O Segredo de Chimneys
Dedicatória
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.
– Ele está com medo de mim! – disse Bundle. – Ou teme a minha habilidade como motorista ou então o meu fascínio fatal. Qual dos dois?
– É a segunda hipótese – respondeu Anthony. – E é um receio permanente.
– Bundle, querida, há alguma passagem secreta saindo da Câmara do Conselho? – perguntou Virginia.
– Há, sim. Mas está quase desaparecendo. Dizem que, antigamente, levava de Chimneys até Wyvern Abbey. Mas agora está bloqueada. Por este lado, não dá para se avançar por mais de 100 metros. A passagem secreta lá em cima, na Galeria Branca, é muito mais divertida. E a câmara secreta também não é nada má.
– Não estamos querendo saber por motivos artísticos – explicou Virginia. – Nosso caso é sobre negócios. Como se entra na passagem secreta da Câmara do Conselho?
– Há um painel que se abre. Se quiserem, posso mostrar, logo depois do almoço.
– Obrigado – agradeceu o superintendente Battle. – Podemos marcar para 14h30?
Bundle fitou-o, as sobrancelhas ligeiramente franzidas.
– Isso está ligado ao crime?
Nesse momento, Tredwell apareceu no terraço e anunciou:
– O almoço está servido, my lady.
23
Encontro no roseiral Às 14h30, um pequeno grupo reuniu-se na Câmara do Conselho: Bundle, Virginia, o superintendente Battle, monsieur Lemoine e Anthony Cade.
– Não é necessário esperarmos até conseguirmos entrar em contato com o Sr. Lomax – ressaltou Battle. – Esse é o tipo de negócio que precisa ser feito com a maior rapidez possível.
– Se está pensando que o príncipe Michael foi assassinado por alguém que entrou por aqui, devo dizer que está inteiramente enganado – comentou Bundle. – A passagem está totalmente bloqueada.
– Não é esse o problema, milady – disse Lemoine. – Estamos procurando outra coisa.
– É mesmo? Não é por acaso aquele negócio histórico?
Lemoine ficou desconcertado e Virginia veio em seu socorro:
– Explique-se, Bundle. Você consegue quando quer.
– Aquele objeto, o diamante histórico dos príncipes que foi surrupiado séculos antes de eu chegar à idade da razão.
– Quem lhe contou essa história, lady Eillen? – perguntou Battle.
– Eu sempre soube. Quem me contou foi um dos criados, quando eu tinha 12 anos.
– Um criado! Oh, Deus, como eu gostaria que o Sr. Lomax ouvisse isso!
– Quer dizer que esse é um dos segredos bem guardados de George? – perguntou Bundle. – Mas que coisa sensacional! Nunca pensei que a história fosse verdadeira. Mas devo dizer que George sempre foi um tolo. Ele devia saber que os criados sempre sabem de tudo.
Ela foi até o retrato de Holbein, apertou uma mola escondida em algum lugar ao lado e, imediatamente, com um rangido, uma parte do painel recuou, revelando uma abertura escura.
– Entrez, messieurs et mesdames – Bundle falou de forma teatral. – Vamos, aproximem-se, meus caros. É o melhor espetáculo da temporada e custa apenas um vintém!
Tanto Lemoine como Battle estavam munidos de lanternas. Entraram na frente pela abertura escura e os outros seguiram logo atrás.
– O ar está fresco – comentou Battle. – Deve haver alguma ventilação.
Ele foi andando na frente. O chão era de pedras, irregular, mas as paredes eram de tijolos. Como Bundle dissera, a passagem estendia-se apenas por cerca de 100 metros. Terminava abruptamente, bloqueada por uma pilha de escombros. Depois de certificar-se de que era realmente impossível seguir adiante, ele disse para os outros:
– Vamos voltar agora, por favor. Eu queria apenas, digamos, reconhecer o terreno.
Um instante depois, estavam de volta à entrada da passagem secreta.
– Vamos começar daqui – disse Battle. – Sete em frente, oito à esquerda, três à direita. Vamos considerar que o número inicial se refere a passos.
Ele deu sete passos para a frente, cuidadosamente. Abaixando-se, examinou atentamente o chão.
– Creio que estamos certos. Em uma ou outra ocasião, havia uma marca de giz aqui. Agora, oito à esquerda. Não devem ser passos, pois a passagem é muito estreita, dá apenas para se andar em fila indiana.
– Podem ser tijolos – sugeriu Anthony.
– Tem toda razão, Sr. Cade. Oito tijolos a partir de baixo ou de cima, do lado esquerdo. Vamos experimentar primeiro a partir de baixo. É mais fácil.
Ele contou oito tijolos de baixo para cima.
– E agora três à direita. Um, dois, três... Ei, o que é isto?
– Vou começar a gritar daqui a pouco – alertou Bundle. – Sei que vou! O que é isto?
O superintendente Battle estava escavando o tijolo com a ponta de um canivete. Seu olho experiente percebera imediatamente que aquele tijolo era diferente dos outros. Em um ou dois minutos de trabalho, conseguiu tirá-lo. Por trás, havia uma cavidade escura. Battle enfiou a mão na abertura.
Todos ficaram esperando, com expectativa, prendendo a respiração. Battle retirou a mão.
E soltou uma exclamação de surpresa e raiva.
Os outros se comprimiram por trás dele, olhando, aturdidos, para os três objetos que ele tinha na mão. Por um momento, todos tiveram a impressão de que seus olhos os tinham enganado.
Havia um pequeno cartão de botões de madrepérola, um quadrado de tricô grosseiro e um pedaço de papel no qual estava escrita uma fileira de Es maiúsculos!
– Eu... eu... não estou entendendo... – balbuciou Battle. – O que significa isso?
– Mon Dieu! – murmurou o francês. – Ça c’est un peu trop fort!
– Mas o que significa isso? – gritou Virginia, perplexa.
– O que significa? – repetiu Anthony. – Só pode significar uma coisa. O falecido conde Stylptitch devia ter um senso de humor excepcional! E isso é um exemplo desse senso de humor. Mas devo dizer que, pessoalmente, não acho nada engraçado.
– Importa-se de explicar um pouco mais claramente o que está querendo dizer, senhor? – pediu o superintendente Battle.
– Certamente. Esse foi o pequeno gracejo do conde. Ele deve ter desconfiado de que haviam lido a sua inscrição. Quando os ladrões viessem recuperar a jóia, encontrariam em seu lugar esse enigma extremamente astucioso. E o tipo de coisa que se apresentaria durante um chá, em que o jogo de salão seja o de adivinhar o que cada um é.
– Quer dizer que esses objetos têm um significado?
– Eu diria que não pode haver a menor dúvida quanto a isso. Se o conde quisesse apenas ser ofensivo, deixaria um bilhete com a palavra “Vendido”, o retrato de um burro ou algo assim grosseiro.
– Um pedaço de tricô, alguns Es maiúsculos e uma porção de botões... – murmurou Battle, desconsolado.
– C’est inoui – disse Lemoine, furioso.
