O Oitavo Selo

Heloisa Seixas · Capítulo 5 de 12

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O Oitavo Selo

Quarto Selo: Língua

Q UARTO SELO

LÍNGUA

Não gostei.

O pedaço de papel, tirado de um bloco pequeno, capaz apenas de cobrir a m ão de um hom em , estava sobre a m esa. No alto, a folha trazia im pressos o nom e do m édico e sua especialidade. Na extrem idade inferior, o endereço do consultório e os telefones. Mas o que interessava era o espaço entre um a coisa e outra, aquela superfície branca em que fora escrita a frase, feita às pressas, com caneta-tinteiro.

Não gostei.

Duas palavras, m ais nada, gravadas na polpa, m ínim os sulcos preenchidos com tinta – ali estavam , diante dos olhos da m ulher.

Depois de rabiscar, tão nervosas, a frase no bloquinho, as m ãos do m édico tinham destacado a folha e a tinham em purrado na direção dela, virando o papel de cabeça para baixo para que ela, à sua frente na m esa, pudesse ler. A m ulher ficou parada, olhando aquilo. Im óvel. Nenhum a palavra, nenhum suspiro, nem sequer um olhar de indagação m uda para o m édico, qualquer coisa que buscasse um com plem ento, um esclarecim ento, um a extensão. Não. A frase tinha j á um significado im enso. Por ora, era m elhor não perguntar nada, nem com os olhos, nem com a boca. As duas palavras ali escavadas se assem elhavam a um a inscrição de cinco m il anos, que um arqueólogo encontrasse depois de um a procura de décadas, um a vida inteira de dedicação e estudo. Duas palavras, um a sentença – sentença que é frase, m as é tam bém sinônim o de condenação.

Os olhos tolos da m ulher saíram , a custo, da contem plação da frase e erraram pela superfície de cristal da m esa, os blocos, o porta-canetas, a espátula. Nesse instante, as m ãos do m édico puxaram o papel. Silêncio. Era um a coreografia secreta, cena saída de um film e de espionagem , o agente que passa o recado para o com parsa, enquanto eles bebem , com o dois estranhos, no balcão de um bar. Ninguém fala, ninguém olha nos olhos.

Agora pareciam exaustas, as m ãos do m édico. No dorso dos dois dedos m aiores havia pequenos chum aços de pelos, bem escuros. Nos outros, não. No encontro entre as falanges, rugas form avam rodam oinhos. A m ulher se fixou em um a daquelas espirais, tentando não prestar atenção nos rum ores por trás do biom bo. Era o m arido se vestindo depois do exam e.

Os ruídos foram penetrando. Ela não queria, m as não podia evitar. Tecidos, suspiros, um pigarro. Rum ores de um a norm alidade absurda, indiferentes à sentença de duas palavras que fora inscrita no bloquinho. Enquanto ela se distraía por um m om ento com os m urm úrios do hom em , o m édico fez um gesto que ela não captou bem . E a folha de papel j á não estava à vista em cim a da m esa. Talvez tivesse sido em bolada e j ogada no lixo. O tam po de cristal voltava a ser apenas um tam po de cristal. Dele, desaparecera, ainda que apenas por um m om ento, a nódoa de terror.

Já vestido, o hom em saiu de trás do biom bo. Sorria, com o sem pre, em bora seus gestos denunciassem certa pressa. Queria ir em bora, voltar ao trabalho. Não podia perder m ais tem po com m édico, consulta, exam es. Ele não disse isso, m as pensou. E a m ulher ouviu. Depois de alguns anos j untos, as m ulheres com eçam a ouvir o que seus hom ens pensam .

O m édico com eçou a falar. Disse que ele precisava ver um especialista – e que tinha de ser logo. O hom em tentou argum entar, disse que estava m uito ocupado, que tinha um livro para escrever. Mas o m édico foi taxativo: precisava ser j á, naquele dia. E anunciou que ia ligar para o especialista, a fim de m arcar a consulta sem dem ora.

Pegou o telefone e pediu à secretária que fizesse a ligação. A partir desse instante, todo o cenário em torno da m ulher, o m édico à sua frente, a m esa de cristal, a j anela envidraçada às costas dele, com a linda paisagem do paredão do Corcovado, a m ata do Sum aré, o Cristo no alto – tudo foi m ergulhando na água. Era um a água fria, que ia subindo, com o nos film es, m ais um a vez com o nos film es.

Em pouco tem po, estavam subm ersos. Era um m undo de gelo e tam bém de silêncio – com o em toda cena subaquática, não havia sons. Mas ela lia perfeitam ente os m ovim entos labiais do m édico. Entendia tudo o que ele estava dizendo para seu colega, o especialista. Falava em linguagem cifrada para que ela e o m arido não entendessem – m as a m ulher captava tudo, sem querer. As m ãos do m édico seguravam com força o fone. Os pequenos tufos de pelos nos dedos m édios ali estavam , e os dedos brilhavam . O m édico suava, parecia nervoso. Ele está com medo.

Dentro d’água, a m ulher inspirava e expirava, bem devagar, tentando recuperar o controle da situação. Era um território irreal aquele, não fom os feitos para respirar na água. E de repente ela j á não sentia os pés. Nem os dedos da m ão, nem o couro cabeludo. Estavam todos adorm ecendo. De fora para dentro, seu corpo, contam inado pela água e pelo frio, desaparecia.

Voltou a prestar atenção na respiração, no ar que, apesar da água, insistia em penetrar nos pulm ões. Mas a dorm ência em seu corpo a invadia, devagar, sem pressa. E ela entendeu que ia desm aiar.

Essa constatação foi quase um insulto. Achou intolerável a ideia de um a m ulher, ao receber a m á notícia, desm aiar. Achava que isso só acontecia no cinem a. Era ridículo, um vexam e. Não podia deixar acontecer. Precisava recuperar o controle, de qualquer m aneira. Mas a água gelada continuava penetrando por seus poros, nada a detinha. Era questão de tem po.

