O Retrato de Ricardina

Camilo Castelo Branco · Capítulo 15 de 25

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O Retrato de Ricardina

Capítulo XVII · Entre a Demência e a Morte

 

— Conta-me lá isso outra vez, Norberto! — dizia o padre Botelho de Queirós, fechado com o caudilho da jolda no seu quarto. — Então tu mesmo viste.

— Saberá Vossa Senhoria que vi com estes dois o Bernardo a descer as escadas de dentro da capela... sim, as que vêm do coro.

— Bem sei, e nessa ocasião o Torto...

— E o Frazão, que estavam à espreita, cresceram sobre ele. O que eu ouvi cá de fora foi quatro tiros ao mesmo tempo; e, quando entrei lá dentro, estavam todos três mortos. De aí a pedaço desabou o teto e as paredes da capela, e lá ficaram enterrados todos. O entulho tem mais de seis palmos sobre a soleira da porta. Olhe, meu amo — continuou o Calvo, coçando a orelha direita — , o que me levou dos diabos foi ser eles e não eu que matou o tal Bernardo...

— Enfim, o que eu queria fez-se; e a ter ele de matar alguém, antes aos outros do que a ti, que sempre foste o meu homem.

— Isso são favores; mas o que vossa senhoria quiser de mim, ainda que seja ir ao Inferno e voltar...

— Bem sei, rapaz... E também viste o médico?

— Lá estava todo queimadinho como um carvão...

— E os outros? Esses não se lhe põe mais olho...

— Sim, a esta hora onde irão eles?

— Agora, sabes que tens de me fazer um grande serviço?

— Às ordens, meu amo!

— Hás de ir a Coimbra saber onde pára a Sr.ª D. Ricardina.

— E Vossa Senhoria... — Norberto conteve a pergunta, por temeroso de imprudência.

— Que ias tu dizer?

— O que quer que eu lhe diga à senhora? — emendou ele o impulso de perguntar o que queria à fidalga.

— Quero que lhe digas coisa nenhuma. O que tu vais é saber onde ela pára; que eu depois lhe direi onde ela há de ir parar. A Casa da Estopa, no Porto, fez-se para as perdidas da laia dela.

Norberto olhou para o abade, e baixou os olhos coriscantes que podiam atraiçoá-lo.

— Quando quer Vossa Senhoria que eu parta?

— Já, almoça e vai. Monta no macho ruço, que é mais andador.

Norberto recebeu as últimas ordens e partiu para Viseu. Andada uma légua, encontrou os milicianos, cujo alferes lhe perguntou donde era.

— De Espinho — disse ele — , sou criado do Sr. Abade.

— A casa da Fonte é perto de lá?

— Muito perto. Os senhores, ainda que eu seja confiado, vão prender o Bernardo Moniz?

— Que lhe importa a você?!

— É que se vão a isso, escusam de ir, que ele foi morto a tiro esta noite.

— Por quem?

— Lá por uns homens.

— E o Francisco estará lá?

— Também morreu.

— E o padre que também era estudante?

— Desse ouvi dizer que fugiu.

— A diligência há de cumprir-se até voltarmos com a certeza do que este homem conta — disse o meirinho-geral ao alferes.

— Passem muito bem — concluiu Norberto. Chegou a Viseu. Pôs o macho na manjedoura, comprou unguentos num a botica, e por atalhos da serra foi a casa da sua mãe. Era meio-dia. Bernardo Moniz estava sentado na enxerga da velha, que lhe lavava o ferimento: era superficial, bom de cicatrizar sem intervenção cirúrgica.

