O Segredo de Chimneys
Dedicatória
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.
A meu sobrinho
Em memória de uma inscrição
no Castelo de Compton e de um
dia no jardim zoológico
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1
Anthony Cade faz um acordo
— avalheiro Joe! C
– Ora se não é o velho Jimmy McGrath!
A Excursão Exclusiva da Castle, representada por sete mulheres de aparência deprimida e três homens bastante suados, olhou-os com considerável interesse. Era evidente que o Sr. Cade encontrara um velho amigo. Todos admiravam profundamente o Sr. Cade, um homem alto e esguio, de rosto bronzeado, com um jeito sereno e cordial de resolver as controvérsias e deixar todos de bom humor. Mas aquele amigo dele... certamente era um homem de aparência peculiar. Tinha aproximadamente a mesma altura que o Sr. Cade, mas era corpulento e a aparência não chegava a ser tão atraente. Era o tipo de homem sobre o qual se lia nos livros, típico proprietário de uma taberna. O que não deixava de ser interessante. Afinal, era justamente por isso que gostava de viajar para o exterior, para conhecer todas as maravilhas que os livros descreviam. Até aquele momento, eles estavam um pouco entediados com Bulawayo. O sol estava insuportavelmente quente, o hotel nada tinha de confortável e parecia não haver lugar algum para visitar até a hora da viagem de carro para Matoppos. Felizmente, o Sr. Cade sugerira a compra de cartões-postais. E havia no hotel um excelente estoque de cartões-postais.
Anthony Cade e seu amigo se afastaram um pouco.
– Que diabo está fazendo com esse bando de mulheres? – perguntou McGrath. – Vai montar um harém?
– Não com um bando como este – respondeu Anthony, sorrindo. – Já deu uma boa olhada nelas?
– Claro que dei. Mas pensei que estivesse ficando cego.
– Minha vista continua tão boa como sempre. Este é apenas um grupo da Excursão Exclusiva da Castle. E eu sou Castle... isto é, o homem local da Castle.
– E por que diabo você foi aceitar um emprego desses?
– Uma lamentável necessidade de dinheiro. Posso assegurar-lhe que as funções não se ajustam ao meu temperamento.
Jimmy sorriu.
– Continua tendo horror a um trabalho regular, hein? – Anthony ignorou a agressão e comentou, esperançoso:
– Mas espero que algo melhor apareça em breve. É o que em geral acontece.
Jimmy soltou uma risada.
– Sei disso. Se há alguma conspiração, Anthony Cade estará envolvido, mais cedo ou mais tarde. Você possui um instinto infalível para confusões... e as sete vidas de um gato. Quando podemos conversar?
Anthony suspirou.
– Tenho que levar esse bando de mulheres tagarelas para conhecerem o túmulo de Rhodes.
– Isso resolve o problema. Elas voltarão com as costas em frangalhos dos buracos da estrada e só vão querer uma cama para se recuperarem das dores. Poderemos, então, tomar uns tragos e contar as novidades.
– Está certo. Até mais tarde, Jimmy.
Anthony voltou para junto de seu rebanho. A Srta. Taylor, a mais jovem e a mais agitada do grupo, atacou-o no mesmo instante.
– Era um velho amigo seu, Sr. Cade?
– Era, sim, Srta. Taylor. Um dos amigos da minha juventude inocente.
A Srta. Taylor deu uma risadinha.
– Achei-o um homem interessante.
– Vou dizer isso a ele.
– Ah, Sr. Cade, não seja tão perverso! Foi só um pensamento. Como foi mesmo que ele o chamou?
– Cavalheiro Joe.
– Isso mesmo. E seu nome é Joe?
– Pensei que soubesse que é Anthony, Srta. Taylor.
– Mas que homem impossível – exclamou a Srta. Taylor de forma faceira.
A essa altura, Anthony já dominava perfeitamente as suas diversas funções. Além de tomar as providências necessárias para a viagem, sabia que tinha também a obrigação de acalmar velhos cavalheiros irritadiços quando sentiam a dignidade abalada, cuidar para que as matronas idosas tivessem todas as oportunidades possíveis para comprar cartões-postais e flertar com qualquer um que tivesse menos de 40 anos. Essa última função era facilitada pela extrema disposição das mulheres em questão em darem uma interpretação mais terna aos seus comentários mais inocentes.
A Srta. Taylor logo voltou ao ataque:
– Mas por que ele o chamou de Joe?
– Simplesmente porque não é meu nome.
– E por que Cavalheiro Joe?
– Pela mesma razão.
– Ah, Sr. Cade, não deve dizer uma coisa dessas! – protestou a Srta. Taylor, desolada. – Ontem à noite mesmo papai estava comentando que tinha maneiras muito cavalheirescas.
– Tenho certeza de que foi muita bondade de seu pai, Srta. Taylor.
– E todos achamos que é um perfeito cavalheiro.
– Ah, estou lisonjeado!
– Estou falando sério, Sr. Cade.
– Corações bondosos valem mais que coroas – comentou Anthony, distraidamente, sem ter muita noção das intenções do comentário e desejando fervorosamente que já estivesse na hora do almoço.
– Sempre achei esse um lindo poema. Conhece muita poesia, Sr. Cade?
– Posso recitar “O menino ficou no convés em chamas” num momento de aperto. “O menino ficou no convés em chamas, quando tudo mais já havia sido queimado.” Isso é tudo o que sei. Mas, se quiser, posso acompanhar com alguma representação. “O menino ficou no convés em chamas”... uarrr... uarrr... uarrr... esse é o barulho das chamas... “quando tudo mais já havia sido queimado”... e nessa parte eu saio correndo de um lado para outro, como um cachorro.
A Srta. Taylor explodiu em uma gargalhada.
– Oh, Sr. Cade! Assim vou acabar morrendo de rir!
– Está na hora do chá da manhã – disse Anthony, abruptamente. – Vamos por aqui. Há um excelente café na próxima rua.
– A despesa está incluída no preço da excursão? – indagou a Sra. Caldicott.
Assumindo atitude profissional, Anthony respondeu:
– O chá da manhã, Sra. Caldicott, é um extra.
– Lamentável!
– A vida está cheia de infortúnios, não é mesmo?
Anthony falou animado. Os olhos da Sra. Caldicott brilharam e ela comentou, com satisfação.
– Era o que eu já desconfiava. E por conta disso despejei um pouco de chá num bule esta manhã. Posso esquentá-lo na lamparina. Vamos embora, pai.
O Sr. e a Sra. Caldicott seguiram para o hotel, triunfantes. Os ombros dela estavam empinados de satisfação pela providência bem-sucedida.
– Oh, Deus – murmurou Anthony –, mas quantas pessoas engraçadas são necessárias para se fazer um mundo!
Ele conduziu o restante do grupo na direção do café. A Srta. Taylor ficou ao seu lado e recomeçou o interrogatório:
– Fazia muito tempo que não via o seu amigo?
