O Oitavo Selo
Terceiro Selo: Fígado
TERCEIRO SELO
FÍGADO
Assim que o hom em entrou no táxi e bateu a porta, o m otorista olhou para ele através do espelho retrovisor. Ele disse o nom e da rua para onde queria ir. Falou com firm eza, o que desarm ou o m otorista. Desviando o rosto, este engatou a prim eira e saiu. Mas, durante todo o traj eto, de tem pos em tem pos, o olhar dos dois se encontrava no espelho. O m otorista estava inquieto. E o hom em no banco de trás sabia por quê.
Já tinha acontecido outras vezes, m uitas vezes. Mas naquela tarde de inverno em São Paulo, o táxi com todas as j anelas fechadas, talvez estivesse pior. O próprio hom em estava sentindo, o que não era com um .
Enquanto o carro contornava a extensão gram ada da praça Panam ericana, o hom em se recostou no banco de trás, tentando relaxar. Mas, ao fazer isso, respirou fundo – e, respirando fundo, sentiu, ainda m ais forte, o cheiro. Tinha tom ado todo o interior do táxi. Parecia aderir aos bancos, ao forro do teto, aos tapetes de borracha, talvez fosse ficar ali ainda por m uito tem po, por horas ou dias, depois que ele saltasse.
E o olhar no retrovisor continuava. Não era só inquietude ou irritação, em bora houvesse um pouco de cada um a dessas coisas no rosto do m otorista. Era m edo, tam bém . O m otorista sabia, am bos sabiam – que o cheiro em anava dele, do hom em . Estava im pregnado não só em suas roupas, m as tam bém na pele, na carne. Atravessava os poros e tom ava tudo em volta. Cheiro de álcool.
—
Através do vidro da portaria, viu que a m ulher sorria. Um sorriso triste, é verdade, como se já soubesse, m as, ainda assim , um sorriso. Esperou.
Ela veio vindo, o andar elegante, o escarpim de bico fino, a saia j usta um pouco acim a do j oelho. Ele se inclinou sobre o banco, abriu a porta do táxi para que ela entrasse, m as não saltou para recebê-la, com o j á tinha feito no passado. Ela se sentou ao lado dele, deram -se um beij o rápido, e o barulho da porta se fechando pareceu trazer o cheiro para dentro da m ulher, que se calou. Já não sorria, só olhava para a frente. O táxi arrancou.
Quando entraram na boate do hotel, de m ãos dadas, ele se lem brou da prim eira vez. Quanto tem po fazia? Não sabia m ais, talvez seis m eses, ou um pouco m enos. Mas agora havia entre eles um estranham ento. Dessa vez ele não ia fazer o que ela queria. A cocaína, tudo bem , havia aquela história da profecia, do aniversário de trinta e seis anos. Mas agora ela vinha com isso de que ele estava bebendo dem ais, que se continuasse assim ela iria em bora. As m ulheres querem sem pre m ais.
O m aître nem esperou pelo gesto dele. Foi logo trazendo o copo alto, cheio de vodca até quase a boca, com o da outra vez. A m ulher continuava com o olhar fixo à frente, com o se prestar atenção em um piano vazio, ainda à espera do pianista, fosse a coisa m ais im portante do m undo. Quando o show com eçou, foi um alívio, o ar sobre a m esa estava espesso, o hom em sentia que seus gestos eram lentos, presos.
Anos depois, quando tentasse recordar aquela noite, ela lhe voltaria envolta em névoa, com o o com eço daqueles film es dos anos 60 baseados nos contos de Edgar Allan Poe. De tudo, ficaria principalm ente um sentim ento de hum ilhação. O chão antes tão seguro em que pisara agora parecia instável, disposto a traí-lo, com o se o am biente em volta tivesse tom ado o partido da m ulher.
Foi assim que, na saída da boate, ele não viu o vidro. Podia j urar que aquela porta fora deslocada, nunca estivera ali. Só sentiu a dor, o im pacto. Passou a m ão na testa, enquanto tentava se equilibrar. Não olhou para ela, era quase com o se a m ulher não existisse. O vidro não quebrou, por sorte. Mas foi ao saltar do táxi, na porta do prédio dela, que aconteceu o pior. Talvez a calçada estivesse suj a de óleo, ali, na porta da garagem . Ele escorregou, caiu sobre um dos j oelhos, ralou a palm a da m ão. Humilhação. Ela quase se inclinou para aj udá-lo a levantar-se, m as sustou o gesto, m anteve o braço estendido no ar. Ele conseguiu se erguer com agilidade, apenas para encontrar, m uito próxim o, o rosto dela e, estam pado nele, aquele olhar que nunca ia esquecer. Um a raiva contida, talvez, m as talvez desprezo, ou pior – noj o. Foi quando ele entendeu – am bos entenderam – que estava tudo acabado.
Ruy – Outro dia, eu estava conversando com um conhecido, íam os j untos pela avenida Niem ey er para um program a de televisão na Barra. Pela j anela do carro, ele, que é de São Paulo, não tirava os olhos da paisagem . Aí falou que o Rio convida as pessoas a passear e que, por isso, sem pre que vinha à cidade, gostava de andar de bicicleta. E com entou: Quando recebi m eu prim eiro salário, com dezenove anos, com prei um a bicicleta. Ouvi isso e achei graça. E disse: Quando eu recebi m eu prim eiro salário – tam bém com dezenove anos –, com prei um a garrafa de Johnnie Walker.
O rapaz se debruçou sobre a m esa retangular, coberta com um a toalha adam ascada, e observou de perto o líquido verm elho no recipiente redondo de cristal. Havia pedaços de frutas, m açãs talvez, cortadas em quadradinhos, boiando na superfície, que um a concha, tam bém de cristal, feria. Ele pegou a concha e se serviu, enchendo o copinho boj udo. Tom ou um prim eiro gole, um segundo, virou o copo inteiro e só não gostou m uito de m astigar os pedaços de fruta. O tal do ponche não era ruim . Parecia suco. Serviu-se de novo, dessa vez tom ando o cuidado de evitar os quadradinhos de m açã, o que não era fácil. Mas estava ganhando prática. No terceiro copo, quase não veio m açã. Já ia tom ar m ais um quando reparou que, a um canto da m esa, dois hom ens conversavam olhando para ele. Voltou para a outra sala, onde as pessoas estavam dançando.
Não gostava de dançar. Aos quinze anos, sabia m uitas coisas, lia bem em inglês e francês, entendia tudo de cinem a, m úsica, literatura. Depois da m orte da irm ã, tornado filho único, tinha tudo o que queria. Só não sabia dançar. Em geral, não ligava, m as naquela noite se lam entava por isso.
Ou não. Naquela noite, quem sabe, talvez tom asse coragem e tirasse a professora. Lá estava ela, encostada na j anela, conversando com um a senhora m ais velha. Era louco por ela, sua professora de francês. Ficava adm irando quando ela cruzava as pernas sob a m esa, quando se debruçava para ler algum a coisa no livro e seus cabelos negros, lisos, caíam sobre o rosto. Tinha os olhos iguais aos de Elizabeth Tay lor. E o corpo tam bém . Seios grandes, cintura finíssim a. Parecia m ais alta do que era. E m uito chique e inteligente. Ele adorava as aulas dela.
Se tirasse a professora para dançar, ia poder colocar a m ão em torno daquela cintura, talvez subir em direção ao m eio das costas. Ela era diferente das garotinhas, era um a m ulher m adura. Quantos anos teria? Trinta, talvez. Grande m ulher.
O rapaz deu alguns passos, sentiu de repente um a necessidade de se m exer. Suas pernas obedeciam , m as estavam quentes, flexíveis, com um a m oleza gostosa que subia e ia tom ando o corpo todo. Voltou até j unto da m esa onde estava o ponche. Olhou em torno e viu que os dois hom ens que conversavam por ali tinham desaparecido. Tom ou m ais dois copos, um seguido do outro, sem pre evitando as m açãs. Tinha desenvolvido de repente um a grande habilidade para fazer isso.
Quando reentrou na sala principal, estava com eçando a tocar “Moonlight serenade” na vitrola. É agora, pensou. E foi quase um espectador enquanto suas pernas quentes atravessaram o espaço entre a porta e a j anela. A professora o recebeu com um sorriso.
