O Retrato de Ricardina

Camilo Castelo Branco · Capítulo 18 de 25

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O Retrato de Ricardina

Capítulo XXI · Vantagens de Cinco Prémios

 

Para lá vamos, disse Alexandre Pimentel.

Foram. O bacharel formado requereu uma delegacia, documentando a petição com as cinco certidões dos seus prémios. Esperado — respondeu o ministro da Justiça. Requereu um lugar subalterno na Secretaria do Reino. Esperado — respondeu o ministro do Reino. Requereu pela Marinha a diretoria de uma alfândega no ultramar; requereu por todas as repartições, desde auditor até escrivão de direito. Esperado: era o escarro que expectoravam os ministros nos diplomas de Alexandre Pimentel.

D. Ricardina estava pobre. Moravam num quarto andar da Rua dos Calafates. O casaco de Alexandre mostrava as coçadas costuras. A senhora não ia à missa à míngua de sapatos. O filho, beijando as lágrimas da mãe, dizia-lhe:

— E os meus prémios?... Se o pergaminho tivesse mais consistência, fazíamos sapatos dos diplomas, minha mãe... Não chore, não chore, que eu amanhã começo a ganhar um cruzado.

— Em quê, meu filho? — acudiu a mãe.

— Vou ser revisor e tradutor num jornal político. É trabalho de noite. Depois, assim que puder vestir-me, vou praticar advocacia; e, assim que souber vender conselhos e tirar ladrões e assassinos das garras da Justiça, a minha posição e a sua melhoram.

Assim aconteceu, quanto à primeira parte do seu programa. De tradutor e revisor, ao fim de quinze dias, afidalgou-se com o foro grande do artigo de fundo. Rebateu a política do Governo, num ponto controvertido de direito prático, obtida prévia licença do redator-em-chefe. Os seus artigos, remunerados pela admiração geral, e vitoriados pelo silêncio dos contendores, fizeram o prodígio de lhe erguer o estipêndio a novecentos e sessenta réis diários!

Alexandre, entregando a sua mãe as primeiras seis moedas, das quais deviam duas na tenda e duas no empenho de alguns cobertores, exclamou:

— Abençoados diplomas! Neste país só é pobre quem não teve cinco prémios na Universidade!

D. Ricardina chorava porque os olhos do filho reluziam envidraçados de lágrimas. Ao segundo mês, Alexandre vestiu-se na Rua dos Algibebes, e obteve advogado famoso que o admitisse à prática. Frequentou o escritório assiduamente três semanas, e não voltou.

— Porque não vais, filho? — perguntou D. Ricardina.

— É vida que me não serve, minha mãe. A moeda que se bate no balcão dos curadores da Justiça queimar-me-ia os dedos. A minha ambição fica muito aquém da infâmia que entesta com a mediania. Imaginemos que seis moedas mensais são a riqueza de uma consciência sossegada. Vivamos assim... Ando agora a pensar em escrever livros. O pior é que não tenho uns que me era necessário ler... Começo amanhã a ir estudar na Biblioteca, onde se lê de graça.

— Mas que livro vais tu escrever, filho?

— Eu sei cá! A história universal do mundo, e de outras partes mais.

— Isso é graça, Alexandre!

— É desgraça, minha mãe!

Começou o bacharel a folhear livros enormes na Biblioteca e a respigar apontamentos para um livro que devia intitular-se: Legislação da Península Hispânica. Um seu condiscípulo, a quem ele comunicou o intento, avincou o nariz profético e disse:

— Ninguém te compra isso.

— Não?

— Palavra que não!... Sabes fazer novelas?...

— Eu sei cá!... Novelas!

— Se não sabes, traduz do francês. Era empresa de dar dinheiro uma tradução barata das obras completas de Paul de Kock, em voluminhos de oito vinténs. Pode ser que eu te arranje editor aí a quatro moedas o volume, se não puderes publicar pela tua conta.

— Obrigado! — disse Alexandre — não me despeço do favor.

Sem embargo, continuou a coligir subsídios para a Legislação da Península Hispânica, e a escrever artigos que os acionistas da gazeta começavam a classificar de maçadores razão de muito recheados de erudição e borbulhas em latim que comiam na paciência de quem lia. Avisaram-no os colegas.

Alexandre lembrou-se de que tinha mãe. Aceitou a correção, e expurgou os seus artigos de latim, e de tudo que trescalasse à podridão da sabedoria. Deram-lhe os emboras pelo progresso, e aumentaram-lhe quatro mil e oitocentos réis à mensalidade.

— Minha mãe! — exclama ele — já sei como se vai ao Potosi, sem sair da Rua dos Calafates. À proporção que eu me for bestificando, aumentam-me o salário. Peça a Deus que me faça trevas na cabeça com a rapidez com que fez a luz. Ó malditos diplomas, que viestes provar que eu não era um parvo! Onde estaria eu agora, se esses cinco papéis não trouxessem estampada a minha incapacidade! Cada nova prova de tolo que eu for dando rende-me oito vinténs por dia!

Começava-se a nomear o incógnito redator de certa gazeta. Grassava o boato de que ele era uma singular criatura que lia as obras dos historiógrafos de Espanha do século XI, em latim! Os que falavam piormente português chamavam-lhe excêntrica, talento aproveitável que se estava abastardando em leituras capazes de encruar o estômago de um ogre. Os seus contemporâneos filhos de Lisboa, tinham-se desviado dele; porque é lícito a todo o homem cortar as suas relações com pessoas mal enroupadas num casaco indicativo de precisar reforma. Não no faziam por mal: é costume de Lisboa, à competência com as usanças de toda a terra em que o pano coçado, se bate de chapa nos olhos, é mais oftálmico do que as flechas ardentes do Sol a pino.

Depois que ele saiu melhormente aforado do algibebe, e ganhou nomeada de estilista enérgico e polemista respeitável, os seus condiscípulos atravessavam do Marrare para em frente a saber da sua saúde.

— Vou bem — dizia ele.

— Olha que tens já um nome! — encarecia-lhe o alvitrista de Paul de Kock.

— Tenho já um nome?

— Tens.

— Ainda não é bem o nome que eu preciso. Há certos tolos encartados que me não deixam subir.

— Que ratão! Onde vais? À Biblioteca?

— Vou.

— Olha se estudas os olhos daquela viuvinha, e deixa os bacamartes... Aquilo é que é livro. Tem duzentos contos. Não a conheces?

— Eu conheço lá ninguém que tenha duzentos mil réis?

— Que ratão!... Aquela viúva é a viscondessa da Gandarela. É osso que traz cem cães à volta dela.

— E tu? És o número noventa e nove?

— Que ratão! Eu não lhe faço a corte.

— Ah! não? Querias por isso que os cães fossem cento e um para te distraíres, não é isso? Adeus... Cá vou ver a viúva da matilha.

— Que ratão!