O papel de parede amarelo e outros contos
A cadeira de balanço (1893)
A cadeira de balanço
(1893)
Um ponto de luz do sol oscilando, um sinal luminoso que de imediato atraía o olhar, em meio à aridez de tantas casas banais na triste penumbra de uma estreita rua urbana.
Por cima de um telhado mais baixo, que abria uma brecha na muralha de alvenaria, projetava-se um brilhante raio horizontal do sol que se punha, banhando os cabelos dourados de uma garota em uma janela aberta.
Ela estava sentada em uma cadeira de balanço de espaldar alto com guarnições de latão que reluziam enquanto ela se balançava para frente e para trás, sem nunca erguer a cabeça, iluminando a rua com o halo de seu cabelo refulgente de sol.
Nós dois paramos para contemplá-la e, nessa contemplação, avistamos um pequeno aviso em uma janela mais abaixo – “alojamentos mobiliados”. Num mesmo impulso, cruzamos a rua e batemos à modesta porta de entrada.
Passos lentos e regulares aproximaram-se pelo lado de dentro, e um suave riso de menina interrompeu-se de repente quando a porta se abriu, mostrando-nos uma mulher velha, com face inexpressiva e sem vida e olhos esmaecidos.
Sim, ela dispunha de quartos para alugar. Sim, podíamos vê-los. Não, não havia serviço de quarto. Não, não havia refeições. Murmurando em tom monótono as respostas, ela nos conduziu ao andar de cima. Era uma casa bastante comum, situada em uma rua um tanto pobre e sem nada que a destacasse ou que a distinguisse das outras na vizinhança.
Ela nos mostrou dois cômodos conectados entre si, nem melhores nem piores que a maioria de seu tipo, cômodos sem qualquer característica marcante salvo a grande cadeira ornada com latão que encontramos ainda balançando suavemente diante da janela.
No entanto a garota de cabelos dourados não estava em nenhum lugar à vista.
Imaginei ter ouvido o leve roçar de vestes juvenis no aposento interno e um sopro daquele riso baixinho, mas a porta que dava para esse apartamento estava trancada. Quando perguntei à mulher se podíamos ver os outros quartos, ela respondeu que não havia mais nenhum para alugar.
Depois de trocarmos algumas palavras à parte, Hal e eu decidimos alugar os quartos e mudar-nos de imediato. Não havia motivo para não fazermos isso. Estávamos em busca de acomodações quando aquele raio de sol oscilante atraiu nosso olhar, e aqueles cômodos eram o melhor que estava ao nosso alcance. Assim, fechamos o negócio na hora, voltamos para nossa pensão deserta para pegar nossas poucas posses e naquela mesma noite nos instalamos na nova moradia.
Hal e eu éramos jornalistas iniciantes, ganhávamos por linha escrita, e integrávamos aquela hoste de aspirantes batalhadores que representavam para a literatura o mesmo que escudeiros e pajens significavam para os cavaleiros do passado. Estávamos tentando ganhar reconhecimento. Até então, era um processo demorado, desagradável e mal-remunerado – como acontecia com escudeiros e pajens, tenho certeza. Trabalho servil e muito afinco para polir armaduras; longos percursos a pé, acompanhando o mestre em seu cavalo. Contudo o escudeiro poderia ao menos prestar honras a seu mestre e líder, enquanto nós, ah!, poucas honras prestávamos àqueles que estavam acima de nós em nossa profissão, e tínhamos nossas boas razões. Nós, é claro, faríamos coisas muito mais nobres quando tivéssemos reconhecimento!
Bem, pode ter sido por um mero instinto literário; a busca por “material” dos escritores da época, que escreviam qualquer coisa para sobreviver. Ou pode ter sido outro tipo de instinto, uma atração inconsciente pela bela desconhecida. Qualquer que tenha sido a razão, porém, o lugar nos atraíra, e ali estávamos.
Éramos unidos por uma amizade antiga, iniciada na tenra infância e reforçada pelo fato de Hal ser um sujeito animado, prático, lúcido, enquanto eu era sensível e romântico.
Compartilhávamos a sinceridade confiante da convivência familiar, mas com o direito garantido de guardarmos nossos segredos, e assim conseguíamos manter nosso afeto livre de tensões.
