O Oitavo Selo

Heloisa Seixas · Capítulo 2 de 12

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O Oitavo Selo

Primeiro Selos: Sangue

PRIMEIRO SELO

SANGUE

Anoitecia, era dom ingo e a casa estava cheia. Os am igos da fam ília sem pre apareciam , subiam a escada e iam entrando, o apartam ento ficava no prim eiro andar. Todo dom ingo era assim . A porta, apenas encostada, rangia, e esse era o único aviso de que chegava m ais alguém . Não havia cam painha. Ou, se havia, ninguém se lem brava dela. As pessoas se sentavam na sala e ficavam conversando, ouvindo m úsica. A pizza de sardinha j á estava cheirando no forno, naquele com eço de noite. E o pai, sentado na poltrona perto da porta, tocava violão, cantava m archinhas de Mario Reis.

O m enino, sozinho na j anela, observava o m ovim ento lá fora. O prédio, pequeno, de três andares, dava para um a rua torta, que term inava na praça da igrej a m atriz. À esquerda, antigam ente, não havia calçam ento, apenas um barranco, de capim alto, e o rio passando lá em baixo. Era ali, naquele canto, que ele e os am igos j ogavam futebol. Agora, o cam pinho im provisado de pelada tinha se transform ado em um a construção arredondada, com um letreiro no alto. Era um cinem a. O cinem a, a rua na frente, a praça e a cidade em volta, tudo pertencia ao m enino, ele sentia assim . Ali, lugar pequeno, todos o conheciam e ele, com seus dez anos, andava pelas ruas sozinho, com grande desenvoltura.

Mas, sendo dom ingo, a cidade àquela hora, à noitinha, estava deserta. Em seu cam po de visão que, ao se debruçar, ia de um lado a outro da rua e se estendia até a praça, o m enino só enxergava dois hom ens, m ais ninguém , encostados em um a árvore, conversando. Am bos usavam bota e chapéu, com o se fossem caubóis, com a diferença de que eram m agros, em poeirados, encardidos, sem nada que lem brasse o glam our do cinem a.

Mas, logo, duas novas personagens encheram a tela que o m enino tinha diante dos olhos, saídas dali de baixo, do próprio prédio onde ele m orava. Eram um a m enina e sua m ãe. Ele as conhecia bem . A m enina tinha treze anos e era am iga de sua irm ã. Pelos traj es que usavam , as duas estavam indo à m issa das seis. Ele, o m enino, j am ais ia à m issa. Nem entrava na igrej a, nunca, porque seu pai era m açom , não gostava de padres. Mas nem por isso os católicos deixavam de frequentar a casa dele. Seu pai era um com erciante im portante, respeitado, e, anos antes, ganhara um a fortuna na loteria. Era querido na cidade.

O m enino ficou observando enquanto as duas, m ãe e filha, atravessavam a rua. A m ocinha, com um vestido cintado, pernas grossas, tornozelos finos, o andar um pouco incerto, com eçando a usar saltinho. A m ãe de roupa cinza-escuro e colar de pérolas. As duas j á estavam lá do outro lado, quando a m enina se virou e sorriu. Sorriu para ele. Com o se soubesse, o tem po todo, que o m enino a observava da j anela. Ele sorriu de volta, satisfeito. Às vezes se sentia assim , o dono do m undo. Não tinha m edo de nada.

Ainda estava com os olhos pregados na garota quando algum a coisa se partiu atrás dele. Foi um a quebra, um a ruptura, tudo se transform ou, e aconteceu em um m ovim ento rápido, único, concentrado, com o quando explode um a bom ba. Foi um grito, talvez. Um a agitação, alguém cham ou o nom e de alguém , pessoas acorreram . De repente, ao se virar e olhar para dentro de casa, para a sala do apartam ento, o m undo ordenado e feliz, feito de pequenos prazeres, em que nada lhe era negado, nada o agredia, nada o am eaçava, esse m undo perfeito que ele conhecia tão bem , estava, em um segundo, m aculado. Algo fora prensado nele, com o o selo de m etal caindo sobre a pasta quente do lacre. A m arca ficaria ali para sem pre. Nada m ais seria com o antes depois desse m om ento, o instante em que alguém gritou, alguém correu – o instante em que pela prim eira vez se ouviu, entre aquelas quatro paredes, a palavra sangue.

