O Oitavo Selo
Quinto Selo: Coração
Q UINTO SELO
CORAÇÃO
Seus olhos agora voltavam à tela negra, em que a serpente esverdeada subia e descia, soltando pequenos gritos. A serpente corria, vencia as areias cada vez com mais rapidez, voltando ao começo e tornando a subir e a descer, sempre, sempre, em ondulações mais e mais altas, desafiando o perigo, as primeiras vinte e quatro horas são vitais, pedindo que ela não parasse, enfrentasse o terror com seus movimentos ritmados, loucos, que eram como as batidas do coração.
O elevador, grande e com prido com o costum am ser os elevadores de hospital, estava cheio de gente. A m ulher, lá no fundo, encostada ao aço frio, viu quando a porta se abriu e a m édica da equipe de oncologia entrou. A doutora tam bém a viu, e deu um sorriso. Rem ou entre as pessoas e foi até o fundo do elevador. Segurou as m ãos da m ulher.
O exam e dos tecidos deu tudo bem – disse, abrindo ainda m ais o sorriso. Nem sinal de lesão nos gânglios linfáticos.
As duas se abraçaram , em ocionadas, indiferentes aos olhares. Era um a indiscrição. Não se deve fazer isso em público, m enos ainda no elevador de um hospital, onde outras pessoas continuam ansiosas por resultados que ainda não vieram e outras, ainda, j á receberam notícias que não queriam receber. Mas fora um im pulso. Elas não eram , naquele instante, a m édica e alguém da fam ília de um paciente – eram duas m ulheres, apenas. Duas m ulheres aliviadas, duas m ulheres que conheciam a luta contra a m orte.
Elas sabiam m uitas coisas, am bas conheciam o m edo, sua estrutura, por dentro e por fora: com o ele nos olha nos olhos, nos arrepia a pele, sobe em sopros gelados pelas costas, retorce o estôm ago, tira o ar. Sabiam m uito, m ais até do que gostariam de saber. Sabiam das arm adilhas, dos desvios – de quando abraços em ocionados com o aquele tinham se provado prem aturos. Vãos.
O câncer é um m onstro de várias m ãos, que gosta de preparar surpresas, de atacar – ou reatacar – quando e onde m enos se espera. Ele nos faz confrontar a m orte de diversas m aneiras. Um a delas é quando se recebe a prim eira notícia, o choque – o olhar pregado naquele rosto que é a representação de nossa própria im ortalidade. Aí vem o turbilhão, toda a luta visando um só obj etivo: a cura. Mas, quando isso acontece, quando vencem os em um prim eiro m om ento, aí, sim , vem outra confrontação, talvez a m ais difícil: a hora da espera. Sem anas, m eses, anos em que tem os de aprender a conviver com a sensação de incerteza, vidas pautadas por um a pergunta sim ples, com posta de apenas quatro palavras, que cintilam acim a de nossa cabeça, dia e noite, com o a espada de Dâm ocles:
Será que vai voltar?
—
Nesse tipo de tum or, quando o problem a tem de voltar, volta logo – disse o cirurgião. Em oitenta por cento dos casos, volta em no m áxim o seis m eses.
Seis meses.
Não era um a abstração, era um núm ero exato. Seis m eses.
A m ulher se m exeu na cadeira. Olhou para o hom em . Ele parecia distraído, com o se pensasse em outra coisa, talvez estivesse longe dali. Será que tinha prestado atenção nas palavras do m édico?
Seis m eses. Era um deserto, um a cordilheira, m il anos-luz, um a galáxia inteira. Tem po, tem po, a relatividade do tem po. Seis m eses em Paris, seis sem anas de férias em um a praia de Trancoso. Seis m inutos presa em um elevador, no escuro, seis segundos sob o j ugo de um louco, com um a faca encostada na garganta. De onde ela tiraria forças para sobreviver? Com o ela, a m ulher que pensava dem ais, ia atravessar aqueles seis m eses?
Ruy – Eu não pensava. Tinha m uitas coisas para fazer. Aconteceu quase sem que eu percebesse. Depois do câncer, fui m e envolvendo em m ais e m ais proj etos, fazendo cada vez m ais coisas, tudo ao m esm o tem po. Talvez estivesse tentando com pensar o tem po perdido, ou com m edo de não conseguir fazer tudo, m as isso não era um a coisa consciente. Só sei que, term inado o tratam ento, com ecei a trabalhar feito um m aluco.