Ruy – Era m eu prim eiro salário na revista Manchete: novecentos m il cruzeiros. Com prei um Johnnie Walker Red Label, na m ão de um hom em cham ado Catanhede, que depois seria tam bém m eu contrabandista em São Paulo. O uísque custou quarenta m il cruzeiros – quase cinco por cento do m eu salário. A garrafa durou dez dias.
Algum a coisa lenta e m orna, um a atm osfera de sonho, o ar algodoado que os envolvia, fazendo desaparecer a sala em torno. Era com o William Holden dançando com Kim Novak em Picnic. Ele sentia o perfum e dos cabelos da m ulher, sentia a proxim idade com a pele do pescoço, do rosto, dos braços, sentia a m ão dela apertando a sua, e sentia, sobretudo, o côncavo da cintura que enlaçava. Aquela cinturinha fina. Com o a de Elizabeth Tay lor. Os olhos violeta ele não podia ver, o par dançava com os rostos quase colados, os dois com os olhos baixos, talvez fechados.
Ficaram assim por um tem po im enso, Glenn Miller na vitrola, girando em rotação m ais e m ais lenta, hipnótica. Se pudesse, ele inclinaria o rosto para a esquerda e roçaria a boca naquele pescoço m acio. Quando se desse o contato, ela estrem eceria, m as apenas no prim eiro instante. Depois, ela baixaria ainda m ais o rosto, para que os cabelos negros, com pridos, form assem um esconderij o, encobrissem o beij o proibido. Então, ele deixaria a língua deslizar m uito, m uito devagar, para cim a e para baixo, em m ovim entos cada vez m ais alongados, até que alcançasse o lóbulo da orelha. A m ulher pressionaria o corpo contra o dele, louca com o ele, louca de desej o, e aos poucos a sala em volta se dissolveria, com o papel tocado por um líquido quente, viscoso e então…
De repente ele ouviu o sussurro dela em seu ouvido. Foi bem baixinho, um sopro, o ar quente liberado pelos lábios lhe fez cócegas na orelha. Gosto de você. Foi isso, foi o que ela disse, a professora. Gosto de você. Ele não teve coragem de abrir os olhos, de encará-la. Não por tim idez, m as sim por tem er que o m om ento se desm anchasse, ou que a frase fosse apenas um delírio. Mas a m ão que segurava a cintura puxou a m ulher m ais para perto e ele disse, baixinho, eu também.
Quando a m úsica acabou, ela sorriu para ele e se separaram . O rapaz sentia um a estranha com oção, um a euforia que chegava a doer. Pensou em ir até a outra sala e tom ar m ais um ou dois copos de ponche, m as desistiu. Aquela bebida era coisa de criança. Melhor era ir em bora, sentir o ar frio da noite bater no rosto, ali, naquele ponto da face onde se dera o contato, o ponto que guardava ainda o calor do sonho e do desej o.
—
Naquele dia, ele não ia pedir Crush. Gostava da bebida alaranj ada, da sensação de passar os dedos pelas ranhuras da garrafa castanho-escura, sentir o relevo gelado. Mas não dava para ficar tom ando refrigerante ao lado de um hom em daqueles, um sam bista tão im portante, que aprendera a adm irar desde criança. Tanto Ism ael Silva quanto Nelson Cavaquinho, com quem ele costum ava se sentar no bar da avenida Gom es Freire, em frente ao Correio da Manhã, pediam cachaça ou verm ute, sem pre. E ele, naquele dia, ia pedir um a cervej a.
O garçom trouxe as bebidas, Ism ael ergueu o copo de verm ute, fez um gesto com a cabeça. Era educado, elegante. O rapaz fez o m esm o. Depois, aproxim ou o copo da boca e bebeu.
A lem brança veio de um j ato, a lem brança da prim eira vez em que botara um a bebida alcoólica na boca. Fazia anos que não pensava nisso. O dia do ponche, sim , da dança com a professora, disso se lem brava sem pre, m as naquela época estava com quinze, dezesseis anos. A prim eira vez fora m uito antes, m as disso estivera esquecido. E agora a lem brança estava ali, de volta.
Tinha uns dez anos, talvez, quando o pai com prou duas caixas de vinho português na m ão de um caixeiro-viaj ante. Quinta das Fontainhas era o nom e. Um vinho tinto, seco, encorpado, que o m enino passou a beber sem pre. As duas caixas duraram dois m eses ou m ais. Durante esse tem po, o vinho passou a fazer parte das refeições da fam ília. O pai dava, as crianças tom avam , ele e a irm ã, nessa época a irm ã ainda estava bem . O m enino gostava. Desde a prim eira vez, bebeu com grande naturalidade, nada de estranheza, nada de caretas, nenhum a sensação de gosto estranho, de ardência na garganta. Nem tontura ou sensação de em briaguez. Era com o se o vinho fosse parte dele, com o se nele se am algam asse ao descer pela garganta.
Deu m ais um gole. A cervej a gelada parecia água. Beber era bom , e era bom tam bém estar sentado ao lado de Ism ael Silva, um hom em sem pre tão cultuado por seu pai. Um m onstro sagrado, personagem que o pai conhecera no Rio em fins dos anos 20, um a cidade de histórias, lem branças que levara consigo pela vida afora. E de repente, ele, o filho, dezenove anos, estava ali sentado ao lado do sam bista, conversando com ele com o se fosse um igual. Virou o copo de cervej a até o fim , antes que esquentasse. E encheu-o outra vez.
Ruy – Descia fácil. Facílim o. Talvez eu não tivesse dinheiro para beber m uito nessa época, m as se houvesse alguém pagando, ou se a bebida de repente sobrasse na m inha frente, eu bebia com grande tranquilidade. A bebida não tinha nada de hostil para m im .
O rapaz passou pelo salão cheio de obras de arte – incluindo os dois enorm es Volpi, estranham ente não figurativos – em cuj o canto ficava a vitrola de pés de palito, onde era possível tocar tanto LPS quanto discos de 78 rotações. Entrou no corredor com um a sensação de galope no peito. Raras vezes tinha oportunidade de estar sozinho naquele lugar que tanto adm irava. O apartam ento era antigo, de pé-direito alto, em um prédio encravado sobre um a rocha que fora aberta a dinam ite para dar passagem à rua. Mas a localização, em Copacabana, a vista para a m ata, nada disso im portava. O que im portava era o que existia lá dentro, obj etos e pessoas. Era m uito m ais do que ele um dia im aginara, no tem po em que ainda vivia m uito longe dali.
Parou no m eio do corredor e olhou para o arm ário, fechado. Ficou im óvel por um instante, m as logo, não resistindo à tentação, abriu as duas portas. Em várias prateleiras, até o teto, estava a coleção de 78 rotações do am igo. Os discos ficavam em pilhas deitadas e estavam todos em sua capa original, de papel pardo com um buraco no m eio, trazendo im pressos o logotipo da gravadora e anúncios de lançam entos. Ele sabia bem . Já tinha apreciado a coleção, ouvindo os com entários do dono da casa. Chegou m ais perto. Eram pilhas diferentes para cada cantor, Francisco Alves, Orlando Silva, Carm en Miranda, Mario Reis. Jeanette MacDonald e Nelson Eddy. Gardel, Chevalier, Al Jolson. Caruso, Am elita Galli-Curci, Tauber, m uitos discos de ópera. José Moj ica, cantor m exicano. Tinha um único disco de j azz, Pontchartrain blues, de Jelly Roll Morton. Um gosto eclético, surpreendente, com posto de coisas que deviam estar esquecidas, que não podiam pertencer a um hom em tão m oderno, leitor de Pound, fã de Godard, am igo de Max Bense. Mas estavam ali assim m esm o, e essa pluralidade, essa m istura de gosto sofisticado com elem entos populares, era o que deixava o rapaz m ais fascinado.
Fechou as portas e cam inhou em direção ao fundo do corredor, onde ficava a estante aberta, com livros sobre m úsica popular. Observou as lom badas. O livro de Alm irante, No tempo de Noel Rosa, e tam bém Panorama da música popular brasileira, de Ari Vasconcellos. Um livro sobre m úsica popular francesa, outro de letras de Georges Brassens, vários livros sobre tango e tam bém sobre boleros. Muitos volum es sobre ópera.
