O papel de parede amarelo e outros contos

Charlotte Perkins Gilman · Capítulo 7 de 9

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O papel de parede amarelo e outros contos

Água antiga (1911)

Água antiga

 

(1911)

 

O lago era um espelho, à luz dourada do sol poente. Onde as longas sombras das margens florestadas se estendiam sobre suas águas, era escuro, insondável. Onde o pequeno penhasco erguia-se na margem oriental, seu reflexo luminoso mergulhava nas profundezas intermináveis.

Lentamente, uma canoa aproximou-se calma, cruzando a extensão dourada, impelida com rapidez e suavidade por braços experientes.

– Que força! Como é esplêndida! Tal qual uma valquíria!9 – exclamou o poeta, e a senhora Osgood ergueu um olhar agradecido para o vulto escuro.

– Não sabe o prazer que sinto quando fala desse modo! – disse ela, baixinho. – Também sinto essas coisas, mas não tenho o dom das palavras. E Ellen é prática demais.

– Ela não pode ser sua filha sem ter uma alma poética – respondeu ele, com um sorriso sóbrio.

– É o que espero, claro. Mas nunca tive a certeza! Quando era pequena, lia os poetas para ela, sempre. Mas ela não tinha interesse, a não ser que fossem o que chamava de “histórias poéticas”. E, assim que pôde escolher, ela preferiu a ciência.

– Há poesia ali – disse ele, com os olhos fixos nos braços morenos, agora mais próximos. – Veja sua postura! Os movimentos! São a própria alma da poesia... e o corpo! Aquele corpo é um poema!

A senhora Osgood observou a aproximação segura, o impulso decidido que fez a canoa cruzar as ondas e entrar na pequena garagem de barcos.

– Ellen é tão prática! – murmurou. – Ela sequer admite sua própria beleza.

– Ela ainda não despertou – sussurrou o poeta. – Está adormecida!

E os grandes olhos dele brilharam como que num espasmo de esperança.

– É também muito corajoso da parte dela – prosseguiu a mãe. – Ela na verdade não gosta da água, e força-se a andar de canoa. Acho que, no fundo, ela tem medo, mas não quer admitir isso. Oh, Ellen! Venha aqui, querida! Este é o senhor Pendexter. O Poeta.

Ellen estendeu a mão morena e fria, ainda um pouco úmida, depois que ela casualmente lavara as mãos na beira d’água. Mas ele a apertou calorosamente, expressando sua admiração quanto à habilidade dela com a canoa.

– Ah, não é nada – respondeu a garota. – A canoagem é muito fácil.

– Você me ensinaria? – ele perguntou. – Serei um aluno muito dedicado.

Ela examinou de alto a baixo o homem corpulento com um olhar de dúvida. Ele era grande o bastante, sem dúvida, e os braços e pernas robustos pareciam fortes. Mas faltavam-lhe o equilíbrio e a prontidão confiante que denotam experiência.

– Você não sabe remar? – perguntou-lhe.

– Perdoe minha ignorância, mas jamais estive em uma dessas graciosas e esguias embarcações. Ficaria muito feliz em tentar.

– O senhor Pendexter morou mais tempo na Europa do que nos Estados Unidos – atalhou sua mãe, às pressas. – Lembre-se, querida, de que nem todos os homens têm interesse por essas coisas. Estou certa de que, se o senhor quiser, minha filha lhe ensinará de muito bom grado, senhor Pendexter.

– Com certeza – disse Ellen. – Posso ensinar-lhe em duas aulas. Quer começar amanhã de manhã? Costumo sair bem cedo.

– Ficarei encantado – respondeu ele. – Saudaremos juntos o alvorecer.

– O amanhecer, querida, querida – sugeriu a mãe, com um sorriso de desculpas.

– Ah, sim – concordou a garota. – Eu sei o que é alvorecer, mamãe. O jantar está pronto?

– Estará assim que você se vestir – disse a mãe. – Coloque o vestido azul, querida. Aquele de tom mais claro.

– Tudo bem – disse Ellen subindo e correndo pela trilha com leveza.