Heloisa – Eu precisava inventar algum a coisa, qualquer coisa, criar um ponto focal no qual concentrar todas as forças. Precisava disso para não enlouquecer.
Trancada no quarto, com o ar-refrigerado ligado, a m ulher esperava. Estava vestida com seu roupão de seda, sem nada por baixo. Olhou o próprio rosto no espelho do arm ário. A m aquiagem continuava perfeita. Aquele m aquiador era m esm o m uito bom . Reconhecia o próprio rosto, não havia nenhum toque artificial, nem m esm o a cor dos lábios. O batom era quase da cor da pele. Apenas os olhos pareciam m aiores. O cabelo, curtíssim o, recebera um a m usse que o encorpara, m as era tudo m uito sutil, delicado.
Enquanto esperava o vestido, que não chegava, a m ulher brincou de reconstituir m entalm ente a casa inteira. No andar de baixo, a m esa retangular com a toalha rendada, que fora do enxoval de sua avó. Estranho pensar que o desenho no centro da toalha, bordado em filé, tinha sido feito pela irm ã da noiva m ais de oitenta anos antes. Tempo. Sobre essa toalha, tinham sido arrum ados os doces, em diferentes pratos de cristal, de tam anho e altura diversos. E, bem no centro, estava o bolo, de três andares, com os dois noivinhos com cara de pato, exatam ente com o na capa do livro de frases.
Em todas as m esas da casa, inclusive no terraço, havia grandes arranj os de rosas verm elhas, com velas no centro, acesas. Tam bém as m esas do andar de cim a estavam forradas com as toalhas de renda da avó. A j uíza j á tinha chegado. Os convidados tam bém . Só o vestido é que não chegava. Era um vestido sim ples, curto, de xantungue de seda, cor de prata, m as daria m uito trabalho para vestir: tinha botõezinhos de alto a baixo, nas costas. Porém a m ulher não estava nervosa, nem um pouco. Sentia-se leve – e im ensam ente feliz. Para ela, tudo aquilo era um a grande celebração, um brinde à sobrevivência, um a form a de term inar com alegria um ano tão difícil. Seis m eses. Precisava disso para não enlouquecer. Vinte e sete de dezem bro de 2005. Agora, faltavam só quatro dias para o ano term inar.
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2005. Não sei se terá sido um ano cabalístico, que lá disso não entendo bem, mas foi sem dúvida cabal. Grande foi seu impacto, capaz de torná-lo marcante, inesquecível. Cá comigo isso acontece, creio, de dez em dez anos – e quase sempre nos anos terminados em cinco.
Com 2005 foi assim. Foi o ano de Carm en, que começou sob o signo de Câncer, mais cabeça do que corpo, mais carinho que carícia, mais coração do que tudo. Calados, quietos, contemplativos, fechados a cadeado em nossa própria casa, enfrentamos o que parecia ser um cadafalso – e vencemos. Não foi fácil.
Às vezes é preciso mesmo calar, evitar a cacofonia que nos cerca, esperar a hora certa, talvez trazida pelo acaso, não importa, e só então agir, sem medo do caos, do ocaso. Foi como aconteceu. E dos cactos brotaram flores claras, festas. No horizonte anjos cantaram glórias, cantigas, canções.
Foi um ano casto, sem dúvida. Um ano cansado, de cais distante – afinal alcançado. Um ano carente, acachapante, capcioso, cortante, mordaz. Mas coerente, também, na medida em que trançou amor e dor, essa rima tão antiga – porém inacabável.
E, se foi um ano de contrastes, 2005 foi um ano brasileiro, um ano carioca. Um ano cujo calendário, marcado, guardarei, com cada mês, cada semana e cada dia envoltos em pequenos círculos cor de carmim, com anotações de incerta caligrafia – a letra do medo, secreto e acossado.
Ano de calvário e entrega, de coroação. De lágrima e suor, de muito trabalho. De viagens imaginárias por países de doçura, com lençóis de cambraia, gosto de carambola e cambucá. Ano em que fomos acalentados pela corrente dos amigos, que nos cumularam de amor. Ano para ser em cálice brindado.