Você está passando m al?

A voz do m édico, depois de desligar o telefone, atingiu-lhe os tím panos. O silêncio tinha sido rom pido. Mas a água gelada continuava lá. Conseguiu balançar a cabeça. Murm urou:

Estou.

O m édico se levantou e veio am pará-la, fez com que ela se deitasse na m esa de exam es. Ela, que estava ali apenas para acom panhar o m arido, ela, que devia ser forte, aj udar. Recostou-se com cuidado e, enquanto o m édico se preparava para lhe tirar a pressão, a m ulher ouviu a frase do m arido, dita com um a pontinha de im paciência, m as achando graça.

Ainda m ais essa…

Heloisa – Foi no verão, um a sem ana antes do Carnaval – que, naquele ano, 2005, caiu no início de fevereiro. Nós estávam os j untos havia quinze anos e eu conhecia Ruy m uito bem : ele não ficava doente nunca, não pegava nem resfriado. Mas, naqueles últim os m eses, vinha se queixando de um a sensação de congestionam ento na garganta, um pigarro que não passava. E, naturalm ente, não queria nem ouvir falar de ir ao m édico. Dois m eses antes, em dezem bro, depois de quatro anos de pesquisas, tinha com eçado a escrever Carmen, a biografia de Carm en Miranda – e, quando escreve, Ruy não quer saber de m ais nada, m enos ainda de ir a m édicos. Mas eu tinha notado um a coisa estranha: ele, que sem pre adorou com idas m uito salgadas, j á não notava se o feij ão viesse com m enos sal. Parecia estar perdendo o paladar. Foi por causa disso que insisti para m e deixar levá-lo a um clínico geral.

A consulta foi m arcada para o m eio-dia daquela sexta-feira, 28

de j aneiro.

Mais um a vez, os detalhes. O olhar da m ulher se fixava nos detalhes, com o se buscasse neles um a salvação. Agora, era o pequeno vaso de flores, de vidro transparente, tendo um ram inho de m argaridas, em tam anho m inúsculo, que pareciam de m entira. Mas eram de verdade. Havia, no fundo do vaso, dois dedos de água; a planta só podia ser de verdade.

Tinham saído do consultório do m édico e precisavam fazer hora para ir, às duas da tarde, ao especialista. Conversavam com o se nada estivesse acontecendo. Chegaram os sanduíches, os refrigerantes. Em torno, o am biente era conhecido, acolhedor, o café da livraria que eles tanto frequentavam , onde se sentiam abraçados, sem pre. As livrarias são lugares de am or, ele dizia. Quando estou em um a livraria, tenho certeza de que nada de m au pode m e acontecer aqui.

—

Não é caso de operação.

A frase, dita pelo m édico, ainda segurando a pistola com um a m icroscópica câm era na ponta, parecia um a boa notícia. Mas não era. O hom em não sabia, m as a m ulher, sim . Ela prestava atenção em tudo. Prestava atenção em coisas dem ais. Os detalhes, sem pre os detalhes. Aquelas antenas que pareciam contar tudo o que não queria saber – não paravam de captar sinais. Os m édicos não m entem , apenas om item . Os m édicos só dizem aquilo que o paciente pede para ouvir. Há os eufem ism os, os disfarces. Especialista, não oncologista. Nem câncer nem tum or – lesão.

Pelo m enos agora, a m ulher sentia os pés bem plantados nas laj otas brancas, não havia a sensação de água ou gelo. Sabia onde estava pisando. Subitam ente, sentia-se pronta.

A frase significava que não era possível operar mais. Já era tarde para isso. Em bora as palavras não fossem ditas por inteiro, e as expressões escolhidas para não provocar choque, a m ulher entendia.

Tudo bem , hoj e em dia o câncer não significa m orte. É o que dizem . Há tratam ento, não é um a sentença. Mas é preciso detectar logo. E evitar a todo custo que se espalhe.

O especialista guardou a pistola com a câm era na ponta e pegou um a seringa gigante, com um a agulha com prida. Explicou que ia fazer um a punção, tirar um pouco de líquido para um exam e m ais profundo. Nesse m om ento, foi sincero: A biópsia é apenas para ter o atestado por escrito, porque o diagnóstico j á está feito. Eu não tenho nenhum a dúvida.

Disse que a lesão no pescoço não era prim ária. Outro eufem ism o. A m ulher sabia o que aquilo queria dizer: o tum or no pescoço era um a m etástase – palavra quase tão terrível quanto câncer.

Isso j á está aqui há algum tem po – com pletou o m édico. Seis m eses, pelo m enos.

—

Naquela noite, um a sexta-feira, fizeram o que sem pre faziam . Cam inharam pelas ruas do Leblon, tom aram sorvete, chá, café. Mexeram em livros e discos, conversaram , riram . Depois, em casa, sentaram -se no sofá de dois lugares, forrado de um tecido verde-m usgo, um pouco áspero, para assistir a um film e. Estavam j untos, lado a lado no sofá, sem dizer nada. O gato preto e branco, gordo, j á se aninhara no tapete, sob a m esinha de centro. O film e com eçou. Na penum bra, a m ulher espiava o hom em com o canto do olho, entre um a cena e outra. Via os cam inhos que a fum aça do cigarro traçava no ar. Eram cam inhos tortuosos, incertos. Ele segurava o pequeno cilindro branco entre os dedos, depois de acender com o isqueiro de m etal prateado, cuj a tam pa se abria para o lado, com um estalo. Havia em todos os gestos dele um a elegância, fruto da intim idade de m uitas décadas. Não conseguia im aginá-lo sem um cigarro entre os dedos. Mas am bos sabiam que aquele seria um dos últim os.

Ele vai conseguir, pensou a m ulher. Vai parar de fum ar, assim com o parou de beber. Vai se tratar e ficar bom .

