O Oitavo Selo
Segundo Selo: Nariz
SEG UNDO SELO
NARIZ
Ele abriu os olhos e sentiu três coisas ao m esm o tem po. A prim eira foi a dureza do chão, nas costas, sob o colchonete – m as essa foi um a percepção m ínim a, que desapareceu em um segundo.
A segunda foi o som , a m úsica que entrava pela j anela, que devia estar tocando em algum rádio da vizinhança.
Abri a porta
Apareci
A mais bonita
Sorriu pra mim
E a terceira foi um sentim ento avassalador de liberdade, que o invadiu e tom ou tudo, sobrepuj ando os dois prim eiros, ou com pondo talvez com eles um a trilogia que m arcaria sua nova vida.
Estava com trinta e dois anos e tinha saído de casa na noite anterior. Ao chegar do trabalho, as m alas estavam j unto da porta, no hall de entrada, esperando por ele. Ao vê-las, vacilou. Mas depois viu que era isso m esm o: depois de dez anos, o casam ento estava acabado. Quase não houve discussão, tudo o que havia para dizer j á estava dito. Ele pegou as duas m alas – contendo algum as peças de roupa, alguns discos e livros, um a garrafa de vodca – e foi em bora.
Foi para a casa de um am igo que estava solteiro, recém -separado tam bém . Era um a coisa j á m ais ou m enos com binada. Ficaria lá por alguns dias até se aj eitar, pensar no que fazer. O am igo tinha um quartinho de hóspedes, quase nu, sem cam a, m as com um colchonete no chão.
À noite, depois de beber quatro ou cinco doses de vodca conversando com o am igo na sala, ainda teve um sentim ento estranho, de inadequação, ao se deitar. Ficou olhando para o teto, os olhos abertos no escuro, o corpo esticado, os pés e as m ãos de vez em quando encostando no chão de tacos. Mas, ao acordar, no dia seguinte, a sensação j á era com pletam ente outra, um a alegria desm esurada, euforia, onipotência.
—
Presta atenção no que eu estou dizendo: ele vai m orrer antes dos trinta e seis anos. E vai ser de droga – disse a m ulher, m uito séria, com seu leve sotaque espanholado. Era chilena.
O am igo que tinha acabado de ouvir a profecia soltou um a gargalhada.
Que história é essa, Madalena? Ele não usa droga! Só bebe.
Mas vai usar. Vai usar e m orrer.
Que nada! – insistiu o am igo. O negócio dele é vodca. E aquavit, que ele aprendeu a beber aqui.
Ao falar, fez um gesto am plo, com o se m ostrasse para a m ulher aquele lugar que era seu, o lugar de que tanto se orgulhava. Estavam os dois sentados em um a das m esas do restaurante dinam arquês, em um a esquina do Leblon. A casa antiga, com detalhes de pedra nos m uros e o telhado em duas águas, ostentava no alto o letreiro de m adeira recortada, um a placa em preto, branco e verm elho. O dono tinha inventado tudo ali, a decoração, os sanduíches abertos, os drinques. Até o smörgarsbord era feito à sua m aneira, com detalhes que ele criara. A casa era um sucesso.
A m ulher que estava com ele era um pouco m ais velha, de cabelos castanhos e pele m uito branca, com um rosto que j á tinha sido bonito. Era cantora, m as tinha fascínio por astrologia e costum ava fazer o m apa astral dos am igos.
Eu não estou brincando – advertiu, séria. Você precisa avisar, senão ele vai m orrer.
Com o se diz a alguém que pare de fazer um a coisa que ele não faz?
Ruy – A prim eira vez que cheirei cocaína foi em 1978. Tinha trinta anos. Nessa época, ainda estava casado, m orando de novo no Rio depois de três anos trabalhando em Portugal. O clim a político no Brasil era pesado, isso foi antes da Anistia. E eu vivia um m om ento pessoal m eio depressivo, sem rum o. Fui à casa de um am igo, o apartam ento cheio de gente. Nessa época eu ia m uito lá. Era um a loucura o lugar, um entra e sai, um a agitação, m úsica alta, m uita gente falando ao m esm o tem po, sem pre um cheiro forte de m aconha no ar. Mas naquela noite tinha aparecido outra droga. Alguém m e ofereceu. Segurei a caneta Bic sem a carga, tapei o buraquinho lateral com a ponta do dedo e m e aproxim ei do pó branco esticado em cim a da m esa. Fui aspirando, de baixo para cim a, com firm eza, até que o tam po de vidro ficasse lim po. E depois esperei. Mas não senti nada.
