O Segredo de Chimneys

Agatha Christie · Capítulo 3 de 3 · parte 3/9

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O Segredo de Chimneys

Dedicatória

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.

– Verdade?

– Sei que isso pode lhe parecer absurdo, Sr. McGrath. Mas posso lhe assegurar que não está a par da verdadeira situação. Há um esforço deliberado para impedir que o manuscrito chegue a este escritório. Devo dizer-lhe, com toda franqueza e sem rodeios, que provavelmente jamais conseguirá chegar aqui se tentar trazê-lo pessoalmente.

– Duvido muito. Quando quero fazer alguma coisa, em geral consigo.

– Tem contra o senhor gente muito perigosa, Sr. McGrath. Eu mesmo não teria acreditado nisso há um mês. Mas, desde então, já tentaram nos subornar, temos sido ameaçados e adulados por diversas pessoas. Confesso que estamos inteiramente confusos. Minha sugestão é de que não tente trazer o manuscrito pessoalmente. Mandaremos um dos nossos homens ir pegar o manuscrito aí no hotel.

– E se ele por acaso for agarrado?

– Nesse caso, a responsabilidade seria nossa... e não sua. Entregaria o manuscrito ao nosso representante e ficaria com um recibo de entrega escrito. O cheque de... ahn... mil libras que fomos instruídos a entregar-lhe não estará disponível antes da próxima quarta-feira, nos termos de nosso acordo com os executores do testamento do falecido... ahn... autor... creio que sabe a quem estou me referindo. Mas, se insistir, mandarei um cheque pessoal meu, da mesma quantia, pelo mensageiro.

Anthony refletiu por um momento. Tencionava reter as memórias até o último dia do prazo, pois desejava verificar pessoalmente qual o motivo de toda aquela confusão. Não obstante, tinha que aceitar os argumentos do editor.

– Está certo – disse ele, finalmente, soltando um suspiro. – Façamos como achar melhor. Pode mandar seu mensageiro vir procurar-me. E, se não se importa, preferia que mandasse logo o cheque, já que não pretendo estar na Inglaterra na próxima quarta-feira.

– Claro, Sr. McGrath! Nosso representante irá procurá-lo amanhã de manhã. Será mais sensato não enviá-lo diretamente do escritório. O Sr. Holmes mora em South London e passará por aí a caminho do escritório. Ele lhe dará um recibo pelo manuscrito. Sugiro que, por esta noite, guarde um pacote falso no cofre da gerência. Seus inimigos saberão disso, evitando-se assim que haja alguma investida contra seus aposentos.

– Está certo. Farei o que está sugerindo.

Anthony desligou, com uma expressão pensativa.

Depois, prosseguiu com o seu plano interrompido de encontrar informações que lhe pudessem revelar o paradeiro do furtivo Giuseppe. Mas nada conseguiu descobrir. É verdade que Giuseppe trabalhara no restaurante, mas ninguém parecia saber coisa alguma a respeito de sua vida particular ou de possíveis amigos e conhecidos.

– Mas pode estar certo de que ainda irei encontrá-lo, meu caro – murmurou Anthony para si mesmo, baixinho. – Ainda vou encontrá-lo, aconteça o que acontecer. É apenas uma questão de tempo.

A segunda noite dele em Londres foi inteiramente tranqüila.

Às nove horas da manhã seguinte, trouxeram-lhe o cartão do Sr. Holmes, da Messrs Balderson and Hodgkins. Minutos depois, o próprio Sr. Holmes apareceu. Era um homem pequeno, louro, de maneiras suaves. Anthony entregou-lhe o manuscrito, recebendo em troca um cheque de mil libras. O Sr. Holmes guardou o manuscrito na maleta marrom que trouxera, desejou bom-dia a Anthony e foi embora. Parecia não haver a menor dificuldade.

– Mas talvez ele seja assassinado a caminho do escritório – murmurou Anthony, em voz alta, olhando distraidamente pela janela. – Só que agora começo a ter minhas dúvidas...

Ele pôs o cheque num envelope, anexou um bilhete de algumas linhas e depois fechou-o cuidadosamente. Jimmy, que estava suficientemente provido de fundos por ocasião de seu encontro com Anthony em Bulawayo, adiantara-lhe uma quantia substancial, que ainda estava praticamente intacta.

– Se uma das missões já foi cumprida, o mesmo não se pode dizer da outra – murmurou Anthony para si mesmo. – Muito pelo contrário. Mas nem por isso devo desistir. Creio que, convenientemente disfarçado, irei dar uma olhada na Pont Street, 487.

Ele fez as malas, desceu e pagou a conta, determinando que sua bagagem fosse colocada em um táxi. Depois de recompensar de maneira apropriada os que estavam em seu caminho, sendo que a maioria nada fizera materialmente para aumentar-lhe o conforto, Anthony encaminhou-se para a porta do hotel. Já ia saindo quando um garoto aproximou-se correndo, com uma carta na mão.

– Isso acabou de chegar, senhor!

Com um suspiro, Anthony desfez-se de mais um xelim. Embarcou no táxi, que arrancou bruscamente com um resmungo das engrenagens. Ele abriu o envelope.

Era um documento um tanto curioso. Teve que lê-lo quatro vezes antes de ter certeza do que se tratava. Em inglês comum (a carta não era em inglês comum, mas sim no estilo bastante peculiar das missivas expedidas pelas autoridades britânicas), presumia que o Sr. McGrath estava chegando à Inglaterra, procedente da África do Sul, naquele dia, quinta-feira, referia-se indiretamente às memórias do conde Stylptitch e rogava para que não tomasse qualquer providência a respeito, enquanto não tivesse uma conversa confidencial com o Sr. George Lomax e algumas outras pessoas, cuja importância era vagamente insinuada. E continha também um convite inequívoco para ir a Chimneys no dia seguinte, sexta-feira, como convidado de lorde Caterham.

Era um comunicado misterioso e totalmente obscuro. Anthony apreciou-o devidamente.

“Ah, a velha Inglaterra de sempre!”, pensou ele comovido. “Como de hábito, está dois dias atrasada. O que é uma pena. Seja como for, não posso ir a Chimneys sob um falso pretexto. Mas será que existe alguma hospedaria por perto? O Sr. Anthony Cade pode ficar na hospedaria, sem que ninguém se importe com isso.”

Ele inclinou-se e deu novas instruções ao motorista do táxi, que acusou o recebimento com um resmungo desdenhoso.

O táxi parou diante de uma das hospedarias mais obscuras de Londres. A corrida, no entanto, foi paga de acordo com o padrão de seu ponto de partida.

Alugando um quarto em nome de Anthony Cade, ele seguiu imediatamente para a sala de descanso, tirou do bolso um papel timbrado do Hotel Blitz e escreveu rapidamente.

