O papel de parede amarelo e outros contos

Charlotte Perkins Gilman · Capítulo 8 de 9

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O papel de parede amarelo e outros contos

Se eu fosse um homem (1914)

Se eu fosse um homem

 

(1914)

 

– Se eu fosse um homem... – era isso que a bela e pequenina Mollie Mathewson sempre dizia quando Gerald não fazia o que ela queria, algo que raras vezes acontecia.

Foi o que ela disse naquela manhã luminosa, batendo no chão o sapatinho de salto, só porque ele havia criado caso por causa de uma conta. Aquela conta longa onde estava escrito “contas prestadas”, que ela não entregara a ele da primeira vez por ter esquecido e da segunda vez por ter ficado com medo, e que ele agora recebera diretamente das mãos do carteiro.

Mollie era um belo exemplo do que costuma-se reverentemente chamar de “mulher de verdade”. Miúda, é claro, pois nenhuma mulher de verdade pode ser grande. Bonita, é claro, pois nenhuma mulher de verdade pode ser sem graça. Fútil, impulsiva, encantadora, volúvel, devotada a roupas bonitas, que sempre a “vestiam bem”, como diz essa expressão esotérica. (Esta não se refere às roupas, que não são em absoluto boas de vestir, mas por alguma graça especial concedida a poucas mulheres, de vestirem-nas e saírem por aí com elas, dão essa aparência.)

Esposa amorosa e mãe dedicada, dotada de “habilidade social” e do correspondente gosto pela companhia das pessoas, além de tudo adorava seu lar, e não só orgulhava-se dele como também o administrava com a mesma competência que... bem, que a maioria das mulheres.

Se em algum momento existiu uma mulher de verdade, ela era Mollie Mathewson, que, no entanto, desejava de corpo e alma ser um homem.

E de repente ela era!

Ela era Gerald, caminhando aprumado e robusto, apressado como sempre para pegar o trem matinal e, deve-se confessar, um tanto mal-humorado.

As próprias palavras dela ressoavam-lhe nos ouvidos. Não apenas a “última palavra”, mas as muitas que haviam sido ditas antes; e ela mantinha os lábios apertados e bem fechados, para não dizer algo de que pudesse se arrepender. No entanto, em vez de concordância com a posição tomada por aquela pequena figura que estava na varanda, o que ela sentia era uma superioridade orgulhosa, uma compaixão ante a fraqueza, um sentimento de “devo ser gentil com ela”, apesar do mau humor.

Um homem! Um homem de fato, restando apenas uma lembrança subconsciente de si mesma, a qual lhe permitia reconhecer as diferenças.

A princípio houve uma percepção curiosa de tamanho e peso, e de uma corpulência extra. Pés e mãos pareciam grandes e estranhos, e as pernas compridas, retas e livres avançavam com um andar que lhe davam a impressão de usar longas pernas-de-pau.

Essa estranheza passou e, em seu lugar, cada vez mais intensa ao longo do dia, onde quer que fosse, sobreveio uma nova e deliciosa sensação de ser do tamanho certo.

Tudo se ajustava, agora. As costas apoiadas confortavelmente ao encosto do assento, os pés tocando o piso. Os pés? Os pés dele. Ela os examinou com atenção. Nunca, desde os primeiros dias na escola, havia sentido tal liberdade e conforto quanto aos pés. Eles tocavam o solo com firmeza e solidez quando ela caminhava, rápida, enérgica, segura – como quando, movida por um impulso irreconhecível, havia corrido atrás do bonde, alcançando-o e pulando a bordo.

Por outro impulso, procurara alguns trocados em um bolso conveniente, extraindo de forma instantânea e automática um níquel para o condutor e um penny para o garoto que vendia jornais.

Os bolsos foram uma revelação. Claro que ela sempre soube que estavam ali, tinha contado quantos era, zombara deles, consertara-os e até os invejara. Mas nunca havia sequer sonhado como seria ter bolsos.

