O papel de parede amarelo e outros contos
A glicínia gigante (1891)
A glicínia gigante
(1891)
– Não mexa em minha trepadeira nova, menina! Veja! Já quebraste o raminho delicado que estava brotando. Jamais te dedica ao bordado ou a fiar com a roca, e nunca para quieta!
Os dedos nervosos vacilaram, fecharam-se ao redor de um pequeno crucifixo de cornalina que lhe pendia do pescoço e então descaíram desanimados.
– Dá-me meu bebê, mãe, e então ficarei quieta!
– Psiu, cala-te! Sua tola, pode haver alguém por perto! Vê, ali está seu pai, chegando neste exato momento! Vá para dentro, depressa!
Ela ergueu os olhos para a mãe; olhos cansados, que ainda assim guardavam, em suas profundezas sombrias, uma chama incerta e trêmula.
– Tu és mãe, e ainda assim não tens piedade de mim, que sou mãe, como tu? Dá-me meu bebê!
A voz dela elevou-se num gemido estranho e grave, interrompido pela mão de seu pai, que lhe tapou a boca.
– Atrevida! – ele vociferou entredentes. – Vá para o teu quarto, e que eu não lhe veja mais esta noite, ou mandarei que lhe prendam.
Diante disso, ela se foi, e uma serviçal de expressão severa a seguiu, voltando dali a instantes para entregar uma chave a sua patroa.
– Está tudo bem com ela... e com o bebê?
– Ela está tranquila, senhora Dwining, e vai passar bem a noite, pode ter certeza. O bebê é agitado demais, mas, fora isso, está muito bem em minhas mãos.
Os pais ficaram a sós no alpendre quadrado de dois andares e imponentes pilares, e a lua nascente projetou sombras tênues sobre as folhas novas que brotavam viçosas na trepadeira ao redor deles; sombras movediças, como dedos pequeninos que se estendiam por sobre as tábuas largas e pesadas do piso de carvalho.
– Ela cresce bem, esta trepadeira que trouxeste para mim no navio, meu marido.
– Sim – ele interrompeu com amargura. – Como também a vergonha que eu te trouxe! Se eu soubesse, teria preferido que o navio afundasse sob nossos pés, e que nossa filha se afogasse de uma vez, a viver para chegar aonde chegamos.
– És muito duro, Samuel, não temes pela vida dela? Ela sofre demais pelo bebê, e pelos verdes campos onde caminhar!
– Não, não temo – ele respondeu sombrio. – Ela já perdeu algo maior que a vida. E logo terá muito ar puro. O navio fica pronto amanhã, e retornaremos à Inglaterra. Lá ninguém sabe nada sobre a desonra que se abateu sobre nós, e se nesta cidade houver um bebê de filiação desconhecida, que será criado de modo decente... ora, não vai ser o primeiro. Ele será bem cuidado! E temos motivos de sobra para gratidão, já que o primo dela ainda está disposto a desposá-la.
– Contaste a ele?
– Sim! Pensas que eu seria capaz de lançar vergonha sobre a família de um homem desavisado? Ele sempre a desejou, mas ela não queria saber dele, a cabeça-dura! Agora terá pouca escolha.
– Mas ele a tratará com bondade, Samuel? Poderá ele...
– Bondade? Que nome dás ao gesto de tomar como esposa alguém como ela? Bondade! Quantos homens a tomariam, e ela teve essa sorte duas vezes? E, sendo da família, de muito bom grado ele esconderá para sempre essa vergonha.
– E se ela não o quiser? Ele é um homem grosseiro, e ela sempre o rejeitou.
– Estás louca, mulher? Ou ela se casa com ele antes de partirmos amanhã, ou vai ficar para sempre naquele quarto. A menina não é tão tola assim! Ele fará dela uma mulher honesta e salvará nossa família da vergonha total. Que outra esperança ela tem senão uma nova vida para encobrir a antiga? Que tenha um filho honestamente, já que quer tanto um bebê!
Ele percorreu o alpendre com passos pesados, até as tábuas soltas rangerem de novo, indo e vindo, os braços cruzados e uma expressão carrancuda por cima de sua boca mal-humorada.
