O Oitavo Selo
Sexto Selo: Sexo
SEXTO SELO
SEXO
Entardecia. Estava escuro. Era estranho, porque o verão m al acabara, devia dem orar a anoitecer, m as o dia se esvaía antes do tem po. Havia m uitas árvores no alto daquela colina, o que podia explicar um lugar tão som brio. Ou talvez fosse o m edo, pensou a m ulher – m ais um a vez, o m edo.
Olhou em torno. Havia beleza na quase escuridão. O pátio de pedra form ando um retângulo, no centro do qual a m ancha ainda m ais escura denunciava o am ontoado de galhos, à espera do fogo. A m ulher aproxim ou o pulso dos olhos e tentou enxergar os ponteiros do relógio. Faltava pouco para as seis horas. Para com eçar o ritual.
Tornou a observar o pátio. Muitas pessoas esperavam , sentadas ou de pé, nas laterais do retângulo, m as ninguém pisava o centro, com o se fosse território sagrado. A igrej a, em um a das extrem idades, era um paredão silencioso que m al se divisava, opressivo em sua sim etria – três arcos centrais, um a torre de cada lado. Todas as portas estavam fechadas, as luzes apagadas. Naquele instante, os fiéis não eram bem -vindos lá dentro. Por trás dos portões em arco, algum a coisa acontecia, um a cerim ônia secreta, só para iniciados.
A m ulher olhou para o hom em a seu lado, apertou-lhe a m ão. Ele se virou, sorriu. Dentes brancos na penum bra. Um a sensação breve de segurança. Estavam j untos, com o sem pre, j untos naquele lugar im provável, ao m enos para ele – um a igrej a. O hom em concordara em vir, talvez apenas por curiosidade, m as para ela havia um sentido no ritual a que assistiriam . Precisava cercar-se de redes, ferrolhos, m uros, qualquer coisa que a contivesse e sustentasse, que exigisse concentração e cuidado, e pudesse desviar o foco dos olhos verm elhos, dos dentes afiados, do m onstro inteligente que parecia determ inado a persegui-la por onde andasse. Rezar não conseguia, m as talvez no m ecanism o da prom essa encontrasse um atalho, a clareira do bosque assom brado, enquanto seu lobo não vem.
Apertou com força o papel que trazia na palm a da m ão esquerda, dobrado em quatro. Sentiu a aspereza das bordas. Era um papel grosso, cor de m ostarda escura, um quadrado, com talvez oito centím etros de lado. Esses núm eros a reconfortavam , a atenção aos detalhes, sem pre os detalhes. Escrevera com caneta esferográfica preta, bem no centro do papel, o nom e dele. Mais nada. O resto estava com ela, m artelando ali dentro, na cabeça, no coração.
O som dos ferrolhos a fez despertar. Ergueu o rosto. A escuridão se fechara, m as percebeu que um a das portas, a da lateral direita, se abria. Em torno do pátio retangular, as pessoas se agitaram . Houve um m urm úrio, depois novam ente o silêncio, ainda m aior do que antes.
Por trás da porta em arco que fora aberta, a m ulher vislum brou um as som bras alaranj adas, incertas, e no m om ento seguinte surgiu no portal um vulto. Era um m onge. Todo envolto em vestes escuras, o rosto encoberto por um capuz, levava na m ão direita um a tocha acesa. Cam inhou em silêncio até o centro do retângulo de pedra e, diante dos galhos am ontoados, se curvou. Estendeu a m ão e deixou que a cham a tocasse o m onturo de m adeira. Esperou até que se alastrasse. Houve um crepitar, as línguas de fogo se espicharam sobre os galhos, em laranj as e azuis, e o m onge soltou a tocha. Chispas subiram , dançaram , fogo e fogo se fundindo e se realim entando, até que as labaredas, crescidas, ilum inaram tudo em volta. Nas bordas do retângulo de pedra, dezenas de rostos averm elhados, de olhos brilhantes, observavam calados.
Quando o m onge se retirou, as pessoas em torno com eçaram a se aproxim ar da fogueira. A m ulher apertou o papel preso na m ão esquerda. Olhou para o hom em , que assentiu. Ela se desprendeu dele e foi com por o círculo, aproxim ando-se tam bém do fogo, o papel esm agado na m ão.
Fez com o todos faziam . Chegou bem perto e, com o calor no rosto, atirou o pedaço de papel na fogueira. Depois voltou. O hom em sorriu, aprovando.