Prim eiro ele sentiu o toque, de leve. Era um a m esa grande, ruidosa, com dez ou doze hom ens e m ulheres, perto da entrada. Pensou que talvez fosse por acaso. Mas logo aconteceu de novo, agora de form a m ais acintosa. Ela conversava anim adam ente, olhando em outra direção, não parecia perceber a presença dele, m as o toque, por baixo da m esa, não podia ser casual. Olhou para ela outra vez. Era um a m oça bonita, de cabelos lisos, castanhos, quase negros, descendo abaixo dos om bros. Pele m orena, belas pernas. Andava sem pre de m inissaia. Sabe que é gostosa. Era nam orada do am igo dele. Mas agora outra vez, a perna, encostando na sua. Não tinha m ais a m enor dúvida, ela estava fazendo de propósito.
Alisou o copo alto, de cim a para baixo, sentindo a superfície gelada, suada. O copo de vodca estava pela m etade. As duas pedras de gelo j á tinham derretido. Bebeu o resto, de um gole, o líquido transparente desceu pela garganta com um leve ardor. Apagou o cigarro e se levantou, cam inhando na direção do banheiro.
Abriu a cortina azul-m arinho, em dois panos, com caracteres j aponeses desenhados, e penetrou no corredor que ia dar nos toaletes. À direita, o aquário de quase dois m etros de com prim ento, com seus peixinhos coloridos, dividia o corredor do salão. Através da água, por entre as algas sinuosas, deu um a últim a espiada para a m esa dos am igos, lá do outro lado. Ela estava olhando para ele.
Entrou no banheiro e apalpou o bolso de trás do j eans. Tirou a carteira e pegou o papelote, enfiado atrás do cartão de crédito. Depois de trancar a porta do banheiro por dentro, escolheu o canto da superfície de granito polido que estava m ais seco e despej ou o pó, com todo cuidado. Enrolou a nota, quase virgem , a nota de um rublo que tinha ganhado de um am igo, e que guardava só para isso. Cheirou.
Ao destrancar a porta, a carteira j á de volta ao bolso de trás, sentiu o coração m artelando na j ugular, o sangue pulsando com força, inundando todos os dutos. A sensação de poder. E, colocando no braço um pouco m ais de força do que o necessário, abriu a porta. Quase esbarrou nela, que estava ali, na sua frente, com a m ão na m açaneta do toalete fem inino. Quando ela se virou, os cabelos negros ondularam . Tão perto, que ele sentiu o perfum e.
Ruy – Mas da segunda vez foi diferente – bateu. Deu um a sensação de grande lucidez, de força física, onipotência, a ilusão de que se é capaz de tudo, ou quase. E eu disse para m im m esm o: Era isso que eu queria dizer! A cocaína m ovia m ontanhas de conhecim ento e percepção, ou era o que parecia. Então, de repente, com ecei a perceber: j ornalistas, escritores, publicitários, astros de televisão, m úsicos, m édicos, até j ogadores de futebol – todo m undo que eu conhecia estava usando. Todo m undo do m eu m eio, claro.
A Madalena disse que você vai m orrer.
Com o é que é?
A Madalena. Ela disse que você vai m orrer com trinta e seis anos. De overdose.
E de onde ela tirou isso?
Lem bra que um dia ela fez o seu m apa astral?
E eu por acaso acredito em m apa astral?
É, m as depois ela veio conversar com igo, toda séria. Parecia preocupada.
Isso faz um tem pão!
É, m as na época você não cheirava. Eu nem falei nada para você, achei que era m aluquice dela.
É claro que é m aluquice. Um a vez ela m e disse que transou com um espírito. A Madalena é chegada num papo com o além …
Bom , com o você agora está curtindo pó, achei que não custava nada contar. Ela pediu que eu lhe avisasse. Então, eu estou falando. E acho bom você ir aproveitando bem a vida… Você está com quantos anos?
Trinta e três.
Pois é. Ela falou que você vai m orrer com trinta e seis.
Bullshit…
Claro que é. Vai de aquavit?