– Apenas pouco mais de sete anos.
– Foi na África que o conheceu?
– Foi, sim. Mas não nesta parte da África. Na primeira vez em que vi Jimmy McGrath, ele estava todo amarrado e prontinho para o caldeirão. Algumas tribos do interior são de canibais. Chegamos lá na hora exata.
– O que aconteceu?
– Foi uma confusão e tanto. Liquidamos alguns dos patifes, e os outros deram o fora.
– Oh, Sr. Cade, mas que vida aventureira deve ter levado!
– Posso lhe assegurar de que tem sido muito pacífica.
Mas era evidente que a Srta. Taylor não acreditava nele.
JÁ ERAM QUASE 10 HORAS da noite quando Anthony Cade entrou na pequena sala onde Jimmy McGrath estava concentrado manipulando diversas garrafas.
– Faça um bem forte para mim, James. Juro que estou precisando... e muito.
– Eu já imaginava, meu rapaz. Não aceitaria esse emprego por nada neste mundo.
– Mostre-me outro e mudarei de emprego imediatamente.
McGrath serviu seu próprio drinque, dosando-o com extrema habilidade, depois preparou um segundo. E disse, lentamente:
– Está realmente falando sério, meu rapaz?
– Sobre o quê?
– Quando disse que estava disposto a largar esse emprego, se conseguisse arrumar outro?
– Por quê? Está querendo insinuar que conhece outro emprego melhor? E por que você mesmo não o aceita?
– Já o aceitei... mas não me agrada muito. É por isso que estou querendo passar o lugar para você.
Anthony ficou desconfiado no mesmo instante.
– Qual é o problema com o emprego? Por acaso foi contratado para dar aula de catecismo?
– Acha que alguém iria escolher logo a mim para dar aulas de catecismo?
– Claro que não... se o conhecessem.
– É um ótimo emprego, meu caro. Não tem nada de errado.
– Por acaso é na América do Sul? Ando de olho na América do Sul. Não demora muito e vai ocorrer uma revolução numa das republiquetas de lá.
McGrath sorriu.
– Sempre gostou de revoluções, não é mesmo? É capaz de dar qualquer coisa para se meter numa boa briga.
– Sinto que meus talentos poderão ser apreciados por aquelas bandas. Posso ser muito útil numa revolução, Jimmy... para um lado ou para o outro. E é melhor do que viver honestamente.
– Tenho a impressão de que já ouvi você manifestar tal sentimento antes, meu filho. Mas não se iluda: o trabalho não é na América do Sul, e sim na Inglaterra.
– Inglaterra? O retorno do herói à sua terra natal depois de muitos anos. Será que eles ainda podem cobrar as dívidas que ficaram por saldar depois de sete anos, Jimmy?
– Acho que não. Mas você vai querer ouvir o restante ou não?
– Claro que vou. Só estou preocupado com o fato de você mesmo não estar querendo pegar o trabalho.
– É que estou atrás de ouro, Anthony, lá no interior.
Anthony assoviou baixinho.
– Sempre esteve atrás de ouro, Jimmy, desde que o conheci. É a sua fraqueza, o seu hobby particular. Já seguiu mais pistas falsas do que qualquer outra pessoa que eu conheça.
– Mas tenho certeza de que, no fim, acabarei acertando em cheio. Você vai ver.
– Cada um com a sua mania. Eu gosto de brigas, você prefere o ouro.
– Vou lhe contar toda a história. Já ouviu falar em Herzoslováquia, não é mesmo?
Anthony ficou alerta, um tom estranho se insinuando em sua voz, quando repetiu:
– Herzoslováquia?
– Isso mesmo. Conhece alguma coisa a respeito do país?
Houve uma pausa considerável antes que Anthony respondesse, falando bem devagar:
– Somente o que todo mundo sabe. Não é um dos Estados Balcânicos? Rios principais, desconhecidos. Montanhas principais, desconhecidas, mas bastante numerosas. Capital, Ekarest. População, em sua maioria salteadores. Ocupação principal, assassinar reis e fazer revoluções. Último rei, Nicolau IV, assassinado há cerca de sete anos. Desde então o país é uma república. De uma forma geral, é um lugar agradável. Devia ter mencionado logo de cara que a Herzoslováquia entrava na História.
– Mas não entra, a não ser indiretamente.
Anthony fitou-o com uma expressão que era mais de pesar que de raiva.
– Devia tomar mais cuidado, James. Faça um curso por correspondência ou algo assim. Se aparecesse com uma história dessa nos velhos tempos lá do Oriente, seria pendurado pelos pés e açoitado. Talvez até lhe acontecesse algo pior.
Jimmy seguiu em frente, inabalável, ignorando as críticas.
– Já ouviu falar do conde Stylptitch?
– Agora começou a falar sério, James. Muita gente que nunca ouviu falar da Herzoslováquia certamente se animaria com a menção do conde Stylptitch. O Grande Sábio dos Bálcãs. O maior estadista dos tempos modernos. O maior vilão que conseguiu escapar à forca. O ponto de vista depende da posição do jornal. Mas uma coisa é certa: o conde Stylptitch continuará a ser lembrado por muito tempo depois que virarmos pó. Nos últimos vinte anos, todos os movimentos que ocorreram nos Bálcãs tiveram o dedo do conde Stylptitch. Ele foi ditador, patriota e estadista... na verdade, ninguém sabe exatamente o que ele foi, a não ser que se destacou como o rei da intriga. Mas o que há com ele?
– O conde Stylptitch foi primeiro-ministro da Herzoslováquia... foi por isso que mencionei o país primeiro.
– Você não tem o menor senso de proporções, Jimmy. A Herzoslováquia não tem absolutamente a menor importância, em comparação com Stylptitch. Ela serviu apenas para proporcionar a ele uma terra natal e um posto nos negócios públicos. Mas ele não tinha morrido?
– E morreu mesmo, há cerca de dois meses, em Paris. Mas a história que vou contar a você aconteceu há alguns anos.
– O problema é saber por que está me contando tudo isso.
Jimmy novamente ignorou o comentário e apressou-se em continuar:
– Eu estava em Paris há quatro anos. Uma noite, passeando por uma parte relativamente deserta da cidade, avistei meia dúzia de desordeiros franceses espancando um velho de aparência respeitável. Detesto os espetáculos unilaterais e por isso prontamente me meti, começando a espancar os desordeiros. Acho que eles nunca tinham apanhado de verdade antes, porque se derreteram como neve.
– Deve ter sido uma briga e tanto, James. Eis um espetáculo a que eu gostaria de ter assistido.
