O Segredo de Chimneys

Agatha Christie · Capítulo 3 de 3 · parte 7/9

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O Segredo de Chimneys

Dedicatória

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.

– Tenho que lhe tirar o chapéu, Battle. Estou vendo que sabe de tudo. Mas apenas por uma questão de detalhe, permita-me dizer que foi ele quem me contratou como seu patrão e não o inverso.

– Por que ele faria isso, Sr. Cade?

– Não sei. É um gosto dos mais esquisitos, sei disso, mas talvez ele tenha simpatizado com a minha cara. Ou pode estar pensando que assassinei seu amo e quer privar da minha intimidade, para se certificar e depois poder vingar-se.

Anthony levantou-se, foi até as janelas e puxou as cortinas. Com um pequeno bocejo, murmurou:

– O dia já está raiando. Creio que, por enquanto, não haverá mais nenhuma nova emoção.

Lemoine também se levantou.

– Vou deixá-los agora. Talvez voltemos a nos encontrar mais tarde, ainda hoje.

E fazendo uma mesura graciosa para Virginia, ele foi embora, saindo pela porta do terraço.

– Vou me deitar – murmurou Virginia, bocejando. – Foi uma noite por demais emocionante. Vamos, Bill, seja um bom menino e me acompanhe até a porta do quarto. Tenho a impressão de que nenhum de nós estará sentado à mesa para o café-da-manhã.

Anthony continuou parado junto à porta, observando o vulto de monsieur Lemoine se afastar. Atrás dele, Battle comentou:

– Ninguém diz, mas ali vai aquele que é considerado o melhor detetive da França.

– Tenho a impressão de que eu jamais adivinharia... – murmurou Anthony, pensativo.

– Num fato ele estava absolutamente certo: as emoções desta noite realmente terminaram. Por falar em emoções, lembra-se daquele homem que foi encontrado morto com um tiro perto de Staines?

– Lembro, sim. Por quê?

– Nada. Já o identificaram. Parece que se chamava Giuseppe Manuelli. E era garçom no Blitz de Londres. Não acha curioso?

 

20

Battle e Anthony compartilham idéias

 

Anthony não disse nada, continuou a olhar para fora. O superintendente Battle ficou olhando por algum tempo para as costas imóveis dele, antes de finalmente dizer, encaminhando-se para a porta:

– Boa noite, senhor.

Só então é que Anthony se mexeu.

– Espere um pouco, Battle.

O superintendente parou, obedientemente. Anthony afastou-se da porta. Tirou um cigarro e acendeu-o. Depois, entre baforadas de fumaça, perguntou:

– Está muito interessado nesse caso de Staines?

– Não chego a tanto, senhor. É apenas um caso estranho, mais nada.

– Acha que o homem foi morto onde o encontraram ou mataram-no em outro lugar e depois levaram o corpo para perto de Staines?

– Tenho a impressão de que ele foi morto em outro lugar e depois levaram o corpo para lá num carro.

– É o que eu também acho.

Algo no tom de Anthony fez com que o detetive o fitasse atentamente.

– Tem alguma idéia a respeito do caso, senhor? Sabe quem levou o corpo para lá?

– Sei, sim – respondeu Anthony. – Fui eu.

Ele ficou um pouco aborrecido ao constatar que não conseguira abalar a impassibilidade de Battle com a súbita revelação.

– Devo dizer que sabe absorver muito bem esses choques, Battle.

– “Jamais demonstre qualquer emoção.” Ensinaram-me isso há muito tempo e nunca mais esqueci, pois é uma lição extremamente útil.

– E você a executa de uma forma bastante fiel. Creio que nunca o vi abalado. Quer ouvir a história?

– Se não se incomoda em contá-la, Sr. Cade.

Anthony puxou duas cadeiras e ambos se sentaram. Ele relatou todos os acontecimentos da tarde e da noite da quinta-feira anterior. Battle escutou atentamente, impassível como sempre. Havia um brilho distante em seus olhos quando Anthony terminou o relato.

– Um dia desses, Sr. Cade, ainda vai se meter numa tremenda encrenca.