– Código nº 2 – disse Anthony. – Será que o professor Wynwood conseguiria decifrar esse também?
– Quando essa passagem foi usada pela última vez, milady? – perguntou o francês a Bundle.
Bundle pensou um pouco.
– Tenho a impressão de que ninguém esteve aqui nos últimos dois anos. De um modo geral, o que mostram para os turistas e os norte-america nos é a câmara secreta.
– Estranho...
– O que é estranho?
Lemoine abaixou-se e pegou um pequeno objeto no chão.
– Por causa disso – disse ele. – Este fósforo não está aqui há dois anos... nem mesmo há dois dias.
Ele fez uma breve pausa, antes de indagar:
– Alguém aqui deixou cair este fósforo?
A resposta foi negativa. O superintendente Battle disse:
– Creio que já vimos tudo o que há para se ver aqui. É melhor sairmos.
A proposta foi aceita por todos. O painel estava fechado, mas Bundle mostrou como abri-lo por dentro. O painel abriu-se sem fazer barulho e ela pulou para a Câmara do Conselho, ruidosamente.
– Mas que diabo! – exclamou lorde Caterham, levantando-se de um pulo da poltrona em que parecia estar cochilando.
– Pobre papai... – murmurou Bundle. – Eu lhe dei um susto?
– Não consigo conceber por que ninguém mais descansa um pouco depois da refeição – questionou lorde Caterham. – É uma arte perdida. Só Deus sabe como Chimneys é grande, mas nem mesmo assim consigo encontrar um único cômodo onde possa ter um pouco de sossego. Mas Santo Deus! Quantos vocês são? A cena me faz lembrar das pantomimas a que eu costumava assistir quando era menino, em que hordas de demônios geralmente apareciam de repente de alçapões.
– Chegou o Demônio nº 7 – disse Virginia, aproximando-se dele e afagando-lhe a cabeça. – Não precisa ficar zangado. Estávamos apenas explorando as passagens secretas.
– Parece que as passagens secretas entraram em vigor ultimamente – resmungou lorde Caterham, ainda não de todo calmo. – Tive que mostrar todas ao tal de Fish esta manhã.
– Quando foi isso? – indagou Battle.
– Pouco antes do almoço. Parece que ele tinha ouvido falar da passagem secreta que havia ali. Levei-o em seguida para a Galeria Branca e terminamos na câmara secreta. Mas, a essa altura, o entusiasmo dele já estava começando a se dissipar. Ele parecia terrivelmente entediado. Mas obriguei-o a ir até o fim.
Lorde Caterham soltou uma risadinha, ao se recordar. Anthony pôs a mão no braço de Lemoine e disse-lhe baixinho:
– Vamos lá fora. Preciso falar com o senhor.
Os dois saíram pela porta do terraço. Depois de se afastarem consideravelmente da casa, Anthony tirou do bolso o pedaço de papel que Boris lhe entregara naquela manhã e perguntou:
– Foi você quem deixou cair isso?
Lemoine pegou o papel e examinou-o com algum interesse.
– Não, nunca vi isso antes. Por quê?
– Tem certeza?
– Absoluta, monsieur.
– Estranho...
Ele contou a Lemoine o que Boris lhe dissera. O francês escutou atentamente e depois confirmou:
– Não, não fui eu que deixei cair esse pedaço de papel. Disse que Boris encontrou-o no meio das árvores?
– Foi a minha suposição, embora ele não tenha chegado a dizer isso claramente.
– É bem possível que tenha caído da maleta de monsieur Isaacstein. Pergunte a Boris.
Lemoine devolveu o papel a Anthony e acrescentou, depois de uma breve hesitação:
– O que sabe exatamente a respeito desse Boris?
Anthony deu de ombros.
– Pelo que sei, ele era o criado de confiança do falecido príncipe Michael.
– É bem possível. Mas compete a você descobrir tudo. Pergunte a alguém que o conheça, como o barão Lolopretjzyl. Talvez o homem tenha sido contratado há apenas poucas semanas. Pessoalmente, tenho a impressão de que ele é honesto. Mas... quem sabe? O rei Victor é perfeitamente capaz de assumir de repente o papel de um criado de confiança.
– Acha mesmo que...
Lemoine interrompeu-o:
– Vou ser franco. No meu caso, o rei Victor virou obsessão. Eu o vejo por toda parte. Neste momento, por exemplo, chego mesmo a me perguntar: este homem que está conversando comigo, o Sr. Cade, não poderia ser o rei Victor?
– Deus do céu! Mas que idéia terrível!
– Que me importa o diamante? Ou a descoberta do assassino do príncipe Michael? Deixo esses problemas aos cuidados do meu colega da Scotland Yard, que tem essa missão. Quanto a mim, tenho apenas um propósito nesta vinda à Inglaterra: capturar o rei Victor e em flagrante. Nada mais me importa.
– E acha que conseguirá? – indagou Anthony, acendendo um cigarro.
– Como vou saber? – murmurou Lemoine, com súbito desânimo.
– Sei lá!
Os dois voltaram ao terraço. O superintendente Battle estava parado perto da porta do terraço numa atitude impassível.
– Olhe só para o pobre Battle – disse Anthony. – Vamos animá-lo um pouco.
Ele fez uma breve pausa, antes de acrescentar:
– Sob certos aspectos, monsieur Lemoine, é um homem bastante estranho.
– Sob quais aspectos?
– Por exemplo, no seu lugar, eu teria anotado aquele endereço que lhe mostrei. Pode ser que não tenha a menor importância. Mas, por outro lado, também pode ser muito importante.
Lemoine fitou-o em silêncio por um momento. Depois, sorriu e levantou a manga esquerda do casaco. No punho branco da camisa estava escrito o endereço: “Hurstmere, Langly Road, Dover”.
– Peço desculpas – disse Anthony. – E retiro tudo o que falei.
Ele foi juntar-se ao superintendente Battle e comentou:
– Está muito pensativo, Battle.
– É que tenho muito em que pensar, Sr. Cade.
– Era o que eu imaginava.
– Os fatos não estão fazendo sentido, absolutamente nenhum sentido.
– O que é terrível. Mas não se preocupe, Battle. Se acontecer o pior, sempre poderá me prender. Não se esqueça de que dispõe das minhas pegadas incriminadoras como prova.
Mas o superintendente não sorriu.
– Sabe se tem algum inimigo por aqui, Sr. Cade?
– Tenho a impressão de que um dos criados não gosta muito de mim – respondeu Anthony. – Na hora de servir, ele sempre deixa de me oferecer os melhores legumes. Por que pergunta?
– Tenho recebido cartas anônimas. Ou melhor, recebi uma carta anônima.
– A meu respeito?
Sem responder, Battle tirou do bolso uma folha de papel dobrada e a entregou a Anthony. Rabiscadas no papel, com a letra típica de um semi-analfabeto, estavam as seguintes palavras:
Fique de oio no Sr. Cade. Ele não é o que parece.
Anthony devolveu o bilhete, soltando uma risada.
