O papel de parede amarelo e outros contos

Charlotte Perkins Gilman · Capítulo 1 de 9

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O papel de parede amarelo e outros contos

Preface

SUMÁRIO

 

PREFÁCIO

 

A GLICÍNIA GIGANTE (1891)

 

O PAPEL DE PAREDE AMARELO (1892)

 

A CADEIRA DE BALANÇO (1893)

 

A PORTA NÃO VIGIADA (1894)

 

QUANDO FUI UMA BRUXA (1910)

 

ÁGUA ANTIGA (1911)

 

SE EU FOSSE UM HOMEM (1914)

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Prefácio

 

“O papel de parede amarelo”, conto publicado em janeiro de 1892 na revista The New England Magazine, é considerado um dos textos precursores da literatura feminista americana. Charlotte Perkins Gilman, por meio da ficção, teceu nesta obra uma contundente denúncia aos métodos ineficazes e humilhantes de tratamento da saúde mental impostos às mulheres de sua época.

O conto tem um tom autobiográfico. Gilman sofreu com a depressão pós-parto e, durante a doença, anotou com detalhes seus sintomas. A escritora enviou suas notas ao doutor Silas Weir Mitchell, conceituado especialista em doenças nervosas. O médico, no entanto, fez pouco caso das anotações. Afirmando que tudo não passava de presunção de sua parte, ordenou que ela realizasse seu processo de cura por meio do “descanso”. Esse tipo de tratamento proibia as mulheres até mesmo de ler e escrever, inclusive sobre si mesmas e sobre o que sentiam.

Ao aceitar o tratamento, Gilman “chegou perigosamente perto de enlouquecer”, segundo ela mesma declarou. Por fim, ela abandonou as orientações de Mitchell e publicou “O papel de parede amarelo”, conto baseado em suas próprias aflições, tornando-se conhecida como escritora e ativista pela causa das mulheres.

Desde sua publicação, este conto foi visto como uma crítica à forma como as mulheres eram tratadas no casamento e pela medicina. Os resenhistas reconheceram um subtexto subversivo e se referiram à obra com cautela, havendo indícios de que já então percebiam a mensagem feminista da autora. A partir da década de 1970, a leitura deste conto tornou-se quase obrigatória em qualquer antologia de literatura dos Estados Unidos e em cursos de introdução à questão de gênero nesse país.

Essa antologia, portanto, não se furtaria a incluir a obra entre os contos selecionados como representativos tanto da veia ativista de Charlotte Perkins Gilman quanto de seu imenso talento literário. Talento esse que, apesar de não se alinhar a nenhuma corrente de autores, flertou de forma muito interessante com a produção gótica de sua época. A própria autora afirmaria em suas memórias que não estava preocupada com questões de estilo, mas com a mensagem que seus textos transmitiam. Ainda assim, ela não escapou à influência de autores como Charlotte Brontë e Edgar Alan Poe. Como este último, em especial, Gilman produziu obras-primas do terror e do suspense, incluídas nesta coletânea. Utilizou com habilidade inúmeros motivos tradicionais do gótico, aos quais entremeou sua visão feminina e feminista como elementos essenciais à narrativa, reafirmando, assim, sua ênfase na mensagem a ser transmitida.

A influência gótica pode ser observada na exploração de um elemento dessa tradição literária: a mansão mal-assombrada. Esse argumento aparece no conto “A glicínia gigante”, que abre esta coletânea. Publicado também em The New England Magazine, um ano antes de “O papel de parede amarelo”, este conto é divido em duas partes, com mais de um século de distância entre as duas histórias. Enquanto a primeira parte narra a violenta reação familiar que tem lugar quando uma jovem dá à luz uma criança “ilegítima”, a segunda é focada em um grupo de jovens que se diverte especulando sobre os possíveis segredos da casa mal-assombrada, com um desfecho impactante.

Escrito à época em que Gilman separou-se de seu primeiro marido, o artista Charles Walter Stetson, este conto reflete esses anos difíceis da autora – dividida entre a pressão de ser uma boa esposa e mãe e o desejo por autonomia e sucesso profissional. Em “A glicínia gigante”, na casa construída e controlada por homens, são as mulheres as primeiras a reconhecer que a mansão tem uma história oculta a qual devem investigar.

O tema da assombração ressurge no conto seguinte: “A cadeira de balanço”. Neste, dois amigos procuram um imóvel para alugar. Logo encontram-se obcecados pela imagem de uma garota de cabelos dourados em uma cadeira de balanço. Este conto, publicado na Worthington’s Illustrated em 1893, guarda semelhanças com “O papel de parede amarelo”, por explorar o tênue limite entre realidade e desequilíbrio. No entanto, nesta narrativa a mulher deixa de ser a vítima do descontrole que afeta os dois rapazes e, como em “A queda da casa de Usher”, de Edgar Allan Poe, a mulher passa a ser o catalisador da destruição.

Gilman volta a visitar o tema gótico das assombrações ao publicar na Impress, em 1894, “A porta não vigiada”, uma alegoria em que, por meio de uma linguagem lírica, a autora cria um cenário de grande beleza visual.

De 1909 a 1916, Charlotte Perkins Gilman criou e editou a sua própria revista literária. Batizada como The Forerunner, a revista foi um importante veículo de divulgação das ideias feministas de Gilman, atingindo, em seu auge, mais de 6.500 leitores por mês. Nas páginas dessa revista foi publicado pela primeira vez o conto “Quando fui uma bruxa”, em 1910. Neste conto, o suspense sobrenatural dá lugar à magia quando uma mulher percebe que seus desejos de vingança movidos pela indignação de repente passam a tornar-se realidade. Como Fausto, a mulher se vê em meio a um acordo com Satã e passa a refletir sobre a natureza de tais desejos.

Em “Água antiga”, também publicado na Forerunner, em 1911, uma mulher independente e livre é pressionada a se casar com um homem abusivo e opressor, mas luta contra isso literalmente com toda a sua força. O amadurecimento de Gilman como uma mulher forte e independente e mais convicta de seus ideais feministas transparece na conclusão deste conto.

A obra que fecha esta antologia é “Se eu fosse um homem”, publicada originalmente na Physical Culture, em 1914. O fantástico se apresenta em uma história de troca de corpos neste conto. Ficam mais evidentes neste texto as ideias de Gilman a respeito do urgente empoderamento econômico das mulheres de sua época – ideias que seriam explanadas em uma de suas obras mais importantes, Women and Economics, publicada em 1898.

Como em suas demais produções literárias, portanto, nestes contos que transitam entre o terror e o fantástico, Charlotte Perkins Gilman traçou críticas contundentes à situação da mulher de sua época. As narrativas reunidas neste livro buscam refletir essa faceta característica da autora – de canalizar um grande talento literário para uma missão maior: a emancipação da mulher e o reconhecimento de seu valor.

MARTHA ARGEL