O papel de parede amarelo e outros contos
O papel de parede amarelo (1892)
O papel de parede amarelo
(1892)
É muito raro pessoas tão comuns quanto John e eu conseguirem alugar um casarão antigo para passar o verão.
Uma mansão colonial, uma propriedade passada como herança de uma geração a outra, quem sabe até uma casa mal-assombrada, e isso seria o máximo da felicidade romântica. Mas já seria pedir demais do destino!
Ainda assim posso dizer, com convicção, que existe algo muito esquisito quanto a ela.
De outro modo, por que o aluguel seria tão barato? E por que permaneceu desabitada por tanto tempo?
John ri de mim, é claro, mas isso é o que se espera em um casamento.
John é extremamente prático. Não tem a menor paciência com questões de fé, nutre um horror intenso à superstição e despreza abertamente qualquer referência a coisas que não podem ser sentidas, vistas e descritas em números.
John é médico, e talvez – eu não diria isso a pessoa alguma, claro, mas este é um mero papel inerte, e um tremendo alívio para minha mente –, talvez seja este o motivo pelo qual não me restabeleço mais depressa.
Sabe, ele não acredita que eu esteja doente!
E o que se há de fazer?
Se um médico afamado, que também é seu próprio marido, garante aos amigos e à família que não há nada de errado com você, exceto uma depressão nervosa temporária, uma certa tendência histérica, o que se há de fazer?
Meu irmão também é médico, também bastante respeitado, e diz a mesma coisa.
Assim, aceito os fosfatos ou fosfitos, o que seja, e os tônicos, e as viagens, e o ar puro, e os exercícios, e estou absolutamente proibida de “trabalhar” até me sentir bem de novo.
Pessoalmente, discordo das ideias deles.
Pessoalmente, creio que um trabalho agradável, que fosse interessante e diferente, me faria bem.
Mas o que se há de fazer?
Durante algum tempo escrevi, contra a vontade deles. Mas acho muito cansativo ter de disfarçar o tempo todo, sob o risco de enfrentar uma forte oposição.
Às vezes fico pensando se, em minha condição, eu não tivesse tanta oposição e tivesse mais companhia e estímulo... Mas John diz que a pior coisa que posso fazer é pensar em minha condição, e confesso que isso sempre faz com que eu me sinta mal.
Por isso vou mudar de assunto e falar da casa.
Que lugar bonito! É bem isolado e fica afastado da estrada, a uns cinco quilômetros de distância da vila. Faz-me pensar naquelas propriedades inglesas sobre as quais se lê nos livros, pois tem cercas vivas e muros e portões que podem ser trancados a chave, e muitas casinhas separadas, para jardineiros e empregados.
Há um jardim encantador! Nunca vi jardim igual, grande e sombreado, repleto de aleias margeadas por sebes aparadas e circundado por longos pergolados cobertos com videiras, debaixo das quais há bancos.
Também havia estufas, mas estão todas em ruínas agora.
Houve algum problema legal, creio, algo a ver com os herdeiros e coerdeiros. De qualquer modo, o lugar tem estado vazio há anos.
Receio que isso estrague a sensação fantasmagórica, mas não me importa. Há algo estranho na casa. Posso sentir.
Cheguei até a dizer isso a John em uma noite de luar, mas ele respondeu que havia sido uma corrente de ar o que eu sentira, e fechou a janela.
Às vezes sou dominada por uma raiva irracional contra John. Tenho certeza de que nunca fui tão sensível. Acho que é devido a meu estado de nervos.
Mas John diz que, se me sentir assim, posso perder o autocontrole. Portanto, luto para me controlar, ao menos quando estou com ele, e isso me deixa muito cansada.
Não gosto nem um pouco de nosso quarto de dormir. Eu queria ficar num quarto do andar de baixo que dá para o alpendre, com rosas enfeitando a janela e cortinas antigas de chita, muito bonitas! Mas John não quis nem discutir.
Disse que o cômodo tinha uma única janela e era pequeno demais para duas camas, e que tampouco havia outro quarto contíguo que ele pudesse ocupar.
Ele é muito atencioso e carinhoso, e não me deixa fazer nada sem sua supervisão.
Tenho prescrições detalhadas para cada hora do dia. Ele cuida de tudo por mim, e sinto-me mesquinha e ingrata por não valorizar mais tudo o que ele faz.
John disse que viemos para esta casa só por minha causa, para que eu tivesse repouso total e todo o ar puro possível.
– Para se exercitar, você depende de suas forças, minha querida – disse ele. – E a alimentação depende muito do apetite. Mas o ar você inspira o tempo todo.