– Quer dizer que, pela segunda vez, não está pensando em me prender?

– Sempre preferimos dar corda suficiente a um homem – respondeu o superintendente Battle.

– Muito obrigado por sua delicadeza em não mencionar a segunda parte do provérbio.

– Só não consigo entender muito bem uma coisa, senhor. Por que decidiu contar-me toda a história agora?

– É um tanto difícil explicar. A verdade, Battle, é que passei a ter em alta conta a sua capacidade como detetive. No momento crítico, você sempre está presente. E ocorreu-me que, retendo essa informação importante, poderia estar prejudicando suas investigações. Afinal, deve ter acesso a todos os fatos. Tentei agir por minha própria conta e risco, mas até agora só consegui confundir os fatos ainda mais. Até esta noite, eu não podia falar, por causa da Sra. Revel. Mas agora que já está comprovado que aquelas cartas nada tinham a ver com ela, torna-se um absurdo sequer pensar que ela pudesse ter sido uma cúmplice. Talvez eu a tenha aconselhado erroneamente logo no início. Mas achei que sua declaração de que dera dinheiro ao homem simplesmente por capricho seria difícil de acreditar.

– E um júri dificilmente acreditaria nisso – concordou Battle.

– Os júris nunca têm a menor imaginação.

– Mas você é capaz de aceitar tal declaração sem qualquer dificuldade?

– De um modo geral, tenho trabalhado entre essa gente, Sr. Cade. O que se costuma chamar de classes superiores. A maioria das pessoas está sempre ocupada com o que os vizinhos podem pensar. Mas isso não acontece com os vagabundos e com os aristocratas. Eles simplesmente tomam a primeira atitude que lhes passa pela cabeça e não se incomodam em nada com o que os outros possam pensar. Não estou me referindo aos ricos frívolos, pessoas que dão festas suntuosas e assim por diante. Refiro-me apenas àqueles que nasceram e foram criados assim, há gerações, aprendendo que a única opinião que conta é a própria. Na minha experiência, os representantes das classes superiores são sempre iguais, destemidos, sinceros e, algumas vezes, extraordinariamente tolos.

– É uma conclusão das mais interessantes, Battle. Espero que algum dia desses comece a escrever suas reminiscências. Valerá a pena lê-las.

O detetive agradeceu a sugestão com um sorriso, sem fazer qualquer comentário.

– Gostaria de fazer-lhe uma pergunta, Battle. Por acaso me ligou ao caso de Staines? Por sua atitude, tive a impressão de que sim.

– E devo dizer que acertou. Tive um pressentimento, mas não havia nada de concreto em que me basear. Seu comportamento tem sido impecável, Sr. Cade, se me permite dizer. Em nenhum momento exagerou na indiferença.

– Fico contente por saber disso. Desde que o conheci, tenho a sensação de que vem preparando pequenas armadilhas para mim. De um modo geral, creio que consegui evitá-las. Mas confesso que a tensão tem sido muito grande.

Battle sorriu, um sorriso sinistro.

– É assim que acabamos apanhando um criminoso, senhor. Nós o mantemos sempre correndo, de um lado para outro, se contorcendo, sob tensão permanente. Mais cedo ou mais tarde, ele acaba tendo um colapso nervoso e se deixa agarrar.

– Nunca vi um sujeito tão animador quanto você, Battle. E quando será que pretende agarrar-me?

– Há ainda muita corda, senhor, muita corda...

– E, até lá, continuo a ser o assistente amador?

– Exatamente, Sr. Cade.

– O Watson do Sherlock?

– De um modo geral, as histórias de detetives não passam de impostura. Mas divertem os leitores.

Battle fez uma breve pausa, antes de acrescentar, como se só naquele momento a idéia lhe ocorresse:

– E algumas vezes são úteis.

– De que maneira? – indagou Anthony, curioso.

– Estimulam a noção universal de que a polícia é estúpida. E quando deparamos com um crime de amador, assim como um homicídio, isso se torna extremamente útil.