– Bela! Bela! – ele murmurou, seguindo com os olhos a figura esbelta da moça. – Ah, madame. Como deve ser para a senhora ter uma filha como esta! Ver sua própria juventude, não mais do que um instante decorrido, repetindo-se diante de seus olhos!

E ele lançou um olhar de admiração à silhueta de sua anfitriã.

 

A senhora Osgood apareceu para jantar trajando um vestido um tanto clássico, os belos cabelos presos com uma faixa dourada, ao estilo bárbaro. Olhou satisfeita para a filha, que resplandecia como uma jovem

Juno 10 , em seu vestido azul vaporoso. Ellen tinha a beleza da mãe e a força do pai. Tinha o porte de uma rainha e o ar inconsequente e feliz de uma universitária saudável, o que de fato ela era.

O apetite dela era tão bom que a mãe quase receou que o poeta ficasse mal impressionado, mas logo observou que ele também demonstrava total aprovação quanto a sua obra-prima. Ellen também o observava, notando com franca reprovação como consumia em abundância doces e cremes, e a forma excessiva como parecia apreciar o café e os licores.

– Ellen nunca toma café – explicou a senhora Osgood, quando se sentaram na luxuosa sala de estar. – Ela está planejando algum treinamento, creio.

– Mãe! Eu estou treinando! – protestou a garota. – Não oficialmente, porque não há nenhuma corrida programada. Mas gosto de me manter

em forma. Sou voga11 na equipe de remo da universidade, senhor Pindexter.

– Pendexter, querida – sussurrou-lhe a mãe.

O homenzarrão pegou sua segunda xícara de café e sentou-se junto à garota.

– Não tenho palavras para expressar o quanto admiro isso – disse,

inclinando-se para diante. – Você é como Nausícaa...12 13 como Atalanta... Como as mulheres de meus sonhos!

Ela não desgostou da admiração declarada dele, pois até garotas atléticas apreciam elogios, mas se sentiu desconfortável.

– Não acredito em sonhos – respondeu.

– De fato, não se deve acreditar neles – ele concordou. – Ainda assim... Você nunca teve um sonho que a perseguiu, um sonho recorrente?

– Já tive sonhos ruins – ela admitiu. – Pesadelos horríveis. Mas nunca tive o mesmo sonho duas vezes.

– Com que você sonha nesses seus pesadelos horríveis?

– Sonho com grandes animais – ela respondeu de imediato. – Animais que me atacam. E então eu fujo e fujo... Argh!

A senhora Osgood bebericou seu café enquanto observava os dois. Não havia um jovem poeta mais promissor do que este. Ele representava tudo pelo que ela ansiara quando era menina. Tudo o que o homem com quem se casara, o dono extremamente próspero de um moinho, fora incapaz de lhe dar. Se a filha pudesse ter o que ela não tivera...

– Dizem que esses sonhos vêm de nosso passado distante – ela sugeriu. – Concorda com isso, senhor Pendexter?

– Sim, concordo. Creio que eles vêm das raízes de nossa infância. De uma longa era de medo e dor, já soterrada pelo passado.

– E quando temos aquela estranha sensação de já ter estado antes em um lugar? Não seria a mesma coisa?

– Não se sabe – respondeu o poeta. – Há quem diga que essa sensação decorre de um atraso momentâneo da ação de uma das metades do cérebro. Não posso afirmar. Para mim, é mais misterioso e mais interessante pensar que, quando temos essa maravilhosa sensação repentina de familiaridade anterior, estamos lidando com lembranças indistintas de uma existência anterior. Já teve essa sensação, senhorita Osgood?

A garota riu sem qualquer constrangimento e respondeu:

– Já senti isso com relação a uma coisa bem específica. É por isso que tenho medo de água.

– Medo de água! Você! Uma deusa das águas!

– Claro, eu não alimento esse medo. Mas a única coisa que me deixa nervosa, desde criança, é a água. Ela me provoca uma sensação horrível!

Ela estremeceu de leve e perguntou se ele gostaria de ouvir um pouco de música.

