O papel de parede amarelo e outros contos

Charlotte Perkins Gilman · Capítulo 6 de 9

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O papel de parede amarelo e outros contos

Quando fui uma bruxa (1910)

Quando fui uma bruxa

 

(1910)

 

Se eu tivesse compreendido os termos daquele contrato unilateral com Satã, o Tempo de Bruxaria teria durado mais, pode ter certeza. Mas como poderia eu saber? Apenas aconteceu, e nunca mais voltou a acontecer, embora eu tenha tentado recriar as condições preliminares, até onde seria possível controlá-las.

Tudo começou de repente, à meia-noite de um dia de outubro. Era 30 de outubro, para ser exata. Depois de um dia inteiro de calor intenso, a noite estava abafada e trovejava muito. Não soprava uma brisa sequer, e toda a casa fervia, por causa daquela inexplicável propensão a acreditarmos que os aquecedores a vapor têm de funcionar por conta

própria quando não queremos 7 .

Fervendo de fúria e com a cabeça quente – e não por conta das condições climáticas ou da caldeira –, subi ao terraço no alto do prédio para arejar as ideias. É uma das vantagens de morar em um apartamento no último andar, você pode sair para dar uma volta sem precisar de um ascensorista!

Em Nova York, mesmo nas melhores circunstâncias, já há motivos de sobra para perder a paciência, e naquele dia em particular parece que todos ocorreram de uma vez, junto a mais alguns novos. Na noite anterior, os gatos e os cães haviam perturbado meu descanso, claro. Meu jornal matutino trouxe mais mentiras do que o normal, e o jornal de meu vizinho – que mais tarde, enquanto ia para o centro, vi mais bem exposto que o meu – estava mais indecente do que de costume. Meu creme não era creme, pois o ovo que usei era uma relíquia do passado. Meus guardanapos “novos” estavam nas últimas.

Sendo mulher, supõe-se que eu não deveria praguejar. Mas quando o motorneiro ignorou o sinal bem evidente que fiz, rindo enquanto seu bonde passava por mim, quando o guarda do metrô esperou até que eu estivesse quase pondo o pé a bordo e fechou a porta na minha cara, postando-se atrás dela muito tranquilo por alguns minutos até soar o sino, para garantir que continuasse fechada, desejei praguejar como um condutor de mulas.

Na volta foi pior. Os encontrões que as pessoas dão nas costas da gente, em meio à multidão! O brutamontes que empurra as pessoas para dentro ou joga-as para fora; os homens que fumam e cospem, ao arrepio das leis; as mulheres com chapéus de abas enormes e serrilhadas, penas

insolentes e alfinetes mortíferos 8 , que tornam a viagem muito mais confortável.

Bem, como disse, meu humor estava particularmente ruim, então subi ao terraço para arejar os pensamentos. Pesadas nuvens negras pairavam baixas por cima de mim, e os relâmpagos refulgiam ameaçadores, aqui e ali.

Uma gata preta faminta saiu de trás de uma chaminé e miou de forma lastimosa. Pobrezinha! Havia sido escaldada.

A rua estava tranquila, de acordo com os padrões de Nova York. Debrucei-me um pouco no parapeito e olhei, para um lado e para outro, as longas fileiras paralelas de luzes cintilantes. Um coche tardio aproximou-se; o cavalo estava tão exausto que mal conseguia manter a cabeça erguida.

Então o cocheiro fez uso de seu longo chicote, com a perícia resultante da experiência, marcando a barriga do pobre animal com um corte doloroso que me fez estremecer. O cavalo também estremeceu, infeliz criatura, e fez tilintar o arreio, esforçando-se para trotar.

Inclinei-me mais e fiquei observando aquele homem com um espírito de total antipatia.

– Desejo... – comecei, lentamente, e desejando do fundo do coração – que qualquer pessoa que golpear, ou de qualquer outra forma ferir um cavalo sem necessidade, sinta a dor causada... e que o cavalo não a sinta.

Não esperava nenhum resultado, mas de qualquer modo me fez bem proferir aquilo. Vi o homem erguer de novo o grande chicote e golpear com vontade. Vi quando ergueu as mãos para o alto, ouvi seu grito, mas em nenhum momento me perguntei o que lhe haveria acontecido.

A gata preta e magra, tímida mas confiante, esfregou-se em minha saia e miou.

– Pobre gatinha! – exclamei. – Pobre gatinha! Que lástima!