Explicou, no bilhete, que chegara à Inglaterra na terça-feira anterior, já entregara o manuscrito em questão a Messrs Balderson and Hodgkins e pesarosamente recusava o convite de lorde Caterham, pois iria deixar o país quase que imediatamente. E assinou a carta: “Atenciosamente, James McGrath.”

E enquanto afixava o selo ao envelope, Anthony pensou: “Agora, vamos aos negócios. James McGrath sai de cena e entra Anthony Cade.”

 

8

Um homem morto Nessa mesma tarde de quinta-feira, Virginia Revel tinha ido jogar tênis em Ranelagh. Na volta para a Pont Street, recostada confortavelmente no banco traseiro da limusine imensa e luxuosa, um sorriso se estampou em seu rosto ao pensar na entrevista que em breve iria ocorrer. É claro que era bem possível que o chantagista não tornasse a aparecer, mas ela tinha quase certeza de que isso não aconteceria. Ela dera a impressão de ser uma presa muito fácil. Mas, dessa vez, talvez o chantagista tivesse uma pequena surpresa!

Quando o carro parou diante da casa, ela virou-se para falar com o motorista, antes de subir os degraus.

– Como vai sua esposa, Walton? Eu tinha me esquecido de perguntar.

– Está bem melhor, madame. O médico disse que iria passar para vê-la, por volta das seis e meia. Vai precisar novamente do carro?

Virginia pensou por um momento.

– Vou passar o fim de semana fora. Pegarei o trem das 18h40 em Paddington. Mas não precisarei de você para levar-me até lá. Posso perfeitamente ir de táxi. Prefiro que você receba o médico. E se ele achar que será bom para sua esposa passar o fim de semana fora, pode levá-la para algum lugar. Eu pagarei as despesas.

Interrompendo os agradecimentos do motorista com um aceno de cabeça impaciente, Virginia subiu rapidamente os degraus. Revistou a bolsa para procurar a chave, lembrou-se de que não a levara e tocou a campainha.

A porta não foi aberta imediatamente. Enquanto ela esperava, um rapaz subiu os degraus. Estava vestido pobremente e tinha um punhado de panfletos numa das mãos. Estendeu para Virginia um dos panfletos, no qual se podia ler o título claramente: “Por que Servi a Meu País?” Na mão esquerda, o homem tinha uma caixa de coleta.

– Não posso comprar dois desses poemas pavorosos no mesmo dia – disse Virginia, em tom suplicante. – E já comprei um esta manhã. Palavra de honra!

O jovem jogou a cabeça para trás e soltou uma risada. Virginia riu também. Contemplando rapidamente o jovem, verificou que se tratava de um espécime mais atraente que o tipo habitual de desempregado de Londres. Simpatizou com o rosto moreno e a expressão firme, percebeu que o corpo era esguio, mas musculoso. Chegou mesmo a desejar que tivesse um emprego para oferecer-lhe.

Mas, nesse instante, a porta foi aberta e Virginia esqueceu inteiramente o problema dos desempregados. E que, para seu espanto, a porta tinha sido aberta por sua criada pessoal, Elise.

– Onde está Chilvers? – perguntou ela, bruscamente, ao entrar.

– Ele já partiu, madame, junto com os outros.

– Que outros? E partiu para onde?

– Para Datchet, madame... para o chalé, conforme as instruções de seu telegrama.

– Meu telegrama? – repetiu Virginia, já totalmente aturdida.

– Madame não mandou um telegrama? Não tivemos a menor dúvida. O telegrama chegou há cerca de uma hora.

– Não mandei telegrama algum! O que dizia?

– Acho que ainda está na mesa là-bas.

Elise foi buscar o telegrama e entregou-o à patroa com uma expressão de triunfo.

– Voilà, madame!

O telegrama estava endereçado a Chilvers e dizia o seguinte: “Por favor leve criadagem para chalé imediatamente e faça preparativos para uma festa no fim de semana. Pegue trem das 5h49.”

Não havia nada de extraordinário, pois era o tipo de telegrama que Virginia já despachara muitas vezes no passado, quando combinava com um grupo, repentinamente, para ir passar o fim de semana em seu chalé à beira do rio. Sempre levava toda a criadagem, deixando ali na casa, para tomar conta, apenas uma empregada já idosa. Chilvers não viu nada errado na mensagem e, como um bom empregado, cumpriu fielmente as ordens.

– Só fiquei porque sabia que madame ia querer que eu fizesse suas malas – explicou Elise.

– Mas que embuste absurdo! – exclamou Virginia, amassando o telegrama, furiosa. – Sabe perfeitamente que vou para Chimneys, Elise! Eu lhe disse isso hoje de manhã!

– Pensei que madame tivesse mudado de idéia. Isso já aconteceu, não é mesmo, madame?

Virginia reconheceu a verdade da acusação com um meio sorriso. Começou a tentar descobrir o motivo para aquela brincadeira de mau gosto. Elise apresentou uma sugestão:

– Mon Dieu! – gritou ela, cruzando as mãos, nervosamente. – E se forem os malfeitores, os ladrões? Eles costumam mandar telegramas falsos para afastar os domestiques e depois roubam tudo o que tem na casa!

– É possível que seja isso – Virginia concordou, ainda em dúvida.

– É isso mesmo, madame, não tenho dúvida. Todos os dias os jornais falam sobre esses acontecimentos. A madame tem que ligar imediatamente para a polícia, agora mesmo, antes que os malfeitores apareçam e cortem nossas gargantas!

– Não precisa ficar tão nervosa, Elise. Ninguém virá cortar as nossas gargantas às 6 horas da tarde.

– Eu lhe imploro, madame, deixe-me ir buscar um guarda imediatamente!

– Para quê? Não seja tola, Elise. Suba e vá arrumar minhas malas para o fim de semana em Chimneys, se é que ainda não o fez. Quero que prepare para a viagem o novo vestido longo de Cailleaux, o de crepe marocain branco e... é isso mesmo, o vestido de veludo preto... não acha que veludo preto é extremamente político?

– Madame fica deslumbrante no cetim eau de nil – sugeriu Elise, os instintos profissionais prevalecendo sobre os temores.

– Não, acho melhor não levar esse vestido. E agora Elise, seja boazinha e trate de se apressar. Não temos muito tempo. Vou mandar um telegrama para Chilvers em Datchet e falarei com o guarda de ronda ao partirmos, pedindo que fique de olho na casa. Não comece a revirar os olhos novamente, Elise... se já está tão apavorada antes de acontecer algo, o que faria se um homem pulasse subitamente de algum canto escuro e lhe espetasse uma faca?

Elise deixou escapar um guincho estridente e bateu apressadamente em retirada, subindo a escada a lançar olhares nervosos para trás.

Virginia fez uma careta para o vulto que se afastava e atravessou o corredor na direção do pequeno gabinete, onde estava instalado o telefone. A sugestão de Elise, de telefonar para a delegacia de polícia, parecia ser a mais sensata. Virginia pretendia executá-la sem mais delongas.