—
A m úsica que estava tocando a toda altura era “Cam arillo brillo”, de Frank Zappa. Dava para ouvir lá de baixo, da entrada da galeria. Continuaram subindo as escadas, o escritório da m archand era no segundo andar. Os dois riam de um a frase que o hom em tinha acabado de dizer, algum a coisa sobre a obra de arte contem porânea no salão principal, feita com um as estrelas de aram e farpado que lem bravam m oscas. A am iga, que às vezes era tam bém nam orada, adorava arte contem porânea, m as gostava m ais ainda das tiradas dele.
Chegaram ao hall de cim a, com o chão de parquê antigo, desenhado, e em purraram um a porta, que estava só encostada. Era de lá que vinha o som . Havia m uita gente, pelo m enos um as dez pessoas. Era um a saleta, onde funcionava o escritório da galeria, m as, com a m úsica alta e as risadas, parecia a sala de alguém que estivesse dando um a festa.
A m archand veio recebê-los, sorrindo, e depois dos cum prim entos fez um sinal com o rosto, apontando a m esa de trabalho. Era um a m esa grande, retangular, e bem no centro dela havia um espelho. Um hom em louro, de rabo de cavalo e sotaque baiano, que estava encostado na m esa, olhou para eles e foi logo oferecendo a droga. Os dois se aproxim aram . Ele fez sinal para que a m ulher fosse prim eiro. O hom em de rabo de cavalo abriu um pequeno estoj o e tirou de lá um canudo transparente de cristal, que entregou a ela.
Na sua vez, ele pediu ao hom em de rabo de cavalo que espichasse duas carreiras, um a ao lado da outra. O suj eito obedeceu. Com lentidão e firm eza, sugou o pó branco através do canudo de cristal, fazendo desaparecer o prim eiro daqueles dois cam inhos, as duas paralelas de pequeníssim os grãos. Quando term inou, fechou por um segundo os olhos. Nesse instante, ouviu-se um barulho na varanda. Todos, na sala, voltaram o olhar para lá.
A porta francesa, de vidro e venezianas, que dava para a pequena varanda, se abriu. E entrou por ela um rapaz alto e forte, um estranho, as feições grossas acentuadas pelas m açãs do rosto, que pareciam querer furar a pele acobreada. Estava vestido com um m acacão surrado, de cor indefinida, e segurava um instrum ento em um a das m ãos. Depois de vacilar por um segundo sob o arco da porta, entrou e atravessou a sala. A m archand fez um sinal geral de que estava tudo bem . Todos com preenderam . Era um operário. Tinham visto um a m ovim entação na galeria, havia obras sendo feitas por ali. E ninguém se im portou com a presença do estranho.
O hom em , com o canudo de cristal na m ão, tam bém deu de om bros. E recom eçou o cam inho, sugando a segunda carreira, com o operário ainda na sala. As classes trabalhadoras estavam aprendendo a conviver com as idiossincrasias das elites. E não era só ele o prepotente. Ali, ninguém tinha m edo de nada.
—
O m esm o braço que acabara de em punhar a m açaneta com força excessiva agora se estendeu à frente – e puxou. Puxou pela cintura e ela veio, sem nenhum a resistência ou surpresa. Sorria. Por um segundo, a canção atravessou o pensam ento dele.
Abri a porta
Apareci
A mais bonita
Sorriu pra mim
No segundo seguinte, enquanto com a m ão direita ele sentia o contorno da cintura, a esquerda m ergulhava nos cabelos, procurava a nuca da m ulher, sua superfície m acia. A agitação dos fios fez exalar m ais perfum e, era um cheiro bom , cítrico. O toque na nuca teve tam bém outro efeito, a cabeça dela pendeu para trás, a boca se entreabriu e eles se beij aram . Estavam no corredor, diante do aquário. Se alguém olhasse através do vidro e da água, de qualquer ponto do restaurante, veria aquele beij o. Mas eles não pareciam se im portar. Nada parecia im portar. A partir daquele beij o, tudo era perm itido.
Sem que as bocas se descolassem , ele em purrou a m ulher contra a parede e sua m ão direita desceu em direção à coxa dela. Estava quente. Macia com o a nuca, com um a penugem gostosa ao toque. A m ão deslizou, subiu, venceu a bainha da saia, a saia tão curta, fácil de ser transposta, e penetrou no ponto em que deveria estar a calcinha. Mas, ali, não havia nada.
O hom em afastou o rosto, olhou para a m ulher. O sorriso dela se am pliou. Ela j á sabia. Ela planej ou tudo. A mulher sempre sabe.