E pensei, compadecida, em todos os milhares de gatos famintos e acuados que se esgueiram e sofrem na cidade grande.

Mais tarde, quando tentei dormir, e em meio ao silêncio, ergueu-se a gritaria roufenha desses mesmos infelizes; minha piedade transmutou-se em dureza.

– Quantos tolos têm gatos nesta cidade! – resmunguei irritada.

Outro grito. Uma pausa. E um grito prolongado, torturando os ouvidos.

– Desejo... – exclamei – que todos os gatos da cidade estejam confortavelmente mortos!

Um silêncio repentino se fez e, em seu devido tempo, adormeci.

Tudo transcorreu razoavelmente bem na manhã seguinte, até que provei outro ovo. Eram, aliás, ovos bem caros.

– Não posso fazer nada! – disse minha irmã, que cuida da casa.

– Sei que você não pode – concordei. – Mas há quem possa. Desejo que as pessoas responsáveis tenham de comer seus ovos velhos, e que nunca mais comam nenhum bom até começarem a vender ovos de qualidade!

– Eles parariam de comer ovos, só isso – disse minha irmã. – E comeriam carne .

– Que comam! – respondi impulsiva. – A carne está tão ruim quanto os ovos! Faz tanto tempo que não vemos um bom frango fresco, que já esqueci que gosto tem!

– É a refrigeração – disse minha irmã. Ela tem temperamento pacífico. Eu não.

– Sim, a refrigeração! – retruquei. – Deveria ser uma bênção, e permitir o abastecimento em épocas de escassez, equalizar o abastecimento e baixar os preços. E o que faz? Monopoliza o mercado, eleva os preços durante todo o ano e deixa ruim toda a comida.

Minha fúria explodiu.

– Ah, se houvesse um jeito de atingi-los! – gritei. – A lei não os alcança. Devia haver uma maneira de amaldiçoá-los! Eu adoraria fazer isso. Desejo que toda essa gente odiosa que ganha dinheiro desse modo possa saborear sua carne ruim, seu peixe velho, seu leite estragado, seja o que for que comam. Sim, e que sintam os preços, assim como nós sentimos!

– Eles não sentem, você sabe. Eles são ricos – observou minha irmã.

– Eu sei – admiti contrariada. – Não há como atingi-los. Mas desejo que sintam. E desejo que saibam como as pessoas os odeiam, e que também sintam isso. Até corrigirem suas atitudes!

Estava indo para o escritório quando vi algo curioso. O condutor de uma carroça de lixo pegou seu cavalo pelo bocal do freio, puxando-o e sacudindo-o com violência. Espantou-me vê-lo levar as mãos a sua própria mandíbula, com um gemido, enquanto o cavalo de modo contemplativo lambia os beiços e olhava para o homem.

Este pareceu irritar-se com a expressão do cavalo e golpeou-o na cabeça, para logo em seguida massagear seu próprio cocuruto e praguejar perplexo, olhando ao redor para ver quem lhe havia golpeado. O cavalo avançou um passo, estendendo o focinho faminto para um balde de lixo cheio de folhas de repolho, e o homem, recobrando seu senso de proprietário, xingou-o e chutou-o nas costelas. Dessa vez, ele precisou sentar-se, pálido e enfraquecido. Assisti à cena com surpresa e prazer crescentes.

Uma carroça de transporte de mercadorias veio sacolejando pela rua, conduzida por um jovem valentão de cara fechada, pronto para a manhã de trabalho. Ele juntou as pontas das rédeas e desceu-as no lombo do cavalo com um estalo reverberante. Não foi o cavalo que reagiu, mas o próprio garoto, que soltou um berro!

Cheguei a um local em que muitos carroceiros trabalhavam transportando areia e brita. Uma paz estranha e silenciosa pairava sobre a cena onde normalmente o som dos chicotes e a visão de golpes brutais me faziam passar apressada. Os homens conversavam entre si e pareciam estar trocando notas. Era bom demais para ser verdade. Fiquei olhando admirada, à espera de meu bonde.

Ele veio veloz e feliz. Não estava cheio. Havia passado outro pouco antes, que eu perdera por estar olhando os cavalos. Atrás dele não havia mais nenhum à vista.

No entanto o homem de feições toscas que o conduzia passou reto, muito satisfeito, sem se deter, embora eu estivesse parada quase nos trilhos e sacudindo meu guarda-chuva.

Meu rosto ferveu de raiva.

