O Retrato de Ricardina

Camilo Castelo Branco · Capítulo 13 de 25

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O Retrato de Ricardina

Capítulo XV · Como o Sentimento da Gratidão Fez um Tigre

 

Uma criada dos Monizes, como desse tino do rebuliço de baús que se arrastavam, fechavam e abriam, e não recebesse aviso nem preceito de calar-se, contou ao outro dia ao seu conversado o acontecido, dando-lhe a entender que os amos ou tratavam de fugir com medo ao Sr. D. Miguel ou então iam esconder as riquezas para lhas não roubar a tropa.

Esta notícia, atravessando em segredo vários ouvidos, chegou aos do abade ao escurecer, já tão aumentada que lhe disseram estar tudo pronto em casa dos Monizes para fugir de noite. O padre Leonardo Botelho de Queirós expediu um urro, e chamou a gritos Norberto e os mais façanhosos réus que tinha refugiados em casa.

— Sois onze homens! — disse ele. — Algum de vocês será tão fraco e cobarde que não se atreva a deitar a mão aos matadores dos lentes de Coimbra que iam beijar as mãos ao Sr. D. Miguel I? Se ai está entre vós algum que tenha medo, pode retirar-se.

— Quem é que tem medo aqui? — perguntou o Torto, correndo com os olhos os dez companheiros, que pareciam indignados da suspeita aviltadora do abade.

— Aqui ninguém tem medo! — bradou o João Rolhas de Midões.

— Pode dizer Vossa Senhoria à vontade o que quer de nós, que estamos às ordens — acrescentou o Isidro Cambado, esfregando as mãos calosas, que davam o som ríspido de duas lixas friccionadas.

Conclamaram todos então com diversos brados as manifestações ruidosas da sua bravura. O abade prosseguiu:

— Saibam vocês que eu esperava amanhã por noite tropa de Viseu para prender os Monizes, que mataram os lentes; mas acabo de saber agora que eles fogem esta noite. Se lhes não acudirmos, amanhã já ninguém os pilha. São vocês capazes de os prender?

— Somos! E é já! — saíram várias vozes da turba.

— Se os prenderem — continuou o padre — , o Governo do Sr. D. Miguel há de saber pagar o serviço que fazem à moral pública, ao trono e ao altar. Os que tiverem crimes serão perdoados, que lho prometo eu, e além de perdoados eu os gratificarei liberalmente.

— Está dito — ulularam os beneméritos das prometidas graças e mercês.

— Nesse caso vão cear, e armem-se.

Retiraram para a cozinha, afora Norberto Calvo, que ficou, obrigado por um aceno que lhe fez o amo.

— Rapaz! — disse-lhe o abade, pondo-lhe a mão no ombro — , entrego-te o comando desta gente. O que ontem dissemos a respeito do Bernardo, torno a repetir-to. Lá tu, como coisa tua, diz aos de Midões que lhe atirem a segurar. O Frazão e o Torto já sabem que a minha vontade é essa. Confio de ti o bom resultado da empresa. Vocês são onze: e eles, além de não serem tantos, nem têm armas nem estão prevenidos. Vai à adega, e distribui aguardente pelos homens, para que vão bem quentes.

— Não é preciso mais nada, fidalgo?

— Mais nada.

— E se os homens quiserem roubar a casa?... Vossa Senhoria bem sabe que tudo isto são ladrões de estrada.

— Deixa-os lá: não te importes com isso. Eu não quero saber lá do que eles fazem.

— Mas, enfim, como por aí os têm visto cá em casa de vossa Senhoria... é mau que eles roubem.

— Lembraste bem, homem! O ódio até me cega que não vejo senão a minha vingança... O que eu quero é o sangue do canalha que me roubou a filha do convento e ma reduziu à sua vil condição, entendes?

— Sim, senhor.

— Vê se tens mão dos homens, caso eles queiram roubar.

— Farei o que puder — concluiu Norberto.

Enquanto os da malta ceavam e segredavam entre si uma visita à burra dos Monizes, que eles traziam desde muito de olho, Norberto, saltando de várzea em várzea, descalço, e lavado em suor da rápida corrida, foi dizer à mãe que avisasse o doutor de que a sua casa era assaltada à meia-noite por dez homens; mas que juntamente com os dez ia ele.

— E não lhe diga mais nada, senão que eu vou também — rematou o Calvo.

Bem informado tinha dito o abade que os Monizes possuíam poucas armas e poucos homens de defesa. Ainda assim eram sete. O teólogo opinou que fugissem imediatamente todos. Contestou Francisco, arrazoando que não havia tempo de carregar baús, nem, se partissem, evitariam que os salteadores alojados na abadia, picando-lhes a retaguarda, se não senhoreassem da bagagem, cuja defesa era impossível por homens mal armados, contra dez facínoras de ofício.