Examinamos com interesse os novos aposentos. Hal ficou com o quarto da frente, amplo e pouco mobiliado. Eu fiquei com o quarto dos fundos, pequeno e pouco mobiliado.
Ele preferiu aquele quarto, tenho certeza, por causa da janela e da cadeira. Eu preferi o outro por causa da porta trancada. Nenhum de nós mencionou seus motivos.
– Você não quer mesmo ficar com este quarto? – perguntou Hal, talvez consciente das segundas intenções em sua escolha.
– Não, fique tranquilo – respondi, com igual reticência. – Você só tem a rua, e de minha janela tenho uma “vista” de verdade. Só invejo a cadeira de balanço!
– Pode usá-la quando quiser, de dia ou de noite – respondeu ele, generoso. – Não parece, mas ela é muito confortável.
Ela era de fato confortável, e nós dois a usávamos bastante. Tinha o espaldar bem alto, um pouco curvado na parte de cima, com pesados cantos quadrados. Tais cantos eram adornados em latão, assim como as pontas das bases curvas sobre as quais a cadeira balançava, as grandes saliências pontudas nas pontas dos braços e qualquer outra ponta ou ângulo.
– Daria para usar como um aríete! – exclamou Hal.
Sentado diante da janela, fumando, ele se balançava lentamente e satisfeito. Eu estava acomodado aos pés da cama e acompanhava a pálida lua crescente que descia devagar por trás dos telhados a oeste.
Por fim, ela desapareceu, e o quarto mergulhou aos poucos na penumbra, até que eu só podia distinguir a elegante cabeça de Hal e o encosto curvo da cadeira indo e vindo, recortados contra o céu escuro.
– O que nos trouxe aqui de forma tão súbita, Maurice? – perguntou ele, na escuridão.
– Três coisas – respondi. – Nossa necessidade de acomodações, a conveniência destes quartos e os belos cabelos dourados.
– Correto – concordou ele. – Algo mais?
– Nada cuja existência você admitiria, meu amigo de lógica inabalável. Mas tenho plena consciência de uma certa compulsão, ou ao menos atração, no caso, que não parece ter uma explicação totalmente plausível, nem mesmo uma cabeleira loura.
– Desta vez tenho que concordar com você – disse Hal. – Sinto a mesma coisa, e olhe que não sou uma pessoa impressionável.
Ficamos em silêncio durante algum tempo. Posso ter fechado os olhos. Talvez tenha sido mais tempo do que pensei, mas pareceu-me que apenas um instante havia se passado quando algo roçou de leve meu braço, e Hal, em sua grande cadeira, estava balançando a meu lado.
– Desculpe – disse-me, vendo que eu levara um susto. – Esta cadeira evidentemente “caminha”, como já vi outras fazerem.
Eu também já havia visto cadeiras de balanço “caminharem” sobre tapetes, mas não havia tapetes ali, e eu achava que estava acordado.
Ele puxou o pesado móvel de volta para a janela e fomos dormir.
Nossa porta ficou aberta, e podíamos conversar de um quarto a outro, mas caí no sono e dormi profundamente até a manhã seguinte. Ele deve ter tido sonhos muito vívidos, pois me acusou de ter passado metade da noite balançando em sua cadeira. Disse que podia ver minha silhueta recortada claramente contra a luz das estrelas.
– Não, você sonhou – respondi. – Você ficou com a cadeira de balanço na mente.
– Então foi um sonho – ele respondeu bem-humorado. – É melhor um pesadelo do que uma contradição, um vampiro do que uma discórdia! Venha, vamos tomar o café da manhã!
À medida que os dias passavam, ficamos surpresos por não voltarmos a ver a jovem de cabelos dourados que nos encantara. Mas guardamos silêncio sobre nossa surpresa sem comentar nada um com o outro.
Às vezes, eu ouvia seus movimentos leves no cômodo vizinho ao meu, ou um riso suave em algum lugar da casa. Mas os passos lentos e regulares da mãe eram mais frequentes, e mesmo ela nem sempre estava à vista.