Ela queria m uito acreditar nisso.

Depois de alguns m inutos, o hom em se inclinou para a m esa de centro e esm agou o cigarro contra o cinzeiro de cristal azul-m arinho, estalando os dedos no ar para afastar o calor da últim a brasa. A m ão veio então repousar na coxa dela. A m ulher a acariciou.

Aquelas m ãos tinham sido a prim eira coisa que ela apreciara nele. Antes do sorriso, antes m esm o das palavras. Lem brava-se bem daquela noite no restaurante de frutos do m ar, no Lem e, os dois e a am iga em com um que os apresentara – sentados, conversando, rindo m uito. Ele se sentara diante dela, com os braços cruzados, um a das m ãos desaparecida sob a axila, a outra abraçando o om bro oposto. Ela se fixara naquela m ão. A pele m orena, os dedos benfeitos, o polegar com a base carnuda. Foi a prim eira vez em que se lem brou da frase da am iga sobre os hom ens de polegares fortes, parecendo um a coxa de galinha. “São gostosos. São bons de cam a.” Teve de conter o riso. Ele continuava olhando para ela, com um olhar que parecia perscrutar seus pensam entos. Os dois falavam , ela m ais do que ele. Por algum a razão, tinha surgido o assunto de um a viagem que ela fizera anos antes. Eram histórias engraçadas, ele ria. O rosto ria, m as o olhar não. O olhar era sensual, com o se estivesse im aginando coisas. Era com o se ele a desnudasse. Com o se fossem fazer am or ali m esm o, em cim a da m esa, no m eio do restaurante, os corpos lam buzados de paella. Ela ria tam bém , contando as aventuras da viagem , enquanto lhe passavam pela m ente, entrecortadas, essas cenas lúbricas, m as com um toque de com icidade.

Poucas sem anas depois, lá estavam eles, de novo j untos, e rindo outra vez. Sentados em um banco na praia do Arpoador, não apreciando o m ar ou o horizonte, m as observando as pessoas que passavam e torcendo para que pisassem em um cocô de cachorro que tinham avistado nas pedras portuguesas. Com o se fosse um a gincana.

Aquele lá. Aposto que vai pisar.

O hum or, o sorriso e o prazer que vinham dele foram m arcas, desde sem pre. Faziam m uitas coisas quando estavam j untos. Mas, sobretudo, riam .

No sofá verde-m usgo, a m ulher apertou a m ão do hom em entre as suas e olhou para a frente, tentando se concentrar no film e. Mas de vez em quando tornava a espiar o rosto dele. Estranho pensar que ali, por trás daquela pele, encravado na carne, crescia um m onstro assassino. Células enlouquecidas, m ultiplicando-se, tom ando tudo – a m atéria voraz. Estranho pensar que partículas tão pequenas dele próprio, rebeladas, se transform avam em nódulos, em vários nódulos, quase inteligentes em sua determ inação de m atar, com unicando-se entre si para espalhar o m al, com o as crianças alienígenas de Midwich. A aldeia dos amaldiçoados era com o se cham ava o film e. Crianças vindas do espaço, plantadas no ventre das m ulheres da aldeia, m eninos e m eninas que cresciam e assustavam , com seus cabelos brancos e olhos m ortos. Tinham um poder de intercom unicação que era sobrenatural: quando um aprendia um a coisa, todos aprendiam . Os tumores também são assim.

Ruy – Eu j á tinha desafiado a m orte outras vezes. Tinha cheirado m uito, bebido todas e passara por m uitos apertos sem sentir m edo. Mas aquilo era diferente. Nunca ficava doente, nem sabia o que era isso. Ia fazer cinquenta e sete anos e estava com eçando a escrever o livro m ais im portante da m inha vida. Não podia m e dar ao luxo de m orrer.

A m ulher term inou de espalhar no rosto a pasta branca e se olhou, antes de enfiar a bola verm elha no nariz. Da sala e dos outros quartos, vinha o alarido dos am igos, que tam bém se aprontavam . Estava quase na hora. Não era a prim eira vez que ela ia desfilar em um a escola de sam ba. Já tinha desfilado m uito, em várias escolas, sem pre com os am igos. Mas naquele ano era diferente. Porque ela guardava um segredo.

Era um segredo escuro, pesado, acha de lenha tirada de um bosque som brio. Precisava carregá-lo sozinha, no m eio da festa, e isso era o m ais difícil. A alegria não respeita a dor. É inoportuno, inadequado, sofrer no Carnaval.

Encaixou a bola verm elha. Retocou a pontinha preta da sobrancelha pintada, exagerada, form ando um gigantesco acento circunflexo. E, por últim o, enfiou a peruca am arela, com o chapeuzinho no alto, azul e branco. As cores da Portela. Nunca tinha desfilado pela escola de Madureira, tão querida dela própria. Pena que acontecesse assim . Olhou para baixo, para a calça larga, quadriculada, com a cintura de aram e, pendurada nos suspensórios e balançando. Era com o se seu segredo estivesse ali dentro, escondido, um coração de chum bo. Mas precisava ser desse j eito. Ninguém podia saber. Se ela anunciasse que não ia m ais desfilar, os am igos desconfiariam . E os dois não queriam que ninguém soubesse. Tinham decidido m anter tudo em segredo. Ela aprontou o sorriso e saiu do quarto. O segredo ia j unto, na boca do estôm ago.

Quando a escola entrou na avenida, as luzes e os sons form aram em torno dela um a m assa com pacta, am eaçadora. Sentia um torpor. Fazia m uito calor sob aquela roupa de palhaço, m as a m ulher tinha a im pressão de estar cam inhando na neve fofa, por um descam pado sem fim , o coração opresso pela certeza de que não ia conseguir, de que ia sucum bir. Frio, doença, m orte – eram sua fantasia naquela noite. Pensou no conto de João do Rio, da m ulher sem nariz que só gozava no Carnaval, “O bebê de tarlatana rosa”. Ela era aquela m ulher, só que às avessas – sob seu nariz falso, não havia gozo, só pavor.