– Isso é tudo? Vamos, Battle, anime-se. Sabe muito bem que sou um rei disfarçado.
Ele foi para a casa, assoviando alegremente. Mas assim que entrou no quarto e fechou a porta, sua expressão imediatamente mudou. O rosto tornou-se sombrio. Ele sentou na beira da cama e ficou olhando para o chão, pensativo.
– As coisas estão começando a ficar sérias – disse para si mesmo. – É preciso fazer algo. É tudo tão difícil e confuso...
Anthony ficou sentado na beira da cama por mais de um minuto, depois foi até a janela. Ficou olhando para fora distraidamente por um momento, então seus olhos focalizaram-se subitamente num ponto determinado. Seu rosto se animou.
– Mas é claro! – disse ele, em voz alta. – O roseiral! É isso mesmo! O roseiral!
Ele desceu com pressa a escada e saiu para o jardim por uma porta lateral. Aproximou-se do roseiral dando uma volta grande. Havia um pequeno portão em cada extremidade. Ele entrou pelo mais distante e encaminhou-se para o relógio de sol, que ficava numa pequena elevação, no centro do roseiral.
Já estava quase chegando quando estacou abruptamente, olhando aturdido para outro visitante do jardim, que parecia igualmente surpreso por vê-lo.
– Não sabia que se interessava por rosas, Sr. Fish – disse Anthony, suavemente.
– Pois saiba que me interesso consideravelmente por rosas, senhor.
Os dois ficaram se olhando cautelosamente, como antagonistas procurando avaliar as forças do oponente.
– Eu também me interesso – disse Anthony.
– É mesmo?
– Para dizer a verdade, sou um apaixonado por rosas.
Um ligeiro sorriso se insinuou nos lábios do Sr. Fish. Anthony também sorriu. A tensão pareceu se dissipar.
– Olhe só para esse magnífico exemplar – comentou o Sr. Fish, inclinando-se na direção de uma rosa particularmente bonita. – Se não estou enganado, trata-se de uma madame Abel Chatenay. É isso mesmo. Antes da guerra, esta rosa branca era conhecida como Frau Carl Drusky. Creio que a rebatizaram. Talvez tenha sido um excesso de sensibilidade, mas não se pode negar que foi uma medida patriótica. A La France é extremamente popular. Gosta de rosas vermelhas, Sr. Cade? Esta aqui, por exemplo...
A voz lenta e arrastada do Sr. Fish foi interrompida nesse momento. Bundle estava inclinada para fora de uma janela do segundo andar, gritando:
– Quer uma carona até a cidade, Sr. Fish? Estou de partida!
– Obrigado, lady Eileen, mas estou me sentindo muito bem aqui.
– Tem certeza de que não mudou de idéia, Sr. Cade?
Anthony riu e sacudiu a cabeça. Bundle desapareceu.
– Prefiro dormir – murmurou Anthony, bocejando. – Ah, não há nada melhor do que um bom cochilo depois do almoço! Ele tirou um cigarro.
– Por acaso tem fósforo?
O Sr. Fish entregou-lhe uma caixa de fósforos. Anthony tirou um fósforo e devolveu a caixa, agradecendo.
– Adoro as rosas, mas não estou me sentindo muito hortícola esta tarde – disse ele.
Assentiu jovialmente, com um sorriso cândido.
Nesse momento, soou um barulho trovejante perto da casa.
– Parece que o carro de lady Eileen possui um motor extremamente potente – comentou Anthony. – Lá vai ela.
Avistaram o carro avançando pelo longo caminho.
Anthony bocejou novamente e seguiu para a casa.
Passou pela porta. E assim que entrou, mudou abruptamente, passando de uma aparente letargia a um vigor extraordinário. Atravessou a entrada correndo, saiu por uma das janelas do outro lado e começou a correr pelo parque. Sabia que Bundle tinha de fazer uma volta grande para chegar aos portões da propriedade e atravessar a aldeia.
Anthony correu desesperadamente. Era uma corrida contra o tempo. Chegou ao muro do parque no momento em que o carro se aproximava pelo lado de fora. Pulou o muro e foi cair na estrada, gritando:
– Ei!
Atônita, Bundle pisou no freio, derrapando um pouco. Mas conseguiu parar o carro sem qualquer acidente. Anthony correu até lá, abriu a porta e sentou ao lado dela.
– Vou para Londres com você – disse ele. – Tinha essa intenção desde o início.
– Mas que homem extraordinário! – exclamou Bundle. – O que é isso em sua mão?
– Apenas um fósforo.
Anthony ficou olhando para o fósforo por um momento, pensativo. Era rosa, com uma cabeça amarela. Ele jogou fora o cigarro apagado e guardou o fósforo no bolso, cuidadosamente.
24
A casa em Dover
Depois de um momento de silêncio, Bundle perguntou:
– Importa-se se eu dirigir um pouco mais depressa? Saí de casa mais tarde do que pretendia.
Anthony tinha a impressão de que já estavam a uma velocidade vertiginosa, mas não demorou a descobrir que aquilo nada era em comparação com o que Bundle podia arrancar do Panhard, se quisesse.
Diminuindo a velocidade momentaneamente, ao passar por uma aldeia, Bundle comentou:
– Algumas pessoas ficam aterrorizadas com a maneira como eu dirijo. É o caso de papai, por exemplo. Nada no mundo conseguiria persuadi-lo a entrar nesta banheira velha comigo ao volante.
Anthony pensou que lorde Caterham tinha toda razão. Viajar de carro com Bundle não era um esporte saudável para cavalheiros nervosos de meia-idade.
– Mas você não parece nem um pouquinho nervoso – comentou Bundle, aprovadoramente, ao fazer uma curva sobre duas rodas.
– É que estou em boa forma – explicou Anthony, de forma séria. – Além do mais, também estou com pressa.
– Quer que eu aumente a velocidade mais um pouco? – indagou Bundle, de maneira solícita.
– Oh, Deus, claro que não! Já estamos a mais de 80 quilômetros por hora!
– Estou morrendo de curiosidade em saber o motivo de sua súbita partida – disse Bundle, depois de executar uma fanfarra com a buzina, que deve ter ensurdecido momentaneamente toda a vizinhança. – Mas não devo perguntar-lhe, não é mesmo? Por acaso está fugindo da polícia?
– Não tenho muita certeza. Mas em breve saberei.
– Aquele homem da Scotland Yard não é tão bobo quanto eu pensava – comentou Bundle.
– Battle é realmente um bom detetive.
– Você deve ter sido diplomata – disse Bundle. – Não gosta muito de soltar informações.
– Pois olhe que eu estava com a impressão de que tinha falado demais.
– Ei, por acaso está fugindo para se casar com mademoiselle Brun?
– Sou inocente! – declarou Anthony, com fervor.
Houve uma pausa de alguns minutos, durante os quais Bundle alcançou e ultrapassou três carros. Depois, ela perguntou abruptamente:
– Há quanto tempo conhece Virginia?