Ele tornou a abrir a porta do banheiro dos hom ens e entrou com ela, se trancando lá dentro. Mãos e bocas se m ovim entavam agora com m ais urgência, naquela busca m útua, de m inutos contados. Todos os cam inhos eram curtos, nem um segundo podia ser perdido. Ele cravou as costas dela contra a porta, o beij o que antes era louco se transform ou em guerra, línguas se cruzando, dentes com o arm as, m ãos de precipício, e ele a pegou por baixo, pelas ancas, a m ão esquerda da m ulher buscou o granito da pia, a m esm a pedra que havia pouco recebera o pó, para que ela, com um im pulso, descesse sobre ele, nele se cravasse. O prazer foi instantâneo, o grito engolido, hom em e m ulher desfeitos em um gozo tão profundo e tão brutal que os dois sentiram com o se fossem ficar am algam ados para sem pre, condenados ao abraço m ortal com o dois cães de rua, sugados um para dentro do outro, perdidos, tornados pedra tam bém , com o o granito que os sustentava, presos dentro daquele prazer absoluto e sem espaços, que era com o a explosão do universo ao nascer, ele inteiro, seus vãos e estrelas, condensados em um único grão prim ordial.
—
Prazer, perigo.
Quando o carro passou a toda a velocidade pela pista da Lagoa, os fogos explodiram em série, com o tiros de m etralhadora. O autom óvel, um a Brasília branca, fazendo um barulho de escapam ento aberto, devia estar a m ais de oitenta quilôm etros por hora. O rádio do carro tocava “Spirits in the m aterial world”, e o balanço m eio reggae do Police ia na contram ão daquele frenesi. Os dois hom ens tinham pressa.
Será que vai dar tem po?
Se não der, azeite. Passam os o Ano-Novo na favela.
Eles riram .
Podíam os fazer a festa lá m esm o.
E com o dinheiro da Rê.
Você j á fez isso?
O quê?
Dar um a volta em alguém ?
Já.
Em quem ?
Num a nam orada. Ela m e deu dinheiro para com prar, eu com prei para m im e para ela, m as naquela noite ela não apareceu, não sei por quê. Aí, eu cheirei a parte dela.
…
Depois fiquei pensando. A droga era m ais im portante do que a nam orada. Do que o escrúpulo.
É do j ogo.
Você sabe direito onde é?
Sei, j á fui lá várias vezes. É em Vaz Lobo, quase Madureira.
A boca do túnel Rebouças apareceu ao final do aclive. O hom em acelerou. Quando o carro ia entrar no túnel, outra m etralhadora de fogos, m ais longa e m ais furiosa do que a anterior, explodiu, deixando para trás, na Lagoa, um rastro de fum aça e m au agouro.
Ruy – Subir o m orro, entrar em um a ruela de Madureira atrás de um traficante na noite de Ano-Novo, tudo isso eu sabia que era perigoso. Tam bém sabia que era perigoso quando o coração batia forte, com o se quisesse explodir. Mas eu não tinha m edo. Desafiar a sorte e a m orte era parte da história. E, na ida a Madureira, quase fiquei decepcionado porque a pessoa que nos vendeu o pó era um a senhora com varizes, com o as vizinhas gordas e patuscas do Nelson Rodrigues.
O hom em segurou a concha e m ergulhou na pasta escura que enchia a terrina até a boca.
C’est la merde, pensou, rindo, lem brando-se da frase dita por Sartre ao espiar um a panela de feij oada.
Mas a pasta escura que vinha agora, no boj o da concha, em direção a seu prato, não era feij ão. Era m ais do que isso, era sarapatel. Miúdos de porco boiando em sangue de porco. Nada m ais repulsivo, no j ulgam ento de alguns, ou m ais delicioso, no de outros. Era o caso dele. Adorava sarapatel. Adorava pele de porco, rins, língua, bochecha, feij oada com orelha e rabo, m aniçoba, Eisbein, pés e asas de galinha. Tudo o que m uitos consideravam noj ento, ele gostava.
Com ida de m acho – disse a nam orada, quando ele se sentou ao lado dela no sofá.
Você não vai com er?
Vou. Vou provar um pouquinho.
Está bom à beça.
É, eu sei que é gostoso, m as quando penso, m e dá aflição.
Com e.
Vou com er.