Ela não tivera tem po de aprender direito a letra do sam ba. Não cantava, só fingia. A letra que lhe vinha à cabeça era outra, m uito antiga, do início dos anos 80, de um ano em que a Portela fizera um desfile horroroso com um sam ba lindo. Essa onda que borda a avenida de espuma e me arrasta a sambar. Era isso. Um a onda, um a espum a azul e branca, um rodam oinho quase lilás, porque o dia vinha querendo nascer. E ela pensando na m orte, na m orte e na m orte. Com eçava a surgir dentro dela a certeza de que ele ia m orrer.

Pensava em ligar, perguntar diretam ente ao m édico, m as lhe faltava coragem . Guardaria a dúvida dentro do peito, com carinho, com desvelo, a dúvida seria sua aliada nos m eses seguintes. A dúvida estava ali agora, debaixo da roupa de palhaço, desfilando com ela e com o chum bo da dor escura. Mas era m elhor do que a certeza. Era câncer. Era antigo. Era inoperável. E atingira os gânglios linfáticos. Metástase. Era a m orte, não podia haver dúvida. Incrível, nunca poderia im aginar que ele ia m orrer um dia – a m orte não com binava com ele. E m enos ainda de câncer. Dizem que tem câncer quem guarda rancor, quem não diz o que pensa, rem ói. Câncer era para ela, não para ele. Ele poderia ter um enfarte e cair m orto, isso sim , m as câncer, não.

Piscou os olhos. As luzes em torno estavam borradas, disform es, o m undo parecia derreter j unto com a m aquiagem . Não era pesadelo, era real. Nada podia apagar a verdade horrível. Passou a m ão na pele encharcada de suor e pasta branca. Já fazia um a sem ana que ela saíra do consultório com aquele pedaço de papel pregado na testa. Não gostei.

Heloisa – Tenho tudo escrito, guardado. Tenho até o calendário daquele ano, com os dias circulados de verm elho. Entre 28 de j aneiro, o dia do diagnóstico, e 4 de outubro – o dia em que Ruy pôs o ponto-final no livro Carmen – foram trinta e quatro sessões de radioterapia, num total de noventa e três irradiações, sete sessões de quim ioterapia, com vinte horas de aplicações, vinte e nove consultas m édicas, quinze idas ao dentista, cinco biópsias, cinco exam es de sangue, duas ressonâncias m agnéticas, duas chapas de pulm ão, um a endoscopia, um a cirurgia com duas passagens pelo centro cirúrgico, seis dias de internação, dezesseis

punções para tirar líquido do pescoço e sessenta e um a sessões de fisioterapia. E Ruy fez tudo isso enquanto escrevia o m aior livro de sua vida.

O hom em se encostou no ponto em que a pia da cozinha form ava um canto, e fechou o punho. Era assim que se postava toda vez que ia com er. Com er, não. Ingerir alim ento. Não se podia cham ar aquilo de com er. A alternativa seria fazer a gastrostom ia, colocar o tubo ligado direto ao estôm ago, ser alim entado por sonda. Era o que a m aioria das pessoas fazia, m as ele não. Queria resistir até onde fosse possível. Por isso ficava assim parado, com o um gato acuado, esperando o ataque.

Antes de cada um a daquelas refeições, gargarej ava com um líquido verm elho, m istura de várias drogas, entre as quais um derivado da xilocaína, a fim de anestesiar o cam inho. Às vezes, nessas horas, pensava na irm ã. Varizes no esôfago, o cam inho do alim ento. Ela também não podia comer.

A em pregada chegou com o copo alto, o copo de m ilk-shake, igual aos do Bob’s, de que ele tanto gostava. Mas agora o que ia acontecer não tinha relação algum a com prazer.

Carpete batido – disse ele, rindo. Isso que eu tom o parece m ilk-shake de carpete.

A em pregada riu tam bém . Em seguida, ele fechou ainda com m ais força o punho – e virou o copo. Quanto m ais depressa acabasse, m elhor.

E o líquido desceu pela garganta em carne viva.

Heloisa – Durante os prim eiros três m eses de tratam ento, por causa das queim aduras da radioterapia, que era diária, Ruy só bebia líquidos. Em agreceu doze quilos. Chegou a interrom per o tratam ento por dez dias porque a pele do pescoço ficou em carne viva. E ele dizia: Im agino com o não está do lado de dentro! Sofria tam bém com a quim ioterapia, que fazia um a vez por sem ana. Não tinha enj oo, m as no dia seguinte sentia fraqueza, alternando com um a sensação de intoxicação, com o se tivesse ingerido algum a coisa radioativa.

Era para ser um passeio. Coisa sim ples, apenas um a volta de carro, um arrem edo de tantos m om entos gostosos que tinham passado j untos até então. Era sábado e fazia sol. Há sem anas não viam ninguém , não iam a lugar algum a não ser a hospitais, laboratórios, consultórios. Eram , os dois, um círculo fechado, feito de esperança e pavor. Ele estava cansado, a sessão sem anal de quim ioterapia fora na véspera, m as ela insistiu. Tenho certeza de que um a volta de carro lhe faria bem , disse. Os vidros fechados, o ar ligado, o aparelho de som tocando Tom Jobim ou Blossom Dearie. Lá fora, as praias, o m ar, as pessoas felizes pelas ruas, aquelas pessoas que habitavam um m undo de sons e cores, um m undo despreocupado, onde ninguém fica doente nem m orre. Ele aceitou ir.

Tom aram banho e saíram . Pegaram o elevador dos fundos, que ia dar na garagem . Ela abriu o carro, tom ou posição ao volante, encaixou o cinto e olhou para o hom em , sentado a seu lado. Ele sorriu, m as parecia m ais cansado do que nunca.