– É uma pergunta difícil de responder – disse Anthony, com toda sinceridade. – Para dizer a verdade, não a vi com muita freqüência. Mas parece que já a conheço há muito tempo.
Bundle assentiu.
– Virginia é uma mulher inteligente. Está sempre dizendo bobagens, mas tem realmente uma boa cabeça. Pelo que me disseram, saiu-se muito bem lá na Herzoslováquia. Se Tim Revel tivesse vivido, teria uma carreira extraordinária... e em grande parte graças a Virginia. Ela ajudou o marido de tudo que é jeito... e sei até por quê.
– Porque ela gostava dele? – indagou Anthony, olhando para a frente, fixamente.
– Justamente porque não gostava. Não está entendendo? Virginia não o amava... nunca o amou. Por isso é que fazia todo o possível para ajudá-lo. Virginia é assim mesmo. Mas não se deixe enganar. Virginia nunca esteve apaixonada por Tim Revel.
– Parece falar com uma certeza absoluta – disse Anthony, virando-se para fitá-la.
As mãos de Bundle estavam apertando o volante com toda força, o queixo estava esticado, numa atitude de determinação.
– Sei de alguns fatos. Era apenas uma criança por ocasião do casamento, mas ouvi alguns comentários. Conhecendo Virginia, posso facilmente somar os fatores e tirar minhas conclusões. Tim Revel apaixonou-se perdidamente por Virginia. Era irlandês e possuía um dom extraordinário para se expressar. Virginia ainda era muito jovem, tinha apenas 18 anos. Não podia ir a parte alguma sem esbarrar com Tim, assumindo uma cara de sofrimento desesperado, jurando que iria se matar com um tiro ou beber até cair se ela não aceitasse seu pedido de casamento. As moças acreditam nessas coisas. Ou melhor, acreditavam, porque progredimos muito nos últimos oito anos. Virginia deixou-se dominar pelo sentimento que julgava ter inspirado. Casou com Tim... e sempre foi um anjo para ele. Não o teria sido se o amasse. Há muito de demônio em Virginia. Mas posso garantir-lhe uma coisa: ela adora sua liberdade. E qualquer homem terá muito trabalho para persuadi-la a renunciar a essa liberdade.
– Por que está me dizendo tudo isso?
– Não acha que é interessante conhecer as pessoas? Ou, pelo menos, algumas pessoas.
– Tem razão.
– E nunca saberia disso tudo pela própria Virginia. Mas pode confiar em mim para ter informações de cocheira. Virginia é maravilhosa. Até mesmo as mulheres gostam dela, porque não é de falar mal da vida alheia.
Bundle fez uma pausa, antes de arrematar, de maneira um tanto obscura:
– Além do mais, devemos ter espírito esportivo, não é mesmo?
– Claro.
Mas Anthony estava desconcertado. Não tinha a menor dúvida do que levara Bundle a dar-lhe tantas informações, sem que as tivesse pedido. Mas não podia negar que estava contente por saber daquelas coisas.
– Ah, os bondes já começam a aparecer! – comentou Bundle, com um suspiro. – Acho que agora terei de guiar com mais cuidado.
– É uma boa idéia.
As idéias dele e as de Bundle a respeito do que significava guiar de maneira cautelosa simplesmente não coincidiam. Deixando os subúrbios indignados para trás, eles finalmente emergiram na Oxford Street.
– Não foi nada mau, hein? – comentou Bundle, dando uma olhada no relógio de pulso.
Anthony assentiu de forma vigorosa.
– Onde quer ficar?
– Em qualquer lugar. Para que lado está indo?
– Na direção da Knightsbridge.
– Pode me deixar na Hyde Park Corner.
– Até mais tarde – disse Bundle, ao largá-lo no lugar indicado. – Vai voltar comigo?
– Pode deixar que encontrarei um jeito de voltar sozinho. De qualquer forma, obrigado.
– Tenho a impressão de que o deixei assustado.
– Eu não recomendaria andar de carro com você como um tônico revigorante para os nervos de senhoras idosas. Mas, pessoalmente, até que gostei da viagem. A última vez em que corri um perigo igual foi na ocasião em que me vi no caminho de uma manada de elefantes.
– Acho que está sendo extremamente indelicado. Nem mesmo tivemos um solavanco durante a viagem.
– Lamento muito que tenha se reprimido por minha causa.
– Estou começando a pensar que os homens não são nada corajosos.
– É um comentário terrível e com isso eu me retiro, humilhado.
Bundle despediu-se e foi embora. Anthony fez sinal para um táxi que passava, dizendo ao motorista:
– Vamos para a estação de Victoria.
Chegando a Victoria, ele pagou a corrida e foi perguntar qual era o trem seguinte para Dover. Infelizmente, perdera um trem por uma questão de minutos.
Resignando-se a uma espera de pouco mais de uma hora, Anthony ficou andando de um lado para outro, com a testa franzida, imerso em seus pensamentos. De vez em quando, sacudia a cabeça, impacientemente.
A viagem para Dover transcorreu sem qualquer incidente. Chegando à cidade, Anthony saiu rapidamente da estação. Um momento depois, como se recordasse de algo, tratou de voltar. Havia um sorriso em seus lábios quando perguntou qual era o caminho para Hurstmere, Langly Road.
Era uma estrada comprida, que saía da cidade. Na estação, Anthony tinha sido informado de que Hurstmere era a última casa. Ele se dirigiu para lá, a passos largos. A testa estava novamente franzida. Não obstante, ele se sentia dominado por uma imensa exultação, como sempre acontecia quando o perigo era iminente.
Hurstmere ficava bastante recuada da estrada, cercada por um terreno amplo, invadido pelo mato. Anthony teve a impressão de que a casa devia estar vazia havia muitos anos. O grande portão de ferro estava bastante enferrujado e o nome na coluna era quase ilegível.
– Uma casa solitária, um local escolhido a dedo – murmurou Anthony sozinho.
Ele hesitou por um momento, olhou para os dois lados da estrada deserta e depois passou pelo portão, começou a subir pelo caminho e invadiu pelo mato. Andou um pouco, depois parou e ficou escutando atentamente. Ainda estava a uma boa distância da casa. Não se ouvia o menor barulho. Algumas folhas amareladas desprenderam-se de uma das árvores e flutuaram até o chão, com um farfalhar quase sinistro na quietude. Anthony estremeceu e depois sorriu.
– Ah, os nervos! – disse a si mesmo. – Nunca antes pensei que os tivesse.
Ele continuou a avançar. Mais adiante, o caminho fazia uma curva. Ele enveredou pelo meio do mato, onde não poderia ser visto por quem estivesse na casa. Subitamente ficou imóvel, espiando por entre as folhas. A alguma distância, um cachorro estava latindo. Mas era um ruído mais próximo que atraía a atenção de Anthony.
A sua audição aguçada não se enganara. Um homem contornou apressadamente o canto da casa. Era baixo e corpulento, de aparência estrangeira. Não parou, continuou a contornar a casa até desaparecer do outro lado.
