O Retrato de Ricardina
Capítulo V · Mãe e Filha
Volvidos quinze dias, o académico passou em frente da residência, caminho da sua casa, com os seus dois irmãos. O abade atravessava o terreiro intermédio da igreja e residência. Viu-os. Voltou a cara, quando o cortejaram, e não respondeu à urbanidade dos jovens. Francisco, o terceiranista de Medicina, disse a Bernardo:
— Vou sacudir-lhe o chapéu com a cauda do macho.
— Não — acudiu o irmão — , peço-te encarecidamente...
— Este clérigo devasso... que mal lhe fizemos nós? — murmurou o indócil Francisco Moniz, já provado em proezas coimbrãs.
O padre não o ouviu. Seria perigoso ouvi-lo. As antigas clavinas da defesa da residência eram brunidas mensalmente e experimentadas no alvo em que os criados se exercitavam. A colérica admiração do médico denota que Bernardo ocultava dos seus irmãos a carta de Ricardina, e as iras do pai.
No mesmo dia da chegada, o jovem, insensível aos contentamentos da família e lembranças da infância, que tão doces lhe despontavam os espinhos da saudade nos antecedentes anos, procurou disfarçadamente a mãe de Norberto Calvo, consoante Ricardina lhe recomendara em segundo aviso. A prevenida velha recebeu uma carta e foi de noite em demanda do filho, que de clavina sobraçada circuitava o muro do passai, segundo as renovadas e mais urgentes ordens do abade.
Moniz respondia a sabor da sua desesperação. Nenhum expediente se lhe oferecia, mediante o qual saísse com o intento de senhorear-se airosamente de Ricardina. Tinha contra si o pai dela e o seu próprio pai, homem ignorante da corrupção dos costumes, e conhecedor tão-somente de um enorme escândalo: — a vida do abade. Para Silvestre da Fonte as filhas de Clementina eram... filhas de tal mãe. Que Deus livrasse algum dos seus rapazes de tentação matrimonial com alguma das filhas de coito danado! O possante lavrador, morigerado pela riqueza, já tinha dito que de má vontade daria o seu Bernardo à filha de Sebastião Pimentel, por ser prima das outras. Com quanta mais repugnância o não daria à filha de um abade!
Portanto, a saída única e desafogada em tal angústia era a fuga, enlace mais vulgar então do que hoje. Naquele tempo, o transferir judicialmente uma noiva da casa paterna para outra era coisa de costa acima, se os executores da lei tinham de tê-las com pais de sobrado alto e brasão na padieira da porta. A lei encolhia-se de medo; e as meninas, postas em extremidade, fugiam. Agora, esta coisa chamada rapto em obséquio ao pudor das voluntárias fugitivas é ave rara que vai passando à fénix dos fabulistas. Graças à pontualidade do juiz e do escrivão do bairro, hoje em dia, donzela que foge para casar não tem desculpa nenhuma, salvo se os seus espíritos romanescos a fazem desadorar vulgaridades.
Não assim a filha de Clementina Pimentel. Ricardina negou-se às insinuações de Bernardo, recusando anuir ao plano da fuga. Explicava-lhe o seu grande amor sem a ruim prova de algum acto indecoroso: queria morrer, amando-o; mas abençoada de Deus e da sua mãe. Iria para o convento, logo que o pai mandasse, e de lá; enquanto pudesse, lhe iria dando contas da sua vida.
Tão louvável resposta não demoveu Bernardo Moniz. As inferências que ele tirou alancearam-lhe coração e amor-próprio. Não há mais desconfiadas almas que as prevenidas contra o desdém da sua baixa origem. Desconfiadas e orgulhosas. Entrou-o logo a suspeita da má-fé e mal simulada astúcia de Ricardina. Arrependera-se, ou ofendera-se da proposta irreverente do plebeu; lembraram-lhe ou lembrou-se de o conhecer a guardar ovelhas; cedeu às instâncias do pai ou às seduções do primo; como quer que fosse, não o amava. Tais eram e tumultuavam as hipóteses no ânimo do filho de Silvestre Moniz, mais conhecido e sempre conhecido, a despeito de quinhentos contos, pelo tio Silvestre da Fonte. Replicou alucinadamente o académico às sinceras esquivanças da menina. Explanou os tópicos comuns dos ofendidos na sua plebeia vaidade; porque é singular coisa ver assomar-se em arrogâncias de ter nascido povo, propriamente aquele que reprova a filáucia do fidalgo. E então, nisto de amoricos de corações desiguais quanto ao sangue, há uns fumos de altivez agastadiça no homem de baixa estofa, que é preciso muita caridade sobre a paixão requintada da mulher que o atura.