O que a todos afligia era a presença de Ricardina. Bernardo meditava em transferi-la para casa segura na vizinhança. Perto de ali demorava uma família de lavradores e padres, aparentados com os Monizes. O alvoroço de todos não dava largas a discussões. Ricardina, pálida de terror, aceitava tudo contanto que Bernardo se não separasse dela. O teólogo reduziu-a a dispensar-se da companhia do seu irmão, visto que a falta dele perigava muito a defesa da casa. Convieram em sacrificar à necessidade as lágrimas da senhora. Abraçaram-se os dois soluçando ansiadamente.

Saiu o teólogo a levar Ricardina e o velho a casa dos padres, cuja amizade e parentesco, sendo capaz de muitas provas, vacilou em tomar conta da filha do sanguinário abade, cuja notória fereza os atemorizava, e nem eles simpatizavam grandemente com o procedimento da fugitiva noviça. Sem embargo da repugnância, deram agasalho ao velho e a Ricardina, recomendando-lhes de antemão o maior segredo, por medo que tinham da cólera do abade.

Quatro irmãos e três criados eram os preparados defensores. Lembrou o teólogo que se tocasse a rebate na sineta da capela, assim que os salteadores fossem pressentidos. Aprovou-se o alvitre. Acrescentou um velho criado que se incendiassem as medas de palhas que estavam na eira para que as freguesias vizinhas acudissem pensando que era fogo; e argumentavam em pró da sua lembrança dizendo que o povo não acudiria, se soubesse que eram ladrões, e se ficaria a dar tiros lá de longe, socorro que não valia de nada. Pareceu excelente o parecer do criado.

Bernardo encarregou-se de fazer sentinela no ângulo do muro, onde se abria um mirante gradeado sobre o caminho. Por volta da meia-noite, soou-lhe ao ouvido atento uma toada rumorosa de passos e vozes. Deteve-se até divisar os vultos e o lampejar dos cigarros. Acolheu-se então a casa, mandou incendiar as medas e tanger a fogo na sineta da capela. Os salteadores, acaudilhados por Norberto Calvo, estacaram, logo que o rebate e o clarão das labaredas estrugiu e rompeu, simultaneamente.

— Há fogo na casa! — disse Norberto.

— Estamos como queremos! — exultou o Torto. — Eles hão de sair cá fora, e vêm-nos às mãos como coelhos da toca.

— Salta dentro, rapazes! — disse Frazão.

— Tu é que mandas? — perguntou o Calvo. — O patrão deu-me o governo a mim.

— Então que fazes? — disse o temível celerado, apoiado pelos hóspedes do abade.

— Que faço? Estou cá a malucar, que isto não está bom como tu pensas. Daqui a nada está aí povo que se não há de mexer ninguém.

— Isso cá fica pela minha conta — disse um dos sicários de Midões. — Duas balas a cantar-lhe pelas orelhas metem o povo em casa.

— Aqui não há generais nem soldados! — clamou outro da falange em rebelião contra o absolutismo do comando. — Cada qual faça o que quiser; eu vou por aqui.

E, trepando por uma olaia encostada ao muro, saltou das ramadas ao pomar, seguido de todos os seus conterrâneos. Faiscaram duas escorvas nas janelas da casa, e as balas bateram nas parreiras, lascando os caibros.

Os invasores correram a cingir-se com a casa, rodearam-na a coberto da espingardaria, e saíram ao eirado onde ardiam as medas. O rebate continuava, já respondido pelo toque de duas freguesias próximas. No entanto, os três criados da abadia, correndo ao longo da fachada do palacete, entestaram com uma porta estreita, contígua à capela. Os pujantes Frazão e Torto levaram-na às recuadas, quebrando a lingueta da fechadura. Mas, ao entrarem pelo outro lado da eira, afuzilaram três tiros das janelas, e logo o Torto, saltando para trás, disse que uma bala lhe tinha dado na canela. E, ao mesmo tempo, avançando enfurecido, bradou:

— É pr’aqui, rapazes!

Neste comenos, cinco dos de Midões, obedecendo ao conselho de João Rolhas, o mais previsto e afamado em assaltos, remeteram com uma porta, que se lhes figurou a mais fraca. Era, com efeito, a entrada do palheiro. Ao segundo embate as almofadas racharam. Um deles meteu o braço e levantou uma aldraba.

— Não vos disse eu? — gritou o do alvitre. — Atirem fogo cá pra dentro, que o palheiro chega ao teto.