Abriu a porta e encaminhou-se para o telefone. Já com a mão no fone, estacou abruptamente. Um homem estava sentado na poltrona, todo encolhido, numa posição curiosa. Na tensão do momento, ela esquecera inteiramente o visitante esperando. Aparentemente, ele adormecera enquanto esperava por ela.

Virginia aproximou-se da poltrona, um sorriso malicioso no rosto. E, subitamente, o sorriso se desvaneceu.

O homem não estava dormindo. Estava morto!

Virginia percebeu-o imediatamente, instintivamente, antes mesmo que seus olhos se fixassem na pequena pistola reluzente caída no chão, antes que avistasse o buraco pequeno um pouco acima do coração, cercado por uma mancha escura, antes que reparasse no jeito grotesco como o queixo estava caído.

Ficou inteiramente imóvel, as mãos comprimidas contra os lados do corpo. E no silêncio total ouviu Elise a descer correndo a escada, gritando:

– Madame! Madame! – O que aconteceu?

Virginia encaminhou-se rapidamente para a porta. Seu instinto era ocultar o que acontecera, pelo menos no momento. Elise ficaria imediatamente histérica e Virginia sentia que precisava de muita calma e sossego para pensar no que devia fazer.

– Madame, não acha que seria melhor se eu passasse a corrente na porta? Os malfeitores podem aparecer a qualquer minuto!

– Pode passar a corrente se quiser, Elise. Não me importo.

Ela ouviu o barulho da corrente e depois Elise subiu novamente a escada, sempre correndo. Deixou escapar um longo suspiro de alívio.

Olhou para o homem na poltrona e depois para o telefone. A atitude que deveria tomar era óbvia: ligar imediatamente para a polícia.

Mas Virginia não o fez. Ficou imóvel, paralisada pelo horror, diversas idéias conflitantes a lhe passarem pela cabeça. O telegrama falso! Não estaria relacionado com a morte do homem? E se Elise não tivesse ficado na casa para esperá-la? Ela teria entrado... desde que tivesse levado a chave, como sempre fazia... para se encontrar sozinha na casa com um homem assassinado, um homem a quem permitira chantageá-la no dia anterior. Claro que tinha uma explicação. Mas, pensando na explicação, não se sentiu muito tranqüila. Recordou-se de como George se mostrara francamente incrédulo. Será que as outras pessoas não reagiriam da mesma maneira? Não escrevera as cartas, é verdade, mas será que conseguiria provar isso?

Pôs as mãos na testa, apertando com força. E murmurou:

– Tenho que pensar... apenas tenho que pensar...

Quem deixara o homem entrar na casa? Certamente não fora Elise. Se ela o tivesse feito, certamente o teria mencionado imediatamente. Quanto mais pensava, mais o caso se tornava misterioso. Só havia mesmo uma coisa a fazer: telefonar para a polícia.

Estendeu a mão para o telefone e subitamente pensou em George. Um homem... era disso que estava precisando naquele momento, um homem equilibrado, frio, que pudesse enquadrar o problema em suas devidas proporções e apontar-lhe o melhor caminho a seguir.

Mas Virginia logo balançou a cabeça, desolada. George não era o homem indicado. A primeira coisa em que ele pensaria certamente seria a sua própria posição. Não ia querer se envolver num caso como aquele. Não, George não lhe serviria de nada naquelas circunstâncias.

Um instante depois, sua expressão se desanuviou. Bill! Sem mais delongas, ligou para Bill.

Foi informada de que ele já partira para Chimneys, havia cerca de meia hora.

– Mas que diabo! – gritou Virginia, batendo com o telefone.

Era horrível estar trancada em casa com um cadáver sem ter ninguém com quem falar.

E foi nesse instante que a campainha da porta soou.

Virginia estremeceu. Um momento depois, a campainha tocou novamente. Ela sabia que Elise estava lá em cima, arrumando suas coisas, e não ouviria.

Foi até a entrada, puxou a corrente e todos os trincos que Elise passara, em seu zelo pela segurança. Soltou um longo suspiro e finalmente abriu a porta. O jovem desempregado estava parado nos degraus.

Virginia ficou exultante ao vê-lo, com um alívio decorrente dos nervos excessivamente tensos.

– Entre, por favor! Acho que tenho um trabalho para oferecer-lhe!

Ela levou-o para a sala de jantar, puxou uma cadeira e sentou-se diante dele, fitando-o atentamente.

– Desculpe, mas você não é... não sei muito bem como dizer...

– Eton e Oxford. Não era isso o que estava querendo me perguntar?

– Mais ou menos isso – admitiu Virginia.

– Fui descendo nesse mundo graças exclusivamente à minha própria incapacidade de manter um emprego regular. E espero que não esteja querendo me oferecer um emprego regular.

Um sorriso pairou por um momento nos lábios de Virginia.

– Ao contrário, é um trabalho dos mais irregulares.

– Isso é ótimo – comentou o jovem, com evidente satisfação. Virginia contemplou o rosto bronzeado e o corpo esguio e musculoso com aprovação.

 

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– Estou numa situação difícil e a maioria dos meus amigos é constituída por... homens bem situados, digamos assim. Todos eles têm alguma coisa a perder.

– E eu não tenho absolutamente nada a perder. Assim sendo, pode falar. Qual é o problema?

– Há um homem morto na sala ao lado. Foi assassinado e não sei o que fazer.

Ela falou num fôlego só, como uma criança teria feito. O jovem subiu consideravelmente no conceito dela pela maneira como aceitou a declaração. Parecia até que se acostumara a ouvir uma declaração daquelas todos os dias da sua vida.

– Excelente! – exclamou ele, com um entusiasmo inegável. Sempre tive vontade de bancar o detetive amador. Vamos dar uma olhada no cadáver ou prefere informar os fatos primeiro?

– Acho que é melhor dizer-lhe os fatos antes.

Virginia fez uma pausa, procurando a melhor maneira de condensar a história. E depois começou a falar de maneira objetiva e concisa:

– O homem apareceu pela primeira vez ontem e pediu para falar comigo. Tinha em seu poder algumas cartas... cartas de amor, assinadas com o meu nome...

– Mas que não haviam sido escritas por você – o jovem interveio, calmamente.

Virginia ficou um pouco atônita.

– Como soube?

– Foi uma simples questão de dedução. Mas continue, por favor.

– Ele queria fazer chantagem comigo... e eu... não sei se vai compreender, mas o fato é que permiti...

A expressão dela era de súplica e o homem assentiu, de forma tranqüilizadora.

– Claro que compreendo. Queria ver qual era a sensação.

– Mas como é esperto! Foi exatamente isso o que pensei!

– Sou mesmo esperto – o jovem confirmou, modestamente. – Mas pode estar certa de que bem poucas pessoas compreenderiam essa posição. A maioria não tem muita imaginação.

