O Segredo de Chimneys

Agatha Christie · Capítulo 3 de 3 · parte 4/9

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O Segredo de Chimneys

Dedicatória

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.

– Battle? Uma batalha? Para quê?

– Não está me entendendo, Caterham. Refiro-me ao superintendente Battle, da Scotland Yard. É um homem que sabe ser discreto. Trabalhou conosco naquele caso lamentável dos fundos do partido.

– Que caso foi esse? – indagou lorde Caterham com algum interesse.

Mas os olhos de George haviam reparado em Bundle, sentada metade para dentro e metade para fora da janela. Recordou-se bem a tempo da necessidade de discrição e levantou-se, dizendo:

– Não temos tempo a perder. Preciso enviar imediatamente alguns telegramas.

– Se quiser escrevê-los, Bundle poderá despachá-los pelo telefone.

George tirou uma caneta-tinteiro do bolso e começou a escrever, com uma incrível rapidez. Entregou a primeira mensagem a Bundle, que leu com evidente interesse.

– Deus do céu, mas que nome! – ela comentou. – Barão o quê?

– Barão Lolopretjzyl.

Bundle piscou os olhos.

– Eu entendi, mas vai levar algum tempo para conseguir transmitir esse nome à agência dos correios.

George continuou a escrever. Ao terminar, entregou todos os textos a Bundle e depois dirigiu-se ao dono da casa:

– O melhor que pode fazer nesse momento, Caterham...

– O que é? – indagou lorde Caterham, bastante apreensivo.

– ... É deixar tudo nas minhas mãos.

– Mas claro! – concordou lorde Caterham, aliviado e satisfeito. – Era exatamente isso o que eu mesmo estava pensando fazer. Encontrará o Dr. Cartwright e a polícia na Câmara do Conselho. Com o... ahn... corpo. Meu caro Lomax, coloco Chimneys irrestritamente à sua disposição. Faça o que achar melhor.

– Obrigado. Se por acaso eu desejar consultá-lo a respeito de algum problema...

Mas lorde Caterham já desaparecera furtivamente pela porta mais distante. Bundle tinha observado a retirada apressada do pai com um sorriso sombrio.

– Vou despachar os telegramas imediatamente – ela informou. Sabe chegar à Câmara do Conselho?

– Sei, sim, obrigado, lady Eileen.

E George saiu apressadamente da sala.

 

11

Chega o superintendente Battle

 

Lorde Caterham estava tão apreensivo com a possibilidade de ser consultado por George que passou a manhã inteira dando uma volta pela propriedade. Somente as primeiras pontadas de fome é que conseguiram levá-lo de volta à casa. Além disso, pensava também que, àquela altura, o pior já teria passado.

Entrou na casa furtivamente, por uma porta lateral. Esgueirou-se até seu refúgio. Sentiu-se orgulhoso por ter conseguido entrar sem ser observado; mas nisso estava inteiramente enganado. Nada escapava ao vigilante Tredwell, que um instante depois apareceu na porta:

– Com licença, milorde...

– O que é, Tredwell?

– O Sr. Lomax pediu que fosse procurá-lo na biblioteca assim que voltasse, milorde.

Por esse método delicado, Tredwell estava querendo dizer que lorde Caterham ainda não havia voltado, a menos que assim o decidisse.

Lorde Caterham suspirou e levantou-se.

– Creio que terei mesmo de falar com ele, mais cedo ou mais tarde. Disse que ele está esperando na biblioteca?

– Isso mesmo, milorde.

Suspirando novamente, lorde Caterham começou a percorrer os amplos espaços da mansão ancestral, até chegar à porta da biblioteca.

A porta estava trancada. Ele sacudiu a maçaneta e destrancaram a porta por dentro, entreabrindo-a ligeiramente. O rosto de George Lomax apareceu na fresta, com uma expressão desconfiada.

– Ah, Caterham, entre, entre... Estávamos agora mesmo indagando o que lhe teria acontecido.

Murmurando algumas palavras vagas a respeito de suas obrigações, de reparos que precisavam ser feitos na propriedade, lorde Caterham entrou na sala. Havia dois outros homens lá dentro. Um deles era o coronel Melrose, o chefe de polícia local. O outro era um homem atarracado, de meia-idade, com um rosto tão desprovido de expressão que chegava a ser extraordinário.

– O superintendente Battle chegou há meia hora – explicou George. – Já foi ao local do crime com o inspetor Badgworthy e conversou com o Dr. Cartwright. E agora deseja saber algumas informações de nós.

Todos sentaram, depois que lorde Caterham cumprimentou Melrose e foi devidamente apresentado ao superintendente Battle.

– Creio ser desnecessário dizer-lhe, Battle, que este é um caso que deve ser tratado com o máximo de discrição – comentou George.

O superintendente assentiu, com um ar indiferente, que imediatamente atraiu a simpatia de lorde Caterham.

– Não vejo problemas nisso, Sr. Lomax. Só quero que nada seja escondido de nós. Soube que o cavalheiro assassinado se chamava conde Stanislau... ou pelo menos era esse o nome pelo qual a criadagem o conhecia. Mas era o verdadeiro nome dele?

– Não, não era.

– E qual era então o nome verdadeiro?

– Príncipe Michael, da Herzoslováquia.

Os olhos de Battle se arregalaram ligeiramente. Afora isso, porém, ele não deixou transparecer qualquer reação.

– E qual era o propósito da visita dele a Chimneys, se me permitem a pergunta? Era apenas por prazer?

– Havia um outro propósito, Battle. E quero ressaltar que tudo o que se disser aqui é estritamente confidencial.

– Claro, claro, Sr. Lomax.

– Concorda também em não revelar nada, coronel Melrose?

– Claro.

– A verdade é que o príncipe Michael veio a Chimneys com o objetivo expresso de encontrar-se com o Sr. Herman Isaacstein. Os dois iriam acertar um empréstimo, sob determinadas condições.

– E que condições eram essas?

– Não conheço os detalhes exatos. Na verdade, ainda não haviam sido definidos. Mas, de um modo geral, o príncipe Michael assumiria o compromisso, caso subisse ao trono, de conceder licença para exploração de petróleo na Herzoslováquia às companhias às quais o Sr. Isaacstein está diretamente ligado. O governo britânico estava disposto a apoiar a reivindicação do príncipe Michael ao trono, tendo em vista a sua inequívoca tendência pró-Inglaterra.

– Creio que não preciso me aprofundar mais nesse aspecto do caso – interrompeu o superintendente Battle. – O príncipe Michael queria o dinheiro, o Sr. Isaacstein queria o petróleo e o governo britânico estava disposto a assinar um papel paternal. Só mais uma pergunta: havia mais alguém querendo as concessões para exploração do petróleo herzoslovaco?

– Creio que um grupo de financistas norte-americanos tinha apresentado propostas à Sua Alteza.

– E tais propostas foram rejeitadas, não é mesmo?

Mas George recusou-se a cair na armadilha, limitando-se a repetir:

– O príncipe Michael tinha uma inequívoca tendência pró-Inglaterra.