Em meio à folhagem acima dele, as sombras desdenhosas dançavam sobre um rosto pálido em cujos olhos ardia um fogo devastador.
– Ah, George, que casa! Que casa adorável! Tenho certeza de que é assombrada! Vamos alugá-la e passar o verão aqui! Chamaremos Kate e Jack e Susy e Jim, claro, e nos divertiremos muito!
Os jovens maridos são indulgentes, mas ainda assim são obrigados a levar em conta os fatos.
– Minha querida, talvez ela não esteja disponível para alugar. E também pode não estar habitável.
– Com certeza há alguém tomando conta. Vou perguntar.
O grande portão central soltara-se das dobradiças enferrujadas, e haviam crescido árvores no longo caminho de entrada, mas uma trilha estreita dava pistas de uso constante, e por ela caminhou a senhora Jenny, seguida por seu obediente George. As janelas da frente da velha mansão estavam nuas, mas em uma ala nos fundos encontraram cortinas brancas e portas abertas. Do lado de fora, sob o luminoso sol de maio, uma mulher lavava roupa. Ela foi educada e cordial, e era evidente sua alegria por ter visitantes naquele lugar tão solitário. Disse achar que a casa poderia ser alugada, embora não tivesse certeza. Os herdeiros estavam na Europa, mas havia um advogado em Nova York que cuidava dos assuntos da propriedade.
Houve gente morando ali anos antes, mas não tinha sido em sua época. Ela e o marido pagavam o aluguel daquela parte da casa tomando conta do lugar. Não que tomassem muita conta, mas mantinham afastados os gatunos. A casa estava toda mobiliada, e era tudo muito antigo, mas encontrava-se em bom estado. E ela imaginou que, se eles alugassem o imóvel, poderia trabalhar para eles... Se ele quisesse!
Nunca um plano maluco funcionou com tanta facilidade. George conhecia o tal advogado de Nova York. O aluguel não era um absurdo. E a proximidade de uma estância à beira-mar de crescente popularidade tornava a propriedade ainda mais agradável como casa de veraneio.
Kate e Jack e Susy e Jim aceitaram alegremente o convite, e a lua de junho encontrou-os todos sentados no alpendre da frente.
Haviam explorado a casa de alto a baixo, do grande cômodo que havia no sótão, sem nada além de um berço frágil, ao poço que se abria no porão, desprovido de mureta e com uma corrente enferrujada que sumia na escuridão impenetrável lá embaixo. Exploraram toda a área externa da propriedade, outrora adornada com árvores e arbustos raros, mas agora tomada por um matagal sombrio e emaranhado.
Os pendões floridos dos velhos pés de lilás, laburno e espirea roçavam de leve as janelas do segundo andar. As plantas sobreviventes no jardim formavam grandes moitas descuidadas ou amplos canteiros disformes. Uma trepadeira enorme cobria toda a frente da casa. Era uma velha glicínia, cujo tronco, grande demais para ser chamado de caule, erguia-se em um dos cantos do alpendre, junto à escadaria de acesso. No passado, ele subira pelos pilares, mas estes tinham sido arrancados de seus lugares e eram sustentados, imóveis e impotentes, pelos ramos nodosos que os abraçavam com firmeza.
A glicínia fechava todo o segundo andar do alpendre com uma parede trançada de ramos e folhas e percorria o beiral, segurando a calha que no passado a sustentara. Ela sombreava todas as janelas com um verde pesado, e os ramos pendentes de flores perfumadas formavam uma onda arroxeada que ia do telhado ao chão.
– Vejam essa glicínia! – exclamou extasiada a senhora Jenny. – Só o fato de estarmos sentados debaixo desta folhagem já compensa o aluguel. Uma figueira, perto dela, seria totalmente supérflua e uma tremenda extravagância.
– Jenny exagera com essa glicínia – disse George –, porque ficou muito desapontada com os fantasmas. Logo de cara ela se convenceu de que havia assombrações na casa, mas não consegue encontrar nem mesmo uma história de fantasmas!