Por trás de seu jornal, ela deixou que sua consciência, aquela estranha consciência mista, vagueasse de bolso em bolso, dando-se conta da sólida segurança proporcionada pelo fato de ter todas aquelas coisas à mão, acessíveis de forma instantânea, prontas para enfrentar emergências. O estojo de charutos transmitiu-lhe um cálido sentimento de conforto, pois estava cheio. A caneta-tinteiro, firme em seu lugar e segura contra vazamentos, a menos que ela resolvesse ficar de cabeça para baixo. As chaves, os lápis, as cartas, os documentos, o caderno de anotações, o talão de cheques, a carteira... De imediato, invadida por uma profunda sensação de poder e orgulho, ela sentiu algo que nunca sentira na vida: a posse de dinheiro, o dinheiro que ela mesma havia ganhado. Dinheiro dela, para gastar ou guardar, e não um dinheiro pelo qual foi necessário suplicar, provocar, seduzir... Dela.

Aquela conta... Ora, se tivesse vindo para ela, isto é, para ele, teria sido paga sem pensar muito, e nunc a teria sido mencionada... a ela.

Então, sendo ele, ali sentado de forma tão natural e firme, com seu dinheiro nos bolsos, ela despertou para a percepção que ele teve em relação ao dinheiro durante toda a vida. Na infância, os desejos e sonhos, as ambições. Na juventude, o trabalho árduo com o objetivo de comprar uma casa – para ela. Os anos presentes, com toda a sua teia de precauções e esperanças e perigos; o momento atual, em que ele precisava de cada centavo para planos especiais de grande importância, e aquela conta, havia muito vencida e exigindo pagamento, era um inconveniente que seria perfeitamente evitável caso tivesse sido entregue a ele logo na primeira vez; além disso, ele não gostava nem um pouco daquele “contas prestadas”.

– As mulheres não têm nenhum senso de negócios! – ela viu-se dizendo. – E todo aquele dinheiro gasto com chapéus... Coisas idiotas, inúteis e horrorosas!

Com isso, ela começou a ver os chapéus das mulheres no carro como nunca os havia visto. Os chapéus dos homens pareciam normais, muito dignos, adequados, com suficiente variedade para satisfazer aos gostos pessoais, e com distinção de estilo e de idade, coisa que ela nunca notara. Mas os chapéus das mulheres...

Com os olhos de um homem e o cérebro de um homem, com a memória de toda uma vida de atividades durante as quais o chapéu, bem ajustado sobre os cabelos curtos, não representara um estorvo, ela agora percebia os chapéus das mulheres.

Os cabelos volumosos e armados eram ao mesmo tempo atraentes e absurdos, e sobre tais cabelos equilibravam-se aqueles objetos disformes, em todos os ângulos possíveis, em todas as cores, de lado, torcidos nos formatos mais estranhos, confeccionados com qualquer substância que o acaso oferecesse. Por cima dessa base amorfa vinham os adereços, jorros de penas rígidas, laços violentos e volumosos de fitas reluzentes, massas protuberantes de plumagem que atormentavam os semblantes dos passantes.

Nunca, em toda a sua vida, ela havia imaginado que a idolatrada chapelaria parecia, aos olhos daqueles que por ela pagavam, a decoração criada por um macaco maluco.

Ainda assim, quando subiu ao carro uma pequena mulher, tão frívola quanto qualquer outra, mas bonita e de aparência doce, Gerald Mathewson levantou-se e cedeu-lhe o assento. Mais tarde, subiu uma atraente jovem de faces coradas, cujo chapéu superava qualquer outro em termos de extravagância, de um colorido agressivo e formato excêntrico. Postando-se ao lado de Gerald, suas plumas macias e curvas tocaram o rosto dele, de novo e de novo, e ele sentiu uma súbita sensação de prazer com as cócegas provocadas por aquele toque íntimo. E ela, bem lá no fundo, sentiu uma onda de vergonha tão grande que poderia ter afogado para sempre um milhar de chapéus.

Quando ele embarcou no trem, e ocupou seu assento no carro de fumantes, ela teve uma nova surpresa. A seu redor estavam outros homens que também tomavam o trem para ir trabalhar, e muitos eram amigos dele.

Para ela, teriam sido identificados como “o marido de Mary Wade”, “o homem de quem Belle Grant está noiva”, “o rico senhor Shopworth” ou “aquele homem agradável, o senhor Bale”. E todos teriam tirado o chapéu para ela, feito uma mesura e, caso estivessem próximos o suficiente, entabulado uma conversação polida, especialmente o senhor Beale.

