O Poder do Hábito
Capítulo 9
Os movimentos não surgem porque todo mundo de repente decide olhar na mesma direção ao mesmo tempo. Eles dependem de padrões sociais que começam com os hábitos de amizade, crescem através dos hábitos comunitários e são sustentados por novos hábitos que mudam a noção de identidade dos participantes.
King viu o poder desses hábitos já no caso de M ontgomery.
“Não posso encerrar sem dizer apenas uma palavra de cautela”, ele disse a uma igreja abarrotada na noite em que anunciou o fim do boicote. Ainda havia quase uma década de protestos pela frente, mas ele tinha o desfecho em vista. “Quando voltarmos para os ônibus, tenhamos amor o bastante para transformar um inimigo num amigo. Agora devemos avançar do protesto para a reconciliação. (...) Com essa dedicação, conseguiremos sair da meia-noite sombria e desolada da desumanidade dos homens para com seus semelhantes rumo à alvorada clara e reluzente da liberdade e da justiça.”
9 National Association for the Advancement of Colored People, ou Associação Nacional pelo Progresso das Pessoas Negras. (N. do T.)
10 Nas igrejas protestantes, espécie de “assistente” do pastor, responsável por receber e acomodar os congregados durante o culto. (N. do T.)
9
A NEUROLOGIA DO LIVRE-ARBÍTRIO
Somos responsáveis pelos nossos hábitos?
I.
Na manhã em que os problemas começaram — anos antes de ela sequer se dar conta de que tinha problemas — Angie Bachmann estava sentada em casa, olhando para a televisão, tão entediada que pensava seriamente em reorganizar a gaveta de talheres.
Sua filha mais nova entrara no jardim de infância umas poucas semanas antes, e suas duas filhas mais velhas estavam no ensino médio, com a vida repleta de amigos, atividades e fofocas que a mãe não tinha como entender. Seu marido, um agrimensor, muitas vezes saía para trabalhar às oito e não voltava antes das seis. A casa estava vazia a não ser por Bachmann. Era a primeira vez em quase duas décadas — desde que ela se casara aos 19 anos e engravidara aos 20, e seus dias foram tomados pela necessidade de preparar almoço para as meninas levarem à escola, brincar com elas de princesa e operar um serviço de transporte familiar — que ela se
sentia genuinamente sozinha. No colegial, seus amigos diziam que devia virar modelo — ela era tão bonita assim —, mas quando ela largou os estudos e casou-se com um guitarrista que acabou arranjando um emprego de verdade, contentou-se em apenas ser mãe. Agora eram dez e meia, suas três filhas estavam fora, e Bachmann recorrera — de novo — ao recurso de colar um papel em cima do relógio da cozinha para se impedir de olhar para ele a cada três minutos.
Ela não tinha ideia do que fazer depois disso.
Naquele dia, fez um pacto consigo mesma: se conseguisse aguentar até meio-dia sem enlouquecer nem comer o bolo que estava na geladeira, ela sairia de casa e faria algo divertido. Passou os noventa minutos seguintes tentando decidir exatamente o que isso seria. Quando o relógio marcou 12 em ponto, ela passou maquiagem, pôs um vestido bonito, pegou o carro e foi até um cassino flutuante a cerca de vinte minutos de sua casa. M esmo ao meio-dia, numa quinta-feira, o cassino estava cheio de pessoas fazendo coisas que não eram assistir novela e dobrar a roupa limpa.
Havia uma banda tocando perto da entrada. Uma mulher estava distribuindo drinques grátis. Bachmann comeu camarão de um bufê.
Toda aquela experiência parecia uma excentricidade, como se ela estivesse cabulando aula. Ela andou até uma mesa de blackjack, onde um carteador pacientemente explicou as regras. Quando seus quarenta dólares de fichas acabaram, ela olhou para o relógio e viu que duas horas haviam passado voando, e ela precisava correr para casa para buscar sua filha mais nova. Naquela noite, no jantar, pela primeira vez em um mês, ela tinha algum assunto para conversar além de adivinhar os preços dos produtos antes dos participantes no programa The Price is Right.
O pai de Angie Bachmann era um caminhoneiro que refizera sua vida na meia-idade e tornara-se um compositor semifamoso.
Seu irmão virara compositor também e ganhara prêmios.
Bachmann, por outro lado, era muitas vezes apresentada por seus pais como “aquela que virou mãe”.
“Eu sempre me senti a pessoa sem talento da família”, ela me disse. “Acho que sou inteligente e sei que fui uma boa mãe. M as não havia muita coisa que eu pudesse apontar e dizer: é por isso que eu sou especial.”
Depois dessa primeira ida ao cassino flutuante, Bachmann começou a frequentá-lo uma vez por semana, nas tardes de sexta-feira. Era uma recompensa por ter suportado dias vazios, mantendo a casa limpa, mantendo sua própria sanidade. Ela sabia que jogar a dinheiro podia gerar problemas, por isso estabeleceu regras rígidas para si mesma. Não mais que uma hora na mesa de blackjack para cada ida ao cassino, e ela só apostava o que tinha na carteira. “Eu considerava aquilo uma espécie de emprego”, ela me disse. “Nunca saía de casa antes do meio-dia e sempre voltava a tempo de buscar minha filha. Eu era muito disciplinada.”
E ela ficou boa. No começo, mal conseguia fazer com que o dinheiro durasse uma hora. Após seis meses, no entanto, tinha aprendido tantos truques que modificou suas regras para que permitissem turnos de duas ou três horas, e ainda tinha dinheiro no bolso quando ia embora do cassino. Certa tarde, ela sentou-se à mesa de blackjack com oitenta dólares na bolsa e saiu com 530 — o bastante para comprar comida, pagar a conta de telefone e guardar um pouco para o fundo de emergências. Àquela altura, a empresa proprietária do cassino — Harrah’s Entertainment — estava lhe enviando cupons para bufês grátis. Ela levava a família para jantar nas noites de sábado.
O estado onde Bachmann estava jogando, o Iowa, legalizara os jogos de apostas havia apenas alguns anos. Antes de 1989, os legisladores do estado receavam que as tentações das cartas e dados talvez fossem difíceis de resistir para alguns cidadãos. Era um receio tão antigo quanto o próprio país. O jogo de azar é “filho da
avareza, irmão da iniquidade e pai da perversidade”, escreveu George Washington em 1783. “Este é um vício que gera todos os males possíveis. (...) Resumindo, poucos ganham com esta prática abominável, enquanto milhares são prejudicados.” Proteger as pessoas de seus maus hábitos — na verdade, definir quais hábitos devem ser considerados “maus” para começo de conversa — é uma prerrogativa que os legisladores sempre tomaram avidamente para si. Prostituição, jogos de azar, venda de bebidas alcoólicas no dia de repouso, pornografia, empréstimos usurários, relações sexuais fora do casamento (ou, se seus gostos forem incomuns, dentro do casamento) são todos hábitos que diversas legislaturas já regularam, proibiram, ou tentaram desincentivar com leis rígidas (e muitas vezes ineficazes).
Quando o Iowa legalizou os cassinos, os legisladores estavam receosos a ponto de restringir a atividade aos barcos fluviais e determinar que ninguém podia arriscar mais de cinco dólares por aposta, com uma perda máxima de duzentos dólares por pessoa por visita. Dentro de uns poucos anos, no entanto, depois que alguns dos cassinos do estado mudaram-se para o M ississippi, onde não havia limites para as apostas, a assembleia legislativa do Iowa revogou essas restrições. Em 2010, os cofres do estado incharam com mais de 269 milhões de dólares de impostos sobre jogos de azar.
Em 2000, os pais de Angie Bachmann, ambos fumantes de longa data, começaram a revelar indícios de doenças pulmonares. Ela passou a ir de avião ao Tennessee para visitá-los a cada duas semanas, comprando mantimentos e ajudando a preparar o jantar.
