O nascimento da metapsicologia: a obra inicial de Freud
Parte II - Da teoria das neuroses ao “Projeto de uma Psicologia” (1891-1895)
Parte II - Da teoria das neuroses ao
“Projeto de uma Psicologia” (1891-
1895)
Capítulo 5 - O conceito de
representação nos textos freudianos
sobre a histeria do período 1891-1895
No texto “Algumas considerações com vistas a um estudo comparativo entre as paralisias motoras orgânicas e histéricas” (1893), embora Freud ainda sustente a idéia de que os processos psíquicos sejam paralelos aos neurológicos, ele não mais iden tifica tão claramente o psíquico ao consciente, pois introduz, para explicar as paralisias histéricas, a noção de processos psíquicos
“subconscientes”. 1 Nesse trabalho, Freud afirma que as características distintivas das paralisias histéricas com relação às orgânicas se devem ao fato de que, enquanto estas últimas são determinadas pela anatomia do sistema nervoso – isto é, pela extensão e localização de uma lesão orgânica –, as primeiras são totalmente independentes dos fatores anatômicos, pois não decorrem de lesões orgânicas, mas de lesões puramente funcionais, entendendo por isso a alteração de propriedades funcionais do sistema nervoso independentemente de danos materiais e, por tanto, independentemente da estrutura desse sistema. Do lado psíquico, essa alteração funcional se manifestaria como a exclusão de uma representação das associações conscientes, o que leva Freud a dizer que a paralisia histérica resulta da “lesão de uma representação” (nesse texto, que foi escrito originalmente em francês, Freud usa o termo conception para traduzir, ao que tudo indica, o termo alemão Vorstellung).
Uma representação assim lesada não seria uma representa ção aniquilada, ou cujo substrato material estivesse destruído, mas sim uma representação cujo vínculo com o restante do psiquismo tivesse sido rompido, tornando-a, por isso, inacessível à consciência. Freud afirma que, nas paralisias histéricas, a representação do órgão ou função paralisada está inacessível às associações conscientes, pois todo seu “afeto” está envolvido em uma “associação subconsciente” exclusiva com uma recor dação traumática. O termo subconsciente aparece uma vez como substantivo: “A impossibilidade de eliminação é notória quando a impressão permanece no subconsciente” (Freud, 1893, p. 209). Além disso, aparece várias vezes como adjetivo:
[...] a concepção de braço existe no substrato material, porém
não é acessível para as associações e impulsos conscientes,
porque toda a sua afinidade associativa, por assim dizer, está
saturada em uma associação subconsciente com a recorda ção
do acontecimento, do trauma, produtor dessa paralisia (Freud,
1893, p. 209).
De acordo com a teoria apresentada em Sobre a concepção das afasias, o psíquico deveria restringir-se ao consciente, e, por tanto, falar de uma representação subconsciente, desde essa perspectiva, só poderia significar uma representação inexis tente; em outras palavras, “subconsciente” seria sinônimo de ausência de processos psíquicos e, portanto, “representação subconsciente” seria sinônimo de ausência de representação. Assim, nesse artigo sobre as paralisias histéricas, ou Freud apóia suas hipóteses em uma concepção sobre os processos psíquicos diferente daquela proposta no texto sobre as afa sias – mais precisamente, numa concepção em que o psíquico não seja mais identificado ao consciente – ou, quando ele fala de representações subconscientes, refere-se a representações inexistentes. Nesse último caso, as expressões em que aparece o termo “subconsciente” seriam, no máximo, expressões figuradas, e a ausência de consciência da representação não poderia ser entendida literalmente.