Você não vai acreditar. Mas estou sentindo um arrepio – disse ele.

Um arrepio?

É.

Ela desligou o m otor que acabara de ligar. Encostou a m ão na testa dele. Estava m uito quente.

Era estranho, porque, m inutos antes, ela segurara o braço dele e estava com a tem peratura norm al.

Não vam os m ais sair.

Fecharam o carro e tom aram o elevador de volta. Assim que entraram , ele foi até a sala e se sentou na poltrona j unto à j anela. Ela olhou para ele. Estava trem endo. Tinha trancado os m axilares, m as o queixo vibrava.

Vou pegar o term ôm etro – disse a m ulher. Mas, antes que se afastasse, viu que de repente ele trem ia m ais e m ais, o corpo inteiro tom ado por um m ovim ento convulso, incontrolável.

A m ulher foi correndo até o banheiro e pegou o rem édio para febre. Deixou para pegar o term ôm etro depois. Tinha certeza de que a tem peratura dele estava m uito alta. Im pressionante com o a febre se instalara de repente. As infecções fazem isso.

Voltou à sala com o copo no qual pingara as trinta gotas do antitérm ico. O hom em agora era todo ele um vulcão a ponto de explodir, sacudido da cabeça aos pés por um a vibração crescente. A m ulher estendeu o copo, m as ele não conseguiu segurar. Ela precisou firm ar a m ão dele para que o líquido não derram asse e, ao fazer isso, sentiu a pele da m ão com o brasa. Tentou controlar o pânico. Mas ele, antes de dar o prim eiro gole, olhou para ela por cim a do copo e disse, brincando:

Juro que eu não bebi!

Heloisa – Ruy teve flebite na veia do braço, com um a febre de m ais de quarenta graus, que o deixou trem endo com o se estivesse com m alária. A m édica explicou que foi um a bactéria que penetrou no braço através da agulha da quim ioterapia. Eu nunca tinha visto nada parecido.

De olhos fechados, o hom em esfregou o xam pu na cabeça, fazendo um a carapaça de espum a. Esfregou e esfregou, com toda a força de que era capaz, para só depois, quando a espum a j á com eçava a ganhar solidez, reentrar sob o j ato d'água. A espum a agora escorria para o chão, para o ralo, em gotas pesadas, ele sem pre com o rosto virado para cim a, exposto à água, os olhos fechados. Quando sentiu que o cabelo j á estava com pletam ente enxaguado, abriu os olhos devagar, recuando um passo para que o j ato não caísse em cheio sobre seu rosto. E foi nesse instante que sentiu a vertigem .

Deu m ais um passo para trás, am parou-se na parede do boxe. Não entendeu bem o que estava sentindo. Mas, por um m om ento, sob o chuveiro, sentiu com o se um a faca – um a lâm ina m ovida pela m ão de um duende – lhe ferisse a garganta. A essa sensação absurda de estar sendo ferido, seguiu-se outra, esta j á sua conhecida: a im pressão de estar indefeso. Na verdade, sem pre se sentira assim durante o banho. Com o se, sob a água, estivesse fragilizado, incapaz de se manter no controle. Respirou fundo, j á estava passando. Não era nada, apenas um a sensação, um susto. Ainda não sabia que a sensação voltaria, m uitas vezes, e não apenas no banho. Ainda não sabia que aquela sensação de um a faca na garganta era a m aterialização da ansiedade m ais aguda. Da angústia.

—

Eles ficavam m uito em casa, a vida paralisada. Quase só saíam para as sessões de radioterapia, que eram diárias. Pegavam o carro, ela dirigindo, e tom avam a rua arborizada que subia pela encosta do Corcovado, em direção à clínica, no m eio da m ata. Era um a sensação agradável passar por aquela região, todos os dias, atravessando ruas de figueiras e j aqueiras centenárias, m anhãs de outono no Rio. Era quase bom .

Mas, quando em casa, o hom em estava sem pre trabalhando, trabalhando. E foi assim que, em um desses dias, a m ulher resolveu fazer um a arrum ação nos arm ários, para aj udar a passar o tem po.

Com eçou por um com partim ento em que havia m uitas pastas de docum entos, exam es m édicos antigos, papéis. Estava tudo desorganizado, e ela, achando que havia ali m uita coisa que j á não precisava ser guardada, com eçou a abrir os envelopes um a um , inclusive aqueles grandes, trazendo exam es de im agens, ultrassonografias ou chapas de pulm ão. Olhava as datas do lado de fora dos envelopes, abria, lia os laudos e espiava os film es negros, com suas m anchas incom preensíveis.

De repente, ao puxar de dentro de um envelope um a chapa de pulm ão, sustou o gesto. Ficou im óvel por alguns segundos. Só depois, aos poucos, continuou puxando para fora do envelope aquela m atéria escura, onde se delineava a m ancha frontal de um corpo, os pulm ões bem visíveis, a linha dos om bros, a curva acim a da clavícula se fechando para form ar o pescoço. E bem no centro deste, atravessando a garganta de um lado a outro, com o se cravada ali por um louco assassino – um a faca.

—

Lem brava-se bem daquele dia. Fazia m uito tem po, cinco ou seis anos. O hom em andava sentindo um as dores nas costas, m as acreditava – e o m édico que o atendera tam bém – ser apenas um m au j eito, m isturado talvez com um pouco de cansaço. Pelas dúvidas, o m édico sugerira que ele fizesse um raio X do tórax.

A m ulher foi com ele. Enquanto o hom em estava lá dentro fazendo o exam e, ela ficou sentada na sala de espera vazia. Folheou revistas tolas, pensou, pensou, observou as próprias m ãos. Com eçava a achar que estava dem orando m uito, quando um a porta se abriu e um enferm eiro, vestido de azul, veio cham á-la. Seguiu o rapaz por um corredor com prido e, lá dentro, em um a saleta, encontrou o hom em sentado, sorrindo.