O superintendente Battle também não insistiu.

– Lorde Caterham, vou relatar o que aconteceu ontem, de acordo com o que me contaram. Encontrou-se com o príncipe Michael na aldeia e vieram juntos para cá. O príncipe estava acompanhado por seu criado particular, um herzoslovaco chamado Boris Anchoukoff. Mas seu cavalariço, o capitão Andrassy, ficou na aldeia. Ao chegar, o príncipe declarou que estava muito cansado e retirou-se para os aposentos que lhe haviam sido reservados. Serviram-lhe o jantar nos aposentos e ele não recebeu nenhuma das outras pessoas que estavam nesta casa. Isso tudo está correto?

– Absolutamente correto.

– Esta manhã, uma criada descobriu o corpo, por volta das 7h45. O Dr. Cartwright examinou o corpo e verificou que a morte fora causada por uma bala disparada de um revólver. Nenhum revólver foi encontrado e aparentemente ninguém na casa ouviu o disparo. Por outro lado, o relógio do falecido ficou esmagado na queda, indicando que o crime foi cometido quando faltavam exatamente 15 minutos para a meia-noite. A que horas foi deitar-se ontem à noite, lorde Caterham?

– Todos nos retiramos relativamente cedo. Por algum motivo, ninguém parecia estar muito animado, se é que me entende, superintendente. Eu diria que fomos deitar por volta das 22h30.

– Obrigado. E agora, lorde Caterham, gostaria que me falasse de todas as pessoas que se encontram no momento na casa.

– Mas o assassino não é alguém que veio de fora?

O superintendente Battle sorriu.

– Eu diria que sim, eu diria que sim... Mesmo assim, preciso saber quem estava na casa. Uma simples questão de rotina...

– Havia o príncipe Michael e seu criado. O Sr. Herman Isaacstein também estava presente. Já sabe quem são todos eles. Havia também o Sr. Eversleigh...

– Que trabalha no meu departamento – interveio George, em tom condescendente.

– E ele também estava a par do verdadeiro motivo da presença do príncipe Michael aqui?

– Não posso dizer que estivesse – respondeu George, de forma cautelosa. – Certamente ele sabia que algo importante estava acontecendo, mas não julguei necessário revelar-lhe tudo.

– Entendo. Quer continuar, por gentileza, lorde Caterham?

– Deixe-me ver... Ah, havia também o Sr. Hiram Fish.

– E quem é o Sr. Hiram Fish?

– O Sr. Fish é norte-americano. Trouxe uma carta de apresentação do Sr. Lucius Gott... já ouviu falar de Lucius Gott?

O superintendente Battle sorriu, indicando que sim. Quem não ouvira falar de Lucius C. Gott, o multimilionário?

– Ele estava querendo conhecer minhas primeiras edições. É claro que a coleção do Sr. Gott é incomparável, mas também possuo diversos tesouros. O Sr. Fish é um entusiasta do assunto. O Sr. Lomax sugeriu que eu convidasse mais algumas pessoas para passar o fim de semana em Chimneys, a fim de que tudo parecesse mais natural. Assim, aproveitei a oportunidade para convidar o Sr. Fish. E esses eram todos os homens. Quanto às mulheres, havia apenas a Sra. Revel... e imagino que ela deva ter trazido uma camareira. Além disso, havia também minha filha e as outras crianças, babás, governantas e o restante da criadagem.

Lorde Caterham parou a fim de respirar.

– Obrigado – agradeceu Battle. – Uma simples questão de rotina, mas é sempre necessária.

– Mas não resta qualquer dúvida de que o assassino entrou pela janela, não é mesmo? – indagou George.

Battle demorou um pouco para responder:

– Há pegadas se aproximando da janela e depois outras pegadas se afastando. Um carro parou do lado de fora do parque às 23h40 da noite de ontem. Por volta de meia-noite, um homem chegou de carro à Jolly Cricketers e alugou um quarto. Deixou as botas no corredor, para serem limpas. Estavam molhadas e enlameadas, como se ele tivesse andado pela relva alta do parque.

George inclinou-se para a frente, ansiosamente.

– E essas botas não podiam ser comparadas com as pegadas?

– Já foram.

– E o que se verificou?

– Correspondem exatamente.

– Isso resolve o caso! – gritou George. – Já temos o assassino. Esse homem... por falar nisso, qual é o nome dele?

– Na hospedaria, ele se registrou como Anthony Cade.

– Esse Anthony Cade deve ser procurado imediatamente e preso sem mais delongas.

– Não há necessidade de procurá-lo – informou o superintendente Battle.

– Por quê?

– Porque ele continua na hospedaria.

– O quê?

– Não é curioso?

O coronel Melrose fitou atentamente o homem da Scotland Yard.

– O que está pensando, Battle? Vamos, diga logo.

– Acho apenas que é um fato curioso, mais nada. Temos um homem que devia tentar fugir a qualquer custo, mas que continua onde está, não faz qualquer menção de fugir. E nos proporciona até ampla oportunidade para comparar suas pegadas com as botas que usava.

– O que está pensando exatamente?

– Não sei o que pensar... e confesso que é uma situação das mais embaraçosas.

– Está por acaso imaginando...

Era o coronel Melrose quem falava, mas não pôde continuar porque nesse instante houve uma batida discreta na porta.

George levantou e foi abri-la. Tredwell, sofrendo interiormente por ter que bater nas portas daquela maneira, ficou parado no limiar, com uma expressão digna, dirigindo-se a lorde Caterham:

– Com licença, milorde, mas um cavalheiro deseja falar-lhe. Diz que é urgente e importante, um assunto relacionado, pelo que entendi, com a tragédia desta manhã.

– E qual é o nome dele? – perguntou Battle, abruptamente.

– O nome dele é Sr. Anthony Cade. Disse que não diria nada a ninguém.

Mas o nome parecia dizer muito aos quatro homens presentes. Todos estavam demonstrando graus variados de espanto.

Lorde Caterham soltou uma risadinha e comentou:

– Estou começando realmente a me divertir. Mande-o entrar, Tredwell... mande-o entrar imediatamente.

 

12

Anthony conta sua história — r. Anthony Cade – anunciou Tredwell. S

E Anthony disse:

– Entra em cena o estranho suspeito que está na hospedaria da aldeia.

Ele se encaminhou diretamente para lorde Caterham, com um instinto raro em estranhos. Ao mesmo tempo, assim resumiu os outros três homens que estavam na sala, mentalmente: “1) Scotland Yard; 2) autoridade local, provavelmente o chefe de polícia; 3) um cavalheiro angustiado, à beira da apoplexia, possivelmente ligado ao governo.”

– Devo pedir desculpas – continuou Anthony, ainda dirigindo-se a lorde Caterham. – Não tenho o hábito de aparecer na casa dos outros dessa maneira. Mas ouvi o rumor, no Jolly Dog ou qualquer que seja o nome do pub local, de que houve um assassinato aqui. E como pensei que podia ajudar a esclarecer o caso, tratei de vir até aqui imediatamente.

