O Retrato de Ricardina

Camilo Castelo Branco · Capítulo 23 de 25

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O Retrato de Ricardina

Capítulo XXVII · O Retrato de Ricardina

 

Abeirou-se Alexandre do catre.

— Não venho somente visitá-lo — disse ele. — Venho pedir-lhe que me deixe ser seu enfermeiro em casa da minha mulher. Ela e a minha mãe também lhe pedem.

— Não tive a honra de beijar as mãos a Suas Excelências: mas irei agradecer-lhes tamanha honra logo que possa. A minha enfermidade é passageira. São três dias pelo costume. Isto cede à quina, enquanto a morte não vier resolvida a zombar da quina. Por enquanto, parece-me que a inimiga dos desgraçados anda por longe a decepar cabeças ardentes de esperanças, e a orfanar criancinhas. Os homens inúteis como eu morrem tarde.

— Aí começa com as tolices! — disse Norberto.

Alexandre olhou contra o desempenado interventor e disse:

— Quem é este homem? É seu criado?

— Não, senhor! É um meu amigo de vinte e seis anos.

Alexandre remirou o septuagenário, e disse:

— E uma raridade!

— Vou à botica, Sr. Doutor? — disse Norberto.

— Vai.

Bernardo Moniz tinha a camisa desabotoada no pescoço, e por entre os peitos dela deixava ver uma medalha de ouro cuja circunferência cobriria a palma da mão. Alexandre reparou; e animado pelo afeto que tinha ao seu colaborador, disse, indigitando a medalha:

— São relíquias da juventude?

— São; conservo-as como adorno do cadáver. Pode ser que vossa Excelência assista ao meu passamento; chegada essa hora incerta, não permita que me despojem desta medalha. Não podia cair mais a propósito o pedido. Seria ingratidão esconder o tesouro cuja defesa se pede. Veja Vossa Excelência. É um retrato de mulher.

Alexandre examinou a pintura em marfim, e disse comovido:

— Formosíssima!... Que anos teria?... Parece-me tão criança!

— Tinha dezasseis para dezassete.

— Morreu?

— Há vinte e quatro anos.

— É uma maravilha! Se tal rosto não tivesse existido, geria ainda um primor de beleza artística. Era português, o pintor?

— Era português.

— Viverá ainda?

— Morreu.

— Quanto eu daria por encontrar artista que retratasse com este esmero a minha mãe e a minha mulher! Vossa Senhoria faz-me a fineza de consentir que Matilde veja este retrato?

— Pois não!

— Hoje mesmo lho restituo. Prometo-lhe que há de ser curto quanto possa ser o tempo da saudade.

— Quando Vossa Excelência quiser. Eu tenho-a no coração.

— Até logo.

Alexandre chegou a casa. Matilde estava tocando piano.

D. Ricardina, sentada num a poltrona, escutava a música triste de Bellini, com os olhos na sobrinha e o coração nos dias dos seus 18 anos. Entrou Alexandre na saleta. A viscondessa levantou-se a beijá-lo, e ele foi beijar a mão da sua mãe. Depois sentou-se, e disse com a mais cómica seriedade:

— Matilde, amei-te muito, e julguei que te amaria sempre, por me parecer que não encontraria mulher mais bela do que és. Achei-a fatalmente. Rompeu-se o encanto. Tudo isto se desfaz em fumo como os paços lindos da amorosa D. Branca do Garrett. Acabou o teu domínio. Não vou resgatar o império sarraceno como o príncipe árabe do poema; mas vou-me aos braços de mais formosa Armida. Para justificação minha, perante Céu, Terra e Inferno, e principalmente perante ti, minha infeliz esposa, aqui tens o retrato da tua vencedora rival!

Matilde, rindo às gargalhadas da declamação do marido, pegou na medalha, olhou-a, e exclamou:

— Realmente é formosa! Isso é! Que mulher é esta?!

D. Ricardina, que também rira muito, disse lá da sua cadeira:

— Mais formosa do que tu, Matilde?

— Não há comparação, minha tia... Quer ver?

E levou-lhe o retrato, inclinando-se a mostrar-lho à mais conveniente luz.

Ricardina levantou-se de golpe, e despediu um grito estrídulo.

— Que é? — exclamaram os dois.

— Meus Deus! — bradou Ricardina. — Este retrato... é o meu... é o retrato que o teu pai me tirou em Coimbra! É o que ele levou, quando se despediu de mim para sempre... Onde achaste, meu filho, onde estava este retrato?

Alexandre mantinha-se estupefacto a olhar para a mãe. Não respondia, não pestanejava. Parara-lhe a vida.

— Que tens, Alexandre? — acudiu a viscondessa. Que tens, meu filho? Estás a perder a cor!... Pois como te veio à mão este retrato?... Achaste-o a vender, ou como foi?

A última pergunta de Matilde foi luz e ordem no caos das suas ideias. Deteve instantes a resposta e disse:

— Comprei-o.