Até onde sei, tanto Hal como eu só víamos a garota quando olhávamos da rua para dentro da casa, pois ela continuava fazendo uso de nossa cadeira diante da janela. Isso nos desagradava, ainda mais porque deixávamos as portas trancadas, e a presença dela atestava a posse de outra chave. Não. Havia a porta em meu quarto! Mas nada falei sobre isso. Dadas as circunstâncias, não fizemos qualquer reclamação, e costumávamos apressar-nos furtiva e rapidamente escada acima, na esperança de surpreendê-la. Mas nunca conseguíamos. Muitas vezes, encontrávamos a cadeira ainda balançando, e em algumas ocasiões eu pensava sentir um tênue odor adocicado no ar, um estranho odor triste e sugestivo. Um dia, porém, quando achei que Hal estava lá, entrei de repente, sem cerimônia, e peguei-a de surpresa. Foi apenas um vislumbre, um movimento ligeiro, leve e silencioso, e ela desapareceu, indo para meu próprio quarto. Fui atrás dela para pedir desculpas por minha entrada abrupta, mas era tarde demais. A porta estava trancada de novo.
Pelo visto, a bela filha de nossa senhoria era muito tímida quando pega em flagrante, mas tinha uma insólita predisposição a tomar liberdades em nossa ausência.
De todo jeito, eu conseguira vê-la, e por aquela visão eu seria capaz de perdoar muita coisa. Ela tinha uma beleza estranha, infinitamente atraente, mas igualmente desconcertante. Admirei-me em segredo e ansiei com doloroso fervor por outro encontro. Mas não contei a Hal que a tinha surpreendido. Não parecia justo para com a garota! Talvez ela tivesse alguma boa razão para ir lá. Quem sabe eu poderia encontrá-la outra vez.
Assim, passei a voltar mais cedo para casa, por um motivo ou outro, e a inventar todo tipo de pretexto para entrar no quarto quando Hal não estava.
Houve um sem-fim de ocasiões em que, achando que ele estaria no centro, tive a surpresa de encontrá-lo no quarto, e notei algo meio forçado em suas explicações desnecessárias. Comecei então a me questionar se ele também não estaria na mesma busca que eu.
Logo tive certeza disso. Cheguei à esquina da rua, num certo fim de tarde, exatamente ao pôr do sol, e... Sim, lá estava o movimento rítmico dos cabelos claros, emoldurados pela escuridão da janela aberta. E lá estava também Hal, na rua, embaixo da janela. A garota olhou para fora e sorriu. Ele entrou e subiu as escadas.
Apertei o passo. Tive tempo de ver o movimento da cadeira parar e a cabeça loura virar-se na direção de Hal, parado atrás dela, nas sombras.
Passei reto pela porta da casa, desci a rua, caminhei uma hora, duas horas. Comi uma janta tardia em um lugar qualquer e retornei na hora de dormir com uma sensação cortante e amarga no coração, que tentei em vão racionalizar. Ele tinha tanto direito quanto eu de encontrar-se com ela, e seria difícil argumentar em contrário, mas ainda assim eu me sentia estranhamente magoado com ele.
Quando voltei, a luz brilhava por trás da cortina branca, e a sombra da grande cadeira projetava-se nela, imóvel. Outra sombra passou. Hal, fumando. Subi.
Ele me saudou efusivamente e me perguntou por que eu estava chegando tão tarde. Onde eu havia jantado. O bom humor dele era excessivo. Houve uma repentina e terrível sensação de segredo entre nós. Porém ele não me contou nada, e eu não perguntei, e fomos dormir em silêncio.
Eu o culpava por não dizer nada sobre nosso louro mistério, mas eu também não lhe contara sobre meu próprio encontro. Atormentei o cérebro com questões sobre o quanto ele a havia visto de fato, se ela havia lhe falado, o que ela dissera, quanto tempo havia ficado.
Virei na cama a noite toda, e Hal também estava insone, pois eu o ouvi balançando na cadeira durante horas, diante da janela, ao lado da cama, perto de minha porta. Nunca soube de uma cadeira de balanço que “caminhasse” tanto quanto aquela.
Perto do amanhecer, o rangido e o movimento constantes foram demais para meus nervos e para meu humor.
– Pelo amor de Deus, Hal, pare com isso e vá para a cama!
– O quê? – respondeu uma voz sonolenta.
– Chega de brincadeira! – exclamei. – Não preguei o olho esta noite porque você não parou de balançar. Agora pare e vá para a cama.
– Ir para a cama? Passei a noite toda na cama e queria que você também tivesse passado! Você não consegue usar a cadeira sem me culpar por isso?
E o tempo todo eu o ouvia balançar, balançar, balançar perto da porta que dava para o corredor!