– É verdade – assentiu Jenny, pesarosa. – Interroguei a pobre senhora Pepperill durante três dias e não consegui tirar nada dela. Porém estou convencida de que existe uma história e que só precisamos encontrá-la. Não vão me dizer que uma casa como esta, com um jardim destes, e um porão como este, não é assombrada!
– Concordo com você – disse Jack. Ele era repórter em um jornal diário de Nova York e estava noivo da linda irmã de Jenny. – E, se não encontrarmos um fantasma de verdade, podem ter certeza de que vou inventar um. É uma oportunidade boa demais para deixar passar!
A linda irmã de Jenny, sentada a seu lado, ficou indignada.
– Você não vai fazer nada disso, Jack! Este lugar é mal-assombrado de verdade, e não vou deixar que você faça graça sobre ele. Veja aquele arvoredo ali no meio da grama alta, parece direitinho um vulto agachado, acuado!
– Para mim, parece uma mulher colhendo mirtilos – disse Jim, que era casado com a encantadora irmã de George.
– Cale-se, Jim – disse a jovem loira. – Eu concordo com Jenny e também acredito no fantasma dela. Que lugar! Dê só uma olhada nesse tronco enorme da glicínia, subindo pelos degraus da escada! Parece exatamente um corpo contorcendo-se... encolhido... suplicante!
– Sim, Susy, parece mesmo – respondeu Jim, contrito. – Olhe a cintura dele, tem mais ou menos dois metros, e toda retorcida! Que desperdício de bom material!
– Não sejam tão horríveis, meninos! Se não podem ser agradáveis, saiam daqui e vão fumar em algum lugar!
– Mas nós podemos ser agradáveis! E vamos ser! Vamos ser tão fantasmagóricos quanto vocês quiserem.
E de imediato começaram a ver tamanha abundância de manchas de sangue e vultos agachados que os mais deliciosos arrepios multiplicaram-se, e as jovens decidiram ir dormir, declarando que não conseguiriam sequer pregar o olho.
– Com certeza, todos nós vamos sonhar! – exclamou a senhora Jenny. – E amanhã de manhã deveremos contar nossos sonhos.
– Há outra certeza – disse George, segurando Susy quando esta tropeçou em uma tábua solta –, e é que vocês, criaturas irrequietas, devem usar a porta lateral até que eu mande consertar esta verdadeira Torre Eiffel disfarçada de pórtico, ou vamos ter de lidar com alguns fantasmas novos em folha. Encontramos uma tábua solta que parece a abertura de um alçapão, ampla o suficiente para engolir uma pessoa. Acho que o buraco chega até a China.
A manhã seguinte encontrou-os todos vivos e devorando um substancial café da manhã típico da Nova Inglaterra, ao som da sinfonia de serrotes e martelos que vinha do alpendre, onde carpinteiros de uma presteza miraculosa pareciam estar pondo tudo abaixo.
– Vamos ter de derrubar quase tudo – haviam dito. – As madeiras que essa planta enorme anda não arrancou estão todas podres. São só elas que mantêm a coisa toda em pé.
O que eles diziam fazia sentido, e, com um pedido da ansiosa senhora Jenny para que não danificassem a glicínia, receberam autorização para demolir e consertar tudo o que quisessem.
– E os fantasmas? – indagou Jack, depois de comer a quarta panqueca. – Topei com um deles, e isso tirou meu apetite!
A senhora Jenny emitiu um gritinho e deixou cair a faca e o garfo.
– Ah, eu também! Tive um sonho horrível... Bem, não foi exatamente um sonho, foi uma sensação. Havia me esquecido disso por completo!
– Deve ter sido horrível – comentou Jack, servindo-se de outra panqueca. – Conte-nos sobre essa sensação. Meu fantasma pode esperar.