Carm en, câncer, coração, carícia, calor.
Um ano estranho, esse de 2005.
Que doeu e mordeu, assoprou, beijando, num flerte secreto entre comédia e drama, mas que acabou lânguido, acabou na cama.
Ano incomum, que desfilou por nós como colagem, caleidoscópio, cinema. Mas que só trouxe mais paixão, encontro de razão e sentimento.
E que, cá entre nós, acabou em casamento.
—
Quando a m ulher term inou de ler o texto em voz alta, escrito por ela para a cerim ônia, olhou em volta. Viu lágrim as nos olhos de m uitos am igos. Mas ela própria não estava chorando. Nem ele. Os dois apenas se olharam – e sorriram . Eles sabiam . A salvação estava no sorriso. E em não ficar rem oendo sofrim entos. Era hora de pensar no novo ano, que ia com eçar.
Heloisa – Depois da loucura que foi 2005, o novo ano com eçou com m uito trabalho. Logo no prim eiro sem estre, fizem os um a viagem – Paris, Londres, Berlim –, m as, m esm o no exterior, Ruy tinha com prom issos profissionais. Era assim o tem po todo. Ele não parava um segundo. Parecia apostar um a corrida contra o tem po.
Ruy – Já estava tudo pronto para o lançam ento do m eu livro com textos sobre cinem a, Um filme é para sempre – a festa agendada, os convites distribuídos. E eu a toda, viaj ando, dando entrevistas, escrevendo os artigos de j ornal, fazendo m uitas coisas ao m esm o tem po. Outra viagem para fora do Brasil estava m arcada para dali a poucas sem anas, para um a palestra na Universidade de Salam anca, e eu precisava term inar vários trabalhos antes de em barcar. Eu sentia aquela pressão sobre m im , era um a coisa quase física. E aí aconteceu.
Eram cinco da m anhã de um a segunda-feira quando ele abriu os olhos. Mais um a sem ana com eçava, sem ana que traria m uitos com prom issos, incluindo as entrevistas sobre o livro novo. Mas ele não estava se sentindo bem . Não era um a boa ideia ficar doente em véspera de lançam ento, por isso respirou fundo e se sentou na cam a. Bebeu um copo d’água. Sentia um a fraqueza, um adorm ecim ento pelo corpo, m ais concentrado no braço esquerdo. Era com o se sua carne se rebelasse e desej asse continuar dorm indo.
Mas, com o costum ava fazer ao sentir qualquer sintom a de qualquer coisa, levantou-se e tentou não pensar no assunto. Tom ou café, leu os j ornais. O m al-estar continuou. Achou m elhor cham ar a m ulher.
Ela ligou para o clínico geral, que era tam bém cardiologista, e passou o telefone para ele. Conversaram . O m édico não pareceu alarm ado, apenas disse que ele fosse ao consultório no final da m anhã. O hom em relaxou um pouco na poltrona, observando o m ar, lá fora, por cim a da copa das am endoeiras. A m ulher ficou olhando para ele. Talvez sej a estresse, pensou. Depois de um ano tão difícil, da luta contra um câncer tão am eaçador, não podiam ter m edo, nada m ais ia acontecer. O raio não cai duas vezes.
Mas ele estava diferente. Ela continuou observando, enquanto o hom em olhava o m ar. Era raro ele ficar parado assim , contem plativo. Morava à beira da praia e raram ente ia ao terraço, a não ser nos fins de sem ana. Só pensava no trabalho. Por que estaria tão quieto? E, de repente, a m ulher percebeu que faltava algum a coisa nele, um elem ento fundam ental de sua personalidade, que estava desaparecido: o hum or.
Ruy – Na véspera, um dom ingo, eu j á tinha sentido um a coisa estranha, um a fraqueza, tontura, sei lá. Estávam os no carro, a cam inho de um alm oço em que o prato principal seria feij ão-tropeiro. Senti tudo aquilo e não falei nada. Na hora do alm oço, o feij ão-tropeiro estava um a m aravilha, cheio de pedaços enorm es de torresm o. Eu com i com o m aior prazer. E parei de m e sentir m al. Devo ser a única pessoa no m undo que evitou um enfarte com um feij ão-tropeiro. Ou, pelo m enos, adiou-o por vinte e quatro horas (risos).
