O papel de parede amarelo e outros contos
A porta não vigiada (1894)
A porta não vigiada
(1894)
Eu vivia tranquila em minha casa de mármore, e ninguém sabia o que existia sob ela, ou quem colocara aquilo ali. A casa era muito bela, eu sabia. Havia contratado os melhores arquitetos e construtores, os materiais eram de uma pureza imaculada, e cada tijolo custara uma fortuna. Ao redor dela as flores cresciam; flores coloridas e radiantes, em turbilhões de tons que pulsavam e avançavam até as paredes alvas, subindo pelos amplos degraus e invadindo o vívido veludo do gramado. Eu tinha flores não apenas nos canteiros exuberantes – o lugar onde construí a casa tinha um solo muito fértil –, mas também nas profusas trepadeiras que cobriam paredes e janelas e que pendiam do alpendre reluzente, com suas campânulas e seus botões carmesins.
As árvores ainda não estavam muito altas, e nem eram altas o suficiente para dar ao local o aspecto que eu desejava que tivesse. Algumas das árvores que plantei com grande expectativa logo morreram e ficaram ali entre as flores, secas e eretas. Mas não demorou até que também elas fossem cobertas pelas trepadeiras, seres incontroláveis que lançavam seus dedos rastejantes, de um delicado verde-claro, os quais se transformavam em mãos que agarravam e então em braços de cujos abraços somente a morte poderia libertar.
Minha casa estava repleta de coisas belas e curiosas, lembranças de eras passadas e de outras terras, e espécimes ou estranhas excrescências e bizarrices. Era uma coleção maravilhosa. No entanto o elemento mais estranho de todos, e que nem eu podia explicar, era um peculiar som grave que às vezes eu ouvia em meio a minhas curiosidades. Um som grave, sutil, irregular e pulsante.
Eu vivia lá com liberdade e nobreza, fruto de bons serviços e de respeito, mas eram poucos os amigos que frequentavam a casa e desfrutavam dela. Às vezes eu chegava a suspeitar de que sabiam o que existia sob a casa e quem havia colocado aquilo ali.
Certo dia, o príncipe daquelas terras chegou à casa, montado em seu cavalo, e encontrou-me cuidando das flores com apaixonada devoção. Eu cuidava delas como uma mãe cuida de seus filhos, e a satisfação me dominava quando o ar se enchia de dourados e carmesins e roxos e escarlates, com suas flores incontáveis. Nessas ocasiões minha casa aparentava felicidade.
O príncipe tinha interesse por minhas flores. Ele costumava apear do cavalo e postar-se no alpendre, apoiado ao pilar de pórfiro vermelho, enquanto observava meus dedos brancos desenroscarem as gavinhas enroladas, conduzindo-as para algum ponto dos elaborados entalhes que forneciam um apoio mais alto e mais firme. Eu queria que minha casa ficasse oculta pelas flores. Ele desejou então visitar seu interior, e convidei-o a entrar. Ele era muito bem-vindo a entrar e sair quando quisesse, e quando ele demonstrava interesse, eu lhe falava sobre as coisas curiosas ali guardadas. Eu as conhecia bem, sabia qual era sua procedência, o que eram e como haviam se tornado minhas, e somente minhas. Assim, olhei-o com olhos frios e respondi a todas as suas perguntas sobre o que havia na casa.
– É uma bela casa – disse-me. – E tem flores em abundância. Mas você... Você parece triste.
Então eu ri baixinho, para demonstrar que não era triste. De fato, não era melancolia o que eu sentia, pois vivia naquela casa tão bonita, entre rosas rubras e lírios suaves e espessos. O que eu sentia era somente um interesse pelo lugar e orgulho por ele. Pois ninguém tinha uma casa tão bela, tão sólida e tão bem construída como a minha, e tão coberta de beleza.
Contudo o príncipe insistiu em afirmar que eu era infeliz. Disse que parecia faltar algo em meio a toda aquela beleza e suavidade, e em minhas histórias sobre como reunira tantas coisas estranhas. Algumas dessas coisas, ele disse, pareciam pedir uma explicação diferente da que eu lhe dera, e pareciam pedir para pertencer à outra pessoa.
De repente, ele estendeu as mãos para mim, seus olhos profundos vasculhando os meus.
– Mostre-me seu coração – ele pediu.