Depois que atiravam seus papéis na fogueira, as pessoas recuavam , retom ando seus lugares no entorno do retângulo de pedra. Em pouco tem po, eram outra vez aqueles m esm os rostos verm elhos, m udos, de olhos vítreos.
Não dem orou m uito para que se ouvissem os cânticos. Quando duas das três portas frontais se abriram – apenas a do m eio, m aior, continuou fechada –, os m onges com eçaram a surgir, um atrás do outro. De cada um a das portas saiu um a fileira deles, doze ou quinze, talvez m ais.
Era um a cena m edieval. Monges envoltos em m antos escuros, com capuz, levando na m ão erguida um a espécie de caj ado. Eram hom ens sem rosto – m as cantavam . Suas vozes, uníssonas, encheram o ar em segundos, um canto ancestral, que fez adensar o silêncio reverente dos fiéis.
Cantando, os m onges cam inharam , em fila, em direção à fogueira no pátio, que agora ardia com m ais força. Cada um que chegava se curvava e estendia o bastão – era um tocheiro – em direção às cham as. Em pouco tem po, todas as tochas estavam acesas. Então, sem pre cantando, eles se encam inharam de volta à igrej a.
Quando a porta central se abriu, os fiéis que assistiam a tudo em silêncio se aproxim aram , para entrar atrás dos m onges. A m ulher tom ou o hom em pela m ão. Foram tam bém .
O tem plo estava com pletam ente às escuras. Mas, à m edida que os m onges entravam , a luz das tochas ia ilum inando as paredes trabalhadas, m adeiras com o um brocado, verm elhos e ouros por toda parte, tocheiras, cornucópias, cruzes suspensas, olhares súplices em rostos petrificados. Dor, m artírio. Transcendência. Ali dentro, o canto gregoriano tom ava m ais força, reverberava pelas paredes seculares, e todos, m onges e fiéis, pareciam envoltos em um transe hipnótico, um encantam ento.
A m ulher fechou os olhos. E pediu, pediu com toda força, que aquele pedaço de papel transform ado em cinza, consum ido pelas labaredas do fogo sagrado, fosse o segredo para m atar o lobo de olhos estriados.
—
Eu vou viver os próxim os seis m eses com o se fossem os últim os da m inha vida – disse a m ulher.
A am iga se inclinou sobre a m esa do restaurante e olhou bem nos olhos dela:
Pois eu vou viver os próxim os vinte anos com o se fossem os últim os da m inha vida.
As duas riram . Sem pre havia isso, essa capacidade de rir, com o form a de enganar o m edo. Mas, no fundo, a m ulher sentia com o se tivesse um anel de ferro em torno da garganta. Não conseguia absorver a notícia que recebera na véspera. Não dessa vez. Não de novo. Seis meses.
Tornou a ficar séria:
Eu rezei, m as não adiantou.
—
Era para ser um a biópsia de rotina, em bora os índices que apareciam nos exam es de sangue estivessem fora de lugar. Depois que o tecido foi colhido – um procedim ento rápido, m as que exigiu anestesia –, eles esperaram o dia da consulta para ouvir o resultado.
Estacionaram o carro, hom em e m ulher, com o sem pre faziam , em um grande m ercado que havia em frente ao centro m édico. Do estacionam ento, dava para ver as loj as de plantas e flores, as bancas de verduras, o colorido escandaloso das frutas. E havia bares no pátio, as m esas repletas. Copos de chope, pessoas falando alto, rindo. Um m undo inteiro de alegria e despreocupação, que os contam inava. Pelo m enos a ele. Não pensava em resultados ruins. Era a terceira biópsia daquele tipo que fazia, nunca dera nada de m ais. Não seria agora.
Entraram pela galeria, com chão de pedaços irregulares de m árm ore, unidos por um a m assa preta, e tom aram o elevador. No sétim o andar, foram direto à porta envidraçada e, em poucos segundos, estavam sentados os dois na sala de espera. Sem pre aproveitavam esses m om entos nas antessalas dos m édicos para conversar sobre am enidades, fazer piadas, m esm o nas horas m ais tensas. Tinham passado por m om entos m uito difíceis. Depois do câncer, enfarte – o que m ais podia acontecer?
Muitos m inutos transcorreram até que fossem cham ados e conduzidos ao consultório, onde o assistente do m édico os aguardava. Era um rapaz m uito j ovem , de óculos de aro de m etal, olhos pequenos e m uito azuis, que sem pre os recebia quando eles iam lá, e só depois é que o outro m édico, titular da clínica, aparecia. Enquanto isso não acontecia, costum avam ficar conversando, nunca sobre doenças. Os três se conheciam e se gostavam , se divertiam j untos.