Anthony ficou olhando para ele em silêncio, por um longo tempo. Battle estava sentado completamente imóvel, agora piscando de vez em quando, mas sem qualquer expressão definida no rosto plácido. Dali a pouco levantou-se e comentou:

– Não vai adiantar muito ir deitar agora. Gostaria de conversar com lorde Caterham, assim que ele se levantar. Quem quiser ir embora, já poderá fazê-lo. Ao mesmo tempo, eu gostaria que lorde Caterham apresentasse um convite informal a seus hóspedes para continuarem em Chimneys. Espero que o senhor aceite. Assim como a Sra. Revel.

– Já encontrou o revólver? – perguntou Anthony, subitamente.

– Está se referindo ao revólver com que o príncipe Michael foi morto? Ainda não. Mas deve estar na casa ou no terraço ao redor. Adotarei a sua sugestão e mandarei alguns rapazes darem uma olhada no alto das árvores. Se encontrarmos o revólver, talvez possamos progredir um pouco mais nas investigações. As cartas também seriam muito úteis. Não disse que havia uma carta com o cabeçalho de “Chimneys”? Deve ter sido a última carta a ser escrita. As instruções para encontrar o diamante estavam em código nessa carta.

– Qual é a sua teoria a respeito do assassinato de Giuseppe, Battle?

– Tenho a impressão de que ele não passava de um reles ladrão e foi contratado pelo rei Victor ou pelos Camaradas da Mão Vermelha. E confesso que eu não ficaria absolutamente espantado se descobrisse que o rei Victor e os Camaradas estão trabalhando juntos. A organização tem muito dinheiro e poder, mas não prima pela inteligência. A tarefa de Giuseppe era roubar as memórias. Eles não podiam saber que as cartas estavam em seu poder. Por falar nisso, devo dizer que se trata de uma estranha coincidência.

– Sei disso. E quanto mais penso a respeito, mais acho espantoso.

– Em vez de se apoderar das memórias, Giuseppe por engano levou as cartas. A princípio, deve ter ficado profundamente desolado. Mas, depois, deu uma olhada nas cartas, viu a procedência e teve a brilhante idéia de tirar algum proveito, chantageando a Sra. Revel. É claro que não tinha a menor idéia da importância das cartas. Os Camaradas descobriram o que ele estava fazendo, concluíram que os traía deliberadamente e decidiram eliminá-lo. Eles adoram executar traidores. Isso tem algum elemento pitoresco, que parece atraí-los intensamente. O que não consigo entender é o revólver com o nome “Virginia” gravado. É sutileza demais para os Camaradas. Eles preferem deixar por toda parte o sinal da Mão Vermelha, a fim de incutirem o terror aos traidores em potencial. É por isso que tenho a impressão de que tem o dedo do rei Victor nisso. Só que não tenho a menor idéia do possível motivo dele. Parece que foi uma tentativa deliberada de atribuir o crime à Sra. Revel. E, à primeira vista, parece não haver nenhum sentido nisso.

– Formulei uma teoria, que não foi confirmada pelos fatos.

Anthony contou a sua teoria e depois informou que Virginia reconhecera Michael. Battle assentiu.

– Não há realmente a menor dúvida quanto à identidade dele. Por falar nisso, aquele velho barão o tem em alta conta. Sempre fala a seu respeito nos termos mais entusiasmados.

– É muita generosidade dele, especialmente depois que lhe comuniquei que pretendo envidar todos os esforços possíveis para recuperar as memórias, antes da próxima quarta-feira.

– Não será nada fácil.

– Sei disso. Quanto às cartas, suponho que estão em poder do rei Victor & Cia.

Battle assentiu.

– Eles arrancaram-nas de Giuseppe no dia de sua morte, na Pont Street. Foi um trabalho muito bem planejado e executado. A essa altura, eles já devem ter decifrado as cartas e sabem onde procurar.

Os dois tinham se levantado e já estavam quase saindo da sala. Anthony inclinou a cabeça para trás e perguntou:

– Acha mesmo que a pedra está aqui dentro?