Perto dessa estante ficava a porta do escritório. O rapaz envolveu a m açaneta da porta e abriu. O escritório tinha as paredes forradas de estantes até o teto. Um a parede inteira era dedicada à poesia e a ensaios sobre estética. Havia poesia em português, francês, inglês, espanhol, alem ão, e eram edições bonitas, antigas. William Blake, Rilke, Lorca, e. e. cum m ings. Livros dos filósofos da linguagem , Susanne K. Langer, Ernst Cassirer, Maurice Merleau-Ponty, Alfred N. Whitehead, Norbert Wiener.
Ele se voltou para a outra parede. Ali ficavam os Penguins e os Livres de poche, sem pre de ficção: Joy ce, Faulkner, Balzac, Zola, Flaubert, Fitzgerald, Hem ingway, Mark Twain. Mas a terceira parede era a m ais im pressionante – a de publicações sobre cinem a. A im ensa coleção de livrinhos num erados, Cinéma d’Aujourd’hui – Alain Resnais, Luchino Visconti, Luis Buñuel, tantos, tantos. L’Écran démoniaque, o livro sobre expressionism o alem ão, de Lotte Eisner. O livro de Claude Chabrol e Eric Rohm er sobre Hitchcock. A coleção com pleta do Cahiers du Cinéma, com as capas em am arelo-claro, sua m arca. Os volum es da Revue du Cinéma, precursora do Cahiers e ainda m ais rara. A coleção da Positif, que era o Cahiers da esquerda. O cinem a não se lim itava às telas, espalhava-se tam bém pelas palavras.
Ele teria ficado ali parado ainda por m uito tem po não fosse o ruído que ouviu perto da porta. Voltou-se. Era um a am iga do dono da casa, que tam bém frequentava aqueles salões. Ele a conhecia. Era um a m ulher de personalidade forte, dez ou quinze anos m ais velha que ele, com os cabelos m uito lisos cortados na altura do queixo. Não era especialm ente bonita de rosto, m as tinha um corpo espetacular e usava um as calças j ustas que lhe delineavam as pernas. Era professora de filosofia e diziam que só gostava de m ulheres.
Ela sorriu.
É um a beleza de estante – disse.
Ele concordou.
Você j á escolheu a sua?
A m inha o quê?
A sua estante. Eu j á. Se eu pudesse levar com igo um a das estantes desta casa, eu j á sei qual levaria. E você, j á escolheu a sua?
Ele tornou a olhar para as três paredes forradas de livros e revistas.
A de cinem a – disse ele. E você?
Ela se aproxim ou e pegou o rapaz pela m ão. Ele sentiu a palm a quente contra a sua. A m ulher deu um m eio sorriso:
Vem cá.
—
O rapaz observou a m adeira escura da estante do salão, com a porta dupla encaixada no m eio. Tinha um a pequena chave, de m etal envelhecido, com volteios que faziam lem brar velhos cofres, segredos, m istérios. Ele sabia m uito bem o que havia por trás daquela chave. Mas ficou esperando que a m ulher abrisse a porta. Ela estendeu a m ão e tocou a chave. Deu um a volta. Houve um estalo. Com as duas m ãos, puxou. Ali estava outro dos m uitos tesouros da casa. As garrafas m aiores na prateleira de baixo, as m enores, m ais boj udas, em cim a. Tam bém na parte inferior, o galão de porcelana de Black & White, com torneirinha. Entre as garrafas da prateleira m ais alta, um a lhe cham ou a atenção, um uísque em cuj o rótulo dois m onges, sentados sobre barris, brindavam com suas canecas. Monks. A m ulher sorriu para ele.
Minha estante é esta aqui.
Ruy – O uísque era a bebida adulta. Principalm ente dos adultos com quem eu m e relacionava – um círculo sofisticado, ligado a m úsica, cinem a, j ornalism o, teatro, poesia, literatura, artes plásticas. Era o m undo dos grandes ensaístas, com o Herbert Read, Isaac Deutscher, Herbert Marcuse – a novidade era Marshall
McLuhan –, e das revistas liberais am ericanas, com o a Partisan Review, a New York Review of Books e a New Yorker – um m undo lógico, racional, ainda bastante europeu. Os generais da ditadura, um bando de grossos, eram os grandes personagens das piadas. Era o m undo que eu frequentava aos vinte anos, e o uísque fazia parte dele. Havia um perm anente estado de euforia, um a enorm e capacidade geral de beber e, no dia seguinte, cada qual se gabava de ter bebido m ais do que o outro. Beber era im portante, assim com o não ficar de porre, não ter ressaca. Eles sabiam que eu era capaz de beber tanto quanto eles, m ais velhos, m ais experientes. Portanto, eu tam bém fazia parte. Eu j á era um deles.
A vista de sua j anela, à direita da estrada, lhe parecia sem pre a m esm a: m orros, m ato, casas pobres e aquele pedaço de asfalto do acostam ento, m eio carcom ido, por onde se espichava um a tira de tinta desbotada, que um dia fora branca. Era aquilo e pronto, não m udava nunca.
Do outro lado, não. Do outro lado havia o m ar, as ilhas parecendo desenhadas por criança, só faltando um coqueirinho no m eio. O m ar da Costa Verde, o m ar de Angra. Será que estavam perto? Não chegava nunca.
Aquele m ar, sim , era um a beleza de olhar, m as toda vez que ele se virava para a esquerda, a nam orada, ao volante, perguntava: O que foi? Melhor continuar olhando o m ato do lado de cá. Viagem interm inável. Ainda bem que elas estavam ali, debaixo do banco, suas garrafas. Quando o carro caía em um buraco do asfalto, elas chacoalhavam lindam ente.
Esticou a m ão direita e pegou a que deixara fora da caixa, enfiada em pé, entre o banco e a porta. Era um gesto que repetia o tem po todo. Tam bém , com um a viagem daquelas, que não acabava nunca. Puxou. Abriu a tam pa de rosca e deu três bons goles, pelo gargalo. Fez isso sem olhar para o lado, m as podia sentir a reprovação da nam orada. O silêncio do carro ganhava de repente um peso novo com o olhar dela, m as a vodca descia com suavidade pela garganta, líquido e m ucosa eram parte de um só corpo, um a só m atéria. O olhar não im portava. Fixou o seu no m ato, que continuava passando pela j anela, incansável. Acendeu um cigarro. Tinha sido um a boa decisão, a de m udar de uísque para vodca. Gostava dos destilados. Achava as bebidas ferm entadas um a perda de tem po, principalm ente cervej a. Ao pensar isso, lem brou-se daquelas cervej as no botequim da avenida Gom es Freire. Tudo bem , era um garoto. Isso fora há quanto tem po? Na época do Correio da Manhã. Estava com dezenove anos, agora ia fazer trinta e oito. Nos anos seguintes, j á frequentando a casa do am igo poeta e j ornalista, m udara de vez para os destilados. E agora era só vodca. Essa coisa transparente, forte, que desce sem deixar rastros.
Ouviu um a buzina. Talvez tenha cochilado – estranho, isso nunca lhe acontecia –, m as de repente, ao procurar o m ar à esquerda da estrada, encontrou um porto pontilhado de m astros e, ao largo, a m assa de três ou quatro navios m aiores, com o cargueiros. Parece que estavam chegando. Menos de cinco m inutos depois, o carro dim inuiu a m archa, tom ou o acostam ento à direita e, quando a m otorista se certificou de que não vinha ninguém na direção contrária, atravessou a pista. A m udança na paisagem foi im ediata. Não estavam m ais rolando sobre o asfalto gasto, m as sobre um a estrada vicinal, de terra batida, cercada dos dois lados por capim alto. Seguiram por ela até chegar a um portão de m adeira, preso a portais de cantaria. A nam orada pediu que ele fosse abrir. Ele foi. Antes de saltar do carro, tom ou cuidado para acom odar bem a garrafa j unto do banco.