Anthony assentiu para si mesmo, pensando: “É uma sentinela. Eles trabalham bem.”
Logo depois que o homem passou, Anthony continuou a avançar, desviando-se um pouco para a esquerda. Dali a pouco, chegou a um ponto em que uma luz saía da casa e se esparramava pelo caminho de cascalho. Podia-se ouvir claramente diversos homens conversando lá dentro.
“Meu Deus, mas que idiotas infames!”, pensou Anthony. “Bem que merecem levar um susto.”
Ele se aproximou silenciosamente da janela, semi-agachado, para que não o vissem. Levantou a cabeça, cautelosamente, para olhar lá dentro.
Meia dúzia de homens estavam acomodados em torno de uma mesa. Quatro eram altos e corpulentos, malares salientes, olhos enviesados, à maneira húngara. Os outros dois eram pequenos, com gestos nervosos. A língua em que conversavam era o francês, mas os quatro homens corpulentos falavam-na com bastante incerteza e uma entonação gutural.
– O chefe? – resmungou um deles. – Quando ele vai aparecer?
Um dos homenzinhos deu de ombros.
– Deve estar para chegar.
– Já não era sem tempo – resmungou o que perguntara. – Nunca vi esse chefe de vocês, mas que trabalhos grandiosos e espetaculares não teríamos realizado nesses tempos de espera ociosa!
– Seu idiota! – disse o outro homenzinho, rispidamente. – Deixar-se agarrar pela polícia é o único trabalho que você e seus valorosos amigos sabem fazer. Não passam de um bando de gorilas desajeitados!
– Está insultando os Camaradas? – rugiu o outro grandalhão. – Ainda vou espetar o sinal da Mão Vermelha em sua garganta!
Ele fez menção de se levantar, olhando furiosamente para o francês. Mas um dos seus companheiros obrigou-o a ficar sentado, dizendo:
– Nada de brigas. Temos que trabalhar juntos. Pelo que ouvi dizer, esse rei Victor não admite ser desobedecido.
Na escuridão, Anthony ouviu os passos da sentinela aproximando-se novamente e foi se esconder atrás de uma moita.
– Quem está aí? – perguntou alguém lá de dentro.
– Carlo... fazendo a ronda.
– Como está o prisioneiro?
– Está bem... começando a se recuperar bem depressa da pancada na cabeça que lhe demos.
Anthony afastou-se silenciosamente, pensando: “Mas que bando de idiotas! Tratam de seus negócios com a janela aberta e aquele idiota do Carlo faz a ronda pisando forte como um elefante... e com os olhos de um morcego! E para completar tudo, herzoslovacos e franceses estão prestes a se atracarem. O quartel-general do rei Victor parece estar em péssimas condições. Acho que seria muito divertido, mas muito divertido mesmo, ensinar-lhes uma lição.”
Ele ainda ficou indeciso por um momento, sorrindo sozinho.
De algum lugar acima dele veio o barulho de um gemido abafado.
Anthony levantou a cabeça. Ouviu novamente o gemido. Olhou rapidamente para a esquerda e a direita. Carlo ainda iria demorar um pouco para aparecer novamente. Segurando-se na trepadeira resistente, Anthony subiu de maneira ágil até o peitoril de uma janela. A janela estava trancada. Mas tirando uma ferramenta do bolso, ele conseguiu abri-la rapidamente.
Parou um momento para escutar e depois entrou no aposento. Havia uma cama do outro lado, na qual estava estendido um corpo, quase indistinto na escuridão.
Anthony aproximou-se da cama. Com a sua lanterna de bolso, iluminou o rosto do homem. Era um rosto de estrangeiro, pálido e definhando. A cabeça estava envolta em ataduras.
O homem estava com os pés e as mãos amarrados. Olhou para Anthony com uma expressão inteiramente aturdida.
Anthony inclinou-se sobre o homem. Ao fazê-lo, ouviu um barulho às suas costas. Virou-se rapidamente, levando a mão ao bolso.
Mas uma ordem brusca deteve o movimento.
– Levante as mãos, filho. Sei que não esperava me encontrar aqui, mas acontece que pegamos o mesmo trem em Victoria.
Era o Sr. Hiram Fish quem estava parado à porta. Sorria e tinha na mão uma imensa automática azulada.
25
A noite de terça-feira em Chimneys
Lorde Caterham, Virginia e Bundle estavam sentados na biblioteca depois do jantar. Era a noite de terça-feira. Cerca de trinta horas já haviam transcorrido desde a partida dramática de Anthony.
Bundle repetiu, pela sétima vez pelo menos, as últimas palavras que Anthony dissera quando o deixara na Hyde Park Corner.
– Pode deixar que encontrarei um jeito de voltar sozinho... – murmurou Virginia. – Não parecem ser as palavras de alguém que pensava em ficar longe por tanto tempo. E ele deixou todos os seus pertences aqui.
– Ele não lhe disse para onde ia?
– Não – respondeu Virginia, olhando fixamente para a frente. – Ele não me disse nada.
Depois disso, houve silêncio por algum tempo, finalmente rompido por lorde Caterham:
– No fundo, dirigir um hotel é mais fácil do que cuidar de uma casa de campo.
– Como assim?
– Nos hotéis, eles sempre podem pendurar nos quartos um aviso para que o hóspede avise com 12 horas de antecedência sua intenção de partir.
Virginia sorriu.
– Devo dizer que sou antiquado e meio exagerado – continuou lorde Caterham. – Sei que está em voga entrar e sair de uma casa bruscamente. Como se fosse um hotel... a mais completa liberdade de movimentos, com a vantagem de não se receber uma conta na hora de ir embora.
– Está virando um velho ranzinza, papai – disse Bundle. – Tem Virginia e eu. O que mais podia querer?
– Nada mais, nada mais... Mas o que me preocupa é a questão de princípio. É isso que me deixa um tanto inquieto. Estou até disposto a reconhecer que as últimas 24 horas foram quase ideais. Houve paz, muito sossego. Não houve tentativas de assalto nem outros crimes violentos, não tivemos detetives, nem norte-americanos. Só estou lamentando é não ter podido apreciar tudo isso ainda mais por não me sentir realmente seguro. Durante todo o tempo, fico dizendo para mim mesmo: “Um ou outro vai terminar voltando a qualquer momento.” E isso estraga todo o meu prazer.
– Até agora, ninguém voltou – disse Bundle. – Fomos deixados em paz... ignorados, para ser mais exata. É muito estranha, diga-se de passagem, a maneira como Fish desapareceu. Ele não disse nada a ninguém?
– Absolutamente nada. Na última vez em que o vi, ele estava andando de um lado para outro do roseiral, ontem à tarde, fumando um daqueles seus charutos desagradáveis. Depois disso, parece que ele simplesmente desapareceu no ar.
– Alguém deve tê-lo seqüestrado – comentou Bundle, esperançosa.