– Tenho certeza. Mas eles ainda não a encontraram e vão se arriscar muito para a pegarem.

– Já tem algum plano nessa sua cabeça sutil?

Battle não respondeu. Parecia particularmente impassível e obtuso. Depois, muito devagar, ele piscou um dos olhos.

– Quer minha ajuda? – indagou Anthony.

– Quero, sim. E vou querer também a ajuda de outra pessoa.

– De quem?

– Da Sra. Revel. Talvez ainda não tenha notado, Sr. Cade, mas o fato é que a Sra. Revel possui um jeito extremamente sedutor.

– Claro que já notei.

Anthony consultou o relógio e acrescentou:

– Estou propenso a concordar com você a respeito de não ir para a cama, Battle. Um mergulho no lago e um desjejum serão bem melhores nessas circunstâncias.

Ele subiu rapidamente para seu quarto. Assoviando baixinho, tirou as roupas, pegou um roupão e uma toalha.

E, subitamente, estacou diante da cômoda, olhando para algo que estava repousando diante do espelho.

Por um momento, Anthony mal pôde acreditar em seus olhos. Pegou aquilo e examinou atentamente. Não havia o menor equívoco.

Era o maço de cartas com a assinatura de Virginia Revel. Estava intacto. Não faltava absolutamente nenhuma carta.

Anthony afundou numa cadeira, com as cartas na mão. E murmurou para si mesmo.

– Meu cérebro está começando a estalar. Não consigo entender mais nada do que está acontecendo nesta casa. Por que as cartas iriam reaparecer como num passe de mágica? Quem as teria deixado em cima da cômoda? E por quê?

E para todas essas perguntas, muito pertinentes, ele não conseguiu encontrar uma única resposta satisfatória.

 

21

A maleta do Sr. Isaacstein

 

Às 10 horas daquela manhã, lorde Caterham e a filha estavam tomando o café. Bundle estava bastante pensativa e finalmente murmurou:

– Papai...

Lorde Caterham, absorvido na leitura do jornal The Times, não respondeu.

– Papai... – disse Bundle novamente, dessa vez mais alto.

Lorde Caterham, arrancado do exame dos livros raros que em breve seriam postos à venda, levantou a cabeça de maneira distraída.

– Disse algo, Bundle?

– Disse, sim. Sabe quem foi a única pessoa que desceu para comer?

Bundle sacudiu a cabeça na direção do único prato que fora obviamente usado. Todos os demais ainda estavam intactos.

– Foi... não me lembro do nome dele...

– O gordo Iky?

Bundle e o pai tinham intimidade suficiente para compreenderem imediatamente as observações um tanto enigmáticas que faziam um para o outro.

– Ele mesmo.

– Conversou com o detetive esta manhã, antes de vir comer?

Lorde Caterham suspirou.

– Conversei, sim. Ele me encurralou no corredor. Acho que as horas que antecedem o café da manhã deveriam ser sagradas. Terei que ir para o exterior. A pressão sobre os meus nervos...

Bundle interrompeu-o sem a menor cerimônia:

– O que disse ele?

– Falou que quem quisesse já podia ir embora.

– Então está ótimo. Não era isso o que queria?

– Era, sim. Só que ele não parou por aí. Pediu também que eu convidasse todo mundo a permanecer em Chimneys.

– Não estou entendendo mais nada – comentou Bundle, torcendo o nariz.

– É tudo muito confuso e contraditório – concordou lorde Caterham. – E o pior é que essas coisas acontecem antes do desjejum.

– O que disse a ele, papai?

– Claro que concordei. Não adianta tentar argumentar com essa gente.

Lorde Caterham fez uma rápida pausa e depois acrescentou, voltando à sua principal queixa:

– Especialmente antes do café.

– Até agora, já convidou quem?

– Cade. Ele levantou muito cedo esta manhã. Aceitou o convite. A presença dele não me preocupa muito. Não consigo entendê-lo muito bem, mas gosto dele... gosto muito.

– Virginia também – murmurou Bundle, fazendo um desenho na toalha com o garfo.

