O Retrato de Ricardina

Camilo Castelo Branco · Capítulo 8 de 25

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O Retrato de Ricardina

Capítulo IX · Até que Enfim!

 

Bernardo Moniz estava em Coimbra desde a abertura das aulas. A vontade suplicante de Ricardina demudara-o do intento de enclaustrar-se. As palavras “não sei o que me diz o coração...”, da última carta dela, rasgaram-lhe horizontes donde bafejavam auras de esperança.

Dizemos a “última carta” das que o leitor conhece. Há outras, porém, escritas no Convento das Chagas, e enviadas por mediação de certa freira, irmã de um condiscípulo de Bernardo. A correspondência ligou-se regular e de todo insuspeita. Os espias do padre não descortinaram o segredo nem se empenhavam zelosamente nisso; antes se espantavam de que o soberbo e contraditório pai da menina lhe impedisse o casamento com um dos mais ricos jovens da Beira.

Na linguagem de Ricardina transluzia sempre aquele moderado entusiasmo que não inculca paixão superior à temperatura da íntima estima. A de Bernardo Moniz, com breves intercadências de resignação, era, pelo ordinário, arrebatada. Insistia ele agora em tolher-lhe os votos, facilitando-lhe planos de fuga, mas ela, perdoando às instâncias do amor desvairado, tinha-lhe enfim rebatido a pertinácia, escrevendo que lhe seria menos doloroso fugir de casa que do mosteiro, onde sua mãe se encerrara. Conformou-se o académico durante alguns dias; mas vencida a prudência pela saudade, renasciam os queixumes e propósitos de se recolher ao Buçaco.

A notícia da perigosa enfermidade de D. Clementina, atuando sobre aquela espécie de lacerante egoísmo de Bernardo Moniz, desentranhou-o de si para o converter todo a compadecer-se de tão afligida menina. Consolativas foram então as suas cartas. As expressões eram fagueiras como as do irmão já adulto que distrai e acaricia a irmãzinha chorosa à beira do esquife da sua mãe. À notícia da morte de Clementina, seguiu-se o silêncio de duas, semanas, bem que a freira, escrevendo ao irmão, lhe pedia, que explicasse ao seu amigo o silêncio de Ricardina, forçado pela doença e mais ainda pela incessante companhia das religiosas, que se revezavam ao pé dela, noite e dia.

Prosseguiu a correspondência depois com a mesma regularidade. Os sentimentos da noviça eram já diversos quanto a professar. Tinham feito grande abalo no seu ânimo as derradeiras palavras da mãe: “espera” quando acabava de louvar o exaltado amor de Bernardo. Facilmente pensou a filha que vinham inspiradas do Céu as ordens da moribunda, santificada por vinte anos de secretas angústias, a tempo que todos a julgavam tão criminosa quanto feliz. Deliberada, pois, a protrair os votos, enquanto, pudesse. Ricardina referiu a Bernardo as palavras da mãe e a promessa de ir rogar a Deus que os unisse. Reanimou-se o académico.

No princípio de Fevereiro daquele ano de 1828, o abade de Espinho passou em Lamego, caminho de Amarante, onde tinha o irmão morgado. Procurou a filha, disse-lhe benignamente que lhe perdoava os desgostos recebidos por causa dela, e contou que ia espairecer com o seu irmão, por sentir-se morrer na solitária residência da abadia. No objeto da profissão disse que o mundo ainda podia dar muitas voltas. Ricardina decifrou do misterioso destas possíveis voltas do mundo que o seu pai se ia amolecendo a favor de Bernardo, quer por eficácia das orações da sua mãe, quer por se ter desavindo com Eugénia. Assim o comunicou a esperançada menina ao estudante.

Corridos quinze dias, voltou de Amarante o padre, acompanhado de um sobrinho, filho segundo do seu irmão. Chegados a Lamego, seguiram para o convento. O abade apresentou à filha seu primo Gaspar Botelho de Queirós, que ela ainda se lembrava de ter visto na infância em Espinho. Sucedeu à visita da apresentação a da despedida. Iam ambos para a Beira. Isto nem levemente insinuou desconfianças em Ricardina. Mas, passados dias, recebeu ela, incluída na carta do pai, uma do seu primo Gaspar, recheada de galantarias e devaneios de um coração amante. O abade pelo seu lado, confirmando à filha o conteúdo epistolar do sobrinho, significava-lhe o desejo e a deliberação feita de a ir buscar ao convento para os casar, logo que a dispensa viesse da nunciatura.