Quando voltava para encontrar o marido e as filhas em casa, esses períodos agora pareciam ainda mais solitários. Às vezes, a casa ficava vazia o dia inteiro; era como se, na ausência dela, seus amigos
tivessem se esquecido de convidá-la para fazer coisas e sua família tivesse aprendido a se virar sozinha.
Bachmann estava preocupada com os pais, chateada porque o marido parecia mais interessado no seu trabalho do que nas ansiedades dela e ressentida com as filhas, que não percebiam que ela precisava delas agora, depois de todos os sacrifícios que fizera quando eram pequenas. M as sempre que ela chegava ao cassino, essas tensões evaporavam. Ela começou a ir duas vezes por semana quando não estava visitando os pais e depois toda segunda, quarta e sexta. Ela ainda tinha regras — mas agora jogava havia anos e conhecia os axiomas que regem a vida dos jogadores sérios. Nunca apostava menos de 25 dólares por mão e sempre jogava duas mãos ao mesmo tempo. “Você tem mais chances numa mesa com limite maior do que numa com limite menor”, ela me disse. “Você precisa ser capaz de atravessar os trechos difíceis, até que sua sorte mude.
Eu já vi pessoas entrarem com 150 dólares e ganharem 10 mil. Sabia que podia fazer isso se seguisse minhas regras. Eu estava no
controle. ”11 Àquela altura, ela não tinha que pensar se ia pedir outra carta ou dobrar a aposta — agia automaticamente, assim como Eugene Pauly, o amnésico, acabara aprendendo a sempre escolher o retângulo de cartolina certo.
Um dia em 2000, Bachmann saiu do cassino com 6 mil dólares
— o bastante para pagar dois meses de aluguel e todas as contas de cartão de crédito que estavam se acumulando na porta de sua casa.
Em outra ocasião, foi embora com 2 mil dólares. Às vezes ela perdia, mas aquilo era parte do jogo. Um jogador esperto sabia que é preciso descer para subir. Por fim, a Harrah’s acabou lhe oferecendo uma linha de crédito, para que ela não precisasse carregar tanto dinheiro vivo. Outros jogadores a procuravam e sentavam à sua mesa porque ela sabia o que estava fazendo. No bufê, os funcionários a deixavam passar na frente da fila. “Eu sei jogar”, ela me disse. “Sei que isso parece a fala de alguém que tem
um problema e não admite, mas o único erro que eu cometia era não parar. Não havia nada de errado no jeito como eu jogava.”
As regras de Bachmann tornaram-se mais flexíveis aos poucos, conforme aumentava o porte de seus ganhos e perdas.
Houve um dia em que ela perdeu oitocentos dólares em uma hora, depois ganhou 1.200 em quarenta minutos. Então sua sorte mudou de novo e ela foi embora com 4 mil dólares de prejuízo. Em outra ocasião, perdeu 3.500 dólares de manhã, ganhou 5 mil antes de uma da tarde e perdeu mais 3 mil ao longo da tarde. O cassino mantinha registros do quanto ela devia e do quanto ganhara; ela própria parara de controlar isso. Então, certo mês, ela não tinha dinheiro suficiente no banco para pagar a conta de eletricidade. Ela pediu um pequeno empréstimo aos pais, e depois outro. Pegou 2 mil emprestados num mês, 2.500 no mês seguinte. Não era nada de mais; eles tinham o dinheiro.
Bachmann nunca teve problemas com bebida, drogas ou comida em excesso. Era uma mãe normal, com os mesmos altos e baixos que todo mundo. Por isso a compulsão pelo jogo que ela sentia — a atração insistente que a deixava distraída ou irritadiça nos dias em que não ia ao cassino, o modo como ela se via pensando naquilo o tempo todo, a adrenalina que sentia quando estava ganhando — a pegou completamente desprevinida. Era uma sensação nova, tão inesperada que ela mal percebeu ser um problema enquanto aquilo não se apoderou completamente da sua vida. Pensando em retrospecto, parecia que não houvera uma linha divisória. Um dia era divertido, e no dia seguinte era incontrolável.
Em 2001, ela estava indo ao cassino todos os dias. Ia sempre que brigava com o marido ou sentia que suas filhas não lhe davam valor. Nas mesas, ela ficava ao mesmo tempo entorpecida e excitada, e suas ansiedades atenuavam-se de um modo que ela não podia mais ouvi-las. O êxtase de vencer era imediato. A dor de perder passava depressa.
“Você quer dar uma de importante”, sua mãe lhe dizia quando Bachmann ligava para pedir mais dinheiro emprestado. “Continua jogando porque quer chamar atenção.”
Porém não era aquilo. “Eu só queria me sentir boa em alguma coisa”, ela me disse. “Aquilo era a única coisa que eu já fizera na vida onde parecia que eu tinha uma habilidade.”
No verão de 2001, a dívida de Bachmann com a Harrah’s chegou a 20 mil dólares. Ela vinha mantendo as perdas em segredo do marido, mas quando sua mãe finalmente cortou os empréstimos, ela não aguentou mais e confessou. Eles contrataram um advogado especializado em falências, cortaram seus cartões de crédito e sentaram-se à mesa da cozinha para traçar um plano para uma vida mais austera e responsável. Ela levou seus vestidos para uma loja de roupas usadas e aguentou a humilhação de ver uma menina de 19
anos recusar quase todos, dizendo que estavam fora de moda.
Por fim, começou a parecer que a pior parte tinha passado.
Ela pensou que a compulsão finalmente acabara.
M as é claro que aquilo ainda não estava nem perto do fim.
Anos depois, após ter perdido tudo e arruinado sua vida e a do marido, após ter jogado fora centenas de milhares de dólares e seu advogado ter alegado diante do supremo tribunal do estado que Angie Bachmann jogava não por escolha, mas por hábito, e portanto não devia ser culpabilizada por suas perdas, após ela se tornar objeto de escárnio na internet, onde as pessoas a comparavam com Jeffrey Dahmer e com pais que maltratam os filhos, ela se perguntaria: até que ponto eu sou realmente responsável?
“Sinceramente acredito que qualquer pessoa no meu lugar teria feito as mesmas coisas”, Bachmann me disse.
II.
Numa manhã de julho de 2008, um homem desesperado que estava passando as férias na costa oeste do País de Gales pegou o telefone e ligou para a emergência.
“Acho que matei minha mulher”, ele disse. “Ai, meu Deus.
Achei que alguém tinha invadido a van. Eu estava brigando com aqueles meninos, mas era a Christine. Eu devia estar sonhando ou alguma coisa assim. O que foi que eu fiz? O que foi que eu fiz?”
Dez minutos depois, os policiais chegaram e encontraram Brian Thomas chorando ao lado de sua van de acampamento. Ele explicou que, na noite anterior, ele e sua mulher estavam dormindo dentro da van quando foram acordados por garotos apostando corrida no estacionamento. Eles mudaram a van de lugar para a ponta do estacionamento e voltaram a dormir. Então, algumas horas depois, Thomas acordou e viu um homem de calça jeans e blusa de lã preta — um dos que estavam apostando corrida, ele pensou —
deitado em cima de sua mulher. Ele gritou com o homem, agarrou-o pelo pescoço e tentou tirá-lo dali. Era como se estivesse reagindo automaticamente, ele disse à polícia. Quanto mais o homem lutava,
mais forte Thomas apertava sua garganta. O homem arranhou o braço de Thomas e tentou revidar, porém Thomas o estrangulava cada vez mais, e por fim o homem parou de se mexer. Então, Thomas percebeu que não era um homem que ele tinha nas mãos, mas sim sua mulher. Ele soltou o corpo dela e começou a cutucar seu ombro de leve, tentando acordá-la, perguntando se ela estava bem. Era tarde demais.
“Achei que alguém tivesse invadido a van e eu a estrangulei”, Thomas disse à polícia, aos prantos. “Ela é o meu mundo.”
Ao longo dos dez meses seguintes, enquanto Thomas aguardava o julgamento na prisão, um retrato do assassino surgiu.