Mas, assim que se sentaram , a m ulher notou que o j ovem m édico estava um pouco m enos relaxado do que de costum e. Riram , com o sem pre. Conversaram . Mas havia sobre as coisas – m óveis, pessoas, palavras – um a cam ada fria, com o o suor de gelo que se form a no m etal dos congeladores quando eles recom eçam a trabalhar, depois de desligados.
A m ulher se m exeu na cadeira. O m édico titular estava dem orando. A conversa continuava. Os olhinhos azuis se m oviam , nervosos, por trás dos vidros redondos. Peixes assustados. E a m ulher com eçou a pensar nos guppies.
Guppies eram os peixes ornam entais que seu irm ão colecionava quando ela era criança. Peixes vistosos, de barbatanas com pridas, com um ondular oleoso e furta-cor. Mas, um dia, seu irm ão com prou um peixe de briga, que colocou em um recipiente de vidro, colado ao aquário principal. Esse peixe tam bém tinha barbatanas com pridas e ondulantes, m as era todo negro – e agressivo. Os dem ais peixinhos do aquário – aquele retângulo de águas transparentes, ao qual seu irm ão se dedicava tanto –, quando chegavam j unto do vidro e viam , do outro lado, o peixe escuro, fugiam , assustados. A m enina ficava observando. Era curioso ver com o pressentiam , através do vidro, o perigo. Pensava ver, nos olhos m iúdos dos guppies, um brilho diferente. Um brilho sem elhante ao que via agora nos olhos azuis do assistente.
—
As m ãos do hom em pegaram a vela verm elha, j á acesa, e enfiaram no trançado de aram e, enegrecido pelo fum o. O calor subia, fazendo o ar ondular. Várias cham as, de velas colocadas lado a lado, tinham se unido em um só fogo, e a cera verm elha escorria, se reagrupava em torno do aram e, form ando ilhas de sangue, com os m ais estranhos form atos. Assim que a nova vela estava bem cravada, firm e, de pé, as m ãos do hom em se retiraram do cam po de calor.
A m ulher levantou os olhos. Bem à sua frente, estava a grade da igrej a, a escada de pedra, de quatro ou cinco degraus, por onde escoava a m ultidão que acabara de fazer reverência ao santo, no altar, m ontado em seu cavalo, em tam anho natural. Os dois, hom em e m ulher, tinham vindo cam inhando pela rua estreita, com seu m ulticolorido, sua agitação, o cheiro de especiarias e esgoto. Eram m ilhares de pessoas, o verm elho nas roupas, nas bandeiras, nas velas, e o calor das cham as tornando ainda m ais quente aquele dia de outono – 23 de abril, dia de São Jorge. A região, com nom e de deserto, fervilhava de gente e fé. Havia pessoas chorando, em adoração. Mas havia risos, tam bém . E de um botequim , a poucos m etros, um casarão velho, com portais de granito, vinha um som de sam ba.
É um pouco mais, que os olhos não conseguem perceber.
Paulinho da Viola. O sam ba falava da Mangueira, m as era com o se descrevesse a fé, essa coisa m isteriosa e bela que algum as pessoas têm dentro de si. O hom em não tinha. A m ulher queria ter. Às vezes tinha, às vezes não.
—
O m édico assistente baixou os olhos na hora. Quem deu a notícia foi o outro, o dono da clínica. Tinha acabado de entrar, com um papel na m ão. Depois de um breve cum prim ento, disse, olhando bem para eles:
Das vinte e quatro am ostras de tecido, só um a, e m esm o assim em um a área m ínim a, apresentou problem a. É um a pena, porque é um a coisinha de nada. Mas está lá. E vam os ter de operar.
Silêncio.
Os olhos azuis do assistente se ergueram . Não olharam para o hom em , olharam para a m ulher. Com paixão. Os dois m édicos sabiam tudo que o casal tinha enfrentado nos últim os tem pos. No espaço de dois anos, era o terceiro diagnóstico difícil que o hom em recebia.
Câncer. Enfarte. Câncer. Não um a m etástase, m as outro câncer, sem nenhum a relação com o prim eiro. E agora em um a região delicada, envolvendo questões que para ele eram – sem pre tinham sido, a vida toda – cruciais.
Heloisa – Eros e Tanatos. Freud descreveu essas duas pulsões antagônicas: a pulsão sexual, cuj a tendência é a preservação da vida, e a pulsão da m orte, que leva à desintegração, à destruição de tudo o que é vivo. Mas, com o todo m undo sabe, elas andam j untas. São um a coisa só.