Ruy – Minha irm ã, Ana Maria, m orreu no dia 10 de m aio de 1959. Era um dom ingo, Dia das Mães. Nós estávam os reunidos na sala do apartam ento da rua Barão do Flam engo, no Rio, quando o telefone tocou. Minha tia Nair, dona da casa, foi atender. Era de m anhã. Todo m undo ficou em silêncio, com o se j á soubesse o significado daquela ligação. Nair ouviu o que foi dito do outro lado, quase não falou nada. Quando desligou, olhou para nós e disse: Ela descansou. Só isso. As pessoas na sala ouviram e concordaram , pareciam j á esperar por aquilo. Mas eu não. Eu não acreditei. Tam bém não tinha acreditado quando, dias antes, ouvi Nair conversando com a pianista Tia Am élia, que era am iga da fam ília e m orava na casa, sobre a situação da m inha irm ã. Tia Am élia – era o seu nom e artístico – tocava choros, tinha um program a de televisão, era espírita, frequentava centros. Certa noite, ouvi-a dizer para a tia Nair que a m enina não ia se salvar. Elas não sabiam que eu estava escutando a conversa, não era para eu estar ali naquela hora. Mas, depois do telefonem a, a notícia foi ganhando form a, se tornando real. Minha irmã morreu. A inform ação foi chegando aos poucos, até que não tive m ais com o fugir.

Em algum m om ento, o m enino escapou. Fugiu, em barcou para um lugar acolhedor, reconhecível, um lugar de prazer. Talvez tenha sido sem pre assim , m esm o antes. Talvez esse lugar j á existisse. Era um am ontoado de lem branças, ele não saberia decodificá-las, nem era preciso, elas lhe vinham com o um todo, aquela gigantesca nebulosa, poeira de estrelas, um a espiral se m ovendo no vazio de um universo prim ordial e eterno. Todas as vezes em que fechava os olhos, no m om ento de dorm ir, sentia aquilo. Tinha calor e sons e cheiros, tinha textura, era palpável. Seios m acios de m ulher, bicos túm idos, um a pele m uito clara, m uito lisa. Um cheiro adocicado, um m urm úrio, um sorriso. Beij os. Um turbilhão de beij os de batom , enquanto ele era passeado pela praça, pela cidade, nos braços das m ulheres, sem pre as m ulheres. Alguém que lhe falava baixinho, que lhe contava histórias, vozes, diferentes vozes, m as sem pre vozes fem ininas, ora cantarolando, ora dando risadas, revelando segredos e pecados, m as sem nenhum a culpa, trazendo apenas sorrisos. Pecados perm itidos. A casa estava cheia de mulheres, muitas mulheres. E até uma tia que a família supunha morta e enterrada viera farejar, na sobrinha, a felicidade que a vida lhe negara. Pecados divertidos. Ele ria, a m ãe ria, as am igas, todo m undo ria. Histórias. Contos contados em voz alta, sem pre um a voz de m ulher, a possibilidade de viaj ar para m uito longe, todos os dias, todas as noites, m il e um a noites.