A m oça se levantou e saiu andando. Em seu cam inhar, quase dançava. Na sala, a toda altura, ouvia-se a voz falada de Júlio Barroso, Gang 90 & Absurdettes. São três horas da manhã, você me liga. Enquanto a garota se servia, o hom em ficou reparando na bunda dela, enfiada em um j eans apertadíssim o. Ela vestia um a cam iseta branca de m anguinhas curtas, e o cabelo encaracolado, castanho-claro, estava preso atrás em um rabo de cavalo. Gostosa, pensou ele. Talvez tão gostosa quanto esse sarapatel.
A m oça voltou para j unto dele e se sentou, com o prato na m ão. Havia só um pouco de arroz e um caldinho de sarapatel por cim a, não m ais do que um a colher de sopa. O hom em olhou aquilo e riu.
Acho que vou ser obrigado a com er por você – disse.
Levantou-se e foi se servir outra vez. Quando tornou a se sentar no sofá, a m oça arregalou os olhos.
Nossa! Tudo isso? Com o você tem coragem ?
Ele olhou para o próprio prato com volúpia.
Se é para fazer qualquer coisa, a gente tem de fazer direito.
Enquanto enfiava na boca um a nova garfada, o cheiro adocicado do sarapatel penetrou em suas narinas, um cheiro de vísceras, um cheiro de sangue. No m esm o instante, o hom em pensou que o ato de com er aquilo tinha qualquer coisa de sensual e selvagem . Era um a transgressão, um desafio. Mas seria m ais ainda se…
A m ão direita dele, que segurava o garfo, abandonou o talher e pousou sobre a coxa da m oça, envelopada no j eans.
Sabe o que nós vam os fazer quando eu acabar de com er este sarapatel?
A m oça olhou para ele, um sorrisinho no canto da boca.
Vam os lá dentro cheirar um a.
Ele fez que sim com a cabeça. E, rindo tam bém , com pletou:
Mas vam os fazer isso na cam a.
Prazer. Perigo. Morte.
Ruy – Eu com prava três gram as de cada vez. Tinha um a caixinha branca, redonda, com um coração pintado na tam pa, que apelidei de “guarda pó” (risos). Fácil de levar no bolsinho caça-níqueis. Durante um tem po, três gram as davam para dois dias. Mas depois a coisa se acelerou. Eu frequentava o apartam ento de um casal am igo, no Jardim Botânico – era um lugar inteiram ente dedicado à
droga. Tudo ali funcionava em torno da droga. Nunca vi aquela m esa usada para com er. Sobre ela havia, perm anentem ente, grandes espelhos com inscrições de Coca-Cola, Jack Daniel’s, só que com o design adaptado à cocaína. E era m uita cocaína, o tem po inteiro. A quantidade de pó era tão m onum ental que, a partir de certa hora, ninguém aguentava m ais cheirar. Digo, o nariz não aguentava. E aí, se aparecesse alguém na sala com um a seringa, acho que eu m e aplicaria. Mas não aconteceu.
O hom em acordou e olhou para o lado. Suspirou, ao ver que havia um volum e sob o lençol, na sua cam a. A nam orada tinha dorm ido lá. As m ulheres adoram dorm ir na casa dos hom ens. Adoram tam bém levar a escova de dente e botar no arm ário, pendurar calcinha no boxe, fazer com pras no superm ercado e encher a geladeira do nam orado, com prar um cobertor novo porque o dele está furado.
Esfregou a cabeça, passou a m ão na nuca. Um a sensação estranha. Tateou a m esinha de cabeceira e encontrou o m aço de Marlboro. Sacudiu. Estava quase vazio. Depositou o m aço verm elho e branco sobre o peito e esticou m ais o braço, em busca do isqueiro, um retângulo prateado cuj a tam pa se abria com um clique. Acendeu o cigarro e soltou a fum aça para cim a, em um m ovim ento lento, tentando form ar um anel no ar.
Com o cigarro entre os dedos, levantou e foi até o banheiro, onde se olhou no espelho em cim a da pia. A cara até que estava boa. Mas o corpo parecia um tanto anestesiado. Ou, não, não era anestesiado, era com o se estivesse im pregnado, com o se algum a coisa além de sangue corresse sob a pele. Sangue grosso, sangue. Um a coisa pastosa, dificultando o fluxo.