Assim, nós nos instalamos no quarto das crianças 5 , que fica no andar de cima da casa.
É um aposento grande e espaçoso, que ocupa quase todo o andar, com janelas que se abrem para todas as direções, bem ventilado e iluminado pelo sol. Eu diria que primeiro foi um quarto de criança, depois um salão de jogos e então um ginásio, pois as janelas têm grades, daquelas utilizadas para proteger crianças pequenas, e nas paredes há argolas e coisas assim.
A pintura e o papel de parede dão a impressão de que o lugar foi utilizado por uma escola para garotos. O papel de parede foi arrancado em grandes áreas ao redor da cabeceira de minha cama, mais ou menos até onde posso alcançar com as mãos, e também do outro lado do quarto, perto do assoalho. Em toda a minha vida, nunca vi papel de parede pior que este.
É uma dessas estampas espalhafatosas que se estendem para todos os lados e cometem todos os pecados artísticos possíveis.
É discreta o suficiente para confundir o olhar que tenta segui-la, e vistosa o bastante para causar uma irritação constante e instigar à sua análise. E se você acompanhar de uma certa distância as curvas oscilantes e pueris, de repente elas cometem suicídio, mergulhando em ângulos absurdos e autodestruindo-se em contradições inusitadas.
A cor é repulsiva, quase repugnante, um amarelo sujo e embaçado, desbotado de um modo estanho pela luz do sol em seu lento percurso.
Em alguns pontos é de um tom laranja sem graça, embora intenso, e em outros é de um tom sulfúreo doentio.
Não espanta que as crianças odiassem esse papel de parede! Eu também odiaria se tivesse que viver neste quarto por muito tempo.
John está vindo, e preciso guardar isto aqui. Ele detesta que eu escreva – uma palavra que seja.
Faz duas semanas que estamos aqui e, depois do primeiro dia, não tive mais vontade de escrever.
Estou agora sentada diante da janela, neste quarto horrendo, e não há nada que me impeça de escrever o quanto quiser, salvo a falta de forças.
John fica ausente o dia inteiro, e às vezes também passa a noite fora, quando está tratando de algum caso grave.
Fico aliviada por meu caso não ser grave!
Mas este problema dos nervos é muito deprimente.
John não sabe o quanto estou sofrendo. Ele sabe que não há um motivo para que eu sofra, e para ele isso já é o bastante.
É claro que são só os nervos. Mas me afeta de tal modo que não consigo cumprir de forma alguma minhas obrigações!
Queria muito poder ajudar John, propiciar-lhe tranquilidade e conforto, e cá estou, um verdadeiro peso morto!
Ninguém acreditaria no quanto preciso me esforçar para fazer o pouco de que sou capaz – vestir-me e conversar, e dar as ordens na casa.
Ainda bem que Mary cuida muito bem do bebê. Um bebê tão adorável!
Mas simplesmente não consigo ficar com ele, pois isso me deixa muito nervosa.
Acho que John nunca se sentiu nervoso em toda a sua vida. Ele ri de mim por causa deste papel de parede!
A princípio, ele pensou em trocar o papel de parede do quarto, mas depois disse que eu estava permitindo que aquilo me obcecasse, e que deixar-se dominar pelas fantasias é o pior que pode acontecer a um paciente que sofre dos nervos.
Ele disse que, depois que o papel de parede fosse trocado, eu me sentiria incomodada com aquela cama pesada, e depois com as grades das janelas, e depois com aquele portão no alto das escadas, e assim por diante.
– Você sabe que este lugar lhe faz bem – disse-me. – E francamente, querida, não quero fazer reformas em uma casa que alugamos por apenas três meses.
– Então vamos nos mudar lá para baixo – disse eu. – Há quartos muito bonitos no térreo.
Ele então me abraçou e me chamou de tolinha, e disse que desceria até o porão se eu lhe pedisse, e ainda o pintaria de branco.
Mas ele tem razão quanto às camas e janelas e essas coisas.
É o quarto mais amplo e confortável que alguém poderia desejar, e é claro que eu não seria tola a ponto de criar-lhe problemas por um simples capricho.
Na verdade, estou até começando a gostar deste grande quarto, exceto pelo papel horroroso.
Por uma das janelas posso ver o jardim, aqueles misteriosos pergolados de sombra tão densa, as flores exuberantes de uma outra época, e os arbustos e as árvores de galhos contorcidos.