Por um momento, ninguém falou. O superintendente Battle não disse nada porque era um homem de muita experiência, que sabia ser muito melhor, infinitamente melhor, deixar que os outros falassem, se pudessem ser persuadidos a fazê-lo; o coronel Melrose porque era habitualmente taciturno; George porque tinha o hábito de não se manifestar sobre assuntos que não lhe diziam respeito; e lorde Caterham simplesmente porque não tinha a menor idéia do que dizer. O silêncio dos outros três, no entanto, acrescido do fato de que o estranho se dirigira a ele especificamente, fez com que lorde Caterham acabasse tendo que falar. E ele, de maneira nervosa, disse:

– Ahn... muito bem... muito bem... Não quer... ahn... sentar-se?

– Obrigado – Anthony agradeceu.

George limpou a garganta, de maneira impressionante.

– Quando diz que... ahn... pode ajudar a esclarecer o caso... o que está querendo dizer?

– Estou querendo dizer que invadi a propriedade de lorde Caterham (pelo que espero que ele me perdoe) ontem à noite, por volta das 23h45, e ouvi um tiro sendo disparado. Assim, posso pelo menos determinar a hora do crime.

Anthony olhou para os outros três homens, fitando um de cada vez e demorando-se por mais tempo no superintendente Battle, dando a impressão de que apreciava devidamente a impassibilidade do rosto dele. Só depois é que acrescentou, suavemente:

– Mas tenho a impressão de que isso não é novidade para vocês.

– Como assim, Sr. Cade? – indagou Battle.

– Esta manhã, ao levantar, calcei os sapatos. Mais tarde, quando pedi minhas botas, não puderam me entregar. Fui informado de que um guarda as levara. Assim, não foi difícil somar dois mais dois e apressei-me em vir até aqui, a fim de estabelecer minha inocência, se for possível.

– Uma atitude das mais sensatas – comentou Battle de forma cautelosa.

Houve um brilho súbito nos olhos de Anthony.

– Aprecio sua reserva, inspetor. É um inspetor, não é mesmo?

Lorde Caterham resolveu intervir na conversa. Estava começando a simpatizar com Anthony.

– É o superintendente Battle, da Scotland Yard. Esse é o coronel Melrose, chefe de polícia local, e esse é o Sr. Lomax.

Anthony olhou atentamente para George e disse:

– É o Sr. George Lomax?

– Isso mesmo.

– Tive o prazer de receber uma carta sua ontem, Sr. Lomax.

George ficou aturdido, mas respondeu friamente:

– Não creio que isso tenha acontecido.

Mas ele desejou que a Srta. Oscar estivesse presente. Era ela que datilografava todas as suas cartas e sempre se recordava para quem eram e qual era o assunto tratado. Não se podia esperar que um grande homem como George fosse recordar de todos esses detalhes insignificantes.

– Tenho a impressão, Sr. Cade, de que ia nos dar alguma... ahn... explicação sobre o que estava fazendo aqui ontem à noite, às 23h45.

O tom com que George falou dizia claramente outra coisa: “E qualquer que seja a explicação, provavelmente não vamos acreditar.”

– Isso mesmo, Sr. Cade, o que veio fazer aqui? – perguntou lorde Caterham, com o maior interesse.

– É uma história muito comprida – Anthony completou, num tom pesaroso.

Ele tirou a cigarreira do bolso e acrescentou:

– Permite que eu fume?

Lorde Caterham assentiu. Anthony acendeu um cigarro, preparando-se para o suplício da explicação.

Estava perfeitamente consciente do perigo em que se encontrava. No curto período de 24 horas, envolvera-se em dois crimes separados. Suas ações em relação ao primeiro crime não o deixavam em uma posição das mais favoráveis em relação ao segundo. Depois de dar sumiço em um cadáver, dificultando deliberadamente a ação da justiça, chegara ao local do segundo crime no momento exato em que estava sendo cometido. Para um homem à procura de encrencas, ele não poderia ter se saído melhor.

E Anthony pensou: “Nem mesmo na América do Sul eu poderia me meter numa encrenca assim.”

Já decidira qual o caminho que deveria seguir. Iria contar a verdade... com uma pequena alteração e uma omissão mais grave.

– A história começa há três semanas... em Bulawayo. O Sr. Lomax, é claro, sabe onde fica. É um posto avançado do império... Encontrei-me com um amigo meu, um certo Sr. James McGrath...

Anthony pronunciou o nome bem devagar, olhando atentamente para George, que se remexeu em sua cadeira, inquieto, contendo a custo uma exclamação de espanto.

– O resultado da nossa conversa foi que acabei vindo para a Inglaterra, a fim de realizar uma pequena missão para o Sr. McGrath, que no momento não podia vir pessoalmente. Como a passagem fora comprada no nome dele, viajei como James McGrath. Não sei qual o crime que cometi ao fazer isso... creio que o superintendente poderá dizer e indicar os meses que terei de passar na cadeia, se for o caso.

– Continue a nos contar a história, por favor – insistiu Battle, enquanto um brilho rápido surgia em seus olhos.

– Chegando a Londres, fui hospedar-me no Hotel Blitz, ainda como James McGrath. Minha missão em Londres era entregar determinado manuscrito a uma editora. Mas logo depois que cheguei, fui procurado por representantes de dois partidos políticos de uma nação estrangeira. Os métodos de um deles estavam rigorosamente dentro da lei, o mesmo não acontecendo com os do outro... Tratei a ambos de acordo com os respectivos métodos. Naquela noite, meu quarto foi arrombado e houve uma tentativa de assalto por parte de um dos garçons do hotel.

– O que não foi comunicado à polícia, não é mesmo? – indagou o superintendente Battle.

– Tem toda razão. A polícia não foi chamada. Mas comuniquei o fato ao gerente do hotel, que poderá confirmar minha história e informar que o referido garçom desapareceu abruptamente no meio da noite. No dia seguinte, recebi um telefonema da editora. Um dos diretores sugeriu-me que um representante seu fosse me procurar e pegar o manuscrito. Concordei prontamente e essa parte ficou devidamente resolvida na manhã seguinte. Desde então, não soube de mais nada a respeito, e calculo que o manuscrito tenha chegado a salvo na editora. Ontem, ainda como James McGrath, recebi uma carta do Sr. Lomax...

Anthony fez uma pausa. Estava começando a se divertir com a situação. George remexeu-se na cadeira, nervoso. E murmurou:

– Estou lembrando agora... Tenho uma correspondência muito grande e, sendo o nome diferente, não poderia sequer imaginar que se tratasse da mesma pessoa.

George fez uma breve pausa. Ao voltar a falar, a voz estava um pouco alterada, com um tom de quem defendia princípios morais que não podiam ser infringidos:

– E devo dizer que considero essa... essa farsa de se apresentar como outro homem algo extremamente indecoroso. Não tenho a menor dúvida, absolutamente nenhuma, de que incorreu numa grave ofensa às leis do nosso país.