– Ah, você também toca?

Ela riu divertida.

– Só a pianola...14 ou outra máquina. Posso começar?

– Espere só um minuto – ele pediu. – Fale-me, por gentileza, desse sonho tão terrível. Estou muito interessado.

– Ah, é pouca coisa. Não é um sonho, na verdade, porque acontece quando estou acordada. Foram só duas ou três vezes. Uma vez, quando eu tinha dez ou onze anos, e um par de vezes desde então. É uma sensação de água... negra, parada, suave... por baixo de mim, muito profunda. E não consigo me afastar dela. Eu tento, e então alguma coisa me agarra... Argh!

Ela se levantou decidida e caminhou até o instrumento musical.

– Se esta é uma lembrança de meu passado, minha existência deve ter sido prematuramente interrompida por um primata enfurecido! De qualquer modo, não gosto de água, a menos que seja um oceano bravio. Que devo tocar?

 

Ele queria levantar-se ao nascer do sol na manhã seguinte, mas não conseguiu acordar. E, quando olhou pela janela, viu a canoa voltando rapidamente para casa, a tempo do café da manhã.

Ela riu dele por causa da preguiça, mas prometeu dar-lhe uma aula mais tarde, e ficou encantada ao descobrir que ele jogava tênis. Ele ficava elegante de calças brancas; na verdade, sua aparência era mais admirável que sua técnica, e a garota o derrotou tantas vezes que ele chegou muito perto de enfurecer-se.

A senhora Osgood observava-os deliciada nas ocasiões em que era adequado observar, e em outros momentos afastava-se, sob os mais diversos pretextos, deixando que ficassem a sós.

Ele lhe perguntou, reservadamente, se não seria pesado demais para a canoa, mas ela o tranquilizou.

– Ah, não, senhor Pendexter. É uma canoa especialmente larga, e tem câmaras de ar em sua estrutura. Ela não afunda. O pai de Ellen mandou fazer para ela. Ele mesmo é um homem corpulento e adora a canoagem.

Assim, o fornido poeta foi orientado a pisar com cuidado no centro da canoa e acomodar-se perto da proa.

Ficou muito contrariado por não poder ver sua bela instrutora, e propôs que trocassem de lugar.

– Não, de forma alguma! – foi a resposta. – Confiar a você o outro remo? Ainda não!

– Não poderia ao menos sentar-se de frente para ela? – sugeriu ele.

Ela gargalhou ao ouvir isso e disse que seria melhor ele aprender a remar antes de tentar fazê-lo de costas.

– Se quer olhar para mim, seria melhor arranjar outra canoa e tentar me seguir – ela acrescentou, sorrindo.

Diante disso, ele declarou que obedeceria cegamente a qualquer ordem.

Ele sentou-se no pequeno assento trançado da proa e arregaçou as mangas, como viu Ellen fazer. Ela lhe entregou o remo, mostrou-lhe como empunhá-lo e riu em silêncio quando as vigorosas remadas desviaram-nos para a direita ou para a esquerda, apesar dos esforços dela para estabilizar o curso.

– Não reme com tanta força! – exclamou ela. – Você é mais forte do que eu, e sua remada é tão afastada que me faz ir para os lados.

Com um pouco de paciência, ele dominou o suficiente aquela arte para ocupar de forma razoável a função de remador de proa, mas ela não confiava nele para ficar na popa; e nem todas as belezas do lago tranquilo consolavam-no por não poder vê-la. No entanto, refletiu ele, ela podia vê-lo. Quem sabe havia sido por isso que o pusera na frente! E, pensando nisso, aprumou mais o corpo.

Ela apreciou o corpo bem proporcionado dele, mas não aprovou sua falta de destreza, e sentiu uma real aversão pela densa pelagem negra que lhe cobria os braços e mãos.

Ele se cansou de andar de canoa. É impossível lançar olhares eloquentes tendo que olhar por cima do ombro, ou sequer proferir palavras doces. Isto é, não de modo a obter um bom efeito. No tênis, as vitórias dela eram tão constantes que ele também se cansou disso. Ela não gostava de golfe. Ele não tinha familiaridade com cavalos. E quanto ao carro, quando ela dirigia, as mãos e os olhos e toda a atenção voltavam-se para o veículo. Então ele implorou-lhe que caminhassem.