Norberto, depois de exordiar incutindo ânimo no seu amigo, contou-lhe o restante da tragédia, quanto ao irmão assassinado. De Ricardina disse-lhe que não pudera saber nada. Referiu-lhe o encontro que tivera com a tropa, e terminou deste modo:

— A ferida não presta. Vossa Senhoria esta noite faz jornada, e vai para Espanha. Tenho às minhas ordens o macho em que o patrão me mandou a Coimbra saber onde está a fidalga, porque a quer mandar para a Casa da Estopa. Logo que o Sr. Doutor esteja em Espanha, volto para casa, e digo ao abade que ninguém me deu notícias da senhora. Depois, mando recado à fidalga, e digo-lhe que se prepare que a vou levar ao Sr., Doutor. Vou à cavalariça, aparelho dois machos, e por aqui me sirvo. Logo que chegarmos à raia, mando os machos ao dono, e boas-noites... Lá vou para onde Vossas Senhorias forem.

Bernardo, no apogeu da comoção, beijou as barbas grisalhas de Norberto, e quase caiu de joelhos à frente do incansável valedor, que tantas vezes torcera e partira o grilhão de ferro que o chumbava à sepultura.

Ao cerrar da noite, Norberto voltou a Viseu, apossou-se do macho e voltou a lugar indicado na estrada de Moimenta. Era nado o Sol quando chegaram a Moreirinhas, e ao cair da noite estavam na Praça de Almeida. De madrugada, Bernardo passou a fronteira, e Norberto voltou a Viseu. Chegado à abadia, saiu-lhe ao encontro o padre, exclamando:

— Perdeste o tempo: não podias saber nada.

— Nada, meu amo.

— Ela, a perdida, estava em casa dos Pimenteis...

— Como assim? — acudiu sinceramente espantado o Calvo.

— É o que te digo: de casa dos Monizes passou para a dos padres do Sobral, e de lá para a Reboliça.

— E agora?

— Já os mandei avisar que lá vou buscá-la pelas orelhas, e que se preparem para uma festa como a dos Monizes.

— Oh! cos diabos! que franciscanada! — exclamou o criado, revolvendo no espírito os recursos do seu tão afortunado engenho.

— Quando é a pega? — perguntou ele.

— Ainda não sei: estou a ver o que os Pimenteis fazem de hoje até amanhã. Se ma entregarem, vai de ali debaixo de prisão, com um oficial de Justiça, para o Porto; senão, vamos a eles, que chegou a hora de saldar contas. A eles! — concitou Norberto, esfregando os joelhos.

— Esta gentalha de brasão e sem brasão há de afinal saber quem são Botelhos de Queirós — bradou o padre. — Roubaram-me as filhas? Perverteram-mas, fizeram-lhes odioso o seu pai, que as enriqueceu? Pois bem: hão de pagar-mas caras eles e elas. Enquanto eu tiver gota de sangue, hei de cuspi-lo na cara de quem envergonhou a minha. Oh, se hei de!... Eu sou Botelho de Queirós, por pai e mãe. Vão a Amarante saber como até as mulheres da minha família se vingam ... Os covardes, se começarem nesta ilustre linhagem, não há de ser por mim.

Norberto era auditório indigno do trágico monólogo. Esbugalhava os olhos a ver se lhe atinava com o intento, ou, mais sobre o certo, imaginava o que havia de fazer para arrancar Ricardina de casa dos Pimenteis. O que mais lhe urgia era poder falar-lhe ou conseguir que a mãe a visse. Aproveitando o lanço favorável, enviou a velha à Reboliça. Era já noite. A velha voltou dizendo que todas as portas estavam trancadas. Norberto saiu, fora de horas, e afoitou-se a vizinhar das solarengas torres dos Pimenteis, afortalezadas com duas peças de artilharia e as suas atalaias que sobrerroldavam, na incerteza do ataque. A distância de vinte passos trovejaram-lhe um quem vem lá! Como ele não respondesse, silvou-lhe uma bala por cima da cabeça, escodeando a cortiça de um sobreiro, cujas lascas lhe roçaram as barbas. Desanimou Norberto Calvo, e retrocedeu dizendo entre si:

— Se estes diabos me matavam, quando eu ando aqui só para fazer bem!