Olharam para cim a e viram aquela im ensidão a ser vencida. Era m ais um dia quente, parecendo verão. Três da tarde. Não podiam im aginar que estaria tanto calor, e que seria tão difícil. Mas não dava para voltar atrás agora. Com eçaram a subir.
Os degraus eram largos, de pequena altura. Cada um subia por um canto da escada, ela apoiada na corrente central, ele no corrim ão de alum ínio, à esquerda. Para trás, ficara o largo arborizado, com o coreto de m adeira rendada, pintado de azul e branco, o prédio antigo, dos anos 20, o chão de pedras portuguesas, com inscrições. Naquele dia, o plano inclinado estava quebrado.
Iam os dois de cabeça baixa, o sol ardendo na nuca e na vista, ela de óculos escuros. De vez em quando, paravam .
Respiravam .
Olhavam para cim a. Os degraus ondulando, talvez pelo calor, ou talvez porque fossem m esm o assim , am oldando-se ao form ato da pedra. Faltava m uito. Quanto m ais subiam , m ais longe parecia a igrej inha azul e branca que cintilava lá em cim a, borrada de luz, com o um brinquedo cor do céu. Na cum eeira e nas duas torres laterais, três pequenas cruzes. Câncer, enfarte, câncer, pensou a m ulher. Mas não podia acreditar nisso. Não de novo.
O ar faltava. A m ulher com eçou a sentir um a pressão no peito, querendo subir à garganta. Por que os pensam entos ruins? O resultado da biópsia viria dali a poucos dias, e estaria tudo bem . Virou-se m ais um a vez para olhar a paisagem lá em baixo. Em torno, a m assa caótica das favelas, que unidas form avam um a só e im ensa com unidade, aquela m iríade de laj es, telhados, paredes coloridas, brancas ou nuas, no tij olo, os fios em aranhados com o cabelos de um cadáver que desse na praia. A m ulher pensava na Casbah, em Argel, que vira em Pépé le Moko, o film e com Jean Gabin. Os am igos tinham alertado: era um perigo ir à Penha. Eles não ligaram . Não tinham m edo. Disso, não.
Quando afinal chegaram , m al conseguiam se m anter de pé. Arfavam , os j oelhos cediam . Eram trezentos e tantos degraus. De perto, a igrej a parecia ainda m enor, com detalhes delicados nos beirais, portas, j anelas, sinos e enfeites da fachada pintados de um azul desm aiado, que àquela hora era tão exatam ente da cor do céu, recortado por trás, que era com o se tudo fosse um a coisa só.
Entraram . Não havia ninguém . Os dois pensaram ao m esm o tem po na frase de Nelson Rodrigues. Não falaram nada, m as se entreolharam e sorriram .
Deus só frequenta as igrejas vazias.
—
Rezei m esm o, repetiu a m ulher. Ele foi com igo a três igrej as. E não adiantou nada.
Não fala assim .
É verdade…
E por que esperar seis m eses?
Foi o prazo que o m édico deu. O enfarte aconteceu há pouco tem po, não dá para operar agora. Ele disse que dá para esperar, porque o tum or é m uito pequeno, e de um tipo pouco agressivo.
A am iga estendeu a m ão por cim a da m esa e envolveu a da m ulher.
Fica calm a. Vai dar tudo certo, com o tem dado até agora.
Eu sei. Vai, sim .
Ele tem essa capacidade incrível de superar tudo. Eu j á falei para você, ele tem alm a de herói.
As duas riram de novo.
Ruy – Foi outro susto, sem dúvida, m as não m e lem bro de ter ficado deprim ido. Já tinha sobrevivido a tanta coisa… Nunca fiquei deprim ido. O m édico explicou que era preciso fazer a cirurgia e m e apresentou os dois riscos que eu corria, com probabilidades m aiores ou m enores, dependendo do caso – incontinência urinária e im potência. Ouvi aquilo e pensei: Danem -se as probabilidades, no fim vai dar certo.