No eletrocardiogram a não deu nada. Estresse, sem dúvida, concluiu a m ulher. Mas o m édico achou que não custava ele ir a um a clínica, um a em ergência qualquer, para fazer exam es m ais com pletos.
As enzim as, disse. Você tem de verificar as enzim as cardíacas.
Foram .
Quando chegaram à clínica, ele j á estava se sentindo m elhor. E, enquanto esperavam pelo resultado do exam e, riram tanto de algum a asneira que tiveram de se conter para não perturbar os outros pacientes, separados apenas por cortinas brancas, de plástico. Além de tirar sangue para exam inar as tais enzim as cardíacas, ele recebeu um a pílula sublingual que o deixou eufórico. Tanto que falou em se levantar e fugir. Mais um a vez, riram . O resultado do exam e estava dem orando m uito. Finalm ente, o enferm eiro voltou, m as para colher nova am ostra de sangue.
De novo?
O enferm eiro não disse nada.
Mais tem po de espera. Ele estava cada vez m elhor, cada vez m ais ele m esm o, um a palavra aqui, um olhar ali, sem pre um a observação engraçada e exata. Não havia nenhum a ansiedade, nenhum a expectativa de algo ruim . O raio não cai.
Estavam no boxe da em ergência havia quase duas horas quando o m édico entrou, m uito sério. Era bem j ovem . Parecia sem graça, a ponto de pedir desculpas. Os dois se viraram e olharam para ele, rindo. Leves, descontraídos. E ouviram , em silêncio incrédulo, o m édico proferir um a frase que não se encaixava no real, um a frase alienígena, expelida de um planeta distante, cinzento, varrido por ventos intergalácticos, por explosões solares, não de nosso sol, quente e acolhedor, m as de um a estrela m uito m aior, desconhecida e voraz.
Não há dúvida. O quadro é de enfarte.
O raio.
Heloisa – Ele vinha trabalhando dem ais, é verdade, m as dava a im pressão de que tudo o que fazia, os livros que planej ava ou com eçava, eram artifícios, um a form a de driblar a m orte. Parecia acreditar que, enquanto tivesse um livro por term inar, não poderia, de form a algum a, m orrer. Então, a notícia daquele enfarte m e soou com o um a traição. Foi com o se Sherazade fosse vítim a de sua própria história.
Era um quarto escuro. Pequeno, escuro, frio – mas um quarto.
Não era um daqueles boxes separados por cortinas de náilon, como costumam ser os cubículos de uma UTI. Era um quarto de verdade. Além de chão e teto, tinha quatro paredes de alvenaria, uma porta e uma janela, esta última vedada, de vidros pintados.
—
Fazia dois dias que estavam encerrados ali, vivendo na penum bra, com o dois seres abissais. A angioplastia fora feita sem m aiores com plicações. Os m édicos tinham dito que o enfarte atingira um a área pequena, a artéria obstruída era na parte de trás do coração – por isso nada fora detectado no eletrocardiogram a. Ele estava se recuperando bem , tinha recebido apenas um stent.
Um am igo m eu falou que esse negócio de stent é fichinha – disse o hom em . Com o botar um dente de ouro.
Ela riu.
Ficou feliz em ver que o hom em era ele m esm o outra vez. Ela não. Tinha o coração opresso, sentira-se invadida, esbofeteada por aquela frase do m édico, O quadro é de enfarte, não estava preparada para um novo susto.
Ainda sentia correr sob a pele, com dem asiada força, o pavor que se seguira ao diagnóstico do câncer, os m eses em que sofrera calada, sem coragem de procurar saber m ais, sem coragem de perguntar. As feridas ainda estavam todas m uito vivas. Talvez não para ele, m as para ela, sim .
Lem brava-se de vários fragm entos, m igalhas de pânico, o aperto na garganta. Isso já está aqui há algum tempo. A certeza, que a assaltava a todo instante, de que ele ia m orrer, de que não tinha com o ser diferente. Os exam es traziam códigos, que ela aos poucos aprendera a desvendar – T-3/4, o que era aquilo? Ela entendera: um tum or com entre três e quatro centím etros. Metástase. Morte.