– Até agora, me arrepio só de pensar – disse ela. – Acordei de repente com aquela sensação terrível, como se algo fosse acontecer, sabe? Eu estava totalmente acordada e ouvia o menor dos sons num raio de quilômetros, era a impressão que tinha. Há tantos barulhinhos estranhos no campo, por mais tranquilo que ele seja! Milhões de grilos e de coisas lá fora, e todo tipo de sussurro na folhagem das árvores! Não havia muito vento, e o luar que entrava pelas três grandes janelas do quarto formava três quadrados brancos no assoalho preto antigo, e aquelas folhas de glicínia parecidas com dedos, das quais falávamos ontem à noite, pareciam rastejar através deles. E... ah, meninas, sabem aquele poço horrível do porão?
Isso causou uma sensação muito gratificante, e Jenny prosseguiu animada:
– Bem, estava tudo terrivelmente quieto e, enquanto eu estava lá deitada, tentando não acordar George, ouvi, tão bem como se fosse dentro do quarto, aquela corrente velha lá de baixo rangendo e batendo nas pedras!
– Bravo! – exclamou Jack. – Isso é excelente! Vou colocar na edição de domingo!
– Fique quieto – atalhou Kate. – E o que era, Jenny? Você chegou a ver algo?
– Não, não vi, infelizmente. Mas naquela hora eu nem queria ver. Acordei George e fiz tanto escândalo que ele me deu brometo, e disse que iria ver o que era, e essa foi minha última lembrança dessa história, até que Jack me fez recordá-la. O brometo funcionou muito bem.
– Agora, Jack, fale-nos de seu fantasma – disse Jim. – Quem sabe as duas histórias se encaixam, de algum modo. Um fantasma com sede, eu
imagino; talvez tivessem a proibição1 aqui naquela época!
Jack dobrou o guardanapo e reclinou-se para trás, com seus modos mais solenes.
– O grande relógio de carrilhão estava soando a meia-noite... – começou.
– Não há nenhum relógio de carrilhão!
– Ah, quieto, Jim, você está estragando o clima! Era uma da manhã, então, segundo meu velho relógio de alarme.
– Waterbury! Não importa que horas eram!
– Bom, sério, acordei de repente, assim como nossa amada anfitriã, e tentei dormir de novo, mas não consegui. Também tive todas essas sensações de luar e de gafanhotos, como Jenny, e estava pensando se havia sido algo que comi no jantar quando meu fantasma apareceu, e tive certeza de que estava sonhando! Era o fantasma de uma mulher, e imagino que ela tenha sido jovem e atraente, mas todos aqueles vultos agachados e acuados de ontem à noite não me saíam da cabeça, e a pobre criatura se parecia com eles. Estava envolta em um xale, e tinha uma grande trouxa debaixo do braço... Ah, céus, estou estragando a história! Ela se movia como se estivesse com muita pressa e aterrorizada. Caminhou até uma grande cômoda e pareceu tirar coisas das gavetas. Quando se virou, o luar bateu em cheio em um pequeno crucifixo que ela trazia pendurado ao pescoço em uma correntinha de ouro. Eu o vi reluzindo enquanto ela deixava o quarto furtiva e silenciosa! Isso é tudo.
– Ah, Jack, não seja tão horrível! Sério que isso aconteceu? O que você acha que era?
– Não sou horrível por natureza, apenas profissionalmente. Aconteceu. E estou plenamente convencido de que era o legítimo e genuíno fantasma de uma criada de quarto cleptomaníaca fugitiva!
– Você é cruel, Jack! – exclamou Jenny. – Tirou todo o horror da história. Não sobrou um arrepio sequer em todos nós.
– Nove e meia da manhã não é uma boa hora para arrepios, com o sol brilhando e os carpinteiros lá fora! – atalhou George. – No entanto, se vocês não conseguem esperar até o cair da noite para ter arrepios, acho que posso fornecer-lhes um ou dois. Eu desci até o porão atrás do fantasma de Jenny!
Ergueu-se um coro deliciado de vozes femininas, e Jenny lançou a seu amo e senhor um olhar de gratidão genuína.
– Tudo bem estar deitado na cama e ver ou ouvir fantasmas – ele prosseguiu. – Contudo o jovem proprietário da mansão achou que podia haver algum gatuno na casa, ainda que, como um homem da medicina, tivesse constatado que sua esposa tivera uma crise nervosa. Depois que Jenny apagou, parti em uma viagem de descobertas. Nunca mais vou fazer isso, juro!