– Deve haver caminhos adoráveis nestas florestas – disse ele. – Reconheço minha inferioridade em muitos aspectos. Mas posso caminhar!

– Tudo bem – concordou ela, animadamente, e percorreu com ele a região, caminhando de forma enérgica e incansável.

A mãe dela observava-os ofegante. Nutria uma incontida admiração por aquele homem de grandes olhos e voz de veludo, de lábios tão vermelhos sob o bigode macio. Ela achava que a poesia dele tinha uma nobreza e uma musicalidade além de qualquer medida. Ellen achava que não tinha serventia alguma.

– Para que ele quer ficar falando dessas lendas antigas? – protestou quando sua mãe tentou inspirar nela alguma admiração. – Não existem temas atuais suficientes sobre os quais escrever, sem ter de voltar para gente que de qualquer forma nunca existiu, pessoas que não passam de personagens de histórias de outras pessoas?

– Elas fazem parte do material poético mundial, minha querida. Folclore, mitos. São parte de nossas imagens universais.

– Bom, eu não gosto de poesia sobre imagens universais, só isso. São como múmias, requentadas e vestidas com roupas de gala!

– Você vai me desculpar – disse a mãe, com certa irritação. – Estamos sendo honrados com a visita de um de nossos maiores poetas, talvez o maior, e minha própria filha não tem sensibilidade suficiente para apreciar sua belíssima obra. Você é igualzinha a seu pai!

– Bem, não posso fazer nada. Não gosto dessas histórias velhas e bobas sobre pessoas que nunca fizeram nada de útil, e que não tinham nada na cabeça a não ser se apaixonar ou matar alguém. Não tinham juízo, não tinham coragem e não tinham decência!

A mãe tentou fazer com que ela reconhecesse algum mérito nos outros trabalhos dele.

– Não adianta, mamãe! Pode ficar com seu poeta e tirar dele toda a satisfação estética que quiser. Eu serei educada com ele, é claro. Mas não gosto da arte dele.

– Nem mesmo o “Lirismo do dia”, querida? E “A floresta”?

– Não, mãezinha, nem mesmo essas. Acho que ele nunca viu um nascer do sol. A não ser que tenha se levantado só para isso e parado de frente para ele, como se fosse uma câmera! E as florestas! Ora, ele não consegue distinguir uma árvore da outra!

A mãe quase perdeu as esperanças com ela, mas o poeta não foi desencorajado.

– Ah! Senhora Osgood! Posto que a senhora me honrou com sua confiança, não posso senão agradecer-lhe e tentar a sorte. É tão bela essa alma que está desabrochando... e que ainda não floresceu. Tão próxima... tão difícil! Mas quando suas róseas pétalas se abrirem...

No entanto, ele não confiou à senhora Osgood nada além desta suave e poética visão geral de algum tipo de interesse floral. Ele nada disse sobre a tempestade de paixão que crescia dentro de si. Uma paixão cuja intensidade ardente teria assustado aquela alma gentil, talvez a ponto de fazê-la duvidar da sensatez de sua escolha.

Ela permaneceu em um estado de emoção ansiosa, mas controlada. Pouco dizia a Ellen, para não correr o risco de alarmá-la, mas acalentava a esperança de que a garota encontrasse a felicidade junto àquela grande alma.

A grande alma, enquanto isso, continuava a tentar, lançando mão de todos os recursos que conhecia – e sua experiência não era pouca – para atingir o coração da ninfa corada e trigueira que estava a seu lado.

Ela era inexperiente e jovem. Sua indiferença era grande demais para que ela pudesse realmente compreender a tensão que o dominava, e muito menos para compadecer-se dele. Ao contrário, sentia um prazer maroto em provocá-lo, sem ter a consciência de estar lhe causando mal, do mesmo modo que uma criança travessa. Ela caçoava da maneira como ele jogava tênis, como remava e como conduzia o carro. Admitia que ele talvez jogasse bem o golfe, mas ela não tinha interesse nesse esporte, que achava lento demais. Ela zombava até das caminhadas dele.