Seis m eses. Mais um a vez a vida parecia acontecer para ela assim , aos pedaços, a m etade de um ano sem pre com o um a m arca a ser vencida, ou retardada, ou esquecida – ou lem brada para sem pre. Seis m eses fora o tem po dedicado ao tratam ento do câncer de base de língua, o tem po em que ela rem oera em silêncio o pavor da m orte que considerava certa, antes de ter coragem de perguntar ao m édico. Fora tam bém o prazo dado pelo oncologista para que o tum or na garganta voltasse. Nesse tipo de tumor, quando o problema tem de voltar, volta logo. E agora, de novo, ela se via diante daquela unidade de tem po que se transform ara em sím bolo do m edo. Um a contagem regressiva para a transform ação. Não sabiam o que ia acontecer. Podia dar tudo certo – ou tudo errado. Ouviam histórias positivas, m as outras nem tanto, de final dúbio ou totalm ente desastroso. Será? Não era possível, seria tão inj usto com eles, ainda m ais depois de tudo o que acontecera. Estavam j untos havia m ais de quinze anos, m as se gostavam m uito. Não queriam que isso term inasse assim . Ela sentia nele um a vitalidade tão grande, um a força que até agora só aum entara ao se defrontar com a m orte. Seria um a m aldade se isso acontecesse.
—
O hom em estava deitado sob um a engrenagem enorm e, que se m ovia. O m ovim ento era tão lento, e tão dolorosam ente silencioso, que a m ulher tinha vontade de gritar. Fazia um esforço enorm e para se m anter quieta, sentada na cadeira j unto à cam a, m as queria se levantar e sair correndo daquele quarto escuro, cheio de pressentim entos horríveis. O novo diagnóstico de câncer trouxera j unto um a som bra: esse tipo de tum or pode se espalhar para outros pontos do organism o. O pulm ão. Os ossos. Principalm ente os ossos. Era preciso investigar.
Na cabeceira da cam a, havia um a tela, onde a im agem do hom em , captada com toda aquela lentidão, ia surgindo. Não, não a im agem do hom em , íntegro, invencível – apenas seu esqueleto, feito de m aterial quebrável. Tarsos, m etatarsos, tíbia, rótulas, a m ulher tentava relem brar com o se cham avam os ossos, para fazer passar o tem po, m as m uitos tinham m udado de nom e, ela não sabia m ais. Fêm ur, púbis, sacro. Os ísquios. A m áquina parecia não querer sair m ais dali, daquela região, o ponto onde se escondia o novo m edo, e onde havia, ela notara, um a cintilação intensa, um brilho que estava a ponto de saltar da tela escura, com o a explosão de um a supernova. A m ulher não sabia o significado daquele brilho, m as não conseguia tirar os olhos dele, enquanto a m áquina continuava seu cam inho lento, silencioso, enervante. O hom em , deitado, não via nada, a tela estava atrás de sua cabeça. Talvez tivesse adorm ecido.
Os segundos iam passando. Um , dois, cinco, vinte. Um m inuto. Dois. A intervalos regulares, a m ulher erguia os olhos, encarava a tela, onde o esqueleto ia nascendo. Lem brou-se do conto de terror de Ly gia Fagundes Telles, sobre o esqueleto de um anão. As form igas que apareceram no sótão, onde as duas m oças dorm iam , form aram um a longa fila no chão, que acabava dentro de um baú, a caixa onde estavam os ossos. E as m oças iam percebendo as m odificações: o pequeno esqueleto guardado ali com eçava a tom ar form a. Decidiram fugir, antes que o esqueleto estivesse com pleto. E ela, a m ulher, o que veria naquela tela, quando o esqueleto dele estivesse com pleto? O brilho radioativo indicaria concentrações de células perigosas, corroendo os ossos, ou estaria tudo bem ? Tensão, terror. Mas ela não podia fazer com o as m oças do sótão – não podia fugir. Tinha de ficar e esperar.
—
O m édico foi duro, não teve contem plação. Entrou na sala e foi logo dizendo:
Apareceu um a cintilação no osso do crânio, na lateral direita, m as pode não ser nada. Com o ele foi orientado a esvaziar a bexiga depois de beber o contraste, um a gota m ínim a de urina, que tenha ficado nos dedos, pode ter ido parar no cabelo. Isso acontece de vez em quando.
Crânio? Urina? Cabelo? A m ulher ouvia aquelas palavras em m eio a um a tontura, tentando j untar os fragm entos. O m édico continuava a explicar:
Se ele passou a m ão no cabelo, depois de esvaziar a bexiga, um a gotícula, qualquer m ínim a porção de urina, pode ter feito a contam inação. Vam os lavar a cabeça dele e refazer o exam e, m as só na área da cabeça.
A m ulher tornou a se sentar, j á quase não sentia as pernas. Olhou para o hom em . Ainda bem que o quarto estava escuro, não queria que ele visse que ela estava em pânico. Precisava a todo custo m anter-se calm a. E aí veio a surpresa. Assim que o m édico fechou a porta, o hom em olhou para ela e soltou a frase:
Ou é m ij o ou é m etástase.
