O Retrato de Ricardina

Camilo Castelo Branco · Capítulo 16 de 25

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O Retrato de Ricardina

Capítulo XVIII · O que Fez a Ignorância do Estilo Figurado

 

Perdida a esperança de averiguar o destino de Ricardina, enviou Norberto sua mãe à raia de Espanha a uma terra chamada Espejo, onde Bernardo Moniz pactuara esperar-lhe o filho. O itinerário e instruções da mensageira eram procurar Paulo de Campos, que assim se nomeara desde Almeida o estudante, e dizer-lhe que D. Ricardina fora remetida a um convento por enquanto ignorado de Norberto; mas que tão depressa lhe descobrisse a paragem assim iria buscá-la, se ela quisesse sair. Acrescentou a velha, de aviso do filho, que o Sr. Dr. Padre Moniz estivera por um nada a ser preso pela tropa de Viseu por causa da morte dos lentes. Por último, levava-lhe a notícia de ter passado deste mundo o Sr. Silvestre, três dias depois que soube da morte dos dois filhos e do perdimento da sua casa com tudo o que tinha lá dentro.

Bernardo Moniz ouviu, em pé, de braços encruzados, estas notícias ensartadas umas nas outras à competência de aniquiladoras. Ouviu e... viveu. Parece que as diferentes lanças se empeciam, porfiando cada qual a primazia de lhe varar de um golpe o coração. O expatriado tirou de um cinto de anta algumas peças, e mandou-as pela velha ao filho, com ordem de despender o necessário com a fuga de Ricardina, se porventura lhe descobrisse a paragem. Frustravam-se a Norberto quantos expedientes lhe sugeria o zelo e desesperação de aventar o convento em que Ricardina fora internada.

A torva misantropia do abade não dava ansa a perguntas. Donde procedia ao sanguinolento clérigo a tristeza, é mistério. Abismos de certas almas são inescrutáveis. Onde não coa a luz do céu é tudo trevas a entendimento de homem. Se o exulceravam as serpes do remorso, ou o queimavam sedes de vingança maior, são teses que demandariam interrogá-lo a ele. Ninguém ousava. Norberto, se alguma vez aventurava palavras vagas, respeito às ruínas do palácio quer perguntando se ainda ninguém mexera no entulho, quer indagando quem tomaria posse dos bens dos Monizes, não vingara tirar-lhe resposta animadora de outras perguntas. Um dia porém, o Calvo arrojou-se a cortar direito através de medos e respeitos perguntando ao abade:

— Que será feito da fidalga?

— Que fidalga?

— Da Sr.ª D. Ricardina?

— Essa mulher morreu! Não me fales mais nela se queres continuar nesta casa.

— Morreu! — exclamou Norberto pondo as mãos.

O padre voltou lhe as costas.

O rústico não entendeu o figurado da resposta, e percebeu que D. Ricardina realmente era falecida. Escondeu-se a chorar; mas o ódio ao abade sobrepujava os sentimentos ternos. A índole, naquela hora, propendia-o mais ao sangue do que às lágrimas. Afogueou-lhe por momentos a cabeça o pensamento de vingar Ricardina, cortando os fios da vida ao implacável algoz de tantas pessoas; mas desse crime inútil o salvou a lembrança de Bernardo Moniz, que o esperava em Espanha. No mesmo dia, despediu-se do amo.

— Porque te vais da minha casa? — inquiriu o abade.

— Porque não quero servir mais Vossa Senhoria — respondeu secamente Norberto.

— Um criado que me serviu vinte e seis anos pode deixar-me!.

— Perdoará, Sr. Abade; não tenho remédio senão sair.

— Faze o que quiseres. Criados não faltam.

— Bem sei, Sr. Abade.

— Pois se sabes, rua!

— Já cá vou — disse o Calvo, saindo.