– Desejo que você sinta o tapa que merece – disse eu, com ferocidade, acompanhando o bonde com os olhos. – Desejo que você sinta necessidade de parar, e voltar até aqui, e abrir a porta e pedir desculpas. Desejo que isso aconteça com todos vocês, toda vez que fizerem essa safadeza.

Para meu infinito espanto, o bonde parou e retrocedeu até que a porta dianteira estivesse diante de mim. O motorneiro abriu-a, com a mão no rosto.

– Mil desculpas, madame! – disse-me.

Entrei atordoada, assombrada. Seria isso mesmo? Seria possível que... que tudo o que eu desejasse se tornaria verdade? A ideia me assaltou, mas coloquei-a de lado com um sorriso de desprezo.

– Seria sorte demais – disse a mim mesma.

À minha frente, do outro lado do bonde, sentava-se uma mulher vestida com anáguas volumosas. Era de um tipo que particularmente eu odeio. Não tinha um corpo real de ossos e músculos, mas os contornos de salsichas amontoadas. Complacente, vestida de forma espalhafatosa, com peruca e apliques de cabelo, com o rosto empoado e perfume e flores e joias... e um cão.

Um pobre cãozinho, infeliz e artificial. Vivo, mas apenas por obra da insolência humana. Não era uma criatura real, feita por Deus. E esse cão usava roupas... e uma pulseira! Sua jaqueta justa tinha um bolso... e nele havia um lenço! Ele parecia doente e desolado.

Meditei sobre sua penosa situação, e a de todos os outros prisioneiros acorrentados, levando vidas antinaturais de celibato forçado, privados de sol, ar puro e do uso de suas patas; conduzidos a intervalos definidos, por empregados relutantes, para emporcalhar nossas ruas; alimentados demais, fazendo exercícios de menos, nervosos e doentes.

– E dizemos que os amamos! – murmurei para mim mesma, com amargura. – Não admira que ladrem e uivem e fiquem loucos. Não admira que tenham quase tantas doenças quanto nós! Desejo... – e então o pensamento que havia posto de lado ocorreu-me de novo. – Desejo que todos os cães infelizes nas cidades morram neste instante!

Fiquei observando o pequenino inválido de olhos tristes do outro lado do bonde. Ele deixou a cabeça pender e morreu. Ela só percebeu quando desembarcou, e fez um tremendo escândalo.

Os jornais vespertinos só falavam disso. Alguma pestilência súbita parecia ter atingido tanto cães quanto gatos. Manchetes vermelhas chamavam a atenção, e colunas inteiras traziam as lamentações de gente que havia perdido seus pets, descreviam os trabalhos repentinos do conselho de saúde e apresentavam entrevistas com médicos.

O dia todo, enquanto eu seguia a rotina do escritório, a estranha sensação deste novo poder confrontou a razão e o conhecimento comum. Fiz até alguns testes com “desejos” furtivos. Desejei que o cesto de lixo caísse, ou que o tinteiro se enchesse sozinho, mas nada.

Não levei a ideia a sério, até que vi os jornais e ouvi as pessoas contando histórias ainda piores.

O que decidi de imediato foi não contar nada a ninguém.

– Ninguém acreditaria se eu contasse – disse para mim mesma. – E não vou dar a eles essa chance. Consegui com gatos e cachorros, de qualquer modo. E cavalos.

Enquanto observava os cavalos trabalhando, naquela tarde, pensei em todo o sofrimento pelo qual passavam sem que soubéssemos, os estábulos urbanos superlotados, o ar ruim, a alimentação insuficiente e o desafio exaustivo dos pavimentos asfálticos em condições de chuva ou de neve. Decidi fazer mais um teste com os cavalos.

– Desejo... – disse, devagar e com cuidado, mas com uma intenção muito clara e decidida – que cada proprietário, tratador, contratante e condutor ou cavaleiro possa sentir o que o cavalo sente quando ele sofre em nossas mãos. Que sinta de forma penetrante e constante, até que a situação seja remediada.

Por algum tempo, não pude verificar o resultado desse experimento. Mas o efeito foi tão devastador que logo estava sendo amplamente comentado. E esta “nova onda de sentimento humano” logo elevou o status dos cavalos em nossa cidade. Também diminuiu seus números. As pessoas começaram a preferir carros motorizados, e isso foi algo muito bom.

Agora eu tinha certeza, mas guardei-a para mim. Comecei a fazer uma lista de minhas implicâncias favoritas, com uma sensação agradável de poder e prazer.

– Devo ser cuidadosa – disse a mim mesma. – Muito cuidadosa. E, acima de tudo, fazer com que a punição seja adequada ao crime.

