O Retrato de Ricardina

Camilo Castelo Branco · Capítulo 22 de 25

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O Retrato de Ricardina

Capítulo XXVI · O Repatriado

 

Nos jornais de Lisboa apareceu o seguinte anúncio: O jurisconsulto que se considerar capaz de auxiliar o trabalho de outro, que se propõe escrever a História da Legislação na Península Hispânica, dirija-se à Rua de S. Francisco nº 6, casa onde reside Alexandre Pimentel. Oferece-se remuneração correspondente ao serviço.

Este anúncio fez rir.

— Não há nada mais pedante! — O sábio a convidar oficiais para o fabrico de uma droga porque as tendas suspiram! — O dinheiro do visconde da Gandarela, a mais sincera carruagem que viu Lisboa, convertido em livros de ciência do direito dos Ostrogodos! Escouceia na tua campa, indignado arcabouço de visconde!

Falava assim o chiste do Marrare, algum tanto mais salgado que o espírito salitroso dos sábios não poluídos em botequins. O primeiro homem que acudiu ao convite era um sujeito de cabelos brancos, feições indicativas de juventude gentil, bem assombrado, modestamente vestido. O anunciante recebeu-o afavelmente; e do interrogatório delicadamente feito inferiu que o concorrente era bacharel em Direito, e advogado nas possessões portuguesas de África desde 1829 até 1851, época em que voltara para Portugal.

Explicou-lhe Alexandre o seu plano de trabalho. As observações do pretendente denunciaram ao jovem que o sujeito não era hóspede em pontos pouco versados na advocacia.

— Onde fez as suas leituras? — perguntou Alexandre.

— Nas bibliotecas fradescas de Luanda.

— Transferiu-se Vossa Senhoria a Luanda provavelmente emigrando em 1828?

— Sim, senhor.

— E não quis voltar logo que a liberdade foi restaurada?

— Inércia, indiferença e esperança nenhuma. Retirei há um ano, porque as doenças climatéricas me impossibilitavam de advogar.

— Ainda não tive o prazer de saber o nome de vossa Senhoria.

— Paulo de Campos.

— Onde reside?

— Num hotel particular, Rua Augusta, nº 52, terceiro andar.

— Quando quer o Sr. Campos começar a auxiliar-me?

— Quando Vossa Excelência ordenar.

— Seja amanhã, se lhe não desconvém. Desde as nove da manhã até depois do meio-dia; e, se lhe aprouver, reservaremos algum pouco da noite para praticarmos em assuntos adequados ao nosso empenho. Permita-me dizer-lhe que reputo este auxílio no valor de cem mil réis mensais.

— É mais que generosa remuneração.

— Sr. Paulo de Campos, até amanhã.

Saiu alegremente o advogado do ultramar, e foi ao hotel, onde o esperava um velho que representaria 68 a 70 anos.

— Dá-me os parabéns, Norberto! — disse Bernardo Moniz.

— Arranjou-se? — exclamou o Calvo com jovial aspeto.

— Melhor do que eu pensava... Cem mil réis por mês! Olha tu o que aí vai de dinheiro, e em que ocasião Deus se compadeceu de nós!... Já não é necessário vender o teu diamante, ouviste? Guarda-o para os teus sobrinhos. No mês que vem já temos dinheiro para ires à Beira saber o que é feito de tanta gente. Dos meus sei eu que tudo está morto, e que o meu irmão mais velho vendeu as poucas terras aos dois irmãos do Brasil. Tive hoje um casual encontro com quem mo disse.

— Mas a riqueza que há de estar nas ruínas da casa? — observou Norberto.

— Sobre as ruínas da casa levantaram meus irmãos um palacete. A quem pediremos nós os baús do meu pai?! Meu amigo, convence-te de que o teu Bernardo apenas vive na tua alma; que para tudo mais morreu. Não me fales em riquezas... Diz-me somente que busque agenciar o teu pão e o meu. A mim que me servia hoje ser rico? Velho, sem nome, sem parentes, sem amigos... A morte não me quer.

— Que a leve o Diabo! Se eu não arranco Vossa Senhoria de Luanda, lá esticava a canela com trinta milhões de... Isto aqui sempre é terra de gente! Vossa Senhoria não tem ido passear por essas praças? Anda só metido pelos cemitérios a julga que topa a sepultura da Sr.ª D. Ricardina, lá porque o degredado de Midões lhe disse em Angola que os Pimenteis a tinham mandado para Lisboa! Valha-o Deus, Sr. Doutor! Tanto tem chorado há vinte e quatro anos, e tem sempre que chorar! Aqui estou eu agora...

— Estás aí tu agora também com as lágrimas nos olhos...

— Pois que quer?... Aquela minha adorada menina!... Se houvesse Deus, ela não tinha morrido assim... Isto de religião é uma história, Sr. Doutor. Eu, se soubesse ler — acrescentou ele com blasfema raiva — , havia de escrever que não há Deus, nem Céu, nem Inferno...

