O Retrato de Ricardina
Capítulo XXV · O Coração Não Se Regula Pelas Leis Visigóticas
Às primeiras alvoradas do seguinte dia, após quatro horas de prática entre as duas senhoras e Alexandre, o filho de Bernardo Moniz sabia o nome do seu pai, e a minudenciosa história de Ricardina, desde os 18 anos. O dissabor de ter sido inutilmente enganado pela sua mãe era grande e até certo ponto justo; não obstante, o respeito filial aconselhou-o a dar como justificados os receios de Ricardina, quanto ao opróbrio cominado pela sociedade ao filho de um suposto assassino dos dois lentes de Coimbra.
Para Alexandre, a certeza que a sua mãe lhe dera de inculpabilidade de Bernardo Moniz não era jurídica e racionalmente bem provada. A juízo dele, a culpa dos que não ensanguentaram suas mãos na carnificina era menor, sem deixar de ser grande. Dizia ele, passados dias, que a memória do seu pai estava sempre denegrida, porque não lha podia ele reivindicar. E dizia-o profundamente magoado, depois de ter ouvido as tradições, os processos ainda existentes, e os insuspeitos esclarecimentos dos contemporâneos.
Os primeiros tempos de transformação na existência das duas famílias passaram na ora doce, ora amarga intimidade de mútuas revelações. A viscondessa contava a sua tia as coisas ignoradas, quanto ao fim do seu avô, o deão, cuja morte, em Roma, Ricardina tinha lido num periódico brasileiro. da sua mãe referia as angústias dos últimos tempos, a separação violenta, motivada pelas infamadas tradições da sua avó.
Então, Ricardina pintava com vivas cores, realçadas pelo choro, a morte da sua mãe no Convento das Chagas, e pedia a Deus que melhorasse a condição do inexorável mundo que não perdoava às desgraçadas, remidas pela contrição e pelas agonias resultantes dos delitos da juventude.
Sobrevieram dias de contentamento, o sol de Deus sem sombra do mal humano a dar em pleno seio de três pessoas que se consideravam ligadas para muita vida e duradoura felicidade. Amava Matilde o primo com tal sossego de alma, e tanta segurança de o ter íntimo e parte da sua vida, que já não lhe era condição de suprema ventura havê-lo como esposo. Já o sentia noivo no coração; para tudo da sua casa era ele o conselheiro, o guia, o irmão, a alma radiosa, que tudo iluminava, demudando em horas fugitivas de prazeres domésticos os dias... e noites da viúva, tão semelhantes, tão desluzidos até ao momento de encontrar segunda mãe, e nele o primeiro amor.
Quando ela pediu ao primo um sacrifício, como quem pedia um acto indiferente — sacrifício como deixar de ser escritor político — , Alexandre despediu-se dos seus colegas, e para consolar-se dizia entre si: “A minha intenção era ser útil em troca do pão que me davam. Eu deveria continuar, independente do estipêndio, a escrever? Deveria, se a vaidade me capacitasse de que a imprensa política regenera políticos. Portugal é um país em que somente se percebem e frutificam as ideias sociais da Besta Esfolada. Tudo que não for isto, é semente caída sobre penedos. Ninguém lê Silvestre Pinheiro Ferreira, e ainda é procurada a Defesa de Portugal, do padre Alvito Buela.”
Demasias dos 22 anos, já apagados de ilusões, não já por malefício da experiência, mas por motivo de se andar sempre às voltas com as leis visigóticas, e recuar com a vida nove séculos, de modo que, ao amanhecer das trevas do passado, não podia fitar de flecha o sol futuro, visível a todo o homem nado deste século, desde o regedor, que fabrica o deputado, até ao rei, que Deus guarde.
Um dia, o ex-jornalista apresentou a sua prima um papel, em que ela, em certo pleito com devedores do seu defunto marido, constituía seu bastante procurador o bacharel Alexandre Pimentel.
— Então o primo é meu procurador?! — perguntou ela. — O meu procurador era...
— Era outro — acudiu ele — ; mas hoje, se me der licença, sou eu. Deixe-me ter nesta casa algum préstimo. Como hei de eu compensar os bens que recebo? E, além disso, que quer a prima que eu faça ao meu tempo?
— Escreva a sua obra; mas não se apresente como procurador da sua prima, que parece mal.
E ele respondeu com os olhos embaciados:
— Ó prima Matilde, eu não sei fazer acto que me fique mal. Deixe ao meu cargo o que for da minha dignidade.