Foi embate que desvairou o espírito sereno de Ricardina, tão forte e discreta em mais apertados conflitos! Revelou a Bernardo as desventuras sobrevindas quando começava a criar esperanças; pedia-lhe que a não julgasse capaz de faltar à sua palavra. E dado que o pai a quisesse tirar do mosteiro não sairia; e, se a prelada e o bispo a mandassem obedecer, então fugiria para onde o esposo da sua alma quisesse. Explosão de fogo que o cegou! Não precisava o académico de outro aviso. Dispensa-se de esperar que as condições estipuladas se realizem. Rasga com jubiloso delírio o véu do segredo aos seus irmãos. Não os consulta nem quer conselhos. Comunica-lhes a sua felicidade e agasta-se porque os vê melancólicos. O médico receia resultados funestos; o teólogo acha imoral o feito da fuga e abominável a profanação do mosteiro. Refuta-os o jurista: ao primeiro impugna com o mistério em que há de ficar o destino e paragem de Ricardina; ao teólogo apoda-o de ignorar o que seja profanação, não pensando ele em pôr pés debaixo dos tetos sagrados da clausura.

Procura o condiscípulo confidente das cartas. Pede-lhe fervorosamente proteção como se nisso lhe fosse a vida. Consegue senhorear-se de uma quinta convizinha de Lamego, onde o amigo tem caseiros. Ao mesmo tempo circunvaga nos arrabaldes de Coimbra em pesquisa de uma casa bem insulada, e cingida de arvoredos. Por terceiras pessoas de segura confiança aluga a mais apropositada vivenda à orla esquerda do Mondego. As árvores estão nuas e tristes, o rio vai torvo, as aves não cantam quando o céu está em luto. Aquilo é inspirativo de fastio e amargura; mas o seu delírio deleitou-lhe magicamente o que dias antes lhe pareceria estância de degredo. Não há senão dois criadores: Deus e o amor. Mobilado o prédio com as melhores alfaias que um, seu confidente escolheu, partiu para a quinta suburbana de Lamego. Ao mesmo tempo eram avisadas a irmã do académico e Ricardina. A noviça esperava algum lance arrojado; mas muito aquém da temeridade realizada. Trespassou-a frio e febre de medo. Queria ofender-se da precipitação do passo, e mandá-lo sair de tão perto do convento; mas o coração reprovava as demasias de tão severa prudência. Propriamente a freira se admirava do hiperbólico juízo da sua amiga, malsinando-lhe de ingratidão caprichosa o desamor com que respondia aos tratos do pobre jovem. E a falar verdade, Ricardina gostava de ser repreendida para se ir compenetrando do pesar de ingrata.

Graças ao poder da sensibilidade, respondeu cordialmente a noviça ao ditoso Bernardo; todavia não se dispensou de lhe reprovar a vinda intempestiva, segurando-lhe que somente fugiria na extrema certeza de ser levada do convento para casar com o primo. A condição verificou-se depressa. Anunciou-lhe o pai, irritado pelo silêncio dela, que se, preparasse para sair no prazo de oito dias. O remate da carta merece traslado: “Quero castigar tua irmã mostrando-lhe que és mais rica e feliz que ela. Hei de comprar-te um palacete em Viseu, e dar-te sege. Passarás com o teu marido lá o Inverno, e eu, que hei de brevemente ser nomeado deão da Sé, irei também para lá. Faz-me a vontade sem me desconsolar com as tuas criancices; que tu me dirás ainda que és a mulher mais afortunada do mundo. O teu primo Gaspar é a bondade em pessoa, e jura-me que nunca hás de arrepender-te de ser sua esposa”, etc.