Ricardina chorou quando leu as acusações iniquíssimas. Desde ingrata e cruel até desvanecida e pérfida. Esgotou Bernardo o vocabulário das fúrias do ciúme. Redarguiu o paciente anjo, aprazando-o para lhe fazer justiça com estas comoventes expressões: “Quando eu estiver no convento, meu amigo, tu me pedirás perdão. Desde já te perdoo...” Caiu em si o desatinado jovem. Remediou o mal feito, saneou-lhe a chaga com o bálsamo das lágrimas. Que importava! Ricardina insistia em não fugir de casa. Apuros de tanto decoro não condiziam com o exemplo da mãe, cujo passado as filhas adivinharam, desde que no livro dos batismos descobriram que não tinham pai, ou, se o tinham, chamara-lhe incógnito o abade, sendo ele, que a si mesmo se desconhecia, o redator do assento!
Quinze dias, os que restavam ao prazo assinado pelo padre, passaram rápidos. Ao fim do décimo quarto. D. Clementina disse à filha:
— Ricardina, faz amanhã um mês...
— Bem sei, minha mãe.
— Já pensaste no que hás de dizer?
— Já, minha mãe. Há muito que estou decidida. Quando o pai quiser, irei para o convento.
— Que me dizes, filha?! Pois teimas...
— Não teimo nada... Casar com o primo Carlos não posso. Com o Moniz não quer a mãe que eu case. Que hei de eu fazer? O pai determinou que eu fosse para o convento... vou.
— Mas, olha, filha, vai entretendo, pede mais algum tempo.
— Não sei para quê... Afinal, quanto mais tempo estiver a enganar o pai, mais ódio ele me ganha. O melhor é ir já. Levo muitas saudades da minha mãe e da minha Eugénia; hei de chorar muito; mas o que vale é que a minha vida tem de ser curta.
— Não é de nós que tu levas saudades... — invetivou a mãe com ingrato ânimo e sorriso amargo. — As tuas saudades ficam onde deixas o coração.
— Está enganada, minha mãe — balbuciou Ricardina. — Sou muito amiga de Bernardo; mas sou mais ainda da minha família. Se o não fosse... poderia dar algum passo que lhe causasse muita pena.
— Qual passo? — acudiu D. Clementina, como quem conhecia experimentalmente os passos usuais em lances análogos. — Que havias tu de fazer? Fugir?
A filha não respondeu às instâncias iradas da mãe.
— Fugir?, responde... Tu pensas que o Bernardo, se praticasse essa infâmia, vivia vinte e quatro horas? Não sabes o pai que tens, nem o filho do Silvestre da Fonte conhece Leonardo Botelho de Queirós! Matava-o, tão certo como dizer-to eu; e a ti, desgraçada, não sei se te seria melhor ter sorte igual à do homem que nos fizesse tamanha afronta! Então ele já te convidou a fugir? — exclamou D. Clementina com raivosos trejeitos.
— A mãe está fora de si! — atalhou amedrontada Ricardina. — Pois eu já lhe disse que queria fugir, ou que ele me...
— Então que querias dizer senão isso? — volveu a mãe já menos incendida. — Apre! que estou a suar! Fugir!
Faz-me horror esta palavra! Concentrou-se com amargurados sinais de dor profunda, a olhar fitamente nos olhos orvalhados da filha; e, à volta de alguns segundos, repetiu:
— Fugir!... Sabes tu o que é isso?
E, circunvagando os olhos às portas por onde podia ser escutada, continuou abaixando a voz, quase ao ouvido de Ricardina:
— Eu fugi, filha; fugi, cega de luz infernal; e quando abri os olhos, e conheci o que era, e sem remédio havia de ser sempre, tornei-me a desgraçada mais sem consolação que o mundo tem. Olha que eu sou nova. Tenho 37 anos. Vês os meus cabelos quase brancos? Olha tuas tias e as minhas irmãs mais velhas como estão novas! Não as viste já passar aí a cavalo com tanta gente ilustre a acompanhá-las? Vinham mostrar-se, para que eu as invejasse e tivesse pena e vergonha de mim... Tive, filha, tive pena e vergonha. Vi-me num espelho depois de as ver a elas, e fui com os olhos queimados, de lágrimas procurar-te, minha filha, a ti e a tua irmã, para me abraçar convosco, e lembrar-me de que as minhas irmãs não tinham duas filhas, dois anjos como eu...