– Ora, não foi nada – respondeu Jimmy, com um ar de modéstia. – Seja como for, o velho mostrou-se grato pela minha intervenção. Tinha tomado alguns tragos, é verdade, mas ainda estava sóbrio o bastante para anotar meu nome e endereço. Foi procurar-me no dia seguinte para agradecer. E o fez em grande estilo. Foi nessa ocasião que descobri que o homem que salvara era o conde Stylptitch. Ele tinha uma casa no Bois.
Anthony assentiu.
– Eu já sabia disso, Stylptitch foi viver em Paris depois do assassinato do rei Nicolau. Quiseram depois que ele voltasse para assumir a presidência, mas Stylptitch recusou. Permaneceu fiel aos seus princípios monárquicos, embora se comentasse que andou metendo o dedo em tudo o que acontecia nos Bálcãs. O falecido conde Stylptitch era um homem de vários talentos.
– Nicolau IV não era o homem que tinha um gosto estranho em matéria de esposas? – indagou Jimmy, subitamente.
– Isso mesmo. E foi justamente isso que o fez cair em desgraça. Ela era uma simples artista de music-hall em Paris, nem mesmo servia para aliança morganática. Mas Nicolau ficou perdidamente apaixonado e ela estava ansiosa em se tornar rainha. Parece incrível, mas o fato é que conseguiram. Nicolau deu-lhe o título de condessa Popoffsky, ou algo assim, e declarou que ela trazia nas veias o sangue dos Romanoff. Casaram-se na catedral de Ekarest e a cerimônia foi realizada por uma dupla de arcebispos relutantes. Ela foi coroada como a rainha Varaga. Nicolau enquadrou direitinho os seus ministros e pensou que estava tudo resolvido. Mas esqueceu-se de levar em consideração a ralé. Os habitantes da Herzoslováquia são muito aristocratas e reacionários. Gostam que seus reis e suas rainhas sejam genuínos. Houve murmúrios de protesto e descontentamento, seguidos da repressão habitual e, invariavelmente, brutal. Por fim, houve o levante popular, o palácio foi invadido, o rei e a rainha assassinados e a república, proclamada. E, desde então, a Herzoslováquia é uma república. Mas, pelo que ouço dizer, as coisas continuam bem animadas por lá. Já assassinaram um ou dois presidentes, apenas para não perderem o hábito. Mas revenons à nos moutons. Tinha parado no ponto em que o conde Stylptitch o saudava como seu salvador.
– Exatamente. E as coisas ficaram por aí mesmo. Voltei para a África e nunca mais pensei na história, até há cerca de duas semanas. Recebi um pacote de aparência esquisita, que havia me acompanhado por toda parte, só Deus sabe por quanto tempo. Tinha acabado de ler num jornal a notícia de que o conde Stylptitch morrera recentemente em Paris. Pois bem, o pacote continha as memórias dele... ou reminiscências, como queira chamar. Havia um bilhete anexado, informando que, se eu entregasse o manuscrito a determinada editora de Londres, no dia 13 de outubro ou antes, receberia mil libras de recompensa.
– Mil libras? Foi isso mesmo o que disse, Jimmy?
– Foi, sim, meu filho. Só espero que não seja uma farsa. Não se pode confiar em príncipes ou políticos, como se costuma dizer. Pois aí está toda a história. Como o manuscrito já está me acompanhando há algum tempo, a viagem para Londres tem que ser imediata. O que é uma pena. Já tenho tudo acertado para a viagem ao interior e estou decidido a partir de qualquer maneira. Talvez nunca mais tenha outra oportunidade tão boa de encontrar ouro.
– Você é mesmo incurável, Jimmy. Mil libras na mão valem muito mais que qualquer mina de ouro imaginária.
– E se tudo não passar de um embuste? Seja como for, aqui estou, de passagem comprada e tudo... prestes a partir para a Cidade do Cabo. E é nesse momento que você me aparece, como que caído do céu!
Anthony levantou-se e acendeu um cigarro.
– Estou começando a perceber sua jogada, Jimmy. Você sai em busca de ouro, enquanto eu vou receber as mil libras. E quanto levo nisso?
– O que me diz de um quarto?
– 250 libras livres de despesas?
– Combinado.
– Está certo. E só para fazê-lo ranger os dentes de raiva, deixe me dizer que eu teria aceitado por 100 libras! Uma coisa posso lhe assegurar, James McGrath: não vai morrer na cama contando seu saldo bancário.
– Mas o negócio está fechado?
– Claro que está! E que se danem as Excursões Exclusivas da Castle!
Os dois fizeram um brinde, solenemente.
2
Uma mulher em apuros
— agora vamos aos fatos – falou Anthony, terminando de tomar o E
drinque e pondo o copo em cima da mesa. – Tem passagem para que navio?
– O Granarth Castle.
– Como a passagem certamente está em seu nome, é melhor eu viajar como James McGrath. Há muito que superamos esses problemas menores como passaportes, não é mesmo?
– Isso não será problema. Somos totalmente diferentes, mas provavelmente merecemos a mesma descrição oficial: 1,85 metro de altura, cabelos castanhos, olhos azuis, nariz comum, queixo comum...
– Pare com esse negócio de “comum”, James. Saiba que a Castle me escolheu, entre diversos candidatos, exclusivamente por causa da minha aparência e boas maneiras.
Jimmy sorriu.
– Notei as suas boas maneiras esta manhã.
– Vá para o diabo!
Anthony começou a andar de um lado para outro da sala. A testa estava ligeiramente franzida e alguns minutos se passaram antes que ele voltasse a falar:
– Stylptitch morreu em Paris, Jimmy. Por que enviar um manuscrito de Paris para Londres via África?
Jimmy sacudiu a cabeça. Era evidente que também estava perplexo com o estranho fato.
– Não tenho a menor idéia.
– Por que não fazer um lindo embrulho e despachá-lo diretamente pelo correio?
– Concordo que isso seria muito mais sensato.
– Sei, obviamente, que reis, rainhas e altos governantes são impedidos pela etiqueta de terem qualquer atitude da maneira mais simples e direta. Foi por isso que se criaram os Mensageiros do Rei e todas essas coisas. Nos tempos medievais, dava-se a um sujeito um anel de sinete, como uma espécie de “abra-te, sésamo”. “O Sinete do Rei! Pode passar, milord.” E, em geral, quem passava era outro sujeito, que tinha roubado o anel. Fico espantado de nenhum sujeito inteligente ter jamais imaginado em copiar o anel, fabricando uma dúzia ou mais e vendendo a 100 ducados a peça. Parece que eles não tinham a menor iniciativa na Idade Média.
Jimmy bocejou.
– Estou vendo que não se interessa muito por meus comentários sobre a Idade Média, James. Por isso, voltemos ao conde Stylptitch. Da França à Inglaterra através da África parece um tanto confuso, até mesmo para um personagem do mundo diplomático. Se ele queria apenas que você ganhasse mil libras, seria mais simples deixar o legado expresso no testamento. E graças a Deus que nem você nem eu somos orgulhosos demais para aceitar um legado! Stylptitch devia ser doido.
– É tudo que se pode concluir, não é mesmo?
Anthony continuou a andar de um lado para outro, o rosto franzido. E subitamente perguntou:
– Por acaso já leu o negócio?
– Que negócio?
– O manuscrito.
– Mas claro que não! Por que diabo eu haveria de ler um negócio desses?
Anthony sorriu.
– Foi apenas uma idéia que me ocorreu, mais nada. Sabe, James, já houve muita encrenca causada por memórias, contendo revelações indiscretas e outras coisas no gênero. Pessoas que passaram a vida inteira de boca fechada, como ostras, parece que sentem prazer em causar a maior confusão depois que estão confortavelmente mortas. Isso proporciona a elas uma espécie de prazer perverso. Que tipo de homem era o conde Stylptitch, Jimmy? Encontrou-se pessoalmente com ele, vocês conversaram. Sei que você é um bom juiz da natureza humana. É possível imaginá-lo como um velho demônio vingativo?
Jimmy balançou a cabeça.
– É difícil dizer. Naquela primeira noite, ele estava meio embriagado. E no dia seguinte era simplesmente o velho emproado, de maneiras perfeitas, sufocando-me de elogios até eu não saber mais para onde olhar.
– E ele não disse nada de interessante quando estava embriagado?
Jimmy franziu o rosto, procurando recordar, até que por fim murmurou hesitante:
– Ele disse que sabia onde estava o Koh-i-noor.
– Mas isso todo mundo sabe. Não é na Torre que o guardam? E o mantêm por trás de placas de vidro grosso e barras de ferro, com uma porção de homens fantasiados ao redor, para impedir que alguém cogite retirá-lo de lá.
– É isso mesmo.
– Stylptitch disse mais alguma coisa do gênero? Falou, por exemplo, que sabia em que cidade se encontrava a Coleção Wallace? – Jimmy balançou a cabeça.
– Hummm... – murmurou Anthony.
Ele acendeu outro cigarro e voltou a andar pela sala. Um pouco depois perguntou:
– Não costuma ler os jornais, não é mesmo, seu pagão?
– Não com muita freqüência. De um modo geral, não publicam nada que possa me interessar.
– Graças a Deus sou mais civilizado. Ultimamente, muitas notícias a respeito da Herzoslováquia têm sido veiculadas. Dizem que pode haver uma restauração da monarquia.
– Nicolau IV não deixou nenhum filho – lembrou Jimmy. – Mas nem por isso a dinastia Obolovitch deve estar extinta. Provavelmente há toda uma multidão de jovens hunos reivindicando o trono, primos em primeiro, segundo ou terceiro graus.
– O que significa que eles não teriam a menor dificuldade em encontrar um novo rei.
– Eu diria que absolutamente nenhuma. E não me admiro que eles estejam começando a ficar cansados das instituições republicanas. Para um povo violento e viril, não deve ser fácil agüentar um presidente depois de estar acostumado a ter reis. E por falar em reis, isso me lembra de outra coisa que o velho Stylptitch falou naquela noite. Disse que sabia qual era a quadrilha que estava atrás dele. Declarou que eram os homens do rei Victor.
– O quê? – gritou Anthony, virando-se bruscamente.
Um sorriso se estampou no rosto de Jimmy McGrath.
– O que houve, Cavalheiro Joe? Por que ficou tão alterado?
– Não seja tolo, Jimmy. Acabou de dizer algo que parece muito importante.
Ele foi até a janela e ficou olhando para fora. Jimmy perguntou:
– Quem é esse rei Victor? Outro monarca balcânico?
– Não, James, ele não é um rei desse gênero.
– O que ele é então?
Houve uma pausa prolongada antes que Anthony respondesse:
– É um escroque, Jimmy; o mais conhecido ladrão de jóias do mundo. Um sujeito fantástico, de incrível audácia, que não teme coisa alguma. Rei Victor era o apelido pelo qual o conheciam em Paris, o quartel-general de sua quadrilha. Meteram-no na cadeia, condenado a sete anos por uma acusação de menor importância. Não conseguiram provar nada de mais grave contra ele. Vai sair da cadeia em breve... ou talvez já tenha saído.
– Acha que o conde Stylptitch teve algo a ver com a prisão dele? Teria sido por isso que a quadrilha estava atrás dele? Por vingança?
– Não sei, James, mas não me parece provável. Ao que me conste, o rei Victor nunca roubou as jóias da Coroa da Herzoslováquia. Mas não acha que todas essas circunstâncias estão parecendo altamente sugestivas? A morte de Stylptitch, as memórias e os rumores nos jornais... tudo muito vago, mas extremamente interessante. E há um outro rumor, o de que encontraram petróleo na Herzoslováquia. Tenho a impressão, James, de que muitas pessoas estão começando a se interessar por aquele pequeno país, que nunca teve a menor importância.
– Que tipo de pessoas?
– As chamadas pessoas hebraicas, financistas de rostos pálidos, enclausurados em seus escritórios.
– Onde está querendo chegar com tudo isso?
– Apenas tentando tornar mais difícil um trabalho fácil, mais nada.
– Não vai querer me dizer que existe alguma dificuldade em entregar um manuscrito no escritório de uma editora?
– Não – respondeu Anthony, visivelmente pesaroso. – Não creio que haja qualquer dificuldade. Mas quer que eu lhe diga, James, para onde pretendo ir com as minhas 250 libras?
– América do Sul?
– Não, meu caro. Vou para a Herzoslováquia. E acho que lutarei pela república. Talvez até acabe presidente.
– Já que é esse o seu objetivo, por que não se anuncia como o principal herdeiro Obolovitch e vira rei?
– Não, Jimmy. Os reis são para toda a vida, enquanto os presidentes ficam no cargo por apenas quatro anos ou algo assim. Seria muito divertido governar um país como a Herzoslováquia... mas por um prazo máximo de quatro anos.
– Eu diria que a duração média dos reis é ainda menor – comentou Jimmy.
– Provavelmente será uma tentação muito forte para mim ficar com a sua parte das mil libras, James. Afinal, não vai querer essa quantia insignificante quando voltar carregado de pepitas de ouro. Posso investir o dinheiro para você na Herzoslováquia, nos poços de petróleo. Sabe, Jimmy, quanto mais penso na sua proposta, mais ela me agrada. Eu jamais teria pensado na Herzoslováquia se você não a tivesse mencionado. Vou passar um dia em Londres, para receber o dinheiro, e depois pegarei o Expresso dos Bálcãs.
– Não vai conseguir se livrar tão depressa assim. Não falei antes, mas tenho outra pequena missão para você.
Anthony finalmente sentou, fitando-o com uma expressão contrariada.
– Eu já sabia que você estava guardando algo no escuro. É agora que vem a encrenca.
– Não é nada disso, meu caro. Trata-se apenas de algo que precisa ser feito para ajudar uma dama.
– De uma vez por todas, James, eu me recuso a ser envolvido em seus casos de amor abomináveis.
– Não é um caso de amor. Na verdade, nunca vi a mulher. Vou lhe contar toda a história.
– Se vou ter que ouvir outra das suas histórias compridas e meio confusas, exijo que antes me sirva um drinque.
Jimmy McGrath atendeu ao pedido, como um bom anfitrião, iniciando em seguida o relato:
– Aconteceu quando eu estava em Uganda. Salvei a vida de um carcamano...
– Se eu fosse você, Jimmy, escreveria um livro intitulado “As vidas que salvei”. Já é a segunda vez que o ouço dizer isso, só esta noite.
– Mas dessa vez não fiz nada demais. Apenas tirei o carcamano do rio. Como todos os carcamanos, diga-se de passagem, ele não sabia nadar.
– Espere um pouco, Jimmy. Essa história tem alguma coisa a ver com a outra?
– Absolutamente nada. Se bem que, estranhamente, estou lembrando agora que esse homem era um herzoslovaco. Mas nós sempre o chamamos de Pedro Holandês.
Anthony assentiu, indiferente, comentando:
– Qualquer nome serve para um carcamano. Continue a contar a história, James.
– O sujeito ficou muito grato e passou a me cercar como um cachorro fiel. Morreu de febre cerca de seis meses depois. Eu estava ao seu lado. Pouco antes de morrer, ele me chamou e sussurrou algum jargão eufórico sobre um segredo. Tive a impressão de que ele falou em mina de ouro. E meteu-me na mão um pacote em oleado que sempre levava consigo. Não dei muita importância ao caso na ocasião. Só uma semana depois é que abri o pacote. Devo confessar que estava bastante curioso. Não podia imaginar que Pedro Holandês tivesse cabeça suficiente para reconhecer uma mina de ouro quando a encontrasse. Mas nunca se sabe o que a sorte pode fazer...
Anthony interrompeu-o:
– E só de pensar em ouro seu coração começou a bater mais depressa, como sempre acontece.
– Nunca fiquei tão revoltado antes. Não era mina de ouro coisa nenhuma! Isto é, para o cão imundo pode ter sido uma mina de ouro. Sabe o que ele tinha? Cartas de mulher! Isso mesmo, cartas de mulher... e inglesa, diga-se de passagem. O canalha andava fazendo chantagem com a mulher... e teve a ousadia de entregar-me as cartas para prosseguir em seu trabalho imundo!
– Gosto de ver a sua indignação virtuosa, James, mas deixe-me lembrar que uma vez carcamano, sempre carcamano. As intenções dele eram as melhores possíveis. Você lhe salvara a vida e ele lhe deixou como herança uma fonte lucrativa de arrumar dinheiro. Os seus nobres ideais ingleses não entravam no panorama.
– Mas que diabo eu ia fazer com as cartas? Minha primeira idéia foi queimá-las. Mas logo ocorreu-me que a pobre mulher, sem saber que as cartas incriminadoras haviam sido destruídas, continuaria a viver apavorada, receando que a qualquer momento o carcamano tornasse a aparecer para extorquir-lhe mais dinheiro.
– Tem mais imaginação do que pensei, Jimmy – comentou Anthony, acendendo outro cigarro. – Reconheço que o caso apresentava mais dificuldades do que a princípio podia parecer. Mas por que não mandar as cartas para a mulher pelo correio, sem mais problemas?
– Como a maioria das mulheres, ela não pôs data nem endereço nas cartas. Só em uma havia uma espécie de endereço e mesmo assim era apenas uma palavra: Chimneys.
Anthony fez uma pausa no ato de apagar o fósforo e largou-o com um movimento brusco do pulso, no instante em que começou a queimar seus dedos.
– Chimneys? Mas que coisa extraordinária!
– Por quê? Conhece o lugar?
– É uma das mansões mais importantes da Inglaterra, meu caro James, o lugar onde reis e rainhas vão passar os fins de semana, onde diplomatas se reúnem para confabular.
– Esse é um dos motivos pelos quais fico contente que você vá para a Inglaterra no meu lugar. Afinal, conhece tudo isso. Um caipira como eu, do interior do Canadá, iria fazer uma besteira atrás da outra. Mas alguém como você, que esteve em Eton e Harrow...
– Em apenas um deles – protestou Anthony, modestamente.
– Você poderá se sair bem, sem qualquer dificuldade. Quer saber por que não mandei as cartas pelo correio? Achei que era perigoso. Pelo que pude deduzir, ela parecia ter um marido ciumento. E se ele abrisse uma das cartas por engano? O que aconteceria com a pobre mulher? E é possível também que ela já esteja morta. As cartas dão a impressão de terem sido escritas há bastante tempo. Cheguei à conclusão de que a única solução seria alguém viajar para a Inglaterra e entregar as cartas à pobre mulher pessoalmente.
Anthony jogou fora o cigarro e aproximou-se do amigo, dando-lhe uma pancadinha afetuosa nas costas.
– Você é um verdadeiro cavaleiro andante, Jimmy. E o interior do Canadá deveria estar orgulhoso de tê-lo como filho. Não farei o trabalho tão bem quanto você o faria.
– Quer dizer que concorda em levar as cartas?
– Mas é claro!
McGrath foi até um pequeno armário do outro lado da sala, tirou um maço de cartas e as jogou em cima da mesa.
– Aqui estão as cartas. Seria bom dar uma olhada nelas.
– Acha que é mesmo necessário? Preferia não ter que fazê-lo.
– Pelo que disse a respeito desse lugar chamado Chimneys, é bem possível que ela só tenha estado lá de passagem. Talvez as cartas contenham alguma indicação do local onde ela realmente mora.
– Tem razão, Jimmy.
Os dois começaram a examinar as cartas cuidadosamente, mas sem encontrar a menor pista do que esperavam descobrir. Ao fim, Anthony tornou a reuni-las, pensativo, e comentou:
– Pobre coitada... Ela estava apavorada.
Jimmy assentiu, indagando ansiosamente:
– Acha que poderá encontrá-la?
– Não deixarei a Inglaterra enquanto não a encontrar. Está tão preocupado assim com essa mulher desconhecida, Jimmy?
O amigo passou o dedo pela assinatura de uma das cartas e murmurou, como se pedisse desculpas:
– É um lindo nome... Virginia Revel...
3
Apreensão nos altos escalões — em toda razão, meu caro, tem toda razão – disse lorde Caterham. T
Ele já usara as mesmas palavras três vezes, na esperança de que pudessem pôr fim à conversa e permitir-lhe escapar. Detestava profundamente ser obrigado a ficar parado nos degraus do exclusivo clube londrino a que pertencia, escutando a eloqüência interminável do honorável George Lomax.
Clement Edward Alistair Brent, nono marquês de Caterham, era um homem pequeno, que se vestia de forma modesta, muito diferente da concepção popular de um marquês. Tinha olhos azuis desbotados, um nariz fino que dava ao seu rosto uma expressão triste e uma atitude vaga, mas cortês.
O maior infortúnio da vida de lorde Caterham era ter sucedido ao irmão, o oitavo marquês da linhagem, havia quatro anos. É que o lorde Caterham anterior sempre fora um homem eminente, cuja mansão era conhecida em toda a Inglaterra. Fora Secretário de Estado de Relações Exteriores e sua palavra sempre tivera peso nos conselhos do Império. Sua propriedade no campo, Chimneys, tornara-se famosa pela hospitalidade. Com o apoio competente da esposa, filha do duque de Perth, ele recebera em sua casa algumas das pessoas mais importantes da sua época. A história fora feita e desfeita em fins de semana informais em Chimneys. Não havia praticamente ninguém de importância na Inglaterra, talvez mesmo na Europa, que não tivesse se hospedado em Chimneys pelo menos uma vez.
O que era ótimo. O novo marquês de Caterham tinha o maior respeito e estima pela memória do irmão. Henry fora excepcional naquele tipo de trabalho. Mas o atual lorde Caterham objetava à suposição de que Chimneys era uma propriedade de interesse nacional e não uma propriedade rural particular. Não havia nada que aborrecesse mais o lorde Caterham do que a política. Isto é, a não ser os políticos. Essa era a razão da sua impaciência com a eloqüência interminável de George Lomax. Este era um homem robusto, corpulento, com o rosto vermelho e olhos protuberantes, e que tinha uma percepção exagerada da própria importância.
– Está percebendo agora, Caterham? Não podemos, de jeito nenhum, suportar um escândalo assim nesse momento. A situação é extremamente delicada.
– Sempre é – ressaltou lorde Caterham com uma insinuação de ironia.
– Estou em condições de saber, meu caro!
– Tem razão, tem toda razão – respondeu lorde Caterham, retornando à sua linha anterior de defesa.
– Basta transpirar uma só notícia sobre o problema herzoslovaco e estamos perdidos. É de fundamental importância que as concessões para a exploração de petróleo fiquem nas mãos de uma companhia britânica. Compreende agora?
– Claro, claro...
– O príncipe Michael Obolovitch vai chegar no fim de semana e tudo poderá ser resolvido em Chimneys, sob o pretexto de uma caçada.
– Eu estava pensando em viajar para o exterior nesse fim de semana.
– Não diga bobagem, meu caro Caterham. Ninguém vai para o exterior no início de outubro.
– Meu médico acha que meu estado não é nada bom – murmurou lorde Caterham, olhando ansiosamente para um táxi que se aproximava.
Mas ele não conseguiu escapar, já que Lomax tinha o hábito desagradável de segurar as pessoas com quem tinha uma conversa mais séria, certamente o resultado de longa experiência. Assim, ele agarrava firmemente a lapela do casaco de lorde Caterham.
– Ora, meu caro, vou deixar tudo bem claro. Num momento de crise nacional, como o que está rapidamente se aproximando...
Lorde Caterham conseguiu desvencilhar-se, apreensivo. Sentiu subitamente que era melhor promover quantas festas fossem necessárias em sua casa do que ouvir George Lomax reproduzir um dos seus discursos. Sabia, por experiência própria, que Lomax era capaz de falar durante 20 minutos seguidos sem parar.
– Está bem, está bem – ele apressou-se em dizer. – Concordo com tudo. Só espero que tome todas as providências necessárias.
– Não há nada que providenciar, meu caro. Chimneys, além de suas associações históricas, está idealmente situada. Estarei na Abbey, a menos de 12 quilômetros de distância. E claro que não seria aconselhável que eu participasse.
– Claro que não – concordou lorde Caterham, que não tinha a menor idéia do motivo pelo qual não seria aconselhável, tampouco estava interessado em descobrir.
– Mas talvez não se importasse em convidar Bill Eversleigh. Ele seria extremamente útil para transmitir mensagens.
– Será um prazer – declarou lorde Caterham, um pouco mais animado. – Bill é um sujeito decente e Bundle gosta dele.
– A caçada em si, é claro, não terá a menor importância. Na verdade, é apenas um pretexto.
Lorde Caterham pareceu ficar deprimido e Lomax acrescentou:
– Nesse caso, está tudo resolvido. Irão o príncipe e sua comitiva, Bill Eversleigh, Herman Isaacstein...
– Quem?
– Herman Isaacstein, o representante do grupo sobre o qual lhe falei.
– O grupo britânico?
– Esse mesmo. Por quê?
– Nada, nada... Eu estava apenas pensando, mais nada. Essa gente aparece de vez em quando com os nomes mais curiosos do mundo...
– E deve haver também algumas pessoas de fora, só para dar uma aparência de legitimidade. Lady Eileen pode cuidar disso... gente jovem, de preferência, alegre e descontraída, sem qualquer interesse em política.
– Tenho certeza de que Bundle poderá perfeitamente cuidar dessa parte.
– Fico pensando...
Lomax fez uma pausa. Parecia estar preocupado com uma idéia súbita.
– Lembra-se do assunto sobre o qual acabei de lhe falar?
– Falou de uma porção de coisas.
– Estou me referindo a esse contratempo desagradável... – Uma nova pausa e Lomax baixou a voz para um sussurro misterioso – ... as memórias... as memórias do conde Stylptitch.
– Acho que está enganado quanto a isso – comentou lorde Caterham, contendo um bocejo. – As pessoas adoram um escândalo. Até eu costumo ler as memórias de gente famosa... e confesso que gosto muito.
– O problema não é saber se as pessoas irão lê-las ou não, embora eu tenha certeza de que se trata de algo inevitável. Mas a publicação das memórias, a essa altura dos acontecimentos, pode estragar tudo... tudo mesmo. O povo da Herzoslováquia deseja restaurar a monarquia e está disposto a oferecer a Coroa ao príncipe Michael, que conta com o apoio do Governo de Sua Majestade...
– E o príncipe Michael, por sua vez, está disposto a ceder às concessões ao Sr. Ikey Hermanstein & Cia., em troca do empréstimo de um milhão de libras para levá-lo de volta ao trono...
– Caterham, Caterham – suplicou Lomax, com um sussurro angustiado. – A discrição é o mais importante, acima de tudo.
Com evidente satisfação, embora baixasse a voz em atendimento ao apelo do outro, lorde Caterham continuou:
– E o problema é que algumas das memórias de Stylptitch podem afetar os planos. A tirania e o mau procedimento em geral da família Obolovitch. Houve muitos questionamentos na Câmara. Por que substituir a atual forma de governo, democrática e tolerante, por uma tirania obsoleta? A política está sendo dirigida pelos capitalistas sanguessugas! Abaixo o governo! Não é esse tipo de coisas que estão temendo?
Lomax assentiu, murmurando:
– E pode haver algo ainda pior. Suponhamos... apenas suponhamos que possa haver alguma alusão ao desaparecimento lamentável... acho que sabe a que estou me referindo.
Lorde Caterham estava visivelmente surpreso.
– Não, não sei. Que desaparecimento é esse?
– Não ouviu falar a respeito? Ora, aconteceu quando estavam em Chimneys. Henry ficou terrivelmente transtornado, pois o fato quase lhe arruinou a carreira.
– Estou bastante curioso. Quem ou o que desapareceu?
Lomax inclinou-se para a frente e quase encostou a boca no ouvido do lorde Caterham, que recuou instintivamente.
– Pelo amor de Deus, não sopre no meu ouvido!
– Ouviu o que eu disse?
– Ouvi, sim – murmurou lorde Caterham, relutantemente. – Lembro-me agora de ter ouvido falar alguma coisa a respeito, na ocasião. Um caso muito estranho. Fiquei imaginando quem poderia ser o culpado. E nunca foi recuperado?
– Nunca. É claro que tivemos de cuidar do caso com o máximo de discrição. Não podíamos deixar que transpirasse o menor rumor do desaparecimento. Mas Stylptitch estava lá na ocasião. E soube de alguma coisa. Não de tudo, mas de alguma coisa. Já havíamos tido divergências com ele algumas vezes, por causa da questão turca. Suponhamos que, por pura maldade, ele tenha revelado toda a história em suas memórias, para o mundo inteiro tomar conhecimento. Pense no escândalo... nas conseqüências desastrosas e profundas. Todo mundo iria perguntar: por que o caso foi abafado?
– Tem toda razão – confirmou lorde Caterham, evidentemente deliciado com a perspectiva.
Lomax, cuja voz se alteara estridentemente, voltou a se controlar e sussurrou:
– Tenho que manter a calma, tenho que manter a calma... Mas vou lhe fazer uma pergunta, meu caro: se as intenções de Stylptitch não eram altamente nocivas, por que ele mandou o manuscrito para Londres fazendo tamanho rodeio?
– Não resta a menor dúvida de que é muito estranho. Tem certeza desses fatos?
– Certeza absoluta. Nós... é... tínhamos os nossos agentes em Paris. As memórias foram despachadas secretamente algumas semanas antes da morte dele.
– Tem razão, parece que há algo meio escuso nessa atitude – comentou lorde Caterham, com a mesma satisfação já demonstrada anteriormente.
– Descobrimos que as memórias foram enviadas para um homem chamado Jimmy ou James McGrath, um canadense que vive atualmente na África.
– Um verdadeiro caso imperial, hein? – comentou lorde Caterham entusiasmado.
– James McGrath deverá chegar à Inglaterra amanhã, quinta-feira, no Granarth Castle.
– E o que pretendem fazer?
– É claro que vamos procurá-lo de imediato, apontar as conseqüências possivelmente graves e pedir-lhe que adie a publicação das memórias pelo menos por um mês e, seja como for, solicitar que sejam criteriosamente... é... editadas.
– Vamos supor que ele diga simplesmente “Não, senhor” ou “Quero que vocês se danem”, ou algo assim, uma resposta inteligente e delicada. O que irá acontecer?
– É justamente isso o que estou receando. Foi por esse motivo que me ocorreu subitamente que talvez seja uma boa idéia convidá-lo a ir também para Chimneys. É claro que ele ficaria lisonjeado com o convite para ser apresentado ao príncipe Michael, e isso pode facilitar sua manipulação.
– Não vou convidá-lo de jeito nenhum! – informou lorde Caterham, categoricamente. – Nunca me dei muito bem com canadenses... sobretudo os que viveram muito tempo na África!
– Provavelmente vai descobrir que ele é um ótimo sujeito... talvez um diamante bruto.
– Não, Lomax, nesse caso eu me recuso terminantemente a ceder. Outra pessoa terá que cuidar dele.
– Pensei que uma mulher poderia ser muito útil nesse caso. Poderíamos contar a ela o suficiente, mas não demasiado. Ela poderia cuidar do problema delicadamente, com todo o tato, apresentando toda a situação a James McGrath, mas sem afugentá-lo. Diga-se de passagem, não aprovo as mulheres na política, pois só Deus sabe os prejuízos que podem causar.
Mas uma mulher pode realizar maravilhas, dentro da sua própria esfera de ação. Pense na esposa de Henry e no que ela fez por ele. Márcia sempre foi magnífica, única, extraordinária, a perfeita anfitriã política.
– Está querendo que eu convide Márcia para passar o fim de semana em Chimneys? – indagou lorde Caterham debilmente, empalidecendo um pouco à menção de sua temível cunhada.
– Claro que não, Caterham. Está me interpretando erroneamente. Estou falando da influência das mulheres em geral. E minha sugestão é uma jovem, encantadora, de grande beleza, inteligente.
– Bundle? Ora, Bundle seria a pior das sugestões. Se é que ela é alguma coisa, eu diria que não passa de uma frenética socialista. E tenho certeza de que desataria a rir com a simples sugestão do plano.
– Não estava pensando em lady Eileen. Sua filha, Caterham, é encantadora, extremamente encantadora... mas não passa de uma criança. Precisamos de uma mulher com savoir-faire, equilíbrio, conhecimento do mundo... E pensei na mulher ideal para o papel: minha prima Virginia.
– A Sra. Revel?
Lorde Caterham animou-se subitamente. Começou a sentir que, no fim das contas, podia até gostar do fim de semana.
– Uma excelente sugestão, Lomax. É a mulher mais encantadora de Londres.
– E ela está também a par dos problemas da Herzoslováquia. Se bem está lembrado, o marido esteve em nossa embaixada lá. E, como você disse, é uma mulher de grande encanto pessoal.
– Uma criatura maravilhosa... – murmurou lorde Caterham, sonhador.
– Então quer dizer que está tudo combinado.
O Sr. Lomax largou a lapela do lorde Caterham, que prontamente aproveitou a oportunidade.
– Até a próxima, Lomax. Vai cuidar de tudo, não é mesmo?
Ele pegou apressadamente um táxi que passava. Na medida em que um honrado cavalheiro cristão podia detestar outro honrado cavalheiro cristão, lorde Caterham detestava o honorável George Lomax. Detestava aquele rosto vermelho balofo, a respiração ofegante, os olhos azuis esbugalhados. Pensou no fim de semana que se aproximava e suspirou. Uma amolação, uma terrível amolação. Mas pensou depois em Virginia Revel e animou-se um pouco.
– Uma criatura maravilhosa... – murmurou para si mesmo. – Uma criatura realmente maravilhosa...
