O Oitavo Selo

Heloisa Seixas · Capítulo 1 de 12

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O Oitavo Selo

Prólogo

PRÓLOG O

Era um quarto escuro. Pequeno, escuro, frio – m as um quarto.

Não era um daqueles boxes separados por cortinas de náilon, com o costum am ser os cubículos de um a UTI. Era um quarto de verdade. Além de chão e teto, tinha quatro paredes de alvenaria, um a porta e um a j anela, esta últim a vedada, de vidros pintados.

Dentro daquele quarto, havia a luz irreal dos sonhos e das salas de exam e, essa lum inosidade que em ana dos aparelhos m edidores de corpos, m áquinas que soltam bips e em item luzes em form a de núm eros, letras, gráficos, linhas.

E ali estavam elas, as luzes, subindo e descendo, atravessando a tela de fora a fora, desaparecendo e reaparecendo no início, em um m ovim ento repetitivo que trazia a inquietação dos sism ógrafos durante um terrem oto.

A m ulher olhava, seus olhos cam inhavam com a linha saltitante, acom panhando-a até a extrem idade e depois voltando, com m uita atenção, em um j ogo de tênis digital e m inim alista. Fora os bips e zum bidos em itidos pelos aparelhos, o quarto estava em silêncio, havia apenas um ressonar bem leve, estável, sinal de que o hom em adorm ecera. Mas a m ulher não ia olhar para ele agora. Tinha o olhar preso àquela tela hipnótica, seguindo a linha que ia ao final e voltava, em perm anente recom eço, pequena cobra esverdeada subindo e descendo, percorrendo as areias de um deserto negro.

De repente, houve um escorregão. O olhar da m ulher resvalou, foi além , desprendeu-se da tela ilum inada, m ergulhou no am biente escuro do quarto em direção a um a das paredes, à direita, a parede oposta à j anela vedada, e fixou-se ali.

Nessa parede havia um quadro.

Ela não esperava encontrar um quadro na parede de um cubículo de hospital. Naquele am biente ascético, não deveria haver lugar para elem entos decorativos, m adeira e vidro acum ulando poeira e germ es. Além do m ais, na penum bra, em m eio aos sons e às luzes dos aparelhos, quem podia pensar em adm irar um quadro?

Mas o quadro estava lá. Estranho que não o tivesse notado antes, nas vinte e quatro horas que j á durava o tem po em que estavam , am bos, encerrados no quarto. As primeiras vinte e quatro horas são vitais. Não, a m ulher não tinha prestado atenção. Era quase com o se, antes, o quadro não estivesse ali.

Chegou m ais perto, esprem eu os olhos. Um a paisagem verde-escura, de m ata fechada, que na penum bra m al se podia divisar, não fosse pela linha ondulante do horizonte. Mas seu olhar não ficou preso por m uito tem po na tela. Havia no quadro outra característica m ais forte. Deu dois passos para trás. Observou a relação do quadro com a parede, com a j unção do teto. Então era isso. O quadro estava torto.

Tornou a se aproxim ar, tocou com a ponta dos dedos na m oldura, pressionando de leve, para colocar o quadro no lugar. Mas ele resistiu. Não se m ovia. A m ulher tentou de novo, agora com m ais força. Nada.

Pegou-o pelas bordas, com as duas m ãos. Tentou m ais um a vez. O quadro estava com o que chum bado na parede. Sem dúvida fora pregado assim , torto, e provavelm ente com duas buchas, o que tornava im possível a tarefa de colocá-lo na posição certa.

Um quadro torto na parede, para ela, sem pre fora um a espécie de tortura. Ainda m ais um assim , torto na origem , de form a irrem ediável. E em um am biente pequeno, onde seus olhos, agora que o tinham enxergado, saltariam para ele a qualquer m om ento, o tem po todo. Era um a condenação.

Ou não?

Estranho, m as não sentia a inquietação esperada.

Algum a coisa se form ava dentro dela, algum a coisa que a princípio não pôde identificar, m as que não se parecia em nada com o sentim ento hostil e ansioso que sem pre a assaltava ao olhar um quadro torto na parede. Agora, era diferente. Esperou.

O sentim ento continuou subindo, tom ando corpo. Fixou os olhos no quadro, era dali que vinha, não podia deixar escapar. Era um a sensação m uito próxim a da euforia. Ao contrário do que esperava, a im perfeição do quadro a deixava feliz. Talvez fosse a sensação de realidade que dele escapava, ela não tinha certeza ainda, m as era com o se o m undo exterior, im perfeito – deliciosam ente im perfeito –, penetrasse no cubículo através do quadro, inundando o am biente de um a norm alidade perdida. Deixou que aquilo fluísse, se espalhasse. Fechou os olhos.