A viscondessa não assinou a procuração. Alexandre sorriu-se e disse:
— Pois bem; manda-se fazer outra.
Matilde foi ter com a sua tia, e demorou-se algum espaço em conversa, de que resultou D. Ricardina abraçá-la com efusão de alegres exclamações e muitas lágrimas. Depois, foi a mãe ao gabinete de Alexandre, e disse-lhe sem preâmbulos:
— Meu filho, venho dizer que... resolvi casar-te.
— Oh!... Então minha mãe... resolveu... — disse risonhamente Alexandre.
— Resolvi, contando com a tua vontade, porque não conto outro tanto com a minha. Matilde sabe que te ama; e eu sei que tu amas Matilde. Enganei-me?
— Eu amo verdadeiramente minha prima — respondeu Alexandre. — Não se enganou quanto ao juízo que formou de mim. Penso também que a minha prima me considera digno da sua estima.
— E da sua alma.
Alexandre meditou dois minutos e disse:
— Eu precisava de fazer não sei quantas perguntas a minha mãe para que a minha prima lhe respondesse Cifra-se num a só: pergunte minha mãe à nossa amiga se está bem convencida de que eu, se ela fosse pobre, seria mais feliz neste momento, dizendo-lhe pela primeira vez que a amo, que lhe agradeço e beijo a mão que me oferece.
— Eu respondo, meu primo — disse a viscondessa entrando no gabinete. — Creio tanto que me ama, como creio no seu orgulho. Já tive ocasião de o conhecer...
— Orgulho?! — atalhou Alexandre. — Quererá dizer pundonor de pobre, que é a mais irrisória, se não desprezível, das soberbas? Qual foi o meu orgulho?
— Não sei... A sua memória que lho diga, primo.
Eu que não tive nenhum... Amava-me pobre, Alexandre? Também eu o amei, quando sabia a sua trabalhosa e honrada vida, e lhe não conhecia nome de pai ou mãe. Que me importa? Mas olhe, primo, o que eu sentia não era meu, não era impulso próprio de virtude... Foi Deus que me guiou e deu coragem para escrever a sua mãe. Se Alexandre fosse outro homem, pode ser que eu, se não estivesse perdida no conceito do mundo, o estivesse diante da minha consciência. Mas o que eu fiz, se não obedecesse a um pressentimento providencial, seria próprio do meu carácter? Não, meu primo. Peço-lhe que me não louve nem condene.
O autor da Jurisprudência Hispânica deu férias ao coração, e desairou a ciência dos Bártolos e Cuvarrubias, apertando nos braços sua prima com o virginal estremecimento de que já hoje em dia não há gabar-se donzel de 22 Abris. D. Ricardina chorava de alegria. As faces de Matilde purpurejavam-se, ao mesmo passo que o rir dos olhos estava declarando que o júbilo e o fogo da paixão algumas vezes, por equívoco do colorido, se chamam erradamente pudor.
Há pouco e desnecessário que se diga desde este abraço até às núpcias. Quem disse tudo, naquele ano de 1852, foi a nata social de Lisboa, onde corre que ninguém contende com as vidas alheias. Pois conjuraram as pessoas mais descuriosas em sofismar o parentesco do literato com a viscondessa, anojando-se do inútil e piegas fingimento. Se queriam amar-se e casar-se e delapidar o cabedal do defunto, escusavam de se inventarem primos. Primos! Quando toda a gente sabia que a mãe do escritor era inquilina dumas águas-furtadas na Rua dos Calafates, e ele um tal Pimentel, que não sabia dizer quem houvesse sido seu pai.
Os jovens de espírito, provado em trinta anos de remoques e chanças, perguntavam se o maçudo discreteador de concílios e senatus-consultos obrigaria a esposa a digerir preleções de direito suevo, e os cânones de S. Frutuoso e de S. Martinho de Dume. Outros contavam que a viscondessa, ao oitavo dia de noiva, como sentisse sair da câmara conjugal o marido por noite alta, saíra depós ele, abrasada em ciúmes, e o encontrara em cuecas e robe de chambre, folheando o De statu imperii germanici, de Pufendorf. Até certo ponto a zombeteira sátira feria o alvo, porque Alexandre Pimentel continuava a estudar, e a esposa desejava inclinar-se sobre o rebordo gradeado da sua mesa de escrita, e ali se mantinha horas a vê-lo escrever, entremeando-lhe gracejos que o faziam rir dos doutos varões que o tinham enchido de sabedoria e de pó.