A superlotação do metrô me veio à mente na sequência, tanto das pessoas que enchem os vagões por necessidade quanto das que as forçam a fazê-lo.

– Não devo punir ninguém por algo que não se possa evitar, mas só quando for por pura mesquinhez.

Então me recordei dos acionistas, mais distantes, e dos diretores, mais imediatos, dos funcionários proeminentes e dos empregados insolentes, e passei à ação.

– Devo fazer bom uso disto, enquanto durar. É uma responsabilidade e tanto, mas é muito divertido.

E desejei que toda pessoa responsável pela condição de nossos metrôs tivesse uma compulsão inexplicável para viajar nos trens para cima e para baixo, sem parar, durante os horários de pico.

Observei com grande interesse este experimento, mas não percebi grande diferença. Vi algumas pessoas mais bem-vestidas em meio à multidão, e nada mais. Assim, cheguei à conclusão de que a culpa era principalmente do público em geral, que enfrentava diariamente sua punição sem saber.

Aos guardas insolentes e aos bilheteiros desonestos que devolvem troco de menos, lentamente, quando você está com pressa e seu trem está na estação, desejei que sentissem a dor que suas vítimas gostariam de infligir-lhes, sem chegar a ferimentos físicos. Eles sentiram, suponho.

Então desejei o mesmo para todo tipo de companhias e de funcionários. A coisa deu certo, incrivelmente certo. Ocorreu um súbito renascimento de atitudes escrupulosas por todo o país. As diretorias, já tendo aborrecimentos suficientes por si mesmas, ainda por cima passaram a receber incontáveis comunicados dos acionistas, subitamente sensibilizados.

Em moinhos e fundições e ferrovias, as coisas começaram a entrar nos eixos. O país estava em polvorosa. Os jornais engordaram. As igrejas se empertigaram e tomaram para si os créditos. Fiquei indignada com isso e, depois de uma breve reflexão, desejei que cada ministro pregasse à sua congregação exatamente aquilo em que acreditava, bem como o que achava de seus fiéis.

No domingo seguinte, fui a seis estabelecimentos religiosos. Fiquei cerca de dez minutos em cada um, durante duas sessões. Foi muito divertido. Mil púlpitos ficaram vagos de imediato, foram preenchidos, vagaram, e assim por diante, semana a semana. Pessoas começaram a ir à igreja, homens em sua maioria – as mulheres não gostaram tanto da coisa. Elas sempre acharam que os ministros religiosos tinham por elas mais consideração do que agora parecia ser o caso.

Uma de minhas implicâncias mais antigas era com os funcionários do vagão-dormitório. Agora eu estava começando a pensar neles. Quantas vezes eu havia sorrido e aguentado, assim como milhares de outras pessoas, sujeitando-me a eles, impotente.

Pense em um trem, um meio de transporte comum, que você precisa usar. Você paga pelo seu transporte uma quantia considerável.

Aí, se deseja permanecer no vagão-dormitório durante o dia, eles cobram mais dois dólares e meio pelo privilégio de sentar ali, enquanto você já pagou por um assento quando comprou a passagem. Esse assento é agora vendido para outra pessoa – logo, é vendido duas vezes! Cinco dólares por vinte e quatro horas em um espaço de um metro e oitenta por noventa centímetros de noite e um assento de dia; vinte e quatro horas desses privilégios por carro são 120 dólares por dia pelo aluguel do carro, e os passageiros ainda têm de pagar ao carregador. São 43.800 dólares por ano.

É caro construir um vagão-dormitório, dizem eles. Também é caro construir hotéis, e eles não cobram tarifas tão absurdas. Bem, que poderia eu fazer para dar um jeito nisso? Nada poderia levar os dólares de volta para milhões de bolsos. Mas esse belo processo poderia ser interrompido naquele instante.

Assim, desejei que todas as pessoas que lucravam com esse esquema pudessem sentir uma vergonha tão intensa, que fariam uma retratação pública, com um pedido de desculpas, e, como uma restituição parcial, ofereceriam sua fortuna para promover a causa das ferrovias gratuitas!

Então me lembrei dos papagaios. Foi uma sorte, porque minha ira se inflamou novamente. Ela havia amainado enquanto eu tentava calcular responsabilidades e ajustar penalidades. Mas os papagaios! Qualquer pessoa que quisesse ter um papagaio deveria ir morar numa ilha a sós com seu interlocutor favorito!