Assim que o carro transpôs o portão, houve nova m udança de cenário. A terra batida do chão se transform ou em paralelepípedos e o m ato alto, na prim eira curva, desapareceu, dando lugar a um a vegetação rasteira, por cim a da qual surgiu outra vez o m ar, lá em baixo. Da casa, não se via nada. Seguiram pela estradinha de pedra, descendo, chegando cada vez m ais perto do m ar. E afinal deram em um pátio, tam bém calçado de pedras, onde j á havia três carros estacionados. Saltaram .
O hom em respirou fundo. Dava para sentir o cheiro de sal e lodo que em ana do fundo das baías. Só então ele viu a casa, quase oculta pela vegetação. Ele não sabia, m as eram coqueiros, flam boy ants, patas-de-vaca, figueiras, j aqueiras, um a m istura de árvores nativas e estrangeiras, plantadas depois da construção, para que a casa não ferisse a beleza do lugar. A casa era antiga, isso ele sabia. O dono a construíra m ais de vinte anos antes, quando toda aquela região era intocada e a única m aneira de se chegar lá era de barco.
Entraram pelos fundos e com eçaram a descarregar as m alas. Assim que soube qual seria o seu quarto, o hom em carregou a caixa com as garrafas e enfiou debaixo da cam a. Preferia beber sua vodca pura, congelada, aquele m el transparente. Mas não ia com eter o erro de botar suas garrafas na geladeira ali, naquela casa cheia de gente. Não podia arriscar que seu estoque acabasse.
—
O hom em estava esticado no deque, com um cigarro entre os dedos, sentindo o calor gostoso da m adeira nas costas. A tarde caía, m as o sol ainda estava queim ando. Os am igos, a m ulher, estavam todos na pequena praia particular que ficava a poucos m etros do deque, um a praia em curva, de areia m eio prateada, j unto à qual crescia um a árvore enorm e, da Am azônia, que era conhecida na região. Vinham barcos de toda parte para ver a árvore quando ela se enchia de flores, o dono da casa dizia. Mas ninguém sabia direito o nom e dela. O hom em , m enos ainda. Aliás, ele não tinha grande interesse pelo m undo vegetal.
Pelo m undo anim al, sim , pensou, abrindo um dos olhos ao sentir a trepidação da m adeira. Por algum a razão, sabia que era a m ulher do am igo que se aproxim ava. Ergueu-se nos cotovelos e viu que tinha acertado. Sorriu.
Ela sorriu de volta. Vestia um a espécie de caftan transparente, cor de sorvete de crem e, por baixo do qual se via o biquíni preto, sutiã tom ara que caia. Estava descalça e usava um chapéu branco de abas larguíssim as, com um a fita preta e branca, zebrada, am arrando a copa. Ao chegar perto dele, sentou-se, tirou o chapéu e sacudiu os cabelos. Eram louros, encaracolados e iam até abaixo dos om bros. Estavam úm idos.
O que é isso?
Isto aqui?
É vodca ou água?
Ele riu.
Vodca, claro. Quer um gole?
Não, eu pensei que fosse água. Estou m orrendo de sede.
Disse isso e passou a língua nos lábios. Ele riu de novo e deu outro gole na vodca.
Não m orre, não. Seria um desperdício.
Ela passou as costas do dedo indicador na parte externa do copo dele, de cim a para baixo, três vezes, com o se contem plasse a ideia de lam ber o suor do vidro. Depois olhou para ele, m uito séria:
Vou lá em cim a beber água.
Eu vou com você.
—
Subiram j untos a escada de pedra que levava do deque à casa no alto da escarpa. Ela ia na frente, a pele queim ada de sol sob o caftan esvoaçante, a linha aguda do biquíni preto form ando um “V” que parecia apontar para ele. Três ou quatro degraus atrás, ele andava de cabeça erguida, o olhar fixo na m ulher, o copo vazio de vodca ainda na m ão. Estavam os dois em silêncio. Talvez soubessem , talvez tivessem desde j á a dim ensão do que iam fazer, m as essa consciência se dava em algum ponto abaixo da superfície, em m eio a um a névoa quente e sulfurosa. O hom em passou a língua nos lábios. Tam bém sentia sede, m as não de água.
Quando chegaram ao topo da escada e entraram pela varanda, o hom em viu quando a coxa da m ulher raspou em um tronco de brom élias, provocando um pequeno alvoroço na folhagem . Teve a im pressão de que ela fizera aquilo de propósito, havia no gesto um im pulso qualquer de desafio ao perigo e à dor.
Continuaram em silêncio. Por algum a razão, o hom em se lem brou de outra m ulher, tam bém nam orada de um am igo, com quem um a noite fez am or no banheiro de um restaurante. Isso fora há tem pos, três ou quatro anos. Prazer. Perigo. Morte.
Tem certeza de que é água o que você quer?
A m ulher sorriu.
Talvez eu queira um gole da sua vodca.
Ele sorriu de volta. Estranham ente, não tinham pressa. Sabiam que estavam desafiando o tem po e a sorte, m as queriam que o j ogo se estendesse.
Meu copo está vazio. Mas vou buscar m ais.
Ela fez que sim com a cabeça e se recostou em um baú de m adeira, m uito grande e pesado, que havia na parede da sala. Quando ele passou por ela, em direção ao quarto onde escondera as garrafas, viu, com o canto dos olhos, que ela alisava a coxa sob o tecido transparente.
—
No segundo em que tocou a borda da caixa de papelão, guardada em baixo da cam a, sentiu a leveza. Puxou. Ficou olhando durante vários segundos, im óvel, sem acreditar. A caixa estava vazia.
Ergueu-se. Olhou em volta. Tornou a olhar para a caixa de papelão a seus pés. O que aconteceu? Com o pode? Atirou-se ao chão, enfiando a cabeça debaixo da cam a. Não havia nada ali, só poeira. Tateou o chão, saiu com a palm a da m ão escura. Outra vez de pé, foi até o interruptor e acendeu a luz. O quarto dava para a m ata atrás da casa, era som brio. Quem sabe com a luz acesa? Elas tinham de estar ali, no quarto, em algum lugar. Sentiu um a pontada de pânico na boca do estôm ago. Claro. Alguém tinha tirado as garrafas dali, alguém que não queria que ele bebesse. Não podia ser a nam orada, ela não teria essa ousadia. Um dos am igos, sim . Sem dúvida, um dos am igos. De m olecagem , para brincar com ele. Que sacanas! Quem teria sido? Mas elas deviam estar por ali, escondidas em algum canto do quarto m esm o. Eles não iam se dar ao trabalho de sair carregando todas aquelas – quantas eram ? Na últim a com pra, doze. Tinha trazido pelo m enos oito. A que bebeu durante a viagem … tinha sobrado um resto, que foi tom ado no deque. Eram um as sete ou oito, tinha certeza. Deviam estar por aqui, talvez no arm ário, não, o arm ário era óbvio dem ais, ou debaixo do colchão. Pelas dúvidas, abriu o arm ário. A nam orada j á tinha arrum ado as roupas para o fim de sem ana, dela e dele. Enfiou a m ão para ver se as garrafas não estavam escam oteadas atrás dos j eans, das cam isetas. Ali não havia nada. Olhou a parte de cim a do arm ário, onde os donos da casa tinham deixado um cobertor. Puxou. O cobertor caiu sobre sua cabeça, se desdobrando. Nada de garrafa. A respiração dele com eçava a ficar m ais acelerada, sentia um aperto na garganta. Enfiou a m ão na beirada do colchão, quem sabe não estavam ali em baixo. Era um colchão pesado, de m olas, dos antigos. Enquanto tentava m antê-lo no ar, sentiu um a dor fina na ponta dos dedos da m ão direita. De repente, se lem brou de onde estava. Em um a casa de praia, longe de tudo, sem nenhum a cidade por perto, nenhum a venda, nenhum bar, nenhum lugar que ele pudesse alcançar pelas próprias pernas, sem depender de alguém que o levasse de carro. Arregalou os olhos. Precisava acabar com aquela brincadeira e achar suas garrafas. Com eçou a pensar na cena de um film e com Ray Milland, em que ele escondia as garrafas do lado de fora da j anela, penduradas, para que seu irm ão não descobrisse. Correu e debruçou-se no parapeito. Não havia nada, m as m esm o assim passou a m ão pela parede externa, que se m anchou de verm elho. Trouxe a própria m ão para j unto do rosto e percebeu que sangrava. Não sabia com o, nem em que se m achucara, m as sangrava. Estava ainda parado, olhando estupidam ente para o sangue que escorria pelo pulso, quando ouviu a voz:
O que aconteceu?