Aconteceu um a coisa estranha, disse ele.

O que foi?

Quando revelaram o film e, apareceu um a faca na m inha garganta. O quê?

Um a faca. Você vai ver.

Tinha acabado de falar quando o m édico entrou na sala, com um a chapa de raio X na m ão. Enfiou a chapa em um quadrado de vidro que havia na parede e acendeu um interruptor. A chapa se ilum inou: m ostrava o tórax de um hom em , frontal, a linha dos om bros, o pescoço. E um a faca cravada na garganta, atravessando a carne, de um lado a outro.

Aconteceu um a coisa m uito estranha.

A voz do m édico quebrou o silêncio. Era a m esm a frase que o hom em dissera pouco antes. O m édico continuou:

O radiologista m e cham ou para ver e tiram os um a nova chapa, que, claro, está norm al. A única explicação é que essa faca tenha vindo im pressa no film e, um acidente, um … não sei.

A m ulher chegou m ais para a ponta da cadeira. Era um a faca com um , de cozinha, de ponta fina, com cabo de m adeira e dois parafusos, perfeitam ente visíveis. Estava na base do pescoço, atravessando-o por inteiro, exceto pela pontinha, que extravasava a pele, à esquerda. O m édico recom eçou a falar:

Mas é difícil de entender, porque a chapa de raio X vem selada da fábrica, e não há com o botar um a faca dentro do aparelho.

E virando-se para o hom em :

Sabe que, por um m om ento, cheguei a pensar que a faca estivesse realm ente cravada no pescoço do senhor? É incrível! Nunca vi nada igual!

—

Sentada no chão do quarto, diante do arm ário, a m ulher continuava a olhar para aquela velha chapa de pulm ão, de um tem po em que não havia doença ainda, não havia dor. Na ocasião, os dois tinham saído do laboratório rindo m uito, levando a chapa com o um troféu, para m ostrar aos am igos. Depois, o raio X ficara esquecido, no fundo do arm ário. Nunca m ais tinham pensado nisso. Nem feito algum a associação com o que estava acontecendo agora. O tum or. Mais do que o tum or, a sensação de que o hom em se queixava – e a m aneira com o ele a descrevia: a angústia que se parecia com um a faca na garganta.

Heloisa – Facas, agulhas, carne viva. Ruy sofria. Mas passava o dia escrevendo, horas e horas, com o se assim estivesse dentro de um a redom a, a salvo de todo m al. Não havia cansaço, nem dor. Era com o se ele fosse só um cérebro, usando aquele corpo alquebrado para se m anifestar. O corpo era seu cavalo.

Ruy – Eu estava exatam ente no que seria a página 89 do livro (Carmen – uma biografia) quando recebi o diagnóstico de câncer na base da língua. Era o quinto capítulo. Tudo o que foi escrito dali para a frente, todas as quase quinhentas páginas seguintes foram feitas durante o tratam ento. Eu tinha de conseguir. Não podia decepcionar a Carm en.

Escrever. Escrever para não perder a sanidade, para não m orrer. Afinal, não fora assim que acontecera com ela própria, desde o princípio? A m ulher sabia. Quantas vezes j á não confessara – um pouco constrangida, é verdade – que tinha com eçado a escrever por um ato de covardia, não de coragem ? Pelo m edo puro e sim ples de m orrer se não o fizesse? Aquele mundo de histórias, que eu me contava desde criança, tornara-se tão denso, tão compacto, que eu tinha certeza de que estava a ponto de se solidificar e me matar, como um câncer. Então, cortei a carne e deixei correr a estranha seiva.

A m ulher sabia.

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Não parar, não pensar, ser apenas um punhado de recordações, lembranças desconexas, sabores, cores, cheiros. Desfiar delícias como se recitasse um mantra, deixar que cada uma das sensações vá entrando pelas narinas, pelos olhos, pela boca, pelo sexo – fluindo através desse corpo imaginário que é a memória. Um calor de pedra nas costas, os olhos fechados, o som grave das ondas que batem na praia com mansidão, o ruído metálico dos pássaros. Camarão frito, gosto de suor, maresia. O martelar distante do motor de uma traineira, algumas vozes, uma risada. Sol, muito sol. Mas também muitos crepúsculos. A areia dourada vista de um quiosque em Geribá, o brilho se esbatendo praia afora, até dar no morro sombrio, com seus cactos que parecem um exército de fantasmas. O mesmo dourado em Ipanema, numa tarde em que o mar do Arpoador é um aquário transparente com seus cardumes de pequenos peixes, mar que se esqueceu sobre a areia e formou piscinas, onde os retardatários – aqueles que realmente amam a praia – se deixaram ficar, sentados com água pela cintura. Mate, limãozinho, biscoito Globo. E ainda o mar. Um mar todo ouro, todo tremulinas, visto da ponta de Montserrat, junto a uma das igrejas mais velhas da Bahia, com o sol batendo em suas paredes caiadas e fazendo arder a vista. Um gosto de pitanga, de sorvete de pitanga da Ribeira. Ou uma tarde no Douro, às margens do rio, vendo o casario antigo morro acima, a ponte de ferro, o avanço lento das barcaças. Ou ainda uma tarde no Trastevere, por entre ruelas e fontes, com um sol romano, frio e preguiçoso, que se deita sobre as pedras, iluminando as flores nas sacadas como numa pintura. Uma livraria inglesa, um cheiro bom de papel. Uma tarde em São Marcos, já quase vazia àquela hora, o sol brilhando nas cúpulas bizantinas da catedral, fazendo seus mosaicos se multiplicarem, enquanto os primeiros pontos de luz se acendem nas mesas dos cafés. Um som de bossa nova, um gosto forte de café e licor. Mas não só crepúsculos, também muitos nasceres de sol, muitos dias nublados – muita chuva. Um banho sob o jato de uma calha, em meio a um temporal de verão, desafiando os trovões, uma sensação de poder, de indisciplina – uma sensação de ser criança. Um filme de Woody Allen, um filme, muitos filmes, conversas, risadas. Uma roda de samba, um Carnaval inteiro, uma noite de bambas na velha gafieira transformada em centro cultural. Pastéis, sopa de siri, caldinho de feijão. Passeios casuais por entre livros, novos e velhos, a doce poeira dos sebos na ponta dos dedos. Um vatapá, uma bouillabaisse, um prato de m oules com batatas fritas no Le Gorille, olhando a vista do porto velho de Saint-Tropez, um jantar à luz de velas numa noite fria de verão europeu. Paris. Um abraço à meia-noite, um Ano-Novo em Copacabana. Uma carícia, uma barba cerrada, um cheiro de lavanda. Um beijo. Um milhão de beijos. Apenas um milhão de beijos depois. Sempre.