– Provavelmente, daqui a um ou dois dias, vou ter a Scotland Yard em peso aqui, dragando o lago à procura do corpo dele – murmurou lorde Caterham, sombriamente. – Mas bem que mereço a lição. A essa altura da vida, eu deveria ter ido para o exterior e cuidado da minha saúde, sem me deixar enredar nos planos insensatos de George Lomax. Eu...
Tredwell interrompeu-o nesse momento e lorde Caterham ficou irritado.
– O que é agora, Tredwell?
– O detetive francês está aqui, milorde. Pediu que lhe concedesse alguns minutos de entrevista.
– Eu não disse? – falou lorde Caterham para as duas mulheres. – Sabia que era bom demais para durar muito tempo. Podem contar que encontraram o corpo de Fish no tanque de peixinhos dourados!
Tredwell, de um jeito inteiramente respeitoso, levou-o de volta ao problema em questão:
– Devo dizer que irá recebê-lo, milorde?
– Está bem, está bem... Traga-o até aqui.
Tredwell retirou-se. Voltou um minuto depois, anunciando, em tom lúgubre:
– Monsieur Lemoine.
O francês entrou na sala em passos rápidos. O andar, mais do que o rosto, deixava transparecer o fato de que estava ansioso.
– Boa noite, Lemoine – disse lorde Caterham. – Aceita um drinque?
– Não, obrigado.
Ele fez uma mesura para as mulheres, antes de continuar a falar:
– Finalmente consegui realizar algum progresso. Tendo em vista as circunstâncias, achei que o senhor deveria ser informado das descobertas... descobertas da maior gravidade que fiz nas últimas 24 horas.
– Eu pensava mesmo que algo importante devia estar acontecendo em algum lugar – lorde Caterham comentou.
– Milorde, ontem à tarde um dos seus hóspedes deixou esta casa de maneira muito estranha. Devo dizer que, desde o início, sempre tive minhas suspeitas. Era um homem que vinha do meio da selva. Há dois meses, estava na África do Sul. E, antes disso... por onde estaria?
Virginia deixou escapar uma pequena exclamação. O francês fitou-a por um momento, mas logo continuou:
– Antes disso... por onde ele andava? Ninguém sabe dizer. E é justamente um homem assim que estou procurando, jovial, audacioso, temerário, um homem capaz de arriscar qualquer coisa. Despachei sucessivos cabogramas, mas não consegui obter informações a respeito do passado dele. Há dez anos, ele estava no Canadá, é verdade, mas desde então... silêncio. Minhas suspeitas foram aumentando. E, um belo dia, encontro um pedaço de papel que estava com ele. Tinha um endereço escrito... o endereço de uma casa em Dover. Mais tarde, como que por acaso, deixei cair esse pedaço de papel. Pelo canto do olho, vi quando Boris, o herzoslovaco, pegou-o e foi entregar ao seu amo. Desde o início, eu estava convencido de que esse Boris era um emissário dos Camaradas da Mão Vermelha. Sabemos que os Camaradas estão trabalhando com o rei Victor nesse caso. Se Boris reconhecia o Sr. Anthony Cade como seu chefe, não teria feito justamente isso? Por que iria devolver o papel a um estrangeiro que nada representava para ele? Eu já estava desconfiado e fiquei mais ainda.
E Lemoine continuou:
– Mas quase fiquei desarmado, pois Anthony Cade levou-me o papel quase que imediatamente e perguntou se fora eu quem o deixara cair. Falei que quase fiquei desarmado... mas não inteiramente! Pois aquela atitude podia significar que ele era inocente ou então um criminoso excepcionalmente esperto. Claro que neguei que o papel fosse meu. Mas logo iniciei as investigações. E somente hoje recebi notícias. A casa em Dover foi abandonada às pressas, mas até ontem estava ocupada por um bando de estrangeiros. Não resta a menor dúvida de que era o quartel-general do rei Victor. Podem agora compreender o significado de todos esses fatos. Ontem à tarde, o Sr. Cade desaparece bruscamente. Desde que deixou cair aquele papel com o endereço, devia saber que seu jogo terminara. Foi para Dover e prontamente dissolveu a quadrilha. Não sei qual será o próximo movimento dele. Mas de uma coisa tenho certeza, o Sr. Anthony Cade não voltará aqui. Conhecendo o rei Victor, no entanto, tenho certeza de que ele não renunciará a tudo sem fazer pelo menos mais uma tentativa de se apoderar do diamante. E será nesse momento que irei capturá-lo!
Virginia levantou-se abruptamente. Foi até a lareira e ali parou. Ao falar, a voz soava fria como aço:
– Creio que está deixando de levar em consideração um fato, monsieur Lemoine. O Sr. Cade não foi o único hóspede que desapareceu ontem de maneira suspeita.
– O que está querendo dizer, madame?
– Que tudo o que acabou de dizer aplica-se igualmente a outra pessoa. O que me diz do Sr. Hiram Fish?
– Ah, o Sr. Fish...
– Isso mesmo, o Sr. Fish! Naquela primeira noite, não nos contou que o rei Victor chegara à Inglaterra recentemente, procedente da América? O Sr. Fish também veio da América para a Inglaterra. É verdade que ele trouxe uma carta de apresentação de um homem bastante conhecido, mas alguém como o rei Victor não teria a menor dificuldade em conseguir isso. E podemos estar certos de que o Sr. Fish não é o que alega. Lorde Caterham já comentou que, nas conversas sobre primeiras edições, assunto que supostamente o trouxe a Chimneys, ele sempre assume o papel de ouvinte, jamais dando qualquer opinião. E há diversos fatos suspeitos contra ele. Uma luz se acendeu em seu quarto na noite do crime. Passemos para a noite da tentativa de assalto na Câmara do Conselho. Quando saí correndo para o terreno, encontrei-o inteiramente vestido. Ele pode ter deixado cair o papel. Não viu o Sr. Cade fazê-lo. O Sr. Cade pode ter ido para Dover. Se o fez, foi simplesmente para investigar. E pode ter sido seqüestrado ao chegar à tal casa. Na verdade, as ações do Sr. Fish são mais suspeitas que as do Sr. Cade.
A voz do francês se alteou um pouco, tornando-se estridente:
– Pelo seu ponto de vista, madame, tudo isso é possível. Não vou contestá-la. Mas concordo que o Sr. Fish realmente não é o que alega.
– E então?
– Mas isso não faz a menor diferença, madame. É que o Sr. Fish é um homem da Pinkerton.
– O quê? – gritou lorde Caterham.
– É isso mesmo, lorde Caterham. Ele veio para cá na pista do rei Victor. O superintendente Battle e eu já sabemos disso há algum tempo.
Virginia não disse nada. Lentamente, voltou a sentar. Com aquelas poucas palavras, a estrutura que construíra tão cuidadosamente de repente desmoronara.
– Todos sabíamos que o rei Victor acabaria vindo para Chimneys – continuou Lemoine. – Era o único lugar onde podíamos ter certeza de capturá-lo.
Virginia levantou a cabeça para fitá-lo com um brilho estranho nos olhos. Subitamente, soltou uma risada e disse:
– Mas ainda não o agarraram!