Uma vez que Freud não deixa claro em que sentido precisa mente o termo subconsciente está sendo usado, permanece aí a questão de quais são as concepções metapsicológicas em que ele fundamenta suas hipóteses sobre o mecanismo psíquico que originaria uma paralisia histérica. Não fica claro se Freud continua identificando o mental ao consciente – e, neste caso, subconsciente significaria ausência de processos psíquicos, de modo que a associação subconsciente seria um processo físico sem concomitante psíquico – ou se ele considera que o psíquico não se limita à consciência. Se ele considera que os processos psíquicos podem ser em parte conscientes e em parte subconscientes, então suas expressões não são metafóricas, mas referem-se a algo concebido como efetivamente real. Em suma, permanece a questão de se há ou não, literalmente falando, um subconsciente psíquico para Freud nesse momento, ou seja, se ele considera que as representações possam existir independentemente da consciência.
Em As neuropsicoses de defesa (1894), Freud se coloca explicitamente a questão mencionada anteriormente sobre a possibilidade de ocorrerem processos psíquicos na ausência da consciência, mas não chega a tomar uma posição definitiva. Nesse trabalho, trata-se de formular uma hipótese sobre o mecanismo psíquico das psiconeuroses – histeria de defesa, fobias, obsessões e psicoses alucinatórias –, de acordo com a qual a gênese dessas afecções residiria em um esforço do eu para se defender de uma representação intolerável. Essa defesa consistiria essencialmente na retirada do afeto atrelado à representação traumática, fazendo com que essa representação ficasse isolada dentro da consciência e cons tituísse, assim, o núcleo de um grupo psíquico secundário. Os tipos de psiconeuroses se diferenciariam uns dos outros em razão do modo como seria empregado o afeto retirado da representação traumática. Na histeria de defesa, o afeto seria “convertido” para uma inervação sensorial, somática ou motora e, na neurose obsessiva e na fobia, o afeto seria “deslocado” para outra representação, permanecendo assim no âmbito psíquico, ao contrário do que ocorre na neurose histérica.
Freud não usa os termos “subconsciente” e “inconsciente” nesse texto. A representação patogênica, segundo ele, estaria excluída dos processos associativos, mas permaneceria, por hipótese, dentro da consciência: “A representação, agora debilitada, fica segregada de toda a associação na consciência [...]” (Freud, 1894, p. 53). Afirma que o divórcio entre a representação e o seu afeto ocorreria “sem consciência”, mas hesita em aceitar que esses processos que ocorrem na ausência de consciência sejam efetivamente psíquicos:
O divórcio entre a representação sexual e seu afeto, e o enlace
deste último com outra representação, adequada porém não
inconciliável: eis aí processos que acontecem sem consciência,
que somente é possível supor, e nenhuma análise clínico-
patológica é capaz de demonstrar. Talvez se ria mais correto
dizer: estes, de modo algum são processos de natureza
psíquica, mas processos físicos cuja conseqüência se afigura
como se real e efetivamente tivesse acontecido o que é
expresso mediante o circunlóquio “divórcio entre a
representação e seu afeto”, e “enlace falso” deste último (Freud,
1894, p. 54).
Ao que tudo indica, então, nesse trabalho sobre as neuro psicoses de defesa, Freud tende a identificar os processos que ocorrem na ausência de consciência a processos tão somente físicos, mantendo assim o que é propriamente psíquico restrito à consciência, mas não chega a afirmar cabalmente essa identidade.
Nos Estudos sobre a histeria (1895), tanto Freud como Breuer remetem a etiologia dos sintomas histéricos a representações inconscientes, embora tenham opiniões distintas sobre o mecanismo psíquico dessa neurose. Segundo Breuer, a cisão da atividade psíquica poderia ocorrer em dois casos: quando um grupo de representações se constituísse durante um estado psíquico anormal – um “estado hipnóide”, em sua terminologia – ou quando ele fosse alvo de uma defesa por parte do eu, concebida como voluntária. No entanto, apenas essa última hipótese, já presente em As neuropsicoses de defesa, é aceita integralmente por Freud nesse texto: embora Freud ainda compartilhe com Breuer, na Comunicação Preliminar, a hipótese da histeria hipnóide, no capítulo sobre a psicote rapia da histeria, que foi escrito dois anos mais tarde, afirma que todo caso de histeria hipnóide pode ser remetido, em última instância, a uma defesa por parte do eu. Ele propõe que toda histeria apresente, em sua gênese, a separação entre uma representação intolerável e seu afeto, isto é, um esforço defensivo do qual resulte a divisão psíquica que é característica dessa neurose. Apesar de ambos os autores empregarem o termo inconsciente em diversas ocasiões, aparentemente nenhum deles possui ainda uma concepção muito clara sobre qual poderia ser a natureza desses processos inconscientes revelados pelas observações clínicas.