Quatro homens arrancaram gabelas das medas que ainda não ardiam, acenderam-nas nas outras incendiadas, e remessaram o fogo ao palheiro. Norberto Calvo confrangeu-se até à medula dos ossos. Entendeu que o palacete ia arder, e os cercados ou morriam no fogo ou caíam varados de balas, quando saíssem.

— Que é do Calvo? — perguntou o Torto ao seu companheiro.

— Disse que ficava a ter mão no povo, que não chegasse para cá.

— Tem medo, o valentão — observou o outro rindo. — Olha que chefe nos deu o Sr. Abade!

— Estão aqui estão fora da lura — disse o Rolhas inventor do incêndio. — Agora repartam-se vocês pelas portas da casa... Olha como eles perdem tiros! Que bestas! — E notava judiciosamente o de Midões, ouvindo o estampido quase perpendicular, e o chofrar das balas num tanque próximo, onde se espelhavam as labaredas das medas.

O que fizera a zombeteira observação caiu fulminado por um pelouro que lhe vazou o ventre. O tiro não podia ser feito de cima. A pontaria vinha de frente.

— Olha que nos atiram do lado de além! — disse Frazão, apontando para um arvoredo mais entenebrecido aos olhos deles, aproximados das fogueiras.

— Já por ai está povo!

Correram cinco em direção do bosque. Não viram nada. Norberto Calvo internara-se entre uns choupos, a cevar um dos dois canos despejados da sua clavina. Estava contente da pontaria; mas o coração retalhava-se-lhe a cada lufada de fumo que golfava das frestas do palheiro. Pensava ele que Ricardina estava ali; e, no meio dos ímpetos ferozes que lhe saíam à flor da cara em suor de sangue, pedia à Virgem do Céu que salvasse a sua ama.

Já não eram rolos de fumo, senão de chamas, que iam rompendo o sobrado do primeiro andar, estalando os fechais, os bafrotes e o vigamento. Os Monizes e os criados estavam no segundo pavimento, e só repararam do fogo quando a fumarada toldou o ar e lhes ofegou a respiração. As serpentes de lume, já enroscadas nas alfaias do primeiro andar, medravam nas tintas e óleos, crepitando.

Às vezes, pensavam que as portas fendidas a machado abriam fenda ao roldão dos invasores. Enganavam-se. Era o fragor dos móveis a ruírem nas lojas, assim que as traves estalejavam. Os sinos tangiam sem cessar; mas o povo, aconchegado em grupos, nos pontos mais eminentes dos arredores, a cada surriada de espingardaria, lembrava-se dos seus filhos, das suas mulheres, do sossego das suas casas, e recuava até ganhar outro ponto e observação menos arriscado. Ainda assim, os mais audazes despejavam as suas caçadeiras, gritando: “Acudam! Acudam!”

Os salteadores respondiam enviando lá para o escuro de onde vinha o alarido balas não de todo perdidas; porque o silvar de um pelouro nas ramagens do arvoredo era que farte prova de não ser desprezível o socorro, visto que os ladrões o temiam. Entretanto, debandavam os aldeãos, como se desdenhassem da vitória. O posto dos assediados era, só comparável, na aflição, ao de Norberto Calvo.

Bernardo Moniz foi de aviso que rompessem todos ao portão, e arrostassem com os salteadores.

— Morrer queimados — . dizia ele — ou morrer a tiro importa o mesmo.

— Vamos sair; mas não juntos — obstou o médico. — Abram-se a um tempo as seis saídas da casa, e cada qual rompa, não contra eles, que são muitos; mas vamos chamar o povo, que há de socorrer-nos em nos vendo fora. Salvemos as vidas; mas não esqueçamos que estão aí quatro baús com toda a nossa fortuna!

— Depressa, que daqui a pouco estamos asfixiados! — exclamou Bernardo. — Quem nos dá balas?

— Temos pólvora somente — disse o padre, e, apontando para os três criados, continuou: — Estes homens deram mais de cinquenta tiros ao ar. Eu bem lhes dizia.

— De que nos servem as balas? — disse Francisco Moniz. — A nossa salvação é fugir, não é atacar.

Neste lance, ouviram um grande tropel de quem subia a escada de comunicação para a parte da casa por onde as línguas de fogo já espadanavam nas ombreiras das janelas.

— Aí estão! — exclamou o teólogo.

— Fidalga! Fidalga! — ouviram eles gritar.

— É Norberto! — disse Bernardo Moniz.

Era. Era ele, atabafando o lume pegado na jaqueta e esfriando com as mãos as longas barbas crestadas.

— A fidalga? — exclamou ele.

— Não está aqui — disse Bernardo.

— Está fora?

— Está.