– Acho que tem razão. Disse ao homem que voltasse hoje... às seis horas. Cheguei em casa, vindo de Ranelagh, e descobri que um telegrama falso tirara da casa todos os empregados, à exceção da minha camareira. Fui ao gabinete e deparei com o homem, morto com um tiro.

– Quem o deixou entrar em casa?

– Não sei. Se tivesse sido minha camareira, ela certamente teria falado.

– Ela já sabe o que aconteceu?

– Não lhe contei nada.

O jovem assentiu e levantou-se.

– E agora vamos ver o cadáver. Mas, antes, gostaria de dizer-lhe algo: de um modo geral, é sempre melhor contar a verdade. Uma mentira acabará por envolvê-la em outras mentiras... e mentir continuamente é muito monótono.

– Quer dizer que me aconselha a ligar para a polícia?

– Provavelmente é o melhor que tem a fazer. Mas, antes, vamos dar uma olhada no cadáver.

Virginia saiu da sala na frente. Parou logo depois e olhou para trás.

– Ainda não me disse o seu nome.

– Meu nome? É Anthony Cade.

 

9

Anthony dá sumiço num cadáver

 

Anthony seguiu Virginia para fora da sala, sorrindo interiormente. Os acontecimentos haviam enveredado por um caminho totalmente inesperado. Mas, ao inclinar-se sobre o corpo na poltrona, ficou novamente sério e disse bruscamente:

– Ainda está quente. Ele foi morto há menos de meia hora.

– Pouco antes de eu chegar?

– Exatamente.

Anthony empertigou-se, unindo as sobrancelhas, pensativo.

Depois, fez uma pergunta cujo sentido Virginia não percebeu imediatamente:

– A empregada não estava nesta sala, não é mesmo?

– Não.

– Ela sabe que você entrou aqui?

– Sabe, sim. Cheguei até a porta para falar com ela.

– Depois que encontrou o corpo?

– Isso mesmo.

– E não lhe disse nada?

– Teria sido melhor que eu falasse? Pensei que ela ia ficar histérica... é francesa e sabe como as francesas se perturbam facilmente... E queria ter algum tempo para determinar o que devia fazer.

Anthony assentiu, mas não disse nada.

– Acha que foi um erro?

– Digamos que foi um ato infeliz, Sra. Revel. Se tivesse encontrado o corpo assim que chegou em casa, junto com a criada, isso teria tornado tudo mais simples. Não poderia haver a menor dúvida de que o homem havia sido morto antes de seu retorno.

– Ao passo que, agora, eles podem pensar que foi morto depois...

Anthony ficou observando-a absorver a idéia. Confirmou a primeira impressão que tivera ao falar com Virginia Revel nos degraus lá fora. Além de uma beleza extraordinária, ela possuía também coragem e inteligência.

Virginia estava tão imersa no mistério que subitamente lhe era impingido que nem sequer pensou no fato de aquele homem estranho ter falado seu nome sem que o tivesse dito.

– Por que será que Elise não ouviu o tiro?

Anthony apontou para a janela aberta, no instante mesmo em que se ouvia o barulho da explosão de um cano de descarga.

– Eis o motivo. Londres não é uma cidade para se notar um estampido de pistola.

Virginia virou-se para o corpo na poltrona, estremecendo, e comentou:

– Ele parece italiano.

– Não apenas parece, é de fato italiano. E eu diria que a sua profissão regular era a de garçom. Só fazia chantagem nas horas de folga. E provavelmente o nome dele era Giuseppe.

– Deus do céu! – gritou Virginia. – Será que estou na presença de Sherlock Holmes?

– Não – disse Anthony, tristemente. – Todas essas minhas deduções não passam de uma trapaça. Mais tarde eu lhe explicarei tudo. Disse que esse homem lhe mostrou algumas cartas e pediu dinheiro. Por acaso lhe deu algum dinheiro?

– Dei, sim.

– Quanto?

– Quarenta libras.

– Isso é péssimo – comentou Anthony, mas sem manifestar qualquer surpresa indevida. – Mas vamos dar uma olhada no telegrama.

Virginia pegou o telegrama na mesa em que o deixara e entregou-lhe. E viu-o ficar com uma expressão grave ao examinar o telegrama.

– Qual é o problema?

Anthony estendeu o telegrama na direção dela, apontando para o lugar de origem.

– O telegrama foi despachado de Barnes. E disse que passou a tarde em Ranelagh. O que poderia tê-la impedido de enviar o telegrama?

Virginia sentiu-se fascinada pelas palavras dele. Era como se uma rede estivesse se fechando em torno dela, cada vez mais apertada. O estranho a estava obrigando a perceber claramente o que só imaginara de forma vaga, no fundo da mente.

Anthony tirou um lenço do bolso e enrolou-o na mão, pegando em seguida a pistola.

– Nós, criminosos, temos que ser cuidadosos – disse ele, em tom de desculpas. – Sempre é melhor não deixar impressões digitais.

Subitamente, ele ficou visivelmente tenso. Quando falou, a voz estava diferente, brusca, nervosa:

– Sra. Revel, já tinha visto esta pistola antes?

– Não – Virginia respondeu, espantada com a pergunta.

– Tem certeza?

– Absoluta.

– Tem alguma pistola?

– Não.

– E nunca teve?

– Nunca.

– Tem certeza?

– Absoluta.

Anthony ficou fitando-a firmemente por um minuto inteiro.

Virginia sustentou-lhe o olhar, extremamente surpresa.

Depois, com um suspiro, Anthony relaxou. E murmurou:

– É estranho... Como será que se explica isso?

Ele estendeu a pistola. Era uma arma pequena e requintada, quase como se fosse de brinquedo... embora perfeitamente capaz de executar um trabalho mortífero. E gravado na pistola, o nome Virginia.

– Mas isso é impossível! – gritou Virginia.

O espanto dela era tão genuíno que Anthony não pôde deixar de acreditar em sua sinceridade.

– Sente-se, por favor. Há mais alguma coisa neste caso do que parecia à primeira vista. Para começar, quais são as hipóteses que podemos imaginar? A meu ver, só existem duas. É claro que existe a Virginia das cartas. Ela pode ter descoberto o homem, de um jeito ou de outro, seguiu-o até aqui, matou-o, largou a pistola, roubou as cartas e fugiu. Não acha que é perfeitamente possível?

– Acho que sim – murmurou Virginia de forma relutante.

– A outra hipótese é ainda mais interessante. A pessoa que desejava matar Giuseppe também queria incriminá-la. Pode ser até que o segundo objetivo fosse o principal. Ela poderia ter matado Giuseppe em qualquer outro lugar, com a maior facilidade. Contudo, planejou tudo para matá-lo aqui. Quem quer que seja, sabia tudo a seu respeito, conhecia o chalé em Datchet, estava a par dos seus arranjos domésticos e informado que passaria a tarde em Ranelagh. Parece uma pergunta absurda, Sra. Revel, mas é preciso fazê-la: por acaso tem inimigos?