Quando saiu do banheiro, apagou o cigarro no cinzeiro ao lado da cam a e foi até a cozinha. Fazia tudo devagar, para não acordar a nam orada. Se acordasse, ela ia querer preparar um café, sair para com prar pãozinho, talvez até trazer da rua um buquê de flores, com o tinha feito um a vez. Não havia vaso para flores na casa dele, e a garota havia posto em um copo alto. Assim que ela saiu pela porta, o hom em j ogou as flores no lixo.
Abriu a geladeira, encheu um copo com leite gelado, botou açúcar e bebeu em dois grandes goles. Encostado na pia, esperou o efeito. Já se sentia m elhor.
Foi até a porta, abriu, pegou o j ornal no chão e, ali m esm o, com eçou a ler as m anchetes. Quando se virou, viu a nam orada sorrindo no m eio da sala. Já estava quase vestida, e com os cabelos pretos, cortados m uito curtos, pingando. Na fração de tem po em que ele se m ovim entava entre a cozinha e a porta da rua, a garota tinha acordado e tom ado banho. Era im pressionante. Mulheres adoram tom ar banho. Mulheres sentem frio nos pés, gostam de vinho branco, usam florais de Bach e acreditam em horóscopo. A Madalena disse que você vai morrer.
Eu vou ter de sair correndo! – disse a nam orada. Tenho de estar na faculdade às dez.
Legal.
A m oça olhou para ele com ar decepcionado.
Só isso? Legal?
O que é que você quer que eu diga?
Sei lá. Você está com um a cara estranha…
Enquanto falava, veio até ele, tentou abraçá-lo. Ele se desvencilhou.
É m elhor m esm o você ir logo. Eu preciso trabalhar.
Você está m e botando para fora?
Mas não foi você m esm a quem disse que…
Mas um a coisa sou eu dizer que vou em bora, e outra é você m e m andar.
Ah, querida, não com eça…
Com eço, sim ! Aliás, ontem eu j á devia ter com eçado!
Que história é essa de ontem ?
É isso que você está ouvindo! Ontem , aquela festa, aquela gente m aluca, eu acho que isso tudo está indo longe dem ais! Eu nunca vi tanta droga na m inha vida! Eu não estou m ais aguentando isso, eu…
Então, por que não vai em bora logo e pronto? Aí não precisa aguentar m ais nada.
A garota ficou olhando para ele sem acreditar, a boca entreaberta. No segundo seguinte, entrou no quarto e com eçou a enfiar o resto da roupa. O hom em ficou na sala, ouvindo os m urm úrios dela. Parece que está chorando, pensou.
Sentou-se no sofá e, depois de acender outro cigarro, recom eçou a ler a prim eira página do j ornal. O m undo ainda estava abalado com a m orte de John Lennon. Tinha até o dia seguinte para traduzir e editar a entrevista, feita antes do atentado. Se precisasse, viraria a noite. Sua revista ia sair na frente de todo m undo. É bom que essa garota vá em bora logo. Preciso trabalhar.
Dali a poucos m inutos, ela saiu do quarto e passou por ele, com a cara fechada, sem dizer nada. Abriu a porta e nem se virou.
Tchau.
Tchau.
Bateu a porta com toda a força e desceu as escadas. Ele ouviu os passos, com alívio. Andava m esm o a fim de se livrar dessa m enina, ela estava tom ando intim idade dem ais. Mas então o hom em se lem brou. Correu até a j anela. Viu que a garota j á estava atravessando o j ardim na entrada do prédio, quase chegando ao portão que dava para a rua. Gritou o nom e dela. Ela parou e olhou para cim a.
Agora, sim , ele vê que o rosto dela está verm elho, os olhos pisados. Está m esm o chorando. Mas, ao ouvir o cham ado, brilha em seus olhos m olhados um a chispa. Ela ainda parece zangada, claro, m as quer ouvir o que ele tem a dizer. Pensa que ele se arrependeu. Que vai cham á-la de volta.
Mas não é isso. Não m esm o.
Tem um a coisa na sua bolsa, você esqueceu?
Ela olha para ele, sem entender. Ele repete:
Tem um a coisa na sua bolsa, que eu pedi que você guardasse, ontem , lem bra?
O rosto dela se inunda de sangue. Ela abre a boca, parece não acreditar no que está ouvindo.
Seu m iserável!
Abre a bolsa com as m ãos trem endo, arranca algum a coisa de lá, algum a coisa pequena, um papel dobrado, e j oga no chão, depois sapateia em cim a.