Havia um papagaio enorme e gritador que morava em frente de casa, do outro lado da rua, e somava seus berros ásperos e inúteis a outros barulhos desagradáveis, porém mais necessários.

Uma tia minha também tinha um papagaio. Era uma pessoa rica e convencida, que fora filha única e tinha herdado sua fortuna.

Tio Joseph odiava a ave gritona, mas isso não fazia a mínima diferença para tia Mathilda.

Eu não gostava dessa tia, e nunca a visitava, pois não queria que pensasse que eu a estava bajulando por causa de seu dinheiro. No entanto, depois que fiz o desejo, fui até a casa dela à hora estabelecida para que minha maldição funcionasse. E esta funcionou, melhor do que eu esperava. Lá estavam o pobre tio Joe, parecendo mais magro e dócil do que nunca, e minha tia, como uma ameixa madura demais, com seus modos arrogantes.

– Deixe-me sair! – disse o louro, de repente. – Deixe-me sair para dar uma volta!

– Mas que esperto! – exclamou tia Mathilda. – Ele nunca disse isso antes.

Ela o deixou sair. Ele então voou até o lustre e pousou entre os cristais, a salvo.

– Que porca velha você é, Mathilda! – disse o papagaio.

Ela ficou em pé de um salto, naturalmente.

– Nascida uma porca, educada para ser uma porca... Uma porca por natureza e por educação – prosseguiu o papagaio. – Ninguém aguentaria você, se não fosse por seu dinheiro. Só esse seu marido, um sofredor de longa data. Ele também não aguentaria se não tivesse uma paciência de Jó.

– Veja como fala! – berrou tia Mathilda. – Desça daí! Venha cá!

O louro virou a cabeça de lado e sacudiu os cristais.

– Sente-se, Mathilda – disse, alegremente. – Você vai escutar. Você é gorda e sem graça e egoísta. Você é um estorvo para todos à sua volta. Você vai ter que me alimentar e cuidar de mim melhor do que nunca. E vai ter que me ouvir quando eu falar. Porca!

No dia seguinte, visitei outra pessoa que tinha um papagaio. Ela cobriu a gaiola com um pano quando cheguei.

– Tire isso! – disse o louro.

Ela tirou.

– Não quer vir para a outra sala? – perguntou-me ela, nervosa.

– Melhor ficar aqui! – exclamou o papagaio. – Sente-se e fique quieta!

Ela sentou-se e ficou quieta.

– Quase todo o seu cabelo é falso – disse o bonito louro. – E seus dentes. E sua silhueta. Você come demais. Você é preguiçosa. Devia fazer exercícios e aprender mais coisas. É melhor pedir desculpas a essa senhora por suas maledicências! Você tem que escutar.

O comércio de papagaios despencou depois daquele dia. Dizem que não há procura por eles. Mas as pessoas que já tinham papagaios ainda estão com eles. Papagaios vivem muito tempo.

Os chatos eram uma classe especial de seres aos quais eu devotava uma antipatia de longa data. Esfreguei as mãos e em seguida me dediquei a eles com este simples desejo: que cada pessoa entediada por eles lhes dissesse a pura verdade.

Havia um homem em especial que eu tinha em mente. Ele havia sido excluído de um clube muito agradável, por meio de votação dos sócios, mas continuava a frequentar o local. Não era membro, apenas o frequentava. E ninguém fazia nada com ele.

Depois disso, foi bem engraçado. Ele apareceu naquela mesma noite, em uma reunião, e quase todos os presentes lhe perguntaram por que ele estava ali.

– Você não é membro, sabe? – disseram. – Por que você insiste em se meter? Ninguém gosta de você.

Algumas pessoas eram um pouco mais tolerantes:

– Por que você não aprende a ter mais consideração pelos outros, e faz alguns amigos de verdade? Ter alguns amigos que apreciam suas visitas deve ser muito mais agradável do que ser uma perturbação da ordem pública.

De qualquer modo, ele desapareceu daquele clube.

Comecei a ficar muito convencida.

No ramo da alimentação, já era sentida uma melhora considerável, assim como nos transportes. Dia a dia, crescia a repercussão das reformas na imprensa, impulsionada pelos sofrimentos inéditos de todos aqueles que lucravam por meio da injustiça.

Os jornais prosperavam com tudo isso. E, enquanto eu lia os protestos inflamados de meu jornal abominável favorito, tive uma ideia literalmente brilhante.