Por outra, tenho uma vista adorável da baía e do pequeno ancoradouro particular que pertence à propriedade. Há uma bonita alameda sombreada que vai da casa ao ancoradouro. Sempre imagino ver pessoas andando pelos inúmeros caminhos e pergolados, mas John advertiu-me para jamais me deixar levar pela fantasia. Diz ele que, com a imaginação que tenho e com meu hábito de inventar histórias, este problema dos nervos com certeza vai provocar as fantasias mais extravagantes, e que portanto devo usar a força de vontade e o bom senso para refrear essa tendência. É o que tento fazer.
Às vezes, penso que, se pelo menos me sentisse bem e pudesse escrever um pouco, isso ajudaria colocar as ideias em ordem e me proporcionaria algum descanso.
Mas sempre fico cansada demais quando tento.
Desanima não ter ninguém para opinar sobre meu trabalho ou para acompanhá-lo. Quando estou bem, John diz que vamos convidar primo Henry e Julia para uma longa estada. Neste momento, porém, ele diz que por nada deste mundo ele permitiria que eu tivesse a companhia de pessoas que me deixam tão agitada.
Queria poder me recuperar mais depressa.
Mas não devo pensar nisso. Esta folha de papel me dá a impressão de saber a influência perniciosa que tem sobre mim!
Há um trecho que se repete no papel de parede, onde o desenho pende como um pescoço quebrado, e dois olhos esbugalhados e de cabeça para baixo nos olham fixamente.
Fico furiosa com sua impertinência e sua persistência. Para cima e para baixo e para o lado as linhas se espalham, e os olhos absurdos, que nunca piscam, estão por todo lado. Há um determinado ponto em que as duas faixas de papel não coincidem, e os pares de olhos repetem-se de cima a baixo, um deles mais alto que o outro.
Nunca vi tanta expressão em uma coisa inanimada, e todos nós sabemos quanta expressão as coisas podem ter! Quando criança, eu me deixava ficar na cama, observando as paredes vazias e os móveis tão normais, e conseguia divertir-me e aterrorizar-me muito mais do que a maioria das crianças em uma loja de brinquedos.
Lembro-me do modo bondoso como os puxadores de nossa grande cômoda antiga me olhavam, e havia uma grande cadeira maciça que sempre considerei minha amiga.
Eu costumava achar que, se algum outro móvel parecesse ameaçador, seria só me refugiar naquela cadeira e estaria segura.
Neste quarto, a única coisa errada com os móveis é que não combinam entre si, pois tivemos de trazê-los todos do andar de baixo. Acho que, quando transformaram o cômodo em salão de jogos, tiveram que tirar daqui tudo que havia antes, e não me admira que tenha sido necessário! Nunca vi estrago tão grande como o que as crianças fizeram aqui.
Como já disse, o papel de parede foi arrancado em vários lugares, embora ele esteja grudado à parede como unha e carne. Além de odiá-lo, as crianças deviam ser muito perseverantes.
Ainda, o assoalho está arranhado, esburacado e lascado, e até o reboco foi arrancado, aqui e ali. A cama enorme e pesada, única peça que já estava no quarto, parecia ter enfrentado alguma guerra.
Mas nada disso me incomoda, só mesmo o papel de parede.
A irmã de John está vindo. É uma garota tão adorável, e cuida tão bem de mim! Não posso permitir que ela me veja escrevendo.
É uma governanta perfeita e cheia de energia, e esta profissão é tudo o que ela deseja. Tenho certeza de que ela acredita que foi o fato de escrever o que me deixou doente.
Mas posso escrever enquanto ela está lá fora e posso avistá-la pelas janelas, bem distante da casa.
De uma das janelas contempla-se a estrada, uma via adorável, sombreada e sinuosa, e outra janela dá vista para o campo. Este é também adorável, repleto de olmos e de prados aveludados.
Este papel de parede tem uma espécie de estampa secundária por trás da principal, num tom diferente e particularmente irritante, pois só pode ser vista sob certo tipo de luz, e ainda assim sem muita nitidez.
No entanto, nos lugares onde não esmaeceu, e onde o sol bate de um certo ângulo, posso ver uma espécie de vulto estranho, insolente e disforme, que parece esgueirar-se por trás da estúpida e chamativa estampa da frente.
Lá vem a irmã de John, subindo as escadas!
Pois bem, o Quatro de Julho passou! As visitas se foram, e estou exausta. John achou que um pouco de companhia talvez fosse bom para mim, e minha mãe e Nellie e as crianças vieram ficar conosco por uma semana.
É claro que não fiz absolutamente nada. Jennie é quem cuida de tudo, agora.
Mas fiquei cansada do mesmo jeito.
John diz que, se eu não me recuperar mais depressa, no outono ele vai
me mandar para o doutor Weir Mitchell 6 .
Mas não quero ir, de jeito algum. Uma amiga minha foi tratada por ele e contou que ele é igual a John e a meu irmão, só que pior.