Ela teve a sensação de conhecer de verdade aqueles homens, de saber como eram de fato. O nível de conhecimento dele constituiu uma surpresa para ela, todo o histórico de conversações, que remontava à adolescência, as fofocas da barbearia e do clube, as conversas mantidas nos trens da manhã e do fim de tarde, a informação sobre afiliação política, situação dos negócios e das perspectivas, caráter, tudo isso sob uma luz que ela nunca antes havia conhecido.

Um após o outro vieram conversar com Gerald, que parecia ser muito popular. E, enquanto conversavam, junto a estas novas lembranças e esta nova compreensão, a qual parecia incluir o modo como todos aqueles homens pensavam, um novo e surpreendente conhecimento aflorou na consciência que jazia lá no fundo – o que os homens de fato pensavam sobre as mulheres.

Eram todos homens de bem, o cidadão estadunidense médio. Em sua maioria, casados e felizes – ao menos o que se costuma entender como felicidade. Na mente de cada um deles parecia haver um compartimento com dois andares, separado do resto de suas ideias, um lugar à parte onde mantinham suas impressões e seus sentimentos em relação às mulheres.

Na parte de cima ficavam as emoções mais ternas, os ideais mais sublimes, as recordações mais doces, todos os sentimentos adoráveis relativos ao “lar” e à “mãe”, todos os adjetivos delicados de admiração, uma espécie de santuário, onde uma estátua coberta com um véu, cegamente adorada, dividia o espaço com experiências acalantadas, mas corriqueiras.

Na metade de baixo, eles mantinham uma gama de ideias completamente distinta, e aquela consciência profunda foi tomada por uma angústia cortante. Nesse lugar, até mesmo em seu marido, de mente tão limpa, ficavam as lembranças de histórias contadas nos jantares masculinos, de coisas ainda piores entreouvidas na rua ou nos transportes coletivos, de tradições indecentes, alcunhas chulas, experiências imundas – estas últimas não compartilhadas, apenas conhecidas.

E tudo isso no compartimento “mulher”, enquanto no resto da mente... Aí ela descobriu de fato novos conhecimentos.

O mundo abriu-se diante dela. Não o mundo no qual havia sido criada, onde o lar ocupava praticamente todo o mapa, e o resto era “território estrangeiro” ou “regiões inexploradas”, mas o mundo como ele era. O mundo do homem, o mundo como era feito, vivido e visto pelos homens.

Era atordoante. As casas que desfilavam velozes pela janela do trem eram vistas em termos de faturas dos construtores ou de algum conhecimento técnico de materiais e de métodos. A vila que passava era vista à luz do lamentável conhecimento de quem a “possuía” e de como seu chefe adquiria um rápido poder dentro do estado, ou de como aquele calçamento utilizado era inadequado. As lojas deixavam de ser meras exibições de objetos desejáveis, passando a ser empreendimentos comerciais, muitas delas fadadas ao fracasso, outras prometendo uma trajetória lucrativa. Esse novo mundo deixou-a desnorteada.

Ela – como Gerald – já havia esquecido aquela conta, pela qual ela – como Mollie – ainda estava chorando em casa. Gerald estava “falando de negócios” com este homem, “falando de política” com aquele outro, e agora compadecendo-se com um vizinho cuidadosamente reticente de seus problemas.

Ela sempre se havia compadecido da esposa daquele vizinho.

Ela foi lançada em um conflito violento com aquela grande consciência dominante masculina. Lembrou-se, com súbita clareza, de coisas que havia lido, de conferências a que assistira, e sentiu uma crescente indignação diante da serena preocupação dos homens com o ponto de vista masculino.

O senhor Miles, um homenzinho meticuloso que morava do outro lado da rua, estava falando agora. Ele tinha uma esposa grandalhona e presunçosa. Mollie nunca gostara muito dela, mas sempre o achara agradável. Ele era tão minucioso nas pequenas cortesias!

E ali estava ele, falando com Gerald. E que conversa!

– Tive que vir para cá – disse. – Cedi meu lugar para uma dama que estava decidida a ocupá-lo. Não há nada que elas não consigam quando botam na cabeça que querem, não é?