Levantei-me furtivamente e entrei no quarto, no intuito de surpreender o inoportuno engraçadinho e condená-lo no ato.
Os dois cômodos estavam banhados por uma tênue fosforescência do luar refletido. Eu os conhecia até no escuro, mas mesmo assim tropecei perto da porta e caí com tudo no chão.
Hal saiu da cama de imediato e acendeu uma luz.
– Machucou-se, meu caro jovem?
Eu havia me machucado, e a culpa era toda dele, pois a cadeira não estava onde deveria, mas perto da porta do meu quarto. Ele devia tê-la deixado ali para pular na cama quando me ouviu vindo. Assim, não foi de forma amável que recusei seu oferecimento para me ajudar, e voltei mancando para meu travesseiro insone. Eu havia batido o tornozelo em uma das bases curvas com ponta de latão, e doía muito. Nunca vi uma cadeira tão planejada para machucar quanto aquela. Tão grande e tão pesada, desequilibrada, com suas juntas e seus cantos tão bem revestidos de latão! Hal e eu já nos havíamos machucado com ela antes, sobretudo no escuro, quando esquecíamos onde a coisa estava, mas nunca daquele jeito. Brincadeiras como aquela não eram do feitio de Hal, e tanto o coração quanto o tornozelo doíam quando me acomodei de novo na cama para me revirar e cochilar e sonhar e acordar sobressaltado até de manhã.
Hal era a gentileza em pessoa, mas continuou a insistir que estivera dormindo e que eu tinha balançado a noite toda, até que fiquei irritado de verdade.
– Essa brincadeira está indo longe demais – disse eu, por fim. – Não me importo com brincadeiras, mesmo quando machucam, mas há limites.
– Sim, há – disse ele, muito sério, e deixamos o assunto de lado.
Vários dias se passaram. Hal teve repetidos encontros com a donzela de cabelos dourados. Eu os via da rua. Mas, salvo por esses vislumbres amargos, esperei em vão.
Era difícil suportar, mais difícil até do que o crescente distanciamento entre nós dois, que me causava uma dor profunda. Creio que, no fundo, qualquer um de nós ficaria feliz em ir embora sozinho, mas nem ele nem eu estávamos dispostos a deixar o outro com o quarto, a cadeira e a bela desconhecida.
Voltando inesperadamente para casa, numa certa manhã, encontrei a senhoria de face inexpressiva arrumando os quartos e decidi causar-lhe uma boa impressão, sem qualquer motivo.
– É uma bela cadeira antiga que a senhora tem aí – disse eu, enquanto ela polia mecanicamente os cantos de latão com seu avental.
Ela olhou para o luzidio móvel escuro quase com uma ponta de orgulho.
– Sim, é uma bela cadeira! – disse .
– É antiga – insisti.
– Muito antiga – respondeu ela, lacônica.
– Eu achei que as cadeiras de balanço fossem uma invenção americana moderna – disse eu.
Ela me lançou um olhar apático.
– É espanhola – informou. – É tudo espanhol. Carvalho, couro, latão e...
Não entendi a última palavra dita pela mulher, que deixou o quarto sem dizer mais nada.
Aquela cadeira era estranha e desequilibrada, apesar de ser tão confortável sentar nela. As bases curvas sobre as quais se balançava eram longas e afiadas atrás, sempre à espreita dos incautos, mas curtas na frente, e o encosto era tão alto e tão pesado na parte de cima que, por conta do peso e da frente curta, ela caía para a frente com uma violência assombrosa.
Eu sabia disso por experiência própria, pois ela desabara por cima de mim em alguns de nossos frequentes encontros. Hal também tinha sido vitimado por ela. No entanto, apesar de nossas múltiplas contusões, nenhum de nós queria que a cadeira fosse retirada, uma vez que a garota sentava-se nela todo fim de tarde para balançar-se à luz dourada do sol poente.
Assim, toda tarde nós dois saíamos do trabalho o mais cedo possível e voltávamos correndo, separados e por diferentes caminhos, para a rua miserável e a adorada janela.