Era im pressionante a força. A sensação, fosse o que fosse, a transform ava. Em poucos segundos, o coração se acelerou e a fronte, febril, expulsou através dos poros gotas m ínim as de suor – m as com o, se aqui dentro está tão frio? A garganta fechava, a respiração ia acelerando m ais e m ais. Força, poder, explosão, calor. Um idade. Soltou um gem ido sem querer.

O hom em acordou. Murm urou algum a coisa.

Ao se virar, a m ulher viu, através da penum bra, que ele sorria. O rosto de m axilares largos, a pele azulada pela barba, os lábios grossos, sensuais, entreabertos. Observou tudo. Sorriu tam bém . E cam inhou até j unto da cam a.

Recostado, o hom em estava coberto por um lençol fino, que ia da altura do peito, onde escondia em parte os eletrodos e os fios, até o m eio das coxas. As pernas estavam de fora e, m esm o com tão pouca luz, a m ulher reconheceu seus contornos bem torneados, a panturrilha larga, o costureiro delineando perfeitam ente o m úsculo reto da coxa. Aproxim ou-se. Passou a m ão naquela perna lisa, quase sem pelos, que parecia feita de pedra, um deus de m árm ore. Nunca em sua vida conhecera um a perna tão dura, tão com pacta, tão pesada. Músculos que davam a im pressão de ter passado a vida inteira se exercitando, quando a realidade era bem o contrário.

A m ão cam inhou em direção ao j oelho e voltou, para cim a e para baixo, devagar, e a m ulher ergueu a vista, tornando a olhar para o hom em . O sorriso dele se alargava. E ela se lem brou de que, por baixo do lençol, o hom em estava nu. Só então entendeu a sensação que a assaltara ao olhar para o quadro torto na parede: era desej o.

A m ão que estava pousada sobre a perna se ergueu, subiu, alcançou a outra m ão, a m ão do hom em , espalm ada sobre a lateral da cam a. Fez um a carícia. O hom em virou a palm a para cim a. Com dificuldade, os dedos se entrelaçaram , havia fios no cam inho, por toda parte. A palm a estava quente, seca, a m ulher sentiu. Sentiu tam bém o volum e da base do polegar dele, aquele ponto carnudo, que passava um a sensação de virilidade e força. Um a am iga sua dizia que os hom ens que têm a base do polegar assim robusta são m ais sensuais. A m ulher quase riu alto ao pensar nisso. Talvez tenha rido. Talvez ele tenha ouvido o pensam ento dela. Porque, no instante seguinte, m esm o tolhida pelos fios, a m ão do hom em carregou a da m ulher para o centro do seu corpo, para o ponto onde, sob os lençóis, algum a coisa se erguia.

Um a das m áquinas soltou um bip m ais alto, a m ulher se assustou. Tentou puxar a m ão, m as o hom em a reteve. Continuava sorrindo. Ela relaxou, com preendeu. Acariciou o lençol, branco, m acio, tentando adivinhar com a m ão os contornos que despontavam ali em baixo, cham ando-a, cham ando-a. Com o se tivesse vontade própria, seu braço m udou de direção e, antes que ela se desse conta do que acontecia, a m ão m ergulhou em baixo do lençol.

Não olhou m ais para o hom em , seus olhos agora voltavam para a tela negra, em que a serpente esverdeada subia e descia, soltando pequenos gritos. A serpente corria, vencia as areias cada vez com m ais rapidez, voltando ao com eço e tornando a subir e a descer, a subir e a descer, em ondulações m ais e m ais altas, desafiando o perigo, as primeiras vinte e quatro horas são vitais, pedindo que ela não parasse, enfrentasse o terror com seus m ovim entos ritm ados, loucos, que eram com o as batidas do coração. E a m ulher se deixou levar, seguiu com a serpente pelo deserto escuro, subindo e descendo, soltando ela própria seus pequenos gritos de pavor e gozo, em um turbilhão de luz e som dentro do qual a vida e a m orte tinham um m esm o significado.

E, enquanto o fazia, com preendeu, em um segundo de lucidez, que a salvação não estava só na palavra, com o fora para Sherazade. Não, para eles a palavra era parte, não o todo, a palavra era o m eio, não o fim , apenas um elem ento poderoso, m as não o único, na luta para vencer o m edo, afastar a m orte – a m orte que vinha rondando aquele hom em sob diversas roupagens, com tantos diferentes disfarces. Por trás da palavra, haveria sem pre um a outra força, pedindo que eles seguissem em frente, que não desistissem nunca. E essa força era o prazer.