– Claro que não... ou pelo menos não desse tipo.

– O problema agora é determinar o que vamos fazer. Há dois caminhos abertos à nossa frente. A: telefonar para a polícia, contar toda a história e confiar em sua posição inatacável no mundo e em sua vida limpa. B: uma tentativa da minha parte de dar sumiço ao corpo. Sempre desejei verificar se não teria a astúcia necessária para ocultar um crime, mas jamais tive uma oportunidade, por causa de minha aversão a derramar sangue. No todo, considero que o A é mais seguro. Podemos adotar uma versão expurgada do caminho A, chamar a polícia e tudo o mais, embora suprimindo a pistola e as cartas de chantangem... isto é, se ainda estiverem com ele.

Anthony revistou rapidamente os bolsos do morto e anunciou:

– Tiraram-lhe tudo. Não há mais nada nele. As cartas ainda vão dar trabalho. Mas o que é isso? Há um buraco aqui na costura, algo ficou preso, foi rasgado violentamente, um pedaço de papel foi deixado...

Ele pegou o fragmento de papel enquanto falava, levou-o para a luz, a fim de examiná-lo. Virginia também olhou.

– É uma pena que não tenhamos o restante – murmurou Anthony. – Mas aqui está escrito: Chimneys, 11h45, quinta-feira. Parece um encontro.

– Chimneys? – repetiu Virginia. – Mas que coisa extraordinária.

– Por que extraordinária? Acha que é um lugar bom demais para um patife de tão baixa categoria?

– É que vou para Chimneys hoje. Ou, pelo menos, ia.

Anthony fitou-a em silêncio por um momento, antes de dizer:

– Estou começando a compreender... Posso estar errado, mas pelo menos já é uma idéia. Não seria possível que alguém estivesse desejando desesperadamente impedir sua ida para Chimneys?

– É o caso do meu primo George Lomax – respondeu Virginia, com um sorriso. – Mas não posso sequer desconfiar de que George fosse capaz de matar alguém por isso.

Anthony não sorriu, pois estava imerso em seus pensamentos. Levou algum tempo para falar:

– Se ligar para a polícia, terá que renunciar à idéia de partir para Chimneys hoje... ou até mesmo amanhã. E eu gostaria que fosse para Chimneys. Tenho a impressão de que isso irá frustrar os nossos amigos desconhecidos. Sra. Revel, está disposta a se colocar nas minhas mãos?

– Quer dizer que vamos executar o Plano B?

– Isso mesmo. E a primeira providência é tirar a camareira de casa. Pode dar um jeito?

– Isso não é problema.

Virginia foi até a entrada e chamou:

– Elise! Elise!

– Pois não, madame?

Anthony ouviu um rápido diálogo, depois a porta da frente foi aberta e fechada. Virginia voltou para a sala.

– Ela já foi. Mandei-a comprar um perfume especial, dizendo que a loja fica aberta até oito horas. O que não acontece, é claro. Ela deverá seguir para Chimneys no trem seguinte ao meu, sem voltar aqui.

– Ótimo. Agora, podemos começar a providenciar a remoção do corpo. Sei que é um método antiquado, mas por acaso não tem um baú grande em casa?

– Claro que tenho. Vamos até o porão e poderá escolher à vontade.

Havia uma ampla variedade de baús no porão. Anthony escolheu um que parecia sólido e possuía o tamanho apropriado.

Levando o baú para o gabinete, ele disse a Virginia, com o tato necessário:

– Pode deixar que cuido sozinho dessa parte. Suba agora e apronte-se para partir.

Virginia obedeceu. Tirou a roupa de tênis, pôs um vestido de viagem castanho-claro e um chapeuzinho laranja. Ao descer, encontrou Anthony à espera na entrada, com o baú devidamente preso com as correias a seu lado.

– Gostaria de contar-lhe a história da minha vida, mas infelizmente vai ser uma noite das mais movimentadas – disse ele. – Vou lhe expor agora o que terá de fazer. Chame um táxi e mande embarcar sua bagagem, incluindo o baú. Siga para Paddington. Chegando lá, deixe o baú no depósito de bagagens. Estarei na plataforma. Ao passar por mim, deixe cair o talão do depósito. Irei pegá-lo e fingir que devolvo, mas o guardarei comigo. Vá direto para Chimneys e deixe o restante comigo.

– Não sei como lhe agradecer por tudo o que está fazendo por mim – murmurou Virginia. – E sei que é horrível da minha parte impingir um cadáver a um perfeito estranho.

– Até que estou gostando – comentou Anthony, calmamente. – Se um dos meus amigos, Jimmy McGrath, estivesse aqui, poderia lhe dizer como esse tipo de situação me atrai intensamente.

Virginia ficou aturdida.

– Qual foi mesmo o nome que disse? Foi Jimmy McGrath?

– Isso mesmo. Por quê? Já ouviu falar dele?

– Já, sim... e recentemente.

Virginia fez uma pausa, indecisa, antes de acrescentar:

– Sr. Cade, preciso muito falar com o senhor. Não poderia ir a Chimneys também?

– Pode estar certa de que irá me rever muito antes do que imagina, Sra. Revel. E, agora, o Conspirador A sai pela porta dos fundos, furtivamente. E a Conspiradora B sai pela porta da frente, de forma gloriosa, e embarca em um táxi.

O plano transcorreu sem qualquer contratempo. Anthony pegou outro táxi e estava na plataforma no momento propício e recolheu o talão que Virginia deixou cair, na passagem. Em seguida, ele saiu da estação, para buscar o Morris Cowley de segunda mão, um tanto avariado, que comprara no início do dia, prevendo que poderia precisar de um carro na execução de seus planos.

Voltando a Paddington, entregou o talão a um carregador, que foi buscar o baú no depósito e colocou-o no carro. Anthony partiu.

Seu objetivo era agora um ponto fora de Londres. Passou por Notting Hill e Shepherd’s Bush, pegou a Goldhawk Road, passou por Brentford e Hounslow, chegou à reta extensa na metade do caminho entre Hounslow e Staines. Era uma estrada movimentada, com carros passando continuamente de um lado para outro. Não era provável que pegadas ou marcas de pneus pudessem se destacar. Parou o carro à beira da estrada. Desceu e disfarçou a placa do carro com um pouco de lama. Ficou esperando até não ouvir qualquer barulho de carro. Abriu rapidamente o baú, tirou o corpo e largou-o à beira da estrada, numa vala pequena, onde não seria iluminado pelos faróis dos carros.

Voltou ao carro e afastou-se. Toda a operação durara exatamente um minuto e meio. Virou à direita, voltando para Londres passando por Burnham Beeches. Parou o carro outra vez, no meio do bosque. Escolheu uma árvore gigantesca e subiu. Era uma façanha e tanto, até mesmo para Anthony. E em uma reentrância de um dos galhos mais altos, perto do tronco, escondeu um pequeno embrulho de papel pardo.

