representações e às associações inconscientes de que fala, o que, como será constatado, ocorre de forma explícita, somente no “Projeto”. A esses desenvolvimentos posteriores está dedicada a segunda parte deste trabalho.
7 Utiliza-se aqui “ocupação” para traduzir a Besetzung freudiana, usualmente vertida como “investimento”, por esta opção funcionar melhor nestes textos que utilizam um vocabulário ainda muito próximo ao da neurologia.