Uma fraqueza semelhante à dor percorreu meu corpo ao ouvir tais palavras. A casa pareceu estremecer sob meus pés e, em meio ao silêncio imperioso, ouvi aquele som que não conseguia explicar entre os potes e os armários que nos rodeavam. Mas ergui a cabeça e sustentei com serenidade seu olhar, como se o visitante fosse apenas mais uma de minhas estranhas estatuetas; inspirei profundamente o aroma doce das guirlandas de jasmins que pendiam da janela mais próxima.
– Eu não tenho coração – respondi-lhe .
Ele se aproximou de mim com uma expressão de perplexidade e terror e pousou as mãos acima de meu cinturão, meu cinturão de prata polida, com seu curioso e intrincado fecho que ninguém além de mim conhecia. Entretanto ele não sentiu nada, nada, e eu ri baixinho da angústia que transpareceu por seus olhos.
Então ele olhou novamente para o armário a seu lado e parecia estar contando algumas das coisas que ali estavam. Tentei desviar sua atenção com minha explicação costumeira, mas ele não me deu ouvidos. Uma guirlanda de rosas murchas em um canto escuro do móvel pareceu reavivar seu interesse, pois de súbito ele se virou para mim e perguntou:
– Onde está seu coração? O que fez com ele?
Estremeci diante dele, pois estávamos sozinhos e o crepúsculo caía pesado e perfumado. Seus olhos, porém, ardiam de forma inabalável, e ele agarrou-me pelos pulsos e me empurrou de encontro à parede.
– O que fez com seu coração? – repetiu.
Então uma dor terrível percorreu-me o corpo, em todos os lugares vazios, e joguei a cabeça para trás, num riso longo e sonoro, uma gargalhada louca, irrefreável.
De que adiantavam a fúria e a persistência dele? Ele jamais conseguiria obter o que queria.
– Se faz questão de saber, meu coração está morto – disse-lhe. – Totalmente morto. Ele morreu faz muitos anos.
– Tem certeza de que está morto? – perguntou com uma ternura profunda e penetrante que me fez estremecer. – Sabe-se que os corações podem passar muito tempo como se estivessem mortos. Mas eles revivem quando alguém surge para tocá-los. Deixe-me ver seu coração. Deixe-me tocá-lo.
Afastei sua mão e dei um sorriso frio e cruel.
– Meu coração está de fato morto – respondi. – Para ter certeza, fiz penetrar ainda mais fundo cada golpe que o matou. Selei-o com linho e o envolvi com chumbo. Depositei-o em um caixão de pedra, um monólito, e o atei com ferro. Enterrei-o sob sete criptas e construí esta bela casa sobre ele; minha bela e luminosa casa, onde as flores crescem indomáveis.
– Por que construiu a casa sobre a sepultura? – indagou ele.
– Para que ninguém saiba que existe uma sepultura – respondi com frieza.
– E você vigiou a porta?
– Vigiar a porta! – exclamei, levando a mão a meu peito frio. – Vigiar a porta de uma sepultura? E por que deveria? Uma sepultura não é uma prisão!
Mas um pensamento horrível me ocorreu ao dizer isso e, soltando-me das mãos dele, desci correndo as escadas que conduziam lá para baixo.
Ele me seguiu ansioso, sua espada chocando-se contra os degraus largos e úmidos sobre os quais durante tanto tempo som algum ressoara.
Tentei trancar as portas atrás de mim, mas ele sempre detinha minha mão a tempo e passava por elas a meu lado.
No início, achei ter ouvido novamente o som grave que ouvia lá em cima, mas agora ele havia cessado por completo, e quando me virei para encarar o visitante, diante da última porta, com minha face lívida de terror, não havia o menor vestígio de som, nenhum sinal de movimento em canto algum.
– Ah, vá embora! – gemi. – Vá embora já e deixe-me ir olhar. Você não verá... não tocará... Oh, meu coração! Meu coraçãozinho que morreu há tanto tempo! Afaste-se de mim, você me tortura... Estou lhe dizendo que meu coração está morto!
Mas seu olhar fixo não se desviou.
– Abra a porta – ele disse .
Então abri a porta. Estava escuro lá dentro, até que nossas lamparinas bruxuleantes penetraram com sua luz tênue a penumbra gélida. O grande sarcófago erguia-se negro e sombrio no centro do aposento. Sobre ele pairava o odor de flores há muito mortas. Mas o que era aquilo... aquela coisa pequenina que de repente deu um salto e correu em nossa direção com olhos sobrenaturais que nos fitavam, passou por cima de nós como uma fera em fuga, subiu as escadas reverberantes e saiu para a noite perfumada e suave com pulos alucinados e gritos hesitantes e desatinados? Meu coração estava louco.