– Um excelente esconderijo para a pistola – murmurou Anthony para si mesmo. – Todo mundo costuma procurar debaixo da terra ou dragar pequenos lagos e rios. Mas há bem poucas pessoas na Inglaterra capazes de escalar esta árvore.

Ele voltou para Londres e seguiu para a estação de Paddington. Deixou o baú no depósito de bagagem, só que no outro, onde os passageiros chegavam. Pensou em coisas deliciosas como uma boa rabada, suculentas costeletas e montanhas de batata frita. Mas acabou balançando a cabeça, tristemente, ao olhar o relógio. Abasteceu o Morris com mais um pouco de gasolina e pegou novamente a estrada, desta vez seguindo para o norte.

Passava um pouco das 23h30 quando parou o Morris na estrada adjacente ao parque de Chimneys. Pulou o muro com a maior facilidade e seguiu na direção da casa. A distância era maior do que imaginara e dali a pouco começou a correr. Uma imensa massa cinzenta assomava na escuridão: era Chimneys, a venerada mansão. A distância, um relógio assinalou três quartos de hora.

11h45... a hora mencionada no fragmento de papel. Anthony estava agora perto da casa. Tudo parecia quieto, a casa estava inteiramente às escuras. E ele murmurou para si mesmo:

– Mas como esses políticos dormem cedo...

E subitamente um som lhe atingiu os ouvidos... o som de um tiro. Tinha certeza de que o som viera do interior da casa. Ficou esperando por um minuto inteiro, mas o silêncio anterior perdurou. Por fim, foi até uma das portas que dava para a sacada, por trás da qual parecia ter soado o estampido que o surpreendera. Experimentou a maçaneta. Estava trancada por dentro. Experimentou outras portas, escutando atentamente durante todo o tempo. Mas o silêncio permaneceu inalterável.

Acabou dizendo a si mesmo que devia ter imaginado o ruído ou então fora um tiro disparado por algum caçador no bosque. Virou-se e atravessou o parque de volta, sentindo-se vagamente insatisfeito e inquieto.

Parou e contemplou novamente a casa. E foi nesse momento que uma luz se acendeu numa das janelas do segundo andar. Um instante depois, a luz se apagou e toda a casa ficou novamente imersa na escuridão.

 

10

Chimneys

 

O inspetor Badgworthy estava em seu gabinete. Hora: 8h30 da manhã. Ele é um homem alto e corpulento, de passadas pesadas. Propenso a respirar mais forte em momentos de tensão profissional. Ao seu lado, o guarda Johnson, novo na polícia, com ar de galinha depenada.

O telefone em cima da mesa começou a tocar abruptamente e o inspetor atendeu, com a solenidade com a qual normalmente se comportava:

– Delegacia de Polícia de Market Basing. Inspetor Badgworthy falando. O que deseja?

Enquanto escutava, a atitude do inspetor se alterou ligeiramente. Assim como ele era maior do que Johnson, havia outros que eram maiores que o inspetor Badgworthy.

– Como, milorde? Perdoe, mas não entendi muito bem o que disse.

Uma longa pausa, com o inspetor escutando atentamente, uma ampla variedade de expressões se estampando sucessivamente em seu semblante normalmente impassível. E por fim ele desliga, depois de dizer rapidamente:

– Irei imediatamente, milorde.

Ele virou-se para Johnson, parecendo visivelmente inchado de importância:

– Era Sua Excelência... em Chimneys... assassinato...

– Assassinato... – ecoou Johnson, devidamente impressionado.

– É um assassinato – confirmou o inspetor, com evidente satisfação.

– Ora, nunca houve um assassinato por aqui... pelo menos não que eu saiba... a não ser naquela ocasião em que Tom Pearse atirou na namorada.

– E, de certa forma, isso não foi absolutamente assassinato, mas sim bebedeira – comentou o inspetor, de forma desdenhosa.

– Ele não foi enforcado pelo que fez – admitiu Johnson, sombriamente. – Mas desta vez é um assassinato de verdade, senhor?

– É, sim, Johnson. Um dos hóspedes de Sua Excelência, um cavalheiro estrangeiro, foi baleado mortalmente. A janela estava aberta e havia pegadas do lado de fora.

– Só lamento que tenha sido um estrangeiro – murmurou Johnson, pesaroso.

Isso fazia com que o assassinato parecesse menos real. Johnson sentia que os estrangeiros eram sempre passíveis de serem mortos a tiros.

– Sua Excelência está bastante nervoso – acrescentou o inspetor. – Vamos buscar o Dr. Cartwright e seguiremos imediatamente para Chimneys. Só espero que ninguém comece a confundir as pegadas, andando de um lado para outro.

Badgworthy sentia-se quase no paraíso. Um assassinato! E em Chimneys! Com o inspetor Badgworthy encarregado do caso. A polícia tem uma pista. Prisão sensacional. Promoção e louvores para o referido inspetor.

“Isto é, se a Scotland Yard não vier se intrometer”, pensou o inspetor Badgworthy.

O pensamento deixou-o momentaneamente desolado. Era o que provavelmente iria acontecer nessas circunstâncias.

Passaram na casa do Dr. Cartwright, que era um homem relativamente jovem e demonstrou um interesse intenso. A atitude dele foi quase a mesma que a de Johnson.

– Ora, Deus me valha! Não temos um assassinato aqui desde Tom Pearse!

Os três entraram no pequeno carro do médico e partiram rapidamente para Chimneys. Ao passarem pela hospedaria local, o Dr. Cartwright notou um homem parado na estrada. E comentou:

– Parece um estrangeiro. E é um sujeito bem-apessoado. Há quanto tempo estará aqui? E o que estará fazendo na Jolly Cricketers? Deve ter chegado ontem à noite.

– E não veio de trem – informou Johnson.

O irmão de Johnson trabalhava na estação local e por isso o guarda estava sempre a par das chegadas e partidas.

– Quem chegou para Chimneys ontem? – perguntou o inspetor.

– Lady Eileen chegou no trem das 15h40, junto com dois cavalheiros, um norte-americano e um jovem oficial do Exército. Nenhum dos dois veio com criado particular. Sua Excelência chegou com um cavalheiro estrangeiro, provavelmente o que foi morto, no trem das 17h40. O cavalheiro estrangeiro trouxe seu criado. O Sr. Eversleigh chegou no mesmo trem. A Sra. Revel chegou no trem das 19h25, que também trouxe outro cavalheiro que parecia estrangeiro, a cabeça alva, nariz adunco. E a camareira da Sra. Revel chegou no trem das 20h56.

Johnson fez uma pausa, sem fôlego.

– E não chegou ninguém para a Cricketers?

Johnson sacudiu a cabeça.

– Nesse caso, ele deve ter vindo de carro – concluiu o inspetor.