Para Breuer, haveria dois tipos de representações inconscientes: as que fazem parte da atividade psíquica normal e aquelas cuja existência é patológica. Segundo ele, no funcionamento psíquico normal, as representações cuja intensidade superasse um certo limiar seriam conscientes e as que permanecessem abaixo desse limiar seriam inconscientes. Mas estas últimas seriam, no entanto, “suscetíveis de consciência”, ou seja, para elas se tornarem conscientes bastaria que sua intensidade aumentasse. As representações inconscientes determinantes da histeria, ao contrário, seriam “insuscetíveis de consciência”, isto é, mesmo possuindo uma intensidade elevada, elas permaneceriam inconscientes. Portanto, o campo da atividade psíquica representacional, nesse caso, seria maior que o campo da consciência potencial, como afirma Breuer:
O campo da atividade psíquica representacional não coincide,
pois, neles com o da consciência potencial; este é mais limitado
que aquele. A atividade psíquica representacional se decompõe
em consciente e inconsciente, e as representações, em
suscetíveis e insuscetíveis de consciência. Não podemos,
então, falar de uma cisão da consciência, mas sim de uma
cisão da psique (Breuer, 1895, p. 235).
Mas, apesar de afirmar que parte da atividade psíquica representacional é insuscetível de consciência, em outra passagem Breuer nega a possibilidade de haver processos inconscientes de natureza psíquica:
É certo que “representação” provém da terminologia do pensar
consciente e, por isso, “representação inconsciente” forma uma
expressão contraditória. Mas o processo físico que está na
base da representação é o mesmo em seu conteúdo e em sua
forma (se bem que não quantitativamente), quer a
representação passe o limiar da consciência ou permaneça
abaixo deste. Bastaria construir uma frase como “substrato da
representação” para evitar a contradição e escapar àquela
reprovação (Breuer, 1895, p. 233).
Parece haver uma contradição interna nos argumentos de Breuer, pois ele afirma, primeiro, que a “representação in consciente” consiste num processo puramente físico e, logo em seguida, afirma que a atividade psíquica representacional não se limita à atividade consciente. Na maior parte do texto, ele dá mostras de aceitar a existência de um psíquico inconsciente, mas, pelo menos na afirmação apresentada, recusa expressamente essa possibilidade.
Freud, em seu capítulo sobre a psicoterapia da histeria, de senvolve a hipótese sobre o mecanismo psíquico desta neurose que havia sido proposta em As neuropsicoses de defesa e a estende aos dois outros tipos de histeria (hipnóide e de retenção). O ma terial patogênico determinante da histeria, segundo ele, seria constituído por um núcleo que conteria as representações traumáticas e por um amplo material mnêmico constituído por representações que, em razão do fato de se terem associado com as traumáticas, também teriam se tornado patogênicas. Esse complexo de representações possuiria um triplo orde namento e as representações estariam aí organizadas: 1) de forma linear cronológica; 2) de forma concêntrica, em torno do núcleo, seguindo linhas de resistência decrescentes; e 3) de forma irregular, seguindo nexos causais. No trabalho da análise, as representações seriam evocadas à medida que a resistência fosse sendo superada, na ordem contrária à da sua constituição, isto é, das periféricas, que coincidiriam parcialmente com o eu, até as nucleares, que esclareceriam o significado do sintoma. Haveria, portanto, uma seqüência ininterrupta mediando as representações originárias da histeria e os sintomas – em outras palavras, entre as representações inconscientes e as conscientes.