Miserável! – repete. E sai, batendo o portão com estrondo.
Ruy – Eu estava m e sentindo diferente. Os velhos valores pareciam não im portar m ais. Os m uitos livros lidos estavam ficando para trás, os conceitos esquecidos, trechos inteiros que eu sabia de cor estavam se dissolvendo na m em ória. Poem as, film es, canções, tem as de j azz, Carnavais antigos, velhos am igos, tudo o que até há pouco m e ocupava a cabeça – o m undo se apagava à velocidade das carreiras que eu consum ia, de cada copo bebido, de cada hora de sexo, às vezes tudo ao m esm o tem po. Mais: os escrúpulos tam bém se dissolviam . E o pior é que não parecia haver nada de alarm ante nisso.
Ele se aproxim ou da televisão. O aparelho preto, enorm e, era com o um bicho pré-histórico, adorm ecido sobre a m esa baixa, de m adeira escura, com os pés carcom idos por algum predador do passado. Parou um instante diante da tela, à espera da conclusão do lance, um a bola alçada por Leandro, na cabeça de Zico. O Brasil tinha virado o prim eiro tem po perdendo de um a zero da União Soviética, m as em patou com um gol de Sócrates. Agora, j ogava inteiro no ataque, bom bardeando os russos sem parar. Muita gente devia estar nervosa com aquele em pate. Mas ele, não. Ele estava pensando em outras coisas. Só parava e prestava m ais atenção quando os j ogadores do seu tim e estavam em ação, Zico, Leandro, Júnior. No resto do tem po, pensava no artigo que tinha de term inar até o dia seguinte. Ia precisar virar a noite, m ais um a vez. Mas isso era bom , ele não se im portava. Tinha todo o m aterial com ele. Além do m ais, escrever era sem pre um a coisa que lhe transm itia um a sensação de segurança. De prazer.
Ao ver Zico cair na área sem alcançar a bola – talvez tivesse sido derrubado –, o hom em arriou a caixinha em cim a do m óvel. Depois, abriu-a com cuidado e despej ou o pó sobre a superfície lisa e escura da televisão. Bateu com a gilete até que o pó se desgranulasse, estendeu-o em um fio com prido, e se curvou para cheirar. Tudo de um a só vez, com o gostava de fazer. Mas estava na m etade quando ouviu um barulho atrás de si. Parou.
Virou-se. A em pregada estava de pé na porta, os olhos m uito abertos, sem saber o que fazer. Tinha ido ali perguntar algum a coisa, m as, ao se deparar com a cena, parara, sem graça – oscilando entre dar a volta e ir em bora ou entrar e fingir que não tinha visto nada. Ele riu.
O que é?
Não… é que… eu só queria perguntar ao senhor se…
Daqui a pouco eu vou lá falar com você.
Disse e virou-se. Nem esperou que ela fosse em bora. Tornou a se curvar e recom eçou a cheirar a carreira do ponto onde tinha parado, sem nem um arrepio de pudor ou preocupação.
Quando term inou, pegou a caixinha que tinha ficado em cim a do m óvel e guardou na gaveta. Ainda tinha bastante, para a noite toda. E para a m anhã seguinte. Quando acabasse, sabia onde encontrar m ais.
—
Eles entraram na boate do hotel, de m ãos dadas, e o hom em notou que o andar da m ulher ao seu lado im ediatam ente se adaptou ao ritm o da m úsica. O piano, as escovas da bateria, as notas graves do contrabaixo, o som do trio que tocava ali todas as noites, nos intervalos entre os shows, era um j azz suave, m eio bossa nova, bem diferente da m úsica que tom aria o lugar dali a pouco, do sofisticado saloon singer am ericano, seu am igo de outros tem pos, que tinha chegado de Nova York para um a tem porada no Brasil. Mas ele sabia que ela ia gostar do show.
Sentaram -se na m esa indicada pelo m aître, e ele perguntou o que ela queria beber. A m ulher pediu um a água m ineral com gás e um a rodela de lim ão. Ele não precisou pedir. Apenas fez um aceno, quase im perceptível, com a cabeça. O m aître se afastou e em poucos m inutos o garçom aparecia trazendo as bebidas na bandej a, inclusive a dele, um copo alto, cheio de um líquido transparente, vodca, com um a pedra de gelo. O m aître o conhecia de m uitas noites.