Anthony permaneceu inabalável e continuou:

– Nessa carta, o Sr. Lomax fazia diversas sugestões a respeito do manuscrito que fora colocado aos meus cuidados. E encaminhava também um convite de lorde Caterham para passar o fim de semana aqui em Chimneys.

– É um prazer tê-lo aqui, meu caro – completou lorde Caterham. – Antes tarde do que nunca, não é mesmo?

George fitou-o com o rosto franzido. O superintendente Battle fitou Anthony atentamente e perguntou:

– E é essa a explicação para a sua presença aqui ontem à noite?

– Claro que não! – respondeu Anthony, com a devida veemência. – Quando me convidam para passar o fim de semana numa casa de campo, não tenho o hábito de pular o muro, avançar furtivamente pelo parque e tentar entrar pelas janelas do andar térreo. Ao contrário, paro o carro diante da entrada principal, toco a campainha e limpo os pés no capacho. Mas permitam que eu continue. Respondi à carta do Sr. Lomax, explicando que o manuscrito já não mais estava em meu poder e por isso recusava, pesaroso, o generoso convite de lorde Caterham. E só depois que despachei essa resposta é que me recordei de um fato que surpreendentemente me escapara à memória.

Anthony fez uma pausa. Chegara o momento de caminhar sobre gelo fino.

– Ao me engalfinhar com o garçom Giuseppe, arranquei de sua roupa um fragmento de papel no qual estavam rabiscadas algumas palavras. Na ocasião, não haviam significado coisa alguma para mim. Mas tinha guardado o pedaço de papel, e a menção de Chimneys fez-me recordar de sua existência. Resolvi verificar. Era exatamente o que eu tinha pensado. Eis aqui esse pedaço de papel, senhores. Podem verificar pessoalmente. O que está escrito nele é “Chimneys 23h45 quinta-feira”.

Battle pegou o pedaço de papel e examinou-o atentamente.

Anthony continuou a falar:

– Claro que a palavra Chimneys, chaminés, podia não ter nada a ver com esta casa. Mas, por outro lado, podia perfeitamente. E não restava a menor dúvida de que o tal de Giuseppe era um patife e ladrão. Por isso, tomei a decisão de vir de carro até aqui, na noite passada, a fim de verificar se ia acontecer alguma coisa. Ia ficar na hospedaria e procurar lorde Caterham pela manhã, informando-o dos acontecimentos, para que ficasse prevenido contra qualquer coisa que pudessem tentar durante o fim de semana.

– Fez muito bem, fez muito bem... – murmurou lorde Caterham, em tom encorajador.

– Já era muito tarde quando aqui cheguei. Por isso, parei o carro na estrada, pulei o muro e atravessei o parque correndo. Chegando ao terraço, verifiquei que toda a casa estava às escuras e silenciosa. Já ia embora quando ouvi um tiro. Imaginei que tinha soado no interior da casa e voltei correndo, atravessei o terraço e tentei abrir as portas que davam para o terraço. Mas estavam trancadas e não havia barulho algum no interior da casa. Esperei por algum tempo, mas a casa continuava tão quieta quanto um túmulo. Acabei chegando à conclusão de que me enganara e que o tiro fora disparado por um caçador furtivo qualquer... uma conclusão perfeitamente natural, nas circunstâncias.

– Realmente natural – comentou o superintendente Battle, impassível como sempre.

– Fui para a hospedaria e dormi. Esta manhã soube do que acontecera aqui. Compreendi perfeitamente que iriam suspeitar de mim e decidi vir contar minha história, na esperança de conseguir assim evitar as algemas.

Houve uma pausa prolongada, ao fim da qual o coronel Melrose lançou um olhar de lado para o superintendente Battle e comentou:

– Acho que a história parece aceitável.

– Tem razão – disse Battle. – Creio que não vamos presentear ninguém com algemas esta manhã.

– Alguma pergunta, Battle?

– Há algo que eu gostaria de saber. Sobre o que versava esse manuscrito?

Ele olhou para George, que respondeu, visivelmente contrariado:

– Eram as memórias do falecido conde Stylptitch. Espero que entenda...

– Não precisa dizer mais nada – interrompeu-o Battle. – Entendo perfeitamente.

Ele virou-se para Anthony e acrescentou:

– Sabe quem era o homem assassinado, Sr. Cade?

– No Jolly Dog comentaram que tinha sido um tal conde Stanislau ou um nome parecido.

– Conte a ele – disse Battle para George, de forma lacônica.

Era evidente que George estava relutante, mas não havia outro jeito a não ser revelar:

– O cavalheiro que estava hospedado incógnito nesta casa, como conde Stanislau, era na verdade Sua Alteza Real o príncipe Michael da Herzoslováquia.

Anthony deixou escapar um assovio e comentou:

– Puxa, que encrenca dos diabos!

O superintendente Battle, que estava observando Anthony atentamente, soltou um rápido resmungo, como se estivesse satisfeito com alguma coisa, e depois levantou-se de maneira abrupta.

– Gostaria de fazer algumas perguntas ao Sr. Cade. Se me dão licença, vou levá-lo para a Câmara do Conselho.

– Claro, claro... – disse lorde Caterham. – Leve-o para onde bem quiser.

Anthony e o homem da Scotland Yard saíram juntos da sala.

O corpo já fora removido do local da tragédia. Havia uma mancha escura no chão, no lugar onde estivera caído. Afora isso, porém, não havia mais nada que pudesse indicar que ali ocorrera uma tragédia. O sol entrava pelas três janelas, inundando a sala de luz e clareando os velhos lambris de madeira. Anthony olhou ao redor com satisfação e comentou:

– Muito agradável... Não há nada que possa se igualar à velha Inglaterra, não é mesmo?

– A sua impressão inicial foi a de que o tiro tinha soado nesta sala? – perguntou o superintendente, sem se dar o trabalho de responder ao comentário de Anthony.

– Deixe-me verificar.

Anthony abriu a porta e saiu para o terraço. Depois virou-se e contemplou a casa.

– Foi nesta sala mesmo. É mais saliente que o restante da casa e ocupa toda a extremidade. Se o tiro tivesse sido disparado em outro lugar, teria soado à minha esquerda. Mas o estampido soou diretamente atrás de mim ou um pouco à direita. Foi por isso que pensei na possibilidade de ter sido um caçador, já que o bosque começa bem perto desta ala da casa.

Anthony voltou para a sala e perguntou subitamente, como se a idéia tivesse lhe ocorrido de repente:

– Mas por que pergunta? Não tem certeza de que ele foi morto aqui dentro?

– Jamais sabemos tanto quanto gostaríamos de saber. Mas, ao que tudo indica, ele foi realmente assassinado nesta sala. Disse que tentou abrir as portas, não é mesmo?

– Exatamente. Mas estavam trancadas por dentro.

– Quantas portas experimentou abrir?

– Todas as três.

– Tem certeza, senhor?

– Tenho o hábito de só falar as coisas quando estou absolutamente certo. Mas por que pergunta?