Quando criança, Thomas começara a ter acessos de sonambulismo, às vezes vários por noite. Ele saía da cama, andava pela casa e brincava com brinquedos ou pegava alguma coisa para comer e, na manhã seguinte, não lembrava de nada do que tinha feito. Aquilo virou uma piada na família. Aparentemente, uma vez por semana, ele perambulava até o quintal ou até o quarto de outra pessoa, sempre dormindo. Era um hábito, sua mãe explicava quando os vizinhos perguntavam por que o filho dela estava cruzando o gramado deles, descalço e de pijama. Quando já era mais velho, ele acordava com cortes nos pés, sem lembrar de onde tinham vindo.
Ele uma vez nadou num canal sem acordar. Quando se casou, sua mulher ficou tão preocupada com a possibilidade de ele sair de casa e entrar no meio do trânsito que passou a trancar a porta e dormir com as chaves embaixo do travesseiro. Toda noite, o casal ia para a cama e “dava um beijo e um carinho”, Thomas disse depois, e então ele ia para o seu próprio quarto e dormia na sua própria cama. Não fosse assim, suas mexidas e viradas inquietas, os gritos, gemidos e ocasionais passeios mantinham Christine acordada a noite inteira.
“O sonambulismo é um lembrete de que a vigília e o sono não são mutuamente exclusivos”, me disse M ark M ahowald, professor de neurologia da Universidade do M innesota, um pioneiro na
compreensão dos padrões de sono. “A parte do cérebro que monitora seu comportamento está dormindo, mas as partes capazes de atividades muito complexas estão acordadas. O
problema é que não há nada guiando o cérebro além de padrões básicos, seus hábitos mais básicos. Você segue o que já existe na sua cabeça, pois não é capaz de fazer uma escolha.”
Por lei, a polícia tinha que indiciar Thomas pelo assassinato.
M as todas as evidências pareciam indicar que ele e a mulher tinham um casamento feliz antes daquela noite terrível. Não havia nenhum histórico de maus-tratos. Eles tinham duas filhas adultas e recentemente haviam reservado um cruzeiro pelo M editerrâneo para comemorar seu quadragésimo aniversário de casamento. Os procuradores pediram que um especialista em sono — o dr. Chris Idzikowski, do Edinburgh Sleep Centre — examinasse Thomas e avaliasse uma teoria: que ele estava inconsciente quando matou a mulher. Em duas sessões separadas, uma no laboratório de Idzikowski e outra dentro da prisão, o pesquisador instalou sensores em todo o corpo de Thomas e mediu suas ondas cerebrais, seu movimento ocular, os músculos do queixo e das pernas, seu fluxo nasal de ar, seu esforço respiratório e seus níveis de oxigênio enquanto ele dormia.
Thomas não era a primeira pessoa a alegar que cometera um crime enquanto estava dormindo e, consequentemente, não devia ser considerado responsável por seu ato. Há um longo histórico de réus afirmando que não são culpados devido ao “automatismo”, como são conhecidos o sonambulismo e outros comportamentos inconscientes. E na década passada, conforme nossa compreensão da neurologia dos hábitos e do livre-arbítrio tornou-se mais sofisticada, essas defesas ficaram mais convincentes. A sociedade, como representada por nossos tribunais e júris, concordou que alguns hábitos são tão poderosos que sobrepujam nossa capacidade de fazer escolhas, e portanto não somos responsáveis pelo que
fazemos.
O sonambulismo é um subproduto estranho de um aspecto normal do funcionamento do nosso cérebro durante o sono. Na maior parte do tempo, conforme o nosso corpo entra e sai das diferentes fases de repouso, nossa estrutura neurológica mais primitiva — o tronco encefálico — paralisa os membros e o sistema nervoso, permitindo que o cérebro vivencie sonhos sem que nosso corpo se mexa.
Geralmente, as pessoas podem transitar da mobilidade à paralisia e vice-versa várias vezes por noite sem nenhum problema. Dentro da neurologia, isso é conhecido como “a troca”.
O cérebro de algumas pessoas, no entanto, sofre de erros de troca. Elas entram numa paralisia incompleta enquanto dormem, e seus corpos continuam ativos enquanto elas sonham ou passam de uma fase do sono à outra. Essa é a causa central do sonambulismo e, para a maioria dos que padecem desse distúrbio, é um problema incômodo porém benigno. Alguém talvez sonhe que está comendo um bolo, por exemplo, e na manhã seguinte encontra uma caixa de donuts saqueada na cozinha. Alguém sonha que está indo ao banheiro e depois descobre uma poça no corredor. Os sonâmbulos podem agir de maneiras complexas — por exemplo, podem abrir os olhos, enxergar, se movimentar, dirigir um carro ou preparar uma refeição; tudo isso enquanto estão essencialmente inconscientes, pois as partes de seu cérebro associadas aos atos de enxergar, caminhar, dirigir e cozinhar podem funcionar enquanto eles estão dormindo, sem receber estímulos das partes mais avançadas do cérebro, como o córtex pré-frontal. Sabe-se de sonâmbulos que fervem água e fazem chá. Houve um que pilotou uma lancha. Outro ligou uma serra elétrica e começou a alimentá-la com pedaços de madeira antes de voltar para a cama. M as em geral, os sonâmbulos não fazem coisas perigosas para si mesmos ou para os outros.
M esmo dormindo, há um instinto de evitar o perigo.
No entanto, ao examinar o cérebro de sonâmbulos, os cientistas encontraram uma distinção entre o sonambulismo — em que as pessoas podem sair da cama e começar a agir de acordo com seus sonhos ou outros impulsos leves — e algo chamado terrores noturnos. Quando um terror noturno ocorre, a atividade dentro do cérebro da pessoa é marcadamente diferente de quando ela está acordada, semiconsciente ou mesmo sofrendo de sonambulismo. As pessoas em meio a terrores noturnos parecem ser tomadas por ansiedades terríveis, mas não estão sonhando no sentido normal da palavra. Seu cérebro fica inativo, a não ser pelas regiões neurológicas mais primitivas, o que inclui os chamados “geradores de padrões centrais”. Essas áreas do cérebro são as mesmas estudadas pelo dr. Larry Squire e os cientistas do M IT, que descobriram o mecanismo neurológico do loop do hábito. Para um neurologista, na verdade, um cérebro vivenciando um terror noturno é muito parecido com um cérebro seguindo um hábito.
Os comportamentos de pessoas tomadas por terrores not urnos são hábitos, embora do tipo mais primitivo. Os
“geradores de padrões centrais” que funcionam durante um terror noturno são o lugar do qual vêm padrões comportamentais como andar, respirar, esquivar-se de um barulho alto ou lutar contra um agressor. Geralmente não pensamos nesses comportamentos como hábitos, mas é isso que eles são: comportamentos automáticos tão arraigados na nossa neurologia que, como mostram os estudos, podem acontecer quase sem receber estímulos das regiões superiores do cérebro.
Porém esses hábitos, quando ocorrem durante terrores noturnos, são diferentes num aspecto crucial: já que o sono desativa o córtex pré-frontal e outras áreas superiores de cognição, quando um hábito de terror noturno é deflagrado, não há possibilidade de intervenção consciente. Se o hábito de lutar ou
correr é ativado por um terror noturno, não há chance de alguém poder suplantá-lo com lógica ou razão.
“Pessoas com terrores noturnos não estão sonhando no sentido normal”, disse M ahowald, o neurologista. “Não há enredos complexos como você e eu lembramos de um pesadelo. Se elas lembram de alguma coisa depois, é apenas uma imagem ou emoções
— uma fatalidade iminente, um medo terrível, a necessidade de defender a si mesmas ou outra pessoa.
“Essas emoções são muito poderosas, no entanto. Estão entre as deixas mais básicas para todos os tipos de comportamento que aprendemos ao longo de nossas vidas. Reagir a uma ameaça fugindo ou nos defendendo é algo que todos praticamos desde que éramos bebês. E quando essas emoções acontecem e não há chance de o cérebro mais elevado situar as coisas num contexto, nós reagimos do modo como nossos hábitos mais profundos nos mandam reagir.
