O Oitavo Selo
Epílogo
EPÍLOG O
À noite, com as luzes da casa quase todas apagadas, as am endoeiras da rua proj etavam som bras m oventes no teto da sala. Apenas um abaj ur estava aceso, um a bola de vidro dos anos 60 que ficava em baixo da escada. Os dois, hom em e m ulher, estavam sentados j unto à j anela, conversando. Os dois gatos estavam por perto, com o sem pre. O preto e branco no chão, a am arela em cim a do sofá. Era m ais de m eia-noite.
Aquele m om ento era para eles um ritual. Depois de assistir a um film e ou ao chegar da rua, apagavam todas as luzes – m enos a do abaj ur de bola – e se sentavam para conversar um pouco, antes de ir para a cam a. Era um a espécie de resum o do dia, um a súm ula, um cúm ulo. Sem pre tinham o que conversar – m ais de vinte anos de convivência e nunca faltava assunto. Falavam sobre tudo.
A m ulher ficou olhando para o hom em , sentado na poltrona, falando. Ele sem pre se sentava ali, naquele lugar, de costas para a j anela. Era a m esm a poltrona em que trem era de febre, um dia. A m esm a poltrona em que a fera se m anifestara.
Ela ouvia o que o hom em dizia, e sorria, fazia com entários. Mas um a parte de sua m ente vagava, pensando em tudo o que acontecera. Os m om entos em que, de um j eito ou de outro, ele se defrontara com a m orte, se sentara com ela, face a face, diante das peças de um tabuleiro de xadrez. Sete selos, era com o ela cham ava. Sangue, nariz, fígado, língua, coração, sexo. E, por últim o, o lance m ais difícil: o ataque a seu órgão m ais ativo, àquele que o fazia escrever, rir, ser ele m esm o – o cérebro.
Nas prim eiras sem anas depois da convulsão, o hom em apresentara lapsos, esquecim entos. A m ulher se assustara. Às vezes, ele recebia um telefonem a, ou um cartão de um am igo, fazia com entários com ovidos – e, no dia seguinte, quando a m ulher falava do assunto, olhava para ela com um a interrogação nos olhos. Era assustador. Ele vencera todas as batalhas com as forças que em anavam de sua m ente, o hum or, o culto ao prazer. A palavra. E agora?
Mas, com o passar do tem po, os lapsos foram desaparecendo. Apenas o período de algum as horas depois da convulsão é que perm aneceu com o um grande buraco negro em sua m ente. Um lugar escuro. De certas coisas acontecidas no hospital, ele nunca m ais se recordaria. Fora tudo apagado. Era norm al, os m édicos disseram .
Menos de um m ês depois de sair do hospital, ele j á estava trabalhando no ritm o de sem pre. Escreveu vinte textos para um a produção de vídeo, com prom isso assum ido antes de ficar doente. E isso enquanto continuava a revisão do novo livro. Agora, quase um ano transcorrido, a m ulher tinha certeza de que estava tudo bem .
Ela se aj eitou na poltrona, olhou as am endoeiras lá fora. A rua estava silenciosa. De repente, o hom em disse algum a coisa e as palavras se m isturaram a um a gargalhada. Por um segundo, a m ulher pensou escutar naquele riso o eco da risada assom brada que ouvira no Carnaval.
E não pôde deixar de pensar no que viria (e se ainda viria), no próxim o susto – o selo secreto, cuj a m arca perm anecia escondida sob esse m anto escuro que é o futuro.
Qual seria a oitava m arca?
Bobagem . Ela própria dissera para ele, dias antes, quando falavam do film e de Bergm an:
O oitavo selo é a vida.
Falara brincando, m as ele riu, dizendo que era isso m esm o.
Para que ficar pensando? Sabia que esse era um exercício inútil, do qual precisava fugir. Insistir nele seria cham ar o lobo de volta. Tom ou o hom em pela m ão. Era hora de deitar.