Ricardina abraçou-se palpitante de ternura contra o seio da mãe, beijou-lhe as faces coradas de choro, e murmurou:
— Não se lembre que eu fuja, não? Se fugir da minha mãe, há de ser para Deus.
— Mas, Ricardina — disse a mãe acariciando-a e em tom suplicante — , porque não casas com o teu primo? Não é ele um bonito rapaz? Receias que ele seja mau esposo? Ah! Eu sei que ele há de amar muito a minha Ricardina, que é tão linda no rosto como na alma... Filha, a felicidade alcançam-na os que mais sacrificam as suas inclinações. Verás como tudo esquece, tudo se desfaz, menos o remorso de uma ação condenada primeiro pela sociedade e depois pela consciência... Tu não podes entender-me estas palavras, filha... Deus permita que elas te não lembrem quando as puderes entender, porque serás então desgraçada como tua mãe...
— Não chore, não chore, minha querida mãezinha — obstou a menina, alimpando-lhe o choro com o seu lenço.
— E tu que me prometes, filha? — sobreveio D. Clementina, afetando alivio no sorriso.
— Que hei de eu prometer?
— Casas com o meu sobrinho Carlos?
— Não posso, minha mãe, porque tenho ódio àquela gente. Nunca os vi nesta casa senão depois que podiam levar daqui não sei que dinheiro. O que eles querem é que eu e a minha irmã levemos o dinheiro que lá é preciso...
— Tens razão! — exclamou expansivamente D. Clementina. — Tens razão! A tua alma vê bem as indignidades da minha família! Agora, imagino quanto será grande a tua repugnância!... Não ta combato... faz o que te disser o bom anjo das tuas orações... Vai para o convento, vai, meu amor. Os teus primos não me conheciam antes de saber-se que o teu pai dava trinta mil cruzados a cada filha. Voltavam-me o rosto, se acaso me viam, quando eu ia para eles com o coração cheio de ternura!... Eram aqueles mesmos que há um mês me beijaram a mão... eles, para quem eu tinha olhado com a humildade de pecadora a pedir-lhes que me concedessem o prazer de os contemplar... e me deixassem sentir o contentamento de ainda ter família, de pisar ainda as tábuas em que passei a juventude... Vexavam-se de me ver... — prosseguiu ela com transportada e veemente cólera. — Fugiam-me e creio até que o pai os castigaria, se me não fugissem Oh! Tu não sabes as desonrosas condições que eles puseram, antes de aqui virem pedir-te e a tua irmã... Nem eu tas digo, porque quero esconder de ti o orgulho do teu pai, orgulho misturado com baixeza... Ainda assim, quando vi os filhos do meu irmão, alegrei-me, imaginei-me outra vez na casa dos meus pais, rodeada de família, de tantos parentes, de tantas amigas, que todas me cuspiram na cara, pensando que não bastavam as lágrimas para o tormento!... Pobre mulher! Foi uma fraqueza de que tu me levantas, filha! Ensinas-me a ser nobre na desgraça, e mais não sabes quanto me cumpria sê-lo... Não to direi; a tua alma adivinha-me... Olha que eu não posso defender-te, porque teu pai tem vontade de ferro, é inflexível, e eu valho menos nos juízos dele que a opinião de Norberto e dos criados, que lhe obedecem e morreriam por lhe satisfazer as vinganças. A minha filha, não podes contar com a tua mãe, senão para tomar o maior quinhão das tuas aflições. Se fores para o convento, ainda pode ser que eu peça à caridade da tua prelada que me deixe lá ir acabar os dias ao pé de ti. Irei ver-te, se o teu pai me deixar; e, se não for, hei de escrever-te todos os dias, hei de contar-te a continuação da minha vida, enquanto Deus quiser que eu seja o exemplo da penitência. A minha filha... O meu querido anjo do Céu... como eu me sinto tua amiga! — exclamou a senhora, abraçando sofregamente a menina, que a estreitava ao seio, beijando-lhe a cara. — Fiz-te minha confidente... Há dezassete anos que esperava esta hora... Dizia tudo a Deus; mas o coração ficava-me sempre abafado... Respirei agora; já sei que tenho um coração que se condói... Escuta... — interrompeu-se D. Clementina, fitando o ouvido — chega teu pai... Que me não veja ele sinais de lágrimas...