Ruy – Ana Maria acordou no m eio da noite, de m adrugada, o quarto escuro. Meus pais estavam lá. Acordou e com eçou a cantar “Criança feliz”, sucesso de Francisco Alves, de um disco que ele tinha gravado pouco antes de m orrer. Chico Alves gravou esse disco j unto com o coral das crianças da Casa de Lázaro. Tirou um a fotografia ao lado delas. Depois, pegou o carro e foi fazer um show em São Paulo. Na volta para o Rio, m orreu na estrada. O disco foi lançado logo depois da m orte dele. Essa m úsica foi durante anos um sucesso na vitrola lá de casa, e Ana Maria aprendeu porque m eu pai cantava, tocando violão. Mas é im pressionante que ela tenha cantado isso em plena agonia, poucas horas antes de m orrer. Nunca m ais consegui ouvir essa m úsica. Durante m uitos anos, tam bém não conseguia ouvir a gravação de Tia Am élia tocando “Chora, coração”, em seu disco Velhas estampas. Era a m úsica que ela ensaiava o dia inteiro nessa época, no piano da m inha tia Nair. Fiquei ali, no apartam ento da rua Barão do Flam engo, durante m eses, m uitos m eses, todo o tem po em que Ana Maria esteve no Hospital dos Servidores do Estado. Ela foi internada no final de 1958, não m uito depois da prim eira hem orragia, e nunca m ais saiu do hospital. Foram pelo m enos cinco m eses entre as duas cirurgias. Eu ia visitar m inha irm ã um a ou duas vezes por sem ana. Lem bro de ficar na porta do hospital, conversando com m eu pai. Era sem pre noite e eu via, lá no alto, um a igrej a ilum inada. Lem bro de m eu pai contando com o tinha sido quando m inha irm ã acordou da anestesia, na prim eira operação. Ela olhou para ele e perguntou: Papai, o que está acontecendo? Ela nunca soube, nunca entendeu. Sabia que estava doente, que estava indo para o Rio para se tratar, m as não que ia ser operada. Por isso, quando acordou, toda am arrada, toda cheia

de sondas e fios, perguntou Papai, o que está acontecendo? Ele m e contava tudo e parecia que eu estava vendo. O quarto escuro, m uito escuro. Meu pai sentia com o se tivesse com etido um a traição. Ele sem pre se sentiu culpado, pelo resto da vida. Achava que ela não teria m orrido se não tivesse sido operada um a segunda vez.

Um a tarde, ia chover, estava escuro. Ele cham ou a m enina, am iga de sua irm ã, para assistir a um film e. Não era propriam ente um film e, eram apenas im agens em sequência, na m áquina m ovida à m anivela, em um m ovim ento ritm ado do braço, da m ão, seu cinem inha Barlan, era esse o nom e da m áquina de sonhos, um as coisas bobas, só um as im agens, m as a m enina assistia encantada, e era com o se ele fosse o dono de um cinem a. Não havia cinem a, nem nada, apenas o quartinho dos fundos, a área interna onde o sol j á penetrava com dificuldade e m ais ainda naquela tarde de nuvens pesadas. O nom e da m enina era Vera, Verinha. Ele ia contando a história, em voz baixa, com o para hipnotizá-la, e via, no escuro, que os olhos da m enina brilhavam . Ela sorria, era bonita. Ao final, antes que se acendessem as luzes, antes que a sensação de irrealidade se desm anchasse, ele cam inhava até j unto dela e exigia o pagam ento prom etido. Agora estava ainda m ais escuro, sem a luz da m aquininha, m as ele sabia, podia quase ver, que ela estava sorrindo. Um beij o, m uitos beij os, na boca, com o nos film es de verdade. Era isso que ele pedia. E ela dava.

Ruy – Eu m e inclinei e beij ei. O rosto dela estava gelado e tinha um cheiro característico. Nos anos seguintes, m uitas vezes, voltei a sentir esse cheiro, m as não sei se era im aginação ou um a coisa real. Naquele dia, o cheiro estava na capela inteira. Lem bro tam bém das m ãos, das unhas, as unhas am areladas, o rosto m uito pálido, cinza. E ela era um a criança tão bonita. Morena, cabelos pretos e cacheados. Tinha nove anos. Meu pai nunca m ais foi o m esm o depois do que aconteceu. Ele se transform ou em um hom em tirânico, m e perseguia, queria controlar tudo na m inha vida. E chorava, chorava. Minha m ãe, não. Nunca vi m inha m ãe chorar. Talvez ela chorasse escondido.