– Ele não quer caminhar! – disse alegremente à sua mãe, certa noite durante o jantar. – Ele só quer ir a algum lugar, acomodar-se elegantemente

debaixo de uma árvore e ler para mim sobre Heloísa,15 16 ou Araminta, ou sei lá quem, todas esguias e brancas e sinuosas e de cabelos dourados, e contar como elas se mataram por amor!

Ela ria abertamente dele, e ele ria com ela. Mas o coração dele batia ardente e sombrio dentro do peito. Quanto mais ele a perseguia e falhava, mais feroz era seu desejo por ela. O amor dele já durava mais do que o costumeiro. Nunca antes suas investidas irresistíveis haviam sido aparadas e desviadas com tanta facilidade.

– Você daria uma volta comigo esta noite, depois do jantar? – ele propôs. – A lua está celestial... E não vou conseguir ler para você. O luar deve ser de uma rara beleza em seu lago, não é, senhora Osgood?

– De fato – ela concordou calorosamente com um olhar de desaprovação para a garota que ainda ria baixinho ao lembrar-se da loura Araminta. – Leve-o para passear pelo caminho do penhasco, Ellen, e tente ser ao menos um pouco apreciadora da beleza.

– Sim, mamãe – respondeu Ellen. – Serei boazinha.

Ela foi tão boazinha durante a caminhada ao luar, tão gentil e compreensiva, e tentou tão sinceramente encontrar algum ponto de concordância, que os sentimentos dele sobrepujaram a razão e ele tomou-lhe a mão, depositando nela um beijo. Ellen o empurrou para longe de si, atônita demais para conseguir dizer qualquer coisa.

– Ora, senhor Pendexter! Que acha que está fazendo?

Então ele abriu o coração para ela. Contou-lhe como a amava – loucamente, apaixonadamente, de forma irresistível. Suplicou-lhe que o ouvisse.

– Ah, minha jovem Diana!17 Não imagina como sofro! Você é tão jovem, tão fria! Sua beleza é celestial! Não seja cruel! Ouça-me! Diga que será minha esposa! Dê-me um beijo! Um único beijo!

Ela era jovem, e fria, e de uma crueldade ignorante. Ela riu dele, riu impiedosamente, e lhe virou as costas.

Ele a seguiu, o sangue latejando nas veias, a voz trêmula com a intensidade de suas emoções. Pegando-a pela mão, puxou-a de novo para si. Ela se libertou, soltando um gritinho, e correu. Ele foi atrás, ardente, enlouquecido. Alcançou-a, agarrou-a e segurou-a com firmeza.

– Você irá me amar! Sim, você me amará – exclamou.

As mãos deles estavam quentes e trêmulas, mas ele a segurou junto a si e virou o rosto dela para o seu.

– Não vou! – gritou ela, debatendo-se. – Solte-me! Odeio você, sabia? Odeio você! Você é... repugnante!

Ela o empurrou o mais longe que pôde.

Haviam chegado ao alto do pequeno penhasco que se erguia do lado oposto à casa. Imensos pinheiros negros debruçavam-se por cima deles, os grandes ramos balançando suavemente.

A água espraiava-se lá embaixo, nas sombras, serena e negra como óleo.

A garota baixou o olhar para a água escura e um tremor súbito percorreu seu corpo tenso. Ela soltou um gemido e escondeu o rosto nas mãos.

– Ah! – bradou ele. – É nosso destino! É nosso destino! Já passamos por isto antes! Morreremos juntos, se não podemos viver juntos!

Ele a prendeu contra si, beijou-a enlouquecido, apaixonadamente, e juntos caíram na água negra.

 

– Que sorte que sei nadar – disse Ellen, enquanto voltava às pressas para casa. – Mas ele não sabia. Pobre homem! Ah, pobre homem! Devia ser louco!