Nas horas m ais dram áticas, ele ainda a fazia rir.
—
A m ulher subiu a escada e ficou espiando, de longe. O hom em não percebeu sua presença. Lá estava ele, escrevendo. Tirara os enfeites de cim a da côm oda – a velha côm oda de m adeira, no salão, onde guardava os film es europeus – e agora usava o m óvel com o um a escrivaninha. Só que para escrever de pé. Era a única posição que tolerava. Passava os dias assim , de pé, escrevendo. Mais um a vez, escrevendo.
A m ulher tornou a descer a escada, devagar. Não queria atrapalhar. É com o Thom as Mann, pensou. Lera em algum lugar que, todas as noites, depois do j antar, Mann se colocava de pé atrás de um a espécie de púlpito e lia em voz alta para a fam ília e os am igos o que tinha escrito durante o dia. E havia tam bém outro escritor que trabalhava de pé, o tem po todo. Quem era m esm o? Hem ingway, acho. Ou Fernando Pessoa. Ou talvez os dois. Eram questões de m étodo, j eito, inspiração. Mas com o hom em no andar de cim a não era nada disso. Ele escrevia a m ão, de pé, debruçado sobre a escrivaninha – apenas para enganar a dor.
Os exam es, dos ossos e do pulm ão, tinham tido bons resultados. O susto do esqueleto era, afinal, apenas um a contam inação. E a cirurgia fora feita, com sucesso. Isso tinha acontecido duas sem anas antes.
O m édico dissera que ele deveria ficar com a sonda por cerca de vinte dias. E ele, que não era de se queixar, falara para ela da dor terrível que sentia, as pontadas, a agonia, o suor frio. A faca. Agora não m ais na garganta – um a dor excruciante.
Ele tentava não se m over. Procurava fazer o m ínim o de m ovim ento possível, apenas as m ãos sobre o m óvel, escrevendo, m ais um a vez tentando se transportar para longe dali, para um lugar m enos inóspito, m enos terrível. A m ulher às vezes passava por ele e observava, as duas pernas plantadas no chão, de costas, a sonda saindo em direção à coxa, onde estava atada à bolsa. Incontinência, im potência, terror – os fantasm as m ais um a vez por ali, sobrevoando. Mas ia passar. Tudo ia ficar bem .
Heloisa – Tem os um grande am igo que, há m uitos anos, fez um a cirurgia de câncer de próstata. Antes da cirurgia, alguém lhe perguntou: Se pudesse escolher entre ficar im potente e incontinente, o que você escolheria? E ele respondeu, sem vacilar, que preferia a im potência. Fiquei adm irada ao saber disso, porque ele era conhecido j ustam ente por dar m uita im portância ao sexo. Para m im , com aquela resposta, ele estava escolhendo um cam inho que deveria ser, para qualquer hom em , o pior dos pesadelos.
A m ão do hom em pegou a caixa de isopor e retirou de dentro dela o pequeno frasco. Observou-o contra a luz, a claridade que entrava pelo vidro fosco do basculante. Depois, colocou-o sobre a bancada de m árm ore e pegou a seringa. Espetou a agulha através da tam pa, e ela penetrou no frasco, alcançando o líquido translúcido. A m ão do hom em virou o vidro de cabeça para baixo e puxou o êm bolo, lentam ente.
Sentiu um arrepio. Respirou fundo. Por enquanto, teria de ser assim . Mas só por enquanto. Não se deixaria vencer. Revirou o vidro e, com m uito cuidado, retirou a agulha que estivera cravada na tam pa. Mas, se isso acontecesse, se o problem a se eternizasse – ainda assim , tinha certeza de que tudo ia ficar bem . A perda não o abateria. Tinha aprendido a abrir m ão de m uitas coisas que lhe eram caras. Um a vida inteira dedicada a m anter o controle, a não se deixar surpreender. A própria ideia de que podia superar um a perda era um a fonte de prazer. Um a busca da onipotência. Sou m ais forte do que isso, pensava. E conseguia. Não seria diferente desta vez.
E cravou a agulha na carne.
Ruy – A história é assim : um cavaleiro (Max von Sy dow) volta das Cruzadas e encontra o país devastado pela peste negra. A fé dele em Deus é abalada e, enquanto ele está refletindo sobre o significado da vida, a Morte (Bengt Ekerot) surge e diz: Chegou a sua hora. O cavaleiro, então, tentando ganhar tem po, convida a Morte para um j ogo de xadrez, que vai decidir se ele vai ou não com ela. A Morte concorda, sabendo que vai ganhar. Mas o cavaleiro j oga porque não tem outro j eito. Ele precisa j ogar. O j ogo é a única possibilidade, m esm o que passageira, de driblar a Morte.