O m enino veio cam inhando, da loj a até em casa, com o obj eto nas m ãos. Subiu as escadas e foi para o quarto dos fundos, seu esconderij o. Ali ficava a estante de m adeira clara, com portas de vidro, com todos os seus livros. As aventuras de Sherlock Holmes, Tarzan e o leão de ouro, Alice no País das Maravilhas, Os três mosqueteiros, A marca do Zorro, Arsène Lupin contra Herlock Sholmes e m uitos outros. Era no quartinho onde ficava tam bém a m esa com a m áquina de escrever, que ele tinha pedido ao pai para com prar. Nessa m áquina, o m enino batia as fichas técnicas de cada film e a que assistia no cinem a em frente à sua casa. Além das fichas técnicas, havia tam bém fichas para cada diretor im portante, nas quais ele listava o nom e dos film es e o ano em que tinham sido realizados. Ao lado da m áquina, naquele dia, estava a ficha do diretor John Huston, o nom e dele batido em letras pretas, acim a da lista dos film es batida em verm elho, que, naquela ficha, com eçava em 1941, com Relíquia macabra, e term inava em 1954, com O diabo riu por último.

O m enino tinha se apaixonado pelo cinem a m uito cedo, talvez com quatro ou cinco anos, quando o pai ainda lia para ele as legendas. A partir dos sete, com eçara a ir ao cinem a todos os dias. Ia sozinho. Não precisava pagar, porque era am igo de Antonio, o encarregado da proj eção. Saía de casa, descia as escadas, atravessava a rua e entrava na construção arredondada com o letreiro em cim a. Mas não pela entrada principal, e sim por um a portinha lateral, que ia dar na sala de proj eção. Era dali que assistia aos film es.

Mas o obj eto que ele tinha agora nas m ãos, e que acabara de levar para o quartinho dos fundos, ia além do cinem a. Era um disco. Para assistir a um film e, ele dependia da program ação, de Antonio, de m uitos fatores e de m uita gente. Mas para ouvir um disco, não. Ainda m ais esse, que era só seu. Passou a m ão na capa do lp de dez polegadas, de um a cantora am ericana. O rosto de m ulher olhava para ele, sorrindo. Os olhos azuis, os cabelos louros, a boca rubra, dentes m uito claros, um rosto que surgia por trás de um buquê de rosas verm elhas e alaranj adas. Era tudo colorido, não havia som bra, nem angústia ou incerteza, nada. Um m undo cristalino, feito para alegrar os sentidos, todos os sentidos.

Olhou em torno, satisfeito. Seu espaço de prazer. Entre aquelas quatro paredes, nada de m au poderia lhe acontecer.

Heloisa – Ruy não fala m uito no assunto. Eu é que fico pensando: ele era m enino, e m ais velho. É natural que, aos onze anos, tivesse um sentim ento protetor em relação à irm ã, dois anos m ais nova. Talvez tenha surgido dentro dele a im pressão de ter falhado, de não ter conseguido im pedir a m orte dela, não sei. Ele não fala. Mas, num Dia de Finados, fui com m eu pai visitar o túm ulo dos m eus avós no Cem itério São João Batista, e Ruy m e passou um pedaço de papel, que guardo até hoj e na carteira. Era o núm ero da sepultura da irm ã dele. Fazia cinquenta anos que Ana Maria tinha m orrido e Ruy nunca havia ido lá. Eu fui. Subi as escadas que ficam diante da aleia central e vão dar num a igrej inha. Depois, virei à direita e peguei um a escadaria m uito íngrem e, seguindo as instruções dadas pelo funcionário da adm inistração. Achei o lugar. Fiquei parada diante daquele bloco de granito cinza-escuro, sem nenhum a identificação – nenhum a inscrição, nada. Mas eu tinha

certeza de que era ali. Passei a m ão pela lápide, quente àquela hora, três da tarde de um quase verão no Rio. Não estava chovendo naquele Dia de Finados, com o dizem que sem pre acontece. O calor da pedra subiu pelos m eus dedos. E de repente m e lem brei de um a coisa que m e fez sorrir: com o nasci no dia de Santa Ana, 26 de j ulho, m inha avó queria que eu m e cham asse Ana Maria.