– Por causa de um detalhe curioso.

– Que detalhe?

– Esta manhã, quando o crime foi descoberto, a janela do meio estava aberta... isto é, não estava trancada.

– Puxa vida! – exclamou Anthony, afundando numa cadeira perto da janela. – É um golpe e tanto. Abre uma nova perspectiva para o caso. Temos agora duas alternativas. Ou ele foi assassinado por alguém que estava na casa e que depois destrancou a porta, assim que me afastei, para dar a impressão de que o crime foi cometido por alguém de fora... e incidentalmente deixando-me como o bode expiatório. Ou então, para falar às claras, eu é que estou mentindo. Tenho a impressão de que se inclina para a segunda hipótese, mas dou-lhe a minha palavra de honra de que está enganado.

– Uma coisa posso lhe assegurar: ninguém irá deixar esta casa enquanto eu não encerrar as investigações.

Anthony fitou-o atentamente, antes de perguntar:

– Há quanto tempo suspeita de que o crime pode ter sido cometido por alguém que estava na casa?

Battle sorriu.

– Tive essa impressão desde o início. Sua pista estava um pouco... gritante demais, se me permite falar assim. Assim que suas botas se ajustaram às pegadas, comecei a ter dúvidas.

– Dou os parabéns à Scotland Yard – falou Anthony, de forma entusiasmada.

Mas nesse momento, no mesmo instante em que o superintendente Battle parecia admitir a sua completa ausência de participação no crime, Anthony sentiu mais do que nunca a necessidade de estar prevenido. O superintendente Battle era um homem de muita astúcia. Não se podia cometer qualquer erro em sua presença.

– Foi aqui que encontraram o corpo? – perguntou Anthony, aproximando-se da mancha escura no chão.

– Exatamente.

– Foi um tiro de... revólver?

– Foi, sim. Mas não poderemos ter certeza enquanto a bala não for extraída, o que acontecerá na autópsia.

– E o revólver não foi encontrado?

– Não, não foi.

– Não há nenhuma pista?

– Só temos isso.

Com a atitude de um conspirador, o superintendente Battle mostrou um pedaço de papel. Ao fazê-lo, ficou observando Anthony atentamente, embora não demonstrasse. Anthony reconheceu imediatamente o desenho, mas sem deixar transparecer qualquer sinal de consternação.

– Ah, os Camaradas da Mão Vermelha outra vez! Se eles estão dispostos a espalhar esse negócio por toda parte, devem ter mandado litografar. Seria um tremendo trabalho fazer um desenho separado cada vez que pretendem usar o sinal. Onde foi encontrado?

– Debaixo do corpo. Já tinha visto isto antes, senhor?

Anthony relatou em detalhes o seu rápido encontro com o representante da associação de espírito público.

– É de imaginar que foram os Camaradas que mataram o príncipe.

– Acha isso provável, senhor?

– Estaria de acordo com a propaganda deles. Mas sempre pensei que aqueles que falam muito em sangue jamais o viram correr de verdade. Se quer saber minha opinião, eu não acredito que os Camaradas tenham coragem para tanto. Além do mais, são tipos por demais pitorescos. Não posso imaginar um deles a se disfarçar tão bem que pudesse ser aceito como hóspede de fim de semana numa casa de campo da nobreza britânica. Mas nunca se sabe.

– Tem toda razão, Sr. Cade, nunca se sabe...

Anthony pareceu se divertir subitamente.

– Já estou percebendo o plano. A janela aberta, a trilha de pegadas, um estranho suspeito na hospedaria da aldeia. Mas posso assegurar-lhe, meu caro superintendente, que posso ser tudo, menos o agente local da Mão Vermelha.

O superintendente Battle permitiu-se um sorriso, antes de jogar a sua última cartada:

– Faria alguma objeção em ver o corpo?

– Absolutamente nenhuma – respondeu Anthony, sem a menor hesitação.

Battle tirou uma chave do bolso e seguiu na frente de Anthony pelo corredor. Parou diante de uma porta e abriu-a. Era uma das menores salas da mansão. O cadáver estava estendido sobre uma mesa, coberto por um lençol.

O superintendente Battle esperou até que Anthony estivesse ao seu lado e depois puxou o lençol bruscamente.

Um brilho de satisfação surgiu em seus olhos diante da exclamação de surpresa de Anthony:

– Quer dizer que o está reconhecendo, Sr. Cade? – indagou ele, num tom que procurava tornar indiferente, sem qualquer vestígio de triunfo.

– Reconheço, sim – disse Anthony, recuperando-se prontamente. – Já vi esse homem antes. Mas não como o príncipe Michael Obolovitch. Ele se apresentou como representante de Messrs Balderson and Hodgkins e disse chamar-se Sr. Holmes.

 

13

O visitante norte-americano

 

O superintendente tornou a pôr o lençol sobre o cadáver, com o ar desolado de um homem que acabara de perder a sua melhor jogada. Anthony estava imóvel, com as mãos nos bolsos, imerso em seus pensamentos.

– Então era isso o que o velho Lollipop estava querendo dizer ao falar em outros meios – murmurou ele, finalmente.

– O que disse, Sr. Cade?

– Nada, superintendente. Perdoe a minha abstração. É que eu... ou melhor, o meu amigo Jimmy McGrath foi nitidamente roubado em mil libras.

– Mil libras é uma quantia e tanto.

– Não é tanto pelas mil libras, embora eu concorde que não é uma quantia de se jogar fora. O que me deixa furioso é o fato de ter sido enganado. Entreguei o manuscrito como se fosse um cordeirinho inocente. E isso dói, superintendente... dói muito.

O detetive não fez qualquer comentário, e Anthony acrescentou:

– Mas não adianta agora ficar me lamentando. E é até bem possível que nem tudo esteja perdido. Preciso apenas recuperar as reminiscências do velho Stylptitch entre hoje e quarta-feira e estará tudo bem outra vez.

– Incomoda-se de voltar à Câmara do Conselho, Sr. Cade? Há uma outra coisa que eu gostaria de lhe mostrar.

De volta à sala onde o crime fora cometido, o detetive avançou até a janela do meio.

– Estive pensando no seguinte, Sr. Cade: esta janela em particular está um tanto emperrada. Eu diria até que está bastante emperrada. Não poderia ter-se enganado, pensando que estivesse trancada? Talvez a janela estivesse apenas emperrada. Estou certo... isso mesmo, tenho quase certeza de que se enganou.

Anthony fitou-o atentamente.

– E se eu lhe dissesse que tenho certeza absoluta de que não me enganei?

– Mas não acha que pode ter se enganado? – insistiu Battle, fitando-o firmemente.

– Se isso o agrada, superintendente, então está certo, é possível.

Battle sorriu, obviamente satisfeito.

– Compreende as coisas rapidamente, senhor. E não fará qualquer objeção em repetir o que acabou de dizer, na ocasião oportuna?

– Absolutamente nenhuma. Eu...