– Não se preocupe! – disse um homenzarrão acomodado no assento ao lado. – Elas não têm muito na cabeça, você sabe. E quando botam alguma coisa, logo mudam de opinião.

– O único perigo... – começou o reverendo Alfred Smythe, o novo clérigo episcopal, um homem magro, alto e nervoso com um semblante que parecia muitos séculos atrasado no tempo – é que extrapolem os limites estabelecidos por Deus para elas.

– Suas limitações devem contê-las, em minha opinião – disse o bem-humorado doutor Jones. – Não há como escapar da fisiologia, afirmo-lhes.

– Em todo caso, eu mesmo nunca vi qualquer limite para o que querem – disse o senhor Miles. – Nada mais do que um marido rico, e uma bela casa, e um sem-fim de chapéus e vestidos, e a última novidade em termos de automóvel, e alguns diamantes, e assim vai. Isso nos mantém bem ocupados.

Havia um homem grisalho cansado do outro lado do corredor. Ele tinha uma esposa muito simpática, que sempre se vestia com esmero, e três filhas solteiras, que também se vestiam muito bem. Mollie as conhecia. Ela sabia que ele também trabalhava duro, e olhou para ele um tanto apreensiva.

Mas ele deu um sorriso bem-disposto .

– Isso faz bem, Miles – comentou. – Para que mais um homem trabalharia? Uma boa mulher é a melhor coisa da vida.

– E uma mulher ruim é a pior, isso é certo – respondeu Miles.

– Profissionalmente falando, é um ser muito fraco – declarou o doutor Jones, de forma solene.

E o reverendo Alfred Smythe acrescentou:

– Ela trouxe o mal para o mundo.

Gerald Mathewson sentou-se mais ereto. Algo agitava-se dentro dele, algo que ele não reconhecia, mas ao que não podia resistir.

– Tenho a impressão de que estamos todos falando como Noé, ou como antigas escrituras hindus – opinou secamente. – As mulheres têm suas limitações, mas nós também temos, por Deus. Vão me dizer que na escola e na faculdade não conheceram garotas que eram tão inteligentes quanto nós?

– Elas não conseguem jogar nossos esportes – respondeu o clérigo com frieza.

Gerald analisou-lhe as modestas proporções com olhos experientes.

– Eu mesmo nunca joguei futebol americano particularmente bem – admitiu, com modéstia. – Mas conheci mulheres que batiam os homens em provas de resistência. Além do mais, a vida não é feita só de esportes!

Essa era uma triste verdade. Todos olharam para o fim do corredor, onde um homem corpulento e malvestido, de aspecto doentio, estava sentado a sós. Ele já estivera nas páginas dos jornais, com manchetes e fotografias. Agora ganhava menos do que qualquer um deles.

– É hora de acordarmos – continuou Gerald, ainda compelido interiormente a este discurso que não lhe era familiar. – As mulheres são pessoas, em meu entender. Sei que se vestem como tolas, mas quem deve levar a culpa por isso? Nós inventamos aqueles chapéus ridículos que elas usam, e criamos as modas doidas, e, mais ainda, se uma mulher tivesse coragem suficiente para usar roupas discretas, e também sapatos discretos, qual de nós iria querer dançar com ela?

– Sim – ele continuou –, nós as culpamos por viverem à nossa custa, mas estamos dispostos a deixar que nossas esposas trabalhem? Não. Isso fere nosso orgulho, nada mais. Sempre as criticamos por fazerem casamentos mercenários, mas o que dizemos de uma garota que se casa com um sujeito sem dinheiro? Que é uma pobre idiota. E elas sabem disso.

Ele prosseguiu:

– Quanto à mãe Eva... Eu não estava lá e não tenho como refutar a história, mas digo-lhes isso. Se ela trouxe o mal ao mundo, nós, homens, temos a maior parte da culpa por mantê-lo aqui desde então. Que me dizem disso?

Chegaram à cidade, e, durante todo o dia, em seu trabalho, Gerald manteve-se vagamente consciente de novos pontos de vista e sentimentos estranhos, enquanto, lá no fundo, Mollie aprendia e aprendia.