Virou-se e viu a m ulher do caftan transparente, parada na porta, com ar de espanto. Ele não respondeu. Passou por ela com o se não a tivesse visto e saiu do quarto, a boca trancada, o coração m artelando, disposto a fazer um a busca na casa, no terreno, ou achar o desgraçado que tinha escondido suas garrafas de vodca. Ao passar pelo corredor, deixou no chão, com o um rastro quase im perceptível, duas gotas de sangue.
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Sangue.
Ficou parado, a m ão direita apoiada na parede de azulej os, olhando para aquele espetáculo. Era sua casa, seu banheiro, m as parecia outro planeta.
Pensou na irm ã, as hem orragias, o rosto pálido, a m orte. Mas no segundo seguinte afastou o pensam ento. Não tinha nada a ver, era outra coisa, e ele sabia bem o que era.
Respirou fundo, sentindo-se carregado, intoxicado, repleto de algum a coisa alienígena, que não deveria estar ali, preenchendo os espaços de carne. Precisava fazer m ais um a vez, tentar arrancar aquilo de dentro de si. Botar para fora. Inclinou-se sobre o vaso e enfiou o dedo na garganta. O segundo j ato veio ainda m ais forte. Sangue escuro, puro, rubro, a louça branca tingida de verm elho. Mas a sensação de vazio era um alívio. Em poucos m inutos, tudo estaria lim po, e ele tam bém .
Deu descarga várias vezes, lim pou os respingos com aj uda de pedaços de papel higiênico, ora secos, ora m olhados. Dava trabalho, m as precisava deixar tudo im pecável. Quando se certificou de que não havia nenhum rastro do que acontecera, foi até a pia, para escovar os dentes. Não prestou m uita atenção na própria im agem , no espelho. Estava sem os óculos, que tinham ficado na m esinha de cabeceira. Melhor assim .
Quando term inou de bochechar, sentindo a água gelada da torneira na boca, achou que era hora de voltar para a cam a. Já estava dem orando m uito no banheiro. A nam orada podia desconfiar. Não era a prim eira vez que acontecia, era talvez a quarta ou quinta. Não fazia nem três sem anas que tinha acontecido da últim a vez. Mas, tudo bem , naquela ocasião a nam orada que estava dorm indo na casa dele era outra. Ou era essa? Já não tinha certeza. Vinha alternando as duas e tinha certa dificuldade em diferenciar as histórias. Às vezes, era tom ado por um a sensação de nebulosidade, com o se tivesse um a cam ada de algodão acolchoando o cérebro, sob a calota do crânio. Pensam ento estranho. Abriu a porta do banheiro e saiu.
A nam orada nem se m exeu quando ele se enfiou, nu, debaixo da coberta. Pensou em virar de lado e abraçá-la por trás, m as antes, passou a m ão direita sobre o próprio abdôm en, apalpando o lugar onde achava que era o fígado. Sentia um endurecim ento ali. Talvez fosse im pressão, devia ser assim m esm o. Mas vom itar sangue não era norm al. Podia dim inuir um pouco a bebida, por uns tem pos. Ou ir ao m édico. Não, ir ao m édico, nunca – ele iria proibi-lo de beber. Viver sem beber? Im possível. Nesse instante, a nam orada deu um suspiro e se virou, enroscando-se nele. Ele sentiu os seios duros, pequenos, contra seu braço – e se esqueceu do fígado.
Ruy – Eu estava casado pela segunda vez, depois de anos de esbórnia, e m inha m ulher propôs m e internar. No início, eu não queria nem conversa. Depois, para ganhar tem po, topei discutir o assunto. Talvez não fosse m á ideia ir para um lugar desses e descansar, dar um a lim pada no organism o – e depois recom eçar do zero. Em m om ento algum pensei em parar de beber. Talvez achasse que poderia beber de um a m aneira m ais… positiva. De fato, a coisa estava ficando fora de controle. E era o que eu queria. Retom ar o controle.
Foi um a noite, ao chegar bem tarde, que ele viu os cadáveres na porta de casa. Ao lado da garagem . Talvez o cam inhão do lixo não tivesse passado. Eles vinham sem pre de m adrugada, para não atrapalhar o trânsito. Ficou de pé, na calçada, olhando. Ouviu quando o m otor do táxi que o trouxera desapareceu no silêncio. Sentiu-se estranham ente sozinho, de repente, diante de seus m ortos.
Cadáveres. Era com o ele cham ava as garrafas vazias, que iam sendo acum uladas na área de serviço e que, duas ou três vezes na sem ana, a em pregada botava para fora. À noite, elas ficavam ali, na porta da garagem , à espera do cam inhão de lixo. Chegou m ais perto. Contou. Eram dezesseis. Dezesseis garrafas vazias de vodca, correspondendo a alguns dias de consum o. Quantos dias? Três, quatro? Não sabia quando fora colocada para fora a leva anterior. Talvez fizesse um a sem ana. Ou m enos. Enfiou a chave na porta. Antes de entrar, ainda olhou um a últim a vez para trás. A vizinhança vai pensar que os moradores desta casa bebem muito. O am argo na língua não o im pediu de dar um sorriso de triunfo. Não podem imaginar que os cadáveres são todos meus.
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O restaurante tinha um pé-direito altíssim o, parecia um a catedral. As paredes eram escuras, m isturando tons de granito e m arrom , m as por toda parte havia pontos de luz, apliques e candelabros com pingentes de cristal. Coisa de novo-rico, ele costum ava pensar quando entrava em um lugar assim . Mas naquela noite não estava prestando m uita atenção no am biente. A sensação que o acom etia era incom um , quase desconhecida, talvez fosse o que os seres norm ais cham am de cansaço. Um torpor, a visão um pouco borrada, as luzes dos candelabros de vez em quando se espichando e form ando traços verticais, com variações de brilho e cor.
Foram levados pelo m aître para um a m esa bem central, à vista de todos. Isso é outra coisa que os novos-ricos apreciam : ver e ser vistos. Ninguém quer saber de se sentar ao fundo ou no canto. Ele não escolheria aquela m esa. Sentaram -se, os três. Ele, a m ulher e um am igo dela, que era gaúcho e estava de passagem pela cidade. Se pudesse, teria ficado em casa, m as a m ulher insistiu, queria levar o am igo para conhecer o restaurante.
O m aître trouxe os cardápios, enquanto dois garçons enchiam a m esa com uns obj etos m inim alistas que talvez fossem o serviço. Um desses obj etos era um suporte de m adeira com um gancho, no qual estava pendurado um pequeno lençol engom ado, encardido, com pontinhos pretos. O hom em pegou na ponta do pano e ele se partiu. Só então percebeu que era um a m assa de pão, um a espécie de pizza seca, para ser com ida com as pastinhas. Que ridículo. Pediram as bebidas. Vodca para ele, claro, água para ela, um m artíni para o am igo gaúcho. E com eçaram a exam inar o cardápio.
O forte do lugar eram as m assas. O hom em não estava com a m enor fom e. Melhor assim . Não gostava de m assas, e ultim am ente j á não vinha achando graça em com ida algum a. Além disso, sabia que a porção que viria seria m ínim a, quatro ou cinco colheres de sopa de um parente do m acarrão, com enfeites e pingos e traços, parecendo um quadro de Manabu Mabe. Pediram .
As bebidas chegaram , e ele teve de se esforçar para não em borcar o copo alto de vodca de um a só vez. Deu três goles e ficou olhando fixam ente para as luzes, que pareciam crescer, espichar-se em traços m ais e m ais com pridos. Não se via o teto, o candelabro de cristal ofuscava o que estava acim a dele. A m ulher e o am igo não paravam de falar, ficavam perguntando coisas para ele, m as ele estava sentindo novam ente aum entar aquele torpor desconhecido.