— Que fazem os senhores? — disse o Calvo, sacudindo os braços freneticamente, e batendo com a coronha da clavina no tabuado. — Querem aqui morrer? Que diabo de defesa foi esta? Porque não saíram logo que pegou o fogo? Saiam, saiam, pelo amor de Deus ou do Diabo!

— É o que íamos fazer — disse o médico. — Vão abrir-se as portas, para não sairmos juntos; parece-te o melhor?

— Vá então, depressa; que por este lado já mal se pode sair.

— Temos outras portas.

— Então, repartam-se — clamou Norberto. — Sr. Bernardo, havemos de sair juntos, por este lado por onde eu vim.

— Mas tu vinhas a arder... — objetou o estudante.

— Vinha; mas não ardi. Cá me entendo. Logo lhe direi porque vamos por este lado. Vossa Senhoria atire dois saltos assim que passar pelo fogo. Havemos de sair pela porta da capela, que está a arder. É já!

Bernardo acompanhou-o, quase afogado de fumo, e sentindo estalar e gretar lume os degraus da escada. Passaram por um corredor estreito à tribuna da capela, que começava a esboroar-se pelo tabique divisório do restante edifício. A frágil porta, em que o artista alardeara engenho de lavores, sem olhar à robustez, tinha saltado em rachas, batida por uma espécie de catapulta que os inventivos Frazão e Torto arranjaram com o cabeçalho de um carro metido de pontoada à franzina madeira.

— É por ali! — disse Norberto, apontando a porta e levando consigo Bernardo.

— Estão lá dois homens.

— Bem sei... são os criados do abade.

— E eu não tenho arma.

— Nem é preciso. Venha.

O clarão interior mostrou a Frazão e Torto o seu companheiro, que levava pelo braço o raptor de Ricardina. Exclamava Norberto:

— Rapazes, vinde cá! Aqui está o homem!

Os dois criados, pensando que Norberto lhes pedia socorro para o prenderem, entraram, de clavinas aperradas, dispostos a cumprir as secretas ordens do patrão; mas, apenas deram o primeiro passo dentro da capela. Norberto bateu o cão dos dois canos com o intervalo necessário para duas pontarias. O Torto caiu de borco, ao mesmo tempo que o cérebro lhe espirrava à face do outro, que se mantinha em pé cambaleando. Fez ainda fogo Frazão. Norberto expediu um rugido, e cresceu sobre o moribundo, cortando-lhe as veias jugulares a golpes de punhal.

— Foram-se! — disse Norberto, ligeiramente agitado.

— Estou ferido! — disse Bernardo.

— Aonde?

— Neste ombro direito.

— Não há de ser nada. Pode saltar o muro?

— Talvez possa.

— Se não puder, vai às minhas costas.

Atravessaram o vasto pátio. Os restantes salteadores tinham corrido a defender as saídas do outro lado. Ninguém os viu. Chegados à parede, Norberto perguntou a Bernardo:

— Sabe ir de aqui para casa da minha mãe?

— Sei.

— Vá de rastos, se for preciso, para que o não vejam. Vossa Senhoria está perdido, se o abade sabe que ficou vivo. A Sr.ª D. Ricardina há de sabê-lo, e mais ninguém. Fuja por esse mundo fora, senão a Justiça agarra-o. Olhe que eu tinha ordem de o matar, e vou dizer que o vi morto. Se o Sr. Doutor não estivesse ferido, ia já por a fora até Espanha; mas é preciso curar-se; e a Justiça vai dar com o senhor em casa do Diabo. Bata à porta da minha mãe, que há de estar a pé, e diga-lhe que o esconda, que eu amanhã, assim que puder, lá vou ver essa ferida.

Dobrou-se Norberto rente com a parede. Bernardo subiu-lhe às costas, e foi-se alteando ajudado pelo apoio. Vingou dobrar a parede, saltou e foi caminho da arribana.

Assim que o sangue lhe arrefeceu, Bernardo insinuou a mão esquerda entre o seio e a camisa, para sondar o tamanho da ferida. Encontrou banhada em sangue uma medalha, em que se moldurava o retrato de Ricardina. O contacto do sangue, coagulado na frescura do metal, coou-lhe às entranhas um estremecer de supersticioso pavor.

— Não te verei mais, Ricardina? — disse ele entre si.

E de ali até à choupana, nem imagem de irmãos, nem de pai, nem o esplêndido horror do incêndio lhe travaram da alma. Não pensou se os irmãos estariam em luta com os assassinos, se o pai viria caminho das ruínas para lhes abraçar os cadáveres. Via Ricardina; e parava a instantes, perguntando à desvairada alma:

— Porque não hei de ir eu buscá-la?.