Passou por casa da sua mãe, abraçou-a, deu-lhe metade das suas soldadas, e partiu para Espanha. Chegado a Espejo, soube que Paulo de Campos saíra para Oviedo, e deixara secreto recado para ser lá procurado. O aparecimento de espiões portugueses nas fronteiras de Espanha motivara o internar-se nas Astúrias o estudante, deixando o aviso do seu destino a um espanhol liberal que o julgava emigrado político.

Em Oviedo o encontrou Norberto dirigido pelas informações do espanhol, a cujos parentes Bernardo fora recomendado.

— Ricardina?! Vens sem ela, meu amigo?! — exclamou o foragido.

Norberto encarou-o com a cabeça altiva, e disse vigorosamente:

— Vossa Senhoria é homem?

— Se sou homem! Porque me fazes semelhante pergunta?

— Tem ânimo?

— Tenho!... Que vais dizer-me?

— Olhe lá! Eu gosto de um homem, que este, ainda que todos os diabos do Inferno se levantem contra ele, não dê de si! Nas ocasiões é que se mostra quem vai coa cara para diante, e não há nada que o faça ir a terra!

— Conta comigo para tudo, Norberto! — disse Bernardo entusiasticamente, persuadido da precisão de algum arriscado arrojo a fim de tirar Ricardina das presas do pai. — É necessário voltar a Portugal?

— Deus nos guarde disso! — atalhou o Calvo. — Se o lá pilhassem, enforcavam-no!

— Então que é?

— Que é, Sr. Doutor? É que a Sr.ª D. Ricardina...

— Que é?

— Morreu.

— Quê? — bradou Bernardo apertando as fontes com as mãos convulsivas, e oscilando nas pernas, que fraquejavam gradualmente, a ponto de vergarem.

Norberto cresceu para ele, apertou-o pela cintura, e, amparando-o na queda, exclamou:

— Então que homem é o senhor? Tem ânimo ou não tem? Sr. Bernardo, pela alma do seu pai e do seu irmão, não seja fraco! Eu vim aqui para estar com vossa senhoria nesta ocasião, e olhe que nunca mais o deixo. Hei de ir com o meu amigo para toda a parte. A minha pobre ama morreu; mas cá fica o senhor para eu lhe dar toda a minha vida e coração. Sr. Doutor!... então!... Volte a si, e seja forte; que não há remédio senão ter paciência!

Bernardo Moniz não o ouvia. O Calvo, conquanto lhe visse os olhos muito abertos, e sentisse o arquejante respirar de vaporação ardente, apalpava-lhe o coração, receando não lhe ouvir os latejos.

— Se me ele morre nos braços!... — dizia entre si o aflito amigo de Ricardina, debulhado em lágrimas.

CAPÍTULO XIX

TÁBUA DE SALVAÇÃO

 

O procurador dos Pimenteis, em Lisboa, recebeu a nova da remessa de uma menina, e o pedido de hospedá-la na sua casa enquanto o seu capelão lhe preparava mosteiro ou recolhimento. Ricardina chegou depois da notícia. Receberam-na as senhoras da casa afavelmente, conduziram-na ao seu quarto, e, por delicadeza, deixaram-na sozinha assim que a viram em dolorosa luta consigo mesma para reter e ocultar as lágrimas.

O capelão confiou ao hóspede a tragédia da filha do abade; porém, rápido na história e austero nas observações que lhe embrechava, pusera o objectivo em desviar de Ricardina a piedade das senhoras, porque não sucedesse a comiseração estorvar a entrada no recolhimento. Não obstante o extremado infortúnio dela, sem amiserar-se com implorativos queixumes, careou a indulgência, e mais que tudo a calorosa simpatia de uma brasileira, que viuvara em Lisboa, e frequentava a casa do solicitador, seu agente na liquidação dos bens. Era D. Ifigénia senhora já de 50 anos, triste, e sempre remordida mais de remorsos que de saudades de uma filha única, morta de desgosto em seguimento de um noivado a que fora compelida pelo pai. A pungente dor da mãe era não ter querido proteger a filha, quando ela suplicava o seu auxílio. De aqui porventura, procedeu o inclinar-se benigna às desgraças de Ricardina, e o desculpá-la quando a rígida esposa do procurador, diante das suas filhas, e a ocultas da hóspede, encarecia a criminalidade e as funestas saídas da desobediência aos pais.