– Ao voltar, Johnson, faça indagações em Cricketers a respeito dele. Queremos saber de tudo a respeito dos estranhos que apareceram por aqui. E aquele deve ser um estrangeiro, ou então veio do exterior, pois está bastante queimado de sol.

O inspetor sacudiu a cabeça com um ar de sagacidade, como se desejasse insinuar que era um homem sempre alerta, que jamais seria surpreendido a cochilar.

O carro passou pelos portões do parque de Chimneys. Descrições dessa propriedade histórica podem ser encontradas em qualquer guia para viajantes. Há também uma descrição completa em Historic Homes of England, que custa 21 xelins. Na quinta-feira, chegam grupos de Middlingham para uma visita às partes da propriedade que são abertas ao público. Em vista de tudo isso, seria supérfluo descrever Chimneys.

Foram recebidos na porta por um mordomo de cabeça branca, cujo porte era impecável.

“Não estamos acostumados a crimes cometidos dentro destas paredes”, toda a atitude dele parecia dizer. “Mas estamos vivendo dias terríveis. Vamos enfrentar o desastre com a mais absoluta calma e fingir, até o último instante, que nada de anormal ocorreu.”

– Sua Excelência está esperando – disse o mordomo. – Queiram me acompanhar, por gentileza.

Ele levou-os para uma sala pequena e aconchegante, que era o refúgio de lorde Caterham da magnificência que havia no restante da mansão.

– A polícia, milorde, e o Dr. Cartwright.

Lorde Caterham estava andando de um lado para outro, visivelmente nervoso.

– Finalmente aparece, inspetor! Muito lhe agradeço! Como tem passado, Cartwright? É um caso terrível... muito terrível mesmo!

E lorde Caterham, passando as mãos pela cabeça freneticamente, até que os cabelos ficassem levantados em pequenos tufos, parecia ainda menos um nobre que de hábito.

– Onde está o corpo? – indagou o médico, em tom seco e profissional.

Lorde Caterham virou-se para ele, como se estivesse aliviado por terem lhe feito uma pergunta objetiva.

– Na Câmara do Conselho... exatamente onde foi encontrado... não deixei que mexessem no corpo. Achei que... era a atitude correta a adotar.

– E fez muito bem, milorde – o inspetor concordou.

Ele tirou do bolso um caderninho de anotações e um lápis e perguntou:

– E quem descobriu o corpo? Foi Sua Excelência?

– Oh, Santo Deus, claro que não! Pensa por acaso que costumo acordar tão pavorosamente cedo? Foi uma criada que encontrou. E gritou que não parava mais, pelo que me disseram. Mas eu mesmo não cheguei a ouvir. Vieram me acordar e é claro que me levantei e desci... e lá estava ele!

– Reconheceu o corpo como sendo um dos seus hóspedes?

– Exatamente, inspetor.

– E o nome?

Essa pergunta perfeitamente simples pareceu deixar lorde Caterham profundamente perturbado. Ele abriu a boca para falar, hesitou, tornou a fechá-la. E por fim indagou, debilmente:

– Está querendo saber... qual era o nome dele?

– Isso mesmo, milorde.

Correndo os olhos lentamente pela sala, como se esperasse encontrar alguma inspiração, lorde Caterham murmurou:

– O nome dele era... eu diria que era... é isso mesmo, não há a menor dúvida... conde Stanislau.

Havia algo tão estranho na atitude de lorde Caterham que o inspetor parou de usar o lápis por um momento e ficou olhando para ele. E foi nesse momento que ocorreu algo que desviou a atenção do inspetor e foi recebido com evidente alívio pelo nobre constrangido.

A porta se abriu e uma jovem entrou na sala. Era alta, esguia e morena, com um rosto ainda infantil e bastante atraente, uma atitude decidida. Era lady Eileen Brent, mais conhecida como Bundle, a filha mais velha de lorde Caterham. Ela acenou com a cabeça para os outros e dirigiu-se ao pai:

– Consegui encontrá-lo.

Por um momento, o inspetor esteve a pique de entrar em ação, com a impressão de que a moça capturara o assassino. Mas quase no mesmo instante compreendeu que o sentido das palavras era inteiramente diferente.

Lorde Caterham deixou escapar um suspiro de alívio.

– Bom trabalho. E o que disse ele?

– Está vindo para cá. E recomendou que tivéssemos “o máximo de discrição”.

O pai proferiu uma exclamação irritada.

– É o tipo de recomendação idiota que George Lomax jamais deixaria de fazer. Mas assim que ele chegar, lavarei as mãos de todo esse caso horrível.

Ele pareceu se reanimar um pouco com a perspectiva. E nesse momento o Dr. Cartwright perguntou:

– Quer dizer que o nome do homem assassinado era conde Stanislau?

Pai e filha se entreolharam rapidamente. E em seguida, lorde Caterham disse, com alguma dignidade:

– Claro que era! Foi o que eu disse!

– Só perguntei porque parecia não ter certeza antes – explicou o médico.

Os olhos de Cartwright brilharam por um momento e lorde Caterham fitou-o com uma expressão de censura, dizendo bruscamente:

– Vou levá-los agora para a Câmara do Conselho.

Todos o seguiram. O inspetor ia por último, lançando olhares rápidos ao redor, como se esperasse encontrar alguma pista em uma moldura de quadro ou atrás de uma porta.

Lorde Caterham tirou uma chave do bolso e abriu uma porta. Todos entraram na sala imensa, revestida de carvalho, com três portas dando para o terraço. Havia uma mesa comprida e muitas arcas de carvalho, além das belas cadeiras antigas. Nas paredes havia diversos quadros dos Caterham falecidos e de outras pessoas.

Perto da parede da esquerda, no meio do caminho entre a porta e a janela, estava caído um homem, de costas, com os braços abertos.

O Dr. Cartwright avançou e ajoelhou-se ao lado do corpo. O inspetor aproximou-se das portas do terraço e examinou-as atentamente. A do centro estava fechada, mas não trancada. Nos degraus lá fora havia pegadas que se aproximavam da janela e depois outro grupo a se afastar.

– Parece óbvio – comentou o inspetor, com um aceno de cabeça. – Mas devia haver pegadas também aqui dentro. Apareceriam facilmente neste chão de parquete.

– Acho que posso explicar isso – interveio Bundle. – A empregada encerou metade do chão esta manhã, antes de avistar o corpo. Estava muito escuro quando ela chegou aqui. Foi direto até as janelas, abriu as cortinas e começou a encerar o chão. Não podia ver o corpo, pois está meio escondido daquele lado da sala pela mesa. Só o avistou quando estava praticamente em cima dele.

O inspetor assentiu.

– Vou deixá-lo aqui, inspetor – disse lorde Caterham, ansioso em escapar. – Poderá me encontrar se precisar... ahn... falar comigo. Mas o Sr. George Lomax não deve demorar a chegar de Wyverne Abbey e poderá dizer-lhe muito mais do que sei. Para ser franco, o problema é realmente dele. Não posso explicar nesse momento, mas ele o fará assim que chegar.