Corremos, lutamos ou seguimos qualquer que seja o padrão comportamental onde for mais fácil o cérebro se agarrar.”
Quando uma pessoa em meio a um terror noturno começa a se sentir ameaçada ou sexualmente excitada — duas das experiências de terror noturno mais comuns —, ela reage de acordo com os hábitos associados a esses estímulos. Já houve pessoas durante terrores noturnos que pularam de telhados altos porque acreditavam estar fugindo de agressores. Já houve as que mataram seus próprios bebês porque acreditavam estar lutando com animais selvagens. Já houve as que estupraram seus cônjuges, mesmo enquanto a vítima implorava que elas parassem, pois, uma vez que a pessoa dormindo ficou excitada, ela seguiu o hábito arraigado de satisfazer o impulso. O sonambulismo parece permitir alguma escolha, alguma participação de nosso cérebro mais elevado que nos manda ficar longe da beira do telhado. Alguém em meio a um terror noturno, no entanto, simplesmente segue o loop do hábito até onde quer que ele leve.
Alguns cientistas suspeitam que os terrores noturnos talvez sejam genéticos; outros dizem que doenças como o mal de Parkinson os tornam mais prováveis. Suas causas não são bem compreendidas, mas para várias pessoas os terrores noturnos envolvem impulsos violentos. “A violência relacionada aos terrores noturnos parece ser uma reação a uma imagem concreta e assustadora que o indivíduo é capaz de descrever depois”, escreveu um grupo de pesquisadores suíços em 2009. Entre pessoas sofrendo de um certo tipo de distúrbio do sono, “registrou-se a ocorrência de tentativa de agressão do parceiro de cama em 64%
dos casos, com ferimentos em 3%”.
Tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido, há um histórico de assassinos alegando que terrores noturnos os levaram a cometer crimes que eles jamais teriam perpetrado conscientemente.
Quatro anos antes de Thomas ser preso, por exemplo, um homem chamado Jules Lowe foi absolvido da acusação de assassinar seu pai de 83 anos, após alegar que o ataque ocorreu durante um terror noturno. Os promotores argumentaram que era “extremamente
implausível” acreditar que Lowe estava dormindo enquanto socou, chutou e pisoteou seu pai durante mais de vinte minutos, deixando-o com mais de noventa ferimentos. O júri discordou e o absolveu.
Em setembro de 2008, Donna Sheppard-Saunders, de 33 anos, quase asfixiou sua mãe segurando um travesseiro contra o seu rosto durante trinta segundos. Ela depois foi absolvida da tentativa de assassinato alegando que agira enquanto estava dormindo. Em 2009, um soldado britânico admitiu ter estuprado uma adolescente, mas disse que estava dormindo e inconsciente enquanto se despia, baixava as calças dela e começava a fazer sexo. Quando ele acordou, no meio do estupro, pediu desculpas e chamou a polícia. “Eu meio que acabei de cometer um crime”, ele disse ao atendente do serviço de emergência. “Sinceramente não sei o que aconteceu. Eu acordei em cima dela.” Ele tinha um histórico de terrores noturnos e foi declarado inocente. No século passado, mais de 150 assassinos e estupradores já escaparam à punição usando a defesa do automatismo. Juízes e júris, agindo em nome da sociedade, disseram que, já que os criminosos não escolheram cometer seus crimes — visto que não participaram conscientemente da violência
—, eles não deveriam arcar com a culpa.
Para Brian Thomas, também parecia uma situação em que um distúrbio do sono, e não um impulso assassino, era o responsável.
“Eu nunca vou me perdoar, jamais”, ele disse a um dos promotores.
“Por que eu fiz isso?”
Depois que o dr. Idzikowski, o especialista em distúrbios do sono, observou Thomas em seu laboratório, ele apresentou suas descobertas: Thomas estava dormindo quando matou a esposa.
Não tinha conscientemente cometido um crime.
Quando o julgamento começou, os promotores apresentaram suas provas ao júri. Disseram aos jurados que Thomas admitira ter
assassinado sua esposa. Ele sabia que tinha um histórico de sonambulismo. O fato de ele ter deixado de tomar precauções enquanto estava de férias, afirmaram eles, o tornava responsável por seu crime.
M as conforme as discussões avançaram, ficou claro que os promotores estavam lutando por uma causa perdida. O advogado de Thomas argumentou que seu cliente não tivera a intenção de matar sua esposa — na verdade, ele nem estava no controle de suas próprias
ações
naquela
noite.
Estava,
sim,
reagindo
automaticamente a uma percepção de ameaça. Estava obedecendo a um hábito quase tão antigo quanto nossa espécie: o instinto de lutar contra um agressor e proteger uma pessoa amada. Uma vez que as partes mais primitivas de seu cérebro foram expostas a uma deixa
— alguém estrangulando sua mulher —, seu hábito assumiu o controle e ele revidou, sem chances de sua cognição superior intervir. Thomas não era culpado de nada além de ser um humano, argumentou o advogado, e de reagir do modo como sua neurologia
— e seus hábitos mais primitivos — o obrigava a se comportar.
M esmo as próprias testemunhas da promotoria pareciam sustentar a defesa. Embora Thomas soubesse que podia sofrer de sonambulismo, afirmaram os psicólogos da própria promotoria, não havia nada que lhe sugerisse, portanto, ser previsível que ele talvez matasse alguém. Ele nunca atacara ninguém durante o sono.
Nunca tinha machucado sua esposa antes.
Quando o chefe dos psiquiatras da promotoria depôs, o advogado de Thomas deu início a seu interrogatório.
Parecia justo que Thomas fosse condenado por um ato que não tinha como saber que ia acontecer?
A dra. Caroline Jacob disse que, na sua opinião, Thomas não podia ter previsto razoavelmente seu crime. E se fosse considerado culpado e sentenciado ao Broadmoor Hospital, onde residiam alguns dos criminosos mais perigosos e perturbados da Inglaterra,
bem, “o lugar dele simplesmente não é ali”.
Na manhã seguinte, o chefe da promotoria dirigiu-se ao júri.
“No momento do assassinato, o réu estava dormindo e sua mente não tinha controle do que seu corpo estava fazendo”, ele disse. “Chegamos à conclusão de que não mais seria benéfico ao interesse público continuar pleiteando por um veredito especial dos senhores. Portanto, não oferecemos mais nenhuma evidência e os convidamos a pronunciar um veredito de inocente.” E foi o que o júri fez.
Antes de Thomas ser posto em liberdade, o juiz lhe disse:
“Você é um homem decente e um marido devoto. Suspeito fortemente que você possa estar vivenciando uma sensação de culpa. Aos olhos da lei, você não carrega nenhuma responsabilidade. Está dispensado.”
Parece um resultado justo. Afinal, Thomas obviamente ficou devastado com seu crime. Não tinha ideia do que estava fazendo quando agiu — simplesmente seguia um hábito, e sua capacidade de tomar decisões se encontrava efetivamente incapacitada. Thomas é o assassino mais digno de compaixão que se pode conceber, alguém tão perto de ser ele próprio uma vítima que, quando o julgamento terminou, o juiz tentou consolá-lo.
No entanto, muitas dessas mesmas desculpas podem ser aplicadas ao caso de Angie Bachmann, a viciada em jogo. Ela também ficava devastada com as coisas que fazia. Ela diria depois que carrega uma sensação profunda de culpa. E, como ficou provado, também estava seguindo hábitos profundamente arraigados, que tornavam cada vez mais difícil a intervenção de uma decisão consciente.
Porém aos olhos da lei, Bachmann é responsável por seus hábitos, e Thomas não é. É certo dizer que Bachmann, uma viciada em jogo, é mais culpada do que Thomas, um assassino? O que isso nos diz sobre a ética do hábito e da escolha?