CAPÍTULO VI
AGONIAS
— A tua mãe onde está? — perguntou o abade a Ricardina.
— Penso que está na sala de costura.
— Que venha à minha saleta.
Clementina, ao perpassar pela filha, segredou-lhe:
— Não to disse eu? Falta um dia.
— Anime-se, minha mãe... Diga-lhe que vou satisfeita para qualquer convento.
Padre Leonardo passeava ofegante ao comprido e através da espaçosa quadra.
— Queres saber uma grande maroteira? — bradou ele, assim que a senhora pisou o limiar da porta.
— Que é?
— Estava eu na sacristia, quando Bernardo Moniz entrou na igreja e foi direito a mim. Perguntei-lhe o que queria. Respondeu que o escutasse com sossego e bondade.
— Fale lá, que eu estou sossegado! — disse-lhe eu. Pespega-me ele então um grande aranzel, com as bagadas a cair-lhe pela cara, e acabou por me pedir Ricardina.
— E quem lhe deu ao Sr. Bernardo a ousadia de requestar a filha de Leonardo Botelho de Queirós? — perguntei eu, que já o não via.
— O coração — respondeu ele.
— Qual coração nem qual diabo?! Não sei o que é o coração! O que eu sei é que o senhor atreveu-se a pôr os olhos numa senhora que não pode ser nora do seu pai, percebeu o senhor? E que há de ele dizer? Empina-se com ares de soberba ofendida, e diz de papo empavesado:
— O meu pai é um homem de bem, e eu sou filho de Maria Clara, esposa virtuosa do meu honrado pai.
— Sabes que me deram flatos de o esganar mesmo ali, e desfazer-lhe a cabeça na esquina da porta? Aposto que não entendeste a ofensa que ele te atirou à cara? Queria dizer que a mãe dele era mais honrada do que tu.
— Se ele queria dizer isso... — observou D. Clementina Pimentel — , tem razão...
— Tem razão?!
— Sim... pois que sou eu, Leonardo? Que nome me dá o mundo? Que conceito faziam de mim os meus parentes antes de constar que davas sessenta mil cruzados a tuas filhas?
— Por isso mesmo é que eu os obriguei à humilhação de virem aqui; por isso mesmo é que tu hás de lá ser recebida com muitos afagos; por isso mesmo é que eu amontoei ouro para carregar de dinheiro os miseráveis, até eles porem o nariz nas pontas das minhas botas, percebes?
— Percebo, sim... mas a sociedade depois há de rir tanto deles como de nós.
— De nós?! Pareces-me parva! Quem é que se ri de mim? Quem é?
— De ti, ninguém, que és homem, e és temido e respeitado, mas de mim...
— Quem se ri de ti, Clementina? Pois eu consinto que sejas escarnecida? Fazes de mim tão vil conceito?
— Não te aflijas, Leonardo... diz-me o que passaste depois com Bernardo.
— O que passei?... Mandei-o despejar, sob pena de o levar a pontapés fora do adro... E ele foi-se rebolindo, quando não... fazia-o engolir os dentes. Pedaço de mariola!... O filho do Silvestre da Fonte vir falar-me da honradez do bruto do pai e da virtude da maltrapilha da mãe!... Vamos agora à questão mais importante. Falaste a Ricardina?
— Falei.
— De que bordo está?
— Pronta para entrar no convento.
— Boa palavra. Amanhã cedo faço jornada. Poderei demorar-me três dias. O convento há de ser longe e seguro. Enquanto vou e venho, arranja-lhe o enxoval. O que não puder ser, lá se arranjará.
Ao alvejar da manhã seguinte, o abade de Espinho, afastado com Norberto Calvo no afogado de uma carvalheira, terminava desta arte as suas ordens:
— De dia não lhe atires; vigia-lhe somente os passos, e não me largues de olho a Sra. D. Ricardina. Ora agora de noite, aponta-lhe ao peito, e deixa o resto pela minha conta. Percebes?
— Sim, senhor. Vá vossa senhoria descansado, que se eu o lobrigar de noite, fica onde estiver.
— Não lhe tenhas medo, ouviste?
— Medo! Eu!... Vossa senhoria então ainda me não conhece!
— Conheço-te, homem; mas vocês por aí catam respeito a estes bigorrilhas... porque são ricos...