Lorde Caterham bateu em retirada apressadamente, sem esperar por uma resposta, lamentando-se consigo mesmo:

– Mas como Lomax pôde me meter numa confusão assim? É demais, é demais! O que é, Tredwell?

O mordomo de cabeça branca estava pairando ao lado dele, deferentemente.

– Tomei a liberdade, milorde, de adiantar a hora do seu café-da-manhã. Já está servido, na sala de jantar.

– Acho que não vou conseguir comer nada – murmurou lorde Caterham, sombriamente, virando-se na direção da sala de jantar. – Absolutamente nada!

Bundle passou a mão pelo braço dele e entraram juntos na sala de jantar. No aparador, havia uma vintena de travessas de prata, mantidas quentes por um engenhoso sistema.

– Omelete – disse lorde Caterham, começando a levantar as tampas. – Ovos com bacon, rins, picadinho de frango, hadoque, presunto frio, faisão frio. Não gosto de nenhuma dessas coisas, Tredwell. Quer pedir para me prepararem um ovo poché?

– Certamente, milorde.

Tredwell retirou-se. Lorde Caterham, distraidamente, serviu-se de rins e bacon, uma xícara de café e foi sentar ao fim da longa mesa. Bundle já estava comendo um prato de ovos com bacon.

– Estou com uma fome tremenda – comentou a jovem, de boca cheia. – Deve ser o nervosismo.

– Isso é ótimo para você, acha que não tem nada demais – lamentou-se lorde Caterham. – Os jovens gostam mesmo de emoções fortes. Mas eu estou num estado de saúde extremamente delicado. Evite todas as preocupações, foi o que sir Abner Willis me disse... evite todas as preocupações. É muito fácil para um homem sentado em seu consultório na Harley Street dizer isso. Mas como posso evitar as preocupações, quando aquele asno do Lomax me impinge algo assim? Eu devia ter sido mais firme na ocasião. Devia ter fincado o pé.

Sacudindo a cabeça, com um ar triste, lorde Caterham foi servir-se de presunto.

– Mas Lomax dessa vez teve o que merecia – comentou Bundle, de maneira satisfeita. – Estava quase incoerente ao telefone. Não vai demorar muito a chegar aqui, gaguejava sobre discrição e a necessidade de silêncio.

Lorde Caterham resmungou ao pensar na perspectiva.

– Ele já estava acordado?

– Disse-me que estava acordado e ditando cartas e memorandos desde as 7 horas da manhã.

– E deve estar orgulhoso disso! Ah, como esses homens públicos são extraordinariamente egoístas! Obrigam suas pobres secretárias a se levantarem nas horas mais incríveis, a fim de lhes ditarem toda sorte de bobagens. Quantos benefícios não haveria para a nação se fosse promulgada uma lei obrigando os políticos a ficarem na cama até pelo menos 11 horas! Eu não me importaria se eles não falassem tantos disparates. Lomax, por exemplo, está sempre falando da minha “posição”. Como se eu tivesse alguma... Quem deseja fazer parte do reino atualmente?

– Ninguém – respondeu Bundle. – Todo mundo prefere ter uma próspera taverna.

Tredwell reapareceu, silenciosamente, com dois ovos pochés em uma pequena travessa de prata, que colocou na mesa, diante de lorde Caterham.

– Mas o que é isso, Tredwell? – indagou lorde Caterham, olhando para os ovos com uma ligeira aversão.

– Ovos pochés, milorde.

– Detesto ovos pochés – declarou lorde Caterham irritado. – São por demais insípidos. Nem mesmo gosto de olhar para eles. Quer tirar isso daqui, Tredwell?

– Certamente, milorde.

Tredwell e os ovos pochés se retiraram, tão silenciosamente quanto haviam chegado.

– Graças a Deus que ninguém levanta cedo nesta casa – comentou lorde Caterham com veemência. – Mas acho que teremos de lhes dar a notícia, assim que acordarem.

Ele suspirou. Bundle disse:

– Quem o terá assassinado? E por quê?

– Isso não é da nossa conta, graças a Deus. Compete à polícia descobrir, embora eu tenha certeza de que esse Badgworthy não é capaz de descobrir coisa alguma. Mas confesso que eu espero que tenham sido os intrometidos.

– E quem são os intrometidos?

– O trust britânico.

– Mas por que o Sr. Isaacstein haveria de assassiná-lo, se veio até aqui para fechar um negócio?

– Altas finanças... – murmurou lorde Caterham de forma vaga. – E isso me faz lembrar de que não seria surpresa se Isaacstein fosse um madrugador. Ele deve aparecer a qualquer momento. É um hábito no mundo dos negócios. Por mais ricos que os homens sejam, sempre pegam o trem das 9h17.

Entrou pela janela aberta o barulho do motor de um carro aproximando-se em grande velocidade.

– Deve ser Lomax – comentou Bundle.

Pai e filha foram até a janela e acenaram para o ocupante do carro.

– Aqui, meu caro, aqui! – gritou lorde Caterham, engolindo apressadamente um bocado de presunto.

Mas George não tinha a menor intenção de entrar pela janela. Desapareceu pela porta da frente e um momento depois foi acompanhado até a sala por Tredwell, que retirou-se logo em seguida.

– Não quer comer algo? – indagou lorde Caterham, apertando-lhe a mão. – O que me diz de um rim?

George recusou o rim com um gesto impaciente, murmurando:

– Isso é uma terrível calamidade, um tremendo desastre...

– Tem toda razão. Não quer um hadoque?

– Não, não! O caso tem que ser abafado... a qualquer custo tem que ser abafado.

Como Bundle profetizara, George já estava começando a gaguejar.

– Compreendo perfeitamente o que está sentindo – disse lorde Caterham. – Experimente então ovos com bacon.

– Uma emergência totalmente imprevista... uma calamidade nacional... concessões em perigo...

– O que está precisando, meu caro, é comer algo para recuperar o controle. Será que prefere ovos pochés? Havia alguns aqui na mesa, há um minuto...

– Não quero comer nada. Já comi antes de vir para cá. E mesmo que não tivesse comido, não ia querer nada agora. Temos que pensar no que se deve fazer. Já contou a alguém?

– Bundle e eu já sabemos. E há também a polícia local e Cartwright. Além de todos os criados, é claro.

George soltou um resmungo de desespero.

– Controle-se, meu caro – alertou-o lorde Caterham, suavemente. – (Gostaria que comesse alguma coisa.) Parece que não está compreendendo que é inteiramente impossível abafar a existência de um cadáver. Afinal, tem que ser enterrado e tudo o mais. Sei que é um terrível infortúnio, mas não há mais jeito que se possa dar.

George ficou subitamente calmo.

– Tem toda razão, Caterham. Disse que chamou a polícia local, não é mesmo? Mas isso não é suficiente. Precisamos de Battle.

Continuar: parte 4 de 9