A fam ília sem pre teve fascínio por j ornais. O pai era assinante do Correio da Manhã e de O Jornal, além de com prar diariam ente a Última Hora (por causa de sua m ulher, que gostava de Nelson Rodrigues) e a Tribuna da Imprensa (por causa dele m esm o, que era fã de Carlos Lacerda). Aos dom ingos, com prava ainda o Diário de Notícias. Revistas, tam bém , eram m uitas na casa, sem pre. O Cruzeiro, Vida Doméstica, Fon-Fon, Careta. Páginas e páginas de letras, frases, fotografias, em preto e branco e em cores, em papel-j ornal ou brilhante, com seus cabeçalhos rebuscados ou lím pidos, opiniões retrógradas ou progressistas, estilos arroj ados ou gongóricos. E todo esse volum e de papel im presso ia se acum ulando em algum côm odo da casa, passavam -se m eses até que j ornais e revistas fossem j ogados fora. Mas foi a partir de certo m om ento da vida – ele não sabia dizer quando – que o m enino desenvolveu a m ania de selecionar as notícias, recortar as que lhe interessavam , arrum ar em pilhas, em pastas, separar por tem as. Tudo ia, tam bém , para o quartinho dos fundos, o quarto dos segredos, dos deleites e beij os.

O m enino olhava para aqueles recortes e era invadido por um a sensação de urgência. Era com o se tem esse ver o tem po escoar, com o se quisesse reter os acontecim entos na m aterialidade do papel, para que pudesse revisitar cada um deles toda vez que tivesse vontade. Assim , tinha o controle. Podia, talvez, dom inar o tem po, da m esm a form a com o dom inava o espaço, ganhando em suas andanças as ruas da cidade pequena. O papel está lá. O papel, se bem guardado, é eterno. O papel vence o esquecim ento e a m orte.

Ruy – Não, não. Naquele dia, quando aconteceu da prim eira vez, eu não tinha a m enor ideia de nada, ninguém tinha, só sabia que era um a coisa grave. Depois do grito não lem bro bem o que aconteceu. Só sei que ela estava brincando e, de repente, vom itou sangue no m eio da sala, ou no corredor. Ficou um a poça no chão. Eu não vi, m as m e contaram . Foi um a correria, alguém saiu para cham ar um m édico. Veio o dr. Cim ini, um m édico conhecido que m orava perto da gente. Ele chegou e foi exam inar Ana Maria. Depois, virou-se para m eu pai, m uito sério, e disse que eram varizes no estôm ago, ou no esôfago. É m uito grave, falou. Ela

precisa ir para um hospital no Rio. Quando ele disse isso, tive um a sensação estranha. Na m esm a hora, olhei para baixo e vi m eu peito, m inha cam isa, em papados, o sangue escorrendo. Eu tam bém sangrava.

Havia um ódio dentro do pai, um a raiva represada. De vez em quando explodia. Foi assim no dia em que a m ãe gritou que a irm ã estava desobedecendo – ela ainda não tinha ficado doente. A m ãe gritou, cham ou o pai, que estava no andar de baixo, na loj a. Por algum a razão, ele explodiu. Quando subiu as escadas, a raiva secreta subiu com ele.

O pai chegou lá em cim a e não fez nada com a m enina. Mas pegou a m iniatura da m áquina de costura, o brinquedo de que ela m ais gostava, um presente que vinha pedindo, desej ando, um presente querido, o pai pegou, a m enina gritava, chorava, m as ele não quis saber. Pegou a m áquina de costura infantil, tão preciosa, e atirou pela j anela. Poderia ter ferido alguém , poderia ter m atado alguém , com o quase aconteceu com seu filho no dia da m orte de Getulio Vargas. O m enino estava com o pai na calçada quando um m aluco atirou pela j anela de um segundo andar um a m áquina de escrever, daquelas de escritório, e ela se espatifou no chão. Caiu a poucos centím etros do m enino, poderia ter m atado.