III.
Três anos depois de Angie Bachmann declarar falência, seu pai faleceu. Ela passara os cinco anos anteriores viajando de avião entre sua casa e a dos pais, cuidando deles enquanto ficavam cada vez mais doentes. A morte dele foi um golpe. Então, dois meses depois, a mãe de Angie morreu.
“M eu mundo inteiro se desintegrou”, ela disse. “Eu acordava toda manhã e por um segundo esquecia que eles tinham falecido; então me assaltava o fato de que eles estavam mortos e eu sentia como se alguém estivesse pisando em cima do meu peito. Eu não conseguia pensar em mais nada. Não sabia o que fazer quando saía da cama.”
Quando os testamentos deles foram lidos, Bachmann descobriu que tinha herdado quase um milhão de dólares.
Ela usou 275 mil para comprar uma casa nova para sua família no Tennessee, perto de onde sua mãe e seu pai haviam morado, e gastou um pouco mais para fazer com que suas filhas crescidas se mudassem para perto, para que todos ficassem próximos. O jogo em cassinos era ilegal no Tennessee, e “Eu não queria cair de novo em padrões ruins”, ela me disse. “Queria viver longe de qualquer coisa que me lembrasse de quando eu me sentia fora do controle.”
Ela mudou seus números de telefone e não deu seu novo endereço aos cassinos. Assim parecia mais seguro.
Então, certa noite, passeando de carro por sua antiga cidade natal com o marido, recolhendo os últimos móveis de sua casa anterior, Angie começou a pensar nos seus pais. Como ela conseguiria viver sem eles? Por que não tinha sido uma filha melhor? Ela começou a hiperventilar. Parecia o começo de uma crise de pânico. Fazia anos desde a última vez que jogara, mas naquele momento ela sentiu que precisava achar alguma coisa que distraísse sua mente da dor. Ela olhou para o marido. Estava desesperada.
Aquilo era coisa de uma vez só.
“Vamos ao cassino”, ela disse.
Quando eles entraram, um dos gerentes a reconheceu de quando ela era frequentadora habitual e os convidou para o lounge dos jogadores. Ele perguntou como ela tinha andado, e tudo saiu numa enxurrada: a morte dos pais e como aquilo tinha sido duro para ela, como estava exausta o tempo inteiro, como sentia que estava à beira de um colapso. O gerente soube escutar bem. Era uma sensação muito boa finalmente dizer tudo aquilo em que ela estava pensando e ouvir que era normal se sentir desse jeito.
Então sentou-se numa mesa de blackjack e jogou durante três horas. Pela primeira vez em meses, a ansiedade dissipou-se e virou um ruído de fundo. Ela sabia como fazer aquilo. Sua mente ficou em branco. Ela perdeu alguns milhares de dólares.
A Harrah’s Entertainment — empresa proprietária do cassino
— era conhecida no ramo dos jogos de apostas pela sofisticação de seus sistemas de acompanhamento de clientes. A base desse sistema eram programas de computador bastante parecidos com os que Andrew Pole criou na Target, algoritmos previsivos que estudavam os hábitos dos jogadores e tentavam descobrir formas de convencê-los a gastar mais. A companhia atribuía aos jogadores um “valor previsto de vida”, e os programas geravam calendários que previam a frequência com que eles frequentariam o cassino e o quanto gastariam. A empresa rastreava os clientes através de cartões de fidelidade, cupons para refeições grátis e vales-dinheiro enviados pelo correio; atendentes de telemarketing ligavam para a casa das pessoas para perguntar por onde elas tinham andado. Os funcionários do cassino eram treinados para incentivar os visitantes a discutir suas vidas, na esperança de que eles revelassem informações que pudessem ser usadas para prever quanto dinheiro eles tinham para apostar. Um executivo da Harrah’s chamava essa abordagem de “marketing pavloviano”. A empresa realizava milhares de testes todo ano para aperfeiçoar seus métodos. O
acompanhamento de clientes elevara os lucros da empresa em bilhões de dólares, e era tão preciso que eles podiam rastrear os
gastos de um jogador até cada centavo e cada minuto. 12
A Harrah’s, é claro, estava muito ciente de que Bachmann declarara falência uns poucos anos antes e se livrara de ter que pagar 20 mil dólares em dívidas de jogo. M as logo após sua conversa com o gerente do cassino, ela começou a receber telefonemas com ofertas de limusines grátis que a levariam para cassinos no M ississippi. Eles se ofereceram para levá-la de avião com seu marido para Lake Tahoe, colocá-los numa suíte e lhes dar ingressos para um show dos Eagles. “Eu falei que minha filha tinha que ir, e queria levar um amigo”, disse Bachmann. Não havia problema algum, respondeu a empresa. As passagens aéreas e a hospedagem de todos eram grátis. No show, ela sentou na primeira fila. A Harrah’s lhe deu 10 mil para jogar, como oferta da casa.
As ofertas continuaram vindo. Toda semana outro cassino telefonava, perguntando se ela queria uma limusine, ingressos para shows, passagens de avião. Bachmann resistiu no início, mas por fim começou a dizer sim toda vez que chegava um convite. Quando uma amiga da família mencionou que queria se casar em Las Vegas, Bachmann deu um telefonema, e no fim de semana seguinte eles estavam no Palazzo. “Há pessoas que nem sequer sabem que esse hotel existe”, ela me disse. “Eu telefonei e perguntei, e o atendente disse que o hotel é exclusivo demais para passar informações por telefone. O quarto era algo saído de um filme. Tinha seis camas, um mezzanino e uma banheira aquecida particular para cada quarto. Eu tinha um mordomo.”
Quando ela chegava aos cassinos, seus hábitos de jogo assumiam o controle assim que entrava. Ela muitas vezes jogava durante horas seguidas. Primeiro começava com apostas pequenas, usando só o dinheiro do cassino. Depois as quantias ficavam maiores, e ela reabastecia suas fichas com saques do caixa
automático. Não lhe parecia que havia um problema. No fim, estava jogando duzentos a trezentos dólares por mão, duas mãos por vez, às vezes durante 12 horas sem parar. Certa noite, ganhou 60 mil dólares. Duas vezes ela saiu com 40 mil dólares de lucro. Uma vez foi a Las Vegas com 100 mil dólares na bolsa e voltou para casa sem nada. Aquilo não mudava realmente seu estilo de vida. Sua conta bancária ainda era tão grande que ela nunca precisava pensar em dinheiro. Afinal era para isso que seus pais haviam lhe deixado a herança: para que ela pudesse desfrutar.
Ela tentou ir mais devagar, porém os apelos dos cassinos tornaram-se mais insistentes. “Um gerente me falou que seria demitido se eu não aparecesse naquele fim de semana”, ela disse.
“Eles diziam: ‘Nós mandamos você para esse show e lhe demos esse quarto bom, e você não tem jogado muito ultimamente.’ Bom, eles de fato faziam essas coisas legais para mim.”
Em 2005, a avó de seu marido morreu e a família voltou à sua antiga cidade natal para comparecer ao velório. Ela foi ao cassino na noite anterior à cerimônia para limpar a mente e se preparar psicologicamente para toda a atividade do dia seguinte. No decorrer de 12 horas, ela perdeu 250 mil dólares. Naquele momento, era quase como se sua mente não registrasse a escala do prejuízo. Quando ela pensava naquilo depois — um quarto de um milhão de dólares evaporado —, não parecia real. Ela já mentira para si mesma a respeito de tanta coisa: de que seu casamento era feliz, enquanto ela e o marido às vezes passavam dias sem conversar de verdade; de que seus amigos eram próximos, enquanto ela sabia que eles apareciam para viagens a Las Vegas e sumiam quando a viagem terminava; de que ela era uma boa mãe, enquanto via suas filhas cometendo os mesmos erros que cometera, engravidando cedo demais; de que seus pais teriam ficado contentes de ver seu dinheiro ser jogado no lixo daquele jeito. Parecia que havia apenas duas escolhas: continuar mentindo para si mesma ou admitir que
desonrara tudo o que sua mãe e seu pai tinham trabalhado tão duro para conquistar.