Lemoine ficou olhando para ela em silêncio, pensativo, antes de responder:
– Não, madame, ainda não. Mas tenho certeza de que o acabarei agarrando.
– Ele não se tornou famoso por conseguir enganar a polícia?
O rosto do francês se contraiu numa expressão de raiva.
– Desta vez será diferente – murmurou ele, por entre os dentes semicerrados.
– Ele é um sujeito muito simpático – comentou lorde Caterham. – Mas... não disse que ele era um velho amigo seu, Virginia?
– É por isso mesmo que estou convencida de que monsieur Lemoine está cometendo um erro – declarou Virginia, sem perder a compostura.
Os olhos dela se fixaram firmemente nos olhos de Lemoine, que não se abalou.
– O tempo irá mostrar quem tem razão, madame.
Depois de um breve momento de silêncio, Virginia perguntou:
– Acha que foi ele quem matou o príncipe Michael?
– Não tenho a menor dúvida quanto a isso.
Virginia sacudiu a cabeça vigorosamente.
– Ah, não! Se há algo de que tenho certeza absoluta é a de que Anthony Cade não matou o príncipe Michael!
Lemoine observava-a atentamente e disse, falando bem devagar:
– Há uma possibilidade de que esteja certa, madame. Apenas uma possibilidade, mais nada. Pode ter sido o herzoslovaco Boris, cumprindo ordens dele. É possível que o príncipe Michael o tivesse destratado e dessa maneira ele estava se vingando.
– O tal Boris realmente parece um criminoso – comentou lorde Caterham. – Pelo que me disseram, as criadas gritam de medo quando ele passa por elas nos corredores.
– Tenho que ir agora – disse Lemoine. – Só vim até aqui porque achei que tinha o direito de saber exatamente qual era a situação, milorde.
– E agradeço a sua atenção – disse lorde Caterham. – Tem certeza de que não quer um drinque? Se não quer, está bem. Boa noite.
Assim que a porta se fechou, Bundle disse:
– Detesto esse homem com a sua barba preta impecável e os óculos sempre brilhando. Estou torcendo para que Anthony consiga enganá-lo. Adoraria ver esse francês tendo um ataque de raiva. O que acha de tudo isso, Virginia?
– Não tenho ainda uma idéia definida. Além do mais, estou agora muito cansada e a única coisa em que penso é me deitar.
– Não é uma má idéia – disse lorde Caterham. – Afinal, já passam das 23h30.
Ao atravessar a ampla entrada, Virginia avistou umas costas largas, que lhe pareceram familiares, desaparecendo discretamente por uma porta lateral.
– Superintendente Battle! – chamou ela, autoritariamente.
Battle, pois era realmente ele, voltou prontamente, com uma expressão contrafeita.
– O que deseja, Sra. Revel?
– Monsieur Lemoine esteve aqui. Disse... É realmente verdade que o Sr. Fish é um detetive norte-americano?
O superintendente Battle assentiu.
– É, sim.
– Sabia desde o início?
O superintendente Battle tornou a assentir.
Virginia virou-se, na direção da escada, murmurando:
– Obrigada.
Até aquele momento, ela se recusara a acreditar.
E agora?
Sentada diante da penteadeira, em seu quarto, Virginia tratou de enfrentar o problema. Recordava cada palavra que Anthony lhe dissera com um novo sentido.
Seria aquele o “ofício” ao qual ele se referira?
O ofício ao qual ele renunciara. Mas, neste caso...
Um ruído estranho veio interromper-lhe as meditações. Virginia levantou a cabeça, com um sobressalto. Seu pequeno relógio de ouro indicava que já passava de uma hora da madrugada. Havia quase duas horas que estava imersa em seus pensamentos!
O ruído estranho repetiu-se. Era uma batida no vidro da janela. Virginia foi até a janela e abriu-a. Lá embaixo, no caminho, havia um vulto alto, abaixando-se para pegar mais algumas pedrinhas.
Por um momento, o coração de Virginia bateu mais depressa. Mas um instante depois, ela reconheceu o vulto corpulento do herzoslovaco Boris.
– O que deseja? – perguntou ela, em voz baixa.
Não lhe ocorreu no momento que era muito estranho o fato de Boris estar jogando pedrinhas em sua janela àquela hora da madrugada. Como não houve uma resposta imediata, ela repetiu, impacientemente:
– O que deseja?
– O amo me mandou vir até aqui – explicou Boris, também em voz baixa, mas que dava para ouvir perfeitamente. – Mandou buscá-la.
Ele deu a informação num tom completamente indiferente.
– Mandou me buscar?
– Isso mesmo. Devo levá-la ao lugar em que ele está. Há um bilhete. Vou jogá-lo.
Virginia recuou um pouco e um pedaço de papel, em torno de uma pedra, caiu a seus pés, com extrema precisão. Ela desdobrou o papel e leu:
Minha cara: estou numa situação difícil, mas pretendo superar
todos os problemas. Quer confiar em mim e vir ao meu encontro?
Por dois minutos inteiros, Virginia ficou completamente imóvel, lendo aquelas poucas palavras inúmeras vezes.
Depois levantou a cabeça, contemplando todos os luxos do quarto, como se os visse pela primeira vez.
Voltou a inclinar-se pela janela e perguntou:
– O que devo fazer?
– Os detetives estão do outro lado da casa, fora da Câmara do Conselho. Desça e saia pela porta lateral. Estarei esperando. Tenho um carro lá na estrada.
Virginia assentiu. Mudou de roupa rapidamente, pondo um vestido de tricô castanho-claro e um chapeuzinho da mesma cor.
Sorrindo, escreveu um bilhete para Bundle e deixou-o espetado na alfineteira.
Desceu silenciosamente a escada e puxou as trancas da porta lateral. Hesitou por um momento e depois, com um meneio de cabeça do mesmo jeito que seus ancestrais ao partirem para as Cruzadas, saiu da casa.
26
O dia 13 de outubro
Às 10 horas da manhã de quarta-feira, dia 13 de outubro, Anthony Cade entrou no Harridge’s Hotel e pediu para falar com o barão Lolopretjzyl, que estava hospedado em uma das suítes.
Depois da espera apropriada, Anthony foi levado à suíte. O barão estava de pé junto à lareira, na atitude adequada. O pequeno capitão Andrassy, com uma pose igualmente correta, mas com uma atitude ligeiramente hostil, também estava presente.
Depois das mesuras habituais, batidas de calcanhar e outros cumprimentos formais, uma rotina à qual Anthony já estava quase acostumado agora, ele largou o chapéu e a bengala em cima de uma mesa e foi logo dizendo, satisfeito:
– Espero que me perdoe por esta visita tão cedo, barão. Mas é que tenho uma pequena proposta a fazer-lhe.
– E que proposta é essa? – perguntou o barão.
O capitão Andrassy, que jamais conseguira superar sua aversão inicial a Anthony, parecia desconfiado.