Além do mais, não é nada fácil fazer uma viagem tão longa .
Não acho que valha a pena tentar fazer qualquer coisa, e estou ficando mal-humorada e cheia de queixas.
Choro por qualquer coisa, e quase o tempo todo.
Claro, não choro na frente de John ou de outras pessoas, só quando estou sozinha.
Passo muito tempo sozinha agora. Com frequência, John é retido na cidade por pacientes em estado grave, e Jennie é compreensiva e me deixa sozinha quando lhe peço.
Assim, caminho um pouco pelo jardim ou por aquela alameda adorável, sento-me no alpendre sob as rosas e passo muito tempo aqui em cima deitada.
Estou realmente gostando cada vez mais deste quarto, apesar do papel de parede. Ou talvez seja por causa dele.
Ele não sai de minha mente!
Fico deitada aqui, nesta cama enorme, que não sai do lugar porque deve estar pregada ao assoalho, e meu olhar acompanha a estampa por horas a fio. Garanto que é tão bom quanto fazer ginástica. Começo pela parte de baixo, por exemplo, naquele canto ali onde o papel não foi danificado, e determino pela milésima vez que vou seguir essa estampa sem sentido até chegar a algo que pareça um final.
Conheço um pouco dos fundamentos de design, e sei que esta estampa não segue nenhum padrão de radiação, alternância, repetição, simetria e nem nada de que eu já tenha ouvido falar.
Ela se repete, claro, de uma faixa de papel a outra, e é só.
Olhando de forma a enxergar de forma independente cada faixa de papel, os floreios e curvas arredondadas – num estilo que poderia ser definido como “romanesco decadente” com delirium tremens – contorcem-se para cima e para baixo em colunas isoladas de fútil vaidade.
Por outro lado, porém, elas se conectam diagonalmente, e as silhuetas repetem-se em grandes ondas oblíquas de horror visual, como emaranhados de algas marinhas que rolam apressados, uns atrás dos outros.
A coisa toda também se estende horizontalmente, ou ao menos parece fazê-lo, e fico exausta tentando discernir o padrão que segue nessa direção.
Ainda por cima, uma faixa horizontal do mesmo papel de parede foi usada como friso, aumentando ainda mais todo o caos.
Há um canto do aposento que está quase intacto, e ali, quando esmaece a iluminação indireta e o sol baixo do crepúsculo bate direto no local, quase consigo imaginar, afinal, uma certa radiação. Os intermináveis ornamentos rebuscados parecem organizar-se ao redor do centro comum e precipitar-se em mergulhos de cabeça, igualmente confusos.
Cansa-me acompanhar o desenho. Vou tirar um cochilo, acho.
Não sei por que deveria escrever isto.
Não quero.
Não me sinto capaz.
E sei que John acharia um absurdo. Mas preciso expressar de algum modo o que sinto e penso, pois isso me alivia muito!
Contudo, o esforço parece estar ficando maior que o alívio .
Agora, passo metade do tempo na cama, com uma preguiça imensa.
John diz que não devo perder as forças, e me dá óleo de fígado de bacalhau e montes de tônicos e coisas assim, além da cerveja ale, do vinho e da carne malpassada.
Meu querido John! Ele me ama tanto, e odeia ver-me doente. Outro dia tentei ter uma conversa de verdade, franca e sensata com ele, e dizer-lhe o quanto gostaria que me deixasse ir visitar o primo Henry e Julia.
Mas ele disse que eu não estava em condições de ir, e que não ia aguentar ficar lá. Não consegui argumentar a meu favor, pois caí no choro antes de terminar.
Está difícil pensar com clareza, isso requer muito esforço. Devem ser os nervos.
Então John, tão solícito, tomou-me em seus braços, subiu as escadas comigo no colo e me colocou na cama. Sentando-se a meu lado, leu para mim até que minha cabeça ficou cansada.
Disse que eu era sua querida e seu conforto e tudo que ele tinha, e que eu devia me cuidar, por ele, e ficar boa.
Ele diz que ninguém, a não ser eu mesma, pode me ajudar a sair disto, que devo usar a força de vontade e o autocontrole e não me deixar levar por fantasias tolas.
Uma coisa me consola: o bebê está bem e feliz, e não precisa ficar neste quarto, com este papel de parede horroroso.
Se não estivéssemos neste cômodo, a pobre criança estaria aqui. Que sorte teve! Ah, por nada deste mundo eu deixaria que um filho meu, uma criaturinha sensível, ficasse num quarto como este.
Não tinha pensado nisso antes, mas no fim das contas é uma sorte que John tenha me deixado aqui. Veja bem, posso suportar este lugar muito melhor do que um bebê.