– Hein?

– E eu também. Mas isso parece não ter muita importância.

– Também convidei Isaacstein – acrescentou lorde Caterham.

– E o que disse ele?

– Felizmente, Isaacstein precisa voltar para Londres. Por falar nisso, não se esqueça de pedir o carro para as 10h50.

– Está certo.

– Agora, vou ver se também consigo me livrar de Fish – continuou lorde Caterham, animando-se um pouco.

– Pensei que gostasse de conversar com ele a respeito daqueles livros velhos e bolorentos.

– E gosto realmente. Ou melhor, gostava. Mas a conversa se torna muito monótona quando só uma pessoa está falando o tempo todo. Fish se interessa muito por primeiras edições, mas jamais faz qualquer comentário pessoal.

– É melhor do que ficar escutando o tempo todo, como acontece quando se fala com George Lomax – comentou Bundle.

Lorde Caterham estremeceu ao pensar nisso. E Bundle acrescentou:

– George é muito bom num palanque. Já o aplaudi por diversas vezes, mesmo sabendo o tempo todo que ele só dizia bobagens. Além do mais, sou uma socialista...

Lorde Caterham apressou-se em interrompê-la:

– Já sei, minha querida, já sei...

– Não se preocupe. Não pretendo trazer a política para casa. Mas é justamente o que George faz... está sempre fazendo um discurso público na vida particular. Tal atitude deveria ser abolida por uma lei do Parlamento.

– Tem toda razão.

– Virginia também será convidada a permanecer em Chimneys?

– Battle pediu que eu convidasse todo mundo.

– Responda com toda sinceridade, papai. Já a convidou para ser minha madrasta?

– Não creio que fosse adiantar – respondeu lorde Caterham, tristemente. – É verdade que ela ontem à noite me chamou de querido. Mas essa é justamente a pior característica dessas jovens atraentes com inclinações afetuosas. São capazes de dizer qualquer coisa, sem que isso signifique absolutamente nada.

– Tem toda razão, papai. Teria sido muito mais esperançoso se ela tivesse jogado um sapato no senhor ou tentasse mordê-lo.

– Vocês, jovens modernas, parecem ter algumas noções extremamente desagradáveis sobre o amor.

– É por causa de leitura de The Sheik – explicou Bundle. – O amor no deserto. A mulher é agarrada violentamente etc.

– O que é The Sheik? – perguntou lorde Caterham. – Por acaso é um poema?

Bundle fitou-o com uma terna compaixão. Depois levantou-se, beijou-o no alto da cabeça e murmurou:

– Ah, meu querido papai...

Ela saiu pela porta do terraço e lorde Caterham voltou a se concentrar na leitura dos catálogos dos leilões seguintes.

Ele teve um sobressalto quando ouviu a voz do Sr. Hiram Fish, que entrara na sala sem fazer qualquer barulho, como de hábito:

– Bom dia, lorde Caterham.

– Oh, bom dia... E parece que vai ser mesmo um bom dia.

– Tem razão. Está fazendo um dia maravilhoso.

O Sr. Fish serviu-se de café. Para comer, pegou apenas uma torrada sem manteiga. Depois de um momento, perguntou:

– É verdade que o embargo foi retirado, que todos nós já podemos partir?

– Ahn... é, sim... Mas eu esperava... isto é, eu ficaria feliz... se quisesse continuar em Chimneys por mais alguns dias...

– Ora, lorde Caterham...

– Sei que foi uma visita horrível. Até demais. Não posso culpá-lo por querer ir embora.

– Está me julgando erradamente, lorde Caterham. Não se pode negar que os últimos acontecimentos foram lamentáveis. Mas a vida rural inglesa, a que se conhece nas mansões dos grandes e poderosos, exerce uma poderosa atração sobre a minha pessoa. Estou profundamente interessado no estudo desse tipo de vida. É algo de que carecemos inteiramente na América. E é com o maior prazer que aceito o seu convite para permanecer em Chimneys por mais algum tempo.

– Então estamos combinados. O prazer é todo meu, todo meu...