Insinuou-se a viúva no ânimo de Ricardina, tão carecida de coração caridoso que, sobre perdoar-lhe, chorasse com ela. Passavam horas uma com outra, e disso comprazia-se grandemente a dona da casa. Era a melhor maneira de trazer as filhas donzelas arredadas da hóspede suspeita de peste contagiosa. As lágrimas das pecadoras, sem exceção das contritas, são peste. Ricardina contou sua vida à brasileira. Quando não podia falar, soluçava. Era então que ela sentia o calor de outro coração, e ouvia as palavras "desgraçada menina!”. Não há aí maior nem mais rara consolação que mulher criminosa e sem família encontrar alma estranha que a console!

Recolheu-se, uma tarde, o capelão e disse-lhe:

— Sr.ª D. Ricardina, consegui a sua entrada no Recolhimento de S. Cristóvão.

— Não vou — respondeu a senhora.

— Não vai?!

— Não.

— Então que há de ser de si?

— O que Deus quiser. A minha irmã que me desampare... Eu não lhe pedi nada. Expulsaram-me... obedeci.

— Mas a senhora está sem amparo de alguém.

— Paciência. A morte é amparo... — disse Ricardina.

O capelão noticiou a Luís Pimentel a rebeldia da sua cunhada. Reuniu-se a família, tirante Eugénia, cuja tristeza e compaixão da irmã despraziam ao sogro. Deliberaram avisar o abade, menos por deferência que por medo. O padre Leonardo Botelho de Queirós respondeu que não conhecia a pessoa de quem lhe falavam; que tivera duas filhas; mas que ambas eram já mortas e esquecidas.

Os Pimenteis não replicaram. Investiram o seu capelão de autoridade para abrir mão do negócio do recolhimento e dizer à Sr.ª D. Ricardina que continuasse a dispor da sua vontade própria; que eles declinavam sobre ela a responsabilidade das consequências. Assim lho transmitiu fielmente o capelão, juntando da sua lavra um malogrado discurso sobre a contumácia do vício, e uma não menos gorada declamação profética das supervenientes desgraças da perdida senhora.

O profeta fez sorrir uma das testemunhas do seu zelo: era a viúva brasileira.

— A senhora ri-se? — exclamou o clérigo, pasmado do descoco.

D. Ifigénia aconchegou do peito Ricardina, e disse ao padre:

— Adoto esta infeliz pela minha filha. Poderá cair em grandes desgraças; mas decerto não há de lá ir pelos abismos que o Sr. Padre profetiza.

Em Junho de 1828 saíram para o Rio de Janeiro D. Ifigénia e Ricardina Pimentel. Naquele tempo, já a filha adotiva da caridosa viúva escondia da família hospedeira os sinais infalíveis do seu delito. Da sua amiga não lhe dizia o pejo que os escondesse. Confessara-se-lhe aquela alma, hora por hora, da sua vida. Se a honestidade sofria quebra no conceito da confidente, a misericórdia aumentava. Pelo que, a viúva deu-se pressa em sair de Lisboa, deixando ainda em litígio o mais valioso da sua herança.

Em Setembro daquele ano, Ricardina aligara à sua a existência de um anjo. Tinha um filho, ao qual a viúva, sua madrinha, nomeou Alexandre. A criancinha viera ao mundo entre dois amores que se davam as mãos para o acalentarem. Era belo e mavioso ver a mãe ajoelhada com ele para o depor no regaço da viúva, que o estremecia. Ricardina julgava que a alma da sua mãe pedira a Deus a inspiração de caridade extremosa que santificara o coração da sua benfeitora.