A m ulher sorriu para ele, com o se aprovasse a escolha. Ou com o se enxergasse um certo refinam ento naquela sintonia m uda entre ele e o m aître. Ela estendeu a m ão sobre a m esa e apertou a dele, sorrindo, o anel no dedo m ínim o, com um a pedrinha, cintilando à luz da vela. Ele sorriu de volta. Gostava daquele rosto, um rosto fino, de pele m uito alva, a boca bem m arcada. Havia naquela m ulher um a delicadeza que o surpreendia. Ela vinha de um m undo totalm ente diferente do dele. Olhar para ela era com o ser arrancado da brutalidade com a qual vinha lidando, cada vez m ais, a espiral de sexo e drogas na qual se encontrava m ergulhado até o pescoço. Era com o ser im pulsionado de um a região lodosa, escura, e rom per a superfície do m ar, recebendo o sol na cara, em cheio. Era estranho. Era um susto respirar assim , de repente. Mas era bom .
—
E aí, você está bem ?
Ótim o!
Mas e a profecia?
Que profecia?
A história da Madalena, de que você ia com eçar a usar droga e que ia m orrer com trinta e seis anos.
Você é que parece que se im pressionou com essa bobagem .
Eu só estou perguntando.
Então pergunta para a Madalena. Ela é que tem um telefone direto com o além .
Mas você j á parou para pensar? A prim eira parte da profecia aconteceu.
Com o assim ?
Você com eçou a cheirar, está cheirando cada vez m ais. Quando ela falou aquilo, você só bebia.
E daí?
Você não tem m edo de m orrer?
Conhece a frase do Millôr? O pior não é m orrer. É não poder espantar as m oscas.
—
Na hora, ele não ligou. Não acreditava que a am eaça da m oça pudesse ser para valer, parecia um blefe. Mas depois ficou pensando.
Se você não parar de cheirar, eu vou embora.
Sentou no sofá e ficou rolando a caixinha “guarda pó” na m ão, observando aquele coração verm elho na tam pa. Acendeu um cigarro. Claro que estava gostando m uito dela, ela era diferente das outras. Quando foram apresentados, algum a coisa naquela m ulher – o sorriso, talvez – o fez lem brar-se de um a garotinha, am iga de sua irm ã, que ele costum ava beij ar no escuro do quarto, depois do cinem inha Barlan. Verinha. Depois, veio aquela sensação de claridade, de respiro. Ela fazia bem a ele, precisava adm itir isso. Os dias, os m eses, tudo vinha sendo diferente desde então.
Só que não ia parar de cheirar por causa de um a m ulher, onde j á se viu?
Mas – e se parasse?
A verdade é que, se quisesse, pararia. Na hora. Tinha sido sem pre assim , com tudo. Por que não com o pó?
Abriu a caixinha e olhou lá dentro. Estava quase vazia. Teria de ligar para o fornecedor e pedir m ais. Talvez não pedisse. É, talvez isso fosse um a boa ideia. Parar de com prar. Se alguém lhe oferecesse, aceitaria. Por farra, de brincadeira, com o sem pre tinha sido – não era assim , desde o início? Ele tinha o controle.
Ruy – Quando você não tem , quando está sem e alguém oferece, isso faz parte. Mas essa pessoa espera que, num a próxim a vez, você faça o m esm o, devolva a gentileza. Se você para de com prar, se só aceita e nunca tem para apresentar, as pessoas percebem . Aí, um dia, ninguém m ais lhe oferece a droga. E você fica sem . Fica tam bém sem aqueles am igos.
O hom em fechou os olhos. Sentia-se cansado, tinha trabalhado m uito. Mas não conseguia dorm ir. De olhos fechados, ficou pensando na m ulher.
Fazia um a sem ana que ele não cheirava. Teria sido m esm o por causa dela? Talvez fosse só para provar a si m esm o que podia. Você é prepotente. Não estava sentindo nada, talvez um a leve letargia, quase im perceptível. Já esperava por isso. Sabia que conseguiria, e na hora em que quisesse. Sem pre soube, tinha o controle.
Mas talvez tivesse sido m esm o por causa dela.
Ou então…
Um pensam ento cruzou sua m ente. Ele riu, no escuro, os olhos ainda fechados. Era um a bobagem , ele sabia. Mas – sabe-se lá? Por que se arriscar?
Afinal, o aniversário de trinta e seis anos estava chegando.