Lem brava-se dos pensam entos m órbidos, quase doces, que a envolviam com o um casulo escuro, que a levavam a de repente soltar gem idos nos lugares m ais im próprios, com o se tivesse acabado de receber um a notícia ruim . Nesses m om entos, chegava a im aginar o luto, o velório, o olhar vago, o abraço dos am igos, o corpo inerte no caixão, a sala cheia – e a m úsica. Sem pre havia m úsica. Ela ainda não conseguira decidir qual canção seria, várias desfilavam por seus ouvidos internos, m as um a era a m ais insistente. A m úsica cantada por Vera Ly nn no final do film e de Kubrick, Dr. Fantástico, quando a bom ba explodia, acabando com o m undo. We’ll meet again, don’t know where, don’t know when, but I know we’ll meet again some sunny day. E as lágrim as corriam . Já não era m ais m edo, era dor, e havia nisso, nesse encontro com o luto fantasioso, um bálsam o. Porque o luto é um a dor acabada, calm a. O m edo, não. O m edo escraviza, retorce, dilacera.
Lem brava-se da conversa com um dos assistentes do oncologista, um rapaz brilhante, que podia ser um grande cientista, m as, talvez pela idade, não sabia lidar com o lado hum ano da questão. Lem brava-se do dia em que ele, m uito casualm ente, ao explicar a extensão do tum or na base da língua, dissera por que não fora possível operar:
Pensem num a árvore. Se nós cortarm os o tronco, na base da árvore, até um pouco m ais da m etade, o que acontece? A árvore cai.
A boca da m ulher ficara instantaneam ente seca. Pensara no que seria um a vida sem língua, e em com o tinham estado tão próxim os disso. Com o alguém que vivia pela palavra podia não ter m ais língua? O horror, o horror.
Lem brava-se dos m om entos de pânico, da fragilidade dele no chuveiro. De com o isso acontecia às vezes na rua. O hom em ia andando e de repente parava, tom ado pela sensação. É a faca, dizia. O cerne da angústia, o coração do negror – sentim entos com os quais ele tinha pouca intim idade.
A m ulher lem brava-se tam bém daquela tarde chuvosa em que saíam do centro de quim ioterapia, no Catete, e não havia táxi. Conseguiram um , a m uito custo, o hom em estava fraco, sentia frio. Quando entraram no carro, o m otorista não quis desligar o ar-condicionado, para não em baçar o vidro. Ela explodiu:
O senhor vai desligar, sim ! Ele acabou de sair de um a quim ioterapia!
O m otorista obedeceu sem retrucar. E a m ulher se arrependeu de im ediato, sentiu com o se tivesse fraquej ado, com o se aquele grito fosse a evidência de seu cansaço – e de seu terror. Estava perdendo o controle, e não tinha o direito, não tinha o direito.
Lem brava-se do frio na espinha a cada novo exam e, a cada ida ao m édico, prim eiro todos os m eses, depois de três em três m eses. As agonias nas salas de espera. E lem brava-se de quando, afinal, tom ara coragem para fazer ao clínico a pergunta que guardava na garganta havia m eses, as palavras que destilavam veneno e que ela não podia reter m ais:
Ele vai m orrer?
O m édico parecera quase espantado ao ver que isso tinha passado pela cabeça dela:
Claro que não! Ele vai ficar bom .
—
Medo.
Com os olhos ainda fechados, ela esperou. Podia sentir a presença, m as ainda não o via, apenas intuía que ele estava ali. Abriu os olhos devagar, no escuro. Tornou a fechar. Sabia que form a ele tom ava, assim , no m eio da noite. Era um lobo, de gengivas negras e dentes afiados. Olhos estriados de verm elho, arregalados de fúria. Olhos fam intos. Era um lobo assassino. Trancou ainda m ais os olhos, m as não adiantava, ele tom ava corpo, j á não era só um a som bra, era m atéria, a qualquer m om ento ia saltar sobre ela. Seu estôm ago se contraía, no pavor da espera. A boca seca, o coração descontrolado, a sensação de estar caindo para trás, em um poço escuro. Medo.
O que fazer para segurar a fera, lutar com ela, sentir de perto seu hálito m onstruoso, sem se deixar devorar? Só conhecia um a força que se equiparasse ao terror, e foi assim que seu braço cam inhou no escuro, sentiu a carne, encontrou a fonte, m ergulhou. A m ão tocou o ponto que apaga o m undo e, em seus m ovim entos ritm ados, criou vaga-lum es e estrelas. A m ulher ainda ouviu quando o lobo se afastou no escuro, as patas pisando o chão do quarto com m ansidão, com o se feitas de veludo.