— Que me faz cá a mim que sejam ricos!... Eu cá só cato respeito ao meu amo, e tanto monta atirar ao Bernardo como ao Diabo do Inferno que me apareça!
— Vou descansado, Norberto? O Frazão e o Torto já sabem também o que hão de fazer...
— Pode ir com o coração assente e ânimo à larga.
Norberto, assim que viu a fidalga, fez-lhe sinal. Desceu logo ao jardim a sua adorada menina.
— Senhora. — disse ele — , faça favor de avisar o Sr. Bernardo, que não apareça por aqui de noite. Eu não lhe quero mal; até, se puder salvá-lo, salvo-o, pondo o peito diante dele; mas o seu paizinho deu ordens de atirar a matar ao Frazão e ao Torto, que são capazes de acertar numa andorinha com uma bala.
Acudiu a sobressaltada menina:
— Manda-lhe lá tua mãe, sim, Norberto? Pelo amor de Deus!
— Não diga pelo amor de Deus, que não é preciso, fidalga. Basta dizer faz isto, faz aquilo. Eu vou já mandar recado à velha.
Inúteis cautelas! Bernardo Moniz, àquela hora, prostrado no leito, ardia em labaredas de febre, ou escabujava em contorções delirantes nos braços do pai e irmãos. O sangue congestionado nos olhos, quando o abade lhe disparou o último insulto, refluíra-lhe à cabeça ameaçada de desconcerto cerebral. Estrangulado pelo trago da ira, que a imagem de Ricardina lhe fez retrair, abraseou-se-lhe no peito aquele lume que lhe escaldava as artérias e coriscava nos olhos.
À hora da sesta, disse-lhe o irmão que o estava procurando uma velha já conhecida deles. Aquietou-se de súbito o anseio. Sentou-se no leito, e pediu ao seu pai que deixasse entrar aquela mulher. O consternado velho retirou-se com os filhos, e viu com afável rosto entrar a velha de quem ele, esperava remédio ao seu Bernardo.
Ouvindo o aviso, enviado da fidalga, o jovem saltou do leito, e escreveu estas quatro linhas: “Queres fugir hoje? Amanhã será tarde, porque me sinto morrer. O teu pai esmagou-me o espírito, mas o coração salvou-se. Queres fugir hoje? Queres sentir as delícias de arrancar da sepultura o teu desgraçado amigo?”
Ao fim da tarde, Norberto entregou a carta a Ricardina, e devolveu pela velha a seguinte resposta: “Jurei a minha mãe que não fugia. O que eu preciso não é salvar-me das dores que me esperam: é morrer; se Deus me levar primeiro do que a ti, chamarei a tua alma. Se fores adiante, não hás de esperar-me muito tempo. A minha mãe tem chorado muito, porque o meu pai veio dizer que tu a insultaste no seu infortúnio. Não acreditei. Pago-te com esta justiça as injustiças que me tens feito. A minha mãe é muito infeliz. Atormentá-la ainda mais com a minha fugida, é-me impossível. Se eu pudesse dar o passo que me pedes, seria preciso que ela já não tivesse luz nos olhos, nem coração para mais esta dor. Sê meu amigo, Bernardo; vive por amor de mim. Olha que me sinto amparada pela tua vida. Se tu morreres, fica-me no mundo somente esta pobrezinha, que talvez acabe mais cedo do que pensa. Adeus. Se souberes onde é o meu convento, escreve-me, e pode ser que eu lá te veja. Adeus, que vem aí minha irmã; e eu já me escondo de todos.”
Influiu santamente no coração de Bernardo a paciência adorável desta carta. Como corrido da sua pusilanimidade, o desesperado cobrou alentos, à medida que relia as expressões confortadoras de Ricardina. De esperança não eram elas; mas sim de exemplar estorço, e valente resistência a porvindouras agonias. Renovou-se-lhe, em sossegado pensamento, a fuga do mundo para algum solitário mosteiro. Pintavam-se-lhe na fantasia as doçuras de tribulação semelhante à de Ricardina. Evasiva que tanto quadrasse ao seu estado não via outra nem queria já pensá-la.
Resolvidamente lho declarou assim a ela, despedindo-se em reportados termos e sublime conformidade com os desígnios do Altíssimo. Redarguiu Ricardina, reprovando-lhe o intento. “Eu não vou por vontade para a clausura”, escreveu ela. “Vou constrangida: nunca me hei de arrepender de um passo que sou obrigada; mas tu sacrificas-te sem com isso melhorar a minha sorte. Eu ia com esperanças de ver-te. Se vais para o convento, acabou-se-me tudo. Peço-te que não vás. Não sei o que me diz o coração...”