É claro que já não comento mais nada com eles, pois não sou boba. Porém continuo vigiando o papel de parede.
Há coisas nele que ninguém além de mim sabe e nunca saberá.
Por trás da estampa externa, os vultos indistintos ficam mais nítidos, dia após dia.
É sempre o mesmo vulto, só que muito numeroso.
E parece uma mulher curvada para diante, que rasteja por trás da estampa da frente. Não gosto nem um pouco disso. Fico imaginando... Começo a pensar... Queria que John me tirasse daqui!
É difícil falar com John sobre meu caso, porque ele sabe muita coisa, e porque me ama muito.
Mas na noite passada eu tentei.
Era uma noite de luar. A lua ilumina todo o quarto, exatamente como o sol durante o dia.
Às vezes, odeio vê-la. Ela se move muito devagar, e sempre está brilhando através de uma das janelas.
John estava dormindo, e eu não queria acordá-lo. Assim, continuei imóvel, observando o luar sobre o papel de parede ondulante, até sentir um sobressalto.
O vulto indistinto da mulher pareceu sacudir a estampa à sua frente, como se estivesse querendo sair.
Levantei-me em silêncio e fui tocar o papel e ver se ele tinha mesmo se movido. Quando voltei, John estava acordado.
– Que foi, garotinha? – disse ele. – Não saia andando por aí desse jeito, vai apanhar uma friagem.
Achei que seria um bom momento para conversar, e disse-lhe que este lugar não estava me fazendo melhorar, e que queria que ele me levasse embora daqui.
– Mas, meu amor, nosso aluguel só termina daqui a três semanas, e não vejo como ir embora antes – respondeu ele. – A reforma de nossa casa ainda não acabou, e não posso sair da cidade neste momento. Eu poderia, é claro, e o faria, se você estivesse correndo algum risco, mas você realmente está melhorando, querida, mesmo que não note. Sou médico, querida, e sei disso. Você está ganhando peso e ficando mais corada, e seu apetite está melhor. Estou bem mais tranquilo quanto a você, de verdade.
– Não ganhei nada de peso, e acho que até emagreci – protestei. – E meu apetite pode estar melhor de noite, quando você está aqui, mas piorou durante a manhã, quando você fica fora.
– Que Deus a abençoe! – exclamou ele, abraçando-me com força. –
Ela pode ficar tão doente quanto quiser! Mas agora vamos usar bem nosso tempo e voltar a dormir, e falaremos sobre isso pela manhã.
– E você vai ficar em casa? – perguntei contrariada.
– De que jeito, querida? Só mais três semanas, e então faremos uma linda viagem de alguns dias, enquanto Jennie arruma a casa para nos receber. Sério, querida, você está melhor!
– O corpo talvez esteja... – comecei, interrompendo-me quando ele sentou-se ereto e me fitou com uma expressão tão severa de reprovação que não consegui dizer mais nada.
– Meu amor – disse ele. – Eu lhe imploro, pelo meu bem e pelo bem de nosso filho, e também pelo seu, que você jamais, nem por um instante, deixe essa ideia entrar em sua cabeça! Não existe nada mais perigoso e mais fascinante para um temperamento como o seu. É uma tolice sem fundamento algum. Você não confia em mim, como médico, quando digo isso?
Então, é claro que não falei mais daquilo, e logo depois fomos dormir. Ele pensou que eu havia adormecido, mas fiquei acordada durante horas, tentando decidir se a estampa da frente e a de trás se moviam juntas ou separadas.
Numa estampa como esta, à luz do dia, percebe-se uma falta de continuidade, um desafio às normas que constitui uma irritação constante para uma mente normal.
A cor, indefinida e irritante, por si só já é horrível, mas a estampa é uma tortura.
Quando você acha que já a compreendeu, e consegue acompanhá-la por um bom trecho, de repente ela vira uma cambalhota para trás e pronto. Ela dá um tapa na sua cara, joga você no chão e sapateia em cima. É como um pesadelo.
A estampa externa é um arabesco florido que faz lembrar um fungo. Se você consegue imaginar cogumelos unidos uns aos outros, uma cadeia interminável de cogumelos, brotando e crescendo em infindáveis circunvoluções... Bom, é algo parecido com isso.
Quer dizer, às vezes!
Este papel tem uma particularidade notável, algo que só eu consigo perceber: ele muda conforme a luz.
Quando o sol surge através da janela de leste – sempre fico à espera do primeiro raio, longo e retilíneo –, o papel muda tão depressa que mal posso crer.
É por isso que eu o observo o tempo todo.
Ao luar – quando há lua, ela ilumina o quarto a noite toda –, eu poderia achar que se trata de outro papel.
De noite, sob qualquer tipo de iluminação, seja a do sol do crepúsculo, de velas, do lampião e, a pior de todas, da luz da lua, ele se transforma em grades! Ou melhor, a estampa externa se transforma, e a mulher que está por trás dela fica bem visível.
Por muito tempo não pude distinguir o que era a coisa que aparecia por trás – aquela estampa secundária pouco nítida –, mas agora tenho quase certeza de que é uma mulher.
Durante o dia ela permanece contida, quieta. Fico imaginando que é a estampa que a mantém tão tranquila. É muito intrigante. Isso me mantém quieta horas a fio.
Agora passo a maior parte do tempo deitada. John diz que é bom para mim, e que devo dormir o máximo possível.
Ele inclusive adquiriu o hábito de me fazer deitar por uma hora após cada refeição.
É um hábito muito ruim, tenho certeza, pois na verdade eu não durmo.
E isso alimenta a mentira, pois não conto a eles que fico acordada. Oh, não!
O fato é que estou ficando com um pouco de medo de John.
Ele às vezes parece muito estranho, e até Jennie está com uma aparência esquisita.
Ocasionalmente penso, apenas como hipótese científica, que talvez seja por causa do papel!
Tenho observado John quando ele não percebe que estou olhando, e, ao entrar no quarto de repente, sob os pretextos mais inocentes, várias vezes o encontrei olhando para o papel! E Jennie também. Uma vez eu a flagrei com a mão no papel de parede.
Ela não sabia que eu estava no quarto, e, quando lhe perguntei com voz bem tranquila, controlando-me ao máximo, o que estava fazendo, ela se virou como se tivesse sido pega roubando e pareceu muito brava. Perguntou por que eu precisava assustá-la daquela maneira.
Disse-me então que o papel manchava tudo que tocava, que ela havia encontrado manchas em todas as minhas roupas e nas roupas de John, e que gostaria que tomássemos mais cuidado.
Não soou bem inocente? Entretanto, sei que ela estava analisando a estampa, e estou decidida a não deixar que ninguém, além de mim, descubra nada!
A vida está muito mais emocionante agora do que costumava ser. Veja bem, tenho alguma coisa pela qual esperar, pela qual ansiar, para observar. Alimento-me melhor e estou mais tranquila do que antes.
John está tão satisfeito por perceber minha melhora! Um dia desses, ele riu e disse que eu parecia estar vicejando, apesar de meu papel de parede.
Respondi com uma risada. Não tenho intenção de contar-lhe que é justamente por causa do papel de parede. Ele iria rir de mim. Poderia até querer me levar embora.
Agora não quero sair desta casa antes de descobrir tudo. Tenho mais uma semana, e acho que será suficiente.
Sinto-me bem melhor. Não durmo bastante à noite, porque é muito interessante acompanhar os acontecimentos. Porém durmo bastante de dia.
Durante o dia, tudo é cansativo e desconcertante.
Sempre surgem brotos novos nos fungos, e novos tons de amarelo aparecem por todo lado. Não dou conta de acompanhar todas as mudanças, embora tenha tentado com afinco.
O amarelo desse papel de parede é estranho demais! Ele me faz pensar em todas as coisas amarelas que já vi. Não as coisas belas, como flores silvestres, mas coisas amarelas velhas, ruins e podres.
Esse papel tem outra coisa que chama atenção. O cheiro! Eu o percebi assim que entramos no quarto, mas com ventilação e sol abundantes não era desagradável. Agora que tivemos uma semana de nevoeiros e de chuva, esse cheiro se faz presente, estejam as janelas abertas ou fechadas.
Ele se espalha por toda a casa.
Eu o encontro pairando na sala de jantar, esgueirando-se na sala de estar, escondendo-se no vestíbulo, à minha espera na escada.
Ele se impregna em meu cabelo.
Mesmo quando saio para andar a cavalo, se viro a cabeça de repente e o surpreendo, lá está esse cheiro!
E é um odor muito peculiar! Já passei horas analisando-o, tentando descobrir com que se parece.
Não é ruim, pelo menos no começo, e é muito suave, mas é de fato o cheiro mais sutil e mais persistente que já encontrei.
Neste tempo úmido, é horrível. Acordo no meio da noite e o encontro pairando sobre mim.
No início, esse cheiro me perturbava. Pensei seriamente em atear fogo à casa, para acabar com ele.
Entretanto agora me acostumei. A única coisa em que consigo pensar é que ele é igual à cor do papel. Um cheiro amarelo.
Há uma marca muito curiosa nas paredes, bem baixa, próxima ao rodapé. É uma faixa que dá a volta no quarto. Ela passa por trás de todos os móveis, exceto a cama; uma nódoa longa, reta e uniforme, onde o papel parece ter sido esfregado de novo e de novo.
Fico pensando como foi feita e por quem, e para que a fizeram. Ela dá voltas e voltas e voltas, voltas e voltas e mais voltas, e me deixa tonta!
Finalmente consegui descobrir algo.
Observando com atenção durante a noite, quando o papel muda tanto, finalmente descobri.
A estampa da frente de fato se move. E não é para menos, pois é a mulher que está por trás dela que a sacode!
Às vezes acho que há muitas mulheres ali atrás, e às vezes acho que é só uma, que dá voltas rastejando muito depressa, e cujo movimento sacode a estampa.
Nos lugares bem iluminados, ela se aquieta, e nos cantos escuros ela agarra as grades e as chacoalha com força.
E o tempo todo tenta atravessar a estampa. Mas ninguém consegue atravessá-la, porque ela estrangula quem tenta. Acho que é por isso que tem tantas cabeças.
Elas atravessam, são estranguladas pela estampa, e ela as pendura para baixo e deixa brancos os olhos.
Se as cabeças estivessem cobertas ou fossem arrancadas, não seria tão ruim.
Acho que a mulher sai durante o dia!
Aqui entre nós, vou lhe dizer por que acho isso. Eu a vejo!
Posso vê-la através de cada uma de minhas janelas.
É a mesma mulher; eu sei porque ela está sempre rastejando, e a maioria das mulheres não rasteja durante o dia.
Vejo-a na longa alameda sombreada, rastejando para cima e para baixo. Vejo-a nas sombrias pérgolas cobertas de videiras, rastejando ao redor do jardim.
Vejo-a rastejando pela longa estrada, à sombra das árvores, e quando alguma carruagem se aproxima, ela se esconde sob a ramagem das amoreiras silvestres.
Não a culpo nem um pouco por fazer isso. Deve ser humilhante demais ser pega rastejando em plena luz do dia!
Sempre tranco a porta quando rastejo de dia. Não posso fazer isso à noite, porque sei que John logo suspeitaria de algo.
E John anda tão estranho agora, que não quero irritá-lo. Gostaria que ele se mudasse para outro quarto! Além disso, não quero que ninguém além de mim tire a mulher de lá à noite.
Com frequência, pergunto-me se eu conseguiria vê-la lá fora por todas as janelas ao mesmo tempo.
No entanto, por mais rápido que me vire, só consigo vê-la por uma janela de cada vez.
E, embora eu sempre a veja, ela talvez seja capaz de rastejar mais depressa do que posso me virar!
Algumas vezes eu a vi ao longe, em campo aberto, rastejando tão rápido quanto a sombra de uma nuvem soprada por um vento forte.
Se ao menos fosse possível separar a estampa da frente da estampa de trás! Planejo tentar, pouco a pouco.
Descobri outra coisa curiosa, mas desta vez não vou contar! Não é bom confiar demais nas pessoas.
Tenho só mais dois dias para arrancar este papel, e creio que John está começando a perceber. Não gosto da expressão nos olhos dele.
E ouvi quando ele fez a Jennie um monte de perguntas profissionais a meu respeito. Em resposta, ela lhe fez um relatório muito bom.
Ela disse que eu dormia muito durante o dia.
John sabe que não durmo bem à noite, embora eu fique muito quieta!
Ele me fez todo tipo de pergunta, também, e fingiu estar sendo carinhoso e gentil.
Como se eu não soubesse suas intenções.
No entanto, não me surpreende que esteja agindo assim, depois de três meses dormindo sob este papel de parede.
Só eu me interesso pelo papel, mas tenho certeza de que John e Jennie estão sendo secretamente afetados por ele.
Viva! Este é o último dia, mas é suficiente. John passou a noite na cidade, e não deve voltar até o anoitecer.
Jennie queria dormir comigo. Que dissimulada! Mas eu lhe disse que, sem dúvida, eu descansaria melhor se passasse a noite sozinha.
Fui esperta ao dizer isso, porque na verdade não fiquei sozinha, de forma alguma! Assim que a lua iluminou o quarto, e aquela pobre criatura começou a rastejar e sacudir a estampa, levantei-me e fui correndo ajudá-la.
Eu puxava e ela sacudia, eu sacudia e ela puxava, e antes do amanhecer havíamos arrancado metros e metros do papel.
Uma faixa até mais ou menos a altura de minha cabeça, dando a volta em metade do quarto.