Cam inharam de m ãos dadas pelas ruas estreitas, dentro daquele am ontoado hum ano tão im provável, erigido sobre a água. Eram ruelas tão m ínim as que as casas, de dois ou três andares, pareciam prestes a se tocar no alto, com o se, inclinadas, quisessem observar quem passava em baixo.
De vez em quando, os dois, hom em e m ulher, desem bocavam em pequenas praças desertas, quase sem pre tendo, no centro, um poço com tam pa de m etal esverdeado. Todos os lugares daquela região, ruelas e piazzettas, eram quase intocados pelo sol, com paredes que transpiravam um a um idade de séculos. Só no alto dos casarões é que as j anelas respiravam um pouco m ais, com cordas e roupas estendidas, de um lado a outro. Algum as ostentavam j ardineiras com gerânios, m as estes nem de longe exibiam o m esm o esplendor que eles tinham visto nos vasos da grande praça principal.
Era lindo, m as opressivo. Os dias cinzentos de outono, os canais de águas escuras, quase oleosas, por onde deslizavam as gôndolas, pareciam saídos de um conto de Poe. Aquele em que um a m ulher, enlouquecida de am or, j oga o próprio filho da j anela de um palácio, dentro d’água, com o prova de sua paixão. O am ante se atira na água e salva o bebê, m ostrando à m ulher que tinha com preendido a extensão de seu am or. Mas a história acaba m al: no fim , o am ante e a m ulher são envenenados pelo m arido, que descobre tudo.
Veneza à beira do inverno, vazia de turistas. Triste. Linda. O lugar ideal para um suicídio. Ou um assassinato. E eles cam inhando, as m ãos apertadas um a na outra, sem rum o.
Mas não era um a sensação ruim – ao contrário. Perder-se naquelas ruas m isteriosas era um a delícia, os dois envoltos por um sentim ento de transgressão que batia na garganta. Sabiam que tinham pouco tem po. O dia m orria cedo naquela época do ano, precisavam descobrir um a m aneira de voltar. Às vezes, ao fazer um a curva ou virar um a esquina m uito estreita, a m ulher, m ais im pressionável, se sobressaltava. Nesses m om entos, tinha a sensação exata de que eram seguidos, ou observados à distância.
Até que, no fim de um a rua m uito longa e estreita, com m enos de três m etros de largura, deram com um a loj a de m áscaras. Acharam estranho que ali, em um a parte tão erm a e deserta da cidade, houvesse com ércio. Mas pararam .
Era um a loj a pequena, apenas um a porta e um a j anela quadrada, de m oldura azul, que fora transform ada em vitrine. A m ulher logo im aginou um ateliê pequeno, de m áscaras feitas à m ão, um a a um a, por um artesão velhinho, de barba e cabelos brancos. Um hom em solitário, que viveria no fundo da loj a, em um pequeno côm odo, que era o que lhe restara, porque ele transform ara quase todo o espaço de sua casa em com ércio, para sobreviver.
Entraram .
Dezenas, talvez centenas, de m áscaras estavam penduradas por toda parte. Era quase im possível cam inhar ali dentro. A m ulher estava certa, eram m esm o peças artesanais, diferentes das m áscaras feitas em série, exibidas nas loj as m ais turísticas, perto de São Marcos ou j unto aos canais m aiores. Havia m áscaras de todos os tipos: arlequins, colom binas, palhaços, crianças, gatos. E tam bém as tradicionais baúttas, parecendo caveiras de pássaros m aléficos, com seus bicos enorm es. Algum as m áscaras eram de papel m achê, outras de cerâm ica, m as em todas se estam pava um a expressão real, tão hum ana que provocava desconforto. Aquele artesão devia ser um gênio em sua especialidade, pensou a m ulher.
Mas onde estava ele? Não havia ninguém na loj a.
Fascinados, foram entrando, até dar em um a porta que havia ao fundo, à esquerda, atrás de um biom bo em decapê, todo trabalhado, com um a pintura j á desbotada, m as na qual ainda era possível divisar grandes aves-do-paraíso. A m ulher e o hom em se entreolharam . Antes que ele pudesse dizer algum a coisa, ela em purrou a porta, que cedeu ao toque.