– Todo e qualquer negócio está sempre baseado no conhecido princípio da oferta e da procura, barão. Alguém quer alguma coisa e outra pessoa a tem. A única alternativa é definir o preço.
O barão fitava-o atentamente, mas não disse nada.
– Entre um nobre herzoslovaco e um cavalheiro inglês, tenho certeza de que os termos do acordo poderão ser facilmente ajustados.
Anthony corou um pouco ao pronunciar essas palavras, que não saem facilmente pelos lábios de um inglês. Mas já observara, em ocasiões anteriores, o prodigioso efeito de frases assim na mentalidade do barão. E, mais uma vez, o golpe deu certo.
– Tem toda razão – disse o barão, sacudindo a cabeça. – Tem toda razão.
Até mesmo o capitão Andrassy pareceu relaxar um pouco e também assentiu.
– Isso é ótimo – disse Anthony. – Não vou mais ficar fazendo rodeios...
– Como? – interrompeu o barão. – Fazendo rodeios? Não estou compreendendo.
– Uma simples figura de retórica, barão. Falando de uma forma simples, vocês estão querendo a mercadoria e nós a temos! O navio já está pronto para a partida, mas falta a figura de proa. E quando falo em navio, estou me referindo ao Partido Lealista da Herzoslováquia. Neste exato momento, estão carecendo do principal ponto de apoio de seu programa político. Ou seja, estão sem um príncipe! Mas suponhamos... apenas suponhamos, que eu possa lhes fornecer um príncipe?
O barão ficou perplexo e declarou:
– Não estou compreendendo nem um pouco.
– Está nos insultando, senhor! – exclamou o capitão Andrassy, retorcendo furiosamente as pontas do bigode.
– Não há qualquer insulto. Estou apenas tentando ajudar, mais nada. Oferta e procura, entendem? É tudo perfeitamente justo e correto. Só fornecemos príncipes que sejam genuínos. Se chegarmos a um acordo, descobrirão que estou dizendo a verdade. Estou oferecendo o artigo genuíno... tirado do fundo da gaveta.
– Não estou compreendendo nada – declarou novamente o barão.
– Isso não tem importância. Só estou querendo que se acostumem à idéia. Para usar uma expressão vulgar, tenho um trunfo debaixo da manga. Quero apenas que pensem numa coisa. Estão precisando de um príncipe. Sob determinadas condições, eu me encarregarei de fornecer-lhes um príncipe.
O barão e Andrassy ficaram olhando para ele, mais aturdidos do que nunca. Anthony pegou o chapéu e a bengala, preparando-se para ir embora.
– Fique pensando nisso, barão. Mais uma coisa: deve ir para Chimneys esta noite... junto com o capitão Andrassy. Diversos fatos estranhos provavelmente irão ocorrer lá. Podemos marcar um encontro? Nove horas da noite, na Câmara do Conselho? Obrigado, cavalheiros. Posso contar com a presença de ambos?
O barão deu um passo para a frente, examinando atentamente o rosto de Anthony.
– Sr. Cade – ele disse, por fim, não sem dignidade. – Posso certo ficar de que não tenciona à minha custa se divertir?
Anthony sustentou o olhar firmemente e disse, com um tom curioso na voz:
– Quando esta noite terminar, barão, tenho certeza de que será o primeiro a reconhecer que tudo isso é muito mais sério do que se podia imaginar.
Fazendo uma mesura para os dois, Anthony retirou-se.
Sua visita seguinte foi na cidade, onde mandou seu cartão para o Sr. Herman Isaacstein.
Depois de alguma espera, Anthony foi recebido por um subalterno pálido e bem vestido, com um sorriso cativante e um porte militar.
– Queria falar com o Sr. Isaacstein? Infelizmente, é uma manhã muito movimentada, de reunião de diretoria e outros compromissos da maior importância. Posso servi-lo em algo?
– Tenho que falar com ele pessoalmente – declarou Anthony, acrescentando imediatamente, em tom meio indiferente: – Acabei de chegar de Chimneys.
O jovem ficou ligeiramente desconcertado com a menção a Chimneys.
– Vou ver se ele pode recebê-lo por um instante...
– Diga-lhe que é muito importante.
– Um recado de lorde Caterham? – sugeriu o jovem.
– Algo parecido. Mas é fundamental que eu fale com o Sr. Isaacstein imediatamente.
Dois minutos depois, Anthony foi conduzido a uma sala suntuosa e ficou particularmente impressionado com o tamanho das poltronas de couro. O Sr. Isaacstein levantou-se para cumprimentá-lo.
– Espero que me perdoe por procurá-lo dessa maneira – desculpou-se Anthony. – Sei que é um homem muito ocupado e não vou tomar seu tempo além do estritamente necessário. Trata-se de um pequeno problema de negócios que desejo apresentar-lhe.
Isaacstein examinou-o atentamente por um momento e depois disse, inesperadamente, estendendo uma caixa aberta:
– Aceita um charuto?
– Obrigado – Anthony agradeceu, servindo-se.
– Vim falar do problema herzoslovaco – continuou Anthony, aceitando o fósforo que lhe era oferecido e notando o brilho súbito nos olhos do financista. – O assassinato do príncipe Michael deve ter transtornado todos os seus planos.
O Sr. Isaacstein ergueu ligeiramente as sobrancelhas, murmurou um “Ahn?” inquisitivo e transferiu seu olhar para o teto.
– Petróleo... – disse Anthony, pensativo, contemplando a superfície envernizada da mesa. – Uma coisa maravilhosa, o petróleo...
Ele percebeu o ligeiro sobressalto do financista.
– Importa-se de ir direto ao ponto, Sr. Cade?
– Absolutamente. Se as concessões forem feitas a outra companhia, não ficará muito satisfeito, não é mesmo, Sr. Isaacstein?
– Qual é a sua proposta? – indagou Isaacstein, fitando Anthony nos olhos.
– Um pretendente ao trono aceitável, cheio de simpatias britânicas.
– Onde o conseguiu?
– Isso é só da minha conta.
Isaacstein recebeu a resposta com um sorriso, o olhar cada vez mais firme e atento.
– Mas é um artigo genuíno? Eu não aceitaria uma imitação.
– O artigo é absolutamente genuíno.
– Sem dúvida.
– Com certeza.
– Aceitarei a sua palavra.
– Não parece ser um homem muito difícil de convencer, Sr. Isaacstein.
Herman Isaacstein sorriu.
– Eu não estaria onde me encontro agora se não tivesse aprendido a identificar quando um homem está ou não dizendo a verdade. Quais são os termos?
– O mesmo empréstimo e as mesmas condições que ofereceu ao príncipe Michael.
– E para você?
– No momento, não quero nada, a não ser que vá a Chimneys esta noite.
– Isso é impossível.
– Por quê?
– Tenho um compromisso para esta noite... um jantar da maior importância.
– Receio que tenha de cancelá-lo... para o seu próprio bem.
– O que está querendo insinuar?
Anthony fitou-o em silêncio por um minuto inteiro antes de responder: