O Segredo de Chimneys
Dedicatória
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.
– Sabia que encontraram o revólver com que o príncipe Michael foi morto? E sabe onde o encontraram? Na sua maleta.
– O quê?
Isaacstein quase que pulou da cadeira. O rosto estava tenso.
– Mas como foi isso?
– Vou lhe contar.
Anthony narrou as ocorrências relacionadas com a descoberta do revólver. Enquanto ele falava, o rosto de Isaacstein foi-se tornando cada vez mais pálido e aterrorizado.
– Mas isso é uma infâmia! – gritou o financista, quando Anthony terminou. – Não fui eu que guardei o revólver na maleta! Nada sei a respeito! É uma conspiração contra mim!
– Não precisa ficar nervoso – disse Anthony, suavemente. – Se é esse o caso, poderá prová-lo facilmente.
– Mas como poderei provar?
– Se eu estivesse no seu lugar, iria a Chimneys esta noite.
Isaacstein ainda estava em dúvida.
– Acha mesmo?
Anthony inclinou-se para a frente e sussurrou-lhe algumas palavras rapidamente. O financista recostou-se na cadeira, completamente aturdido.
– Está realmente querendo dizer...
– Vá a Chimneys e verá por si mesmo.
27
O dia 13 de outubro (continuação)
O relógio na Câmara do Conselho bateu nove horas. Lorde Caterham soltou um suspiro profundo e disse:
– Aqui estamos todos reunidos, como um rebanho de cordeirinhos a esperar pelo pastor.
Ele correu os olhos pela sala, tristemente, fixando-se por um momento no barão.
– Não falta nem mesmo aquele tipo intragável...
– Acho que está sendo um tanto injusto com o barão – comentou Bundle, para quem tais confidências estavam sendo dirigidas. – Ele me disse que o considerava o perfeito exemplo da hospitalidade inglesa entre a haute noblesse.
– Já era de esperar. Ele está sempre dizendo coisas assim. O que faz com que se torne ainda mais cansativo conversar com ele. Mas posso garantir que já não sou mais o cavalheiro hospitaleiro de outrora. Assim que puder, alugarei Chimneys para um norte-americano empreendedor e irei morar num hotel, onde sempre se pode pedir a conta e ir embora, quando alguém nos incomoda.
– Anime-se, papai. Pelo menos parece que nos livramos para sempre da companhia do Sr. Fish.
– Sempre o achei um pouco divertido – confessou lorde Caterham, demonstrando um temperamento contraditório. – Foi aquele seu precioso jovem que me envolveu nisso. Por que eu deveria permitir que a reunião de diretoria fosse realizada em minha casa? Por que ele não alugou The Larches, Elmhurst ou alguma outra linda villa como as que existem em Streatham para fazer as suas reuniões?
– Não seria o ambiente apropriado – comentou Bundle.
– Será que alguém está pensando em dar algum golpe baixo? – indagou lorde Caterham, apreensivo. – Não confio muito naquele francês, Lemoine. A polícia francesa é capaz de todas as artimanhas. Costumam pôr elásticos em volta dos braços das pessoas e depois reconstituem o crime, fazendo-as se sobressaltarem. A temperatura é registrada num termômetro. Quando perguntarem “Quem matou o príncipe Michael?”, sei que vou registrar uma temperatura de 40 graus ou algo realmente assustador. E vão me meter na cadeia imediatamente!
A porta se abriu e Tredwell anunciou:
– Sr. George Lomax. Sr. Eversleigh.
– Entra em cena Lomax, seguido por seu cachorrinho fiel – murmurou Bundle.
Bill encaminhou-se para ela, enquanto George cumprimentava lorde Caterham efusivamente, ao melhor estilo jovial que sempre reservava para os aparecimentos em público.
– Meu caro Caterham – disse George, apertando-lhe a mão. – Recebi seu recado e não podia deixar de comparecer.
– Muita gentileza de sua parte, meu caro, muita gentileza... É um prazer revê-lo.
A consciência de lorde Caterham sempre o impelia a um excesso de cordialidade nas ocasiões em que não sentia absolutamente nenhuma.
Enquanto isso, Bill atacava Bundle, em voz baixa:
– Mas que diabo está acontecendo aqui? E verdade que Virginia desapareceu no meio da noite? Será que ela foi seqüestrada?
– Claro que não! – respondeu Bundle. – Virginia deixou um bilhete na alfineteira, à maneira ortodoxa.
– Ela por acaso saiu com alguém? Onde é que estava o nosso colonial na ocasião? Jamais gostei daquele sujeito. E, pelo que ouvi, parece que há uma idéia no ar de que é ele o supercriminoso. Mas não consigo aceitar tal possibilidade.
– Por que não?
– Ora, o tal de rei Victor era francês, enquanto Cade é perfeitamente inglês.
– Não sabia que o rei Victor era um poliglota excepcional e, além disso, filho de irlandês?
– Oh, Deus! Então foi por isso que ele desapareceu?
– É verdade que ele desapareceu anteontem, mas esta manhã recebemos um telegrama dele, comunicando que estaria aqui esta noite, às 21 horas, e sugerindo que convidássemos Lomax para vir também. E todos os outros também vieram... convidados pelo Sr. Cade.
– É uma reunião e tanto – murmurou Bill, olhando ao redor. – Um detetive francês perto da janela, outro inglês junto da lareira. Uma forte representação estrangeira. Os Estados Unidos da América não estão representados?
Bundle sacudiu a cabeça.
– O Sr. Fish desapareceu misteriosamente. Virginia também não está presente. Mas todos os demais estão aqui e tenho o pressentimento de que alguém está prestes a revelar todos os mistérios. Agora, só estamos aguardando a chegada de Anthony Cade.
– Ele certamente não aparecer.
– Neste caso, para que convocou esta reunião de diretoria, como papai a chama?
– Deve ser algum plano diabólico dele. Quer que todos nós estejamos reunidos aqui, enquanto ele faz alguma coisa em outro lugar... algo do gênero.
– Acha então que ele não vai aparecer?
– Nem pense nisso. Por que ele viria meter a cabeça na boca do leão? A sala está transbordando de detetives e altas autoridades.
– Não sabe muito a respeito do rei Victor, se pensa que isso o impediria de comparecer. Por tudo o que se diz, é o tipo de situação que ele adora mais do que tudo. E ele sempre consegue ficar por cima.
O Sr. Eversleigh ficou em dúvida.
– Não seria nada fácil, com os dados viciados contra ele. Tenho certeza de que ele não...
A porta se abriu nesse momento e Tredwell anunciou:
– O Sr. Cade.
Anthony seguiu direto para o anfitrião.
– Lorde Caterham, sei que estou lhe causando um terrível incômodo e lamento profundamente. Mas estou realmente convencido de que esta noite poderemos esclarecer todo o mistério.
Lorde Caterham pareceu ficar apaziguado. Sempre tivera uma simpatia secreta por Anthony.
– Não é nenhum incômodo – disse ele, alegremente.
– É muita bondade sua, lorde Caterham. Estou vendo que todos já chegaram. Podemos então começar.
– Não estou entendendo – disse George Lomax, solenemente. – Não estou entendendo absolutamente nada. Tudo isso é muito irregular. O Sr. Cade não ocupa qualquer cargo, absolutamente nenhum cargo. É uma situação difícil e delicada. Sou de opinião...
O fluxo de eloqüência de George foi bruscamente interrompido. Aproximando-se silenciosamente do grande homem, o superintendente Battle sussurrou-lhe algumas palavras ao ouvido. George pareceu ficar perplexo e aturdido.
– Está certo, se é isso o que acha – murmurou ele, relutantemente, para acrescentar um instante depois, em voz mais alta: – Tenho certeza de que todos estamos dispostos a escutar o que Sr. Cade tem a dizer.
Anthony ignorou o tom condescendente de George e retomou o comando da reunião com entusiasmo:
– Pedi que viessem até aqui por causa de uma pequena idéia que tive, mais nada. Todos provavelmente já sabem que outro dia conseguimos nos apoderar de uma pequena mensagem em código. Havia uma referência a Richmond e alguns números.
Ele fez uma breve pausa.
– Fizemos uma tentativa de decifrar a mensagem... e fracassamos. Nas memórias do conde Stylptitch (que por acaso eu li), havia uma referência a um jantar de “flores”, ao qual todos compareceram usando um símbolo que representava uma flor. O conde usava uma duplicata exata dos estranhos objetos que encontramos na passagem secreta. Representava uma rosa. Se todos estão lembrados, os três objetos tinham fileiras: de botões, letras E e ponto de tricô. Pois muito bem, cavalheiros: o que nesta casa está arrumado em fileiras? Os livros, não é mesmo? Acrescente-se a isso o fato de que, no catálogo da biblioteca de lorde Caterham, consta um livro intitulado A vida do conde de Richmond, e tenho certeza de que todos poderão imaginar onde é o esconderijo. Começando pelo referido livro e usando os números para indicar prateleiras e livros, creio que irão encontrar o... ahn... o objeto que todos procuram num livro oco ou numa cavidade por trás de um determinado livro.
Anthony olhou ao redor com um ar de modéstia, obviamente esperando pelos aplausos.
– É uma teoria extremamente engenhosa – comentou lorde Caterham,
– Tem razão – reconheceu George num tom condescendente. – Mas ainda resta verificar...
Anthony soltou uma risada.
– É preciso ver para crer, não é? Pois posso resolver esse problema agora mesmo.
Ele levantou-se abruptamente, acrescentando:
– Irei à biblioteca e...
Não pôde realizar seu intento, porque monsieur Lemoine interrompeu-o, afastando-se da janela e dizendo:
– Um momento, por favor, Sr. Cade. Permite, lorde Caterham? – Ele foi até a escrivaninha e apressadamente escreveu um bilhete.
Meteu-o num envelope e depois tocou a sineta. Tredwell apareceu. Lemoine entregou-lhe o envelope, determinando:
– Por gentileza, providencie para que este envelope seja entregue imediatamente.
– Está certo, senhor.
Com a atitude distinta habitual, Tredwell retirou-se. Anthony, que continuava de pé durante todo esse tempo, indeciso, voltou a sentar, indagando, gentilmente:
– Qual é a grande idéia, Lemoine?
Havia uma súbita sensação de tensão no ar.
– Se a jóia está no lugar onde disse... não saiu de lá nos últimos sete anos e mais 15 minutos não farão a menor diferença.
– Está certo, pode continuar a falar. Não era apenas isso o que queria dizer, não é mesmo?
– Não, não era. Nas atuais circunstâncias, creio que é... imprudente permitir que alguém saia desta sala. Especialmente se a pessoa em questão tem antecedentes duvidosos.
Anthony franziu as sobrancelhas, acendendo um cigarro.
– Pelo que vejo, considera que uma vida errante não é lá muito respeitável.
– Há dois meses, Sr. Cade, estava na África do Sul. Isso já está comprovado. Mas onde esteve antes?
Anthony recostou-se na cadeira, soprando anéis de fumaça para o alto.
– Estava no Canadá. No noroeste selvagem do Canadá.
– Tem certeza de que não estava na prisão? Numa prisão francesa?
Automaticamente, o superintendente Battle deu um passo na direção da porta, como se quisesse impedir uma possível fuga por ali. Mas Anthony não deixava transparecer o menor indício de que tencionava fazer algo dramático.
Em vez disso, ficou olhando em silêncio para o francês, aturdido, antes de desatar a rir.
– Ora, meu pobre Lemoine... Está realmente com uma obsessão. Vê o rei Victor em toda parte. Quer dizer que está imaginando que sou esse simpático cavalheiro?
– E por acaso o nega?
Anthony removeu um pouco de cinza que caíra na manga de seu casaco, dizendo em seguida, suavemente:
– Jamais nego algo que me diverte. Mas a acusação é realmente ridícula demais.
– É isso o que pensa?
O francês inclinou-se para a frente. Seu rosto estava todo contraído, ele parecia desconcertado e aturdido, como se algo na atitude de Anthony o deixasse perplexo.
– E se eu lhe disser, monsieur, que desta vez... desta vez... vou agarrar o rei Victor e nada poderá impedir-me?
– É uma intenção das mais louváveis. Mas já não esteve prestes a agarrá-lo antes, Lemoine, fracassando no último instante? O rei Victor conseguiu levar a melhor. Não receia que isso possa acontecer novamente? Pelo que se diz, ele é um sujeito extremamente escorregadio.
A conversa se transformara em um duelo verbal entre o detetive e Anthony. Todos os outros estavam cientes da tensão. Era uma luta implacável entre o francês, terrivelmente compenetrado, e o homem que fumava tão calmamente e cujas palavras pareciam indicar que não tinha a menor preocupação no mundo.
– Se eu fosse você, Lemoine, tomaria muito cuidado. Vigie os seus passos e esse tipo de coisa.
– Desta vez não será cometido qualquer erro – afirmou Lemoine, sombriamente.
– Parece que está absolutamente convencido, meu caro. Mas não deve se esquecer de que, em casos assim, é indispensável haver o que se chama de prova.
Lemoine sorriu. Algo em seu sorriso pareceu atrair a atenção de Anthony, que se acomodou na cadeira, apagando o cigarro.
– Reparou que escrevi um bilhete há poucos minutos? – disse o detetive francês. – Era para os meus homens que estão na hospedaria. Ontem, recebi da França as impressões digitais e as medidas Bertillon do rei Victor... do suposto capitão O’Neill. Tinha pedido que mandassem tudo para cá. Dentro de mais alguns minutos, saberemos se é realmente o homem que tanto procuramos!
Anthony fitou-o firmemente por algum tempo e depois um ligeiro sorriso entreabriu seus lábios.
– É um homem realmente esperto, Lemoine. Nunca pensei que o fosse. Os documentos vão chegar, irá me induzir a molhar os dedos em tinta ou algo igualmente desagradável, medirá minhas orelhas, procurará por sinais característicos. E se tudo for compatível...
– E se tudo for compatível...? – repetiu Lemoine.
Anthony inclinou-se para a frente e disse, suavemente:
– Se tudo for compatível... e daí?
– E daí? – repetiu o francês, aturdido. – Mas... mas... eu terei provado que você é o rei Victor!
Pela primeira vez, havia um indício de incerteza na atitude de Lemoine.
– Não tenho a menor dúvida de que isso representará uma grande satisfação para você, Lemoine. Mas não vejo em que isso poderá me afastar. Não estou admitindo nada, mas vamos supor, apenas para argumentar, que eu fosse o rei Victor... não poderia estar tentando me redimir?
– Redimir?
– É essa a idéia. Ponha-se no lugar do rei Victor, Lemoine. Use a imaginação. Acabou de sair da prisão, sente que os anos começam a pesar. Perdeu o prazer que sentia anteriormente pela vida aventureira. Digamos até que conheceu uma linda moça, que está pensando em se casar e começar vida nova em algum lugar, viver no campo, plantar abóboras. Decidiu, por tudo isso, levar uma vida impecável. Vamos, Lemoine, ponha-se no lugar do rei Victor. Não consegue imaginar que alguém se sinta assim?
– Não creio que eu fosse me sentir assim – respondeu Lemoine, com um sorriso sardônico.
– Talvez não. Mas você não é o rei Victor, não é mesmo? Não pode saber como ele se sente.
– Mas tudo isso que está dizendo é um absurdo! – balbuciou o francês.
– Não, Lemoine, não é. Mas vamos seguir adiante. Se sou o rei Victor, o que você tem contra mim? Não se esqueça de que jamais conseguiu obter as provas necessárias, nos velhos tempos. Cumpri minha sentença e não devo mais nada à justiça. Imagino que possa me prender pelo equivalente francês de “rondar com intenção de cometer um crime”. Mas isso não lhe proporcionaria muita satisfação, não é mesmo?
– Está esquecendo uma coisa: a América! O que me diz de arrancar dinheiro dos financistas norte-americanos sob falsos pretextos e apresentar-se como o príncipe Nicolau Obolovitch?
– Isso não procede, Lemoine. Na ocasião, nem mesmo estive perto da América. E posso provar isso com a maior facilidade. Se o rei Victor apresentou-se como o príncipe Nicolau na América, então não posso ser o rei Victor. Mas tem certeza de que houve mesmo uma usurpação de identidade? Não poderia ter sido o próprio príncipe Nicolau?
O superintendente Battle interveio subitamente na conversa:
– O homem era de fato um impostor, Sr. Cade.
– Não vou contestá-lo, Battle. Afinal, tem o hábito de estar sempre certo. Mas tem igualmente certeza de que o príncipe Nicolau morreu no Congo?
Battle fitou-o com extrema curiosidade.
– Não posso jurar que isso seja verdade, senhor. Mas é o que todos pensam.
– Mas que homem cauteloso! Como é mesmo o seu lema? Ah, sim... dar bastante corda... Pois pedi emprestado o seu lema. Dei bastante corda ao monsieur Lemoine. Não neguei as suas acusações. Mesmo assim, receio que ele vá ficar desapontado. Sempre acreditei que se deve guardar um trunfo na manga. Prevendo que algo desagradável poderia acontecer aqui, tomei a precaução de trazer esse trunfo. E ele está lá em cima neste momento.
– Lá em cima? – disse lorde Caterham, muito interessado.
– Exatamente. O pobre coitado teve alguns momentos muito difíceis, ultimamente. Levou uma violenta pancada na cabeça dada por alguém. Estive cuidando dele.
Subitamente, a voz sonora do Sr. Isaacstein manifestou-se pela primeira vez:
– Podemos adivinhar de quem se trata?
– Se quiserem... mas...
Lemoine interrompeu-o com repentina fúria:
– Tudo isso não passa de bobagem! Está pensando que pode me enganar novamente. Pode ser que seja verdade o que disse... que não esteve na América. É esperto demais para dizer tal coisa, se não fosse verdade. Mas há algo mais: assassinato! Isso mesmo, assassinato! O assassinato do príncipe Michael! Ele interferiu com suas atividades na primeira noite em que aqui esteve à procura da jóia.
– Lemoine, já ouviu falar em algum assassinato cometido pelo rei Victor? – indagou Anthony, a voz se alteando abruptamente. – Sabe tanto quanto eu, melhor até do que eu, que o rei Victor nunca derramou sangue.
– Quem mais além de você poderia ter assassinado o príncipe Michael? – gritou Lemoine. – Vamos, responda!
A última palavra morreu nos lábios dele, pois nesse momento soou um apito estridente lá fora. Anthony levantou-se num pulo, a pose despreocupada havia sido inteiramente esquecida.
– Está querendo saber quem assassinou o príncipe Michael, Lemoine? Não vou lhe contar... vou mostrar! O apito era o sinal pelo qual eu estava esperando. A pessoa que assassinou o príncipe Michael está neste momento na biblioteca.
Ele saiu correndo pela porta do terraço, e os outros foram atrás, contornando o terraço, até chegarem à janela da biblioteca. Anthony empurrou a janela, que cedeu facilmente.
Silenciosamente, ele puxou a cortina espessa, a fim de que todos pudessem ver o que acontecia lá dentro.
Diante de uma estante estava parado um vulto escuro, retirando e repondo livros, tão absorvido na tarefa que não prestava a menor atenção aos ruídos lá fora.
E nesse instante, enquanto todos observavam, tentando reconhecer o vulto, vagamente delineado pelo clarão débil da lanterna elétrica que empunhava, alguém passou por eles, pulando pela janela, com um rugido de animal selvagem.
A lanterna caiu no chão e se apagou. O barulho de uma luta terrível se espalhou pela sala. Lorde Caterham avançou às cegas até o interruptor e acendeu a luz.
Dois vultos estavam engalfinhados. E foi nesse momento que o fim chegou. Soou o estampido seco de um tiro de pistola e o vulto menor caiu no chão. O outro vulto virou-se e fitou-os. Era Boris, com os olhos brilhando intensamente de raiva.
– Ela matou meu amo! E agora tentou me matar. Eu pretendia arrancar-lhe a pistola e matá-la, mas a arma acabou disparando acidentalmente na luta. Foi São Miguel quem assim quis. A mulher diabólica está morta.
– Uma mulher? – gritou George Lomax.
Todos se aproximaram. Caída no chão, ainda com a pistola na mão e uma expressão de maldade indescritível no rosto, estava mademoiselle Brun.
28
O rei Victor — esconfiei dela desde o início – explicou Anthony. – Uma luz se D
acendeu no quarto dela na noite do crime. Depois, porém, tive dúvidas. Fui à Bretanha para fazer inquirições a respeito dela e voltei convencido de que era realmente quem afirmava ser. Fui um tolo. Só porque a condessa de Breteuil havia contratado uma mademoiselle Brun e a elogiara bastante, nunca me ocorreu que a verdadeira mademoiselle Brun podia ter sido seqüestrada a caminho de seu novo emprego, com outra mulher tomando o seu lugar. Em vez disso, desloquei minhas suspeitas para o Sr. Fish. Só depois que ele me seguiu até Dover e nos demos explicações mútuas é que comecei a perceber tudo claramente. A partir do momento em que tive certeza de que ele era um homem da Pinkerton, seguindo a trilha do rei Victor, voltei a concentrar minhas suspeitas em meu objetivo original.
Anthony continuou:
– O que mais me preocupava era o fato de a Sra. Revel ter reconhecido a mulher. Mas lembrei-me de que ela só o fizera depois que mencionei o fato de que mademoiselle Brun fora antes a governanta da madame de Breteuil. E tudo o que a Sra. Revel me dissera tinha sido que o rosto da mulher lhe era familiar. O superintendente Battle poderá lhes contar que houve uma verdadeira conspiração para evitar que a Sra. Revel viesse a Chimneys. Na verdade, chegaram até a matar um homem em sua casa. Embora o crime tenha sido cometido pelos Camaradas da Mão Vermelha, punindo uma suposta traição da vítima, toda a trama e a ausência do sinal característico dos Camaradas apontavam para uma inteligência superior coordenando as operações. Desde o início desconfiei de alguma relação com a Herzoslováquia. A Sra. Revel era a única pessoa a vir para esta casa que já tinha estado na Herzoslováquia. Pensei inicialmente que alguém tinha assumido o papel do príncipe Michael. Mas não demorei a verificar que estava redondamente enganado. Quando descobri a possibilidade de mademoiselle Brun ser uma impostora e acrescentei a isso o fato de que seu rosto parecera familiar à Sra. Revel, passei a ver tudo com mais clareza. Evidentemente, era muito importante que mademoiselle Brun não fosse reconhecida... e a Sra. Revel era a única pessoa que estaria em condições de fazê-lo.
– Mas quem era ela? – perguntou lorde Caterham. – Alguém que a Sra. Revel conheceu na Herzoslováquia?
– Creio que o barão poderá esclarecer-nos – Anthony completou.
– Eu? – murmurou o barão, aturdido, olhando para o corpo estendido no chão.
– Preste atenção, barão. Não se deixe enganar pela maquiagem. E não se esqueça de que ela outrora foi atriz.
O barão olhou outra vez e subitamente estremeceu.
– Santo Deus! Não é possível!
– O que não é possível? – perguntou George. – Quem é essa mulher? Reconhece-a, barão?
– Não, não, não é possível... – balbuciou o barão, ignorando as perguntas. – Ela foi morta... ambos foram mortos... na escadaria do palácio. O corpo foi recuperado.
– Mutilado e irreconhecível – recordou-lhe Anthony. – Ela conseguiu escapar, deixando outra em seu lugar. Deve ter ido para a América, onde passou alguns anos incógnita, num pavor mortal dos Camaradas da Mão Vermelha. Afinal, eles haviam promovido a revolução e, para usar uma frase expressiva, sempre quiseram a cabeça dela. Depois, o rei Victor foi solto e os dois planejaram recuperar o diamante juntos. Ela estava procurando pelo diamante na noite em que deparou inesperadamente com o príncipe Michael, que a reconheceu. Em suas atividades rotineiras, ela não precisava temer a possibilidade de encontrá-lo. Os hóspedes reais não entram em contato com governantas e ela sempre poderia se isolar, alegando uma enxaqueca conveniente, como aconteceu no dia em que o barão aqui esteve.
O Sr. Cade continuou a explicação:
– Mas o fato é que ela acabou ficando frente a frente com o príncipe Michael, na ocasião em que menos esperava. Ela estava ameaçada de denúncia e desgraça. E por isso matou-o. Foi ela quem colocou o revólver na maleta de Isaacstein, a fim de confundir as investigações. E foi ela também quem devolveu as cartas.
Lemoine adiantou-se.
– Disse que ela desceu para procurar a jóia naquela noite. Não poderia ter vindo se encontrar com seu cúmplice, o rei Victor, que vinha pelo lado de fora? E então, o que me diz?
Anthony suspirou.
– Continua a insistir, meu caro Lemoine? Mas como é persistente! Não quer aceitar a minha afirmação de que tenho um trunfo escondido na manga?
George, cuja mente trabalhava lentamente, interveio novamente:
– Ainda estou completamente no ar. Quem é essa mulher, barão? Reconhece-a, não é mesmo?
Mas o barão já recuperara o controle e estava outra vez empertigado e rígido.
– Está enganado, Sr. Lomax. Ao meu conhecimento, nunca esta mulher vi antes. Totalmente estranha ela é para mim.
– Mas...
George calou-se, fitando-o com uma expressão aturdida.
O barão levou-o para um canto da sala e murmurou-lhe algo ao ouvido. Anthony ficou observando, entretido, vendo o rosto de George ficar lentamente vermelho, os olhos se esbugalhando, apresentando todos os sintomas incipientes de apoplexia. Chegou a ouvir alguns murmúrios roucos de George:
– Certamente... certamente... absolutamente... não há a menor necessidade... situação complicada... a mais completa discrição...
Subitamente, Lemoine desferiu um murro na mesa.
– Não me importo com tudo isso! O assassinato do príncipe Michael... não é problema meu! Quero é o rei Victor!
Anthony sacudiu a cabeça, gentilmente.
– Lamento por você, Lemoine. É realmente um sujeito muito capaz. Mesmo assim, vai sair perdendo. Vou agora jogar o meu trunfo.
Ele foi até a porta e tocou a sineta. Tredwell atendeu:
– Um cavalheiro chegou aqui comigo esta noite, Tredwell.
– Chegou, sim, senhor. Um cavalheiro estrangeiro.
– Exatamente. Pode fazer a gentileza de pedir-lhe que desça assim que for possível?
– Sim, senhor.
Tredwell retirou-se.
– Aí vem o meu trunfo, o misterioso monsieur X – comentou Anthony. – Quem é ele? Alguém é capaz de adivinhar?
Herman Isaacstein foi o primeiro a falar:
– Somando dois e dois, ou seja, as suas insinuações esta manhã e a atitude que assumiu esta noite, eu diria que não pode haver a menor dúvida. De um jeito ou de outro, conseguiu encontrar o príncipe Nicolau da Herzoslováquia.
– Também pensa assim, barão?
– Penso, sim. A menos que outro impostor a nos apresentar venha. Mas isso eu não acredito. Comigo, seus negócios sempre muito honrados foram.
– Obrigado, barão. Não vou esquecer essas palavras. Quer dizer que todos concordam?
Anthony correu os olhos pelo círculo de rostos ansiosos. Somente Lemoine não respondeu, continuando a olhar fixamente para a mesa, com uma expressão contrariada.
Os ouvidos aguçados de Anthony captaram o ruído de passos na entrada. E ele disse, com um sorriso estranho:
– E, no entanto, todos estão errados!
Ele foi rapidamente até a porta e abriu-a.
Um homem estava parado no limiar... um homem de barba preta impecável, óculos e aparência afetada, ligeiramente prejudicada por uma atadura em torno da cabeça.
– Permitam que lhes apresente o verdadeiro monsieur Lemoine, da Sûreté.
Houve um barulho de pés correndo e um instante depois ouviu-se a voz anasalada do Sr. Hiram Fish falando da janela, de forma suave, e tranqüilizadora:
– Não, filho, por aqui não vai conseguir escapar. Estou postado aqui durante a noite inteira, com o único objetivo de impedir a sua fuga. Pode verificar que está sob a minha mira... sob a mira desta arma em minha mão. Vim à Inglaterra para agarrá-lo e finalmente o consegui. Mas devo dizer que não foi nada fácil!
29
Explicações adicionais
— reio que está nos devendo uma explicação, Sr. Cade – disse Herman C
Isaacstein, algum tempo depois.
– Não há muito o que explicar – disse Anthony, modestamente. – Fui para Dover e Fish seguiu-me, pensando que eu fosse o rei Victor. Encontramos um estrangeiro misterioso aprisionado ali. Assim que ouvimos a história dele, compreendemos tudo. Foi novamente o mesmo esquema. A pessoa verdadeira foi seqüestrada e a falsa... neste caso, o próprio rei Victor... tomou seu lugar. Mas parece que Battle já tinha chegado à conclusão de que havia algo suspeito em seu colega francês e telegrafou para Paris pedindo suas impressões digitais e outros meios de identificação.
– Ah, as impressões digitais! – gritou o barão. – E também as medidas Bertillon! Aquele criminoso sobre isso não estava falando?
– Foi uma idéia astuciosa dele. Admirei-a tanto que não pude deixar de participar do embuste. O que deixou o falso Lemoine desconcertado. Assim que eu dei a informação sobre o verdadeiro esconderijo da jóia, ele precisava transmiti-la imediatamente para sua cúmplice e, ao mesmo tempo, manter-nos a todos nesta sala. O bilhete era na verdade para mademoiselle Brun. Ele disse a Tredwell que o entregasse imediatamente. E Tredwell obedeceu, levando-o para mademoiselle Brun lá em cima. Lemoine acusou-me de ser o rei Victor, criando assim uma diversão e impedindo que alguém deixasse esta sala. Depois que tudo ficasse esclarecido e fôssemos até a biblioteca para procurar a pedra, ela já não mais estaria lá para que a encontrássemos!
George limpou a garganta e disse, pomposamente:
– Devo dizer, Sr. Cade, que considero o seu comportamento neste caso altamente repreensível. Se tivesse ocorrido o menor contratempo em seus planos, um dos nossos tesouros nacionais poderia ter desaparecido, além de qualquer esperança de recuperação. Foi uma temeridade, Sr. Cade, uma imperdoável temeridade!
– Acho que não compreendeu a nossa pequena idéia, Sr. Lomax – interveio a voz arrastada do Sr. Fish. – O diamante histórico jamais esteve por trás dos livros da biblioteca.
– Não?
– Nunca.
Anthony explicou:
– O enigma do conde Stylptitch representava o que era originalmente: uma rosa. Na tarde de segunda-feira, quando subitamente o percebi, fui direto para o roseiral. A mesma idéia já havia ocorrido ao Sr. Fish. Ficando-se de costas para o relógio de sol, dando-se sete passos para a frente, depois oito para a esquerda e três à direita, chega-se a algumas roseiras. A rosa é vermelha e tem o nome de Richmond. A casa foi meticulosamente vasculhada à procura do esconderijo, mas ninguém pensou em escavar no jardim. Sugiro que, amanhã de manhã, organizemos uma pequena expedição de escavação.
– Quer dizer que a história dos livros na biblioteca...
– Não passou de uma invenção minha para atrair mademoiselle Brun para uma armadilha. O Sr. Fish ficou de vigia no terraço e apitou quando chegou o momento certo. Devo dizer que o Sr. Fish e eu determinamos a lei marcial na casa em Dover, impedindo que os Camaradas se comunicassem com o falso Lemoine. Ele mandou aos Camaradas um aviso para desaparecerem e recebeu o comunicado de que isso acontecera. Assim, tranqüilo e confiante, ele prosseguiu com seus planos de acusar-me.
– Parece que tudo foi esclarecido satisfatoriamente – comentou lorde Caterham, alegremente.
– Tudo... menos uma coisa – o Sr. Isaacstein completou.
– E o que é?
O grande financista olhou com firmeza para Anthony.
– Para que me trouxe até aqui? Apenas para assistir a uma cena dramática, como um espectador interessado?
Anthony sacudiu a cabeça.
– Não, Sr. Isaacstein. Sei que é um homem muito ocupado, cujo tempo vale dinheiro. Por que veio originalmente a Chimneys?
– Para negociar um empréstimo.
– Com quem?
– Com o príncipe Michael da Herzoslováquia.
– Exatamente. O príncipe Michael está morto. Está disposto a oferecer o mesmo empréstimo e as mesmas condições ao primo dele, Nicolau?
– E pode apresentá-lo? Ele não morreu no Congo?
– Morreu, sim. Eu o matei. Oh, não, não sou um assassino. Quando digo que o matei, estou apenas querendo dizer que espalhei a notícia de sua morte. Prometi-lhe um príncipe, Sr. Isaacstein. Eu sirvo?
– Você?
– Exatamente, sou eu o homem. Nicolau Sergius Alexander Ferdinand Obolovitch. Um nome um tanto comprido para a espécie de vida que eu pretendia levar. Assim, saí do Congo simplesmente como Anthony Cade.
O pequeno capitão Andrassy levantou-se rapidamente.
– Mas isso é incrível... incrível... Tome cuidado com o que diz, senhor.
– Posso apresentar todas as provas necessárias. Creio que conseguirei convencer até mesmo o barão.
O barão levantou a mão.
– As provas serão devidamente examinadas. Mas para eu examiná-las não será necessário. Sua palavra apenas suficiente é para mim. Além do mais, com sua mãe inglesa deve parecer. Desde o início dito tenho: “Esse jovem de um lado ou de outro altamente nascido é.”
– Sempre confiou em minha palavra, barão – disse Anthony. – Quero garantir-lhe que, nos dias futuros, não irei me esquecer.
Ele olhou em seguida para o superintendente Battle, cujo rosto continuava perfeitamente impassível.
– Pode compreender agora como a situação era extremamente precária – disse Anthony, sorrindo. – Entre todas as pessoas que estavam nesta casa, supostamente era eu quem tinha o melhor motivo para desejar a morte de Michael Obolovitch, já que era o seguinte na linha de sucessão ao trono. Desde o início o temi. Sabia que desconfiava de mim, mas que nada fazia pela ausência de motivo.
– Jamais acreditei, por um instante sequer, que tivesse matado o príncipe Michael, senhor – afirmou o superintendente Battle. – Temos pressentimentos nesses casos. Mas percebi que tinha algum receio, o que me deixou perplexo. Se soubesse antes de sua verdadeira identidade, devo dizer que teria sucumbido às provas circunstanciais e o prenderia.
– Fico satisfeito por ter conseguido ocultar pelo menos um segredo de você. Conseguiu arrancar-me todo o restante. É muito bom em seu trabalho, Battle. A partir de agora, sempre pensarei na Scotland Yard com o devido respeito.
– É espantoso... – murmurou George. – A história mais espantosa que já ouvi... Eu... eu... mal posso acreditar. Tem certeza, barão, de que...
– Meu caro Sr. Lomax – interveio Anthony, a voz se endurecendo ligeiramente – não tenho a menor intenção de pedir ao Ministério do Exterior britânico que apóie a minha reivindicação sem apresentar primeiro as provas documentais mais convincentes. Sugiro que nos reunamos, nós quatro, o senhor, eu, o barão e o Sr. Isaacstein, a fim de discutirmos os termos do empréstimo proposto.
O barão levantou-se e bateu com os calcanhares, dizendo solenemente:
– Será o momento mais orgulhoso da minha vida, senhor, aquele em que o verei coroado rei da Herzoslováquia.
Passando a mão por dentro do braço do barão, Anthony disse-lhe, em tom despreocupado:
– Por falar nisso, barão, me esqueci de contar-lhe uma coisa. Há uma condição. É que sou um homem casado.
O barão recuou um passo, visivelmente desolado.
– Alguma coisa errada eu sabia que tinha de haver! Oh, Deus misericordioso! Ele casou com uma mulher negra na África!
– Ora, barão, não é tão ruim assim – disse Anthony, rindo. Ela é branca o bastante... em todos os sentidos, graças a Deus!
– Ótimo. Pode-se admitir um respeitável casamento morganático.
– Nada disso. Ela vai ser a rainha quando eu me tornar rei. Não precisa sacudir a cabeça, barão. Ela está plenamente qualificada para a posição. É filha de um nobre da Inglaterra, cujo título remonta à época do conquistador. Está em voga atualmente a realeza casar com a aristocracia... e ainda por cima, ela conhece a Herzoslováquia.
– Deus do céu! – exclamou George Lomax, aturdido. – Não... não é... Virginia Revel?
– Exatamente. É Virginia Revel.
– Meu caro – gritou lorde Caterham. – Isto é, senhor, eu lhe dou os parabéns! Casou com uma criatura maravilhosa!
– Obrigado, lorde Caterham. Ela é tudo o que disse e mais alguma coisa.
O Sr. Isaacstein estava curioso e não pôde resistir à pergunta:
– Peço que me perdoe por perguntar, alteza, mas quando ocorreu esse casamento?
Anthony sorriu.
– Para dizer a verdade, casei com Virginia Revel esta manhã.
30
Anthony aceita um novo emprego — e tiverem a delicadeza de seguirem na frente, cavalheiros, eu os S
seguirei dentro de um minuto – pediu Anthony.
Ele ficou esperando que os outros saíssem e depois virou-se para o superintendente Battle, que estava no outro lado, parado, aparentemente absorvido na contemplação da parede.
– Não está querendo me fazer uma pergunta, Battle?
– Queria, sim, senhor. E não compreendo como o percebeu. Mas sempre achei que apreendia as coisas muito depressa. Posso presumir que a mulher que morreu era a falecida rainha Varaga?
– Exatamente, Battle. E espero que a história seja abafada. Pode compreender o que sinto em relação aos segredos de família.
– Pode confiar no Sr. Lomax, senhor. Ninguém jamais saberá. Isto é, muita gente vai saber, mas a história jamais será noticiada.
– Era isso o que estava querendo me perguntar?
– Não, senhor. Perguntei isso apenas de passagem. Gostaria que me dissesse, se não é tomar muita liberdade, por que resolveu renunciar a seu nome verdadeiro.
– Não há nenhum problema nisso, Battle. Vou contar-lhe tudo. Matei a mim mesmo pelos motivos mais puros. Minha mãe era inglesa, fui educado na Inglaterra e me sentia muito mais interessado pela Inglaterra do que pela Herzoslováquia. E me sentia extremamente tolo apresentando ao mundo um título que mais parecia de ópera-bufa. Quando eu era muito jovem, tinha idéias democráticas. Acreditava na pureza dos ideais e na igualdade entre todos os homens. E não acreditava sobretudo em reis e príncipes.
– E o que aconteceu depois? – indagou Battle, astutamente.
– Depois, viajei e conheci o mundo. Há bem pouca igualdade neste mundo, Battle. Ainda acredito na democracia, é verdade. Mas é preciso forçá-la ao povo, quase que enfiá-la pela garganta abaixo. Os homens não querem ser irmãos. Algum dia isso talvez seja possível, mas a verdade é que, agora, eles não o querem. Minha crença na fraternidade entre os homens morreu definitivamente no dia em que cheguei a Londres, na semana passada, quando observei as pessoas paradas num trem do metrô, recusando-se obstinadamente a se afastarem para o lado, a fim de dar passagem aos outros passageiros que estavam entrando. Pelo menos por enquanto, não se pode transformar as pessoas em anjos fazendo um apelo ao que existe de melhor em suas naturezas. Somente pela força, aplicada criteriosamente, é que se pode coagir as pessoas a se comportarem mais ou menos decentemente. Ainda creio na fraternidade entre os homens, mas sei agora que isso ainda vai demorar a acontecer. Digamos que ainda teremos de esperar uns dez mil anos ou mais. Não adianta ser impaciente. A evolução é um processo lento.
– Estou muito interessado nessas suas opiniões, senhor – comentou Battle, com um brilho súbito nos olhos. – E se me permite dizê-lo, tenho certeza de que será um bom rei.
– Obrigado, Battle – agradeceu Anthony, suspirando.
– Não parece muito feliz com a perspectiva, senhor.
– Tem razão, Battle. Tenho as minhas dúvidas. Imagino que será divertido, mas significa também que terei de me prender a um trabalho regular. Sempre evitei isso antes.
– Mas considera que é seu dever, não é mesmo?
– Claro que não! Mas que idéia, Battle! É por causa de uma mulher, Battle, é sempre por causa de uma mulher. Por ela, eu faria até mais do que ser um rei.
– Acredito nisso, senhor.
– Tenho que dar um jeito para que o barão e o Sr. Isaacstein não tenham do que se queixar. O primeiro está querendo um rei e o outro quer o petróleo. Ambos conseguirão o que desejam e eu conseguirei... oh, Deus, Battle, alguma vez já esteve apaixonado?
– Sou muito afeiçoado à Sra. Battle, senhor.
– Muito afeiçoado à Sra.... oh, não tem a menor idéia do que estou falando! É completamente diferente!
– Com licença, senhor, mas aquele seu homem está parado diante da janela, lá fora, esperando.
– Boris? Ele é um sujeito maravilhoso. Foi muita sorte que a pistola tivesse disparado acidentalmente na luta e matado a mulher. Caso contrário, o pobre Boris teria sido inevitavelmente enforcado... e você é que teria de mandá-lo para a forca. A fidelidade dele à dinastia Obolovitch é extraordinária. O mais estranho foi que, assim que Michael morreu, ele se afeiçoou a mim... e não podia saber quem eu era realmente!
– Foi o instinto, senhor – comentou Battle. – Como um cachorro.
– Na ocasião, achei que era um instinto dos mais constrangedores. Receei que isso pudesse denunciar-lhe a verdade. Mas agora acho melhor ir ver o que ele está querendo.
Anthony saiu pela porta do terraço. O superintendente Battle ficou sozinho, olhando para fora por um momento. Depois, virou-se e disse, como se estivesse falando com a parede:
– Ele vai conseguir.
Lá fora, Boris disse simplesmente:
– Amo.
E seguiu na frente pelo terraço. Anthony seguiu-o, procurando imaginar o que iria encontrar.
Dali a pouco Boris parou e apontou com o indicador. Era noite de luar e à frente deles havia um banco de pedra, no qual duas pessoas estavam sentadas.
“Ele é de fato um cão,” pensou Anthony. “E tem mais: um cão perdigueiro!”
Anthony adiantou-se e Boris fundiu-se com as sombras.
As duas pessoas se levantaram para recebê-lo. Uma era Virginia... e o outro...
– Olá, Joe – falou uma voz da qual Anthony se recordava muito bem. – Essa sua garota é maravilhosa.
– Jimmy McGrath! – gritou Anthony. – Mas como veio parar aqui?
– Aquela minha expedição ao interior foi um fracasso. E depois me apareceram alguns carcamanos. Queriam comprar um tal manuscrito. Uma noite, quase fui apunhalado pelas costas. Isso me fez pensar que o tinha incumbido de um trabalho muito mais difícil do que imaginava. Achei que podia precisar de ajuda e vim para cá no primeiro navio.
– Não foi maravilhoso da parte dele? – disse Virginia, apertando o braço de Jimmy. – Por que nunca me disse como ele era terrivelmente simpático, Anthony? Não precisa ficar corado, Jimmy. Você é realmente maravilhoso!
– Vocês dois parecem estar se dando muito bem – comentou Anthony.
– É isso mesmo – concordou Jimmy. – Comecei a procurar por notícias suas, quando encontrei a moça, Joe. E ela não era nada do que eu pensava... uma dessas mulheres altivas da sociedade que iriam me deixar arrasado.
– Ele me contou tudo a respeito das cartas – disse Virginia. – E eu quase que me senti envergonhada por não estar realmente em dificuldades por causa das cartas, já que teria um cavaleiro andante tão maravilhoso para me ajudar!
– Se eu soubesse como você era, não teria entregado as cartas ao Joe – disse Jimmy, galantemente. – Iria trazê-las pessoalmente. Ei, meu rapaz, a brincadeira já terminou mesmo? Não resta mais nada para eu fazer?
– Por Deus, claro que há! Espere um minuto!
Anthony voltou para a casa. Voltou um instante depois, com um embrulho de papel que entregou a Jimmy.
– Vá até a garagem e pegue o carro que mais lhe agradar. Siga para Londres e entregue este embrulho na Everdean Square, 17. É o endereço particular do Sr. Balderson. Em troca, ele irá lhe entregar mil libras.
– São as memórias? Mas me disseram que tinham sido queimadas!
– Quem acha que eu sou, Jimmy? Acha mesmo que eu iria cair num golpe tolo como aquele? Telefonei para a editora imediatamente, descobri que o outro chamado era falso e tomei as providências necessárias. Preparei um embrulho falso, de acordo com as instruções. Deixei o manuscrito no cofre da gerência e entreguei o pacote falso. As memórias jamais saíram do meu poder.
– Bravo, meu filho! – disse Jimmy.
– Oh, Anthony, vai mesmo deixar isso ser publicado? – indagou Virginia.
– Não posso impedir. Afinal, não posso deixar na mão um amigo como Jimmy. Mas não precisa se preocupar. Tive tempo de dar uma lida e compreendo agora por que as pessoas sempre insinuam que os figurões jamais escrevem pessoalmente as próprias reminiscências, preferindo contratar alguém para fazê-lo. Como escritor, Stylptitch é simplesmente insuportável. Discorre interminavelmente sobre a arte de governar e não se interessa pelas histórias indiscretas e picantes. Além do mais, a paixão dele pelo segredo manteve-se inabalável até o fim. Não há uma só palavra nas memórias, do princípio ao fim, que possa ferir a suscetibilidade do político mais exigente. Telefonei hoje para Balderson e combinei que entregaria o manuscrito esta noite, antes da meia-noite. Mas agora que está aqui, Jimmy pode fazer o seu próprio trabalho sujo.
– Pois já estou de partida. Sinto-me atraído pela idéia de receber mil libras... especialmente quando já havia perdido todas as esperanças.
– Espere um instante – pediu Anthony. – Tenho uma confissão a lhe fazer, Virginia, e gostaria que Jimmy ouvisse. É algo que todos os outros já sabem, mas que ainda não lhe contei.
– Não me importa quantas mulheres estranhas você já amou, contanto que não me conte a respeito delas agora.
– Mulheres! – gritou Anthony, com um ar virtuoso. – Mulheres! Pergunte a James quais as espécies de mulheres que estavam em minha companhia na última vez em que ele me viu.
– Verdadeiras barangas! – declarou Jimmy, solenemente. Nenhuma delas tinha menos de 45 anos.
– Obrigado, Jimmy, você é um amigo de verdade – disse Anthony. – Não, Virginia, a situação é muito pior. Eu a enganei em relação ao meu nome verdadeiro.
– E será que é um nome tão terrível assim? – perguntou Virginia, curiosa. – Não me diga que é algo como Pobbles. Seria engraçado ser chamada de Sra. Pobbles.
– Está sempre pensando o pior de mim, Virginia.
– Admito que pensei em determinado momento que você fosse o rei Victor, mas foi apenas por um minuto e meio.
– Por falar nisso, Jimmy, tenho um trabalho para você. Não gostaria de procurar ouro nas montanhas da Herzoslováquia?
– E existe ouro por lá? – indagou Jimmy, ansiosamente.
– Deve haver. É um país maravilhoso.
– Quer dizer que vai seguir o meu conselho e irá para lá?
– Exatamente. Seu conselho tinha mais valor do que podia imaginar. Agora, vamos à confissão. Não fui trocado no berçário nem nada de romântico assim, mas sou realmente o príncipe Nicolau Obolovitch, da Herzoslováquia.
– Oh, Anthony! – gritou Virginia. – Mas que maravilhoso! E eu casei com você? O que vamos fazer agora?
– Vamos para a Herzoslováquia e brincaremos de rei e rainha. Jimmy McGrath disse-me certa ocasião que a vida média de um rei ou rainha por lá é inferior a quatro anos. Espero que não se incomode.
– Incomodar-me? Vou adorar!
– Ele não é ótimo? – murmurou Jimmy.
E depois, discretamente, ele desapareceu na noite. Alguns minutos depois, Virginia e Anthony ouviram o barulho de um carro se afastando.
– Não há nada como deixar um homem fazer o seu próprio trabalho sujo – comentou Anthony, com evidente satisfação. – Além do mais, eu não sabia como livrar-me dele. Desde que nos casamos que ainda não tive um minuto a sós com você.
– Vamos nos divertir um bocado, Anthony. Ensinaremos os salteadores a não serem salteadores, os assassinos a não assassinarem, melhoraremos de um modo geral os padrões morais do país.
– Gosto de ouvir esses ideais puros, Virginia. Faz-me sentir que meu sacrifício não foi em vão.
– Você vai gostar de ser rei – disse Virginia, calmamente. – Está em seu sangue e sabe disso. Foi criado para o ofício da realeza e tem uma aptidão natural, assim como os bombeiros possuem um dom especial para cuidar de encanamentos.
– Eis aí algo que nunca imaginei. Mas não vamos perder tempo a conversar sobre bombeiros. Sabia que neste exato momento eu deveria estar ocupado numa conferência da maior importância com Isaacstein e o velho Lollipop? Eles querem conversar sobre petróleo. Oh, Deus, petróleo! Mas podem ficar esperando por meu favor real. Virginia, lembra-se de que eu disse certa vez que iria tentar fazer com que você gostasse de mim?
– Claro que me lembro – murmurou Virginia, suavemente. – Mas, naquela ocasião, o superintendente Battle estava olhando pela janela.
– Pois agora ele não está.
Anthony abraçou-a subitamente, beijando-lhe os olhos, os lábios, os cabelos...
– Eu a amo tanto, Virginia... Você me ama?
Anthony fitou-a, certo da resposta.
A cabeça de Virginia estava encostada em seu ombro. E muito baixo, a voz terna, um pouco trêmula, ela respondeu:
– Não amo nem um pouquinho!
– Ah, seu pequeno demônio! – disse Anthony, beijando-a novamente. – Agora tenho certeza de que irei amá-la até a morte...
31
Detalhes diversos
Local – Chimneys, 11 horas da manhã de quinta-feira.
Johnson, o guarda, sem o casaco, cavando.
Algo com a natureza de um funeral parece estar no ar.
Os amigos e parentes estão ao redor da cova que Johnson está escavando.
George Lomax tem o ar de principal beneficiário do testamento do falecido. O superintendente Battle, com o rosto impassível, parece satisfeito pelo fato de as providências para o funeral terem transcorrido sem qualquer dificuldade. Como o agente funerário, isso lhe vale um prestígio extraordinário. Lorde Caterham tem a expressão solene e chocada que os ingleses assumem quando se está realizando uma cerimônia religiosa.
O Sr. Fish não se enquadra na cena tão bem. Não é suficientemente sisudo.
Johnson está curvado, concentrado em sua tarefa. Empertiga-se subitamente. Há um frêmito de emoção ao redor.
– Já é suficiente, filho – alerta o Sr. Fish. – Pode deixar que faremos o restante.
Percebe-se imediatamente que ele é o médico da família.
Johnson se afasta. O Sr. Fish, com a solenidade adequada, debruça-se sobre a cova. O cirurgião está prestes a iniciar a intervenção cirúrgica.
Tira da cova um pequeno pacote de lona. Com muita cerimônia, entrega-o ao superintendente Battle. Este, por sua vez, entrega a George Lomax. A etiqueta da situação foi cumprida à risca.
George Lomax abre o embrulho, tira o oleado que há lá dentro, desembrulha-o. Por um momento, segura algo na palma da mão... e depois novamente o põe numa mortalha, desta vez um chumaço de algodão.
Limpa a garganta.
– Neste momento auspicioso...
A pronúncia é clara e precisa, típica do orador experiente.
Lorde Caterham bate em retirada apressadamente. No terraço, encontra a filha.
– Bundle, aquele seu carro está funcionando?
– Está, sim. Por quê?
– Então leve-me para Londres imediatamente. Vou viajar para o exterior hoje mesmo.
– Mas papai...
– Não discuta comigo, Bundle. Ao chegar esta manhã, George Lomax disse-me que precisava muito conversar comigo em particular, sobre um assunto de extrema importância. Acrescentou que o rei de Timbuctu deverá chegar a Londres dentro de poucos dias. E não vou agüentar tudo isso novamente, está me entendendo, Bundle? Nem por cinqüenta Georges Lomaxes! Se Chimneys é tão valiosa assim para a nação, então que a nação trate de comprá-la! Caso contrário, irei vendê-la para algum trust que a transformará em hotel!
– Onde Codders está agora?
Bundle está se mostrando à altura da situação.
Olhando para o relógio, lorde Caterham responde:
– Neste exato momento, ele ainda terá pelo menos 15 minutos para terminar a volta pelo Império.
Outra cena.
O Sr. Bill Eversleigh, que não foi convidado para a cerimônia junto à cova, ao telefone.
– Não, não, estou falando sério... Não seja melindrosa... Vai ou não jantar comigo esta noite? ... Não, não tenho. Passei o tempo todo trabalhando, numa verdadeira roda-viva. Não tem a menor idéia de como Lomax é... Sabe muito bem o que penso a seu respeito, Dolly... Está certo, irei assistir ao espetáculo. Como é mesmo o velho refrão? “E a moça bem que tenta, mas os colchetes...”
Ruídos fantásticos. É o Sr. Eversleigh tentando cantarolar a música referida.
E, neste momento, a peroração de George chega ao fim:
– ... a paz duradoura e a prosperidade do Império Britânico!
E o Sr. Hiram Fish diz, sotto voce, para si mesmo e para o mundo como um todo:
– Acho que esta foi uma ótima semaninha!
fim
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Você terminou O Segredo de Chimneys
Agatha Christie