— Não digas sandices, Norberto — interrompeu Bernardo. — Não vês a Providência bem sensível na fortuna que eu tive de encontrar trabalho, onde estava receando tocar a indigência?

— Isso é verdade...; mas diz lá o ditado, e queira Vossa Senhoria perdoar, burro morto... sim... depois que a fidalga morreu, e morreram seus irmãos, e o seu pai, e vossa senhoria que penou tantos anos, é que lhe aparece... e que lhe aparece?... Trabalho. É grande fortuna, não tem dúvida!... Se lhe aparecesse dinheiro, sem trabalhar, ainda está feito... E os patifes que vivem regalados sem trabalhar, têm outro Deus? Se o têm, o nosso não é melhor, cá em quanto a mim!

— Estás hoje ímpio, meu sargento!... Olha que não vai isso bem às tuas barbas! Trata agora de comer e beber, e não te zangues. Deixa rolar o mundo debaixo do pé de Deus, que vai bem. E, se vai mal, Quem assim o fez, pode melhorá-lo quando quiser.

— Então que melhore! Essa é que é cá a minha birra! Então que espera Deus? Não faz favor de me dizer?

— Manda vir o jantar, Norberto; a tua impiedade é fome, penso eu.

No dia seguinte, Paulo de Campos anunciou-se ao marido da viscondessa da Gandarela. Foi introduzido numa espaçosa biblioteca, onde, pouco depois, entrou Alexandre. Conversaram largamente sobre variados assuntos. Mostrou o literato a suma dos seus trabalhos já feitos e os vastos apontamentos indiciativos do muito que restava elaborar.

Paulo de Campos, maravilhado, perguntou:

— Que anos tem Vossa Excelência?

— Vinte e dois e alguns meses.

— Quando se formou?

— Em 1850.

— Deve ter estudado prodigiosamente! Acho em extremo temporãs as suas tendências para tão graves estudos! É de supor que a Universidade atual facilite a ciência, mais francamente do que no meu tempo, em que os mais aplicados raro transcendiam os limitados horizontes do compêndio.

— Em que anos frequentou Vossa Senhoria? — perguntou Alexandre.

— De 23 a 28...

— 1828? — atalhou o escritor com veemente interesse. — Então foi contemporâneo daqueles desgraçados que mataram os lentes?

— Sim, senhor.

— Conheceu alguns?

— Quase todos.

— Lembra-se dos nomes?

— Talvez... Conheci o Reis, o Mansilha, o coiceiro, Matos, o Carneiro, e outros.

— Vejo que se lembra dos que morreram enforcados; mas alguns fugiram.

— Assim ouvi dizer.

— Dos que fugiram, conheceu o Moniz?

— Sim, senhor.

A fisionomia de Paulo de Campos resistiu aos movimentos do coração.

— Conheceu-o? Tratou-o pessoalmente?

— Creio que sim... É vivo?

— Nada, não: mataram-no; mas motivos de outra ordem, segundo se conta. Queira dizer-me: Vossa Senhoria nunca pensou na possibilidade de reabilitar a memória desses infelizes doidos?

— Penso que a maior esmola que pode fazer-se à memória deles é esquecê-los. E vossa Excelência julga outra coisa, ou tinha algum interesse em reabilitá-los? Seria, porventura, parente de algum?

— Nada, não tenho pensado nisto, senão como compadecido de tão infausta sorte de homens na flor da vida! Morreram pela redenção da liberdade, e nem a bandeira misericordiosa da liberdade baixar-se a defender-lhes as cinzas!... Parece-me atroz!

— De maneira que vossa Excelência é um anjo no meio desta sociedade que, a meu ver, nunca perdoou nem perdoará jamais aos desatinados jovens que desfizeram as espadas em facas de sicários!... A liberdade não pode absolver algozes.

— Mas tenho ouvido dizer que alguns penaram inocentemente.

— Os enforcados?

— Sim.

— Penso que não. Creio, porém, que nem todos os fugitivos tiveram de lavar as mãos ensanguentadas.

Alexandre reteve uma pergunta que poderia preparar outras perigosas. Mudaram de assunto, e despediram-se para se reunirem à noite. Prosseguiram nas suas lucubrações por espaço de quinze dias. Alexandre tinha no seu colaborador um auxílio inteligentíssimo e, além de tanto, ainda um simpático amigo.

Ao décimo sexto dia, Paulo de Campos não chegou às horas; mas enviou Norberto. Calvo com uma carta em que se desculpava com o seu achaque de fígado, que o não deixava sair. Alexandre Pimentel foi imediatamente visitá-lo. Estava o enfermo sentado no leito, quando o seu amigo entrou conduzido pelo velho das grandes barbas.