Freud distingue dois tipos de representações patogênicas que permaneceriam inacessíveis à consciência do paciente até emergirem na terapia: as que são rememoradas – ou seja, as que o sujeito reconhece como tendo sido, de fato, vivenciadas em algum momento – e as que não são rememoradas. Estas últimas, embora sejam aceitas pelo paciente, em razão de sua necessidade lógica e do afeto que acompanha o seu surgimento e provoca o alívio do sintoma, não conseguem ser reconhecidas como tendo sido um dia vivenciadas:
[...] com a ajuda deste procedimento (a pressão sobre a fronte),
que ora mostra, desde o ponto em que cessaram as
reconduções do enfermo na vigília o caminho posterior; ora
chama a atenção sobre nexos que caíram no esquecimento,
depois convoca e ordena recordações que desde muitos anos
atrás estavam subtraídas à associação, apesar do que ainda se
pode discerni-las como recordações e, como operação suprema
da reprodução, faz alorar pensamentos que o enfermo nunca
quer reconhecer como seus, que ele não recorda, embora
admita que o contexto os exige imprescindivelmente e, nesse
transcurso, se convence de que essas representações, e não
outras, produzem o fechamento da análise o cessar dos
sintomas (Freud, 1895, p. 279).
Freud atribui a incapacidade de rememoração dessas re presentações ao fato de elas consistirem em “pensamentos inconscientes”:
Ainda quando tudo já passou, quando o enfermo, dominado
pela compulsão lógica e convencido pelo efeito curativo que
acompanha justamente o aloramento desta representação;
quando o enfermo, digo, aceita ele mesmo que teve que ter
pensado isto ou aquilo, costuma acrescentar: “Porém, não
posso recordar que o tenha pensado”. Em tal caso é fácil
entender-se com ele: eram pensamentos inconscientes. No
entanto, como esse estado de coisas foi registrado em suas
intuições psicológicas? Há que se passar por alto esse
discernimento recusado do enfermo, que não possui motivo
algum posto que o trabalho já acabou? Deve-se supor que se
trata real mente de pensamentos nunca produzidos e para os
quais havia uma mera possibilidade de existência, de modo que
a terapia consistiria, então, na consumação de um ato psíqui co
interceptado? É evidentemente impossível enunciar algo sobre
isto, ou seja, sobre o estado do material patogênico antes da
análise, até que se tenha esclarecido a fundo suas visões
psicológicas básicas, antes de tudo sobre a essência da
consciência (Freud, 1895, p. 305).
Uma vez que Freud afirma que essas representações não são rememoradas porque consistem em pensamentos inconscientes, é necessário reconhecer que esses dois tipos de representa ções patogênicas evocadas na terapia não são inconscientes no mesmo sentido. Freud reconhece que não possui uma expli cação para essa diferenciação. Em nenhum dos textos até agora comentados ele explicita a noção de representação inconsciente admitida como necessária para se esclarecer o mecanismo psíquico das neuroses, embora em Sobre a psicoterapia da histeria apresente uma inclinação a conceber os processos inconscientes como processos puramente físicos. Aparentemente, Freud não possuía ainda, nesse período, uma concepção perfeitamente definida sobre esse ponto, mas fica claro que a identidade entre o psíquico e o consciente afirmada no texto sobre as afasias já vem sendo questionada ao longo desse período. No “Projeto”, ele formulará uma teoria em que a consciência será concebida como algo que se acrescenta a apenas uma parte de nossas re presentações e, portanto, a identidade total entre o psíquico e o consciente será finalmente recusada, de modo que a ex pressão “representação inconsciente” poderá ser incorporada legitimamente à teoria. A relexão sobre a consciência apontada por Freud como necessária nos Estudos sobre a histeria parece ter sido um dos motivos que o levaram a redigir o “Projeto”, a cuja análise estão dedicados os próximos capítulos, no que diz respeito às questões em foco neste livro.
1 Laplanche & Pontalis (1998, p. 494) comentam que, nesse período em que foi publicado o artigo sobre as paralisias histéricas, não parece haver diferença entre o uso que Freud faz do termo “subconsciente” e o que estava prestes a destacar-se sob o nome de “inconsciente”.