Quando afinal vieram os pratos, ele baixou os olhos. Ficou observando os pedaços de m assa encerada, com o m olho form ando desenhos. Havia qualquer coisa de hipnótico ali, um a força que o atraía para baixo, para dentro ou para longe, talvez. O torpor. O torpor era quente, envolvia seu crânio com o um a toalha – j á tinha tido essa im pressão antes? Deu um a ordem m ental ao braço direito para que se m ovesse, à m ão direita para que pegasse o garfo. Mas nada aconteceu. Fez um esforço im enso. Firm ou a cabeça e deu m ais um gole de vodca. Agora, sim , a m ão obedecia. O líquido desceu. Sentiu com o se aquela coisa espessa, gelada, escorresse pelos ouvidos, por dentro, com o se a vodca tivesse ido para cim a, com o se ele estivesse participando de um a daquelas gincanas em que se bebe virado de cabeça para baixo. Assim . Para baixo. Um peso, um peso gostoso, era bom , era quente outra vez, era quieto, silencioso, era com o adorm ecer.
A m ulher soltou um grito, os garçons acorreram . O am igo gaúcho se levantou, horrorizado. Um m urm úrio de adm iração percorreu o restaurante. O m aître foi m uito gentil, ele e m ais dois garçons aj udaram a erguê-lo, enquanto a m ulher lim pava seu rosto com o guardanapo. O am igo gaúcho foi pedir o carro ao m anobrista. Ao passar por um a das m esas, ouviu quando um a senhora perguntou ao m arido, chocada:
Ele está bêbado?
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O hom em acordou no sofá da sala. Olhou em torno. Estava em casa. Não se lem brava de ter chegado ali, não entendia bem por que não estava deitado na cam a. Mexeu-se. Só então viu a m ulher sentada na poltrona. Ela se levantou e olhou para ele, de braços cruzados. Estava m uito nervosa. Ele quis saber:
O que foi?
Você ainda pergunta o que foi?
O que é que houve?
Nada, um a bobagem – disse ela, irônica. Você desm aiou no restaurante, só isso. Desabou com a cara dentro do prato!
Ele ficou olhando para ela, sem dizer nada. Será que é verdade? Levantou-se com grande facilidade. Sentia-se ótim o. Um a certa estranheza, talvez, pelo vexam e. Cam inhou até a cozinha com o passo firm e, enquanto a m ulher o observava, boquiaberta. Em Nasce uma estrela, film e com Judy Garland, o galã Jam es Mason tom a um trem endo porre, levam -no para casa e, depois de um cochilo, acorda pronto para recom eçar a beber. Era assim que ele se sentia agora – e podia ser um exagero da m ulher a história de que ele tinha desm aiado em cim a do prato.
Em poucos m inutos, voltou da cozinha com um copo de vodca na m ão. A m ulher parecia de repente m uito calm a. Achou que ela fosse brigar com ele, m as não. Ela apenas o olhou e disse:
Vou ligar para a tal clínica am anhã.
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A m ala j á estava no carro. Ele pegou a m áquina de escrever e o livro que pretendia traduzir durante o período em que ficasse na clínica: O livro dos insultos, de H. L. Mencken, um j ornalista am ericano. Apagou o cigarro e desceu. Colocou a m áquina no banco de trás e enfiou o livro na bolsa externa da m ala. A m ulher, ao volante, esperava, com o m otor ligado.
Só um instante – disse para ela. E tornou a subir. Foi até a cozinha, abriu o congelador e tirou de lá a garrafa congelada, recoberta por um a cam ada branca. Despej ou o líquido oleoso em um copo alto, enchendo até a boca. Bebeu. Em seguida, repetiu o gesto. De novo. E de novo. Foram cinco copos. Sentia o líquido descendo deliciosam ente pela garganta, com o água – com o o singelo significado da palavra vodca em russo: “Aguinha”.
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O senhor é alcoólatra?
Não.
Já tentou parar de beber?
Não, m as posso parar a hora que quiser. Bebo por prazer.
Ele não estava gostando daquela conversa. Nem do lugar. Olhou em torno e observou a salinha da recepção, as paredes brancas, o crucifixo atrás da m esa. Mas não tinha com o voltar atrás, sua m ulher j á fora em bora. Ia ter de pagar para ver.
Na chegada, assim que saltara do carro, um servente carregara sua m ala, j unto com a m áquina de escrever. Alguém explicou que seriam levadas direto para o quarto, enquanto ele fizesse um a pequena entrevista e alguns exam es. Antes de entrar na recepção, reparara no entorno da clínica. Era um terreno grande, com um a construção principal, a frente avarandada, e vários pavilhões m enores. Havia cam inhos arborizados entre os diferentes prédios e um a aleia m ais larga que ia dar no portão. Não parecia haver vizinhança. O terreno tinha um aclive ao fundo, um pequeno m orro, m as em volta o que havia eram plantações, um im enso m ilharal, ou algo assim .
Depois de responder a m ais algum as perguntas – todas lhe pareceram sem sentido –, o hom em foi levado para um a sala contígua, onde um a enferm eira tirou seu sangue. Finalm ente conduziram -no até o quarto.
Era um quarto sim ples, com duas cam as de solteiro. Mas não havia ninguém além dele. Arm ário, m esinha, um a côm oda sob a j anela, um banheiro m inúsculo. Nada nas paredes. A m áquina de escrever fora colocada sobre a côm oda, a m ala estava em cim a da cam a. Abriu. Foi colocando as roupas no arm ário, distraído, m as, ao pegar o nécessaire em que estavam seus artigos de higiene, deu por falta da loção de barba e do desodorante. Que desaforo. Estava sendo tratado com o se estivesse em um a penitenciária. Ia reclam ar com o suj eito da recepção.
Saiu do quarto, fechando a porta, e se encam inhou para o prédio principal. Mas, ao atravessar a varanda, e só então, parou para observar os outros internos que estavam por ali. Havia gente de todo tipo, de todas as idades, alguns com aspecto m uito hum ilde, outros não. A m aioria usava berm uda, cam iseta e chinelos – afinal, era verão. Talvez houvesse um ritual para receber os recém -chegados. E se lhe dessem um trote, com o acontecia antigam ente nas escolas? Ouviu um a sineta. Por falar em escola…
Os doze ou quinze hom ens, e duas m ulheres, que estavam na varanda se levantaram e foram na direção do que ele im aginou ser um refeitório. Devia ser hora do alm oço. Decidiu ir tam bém . Sabia que estava indo à recepção reclam ar de algum a coisa, m as j á não se lem brava exatam ente de quê. Sentia-se um pouco estranho, a cabeça confusa. Melhor com er algum a coisa. Mas foi só depois do alm oço, ao voltar para o quarto, que com eçaram os trem ores.
—
A sala está m ergulhada na penum bra. Não há cor, tudo ali é preto, branco e cinza, um a atm osfera pesada, agourenta. Nas paredes brancas, proj etam -se som bras incertas, de origem desconhecida. E, no m eio do aposento, sentado em um a poltrona, está o hom em – sozinho.
Parece cansado, im ensam ente cansado. A barba crescida de um ou dois dias, as olheiras escuras, os olhos inchados, as pálpebras pesadas. Dá a im pressão de estar sonado, com o se acabasse de acordar, m adrugada ainda, de um a noite m aldorm ida. Os olhos baços se m ovem nas órbitas, buscando algum a coisa. Há neles, j á nesse prim eiro instante, um a chispa de m edo, com o se o hom em pressentisse o que vai acontecer. Movem -se, para lá e para cá, até que se fixam em um ponto da parede branca. Há um a rachadura ali, um a m ancha escura, a princípio indefinível. Mas logo ele ouve um som , um ruído agudo, um guincho. E entende que é dali que o som vem , daquele ponto na parede.
Em poucos segundos, a m ancha com eça a se m over. Os olhos do hom em agora estão m uito abertos, ele engole com dificuldade. Os ruídos agudos se m ultiplicam e de repente o hom em faz um esgar, pois acaba de entender que a m ancha escura que se m ove é um rato. Um rato de olhos febris, que brotou da parede através da rachadura e observa o entorno, parecendo sedento de um a presa qualquer.