—
Era impressionante a força. A sensação, fosse o que fosse, a transformava. Em poucos segundos, o coração se acelerou e a fronte, febril, expulsou através dos poros gotas mínimas de suor – mas como, se aqui dentro está tão frio? A garganta fechava, a respiração ia acelerando mais e mais. Força, poder, explosão, calor. Umidade. Soltou um gemido sem querer.
Sabe o que a gente devia fazer depois de sair daqui?
O quê? – o hom em quis saber.
Viaj ar. Ir para um lugar qualquer, m as não longe, aqui perto.
Búzios?
Talvez. Desde que sej a um lugar calm o, claro, com m uito sol e m uito m ar. Um lugar para recuperar as forças.
Antes que venha um novo golpe.
Foi a prim eira vez que a frase brotou no cérebro da m ulher, im pertinente. Intrusa. Não queria pensar aquilo, não podia nem im aginar outro golpe.
Bobagem . Frase idiota. Paranoia.
—
Era um lugar lindo e deserto, com o a Ponta da Lagoinha, apenas com o m ar m ais sereno, um oceano im enso. Não fosse por aquela m assa líquida, de um verde profundo, que j unto aos rochedos explodia em m anchas esbranquiçadas de espum a, não fosse por isso, poderiam pensar que estavam na Lua, tal a vastidão de pedra que os cercava. Rochas de todas as cores e form atos, acinzentadas, escuras, ásperas, lisas, sobrepostas com o lascas coladas, lapidadas com o gem as de um país de gigantes.
Subiram por um dos paredões de pedras lascadas, agarrando-se com as m ãos para não cair. Mas tanto m ãos com o pés trilhavam aquele chão com grande intim idade, sem m edo. A m ulher sentia nas palm as o calor da pedra, e era um calor fam iliar, acolhedor, a tepidez guardada pela rocha depois de um dia inteiro de sol. A cada passo, a cada pedra, os dois, hom em e m ulher, eram invadidos por um a sensação de euforia, antecipando a paisagem que, sabiam , os aguardava do outro lado do paredão.
Não se enganaram . Quando chegaram ao topo, viram a beleza que se estendia à frente deles, lá em baixo: um a única m assa de pedra, m uito lisa, tendo ao centro um a depressão, escavada pelas ondas, onde se form ara um a perfeita piscina, de águas verde-azuladas, cheias de algas nas m argens. Com o havia, na pedra, um veio por onde o m ar penetrava, a piscina tinha a água renovada o tem po todo e, quando isso acontecia, as algas se revolviam com o se fossem cabeleiras de iaras subm ersas. O hom em e a m ulher se entreolharam e sorriram . Era o lugar que procuravam havia anos, em sonho. Com eçaram a descer.
Ao chegar à beira do lago salgado, nascido no boj o da pedra, a m ulher experim entou a água com a ponta dos pés. Estava m orna, quase quente. O poço era raso, de águas transparentes que deixavam entrever o fundo, coberto por um a areia m uito branca. A m ulher entrou na água. O hom em se sentou na m argem , com as pernas pendendo da beirada, as coxas m usculosas esm agando as plantas-cabelos. Ela tentou puxá-lo, m as ele resistiu. A m ulher então se deixou boiar, flutuando à flor d’água, sentindo nas costas a carícia do líquido m orno e, nos seios e no ventre, o contato do sol.
Quando depois, m uito depois, ela saiu da água e se deitou nas pedras que ali, j unto à m argem , estavam cobertas de um m usgo m acio, ele se estendeu ao lado dela. Olhou-a nos olhos, sorriu. E se beij aram . Um beij o longo, m olhado, de carnes que se fundiram , com o se as línguas fossem um prenúncio da posse, do ato de am or. Nesse beij o viaj aram , sem pressa, sem pudor algum , duas crianças perdidas no paraíso.
E nesse instante a m ulher entendeu que estavam dentro de um sonho. Um sonho apaixonado, cuj a beleza e perfeição eram talvez um augúrio. Tão bom e tão lindo – que era com o se fizessem am or pela últim a vez.