Ao ver o que o pai fizera com sua m áquina de costura, a m enina gritou e chorou, a raiva subindo de dentro dela tam bém . Mas j á não havia m ais com o desfazer o feito, porque a raiva, depois de subir as escadas, tinha se esborrachado lá em baixo. O pai pareceu m uito calm o, de repente. Talvez j á estivesse sentindo dentro de si o rem orso, a culpa, o em brião de todos os sentim entos que iriam atorm entá-lo pelo resto da vida. Nunca mais, até a morte, ele deixaria de se culpar. A m enina tam bém se calou. Talvez a dor de ver seu brinquedo assim estraçalhado fosse grande dem ais e pedisse um silêncio. Ela agora chorava baixinho. O m enino assistia a tudo de longe, quieto, a m ãe tam bém . Eles eram m uito parecidos, m ãe e filho tinham um a serenidade que às vezes provocava estranham ento. Talvez fosse por isso que ele nunca – nunca – veria a m ãe chorar.

Ruy – Foi um banho de sangue. Foram m uitas crises, até a internação no Hospital dos Servidores do Estado. E m esm o depois. Eu ouvia os com entários: Ana Maria teve outra hem orragia esta noite. Ouvi essa frase várias vezes. Estranho que eu próprio tivesse sangrado, naquele prim eiro dia. Meu pai ficou desesperado. Mas o dr. Cim ini pediu que ele se acalm asse. Isso que o m enino tem não é nada, garantiu. Mandou que eu m e sentasse e ficasse olhando para cim a, tapando a narina com o polegar. Em poucos m inutos, passou – m as, que foi estranho, foi. Por que eu poria sangue pelo

nariz exatam ente quando m inha irm ã estava tendo um a coisa parecida, só que m il vezes m ais grave? Hoj e, tantos anos depois, fico im aginando tam bém o que é fazer um a cirurgia no esôfago, a região por onde passa o alim ento – o sofrim ento que isso deve ter significado. Ela não podia com er. Já era tão m agrinha – e não podia com er.

Lá estava ela, no canto do quarto, recostada nos travesseiros. A cam a fora coberta por um a colcha de retalhos, toda trabalhada, dezenas de quadrados contendo diferentes bordados em relevo, form ando paisagens, brinquedos, flores. E era sobre essa colcha colorida que ela estava, com seu vestido branco, de babados, m angas bufantes, com sua pele rosa. Era um a nódoa clara na penum bra do quarto, pois entardecia, e as j anelas estavam fechadas para evitar que entrassem m osquitos. Com os olhos sem icerrados, parecia dorm ir. Parecia um a m enina de verdade.

O m enino se aproxim ou, devagar. Não havia m ais ninguém no quarto, e ele podia fazer o que quisesse. Pegou-a pelos braços e puxou, com o se tentasse colocá-la na posição sentada. Ela abriu os olhos e soltou um som . Um som j á m eio rouco, m eio gasto, m as que ainda poderia ser interpretado com o “m am ãe!”.

O m enino saiu correndo, m as, da porta, ainda olhou para trás. Ela continuava lá, sentada na cam a, os olhos m uito abertos. Ela viveria ali, naquele m esm o lugar, durante anos, ainda. A boneca Am iguinha, quase em tam anho natural – a boneca que tinha pertencido à sua irm ã.

—

Ele ia a toda a velocidade pela rua de paralelepípedos, j á quase escura, onde ficavam os arm azéns. O ar estava im pregnado do cheiro dos grãos de café. Sentia o calor do selim entre as coxas, apertadas para m anter a bicicleta firm e, agora que ele pedalava sem as duas m ãos. Era um a sensação boa essa, de desafiar o perigo, m aior ainda na hora de atravessar a ponte estreita. Gostava disso, de passar à beira do precipício, de ter a possibilidade de cair e não cair, de vencer o m edo, o ferim ento, a m orte. A m orte. Será que sua irm ã ia m orrer na m esa de operação? Não ia, tinha certeza de que não ia, m as, e se m orresse? Ele não tinha com o controlar isso, não podia fazer nada. No futuro ele entenderia: se a m orte fosse um hom em , ele faria com o Max von Sy dow e a desafiaria para um a partida de xadrez, com o em um film e a que, m uito depois, ele assistiria no Paissandu, O sétimo selo, de Ingm ar Bergm an. A história do cavaleiro que volta das Cruzadas e encontra seu país devastado pela peste negra. No m om ento em que ele se revolta com Deus, a Morte aparece, dizendo que chegou sua hora. O cavaleiro, então, propõe a partida de xadrez, para ganhar tem po. Para tentar enganar a Morte.