Na manhã seguinte, fui cedo para o centro e observei os homens abrindo seus jornais. Meu jornal abominável era vergonhosamente popular, e naquela manhã mais do que nunca. Bem no alto estava impresso em letras douradas:

 

Todas as mentiras intencionais, em anúncios, editoriais, notícias ou qualquer outra coluna (num tom escarlate).

Todas as matérias maliciosas (carmesim).

Todos os equívocos por descuido ou ignorância (em rosa).

Tudo o que for do interesse pessoal direto do proprietário (verde-escuro).

Tudo o que for mera isca para vender o jornal (verde-claro).

Tudo o que for propaganda, primária ou secundária (marrom).

Todas as matérias sensacionalistas ou indecentes (amarelo).

Toda hipocrisia encomendada (roxo).

Diversão e entretenimento sadios e instrutivos (azul).

Notícias verdadeiras e necessárias e editoriais honestos (impressão normal).

 

Nunca se viu um jornal que se parecesse mais com uma colcha de retalhos. As vendas foram extraordinárias por alguns dias, mas declinaram logo. Os editores teriam impedido tudo, se pudessem. Mas os jornais pareciam normais quando saíam das impressoras. O esquema de cores explodia só para os leitores de verdade.

Deixei a coisa desse modo por cerca de uma semana, para a imensa alegria dos demais jornais. E então me voltei para todos eles de uma vez. A leitura dos jornais tornou-se muito interessante por algum tempo, mas logo o setor entrou em declínio. Os editores dos jornais não conseguiam continuar alimentando um mercado como aquele. O conteúdo em azul e em impressão normal aumentava de coluna a coluna e de página a página. Alguns jornais – pequenos, sem dúvida, mas reconfortantes – começaram a aparecer apenas em azul e preto.

Isso me manteve interessada e feliz por algum tempo. Tanto que me esqueci de ficar com raiva de outras coisas. Ocorreu uma grande mudança em todos os tipos de negócios, em consequência da mera impressão da verdade nos jornais. Começou a parecer que havíamos vivido em uma espécie de delírio, sem realmente conhecer os fatos a respeito de qualquer coisa. Tão logo passamos a conhecer os fatos de verdade, começamos a nos comportar de forma muito diferente, é claro.

O que de fato colocou um fim em minha diversão foram as mulheres. Sendo mulher, eu estava naturalmente interessada nelas, e podia ver algumas coisas com mais clareza do que os homens. Vi seu real poder, sua real dignidade, sua real responsabilidade no mundo. E o modo como elas se vestem e comportam-se costumava me deixar doida. Era como ver arcanjos jogando pega-varetas, ou cavalos de verdade sendo usados apenas como cavalinhos de balanço. Assim, decidi ir atrás delas.

Como fazer isso? O que mirar primeiro? Seus chapéus, horrendos, insanos e absurdos – é a primeira coisa em que se pensa. Suas roupas tolas e caras, seus colares e joias, sua infantilidade gananciosa – em sua maioria, das mulheres mantidas por homens ricos.

Então pensei em todas as outras mulheres, as verdadeiras, a vasta maioria, pacientemente fazendo os serviços domésticos, sem sequer receber pagamento por isso. Negligenciando as mais nobres tarefas da maternidade por conta dos afazeres do lar. A maior força da Terra, cegas, acorrentadas, incultas, presas à rotina diária. Pensei no que poderiam fazer, comparado com o que fazem, e meu coração se encheu com algo muito diferente da ira.

Então desejei, com toda a minha força, que as mulheres, todas elas, pudessem por fim concretizar a Condição Feminina. Seu poder e orgulho e lugar na vida. Que pudessem ver seu dever como mães do mundo – amar e cuidar de todos os viventes. Que pudessem ver seu dever para com os homens – escolher apenas os melhores, e então dar à luz e criar homens melhores. Que pudessem ver seu dever como seres humanos, e emergir para a vida plena, para o trabalho e a felicidade!

Parei, sem fôlego, com olhos brilhantes. Esperei trêmula as coisas acontecerem.

Nada aconteceu.

Pois, veja, a magia que recaíra sobre mim era magia negra. E o que eu desejava agora era magia branca.

Não funcionou absolutamente nada, e, o que foi pior, interrompeu todas as outras coisas que estavam funcionando tão bem.

Ah, se tivesse me ocorrido desejar que todas aquelas punições adoráveis fossem permanentes! Como eu queria ter feito mais, enquanto podia, e ter percebido o privilégio que me fora concedido quando fui uma bruxa!