Eu não poderia suportar isso para sempre. Quando Hal chegava em casa primeiro, eu, demorando-me na rua lá embaixo, podia ver, através de nossa janela, aquela cabeça adorável e a dele, muito próximas. Quando eu chegava antes, conseguia às vezes um breve olhar vindo lá de cima, um sorriso enigmático, e nada mais. Invariavelmente ela não estava mais lá quando eu entrava no aposento, e a porta interna do meu quarto estava sempre trancada.
Às vezes eu até ouvia o ruído da fechadura e o roçar das vestes do outro lado. Houve ocasiões em que esta decepção diária, esta agonia constante da esperança adiada faziam com que eu caísse de joelhos diante da porta, implorando-lhe que a abrisse para mim, clamando-lhe com cada palavra de apaixonado carinho e de persuasão que o coração torturado de um homem poderia evocar.
Hal não mais me falava nem me olhava, agora, salvo por uma polidez premeditada e uma fria indiferença. E como poderia eu tratá-lo de modo diferente, com tantas provas de que era um mentiroso?
Eu o vi a partir da rua, certo fim de tarde, em plena luz do sol poente, sentado naquela cadeira, com a bela cabeça apoiada em seu ombro. Aquilo foi mais do que eu podia suportar. Se ele havia ganhado, e ganhado de forma tão completa, eu apenas pediria para falar com ela uma única vez, e diria adeus aos dois, para sempre. Assim, subi a escada com passos pesados, bati à porta com força e, quando Hal respondeu “Entre!”, assim o fiz. Encontrei-o sentado sozinho, fumando. Sim, fumando na cadeira na qual, momentos antes, ela também estivera!
Ele havia acabado de acender um charuto, um truque barato para iludir-me.
– Escute aqui, Hal – disse-lhe. – Não consigo mais aguentar isso. Posso pedir uma coisa? Deixe-me vê-la uma vez, apenas uma vez, para que eu possa dizer adeus, e então nenhum de vocês vai precisar me ver de novo!
Hal pôs-se de pé e olhou-me nos olhos. Então jogou o charuto inteiro pela janela e veio até mim, parando a meio metro de distância.
– Você está maluco? – perguntou. – Eu, pedir algo a ela? Jamais ouvi a voz dela! E você... – ele interrompeu-se e me deu as costas.
– E eu o quê? – agora eu queria ir até o fim e esclarecer tudo.
– E você a tem visto dia após dia, tem falado com ela... Não preciso repetir tudo que meus olhos viram!
– Não precisa, de fato – retruquei. – Seria levar longe demais suas invenções. Eu a vi neste quarto só uma vez, e foi apenas um vislumbre, ela não disse uma palavra. Mas eu a vi da rua várias vezes... com você.
Ele ficou muito pálido. Afastou-se de mim, indo para a janela, e então virou-se de novo.
– Eu nunca a vi neste quarto, sequer por um momento, como você diz que viu. Da rua, eu a vi várias vezes... com você!
Olhamos um para o outro.
– Está querendo me dizer... – perguntei-lhe devagar – que não acabei de ver você sentado naquela cadeira, diante daquela janela, com ela nos braços?
– Pare! – gritou ele, agitando o braço em um gesto violento.
Sua mão bateu com força no canto do encosto da cadeira. Ele limpou de forma mecânica o sangue que brotou do corte de três cantos, olhando-me fixamente.
– Eu vi você – repeti .
– Não viu! – ele rebateu.
Virei-me lentamente e entrei em meu quarto. Não podia suportar dizer àquele homem, que era mais do que um irmão, que ele estava mentindo.
Sentei em minha cama, com a cabeça entre as mãos, e dali a pouco ouvi a porta de Hal abrir-se e fechar, ouvi seus passos na escada e a porta da frente batendo quando ele saiu. Ele partiu; para onde, eu não sabia, e se estivesse indo para sua morte, e uma palavra minha fosse capaz de impedi-la, eu não a teria dito. Não sei quanto tempo fiquei ali sentado, na companhia de um amor impossível, do ciúme e do ódio.
De repente, no silêncio do quarto vazio, soaram os rangidos regulares da grande cadeira balançando. Talvez... Devia ser! Pulei em pé e, sem fazer nenhum ruído, abri a porta. Lá estava ela, sentada diante da janela, olhando para fora, e... Sim, ela lançou um beijo para alguém que estava lá embaixo. Ah, como era bela! Tão bela! Dei um passo em sua direção. Estendi as mãos e disse não sei o quê. Na mesma hora, ouvi os passos rápidos de Hal subindo a escada.