4
Apresentando uma dama encantadora
George Lomax voltou direto para Whitehall. Ouviu um barulho súbito ao entrar na sala suntuosa em que cuidava dos negócios de Estado. O Sr. Bill Eversleigh estava diligentemente arquivando algumas cartas, mas uma poltrona cômoda, perto da janela, ainda estava quente do contato com um corpo humano.
Lomax achava Bill Eversleigh um jovem extremamente simpático. Devia ter cerca de 25 anos, era grande, um pouco desajeitado nos movimentos, um rosto agradavelmente feio, dentes brancos impecáveis e olhos castanhos inocentes.
– Richardson já mandou aquele relatório?
– Não, senhor. Quer que eu o chame?
– Não há necessidade. Alguém telefonou?
– A Srta. Oscar é que está recebendo quase todos os telefonemas. O Sr. Isaacstein quer saber se poderá almoçar em sua companhia amanhã, no Savoy.
– Diga à Srta. Oscar para dar uma olhada em minha agenda. Se eu não tiver qualquer compromisso, ela pode telefonar e confirmar.
– Sim, senhor.
– Por falar nisso, Eversleigh, você poderia dar agora um telefonema para mim? Procure o número no catálogo. Sra. Revel, Pont Street, 487.
– Sim, senhor.
Bill pegou o catálogo e correu o olhar pela coluna do M. Fechou-o em seguida e foi até o telefone que estava em cima da mesa. Parou com a mão suspensa sobre o aparelho, como se recordasse subitamente de algo.
– Oh, senhor, acabei de lembrar-me: o telefone dela está quebrado. Não faz muito tempo que tentei ligar para lá e não consegui.
George Lomax franziu o rosto e murmurou:
– Irritante, profundamente irritante...
Ele tamborilou com os dedos sobre a mesa, indeciso.
– Se for algo importante, senhor, talvez eu possa ir até lá de táxi. Ela deve estar em casa de manhã.
George Lomax ainda hesitou, pensando sobre o assunto. Bill ficou aguardando, na maior expectativa, preparado para sair da sala o mais depressa possível, caso a resposta fosse positiva.
– Talvez seja essa a melhor solução – disse Lomax, finalmente. – Está certo, pegue um táxi e vá até lá. Pergunte à Sra. Revel se ela estará em casa às 4 horas da tarde, pois preciso falar-lhe a respeito de um assunto da maior importância.
– Está certo, senhor.
Bill pegou o chapéu e partiu rapidamente.
Dez minutos depois, um táxi deixou-o na Pont Street, 487. Ele tocou a campainha e bateu vigorosamente com a aldraba. A porta foi aberta por um empregado de ar solene, para quem Bill acenou levemente com a cabeça, com a tranqüilidade de quem já o conhecia há um longo tempo.
– Bom dia, Chilvers. A Sra. Revel está?
– Tenho a impressão, senhor, de que ela está de saída.
Uma voz gritou na escada:
– É você, Bill? Pensei ter reconhecido essa batida musculosa. Suba e venha falar comigo.
Bill levantou a cabeça para contemplar o rosto que lhe sorria lá de cima e que estava sempre inclinado a reduzi-lo – não apenas a ele – a um estado de incoerência tola. Subiu a escada, de dois em dois degraus, e apertou com firmeza as mãos estendidas de Virginia Revel.
– Olá, Virginia!
– Olá, Bill!
O charme é algo muito estranho. Centenas de jovens, algumas até mais bonitas que Virginia Revel, poderiam ter dito “Olá, Bill” exatamente com a mesma entonação, sem que isso produzisse qualquer efeito. Mas essas duas palavras simples, pronunciadas por Virginia, tinham o efeito mais inebriante que se podia imaginar em Bill Eversleigh.
Virginia Revel tinha 27 anos. Era alta e graciosamente esguia, assunto sobre o qual se poderia até escrever em poema, tão bem-proporcionado era o seu corpo. Os cabelos eram cor de bronze, com reflexos dourados. O queixo era pequeno e decidido, o nariz adorável, os olhos azuis ligeiramente amendoados, um brilho intenso a se irradiar entre as pálpebras semicerradas, a boca era deliciosa e praticamente indescritível, um pouco levantada num dos cantos. Era um rosto maravilhosamente expressivo e irradiava tanta vitalidade que invariavelmente atraía as atenções gerais. Teria sido inteiramente impossível ignorar Virginia Revel.
Ela levou Bill para uma pequena sala de estar, decorada em malva, verde e amarelo, em tons suaves, como uma campina recoberta de açafrão.
– Bill, querido, o Ministério das Relações Exteriores não vai sentir a sua ausência? Pensei que não pudessem funcionar sem você.
– Trouxe um recado de Lomax para você. E por falar nisso, Virginia, não se esqueça de dizer, caso ele perguntar, que seu telefone não estava funcionando esta manhã.
– Mas não tive problema com o telefone.
– Sei disso. Mas falei que o telefone estava quebrado.
– Por quê? Por favor, esclareça-me essa misteriosa manobra do Ministério das Relações Exteriores.
Bill fitou-a com uma expressão de censura.
– Para que eu pudesse vir até aqui e ter a oportunidade de vê-la, é claro.
– Oh, Bill querido, que estúpido da minha parte! Como você é maravilhoso!
– Chilvers disse que você ia sair.
– E ia mesmo... até a Sloane Street. Tem ali uma loja que está vendendo uma cinta de borracha para os quadris perfeitamente maravilhosa.
– Uma cinta para os quadris?
– Isso mesmo, Bill. C-I-N-T-A, cinta, Q-U-A-D-R-I-S, quadris. Uma cinta para apertar os quadris. Usa-se por cima da pele.
– Estou constrangido por você, Virginia. Não deveria descrever suas roupas de baixo para um homem com quem não tem qualquer parentesco. Não é decente.
– Ora, meu caro Bill, não há nada de indecente em quadris. Todo mundo tem quadris... embora nós, pobres mulheres, nos esforcemos desesperadamente para fingir que não temos. A cinta para os quadris é de borracha vermelha e vai terminar logo acima dos joelhos. Fica praticamente impossível andar dentro dela.
– Mas que coisa horrível! Se é assim, por que as mulheres costumam usá-la?
– Porque isso nos dá o sentimento nobre de estar sofrendo em prol da silhueta. Mas não vamos falar agora sobre cintas. Dê-me o recado de George.
– Ele quer saber se você estará em casa às 4 horas da tarde.
– Não. Estarei no Ranelagh. Por que uma visita tão formal? Será que ele vai me pedir em casamento?
– Eu não ficaria espantado.
– Se for esse o caso, você pode dizer-lhe que prefiro os homens que me pedem em casamento num impulso súbito.
– Como eu?
– No seu caso, Bill querido, não se trata de impulso, mas sim de hábito.
– Virginia, será que você nunca...
– Não, Bill, não. Isso não me atrai muito pela manhã, antes do almoço. Procure pensar em mim como uma mulher simpática e maternal, aproximando-se da meia-idade, que o aprecia intensamente.