Quando proferiu a palavra, o seu íntimo pensamento era pensar no modo de salvar a mãe, dando-lhe esperanças de estar vivo Bernardo Moniz, esperanças que podiam ser falsas, e talvez fulminá-la de alegria sendo verdadeiras.

— Está bem certa que esse retrato é seu, minha mãe? — instou ele.

— Certíssima, filho! Pois poderia eu enganar-me tendo-o tido tantas vezes na minha mão?... Como viria este retrato parar a Lisboa? Foi por força tirado do pescoço do teu pai por algum dos matadores.

— Vou indagar isso, minha mãe; dá-me o retrato, Matilde.

— Não dou. Compra-o por tudo quanto quiseres.

— Compro, filha; mas é necessário que eu o leve.

— Olha lá... se o não trazes, fico triste!

Pouco depois, Alexandre entrava no quarto de Bernardo Moniz. Estava Norberto ministrando-lhe a tisana quinada. O filho de Ricardina encarou o doente com os olhos revendo lágrimas. Bernardo notou os sinais compadecidos daquele olhar, e disse:

— Vejo que o retrato motivou a piedade das senhoras, na qual Vossa Excelência tomou parte... Já este meu velho me estava dizendo que era mau agouro deixar eu sair o retrato do meu pescoço...

Alexandre inclinou-se ao ouvido do doente e disse-lhe:

— Pode mandar sair este homem por algum tempo?

— Sim, senhor... Sai, Norberto.

— Espere! — exclamou Alexandre, suspendendo a saída do velho. — Chama-se este homem Norberto Calvo?

— Sim, chama; como sabe Vossa Excelência?

— Então que fique. — E inclinando-se sobre o seio de Bernardo, continuou: — Responda, peço-lhe com as mãos erguidas, responda verdade às perguntas que vou fazer-lhe. Promete-mo com juramento feito sobre a sua honra? Não haverá impedimento algum que lhe embarace o responder-me?

— Nenhum.

— Jurou, senhor?

— Pela minha honra.

— Este retrato é de Ricardina?

— É:... mas... o Sr. Alexandre.

— O senhor chama-se Bernardo Moniz?... Não hesite, por piedade lho peço. Não duvide responder-me.

— Sou Bernardo Moniz.

— É!

— Sou, sou Bernardo Moniz!

Alexandre abraçou-o impetuosamente, e exclamou:

— Quem poderá ser este homem que o abraça?

— Um amigo que Deus me enviou...

— Pois estas lágrimas!... Não vê que choro, meu pai?

E escondeu no seio a face soluçante.

— Que disse ele?! — perguntava Bernardo a Norberto, ofegando em ansiosos arquejos.

O velho não soube dar melhor conta do seu ouvido e entendimento. Achegou-se mais de perto, e murmurou:

— Eu... parece que ouvi dizer...

Alexandre Pimentel levantou a cabeça, tomou as mãos do pai, beijou-as, acariciou-as, e repetiu:

— Sou seu filho. Sou filho de Ricardina. Nasci quando minha mãe o considerava morto. A minha mãe é viva.

Conclamaram, a um tempo, Bernardo e Norberto dois grandes brados, abraçando-se conjuntamente em Alexandre.

— Ricardina é viva! — exclamou Moniz. — Ricardina é viva!

— Diz-lho o seu filho!

— Foge-me a razão!... Deixai-me viver, meu Deus! Deixai-me vê-la, Virgem do Céu!... — exclamava Bernardo bracejando amparado pelo filho, que o não deixava sair do leito.

De súbito, ao violento escabujar, seguiu-se uma convulsão, depois umas brandas tremuras, e após elas o quebranto precursor de um acesso febril. Alexandre saiu a dar ordens que se chamassem médicos. Voltou para a beira do leito onde Norberto estava chorando e abraçou o velho, que lhe perguntava:

— Pois o senhor é na verdade filho da minha querida fidalga? E ela está viva? Mal haja seu avô, que me disse que estava morta! Tantos séculos esteja no Inferno como lágrimas chorou seu pai!... Fui eu que lhe levei a notícia a Espanha! Mal haja eu também, que me fiei naquele carrasco! Pois se ele me disse: “Essa mulher morreu!”. Que havia eu de pensar? Fui a Oviedo, e disse ao Sr. Bernardo: “A Sr.ª D. Ricardina morreu!”. Ai senhor! Eu não sei como este infeliz está ainda vivo!... O que ele tem penado há vinte e quatro anos!... Pois o senhor é filho da fidalga? — tornava Norberto, querendo levantar nos braços Alexandre, com infantis carícias. — Ela, a minha querida senhora, já sabe que o Sr. Bernardo Moniz está vivo?

— Não.

— Ai! que ela em o sabendo, é fácil morrer de alegria!... Mas quem nos diz a nós que o Sr. Bernardo não morre?

— Não morro, meus amigos... — murmurou o enfermo, resfolegando ardente bafagem. — Não morro; mas tua mãe... pode morrer, filho!

— Hemos de salvá-la ambos, meu pai!