Anthony parou de falar, no momento em que Battle segurou seu braço. O superintendente inclinou-se para a frente, escutando atentamente. Pedindo silêncio a Anthony, com um gesto, ele avançou na ponta dos pés, sem fazer qualquer barulho, até a porta, abrindo-a bruscamente.

Diante da porta estava parado um homem alto, de cabelos pretos, impecavelmente repartidos no meio, olhos azuis, com uma expressão inocente, o rosto grande e plácido.

– Com licença, cavalheiros – disse ele, com uma voz arrastada, típica do outro lado do Atlântico. – Será que me permitem dar uma olhada no local do crime? Presumo que ambos sejam da Scotland Yard.

Foi Anthony quem respondeu:

– Não tenho essa honra. Mas este cavalheiro é o superintendente Battle, da Scotland Yard.

– É mesmo? – o norte-americano disse, denotando extremo interesse. – Prazer em conhecê-lo, senhor. Meu nome é Hiram P. Fish, da cidade de Nova York.

– O que desejava ver, Sr. Fish? – indagou o detetive.

O norte-americano entrou na sala, contemplando com evidente interesse a mancha escura no chão.

– Interesso-me pelo crime em geral, Sr. Battle. É um dos meus hobbies. Já contribuí com uma monografia sobre o assunto para um dos nossos periódicos semanais. Intitulava-se “Degeneração e crime”.

Enquanto ele falava, seus olhos percorriam suavemente a sala, dando a impressão de que notavam tudo. Eles, então, fixaram-se numa mancha mais escura perto da janela.

– O corpo já foi removido – o superintendente disse, dando uma informação óbvia.

– Claro, claro... – murmurou o Sr. Fish. Mas os olhos continuaram a examinar a sala, passando agora pelas paredes. – Há alguns quadros admiráveis nesta sala, cavalheiros. Um Holbein, dois Van Dycks e, se não estou enganado, um Velásquez. Também me interesso por quadros... e igualmente por primeiras edições. Lorde Caterham teve a bondade de me convidar a vir a Chimneys para conhecer suas primeiras edições.

Ele suspirou gentilmente, antes de acrescentar:

– Mas, infelizmente, acho que isso está agora fora de cogitação. A atitude apropriada, nas circunstâncias, não seria os hóspedes partirem imediatamente?

– Receio que isso não seja possível, senhor – informou o superintendente Battle. – Ninguém deve deixar esta casa até terminar o inquérito preliminar.

– É mesmo? E quando será realizado esse inquérito?

– Talvez amanhã, talvez só na segunda-feira. Temos que providenciar antes a autópsia e esperar que o magistrado encarregado do inquérito tome as medidas necessárias.

– Entendo – disse o Sr. Fish. – Nas circunstâncias, contudo, será um fim de semana melancólico.

Battle saiu da sala, dizendo:

– É melhor sairmos daqui. A sala ainda está sendo mantida trancada.

Ele esperou que os outros dois saíssem também, antes de fechar a porta e tirar a chave.

– Está procurando por impressões digitais? – indagou o Sr. Fish.

– Talvez – respondeu o superintendente, laconicamente.

– Eu diria também que, numa noite como a de ontem, um intruso certamente teria deixado pegadas no assoalho de madeira de lei.

– Não há nenhuma pegada dentro da sala, embora haja muitas lá fora.

– As minhas – explicou Anthony, de forma alegre.

Os olhos inocentes do Sr. Fish fixaram-se em Anthony e ele disse:

– Está me surpreendendo, meu rapaz.

Viraram o corredor e saíram no amplo saguão, também revestido com painéis de carvalho e contornado por uma galeria larga. Duas outras pessoas também entravam nesse momento, pelo outro lado.

– Ah, eis nosso jovial anfitrião! – exclamou o Sr. Fish.

Era uma descrição tão ridícula de lorde Caterham que Anthony foi obrigado a virar o rosto para ocultar um sorriso.

– E com ele está uma dama cujo nome não consegui gravar ontem à noite – acrescentou o norte-americano. – Mas ela é realmente muito inteligente.

Ao lado de lorde Caterham estava Virginia Revel. Anthony estava na expectativa desse encontro desde que decidira aparecer em Chimneys. Não tinha a menor idéia de como deveria agir e resolvera deixar a iniciativa a Virginia. Embora tivesse plena confiança na presença de espírito dela, não sabia o caminho que ela adotaria. Não ficou em dúvida por muito tempo, pois Virginia foi logo dizendo:

– Ora, mas é o Sr. Cade!

Ela estendeu-lhe as duas mãos e acrescentou:

– Quer dizer que, no fim das contas, descobriu que podia vir?

– Minha cara Sra. Revel, eu não tinha a menor idéia de que o Sr. Cade era seu amigo – comentou lorde Caterham.

– É um velho amigo – respondeu Virginia, sorrindo para Anthony com um brilho malicioso nos olhos. – Encontrei-me com ele em Londres, ontem, inesperadamente. Falei que viria para Chimneys.

Anthony apressou-se em indicar a Virginia o curso que ele próprio adotara:

– Expliquei à Sra. Revel que fui obrigado a recusar seu amável convite, lorde Caterham, já que fora apresentado para um homem diferente. Achei que não era correto impingir-lhe a presença de um perfeito estranho, sob falsas alegações.

– Mas esse problema já está agora superado, meu caro – falou lorde Caterham. – Mandarei alguém ir buscar sua bagagem na Cricketers.

– É muita gentileza da sua parte, lorde Caterham, mas...

– Não aceitarei qualquer objeção. Tem que vir para Chimneys de qualquer maneira. Afinal, a Cricketers é um lugar horrível... para se hospedar, é claro.

– Também acho que deve vir para cá, Sr. Cade – Virginia concordou, suavemente.

Anthony percebeu rapidamente o ambiente diferente que agora o cercava. Virginia já fizera muito para ajudá-lo. Não era mais um estranho obscuro. A posição dela era tão sólida e inatacável que qualquer pessoa que afiançasse era prontamente aceita, sem a menor hesitação. Ele pensou na pistola que escondera numa árvore em Burnham Beeches e sorriu interiormente.

– Vou mandar buscar sua bagagem imediatamente – repetiu lorde Caterham para Anthony. – Creio que, nas circunstâncias, não poderemos fazer uma pequena caçada. O que é uma pena. E também não sei que diabo vou fazer com Isaacstein. Tudo isso é lamentável!

O deprimido nobre soltou um suspiro desolado. Virginia voltou a intervir:

– Como já está tudo acertado, pode começar a ser útil imediatamente, Sr. Cade. Leve-me para um passeio até o lago. É um lugar tranqüilo, longe de qualquer crime e de todo o restante. Não é horrível para o pobre lorde Caterham que tenha ocorrido um assassinato na casa dele? Mas, no fundo, a culpa é de George. Afinal, os convidados eram dele.

– Mas eu nunca deveria ter concordado! – afirmou lorde Caterham.