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A m ulher ia entrando na cozinha quando ouviu o ruído. Parou. Era um ruído estranho, inquietante. Nunca tinha ouvido aquilo antes. Então se lem brou do texto que escrevera na revista. Mantra. Era m anhã de dom ingo, o hom em estava com os j ornais. Na certa, acabara de ler. A m ulher deu m ais alguns passos, se esforçando para que ele não percebesse sua aproxim ação. Apurou os ouvidos. E então teve certeza. Eram m esm o soluços. Pela prim eira vez, em m ais de quinze anos, ela testem unhava aquilo.

Ele estava chorando.

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O garçom trouxe o prato e colocou diante dele. Um prato pequeno, com quatro form inhas brancas e, dentro de cada um a delas, um a em pada dourada, a película de gem a de ovo, endurecida pelo forno, am eaçando rachar, com o um a pintura renascentista. Eles sorriram um para o outro. E o hom em pegou a prim eira.

Levou à boca, deu um a dentada. A m assa esfarelou-se, liberando o recheio pastoso, quente, am arelo, trazendo j unto um pedaço grande de cam arão. O hom em m astigou, engoliu. Os olhos alegres diziam o que ele estava pensando. Consegui.

Era o que ele cham ava de “o teste da em padinha”. Depois de quase três m eses fazendo sessões diárias de radioterapia, depois de perder com pletam ente a capacidade de produzir saliva e de sentir sabor, ele estava de volta. Com er aquela em pada, que ele tanto adorava, era um a espécie de libertação. Sabia que ainda ia enfrentar m uita coisa. Um a cirurgia, por exem plo. Mas com er aquela em padinha era um a questão de honra. Em contraposição à m aciez do recheio, a m assa de um a em pada é sem pre esfarelada e seca, difícil de engolir para alguém em sua situação. As papilas gustativas, destruídas pela radiação, se recuperam , m as as glândulas salivares, não. O que é queim ado – está perdido. De form a definitiva. Por isso ele parecia tão satisfeito. Vitorioso. As dele não estavam m ortas.

Olhou em torno, com o a pedir aprovação e aplauso do restaurante inteiro. A m ulher olhou tam bém . E foi quando eles viram , em um a das m esas, lá no fundo, um a senhora sentada ao lado de um a am iga, parecendo tam bém m uito feliz. Eles a reconheceram de im ediato: tinham cruzado com ela m uitas vezes na antessala da radioterapia. Os dois se entreolharam , adm irados.

Ela tam bém veio fazer o teste da em padinha – disse ele, rindo.

E nesse instante, o hom em se deu conta de que o restaurante onde estavam , com sua em pada deliciosa, cham ava-se Caranguej o.

O sím bolo do câncer.

Heloisa – No dia em que se internou, 31 de m aio de 2005, para fazer a cirurgia de esvaziam ento cervical, depois de quase três

m eses de quim ioterapia e radioterapia, Ruy levou, para reler, todos os capítulos de Carmen escritos até então. Eram dezoito. E não parou de trabalhar um segundo enquanto esteve internado. O esvaziam ento cervical é um procedim ento cirúrgico violento, quase com o arrancar um pedaço do pescoço, para evitar que restasse algum gânglio infectado. Durante os dez dias em que ficou internado, Ruy tinha um dreno no pescoço, para im pedir o acúm ulo de líquido e sangue provocado pela cirurgia. Tinha de passar as páginas im pressas – centenas delas – com cuidado. Ao fazer as correções à m ão, debruçado, o tubo do dreno se m ovia, ondulava com o os quadris de Carm en Miranda.

Montgom ery Clift am arrou a balsa na m argem com um a corda e pulou, saltando sobre o chão arenoso da ilha. Depois tom ou o cam inho em direção à casa, um a espécie de picada ladeada por capim alto, ressecado. A paisagem era inóspita. O lugar – a terra, a vegetação, a casa de m adeira que avistou de longe –, tudo conspirava contra ele, com o se o am biente estivesse determ inado a expulsá-lo dali.

Recostado na cam a, o hom em tentava erguer o rosto para se concentrar nas im agens do film e. Passando pelos canais, dera com um a cena de Montgom ery Clift tom ando a balsa e reconhecera de im ediato: era Rio violento, film e de Elia Kazan, de 1960. Com Lee Rem ick, fabulosa atriz. Era a história de um a fam ília que se recusava a deixar sua casa em um a ilha fluvial, que seria inundada por um a barragem . O hom em apertou os olhos. O aparelho de televisão, preso à parede por um suporte de m etal preto, fora colocado m uito alto, a posição era incôm oda, ainda m ais pela atadura que dava várias voltas em torno de seu pescoço. Sentia-se costurado, preso, oprim ido. Montgom ery Clift seguiu em frente, aproxim ou-se da casa. As paredes de m adeira da varanda eram escuras, com o se a casa em ergisse intacta de um incêndio que a tivesse crestado sem destruir. As roupas da velha, sentada em um a cadeira de balanço, tam bém eram escuras, e seu sem blante um a conj ugação de desprezo e raiva. O hom em se m exeu na cam a. Com eçava a sentir a respiração difícil, com o se o ar não lhe preenchesse os pulm ões por inteiro ou com o se, ao expirar, restasse sem pre nos cantos escuros um pouco de ar viciado, carbônico. Envenenado.