Mal o hom em fez essa descoberta inquietante e j á nova som bra penetra pela j anela e com eça a esvoaçar em torno dele. Pelo voo incerto, nervoso, não há dúvida de que é um m orcego. O anim al, com suas asas escuras, parece enlouquecido. Talvez desesperado por estar preso na sala, sem conseguir reencontrar a j anela por onde entrou. O hom em crispa as m ãos nos braços da poltrona. Não se m ove, não se levanta – é com o se algum a coisa o atasse tam bém . Ele próprio, assim com o o m orcego, é prisioneiro daquele lugar som brio.
Um som ainda m ais agudo o desperta de seu pavor. A m ancha escura do m orcego bateu contra a parede e ali ficou, presa à superfície branca onde outra m ancha escura – o rato! – ressurge, com sua cabecinha hedionda, os olhos luzidios. Há um a luta, guinchos agônicos – e um a gota de sangue negro escorre pela parede. O m orcego está devorando o rato.
É quando ao ruído da luta se sobrepõe outro, que corta a noite. Parece um grito fem inino, saído de um conto assom brado. Mas não – é o grito do hom em , a transm utação em som do sentim ento de terror m ais abj eto.
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Ao voltar para o quarto na noite anterior, saindo da sala de proj eção, levara a im agem com ele: o rosto desfeito de Ray Milland, a barba crescida, o olhar de desespero. Assistir ao film e de Billy Wilder, Farrapo humano, fazia parte da terapia. Já o assistira no passado e se im pressionara com a cena do delirium tremens. Mas ele próprio não passara por aquilo. Minuto a m inuto, durante os prim eiros quatro dias, experim entara sensações que nunca esperara conhecer – trem ores terríveis, por todo o corpo, por fora e por dentro, com o se fosse um a coqueteleira am bulante. Am bulante, não, porque m al conseguia andar ou ficar de pé. Tinha tam bém insônia, calafrios, sudorese. E ainda culpa, vergonha e m edo.
Mas, naquela m anhã, sentia-se m elhor. Na noite anterior, dorm ira um sono pesado – será que estavam botando algum rem édio na com ida? Ainda trem ia bastante, e continuava a sensação de que o chão ia de repente desaparecer sob seus pés. Era o organism o protestando por não lhe estar sendo servido aquilo de que m ais precisava: vodca. Mas, fora isso, agora se sentia bem . Tão bem , aliás, que talvez fosse hora de ir em bora.
Com dificuldade, pegou a m ala em cim a do guarda-roupa e colocou-a aberta sobre a cam a. Com eçou então a trazer as roupas. Cam isetas, j eans, um par de tênis, um a sunga. Pegava as peças, em bolava e enfiava na m ala. Tudo parecia escorregadio, úm ido, pesado. Olhou as próprias m ãos: Firmes como um beija-flor – um a piada antiga, de quando aqueles sintom as ainda eram para rir. Estranho, estava m uito cansado. Pensou na m áquina de escrever, abandonada em cim a da côm oda. Não tinha escrito um a linha naqueles quatro dias. Não fizera nada e estava exausto. Foi até o banheiro apanhar o nécessaire, m as, ao voltar, tinha a im pressão de ter deixado m uitas coisas para trás. Olhou com desalento para a m ala aberta, em cim a da cam a. Vai do j eito que está. Fechou, apertou. O zíper não corria, em perrava, havia pedaços de panos para fora, por toda parte. Tentou enfiá-los para dentro e cortou o dedo. Com um esforço enorm e, conseguiu afinal pôr a m ala fechada no chão. Pegou-a pela alça e saiu com ela. Esqueceu a m áquina.
Quando chegou à varanda, sentiu o olhar dos colegas de internação. Vão ficar, otários? Eu vou em bora. Desceu os degraus e tom ou a aleia de terra que ia dar no portão. Depois de alguns passos, virou-se para trás e deu um a banana para os outros internos. Eles não riram . Tornou a cam inhar, a m ala pesada. Muito pesada. Lem brou que sua carteira, com dinheiro e docum entos, tinha sido confiscada j unto com a loção de barba e o resto. Mas não fazia m al. Ia atravessar o portão, chegar à estrada e pedir um a carona. De noite, nos m om entos de m aior silêncio, dava para ouvir os cam inhões passando, um atrás do outro. Um deles o levaria de volta à civilização, onde havia dezenas de garrafas à sua espera.
Com eçava a suar m uito. A m ão estava m olhada, e a m ala, cada vez m ais pesada, ia escorregando. Olhava para o portão, lá no fim da aleia. Tinha a im pressão de estar andando havia vários m inutos, m as o portão parecia m ais longe. O trem or, sem pre – e voltava agora ainda com m ais força. Dias antes, um colega o cham ara sem querer pelo apelido que lhe tinham posto ao chegar:
Toyota – o j ipe que trem ia m uito.
A m ala escorregou e caiu no chão de terra. Por sorte, não abriu. Ele tentou se curvar para pegar, m as não conseguiu, o trem or crescia. Ia deixar a m ala para trás. Depois m andaria buscar. Não ia era continuar naquele lugar, nem m ais um a hora. Recom eçou a andar. As pernas obedeciam a custo, os j oelhos estavam am olecidos. Outra vez a sensação do chão incerto, a cabeça zonza, as im agens borradas, o sol na nuca, o suor escorrendo, tudo trem endo, ele, o cam inho, e o portão cada vez m ais longe.
Estava no lim ite das forças quando resolveu voltar. Olhou o portão. Teve certeza de que nunca ia chegar lá. Veio se arrastando de volta, hum ilhado. A m ala ficou largada no m eio do cam inho. Quando chegou à varanda, a roupa em papada de suor, a cabeça baixa, agarrou-se com as duas m ãos ao corrim ão que ladeava os três degraus. Conseguiu não cair. Mas teve de aguentar a vaia que os colegas estavam lhe reservando – sabiam que aquilo ia acontecer, que ele não iria conseguir. Foi até engraçado.
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Acordou sem saber m uito bem onde estava. Esfregou os olhos. Ah, na clínica. Ainda trem ia m uito. Levantou-se da cam a e o chão continuava incerto. Mas ele ainda se lem brava das ordens: tom ar banho e seguir para o refeitório. O café da m anhã term inava às oito.
Entrou no chuveiro – a água parecia produzir m ilhares de pequenas agulhadas. Term inou de tom ar a chuveirada e, com grande dificuldade, se enxugou. Não parava de trem er. Será que essa trem edeira não vai acabar nunca? Enfiou a roupa e se calçou com o pôde, am parado na parede ou sentado na beira da cam a. A prim eira palestra era logo depois do café da m anhã e ninguém podia faltar. Continuava achando tudo aquilo um a grande bobagem , m as j á tinha entendido que precisava se recuperar antes de ir em bora. O j eito, por enquanto, era seguir as regras.
Conseguiu se sentar no refeitório e tom ar um a caneca de café com leite, m astigar um pedaço de pão com m anteiga. Antes que se levantasse, um a enferm eira veio tirar sua pressão. Ele se deixou exam inar, sem força para nada, nem para perguntar a ela se estava tudo bem .
Naquela m anhã, a prim eira palestra era com um pastor evangélico. A ladainha religiosa o irritava. Mas, quando as palavras faziam algum sentido em sua cabeça, com o nas palestras a que assistira na véspera, ele até que achava interessante. Principalm ente as palestras m ais técnicas, falando de com o o álcool age no organism o, com o se dá a progressão da dependência quím ica. Para sua surpresa, nenhum dos terapeutas fizera condenação algum a à bebida. Não era um pecado, eles queriam dizer, nem um vício – era um a doença.
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E quem não acredita em Deus, com o eu? – perguntou.
Em resposta, o pastor apenas o olhou, em silêncio. Não parecia zangado, nem ofendido. Quase sorria. O hom em estava decidido a continuar com a provocação ao pastor:
Nunca tive relação com religião. Nunca fui batizado, nem nada dessas coisas. Meu pai era m açom .
O pastor fez que sim com a cabeça, com o se entendesse. O hom em foi em frente:
Estou aqui por um tem po porque estava tendo uns problem inhas de saúde, m as assim que m elhorar vou em bora. Até acho algum as palestras interessantes, m as essa história de religião, de Deus, de poder superior, sinceram ente, vou ser franco com o senhor: eu acho tudo isso um a bobagem .