E ele assumiu o ar de um homem forte traído por uma única fraqueza. Virginia comentou:

– Não se pode deixar de ouvir o que George diz. Ele sempre segura a pessoa, para impedir que lhe escape. Estou pensando até em patentear uma lapela destacável, especialmente para os conhecidos de George.

– Grande idéia! – declarou lorde Caterham, rindo. – Estou contente que tenha aceitado o convite, Cade. Estou precisando de apoio.

– Agradeço profundamente a sua amabilidade, lorde Caterham, sobretudo tendo em vista que sou considerado um suspeito. Mas creio que minha presença em Chimneys irá facilitar o trabalho de Battle.

– De que maneira, senhor? – indagou o superintendente.

– Assim não terá a menor dificuldade para ficar de olhos em mim – Anthony explicou de forma gentil.

E pelo piscar momentâneo das pálpebras do superintendente, Anthony compreendeu que seu tiro acertara no alvo.

 

14

Problemas políticos e financeiros

 

Exceto pelo movimento involuntário das pálpebras, a impassibilidade do superintendente Battle não se alterou. Se ficara surpreso com o fato de Virginia ter reconhecido Anthony, não deixou transparecer. Ele e lorde Caterham ficaram parados, observando Anthony e Virginia saírem para o jardim. O Sr. Fish também os ficou observando.

– Parece um bom rapaz – comentou lorde Caterham.

– Deve ter sido ótimo para a Sra. Revel encontrar de repente um velho amigo – murmurou o norte-americano. – Será que eles se conhecem há muito tempo?

– É o que parece – disse lorde Caterham. – Mas nunca a ouvi mencioná-lo antes. Ah, Battle, já ia me esquecendo. O Sr. Lomax está querendo falar com você. Ele está no Salão Azul.

– Obrigado, lorde Caterham. Irei procurá-lo imediatamente.

Battle não teve a menor dificuldade em encontrar o caminho para o Salão Azul. Já estava começando a ficar familiarizado com a geografia da mansão.

– Ah, Battle, finalmente você aparece! – exclamou Lomax.

Ele estava andando de um lado para outro de forma impaciente. Havia apenas outra pessoa na sala, um homem imenso, sentado em uma poltrona ao lado da lareira. Trajava a roupa inglesa adequada para uma caçada, mas que parecia estranha nele. Tinha um rosto gordo e pálido, os olhos muito pretos, tão impenetráveis quanto os de uma cobra. O nariz grande era acentuadamente recurvado e o imenso queixo quadrado indicava força e poder.

– Entre logo, Battle – pediu Lomax, irritado. – E feche a porta. Esse é o Sr. Herman Isaacstein.

Battle acenou com a cabeça, respeitosamente.

Conhecia tudo a respeito do Sr. Herman Isaacstein. Embora o grande financista permanecesse sentado, em silêncio, enquanto Lomax andava de um lado para outro, encarregando-se de dizer tudo o que era necessário, Battle sabia perfeitamente qual dos dois era o verdadeiro detentor do poder.

– Podemos agora falar mais livremente – afirmou Lomax. – Eu não estava querendo falar muita coisa na presença de lorde Caterham e do coronel Melrose. Está me entendendo, Battle? É preciso evitar que as notícias vazem.

– Mas, infelizmente, esses fatos sempre acabam vazando, não é mesmo?

Apenas por um segundo, Battle divisou o vestígio de um sorriso no rosto pálido de Isaacstein. Desapareceu tão abruptamente quanto havia aparecido.

– O que pensa realmente desse rapaz... Anthony Cade? – continuou George. – Ainda está achando que ele é inocente?

Battle deu de ombros.

– A história que ele conta é plausível. Poderemos verificar pelo menos uma parte dela, o que explicaria a presença dele aqui ontem à noite. E é claro que mandarei um cabograma para a África do Sul pedindo informações sobre os antecedentes dele.

– Quer dizer que o considera livre de qualquer suspeita de cumplicidade?

Battle levantou a mão.

– Vamos com calma, senhor. Não falei isso em momento algum.

– Qual é a sua idéia a respeito do crime, superintendente Battle?

Era Isaacstein quem perguntava, falando pela primeira vez. A voz era profunda e sonora, possuía certa característica imperiosa. Servira-lhe muito bem nas reuniões de diretoria, quando era mais jovem.

– Ainda é um tanto cedo para ter idéias, Sr. Isaacstein. Ainda não fui além da primeira pergunta que sempre me faço quando estou investigando um crime.

– E que pergunta é essa?

– É a mesma de sempre: o motivo. Quem se beneficia com a morte do príncipe Michael? Temos que encontrar a resposta para essa pergunta antes de podermos seguir adiante.

– O Partido Revolucionário da Herzoslováquia... – George começou a falar.

Mas o superintendente Battle interrompeu-o com um gesto brusco da mão, que não denotava o respeito habitual.

– Não foram os Camaradas da Mão Vermelha, senhor, se é neles que está pensando.

– E o que me diz do papel com a mão vermelha?

– Foi colocado debaixo do corpo para sugerir a solução óbvia. A dignidade de George ficou um pouco abalada.

– Não vejo como pode ter tanta certeza assim, Battle.

– Sabemos tudo a respeito dos Camaradas da Mão Vermelha, Sr. Lomax. Nós os estamos vigiando desde que o príncipe Michael desembarcou na Inglaterra. Isso é um trabalho elementar do departamento. Eles jamais conseguiram chegar a menos de 1 quilômetro de distância do príncipe.

– Concordo com o superintendente Battle – disse Isaacstein. – Temos que procurar a resposta em outros lados.

Encorajado pelo apoio, Battle continuou:

– Sabemos alguma coisa, embora não muito, a respeito do caso, senhor. Se ainda não sabemos exatamente quem pode ganhar com a morte do príncipe Michael, sabemos pelo menos quem sai perdendo.

– Como assim? – indagou Isaacstein.

Os olhos pretos estavam fixos no detetive. Mais do que nunca, faziam Battle recordar-se de uma cobra prestes a dar o bote.

– O senhor e também o Sr. Lomax saem perdendo, sem falar no Partido Lealista da Herzoslováquia. Se me permite a expressão, senhor, eu diria que está num tremendo espeto.

– Ora, Battle, faça-me o favor! – exclamou George, profundamente chocado.

– Continue, Battle – disse Isaacstein. – No espeto descreve perfeitamente a situação. É um homem inteligente.

– Conseguiu arrumar um rei. E agora perdeu esse rei... assim!

Battle fez uma breve pausa, para estalar os dedos, antes de continuar:

– Tem que descobrir outro rei às pressas, o que não é fácil. Não, não estou interessado em conhecer os detalhes do plano. Para mim, basta saber as linhas gerais. O negócio é de grandes proporções?

Isaacstein baixou a cabeça, lentamente.

– É, sim, é um negócio vultoso.

– O que me leva à segunda pergunta. Quem é o herdeiro seguinte na linha de sucessão ao trono da Herzoslováquia?

Isaacstein olhou para Lomax, que respondeu à pergunta com visível relutância e muita hesitação:

– Acho que é... eu diria que deve ser... provavelmente é o príncipe Nicolau.