A fuga estava delineada. Encarregara-se a freira do traçado por ter recolhido as tradições de deserções, mais ou menos antigas, daquele colmeal de virgens cansadas de fabricar mel para os anjos. De Ricardina todas as religiosas formavam conceito sem laivo de desconfiança. Deixavam-na as superioras deter-se na cerca até noite, suavizando-lhe as asperezas claustrais, já pelo afeto que lhe tinham, já por devoção com a memória da mãe, e não menos pelo empenho de verem o seu hábito franciscano vestido em menina tão luzidamente aparentada.

A cerca tinha uma porta da serventia do hortelão e outra dos carros. A evasiva era fácil por ali, à hora em que o pomareiro, ocupado no seu lavor, deixava descuidadosamente a chave na porta do seu uso. Prevenido do dia e hora, Bernardo Moniz transferiu-se de noite, de S. Sebastião de Arneirós para Lamego, onde o condiscípulo preparara a resguardada hospedagem. Grande parte da manhã do dia aprazado, passou-a Ricardina ajoelhada na claustra à beira da campa da mãe. Lá se ajoelharam de par com ela as mais reformadas franciscanas, aguardando entreaberta de a consolarem. Assistiu ao refeitório sem tocar na sua ração; ouviu ler as piedosas admoestações no púlpito, concernentes às delícias da virgindade e da magnificência com que o divino esposo esperava no paraíso celestial as suas esposas.

Às quatro horas abraçou a sua amiga, cujas lágrimas borbulhavam dignas da saudade da outra. O frio era glacial; mas Ricardina, com o rosto e o coração em fogo, se tiritava, era de medo. Anoiteceu. A demora da noviça impressionou a prelada, unicamente receosa de algum acidente. Mandou as criadas acerca, a tempo que o hortelão vinha perguntando se faltava alguém, porque encontrara, ao sair, a porta aberta. Estrondeou grande e confusa grita no mosteiro. Espreitaram-se os recantos todos da cerca. O espanto não dava lugar a nenhum outro sentimento. Ia-se já virando do avesso o bom nome da noviça no espírito da comunidade. Até certo ponto era natural a mudança. As freiras ecléticas, quer dizer, as que tinham um poucachinho de crítica e filosofia para entenderem que o bem e o mal estão ouro fio na condição humana, diziam que Ricardina era filha do abade de Espinho, e herdara o pecado da mãe, esperando talvez a idade própria de lhe herdar a contrição. As místicas propendiam a crer que andava influência demoníaca naquele sucesso, bem como em outros mais feios de que a memória lhes não era esquiva.

Como quer que fosse, a indignação monástica recresceu, e logo naquela mesma noite se enviou aviso ao prelado, ao corregedor e ao juiz de fora. Todos os avisados dormiram a trancos, até que no dia seguinte se começaram a mexer as justiças seculares e eclesiásticas, mandando devassar no convento e vizinhança. A devassa tirou a limpo que, por volta de onze horas da noite, um barco atracado em frente da Régua recebera duas pessoas e derivara rio abaixo, a quatro remos. O corregedor avisou os parentes da noviça, e estes fizeram um próprio ao abade, como a pessoa idónea para rastrear a peugada dos fugitivos.

Quando o próprio chegou a Espinho, estavam Bernardo e Ricardina em Vila Nova de Gaia, esperando transporte — o rápido transporte da caleça — para Coimbra. Ao fim do segundo dia de viagem, apeavam nos Fornos, e entravam cavalgando jumentos, por veredas mal trilhadas entre matas de pinheiros, caminhando a sul, para onde os guiava o académico irmão da religiosa, desde que apearam da caleça. Ricardina entrou na casa triste à margem do Mondego. Bernardo ajoelhou-se aos pés dela, que se assentara quebrantada num canapé. Tomou-lhe as mãos regeladas, aqueceu-as no ardor da sua respiração e disse:

— Nunca te hás de arrepender, esposa da minha alma?

— Não, meu querido amigo — respondeu ela firmemente.

— E se a desgraça te perseguir?

— Tu me defenderás... Pois a desgraça não estará cansada?

— Que pergunta! A desgraça cansada! Teria ela come.