Queria ver se o pastor se irritava. Mas o reverendo tinha um sem blante cada vez m ais sereno. Ficou olhando para o hom em em silêncio por um longo tem po e, quando falou, disse as frases de form a m eio recitada, com o se narrasse um a parábola:
Vam os supor que você estej a se afogando em alto-m ar – com eçou. O hom em ficou calado, sem entender aonde ele queria chegar. O religioso continuou:
Já foi duas vezes para o fundo e, se descer um a terceira vez, m orre. De repente, aparece alguém num barco a rem o para salvá-lo. Um barco verde. E, então, você recusa o barco porque não gosta de verde.
Ruy – Bebi pela últim a vez no dia 25 de j aneiro de 1988, um m ês antes de fazer quarenta anos. Fui internado em um a clínica para dependentes quím icos perto de São Paulo. Os exam es m édicos que fiz quando entrei na clínica m ostraram que eu estava com anem ia, déficit de vitam inas e problem as circulatórios e gástricos – causa das hem orragias dos últim os m eses. Os m édicos disseram que, se não parasse de beber, eu teria no m áxim o m ais dois anos de vida. Saí de lá quarenta dias depois e nunca m ais bebi. Até hoj e.
Tudo bem . Então fica estabelecido que o “poder superior” é a m inha cabeça – se eu a recuperar.
O hom em estava sentado na varanda, no intervalo entre duas palestras, pensando. Depois da história do barco verde, perdera o ím peto de provocar o pastor. Não era com um ver-se derrotado no uso do instrum ento que era a sua especialidade – a palavra.
Tinha ouvido falar que todos os instrutores da clínica eram alcoólatras. Não ex-alcoólatras, m as alcoólatras. Isso j á tinha aprendido. Ninguém é ex-alcoólatra, assim com o ninguém é ex-diabético. Não tem cura. O suj eito pode deixar de beber, m as a doença continua lá. E, se ele tom ar o prim eiro gole, volta tudo. É um dia de cada vez, com o eles diziam o tem po todo. Será que o pastor tam bém era um deles?
Levantou-se ao ouvir a sineta. Observou as próprias m ãos. Já trem ia m enos, quase nada. Quando entrou no auditório, continuava pensando. No pastor, nos instrutores, nos internos. Isso era um a coisa que o deixava chocado: com o todos ali eram iguais. Nas palestras, era im pressionante ouvir as histórias, todas m uito parecidas com as dele. Não havia nada de original em sua própria história – e ele encarava aquilo quase com o um insulto. Era decepcionante saber que sua brilhante traj etória alcoólica era um clichê.
No passado, ele bebera com astros de Holly wood, cantores de Nova York, grandes nom es da bossa nova, diplom atas, políticos, escritores, j ornalistas internacionais, m ulheres bonitas. Mas a bebida era só um elem ento no quadro, e nem parecia o m ais im portante. Fazia parte dele, assim com o as frases de efeito, as cantadas elegantes e a sedução perm anente, em am bientes de luxo com o hotéis à beira-m ar, restaurantes, nightclubs, e tudo isso com um piano ao fundo e alguém cantando “I can’t get started” ou “Meditação”. Mas, aos poucos, com os anos, esses itens com eçaram a desaparecer, um a um . Um dia, de repente, tudo isso j á deixara de existir. E sobrava apenas a bebida. No m áxim o, um balcão encardido, um bêbado vom itando ali perto e outro exalando álcool por todos os poros – talvez ele m esm o.
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Ficou de pé, j unto com os outros, à espera de que o instrutor entrasse. Quando isso aconteceu, todos se aproxim aram e se deram as m ãos. Com esse ritual, j á estava com eçando a se acostum ar. Antes, achava um a idiotice. E detestava sentir na palm a o contato da m ão de outro hom em . Agora, j á não se im portava tanto. Tam pouco se im portava em dizer em voz alta, j unto com todos, a oração que precedia os encontros. Se era para rezar, rezava.
Olhos fixos à frente, apertando com força duas m ãos desconhecidas, m as que adm itia lhe serem próxim as – afinal, aqueles hom ens eram seus pares –, ele com eçou. E sua voz grave, de dicção perfeita, se destacou das dem ais:
Concedei-nos, Senhor,
a serenidade necessária
para aceitar as coisas que não podemos modificar,
coragem para modificar aquelas que podemos,
e sabedoria para distinguir umas das outras.
Heloisa – Quando saiu da internação, Ruy descobriu que seu casam ento tinha term inado. A m ulher que o aj udou a se salvar foi em bora. É com um isso. Mas nem assim ele voltou a beber. Tornou a trabalhar feito um louco. E em pouco tem po j á estava com eçando a pesquisar para seu livro Chega de saudade, que seria lançado dois anos depois. Ninguém podia im aginar a im portância que esse livro teria na vida dele. Eu acom panhei tudo de perto, porque foi nessa época, fins de 1990, que nos conhecem os. Por causa do Chega de saudade e da repercussão im pressionante que teve, Ruy tornou-se escritor. Biógrafo. Fico arrepiada ao pensar que, se não tivesse parado de beber, ele nunca teria produzido suas biografias.
Era hora do recreio – um período vago entre duas palestras. Com o não perdera a noção do tem po, sabia que era seu décim o dia de internação. Sentia-se m uito bem . A trem edeira parara com pletam ente. Pensou em aproveitar e dar um a volta, sozinho. Desceu os degraus da varanda e enveredou por um a das aleias, cam inhando até o pátio que ficava na parte de trás do terreno. Ali havia um a elevação, um pequeno m orro, no qual reparara ao chegar à clínica. Decidiu ir até lá em cim a. E o engraçado é que, se quisesse fugir de novo, agora seria capaz de fazer isso com algum a facilidade. Mas a hipótese nem lhe passava pela cabeça.
Com eçou a subir. Ia devagar, pisando com cuidado o cam inho de terra batida. O fôlego estava bom , não se sentia nem um pouco cansado. Acendeu um cigarro. A tem peratura era gostosa, soprava um a brisa, nem parecia verão. Olhava em torno e, por todo lado, só via os m ilharais. Havia um a beleza nova naquele ondear dos pés de m ilho ao vento, com o se fosse um m ar. Certam ente j á tinha ouvido essa com paração em algum lugar, m as ela lhe parecia carregada de um frescor, de um a força desconhecida. Continuou subindo.
Quando chegou ao ponto m ais alto do m orro, parou e olhou para baixo. Ficou espantado com a vastidão da paisagem , com tudo o que estava enxergando. Era um a visão em cinem ascope, ele diria depois. Aj ustou os óculos, respirou fundo, sentindo o vento no rosto.
Via as plantações à sua volta com m uita nitidez, com um a clareza incom um . Enxergava longe e largo. Entendeu, de im ediato, que a sensação de novidade que sentira na subida não vinha da paisagem , m as de dentro de si. E desceu sobre ele um a certeza absoluta: era, naquele instante, capaz de entender tudo o que j á lhe acontecera na vida. Tivera todas as oportunidades do m undo, tudo viera parar em suas m ãos, nada tinha sido difícil, nunca precisara se esforçar m uito. Era um privilegiado – e abusara desse privilégio.
Tornou a inspirar com força, o ar frio invadiu suas narinas, raspando as m argens. Sentia tudo, via tudo, entendia tudo. Era com o o Aleph. Sua vida inteira estava ali, resum ida, com o dizem que acontece na hora da m orte. Enxergava tudo o que fizera e percebia a presença do álcool em sua vida. Nunca, nos últim os vinte anos, passara um único dia sem ingerir produtos que lhe alterassem a consciência. E agora estava inteiro, lim po, quase onipotente em sua lucidez trem enda, em seu m ais absoluto vigor físico. Se a lucidez era isso, e se o preço para m anter essa lucidez era parar de beber – então ele ia tentar não beber m ais.
Aquele m om ento era um a revelação. Um a epifania. Ele não podia saber, então, m as tal estado de felicidade plena se am pliaria e se estenderia pelos próxim os anos. Seriam quase duas décadas de enorm e criatividade e paz, até que a vida lhe apresentasse um novo, e dificílim o, desafio: a quarta ranhura na coronha do rifle, m ais um xis na parede da cela, o novo anel no rabo da cascavel.
O quarto selo.