Ao outro dia, por tarde, chegou o padre Botelho de Queirós, e procurou Norberto antes de perguntar por Clementina.
— Não há novidade. — disse o criado. — Rondámos desde as nove da noite, ora um, ora outro, até ao dia. Cá em casa não entrou fôlego vivo, e as fidalgas nem às janelas foram, que eu visse.
— Está bom.
As meninas saíram ao patim da escada a beijar-lhe a mão. Cedeu-a com repugnância a Ricardina, e afagou as faces da outra.
Ceou bem assombrado, e não releu o livro do sei Fr. Mateus Brandão contra o ateu Gomes Freire: não leu nada, nem o breviário. O abade de Espinho, quanto crenças religiosas, era ultraliberal, tirante certas superstições, que essas eram arquiestúpidas. Dialogou assim com D. Clementina:
— E então? A rapariga? Mudou?
— Não.
— Que lhe disseste?
— Nada. É escusado pregar-lhe. Quer ir para o convento.
— Depois de amanhã. Ficou alguém encarregado de tirar as licenças do bispo de Lamego.
— Ela vai para Lamego?
— Sim, vai para o Convento das Chagas. Tem um ano de noviciado. Espero que não chegue a professar. O caso lá muda de figura.
— Não chegará a professar, não... Morrerá antes...
— Deus se compadeça da sua alma. Antes a quero morta que mulher do filho do Silvestre da Fonte. Os mortos não envergonham os vivos...
— Despedaçam-nos com saudades — atalhou D. Clementina.
— Quando os vivos têm poucos brios.
— Os brios... os brios... — disse ela sorrindo tristemente.
— Sim, os brios! Que tem?
— Os brios de mãe... não o coração, Leonardo.
— E a darem-lhe com o coração!... Querem governar o mundo com o coração!... A cabeça já passou de moda!... Pois, senhora, eu tenho cá uma regra invariável... Filha desobediente perde o direito à estima dos seus pais.
— E não perde pouco... Perdi-a eu... e sei quanto perdi...
— Pois por isso mesmo — recalcitrou rudemente o desavergonhado abade — , por isso mesmo. Vives mal? Estás arrependida? Mais uma razão para que enfreies as liberdades da tua filha; que não vá acontecer igualar-se contigo na sorte.
— Deus a mate! — exclamou a senhora, afogada de soluços.
— Está bom! Está bom! — rezingou o padre. — Nada de choradeiras intempestivas. O mal feito fez-se; o mal possível prevê-se e remedeia-se: é o que eu faço.
— Bem! — disse serenamente D. Clementina, sopeando a dor. — Queres que eu a previna?
— Está claro. Amanhã chega a liteira; depois de amanhã faz jornada.
— Quem vai com ela?
— Tu e dois criados. Lá estão em Lamego os meus primos encarregados de a receber e levar ao convento.
— Não me dispensas de ir a mim?
— Não. É necessário. Quem há de ir? Bem sabes que não conhecemos senhora nenhuma no caso.
— Mas eu não posso suportar a dor da separação! Como hei de eu despedir-me da minha filha?!
— Aí tornas tu com lástimas de carpideira! Forte zanga! As mulheres parece que trazem as lágrimas numa bilha!
— Deixa-me chorar, Leonardo! — clamou ela pondo as mãos.
— Pois chora, chora por uma vez! — vociferou o abade, e saiu de ímpeto para o jardim.
D. Clementina saiu também, endireitando ao quarto das filhas. Abraçou Ricardina, e desafogou os soluços a beijá-la nos lábios e nos olhos.
— Vais depois de amanhã, meu amor do Céu!
— Paciência, minha mãe — disse sossegadamente a filha — , paciência! Que outra coisa esperávamos? Eu já o sabia...
— E hei de ir contigo... hei de ir dar-te o último abraço à porta do mosteiro.
— Último, não, minha mãezinha... Eu pedi a Deus que a mandasse comigo. Ouviu-me o Senhor. Quem me havia de dar o exemplo da resignação?
Neste lance, D. Clementina, após uma longa pausa, olhando fixamente para a imagem de um Cristo do oratório das filhas, exclamou:
— Meu Deus, sim? Que pergunta silenciosa fizera ela a Jesus?