O aposento contíguo, onde, pelo que ela im aginara, dorm ia o dono da loj a, não se parecia em nada com um quarto. Não tinha m óvel algum , nem sequer um a cadeira. Era, todo ele, todas as paredes, do chão ao teto, forrado de estantes. E em todas as estantes havia m áscaras, m as não de form ato diverso, com o na parte da frente da loj a – apenas as baúttas. Variavam de tam anho, m as todas pareciam feitas de osso, de m arfim velho. Algum as traziam frisos dourados e arabescos negros em torno do buraco dos olhos, outras eram m onocrom áticas. Aqueles pares de olhos m ortos, acim a do nariz adunco, de rapina, olharam para eles ao m esm o tem po, ou assim lhes pareceu, com o se indagassem o que estavam fazendo ali e por que tinham entrado na loj a sem pedir licença.
Estavam nessa contem plação m uda, am bos adm irados – sem m edo algum –, quando um deslocam ento de ar, explodindo acim a de suas cabeças, os fez se abaixarem , o coração aos pulos.
Nunca souberam o que era. Não ficaram para investigar. Depois, só depois, em m eio a um riso histérico, enquanto corriam de m ãos dadas pelas ruas estreitas, ofegantes, com entaram que talvez fosse um m orcego, ou um pássaro qualquer, aprisionado, voej ando no quarto, acim a de suas cabeças. Em algum ponto de sua consciência sentiam que o susto, o defrontar-se com um elem ento desconhecido, desagregador do real, os deixara em um estado de excitação incom um .
Com eçaram a dim inuir o passo, o coração ainda na boca. Encostaram -se em um m uro, sentindo sua frialdade. Era recoberto de m usgo, m atéria verde e m acia, a m ulher sentiu na m ão. E então viram que tinham ido parar em um largo, um a pequena praça. Ao fundo dela, erguia-se um palácio e sua torre, a bela torre redonda, de arcadas rendadas, com balaústres de m árm ore branco, que j á conheciam de fotografia. Sabiam que lugar era aquele. O Palácio Contarini del Bovolo.
Com o quase tudo em Veneza àquela hora, estava deserto. A m ulher sentiu a pressão da m ão do hom em sobre a sua. Houve um entendim ento m udo. Ela sabia que era um cham ado. Subiram .
Os degraus de pedra eram estreitos no centro; a escada, em caracol. De pedra acinzentada, granito talvez. Quantos anos teriam aqueles degraus, quantos pés de quantos am antes teriam subido àquela torre, furtivos, à noite, em busca de um lugar deserto? Os balaústres claros brotavam da pedra, não havia rodapé, e os degraus, por entre os espaços da balaustrada, se proj etavam no vazio, o que, à m edida que iam subindo, dava um a sensação de estarem soltos no espaço. A m ulher tinha m edo de altura. Apoiou a m ão direita no corrim ão. Sentiu um a alfinetada de gelo no ventre.
De baixo, tinham contado sete andares, m as agora parecia m ais. Continuaram subindo, devagar. A cada volta da escada, e à m edida que passavam a ver de cim a os telhados em torno, a tem peratura ia ficando m ais alta. Talvez a um idade que brota do chão, dos canais, de tantas águas aterradas para fazer crescer aquelas ruas teim osas, não alcançasse o alto da torre. Dali de cim a, a cidade respirava. Havia m ais luz, tam bém . O céu cinzento abrira um a fissura j unto ao horizonte, sobre os telhados, deixando passar uns raios tardios de sol, e a luz dourada se espichou através do balaústre, listrando o chão de pedra do patam ar onde se encontravam .
Já tinham subido uns quatro ou cinco lances. Respiraram um pouco. Ainda ofegantes, se abraçaram . A m ulher sentiu o corpo quente do hom em contra o dela, parecendo latej ar. Olhou-o, com surpresa nos olhos. E então, sem um a palavra, recom eçaram a subir.
Quando chegaram ao últim o andar, viram que o alto da torre por dentro form ava um desenho geom étrico, o forro do teto, em diversas águas, parecia um a estrela, um a rosa dos ventos. E, no chão, bem no centro daquele últim o patam ar, havia um totem de m árm ore, de ponta arredondada, apontando para cim a, na direção da estrela, com o um gigantesco falo.
A m ão da m ulher tocou de leve a superfície lisa, sentindo que o hom em se aproxim ava, beij ava sua nuca. Sentiu um arrepio, virou-se. Em um im pulso, estava de j oelhos. Agia em m eio a um torpor, sem m edo, sem susto, sem ansiedade algum a, prostrada diante do totem , fantasia, sonho, não sabia – não im portava m ais.
Melhor assim , não conhecer os lim ites.