Inspirou com m ais força. A parte superior do tórax e o pescoço tentaram em vão se expandir, com o Montgom ery Clift tentava, tam bém em vão, convencer a velha a abandonar a casa, fadada a ser coberta pelas águas do rio. Água. Água subindo lentam ente, ocupando tudo, encharcando o solo, dobrando o capim , subindo pelos cam inhos e beij ando o m adeiram e do alpendre, degrau a degrau, galgando, em papando as tábuas corridas, penetrando por debaixo da porta, m olhando os pés da bruxa envolta em seu xale escuro, e ela im óvel, esperando, decidida a m orrer na casa onde vivera a vida toda, pronta para receber o líquido frio que a envolveria, corpo acim a, pescoço acim a, até alcançar o queixo, a boca, o nariz. Até sufocar.

Era isso: sufocar. O hom em j á m al conseguia respirar. Quis erguer-se, esquecendo que estava conectado a vários dutos, soro e dreno, líquidos que entravam e saíam , am arrando-o à cam a. A m ulher acorreu, perguntou o que estava acontecendo, ele balbuciou algum a coisa sobre o film e e estendeu o braço para pegar o controle rem oto que ficara sobre o anteparo lateral da cam a. Era com o se a água de um rio selvagem o cercasse, fosse tom ando tudo, encharcando os pulm ões, a água que o dreno fincado no pescoço tentava em vão escoar. Sufocava.

A m ulher notou que a respiração dele estava entrecortada, difícil.

Você quer que eu cham e a enferm eira?

Não. Já vou m elhorar – disse o hom em .

E desligou a televisão.

Heloisa – Depois que saiu do hospital, Ruy teve de voltar diariam ente ao consultório do m édico para fazer punções, porque, com o sistem a linfático com prom etido, o líquido tornava a se acum ular em torno da cicatriz, inchando o pescoço e o rosto, que ficava deform ado. Houve dia em que ele teve de ir duas vezes ao consultório, porque, poucas horas depois da punção, o inchaço j á tinha voltado. E, enquanto tudo isso acontecia, continuava escrevendo. Foi assim que escreveu os doze capítulos de Carmen que ainda faltavam .

A m ulher estava trabalhando quando o telefone tocou. Era ele.

Acabei.

Por um segundo, ela não entendeu.

Acabei de botar o ponto-final no livro. Queria ler para você o últim o capítulo.

A m ulher aquiesceu. E ele com eçou a ler.

O caixão foi levado para um carro do Corpo de Bombeiros, que tinha as partes metálicas cobertas de preto. Passara-se uma semana desde a morte de Carmen em Beverly Hills na madrugada de 5 de agosto, e ela estava de volta para que se cumprisse outro desejo seu: o de ser enterrada no Brasil.

A voz do hom em , descrevendo o fim de Carm en Miranda, estava firm e, a princípio. O trabalho excessivo e m assacrante a que ela se subm eteu, os com prim idos para dorm ir, o álcool, a loucura, os choques elétricos. A m ulher que sorrira até o últim o instante, cuj o coração chegara a falhar no program a de televisão com Jim m y Durante, m as que se erguera – Fiquei sem fôlego! – porque o show precisava continuar. A m ulher que fora m orrer sozinha em seu quarto, para não estragar a festa, não im portunar seus convidados. A m ulher por quem o hom em se apaixonara, que tinha algum a coisa dele próprio, sua obsessão pelo trabalho, sua loucura, sua capacidade de m ergulhar cada vez m ais fundo, m esm o que fosse para, um dia, não m ais voltar. Naqueles m eses terríveis, fora ela, Carm en, quem lhe dera força, quem lhe salvara a vida. E era dela que precisava separar-se agora.

Como afluentes humanos que desaguavam pelas transversais de Botafogo, gente de todas as idades, cores e categorias sociais continuava engrossando o cortejo – ao todo, seriam centenas de milhares –, cantando os sambas e marchinhas. Nos braços do povo, Carmen Miranda vivia o seu maior Carnaval.

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No segundo entre a últim a sílaba e o clique do telefone, ela ouviu os soluços. Ele tinha desligado sem se despedir. A m ulher entendeu. Eles dois sabiam o quanto tinha custado escrever aquele livro.

E ela se lem brou da história de Oscar Wilde, que seu pai lhe contava quando era criança: do rouxinol que cravava o peito no espinho da roseira para fazer nascer um a flor em pleno inverno, um a flor que o estudante apaixonado daria de presente à sua am ada. A história acabava m al. O estudante acordava, colhia a rosa – espantado com aquele m ilagre, de um a flor nascida da noite para o dia, de um arbusto seco – e ia correndo dar à nam orada. Mas a m oça, cheia de soberba, desprezava o gesto. O estudante, desesperado, atirava então a rosa no m eio da rua e a flor era esm agada pela roda de um a carruagem . Tudo acabado. A m orte do rouxinol tinha sido em vão. Ela, m enina, chorava quando seu pai lhe contava essa história. Mas agora era diferente. Agora, a rosa não era um a rosa – era um livro. Um livro nascido da expiação, feito em condições im pensáveis, m as que aj udara a salvar aquele hom em da m orte. Logo ele, que, por ironia, quase fora m orto um dia por um a m áquina de escrever j ogada de um prédio.

Era outra vez a salvação pela palavra, com o acontecera na época da bebida – a m ulher não tinha dúvida. E, se tinha, esta se desfez no dia em que o próprio hom em adm itiu:

Meu m edo não era m orrer. Era não term inar de escrever o livro.