– Mas o que aconteceu?
– Ah, George!
– Peguei uma vela...
– Um bom alvo para os ladrões – murmurou Jack.
– ... e inspecionei toda a casa, descendo pouco a pouco na direção do porão e do poço.
– E...? – indagou Jack.
– Você pode rir. Mas aquele porão não tem graça nenhuma durante o dia, e uma vela lá embaixo durante a noite é mais ou menos tão
reconfortante quanto um vagalume na caverna Mammoth.2 Fui andando com a luz, tentando não cair prematuramente no poço. Logo cheguei a ele. Abaixei a luz e então vi, junto a meus pés... quase caí em cima dela, ou passei através, quem sabe... uma mulher, encurvada e enrolada em um xale! Ela estava segurando a corrente, e a vela iluminou suas mãos, brancas e finas, e um pequeno crucifixo pendurado no pescoço... como Jack descreveu! Não acredito em fantasmas, e oponho-me terminantemente à presença de pessoas desconhecidas na casa durante a noite. Assim, falei-lhe com certa rispidez. Ela pareceu não ouvir, então estendi a mão para agarrá-la... Depois, voltei aqui para cima!
– Por quê?
– O que aconteceu?
– O que houve?
– Bem, não aconteceu nada. Ela simplesmente sumiu! Pode ter sido a indigestão, é claro, mas, como médico, não aconselho ninguém a desfrutar de uma indigestão sozinho à meia-noite em um porão!
– Este é o fantasma mais interessante e itinerante e furtivo de que já ouvi falar! – disse Jack. – Em minha opinião, ela está escondendo uma pilha de canecas de prata e de joias no fundo daquele poço, e proponho que desçamos lá para ver.
– Ao fundo do poço, Jack?
– Ao fundo deste mistério. Vamos lá!
Houve aprovação unânime, e todas as cambraias limpinhas e botas bonitas foram galantemente escoltadas até o porão pelos cavalheiros, cujas piadas eram tão abundantes que muitas saíam meio forçadas.
O profundo e antigo porão era muito escuro, então tiveram de levar luzes, e o poço era tão lúgubre em seu negrume que as damas recuaram.
– Esse poço assusta até um fantasma. Acho que, às vezes, é melhor não revolver as águas profundas – comentou Jim.
– Existem verdades profundas que devemos trazer à luz – afirmou George. – Podem me ajudar com a corrente?
Jim esticou a corrente, George girou o guincho barulhento e Jack
ficou encarregado dos comentários 3 .
– Correntes e fantasmas, combinação perfeita4 – disse. – Parece que é difícil elevar esse espírito! Acho que ele chutou o balde quando desceu!
À medida que a corrente foi ficando mais leve e curta, um silêncio tenso cresceu entre eles. Quando por fim o balde apareceu, erguendo-se devagar através da água escura, os olhares ansiosos e meio relutantes fixaram-se nele, enquanto todos recuavam um pouco. Remexeram o conteúdo sombrio.
– Só tem água.
– Nada além de lama.
– Algo...
Esvaziaram o balde na terra escura, e então todas as moças subiram para respirar ar livre, para o sol que brilhava luminoso e cálido na frente da casa, onde era ouvido o som de serrotes e martelos e sentia-se o cheiro da madeira nova. Nada foi dito até que os homens se juntaram a elas, e então Jenny perguntou timidamente:
– Que idade você calcula que ele teria, George?
– Pelo menos um século – respondeu ele. – Aquela água tem propriedades preservativas. Há calcário nela... Ah... Você quer dizer?... Não mais que um mês. Era um bebê bem pequeno.
Fez-se outro silêncio depois disso, quebrado por um grito vindo da direção dos trabalhadores. Haviam removido o piso e as paredes laterais do velho alpendre, de modo que a luz do sol derramou-se sobre as pedras escuras do piso do porão. E lá, no abraço esmagador das raízes da grande glicínia, jaziam os ossos de uma mulher, de cujo pescoço ainda pendia uma pequenina cruz escarlate em uma fina corrente de ouro.