Ela também ouviu e, lançando-me um olhar sutil, misterioso e triunfante, passou por mim e foi para o meu quarto, no mesmo instante em que Hal entrou pela porta. Ele a viu sair do quarto. Veio direto para mim, e achei que iria me bater, naquele exato momento e lugar.
– Saia da frente! – ele gritou. – Vou falar com ela. Não é suficiente que eu veja? – ele apontou a janela com a mão ferida. – Deixe-me passar!
– Ela não está aí dentro – respondi. – Ela passou para o quarto vizinho.
Um riso leve soou perto de nós, um riso suave, delicado e cristalino, quase junto a meu ombro.
Hal empurrou-me para fora de seu caminho, escancarou a porta e entrou em meu quarto. O cômodo estava vazio.
– Onde você a escondeu? – indagou.
Apontei com frieza para a outra porta.
– Então quer dizer que o quarto dela tem uma porta de comunicação com o seu, não é? – ele murmurou, com um sorriso ácido. – Não admira que você preferisse a “vista”! Talvez eu também possa abri-la?
E pousou a mão sobre a maçaneta.
Eu dei um sorriso, pois a amarga experiência havia me ensinado que aquela porta estava sempre trancada, mesmo com todas as minhas preces e súplicas. Ele que se ajoelhasse ali, como eu fizera. Mas a porta se abriu sob sua mão! Corri para junto dele, e juntos olhamos... para um closet, sessenta centímetros por um metro e vinte, tão vazio e apertado quanto um caixão desocupado!
Ele virou-se para mim, tão lívido de fúria quanto eu estava de terror. Eu não estava pensando nele.
– O que você fez com ela? – ele gritou. E então, cheio de desprezo: – Eu devia parar de fazer perguntas a um mentiroso!
Não lhe fiz caso, mas voltei para o outro quarto, onde a grande cadeira balançava diante da janela.
Ele me seguiu – furioso com a decepção – e colocou a mão sobre o encosto que se movia; os dedos fortes apertando-o até as unhas ficarem brancas.
– Você vai embora daqui? – disse ele .
– Não – eu respondi.
– Não vou mais viver com um mentiroso e traidor – ele afirmou.
– Então vai ter de se matar – disse eu.
Vociferando uma imprecação, ele saltou sobre mim, mas tropeçou na longa base da cadeira e desabou no chão.
Uma onda de ódio tão forte ergueu-se em meu coração que eu poderia tê-lo pisoteado ali onde ele havia caído, matando-o como a um cão. Com um esforço tremendo, porém, virei-lhe as costas e saí do quarto.
Quando voltei, o dia já havia clareado. Era cedo, e o sol ainda não havia surgido, mas a luz já banhava telhados e paredes e ruas. Parei no piso térreo para encontrar a senhoria e comunicar-lhe minha partida imediata. Porta após porta, bati, testei e abri. Aposento após aposento, entrei e vasculhei tudo. Em toda a casa, do porão ao sótão, não havia qualquer aposento mobiliado, salvo os nossos, e nenhum sinal de ocupação humana. Poeira, poeira e teias de aranha por toda parte. Nada mais.
Com um estranho aperto no coração, fui até nossa própria porta.
Tive certeza de haver ouvido, lá dentro, os passos lentos e regulares de nossa senhoria, e aquele riso suave, baixinho. Precipitei-me para dentro.
O aposento estava privado de qualquer vida; ambos os quartos estavam totalmente vazios.
Sim, vazios de qualquer vida. Pois, com o afeto de uma vida inteira aflorando em meu coração, corri até onde Hal jazia, sob a janela, e encontrei-o morto.
Morto, e de uma forma horrível. Três ferimentos pesados... a golpes. Três lacerações profundas, com três cantos... Coloquei-me de pé, num salto. Até a cadeira havia desaparecido!
De novo o riso sussurrado. Saí correndo desesperado daquela casa de horror.
Na rua, lancei um olhar trêmulo para a janela fatídica.
O sol nascente dourava todos os telhados, e seus raios horizontais, batendo nas vidraças mais altas do edifício do outro lado da rua, refletiam-se de volta, com gloriosa tranquilidade, iluminando a grande cadeira diante da janela, a face suave, os olhos voltados para baixo e os cabelos dourados que balançavam para a frente e para trás.