O coração do m enino dá um salto, ele sente o pneu da bicicleta derrapar na terra lisa. As duas m ãos, cruzadas atrás da nuca, descem em direção ao guidom , seguram com força. Foi só um segundo, um susto.

Pedala m ais depressa, passa a ponte. Aqui está m enos escuro, há casas ilum inadas, m as a rua tam bém é deserta. Está quase na hora do j antar. O m enino está com fom e, o estôm ago vazio. É de repente invadido por um a sensação de poder, com o se suas células estivessem em bebidas de um a força vital inescrutável. Morte, vida. Desej o.

Algum a coisa dentro dele reage, se rebela. Sente o sexo enrij ecer, enquanto pedala cada vez m ais rápido. Revê m entalm ente o sorriso da m ulher loura na capa do disco, a boca verm elha surgindo por trás das rosas. Pensa nela em Ama-me ou esquece-me, film e em que ela faz o papel de um a cantora de j azz, na cena em que aparece com um vestido com prido azul, aberto até o alto das coxas, aquelas coxas grossas, gostosas, a cinturinha fina, o corpo perfeito, e não precisa tirar as m ãos do guidom para saber que não há m ais volta e que chegou ao ponto de explosão, a um idade entre as pernas queim ando, escorrendo, e o vento gelado no rosto fazendo a boca se abrir em um sorriso de prazer.

Ruy – Três dias depois da m orte de Ana Maria, Brasil e Inglaterra j ogaram no Maracanã. Era a prim eira partida que a Seleção fazia no Brasil depois de ser cam peã m undial na Suécia, em 58. Eu vi pela televisão. Era a transm issão inaugural da TV Continental. O j ogo foi narrado pelo Waldir Am aral. Esse foi o j ogo da célebre vaia no Julinho – os torcedores estavam revoltados porque o Garrincha não ia j ogar. Julinho entrou sob aquela vaia m aciça, que m al deixava ouvir o apito do j uiz. Entrou e, aos sete m inutos, fez um gol. O Maracanã parou de vaiar e com eçou a aplaudir Julinho. Cento e vinte m il pessoas, num gesto de grandeza, aplaudiam toda vez que ele pegava na bola. Mas não adiantou. Décadas depois, Julinho ainda dava entrevistas dizendo que nunca ia esquecer aquela vaia. Meu pai tam bém foi assim – nunca esqueceu.

Era estranho, para o m enino, pensar que a irm ã estava m orta e que, ao m esm o tem po, o Brasil estava em cam po, com Pelé, Didi, Bellini. O m undo existia e era colorido e alegre, um m undo com o um a expansão das peladas que ele j ogava no cam pinho, um m undo em que vestia a cam isa do Flam engo – com um núm ero 10 às costas, o 10 de Dida – e andava de bicicleta, onde havia um a estante cheia de livros e gibis, um cinem a na porta de casa para assistir a um film e por dia, os film es sérios, sobre os quais escrevia a m áquina nas fichas, e tam bém os seriados, Os perigos de Nyoka, A adaga de Salomão, O chicote do Zorro, Os tambores de Fu Manchu. Um m undo, sobretudo, em que havia m úsica, os velhos 78 rpm e os novos LPS, de dez e doze polegadas, sem pre rodando na vitrola da sala, Chico Alves, Orlando Silva, Harry Jam es, Glenn Miller, Doris Day, Frank Sinatra, girando, criando um a carapaça de felicidade que existiria de qualquer form a, m esm o que ele não quisesse, m esm o que resistisse. Mas o m enino não resistia. Ele se entregava. E sabia que, enquanto aquele escudo de beleza estivesse em torno dele, com o um super-herói dos quadrinhos, nenhum m al poderia lhe acontecer. Não precisava ter m edo de nada.