Ao outro dia, Sebastião Pimentel, intimados os caseiros para guarnecerem a casa, enviou um mensageiro ao abade com a seguinte nota: “Que D. Ricardina de Queirós já não residia naquela casa. Que o entregarem-na a um pai cego de ódio seria ação reprovada e indigna de Pimenteis. Que o conservarem-na, também impugnava ao seu pundonor. Pelo que, deliberaram enviá-la para mais de cinquenta léguas de distância, e tomavam ao seu encargo dar-lhe os necessários alimentos, no mosteiro onde ela provavelmente ia recolher-se. Dito isto”, concluía Sebastião Pimentel, “as providências estão dadas para resistir aos assaltos, venham eles donde vierem, já que a fidalguia de certos homens os não embaraça de ameaçarem de morte os seus próprios parentes.”

E, em testemunho de verdade, assinavam os três Pimenteis, pai e filhos, o cartel enviado ao neto da senhora de Amarante que matava homens a tiro. Norberto Calvo rodeava ansiadíssimo o patrão, esperando palavra que o elucidasse.

O abade concentrou-se, ponderando o apelo feito à sua clara geração, e sentiu-se brandamente descido da contraditória soberbia dos seus foros. Não respondera ao mensageiro: mas despedira bem galardoados os paladins da sua honra, enviando-os a Midões, com promessas de os proteger diante de el-rei nosso senhor, e redimi-los das culpas que os traziam transmontados e a corso.

De feito, Ricardina, sem leve constrangimento, aceitou o destino que a sua irmã lhe ofereceu; porque bem sabia ela que, passado algum tempo, por força tinha de fugir daquela casa para esconder os sinais da maternidade. Eugénia, subordinada pelo sogro e marido, aconselhou-a a recolher-se num mosteiro de Lisboa, onde as suas desventuras seriam sempre ignoradas, se ela as ocultasse, como lhe convinha. Prometeram-lhe recursos para viver largamente, e quantas diligências pudessem para que o pai lhe perdoasse e a readmitisse à sua estima.

Tudo agradeceu Ricardina: tudo lhe parecia melhor do que a presença do seu cunhado, e as lástimas do tio, que se apercebia de gente e balas, sem contudo espancar o medo de morrer queimado e entulhado nas ruínas do seu solar.

Quando Norberto ouviu o zumbido do pelouro, já Ricardina levava duas léguas andadas, caminho de Lisboa. Acompanhava-a o velho capelão dos Pimenteis na liteira, autorizado a enclaustrá-la no mosteiro mais ajustado ao intento, combinando-se em Lisboa com o seu solicitador de causas, sujeito com família, em cujo grémio Ricardina havia de ser depositada sem dizer de quem era sobrinha, para obstar a esclarecimentos prejudiciais à dignidade de todos e à admissão no mosteiro. Nem esta condição ignominiosa rebateu a quebrantada senhora.

Há uma espécie de insensibilidade, que, ao meu juízo, é o existir intermédio da demência e da morte. A noite, que se faz na alma, não tem orvalho de lágrimas. Sente-se o peso do coração, é bronze que está dentro a estalar as fibras sobre que pesa; mas palpitações não dá nenhuma. O espírito estremece de agonias, que mais parecem paroxismos do arranque final que dilacerações morais. Nesta rara espécie de desgraça, os enfermos estão sempre inclinando-se maquinalmente para a terra, pensando que a terra lhes entremostra o leito do repouso eterno. Tanto lhes faz Deus como lhes fez até àquele derradeiro degrau, donde não há olhos que O contemplem. A Providência perdeu já a força de se fazer sentir. Os que aí chegaram já tinham visto a sua fé conculcada a pés de verdugos, que se dispensavam .de temor divino ao apertarem a corda da asfixia. Se o morrer é beneficência celestial, não há aí outra por amor da qual os desamparados devam pôr as mãos agradecidas. Os que não blasfemam, chegados tão abaixo, são anjos.

Perdoem-me as pessoas muito espirituais, se eu creio enganadamente que a santificação começa na hora em que o padecer amordaça a oração nos lábios, e da tempestade interna já nem sequer relampeja esperança do Céu, nem revérbero das fogueiras inconsumptíveis do Inferno.