– E quem é o príncipe Nicolau? – indagou Battle.

– Um primo em primeiro grau do príncipe Michael.

– Eu gostaria de saber o que for possível a respeito desse príncipe Nicolau, sobretudo onde ele se encontra neste momento.

– Não se sabe muita coisa a respeito do príncipe Nicolau. Quando jovem, ele teve idéias exóticas, ligando-se a socialistas e republicanos. Comportou-se também de maneira extremamente imprópria à sua posição. Se não me engano, foi expulso de Oxford por uma dessas aventuras indesculpáveis. Dois anos depois, houve o rumor de que tinha morrido no Congo. Mas foi apenas um rumor. Ele tornou a aparecer há poucos meses, quando surgiram as primeiras notícias sobre a reação realista.

– E onde foi que ele apareceu? – perguntou Battle.

– Na América.

– Na América?

Battle virou-se para Isaacstein, dizendo uma única palavra:

– Petróleo?

O grande financista assentiu.

– Ele proclamava que, se os herzoslovacos fossem escolher um rei, iriam preferi-lo ao príncipe Michael, por causa de suas idéias mais modernas e esclarecidas, de seus ideais republicanos. Em troca do apoio financeiro, ele estava disposto a dar as concessões de exploração do petróleo herzoslovaco a determinado grupo de financistas norte-americanos.

O superintendente Battle esqueceu sua impassibilidade habitual a tal ponto que deixou até escapar um assovio prolongado. E depois murmurou:

– Ahn, então é isso... Mas o Partido Lealista estava apoiando o príncipe Michael e os senhores estavam certos de que acabariam levando a melhor. E foi então que aconteceu isso!

– Certamente não está pensando...

Pela segunda vez, Battle interrompeu George bruscamente:

– Era um negócio vultoso, conforme disse o próprio Sr. Isaacstein. E quando ele diz que é um negócio vultoso, acredito que deva ser realmente.

– Há sempre a possibilidade de se usarem métodos inescrupulosos – alertou Isaacstein, calmamente. – No momento, Wall Street está ganhando. Mas ainda não me liquidaram. Descubra quem matou o príncipe Michael, superintendente Battle, se deseja prestar um grande serviço ao seu país.

– Há uma coisa que considero altamente suspeita – comentou George. – Por que o cavalariço, capitão Andrassy, não veio junto com o príncipe ontem?

– Já andei fazendo indagações a esse respeito e a explicação é perfeitamente simples – respondeu Battle. – O capitão Andrassy ficou na aldeia para acertar um encontro no próximo fim de semana entre o príncipe Michael e uma determinada dama. Como o barão achava que tais coisas não eram apropriadas nas circunstâncias, o príncipe tinha que agir clandestinamente, digamos assim. Se me permitem dizer, parece que Sua Alteza era um jovem um tanto... devasso.

– Infelizmente – confirmou George, de forma solene.

– Acho que há outro ponto que devemos levar em consideração – ressaltou Battle, com alguma hesitação. – Ao que tudo indica, o rei Victor está na Inglaterra.

– Rei Victor?

Lomax estava de rosto franzido, em um tremendo esforço para recordar.

– É um famoso escroque francês, senhor. Já recebemos um comunicado da Sûreté, de Paris.

– Ora, estou lembrando agora! – disse George. – Não é um ladrão de jóias? Mas é o homem...

Ele parou de falar abruptamente. Isaacstein, que estava olhando para a lareira, distraidamente, de rosto franzido, levantou a cabeça tarde demais para perceber o olhar de advertência do superintendente Battle para George Lomax. Mas como era extremamente sensível a vibrações na atmosfera, percebeu prontamente a tensão súbita. E perguntou:

– Ainda precisa da minha presença, Lomax?

– Não, obrigado, meu caro.

– Iria prejudicar seus planos se eu voltasse imediatamente para Londres, superintendente Battle?

– Receio que sim, senhor – disse Battle, polidamente. – Se for embora, os outros podem querer se retirar também. E isso seria impossível.

– Tem toda razão.

O grande financista saiu da sala, fechando a porta.

– Um sujeito excepcional, esse Isaacstein – murmurou George Lomax, distraidamente.

– Uma personalidade muito forte – concordou Battle.

George recomeçou a andar de um lado para outro.

– Estou profundamente preocupado pelo que acaba de me dizer, Battle. Rei Victor! Mas ele não estava na prisão?

– Foi solto há alguns meses. A polícia francesa pretendia vigiá-lo de perto, mas ele não demorou a despistá-la. O que já era de esperar. Um dos criminosos mais espertos que o mundo já conheceu. Por alguma razão, os franceses acham que ele está na Inglaterra e nos deram o aviso.

– Mas o que estaria ele fazendo na Inglaterra?

– Creio que pode responder melhor do que eu, senhor – disse Battle, sugestivamente.

– Está querendo dizer...? Acha que...? Conhece a história, é claro... ah, estou vendo que de fato conhece! Eu não estava no cargo na ocasião, mas soube de toda a história por intermédio do falecido lorde Caterham. Uma catástrofe sem paralelo.

– O Koh-i-noor... – murmurou Battle, pensativo.

– Cale-se, Battle! – exclamou George, olhando ao redor, desconfiado. – Peço que não mencione nomes. É melhor não fazê-lo. Se tiver que falar novamente a respeito, chame-o simplesmente de K.

O superintendente voltou a assumir a expressão impassível habitual.

– Por acaso está pensando que existe alguma ligação entre o rei Victor e este crime, Battle?

– É apenas uma possibilidade, nada mais. Se recordar os fatos, senhor, há de lembrar que havia apenas quatro lugares onde um... certo visitante real poderia ter escondido a jóia. Chimneys era um deles. O rei Victor foi preso em Paris três dias depois do... desaparecimento de K. E sempre acalentamos a esperança de que algum dia ele acabaria nos levando ao esconderijo da jóia.

– Mas Chimneys foi meticulosamente revistada pelo menos uma dúzia de vezes!

– Sei disso, senhor. Mas nunca adianta muito revistar uma casa deste tamanho quando não se sabe onde procurar. Seja como for, podemos supor que o rei Victor esteve aqui para procurar a jóia, foi surpreendido pelo príncipe Michael e matou-o.

– É bem possível – concordou George. – Seria uma solução provável para o crime.

– Mas não passa disso, senhor. É apenas possível, mais nada.

– Por que pensa assim?

– Ao que se saiba, o rei Victor jamais matou alguém.

– Mas um homem como ele... um criminoso perigoso...

Battle sacudiu a cabeça, visivelmente insatisfeito.

– Os criminosos sempre agem de acordo com um determinado padrão, Sr. Lomax. É um fato surpreendente, mas é verdadeiro. Mesmo assim...

– Mesmo assim o quê?

– Eu gostaria de interrogar o criado do príncipe. Deixei-o para o fim, deliberadamente. Mandarei que o tragam para cá, se não se incomoda, senhor.

Continuar: parte 5 de 9