Um quarto de um milhão de dólares. Ela não contou para o marido. “Eu me concentrava em alguma coisa nova sempre que aquela noite surgia na minha mente”, disse.
No entanto, as perdas logo ficaram grandes demais para serem ignoradas. Em algumas noites, depois que seu marido adormecia, Bachmann saía da cama, sentava-se à mesa da cozinha e fazia contas, tentando entender quanto dinheiro ela tinha perdido. A depressão que começara depois da morte de seus pais parecia estar ficando mais profunda. Ela sentia-se muito cansada o tempo todo.
E a Harrah’s continuava telefonando.
“Este desespero começa quando você se dá conta do quanto perdeu, e então sente que não pode parar porque precisa recuperar o dinheiro”, ela disse. “Às vezes eu começava a me sentir agitada, como se não conseguisse pensar direito, e sabia que se fingisse que ia talvez fazer outra viagem em breve, isso me acalmaria. Então eles ligavam e eu dizia que sim, pois era tão fácil ceder. Eu realmente acreditava que podia recuperar o dinheiro. Já tinha recuperado antes. Se não fosse possível vencer, o jogo não seria permitido por lei, certo?”
Em 2010, um neurocientista cognitivo chamado Reza Habib pediu que 22 pessoas deitassem dentro de uma câmara de ressonância magnética e observassem um caça-níqueis girando. M etade dos participantes era de “jogadores patológicos” — pessoas que tinham mentido para a família sobre seu vício no jogo, que tinham faltado ao trabalho para jogar, ou passado cheques sem fundo para um cassino —, enquanto a outra metade era de pessoas que jogavam socialmente mas não demonstravam nenhum comportamento problemático. Todos foram deitados de costas dentro de um tubo
estreito e receberam a instrução de observar rodas com números 7, maçãs e barras de ouro girarem numa tela de vídeo. O caça-níqueis estava programado para gerar três resultados: uma combinação vitoriosa, uma perdedora, e uma “quase vitória”, em que as figuras quase combinavam, mas, no último segundo, deixavam de se alinhar. Nenhum dos participantes ganhava nem perdia dinheiro algum. Só o que eles tinham que fazer era observar a tela enquanto o equipamento de ressonância magnética registrava sua atividade neurológica.
“Estávamos especialmente interessados em investigar os sistemas cerebrais envolvidos nos hábitos e vícios”, Habib me disse. “O que descobrimos foi que, neurologicamente falando, os jogadores patológicos ficavam mais entusiasmados com a vitória.
Quando os símbolos se alinhavam, mesmo que eles não chegassem a ganhar nenhum dinheiro de verdade, as áreas em seu cérebro relacionadas à emoção e recompensa eram muito mais ativas do que em jogadores não patológicos.
“M as o realmente interessante foram as quase vitórias. Para os jogadores patológicos, perder por pouco era um resultado parecido com uma vitória. Seu cérebro reagia quase do mesmo jeito.
M as para um jogador não patológico, uma quase vitória parecia uma derrota. Pessoas sem problemas com jogos eram mais capazes de reconhecer que perder por pouco continua querendo dizer que você perdeu.”
Os dois grupos viam exatamente o mesmo acontecimento, mas de uma perspectiva neurológica, eles o viam de jeitos diferentes. Pessoas com problemas com jogo obtinham uma dose de prazer mental com as quase vitórias — o que, segundo a hipótese de Habib, é provavelmente o motivo de elas jogarem por muito mais tempo do que as outras pessoas: porque a quase vitória deflagra esses hábitos que os instigam a fazer outra aposta. Os jogadores não compulsivos, ao ver uma quase vitória, recebiam uma
dose de apreensão que deflagrava um hábito diferente, aquele que diz Eu deveria parar antes que fique pior.
Não está claro se os cérebros dos jogadores compulsivos são diferentes porque eles nasceram assim, ou se a exposição prolongada a caça-níqueis, pôquer on-line e cassinos pode alterar o funcionamento do cérebro. O que está claro é que diferenças neurológicas reais influenciam o modo como os jogadores patológicos processam informações — o que ajuda a explicar por que Angie Bachmann perdia o controle toda vez que entrava num cassino. As empresas de jogos estão muito cientes dessa tendência, é claro, e é por isso que, nas últimas décadas, os caça-níqueis têm sido reprogramados para gerar uma quantidade mais
constante de quase vitórias. 13 Os jogadores que continuam apostando depois de quase vencer são aquilo que torna os cassinos, pistas de corrida e loterias estaduais tão lucrativos. “Acrescentar uma quase vitória a uma loteria é como jogar gasolina numa fogueira”, disse um consultor da loteria estadual que falou comigo sob a condição de anonimato. “Quer saber por que as vendas dispararam? Um em cada dois bilhetes de raspadinha é programado para fazer você sentir que quase ganhou.”
As áreas do cérebro que Habib examinou em seu experimento
— os gânglios basais e o tronco cerebral — são as mesmas regiões em que os hábitos residem (e também em que os comportamentos relacionados a terrores noturno começam). Na última década, conforme surgiram novas classes de medicamentos que afetam essa região — tais como remédios para o mal de Parkinson —, aprendemos muita coisa sobre o quanto alguns hábitos podem ser sensíveis a estímulos externos. Ações judiciais coletivas nos Estados Unidos, na Austrália e no Canadá foram movidas contra fabricantes de medicamentos, alegando que os remédios levavam os pacientes
a
apostar,
comer,
comprar
e
se
masturbar
compulsivamente, afetando os circuitos envolvidos no loop do hábito. Em 2008, um júri federal do M innesota concedeu 8,2
milhões de dólares a um paciente num processo contra uma empresa farmacêutica, após o homem ter alegado que seu medicamento o fizera perder mais de 250 mil dólares em jogos de azar. Há centenas de casos similares pendentes.
“Nesses casos, podemos seguramente dizer que os pacientes não têm controle sobre suas obsessões, pois podemos apontar uma droga que afeta sua neuroquímica”, disse Habib. “Porém quando examinamos os cérebros de jogadores obsessivos, a aparência é muito semelhante — tirando o fato de que eles não podem pôr a culpa num medicamento. Eles dizem aos pesquisadores que não querem jogar, mas não conseguem resistir ao anseio. Então por que dizemos que esses jogadores estão no controle de suas ações e os pacientes de Parkinson não estão?”
Em 18 de março de 2006, Angie Bachmann viajou de avião para um cassino, a convite da Harrah’s. Àquela altura, sua conta bancária estava quase zerada. Quando tentou calcular o quanto tinha perdido ao longo de sua vida inteira, chegou ao valor aproximado de 900 mil
dólares. Ela dissera à Harrah’s que estava praticamente sem dinheiro, mas o homem ao telefone lhe disse para ir assim mesmo.
Disse que eles abririam uma linha de crédito para ela.
“Era como se eu não pudesse dizer não, como se, sempre que eles balançavam a mínima tentação na minha frente, meu cérebro desligasse. Eu sei que isso parece uma desculpa, mas eles sempre prometiam que seria diferente dessa vez, e eu sabia que, por mais que lutasse contra aquilo, no fim ia acabar cedendo.”
Ela levou consigo todo o dinheiro que lhe restava. Começou apostando quatrocentos dólares por mão, duas mãos por vez. Dizia a si mesma que, se conseguisse se erguer um pouquinho, apenas 100 mil dólares, ela podia parar e ter algo para dar às filhas. Seu marido jogou junto com ela por um tempo, mas à meia-noite foi dormir. Por volta das duas da manhã, o dinheiro que ela trouxera tinha acabado. Um funcionário da Harrah’s lhe deu uma nota promissória para assinar. Seis vezes ela assinou para receber mais dinheiro, num total de 125 mil dólares.
Por volta das seis da manhã, ela teve uma maré de sorte e suas pilhas de fichas começaram a crescer. Um punhado de gente se reuniu em volta. Ela fez uma conta rápida: não era o suficiente para pagar as promissórias que assinara, mas se continuasse jogando com inteligência, sairia no lucro, e depois pararia para sempre. Ela venceu cinco vezes seguidas. Só precisava ganhar mais 20 mil
dólares para zerar a dívida. Então o carteador fez 21.14 Depois fez 21 de novo. Umas poucas mãos depois, ele fez 21 uma terceira vez.
Às dez da manhã, todas as fichas de Bachmann tinham acabado. Ela pediu mais crédito, mas o cassino recusou.
Bachmann saiu da mesa atordoada e andou até sua suíte. Era como se o chão estivesse tremendo. Ela caminhava com a mão na parede para ter onde se apoiar se caísse. Quando chegou ao quarto, seu marido estava esperando.
“Acabou”, ela disse para ele.
“Por que você não toma um banho e vai para a cama?”, ele disse. “Está tudo bem. Não é a primeira vez que você perde.”
“Acabou tudo”, ela disse.
“Como assim?”
“O dinheiro acabou”, ela disse. “O dinheiro todo.”
“Pelo menos ainda temos a casa”, ele disse.
Ela não contou a ele que hipotecara a casa por uma linha de crédito alguns meses antes e perdera tudo no jogo.
IV.
Brian Thomas assassinou sua esposa. Angie Bachmann desperdiçou sua herança. Há uma diferença em como a sociedade deveria atribuir responsabilidade?
O advogado de Thomas argumentou que seu cliente não era culpado da morte da esposa porque agira inconscientemente, automaticamente, porque sua reação fora deflagrada por acreditar que um intruso a estava atacando. Ele nunca escolheu matar, disse seu advogado, e portanto não deveria ser considerado responsável pela morte dela. Por essa mesma lógica, Bachmann — como sabemos pela pesquisa de Reza Habib sobre o cérebro dos jogadores compulsivos — também foi movida por anseios poderosos. Ela talvez tenha feito uma escolha naquele primeiro dia em que se vestiu bem e decidiu passar a tarde num cassino, e quem sabe nas semanas ou meses seguintes. Porém anos depois, quando estava perdendo 250 mil dólares numa única noite, quando estava tão desesperada para enfrentar o impulso que se mudou para um estado onde o jogo era ilegal, ela não estava mais tomando decisões conscientes. “Historicamente, na neurociência, vem-se dizendo que pessoas com lesões cerebrais perdem parte de seu livre-arbítrio”, disse Habib. “M as quando um jogador patológico vê um cassino, o caso parece muito semelhante. Parece que ele está agindo sem
escolha.”
O advogado de Thomas argumentou, de um modo que todos acreditaram, que seu cliente cometera um engano terrível e carregaria a culpa pelo resto da vida. No entanto, não está claro que Bachmann sente quase a mesma coisa? “M e sinto tão culpada, tão envergonhada pelo que fiz”, ela me disse. “Sinto que decepcionei todo mundo. Sei que jamais vou conseguir compensar isso, não importa o que eu faça.”
Dito isso, há uma distinção fundamental entre o caso de Thomas e o de Bachmann: Thomas assassinou uma pessoa inocente. Cometeu o que sempre foi o mais grave dos crimes. Angie Bachmann perdeu dinheiro. As únicas vítimas foram ela mesma, sua família, e uma empresa de 27 bilhões de dólares que lhe emprestou 125 mil dólares.
Thomas foi libertado pela sociedade. Bachmann foi considerada responsável por seus atos.
Dez meses depois que Bachmann perdeu tudo, a Harrah’s tentou receber o dinheiro do seu banco. As notas promissórias que ela assinou voltaram, e por isso a Harrah’s a processou, exigindo que Bachmann pagasse suas dívidas com um adicional de 375 mil dólares de multa — efetivamente, uma punição civil por ter cometido um crime. Ela os processou de volta, alegando que, ao estender seu crédito, as suítes grátis e a bebida, a Harrah’s se aproveitara de alguém que eles sabiam que não tinha controle sobre seus hábitos. Seu caso percorreu todas as instâncias até a Suprema Corte estadual. O advogado de Bachmann — usando argumentos parecidos com os que o de Thomas usara em defesa do assassino
— disse que ela não deveria ser considerada culpada porque estava reagindo automaticamente a tentações que a Harrah’s pôs na frente dela. Ele argumentou que, uma vez que as ofertas começavam a vir, quando ela entrava no cassino, seus hábitos assumiam o comando e era impossível controlar seu comportamento.
Os juízes, agindo em nome da sociedade, disseram que Bachmann estava errada. “Não há nenhum dever legal comum que obrigue um operador de cassino a abster-se de tentar atrair ou contatar jogadores que ele sabe ou deveria saber que são compulsivos”, escreveu a Corte. O estado tinha um “programa de exclusão voluntária”, no qual qualquer pessoa podia pedir que seu nome fosse incluído numa lista que exigia que os cassinos a proibissem de jogar, e “a existência do programa de exclusão voluntária sugere que o legislativo pretendia que os jogadores patológicos assumam pessoalmente a responsabilidade por evitar a compulsão pelo jogo e se proteger contra ela”, escreveu o juiz Robert Rucker.
Talvez a diferença entre o resultado do caso de Thomas e o de Bachmann seja justa. Afinal, é mais fácil se compadecer de um viúvo arrasado que de uma dona de casa que jogou tudo fora.
M as por que é mais fácil? Por que parece que o marido de luto é uma vítima, enquanto a jogadora falida recebeu a punição que merecia? Por que alguns hábitos parecem que deveriam ser tão fáceis de controlar, enquanto outros parecem estar fora de alcance?
E o mais importante, é correto sequer fazer uma distinção?
“Alguns pensadores”, escreveu Aristóteles na Ética a Nicômaco, “afirmam que é por natureza que as pessoas se tornam boas, outros que é por hábito, e outros que é por instrução”. Para Aristóteles, os hábitos eram soberanos. Os comportamentos que acontecem sem pensar são a evidência da nossa natureza mais verdadeira, ele disse. Portanto, “assim como um terreno precisa ser preparado de antemão, se deve nutrir a semente, também a mente do aluno tem que ser preparada em seus hábitos, a fim de gostar e desgostar das coisas certas”.
Os hábitos não são tão simples quanto parecem. Como tentei demonstrar ao longo deste livro, os hábitos — mesmo depois que estão arraigados em nossas mentes — não são um destino
inevitável. Podemos escolhê-los, uma vez que sabemos como fazer isso. Tudo o que sabemos sobre os hábitos, através de neurologistas estudando pacientes de amnésia e experts organizacionais reestruturando empresas, é que qualquer um deles pode ser alterado, se entendermos como funcionam.
Centenas de hábitos influenciam nossos dias — eles orientam o modo como nos vestimos de manhã, como falamos com nossos filhos e adormecemos à noite; eles afetam o que comemos no almoço, como realizamos negócios e se vamos fazer exercícios ou tomar uma cerveja depois do trabalho. Cada um deles tem uma deixa diferente e oferece uma recompensa única. Alguns são simples e outros são complexos, apoiando-se em gatilhos emocionais e oferecendo prêmios neuroquímicos sutis. Porém todo hábito, por maior que seja sua complexidade, é maleável. Os alcoólatras mais viciados podem ficar sóbrios. As empresas mais disfuncionais podem se transformar. Um menino que largou o ensino médio pode se tornar um gerente bem-sucedido.
No entanto, para modificar um hábito, você precisa decidir mudá-lo. Deve aceitar conscientemente a dura tarefa de identificar as deixas e recompensas que impulsionam as rotinas do hábito e encontrar alternativas. Você precisa saber que possui o controle e ser autoconsciente o bastante para usá-lo — e cada capítulo deste livro é dedicado a ilustrar um aspecto diferente de por que esse controle é real.
Por isso, embora tanto Angie Bachmann quanto Brian Thomas tenham feito variações da mesma alegação — de que eles haviam agido por hábito, de que não tinham controle sobre suas ações porque esses comportamentos aconteciam automaticamente
—, parece justo que eles devam ser tratados de modo diferente.
Angie Bachmann só deve ser considerada responsável e Brian Thomas libertado porque Thomas nunca soube que os padrões que o levaram a matar sequer existiam — muito menos que ele podia
dominá-los. E uma vez que sabe que um hábito existe, você tem a responsabilidade de mudá-lo. E se ela tivesse tentado com um pouco mais de empenho, talvez conseguisse ter tomado as rédeas de suas compulsões. Outras pessoas já fizeram isso, mesmo diante de tentações maiores.
Isso, em alguns aspectos, é o que este livro procura mostrar.
Talvez um assassino sonâmbulo possa argumentar de forma plausível que não estava ciente de seu hábito, e que portanto não é responsável por seu crime. M as quase todos os outros padrões que existem na vida da maioria das pessoas — o modo como comemos, dormimos e falamos com nossos filhos, como gastamos sem pensar o nosso tempo, atenção e dinheiro — são hábitos que sabemos que existem. E uma vez que você entende que os hábitos podem mudar, você tem a liberdade — e a responsabilidade — de transformá-los.
Quando você entende que os hábitos podem ser reconstruídos, o poder do hábito torna-se mais fácil de controlar, e a única opção que resta é pôr as mãos à obra.
“Toda a nossa vida”, nos disse William James no prólogo, “na medida em que tem forma definida, não passa de uma massa de hábitos — práticos, emocionais e intelectuais — sistematicamente organizados para nossa felicidade ou nosso sofrimento e nos conduzindo irresistivelmente rumo ao nosso destino, qualquer que seja ele”.
James, que morreu em 1910, vinha de uma família cheia de realizações. Seu pai era um teólogo rico e prestigiado. Seu irmão, Henry, era um escritor brilhante e bem-sucedido, cujos romances ainda são estudados hoje em dia. William, já com mais de 30 anos, era a pessoa não realizada da família. Ele foi doente quando criança.
Quis tornar-se pintor, depois se inscreveu na faculdade de medicina e mais tarde partiu para juntar-se a uma expedição pelo rio
Amazonas. Então abandonou isso também. Ele se torturava em seu diário por não ser bom em nada. E além disso, não tinha certeza se podia melhorar. Na faculdade de medicina, visitara um hospital para doentes mentais e vira um homem se jogando contra uma parede. Um médico explicou que o paciente sofria de alucinações.
James não disse que, muitas vezes, sentia como se tivesse mais em comum com os pacientes do que com seus colegas médicos.
“Hoje cheguei mais ou menos ao fundo e percebo claramente que preciso enfrentar a escolha de olhos abertos”, James escreveu em seu diário em 1870, aos 28 anos. “Devo francamente deitar fora toda a questão moral, como se fosse inadequado para minhas aptidões inatas?”
Em outras palavras, será que o suicídio é uma opção melhor?
Dois meses depois, James tomou uma decisão. Antes de cometer qualquer ato precipitado, faria um experimento de um ano.
Passaria 12 meses acreditando que tinha controle sobre si mesmo e seu destino, que podia melhorar, que possuía livre-arbítrio para mudar. Não havia prova de que isso era verdade. M as ele se libertaria para acreditar, apesar de todas as evidências contrárias, que a mudança era possível. “Acho que ontem foi uma crise na minha vida”, ele escreveu em seu diário. No que dizia respeito a sua capacidade de mudar, “Vou assumir por enquanto — até o ano que vem — que não é uma ilusão. M eu primeiro ato de livre-arbítrio será acreditar no livre-arbítrio.”
Ao longo do ano seguinte, ele praticou todo dia. Em seu diário, escrevia como se nunca houvesse dúvida de seu controle sobre si mesmo e suas escolhas. Ele se casou. Começou a lecionar em Harvard. Começou a conviver com Oliver Wendell Holmes Jr., que mais tarde se tornaria juiz da Suprema Corte, e Charles Sanders Pierce, um pioneiro no estudo da semiótica, num grupo de discussão chamado por eles de Clube M etafísico. Dois anos após escrever aquele registro no diário, James mandou uma carta para o
filósofo Charles Renouvier, que teorizara extensamente sobre o livre-arbítrio. “Não posso perder essa oportunidade de lhe falar da admiração e gratidão que foram inspiradas em mim pela leitura dos s eus Essais”, escreveu James. “Graças ao senhor, possuo pela primeira vez um conceito inteligível e razoável de liberdade. (...) Posso dizer que, através dessa filosofia, estou começando a vivenciar um renascimento da vida moral; e posso lhe garantir, senhor, que isso não é pouca coisa.”
M ais tarde, ele escreveria a famosa afirmação de que a vontade de ter fé é o ingrediente mais importante para criar fé na mudança. E que um dos métodos mais importantes para criar essa crença eram os hábitos. Os hábitos, ele notou, são o que nos permite “fazer uma coisa com dificuldade da primeira vez, mas logo fazê-la de modo cada vez mais fácil e, por fim, com prática suficiente, fazê-la de modo semimecânico, ou com praticamente nenhuma consciência”. Uma vez que escolhem quem querem ser, as pessoas crescem “na maneira como foram exercitadas, assim como uma folha de papel ou um casaco, quando vincado ou dobrado, tende a depois cair sempre nas mesmas dobras idênticas”.
Se você acredita que pode mudar — se faz disso um hábito
—, a mudança se torna real. Este é o verdadeiro poder do hábito: a revelação de que seus hábitos são o que você escolhe que eles sejam. Uma vez que essa escolha ocorre — e torna-se automática —, ela não apenas é real, como começa a parecer inevitável, a coisa, como escreveu James, que nos conduz “irresistivelmente rumo ao nosso destino, qualquer que seja ele”.
O modo como habitualmente pensamos em nosso ambiente e em nós mesmos cria os mundos onde cada um de nós habita. “Tem dois peixes jovens nadando juntos, e eles por acaso encontram um peixe mais velho nadando no outro sentido, que acena para eles e diz: ‘Bom dia, meninos. Como vai a água?’”, disse o escritor David Foster Wallace a uma classe de graduandos em 2005. “E os dois
peixes jovens continuam nadando um pouco; então uma hora um deles olha para o outro e diz: ‘Água? O que é água?’”
A água são os hábitos, as escolhas impensadas e decisões invisíveis que nos cercam todos os dias — e que, pelo simples ato de olharmos para elas, se tornam visíveis de novo.
Ao longo de toda a sua vida, Willam James escreveu sobre os hábitos e seu papel central em gerar felicidade e sucesso. Ele acabou dedicando um capítulo inteiro de sua obra-prima The Principles of Psychology [Os princípios da psicologia] a esse assunto. A água, disse ele, é a analogia mais apropriada para como um hábito funciona. A água “escava um canal para si mesma, que vai ficando mais largo e mais profundo; e, após ter deixado de fluir, ela retoma, ao fluir novamente, o caminho antes traçado por ela própria”.
Você agora sabe como redirecionar esse caminho. Você agora tem o poder de nadar.
11 Pode parecer irracional uma pessoa acreditar que pode vencer a banca num cassino. No entanto, como os jogadores habituais sabem, é possível vencer de forma consistente, principalmente em jogos como o blackjack. Don Johnson, de Bensalem, Pensilvânia, por exemplo, alegou ter ganhado 15,1 milhões de dólares no blackjack ao longo de um período de seis meses a partir de 2010. A banca sempre ganha na soma total, pois muitos jogadores apostam de um modo que não maximiza suas chances, e a maioria das pessoas não tem dinheiro suficiente para continuar apostando e recuperar o prejuízo. No entanto, um jogador pode vencer consistentemente ao longo do tempo se tiver memorizado as fórmulas e estatísticas complexas que orientam