E quando o sol nasceu, e essa estampa horrível começou a rir de mim, declarei que hoje acabaria com ela.
Vamos embora amanhã, e estão levando os móveis lá para baixo de novo, para deixar tudo como estava antes.
Jennie olhou espantada para a parede, mas eu lhe disse alegremente que fiz isto por puro ódio daquela coisa horrenda.
Ela riu e disse que até ela poderia ter feito o mesmo, mas que eu não deveria ficar me cansando.
Como ela se traiu nesse momento!
Mas estou aqui, e pessoa alguma além de mim toca neste papel – pessoa alguma que esteja viva.
Ela tentou me tirar do quarto, isso ficou bem evidente. Porém eu disse que estava tão tranquilo agora, tão vazio e limpo, que talvez eu me deitasse de novo, para dormir o máximo possível. E que ela não me despertasse nem para jantar. Eu a chamaria quando acordasse.
Assim, agora ela se foi, e os criados se foram, e as coisas se foram, e não ficou nada além desta grande cama presa ao assoalho, com o colchão de lona que encontramos sobre ela.
Vamos dormir lá embaixo esta noite, e tomar o barco para casa amanhã.
Gosto muito deste quarto, agora que está vazio de novo.
Que estrago aquelas crianças fizeram aqui!
A cama está toda roída!
Mas devo colocar mãos à obra.
Tranquei a porta e joguei a chave lá embaixo, no caminho de entrada da casa.
Não quero sair daqui e não quero que ninguém entre até que John chegue.
Quero surpreendê-lo .
Tenho uma corda que nem Jennie conseguiu encontrar. Se a mulher sair e tentar escapar, posso amarrá-la!
Mas eu me esqueci de que não posso alcançar muito alto sem ter onde subir.
Esta cama não sai do lugar!
Tentei erguê-la e empurrá-la até ficar exausta, e então me enfureci tanto que arranquei com dentadas um pedaço de um dos cantos, mas isso fez meus dentes doerem.
Então arranquei todo o papel que consegui alcançar estando de pé sobre o piso. Está muito bem colado, e a estampa se diverte. Todas as cabeças estranguladas e os olhos esbugalhados e os fungos que se contorcem dão gritos de escárnio!
Estou ficando tão furiosa que posso fazer algo desesperado. Pular pela janela seria um ato admirável, mas as grades são tão fortes que não vou nem tentar.
Além do mais, eu não faria isso. Claro que não. Sei muito bem que seria algo impróprio, que poderia ser mal interpretado.
Não gosto nem de olhar pelas janelas... Há muitas dessas mulheres que rastejam, e elas rastejam muito depressa.
Será que todas saíram do papel de parede, assim como eu?
Mas agora estou bem amarrada com a corda que eu escondera tão bem. Ninguém vai me levar para a estrada lá fora!
Imagino que vou ter de voltar para trás da estampa quando anoitecer, e vai ser muito difícil!
É tão agradável estar livre neste quarto enorme e rastejar ao redor dele à vontade!
Não quero sair. Não vou sair, nem que Jennie peça.
Lá fora a gente tem de rastejar na terra, e tudo é verde em vez de amarelo.
Mas aqui posso rastejar pelo assoalho liso, e meu ombro se encaixa direitinho naquela faixa que dá a volta nas paredes, e assim eu não me perco.
Ora, John está à porta!
Não adianta, meu jovem, você não vai conseguir abri-la.
Como ele berra e esmurra!
Agora está clamando por um machado.
Seria uma pena destruir essa porta tão bonita!
– John, querido! – disse eu, numa voz muito suave. – A chave está lá embaixo, junto à escada da frente, debaixo de uma folha de tanchagem!
Isso o silenciou por alguns instantes.
Então ele disse bem baixinho:
– Abra a porta, minha querida!
– Não posso – respondi. – A chave está lá embaixo, junto à escada da frente, debaixo de uma folha de tanchagem!
E então disse isso de novo, várias vezes, suavemente e devagar, e tanto repeti que ele foi lá ver e conseguiu encontrá-la, claro, e entrou no quarto. Ele parou assim que cruzou a porta.
– O que está acontecendo? – gritou. – Pelo amor de Deus, o que você está fazendo?
Continuei rastejando, sem me deter, mas olhei para ele por cima do ombro.
– Finalmente consegui sair, apesar de você e de Jane! – eu lhe respondi. – E arranquei a maior parte do papel, para que vocês não possam colocar-me lá de volta!
Ora, mas por que teria aquele homem desmaiado? No entanto ele desmaiou, e bem no meu caminho ao longo da parede, e por isso tive de rastejar por cima dele cada vez que passava!