Depois daquela demonstração de falsa cordialidade, lorde Caterham inventou um encontro com seu intendente e retirou-se da sala de forma apressada.

Encontrou Virginia no hall, que tinha acabado de descer.

– Quer que eu a leve para tomar o café? – perguntou ele, ternamente.

– Já tomei na cama, obrigado. Estava terrivelmente sonolenta esta manhã.

Virginia bocejou.

– Passou uma noite ruim?

– Não se pode dizer exatamente que tenha sido isso. Ao contrário, creio que se pode até dizer que, sob certo ponto de vista, foi uma boa noite. Oh, lorde Caterham...

Virginia enfiou uma das mãos por dentro do braço dele e apertou gentilmente, antes de acrescentar:

– ...Como estou me divertindo! Foi um amor por ter-me convidado a vir a Chimneys!

– Quer dizer que vai continuar aqui por mais alguns dias? Battle está levantando o... o embargo, mas eu gostaria muito que não fosse embora. E Bundle também gostaria que ficasse.

– Mas claro que ficarei! Fico tão feliz por ter-me convidado!

– Ah... – murmurou lorde Caterham.

Um instante depois, ele suspirou e Virginia perguntou:

– O que o incomoda? Alguém por acaso o mordeu?

– É justamente esse o problema.

Virginia ficou aturdida e lorde Caterham acrescentou:

– Por acaso não sente vontade de jogar um sapato em cima de mim? Não, estou vendo que não sente. Não tem importância...

Lorde Caterham afastou-se, muito triste. Virginia saiu para o jardim por uma porta lateral.

Parou por um momento, respirando o ar frio de outubro, infinitamente revigorante para quem se encontrava tão cansada quanto ela.

Teve um ligeiro sobressalto ao descobrir o superintendente Battle ao seu lado. O homem parecia ter uma extraordinária capacidade de materializar-se em pleno espaço de maneira inesperada.

– Bom dia, Sra. Revel. Está se sentindo muito cansada?

Virginia sacudiu a cabeça.

– Foi uma noite emocionante e bem valeu a perda de um pouco de sono, superintendente. O único problema é que, depois de tantas emoções, o dia de hoje está parecendo um pouco insípido.

– Há uma boa sombra debaixo daquele cedro – Battle disse. – Quer que eu leve uma cadeira para a senhora sentar-se ali?

– Se acha que é o melhor que tenho a fazer neste momento – disse Virginia, em tom solene.

– Percebe as coisas bem depressa, Sra. Revel. Está realmente certa, gostaria de ter uma conversa com a senhora.

Battle pegou uma cadeira de vime e carregou-a pelo gramado.

Virginia seguiu-o, com uma almofada debaixo do braço.

– Aquele terraço é um lugar muito perigoso quando se deseja ter uma conversa particular – comentou Battle.

– Estou começando a ficar agitada novamente, superintendente Battle.

– Não é nada importante.

Battle tirou um relógio do bolso e deu uma olhada.

– São 10h30. Vou partir para Wyvern Abbey em 10 minutos, a fim de encontrar-me com o Sr. Lomax. Há tempo suficiente. Gostaria de saber se pode me dizer algo a respeito do Sr. Cade.

– A respeito do Sr. Cade?

Virginia estava desconcertada.

– Exatamente. Gostaria de saber onde o conheceu, há quanto tempo foi e assim por diante.

A atitude de Battle era tranqüila e jovial. Até mesmo absteve-se de olhar para Virginia, o que a deixou um tanto inquieta.

– É mais difícil do que pode pensar – disse ela, finalmente. – Ele me prestou um favor imenso certa ocasião...

Battle interrompeu-a:

– Antes que siga adiante, Sra. Revel, gostaria que soubesse de uma coisa. Ontem à noite, depois que se retirou, junto com o Sr. Eversleigh, o Sr. Cade contou-me toda a história a respeito das cartas e do homem que foi morto em sua casa.

– Contou? – balbuciou Virginia.

– Contou, sim. E fez muito bem. Esclareceu, assim, uma porção de mal-entendidos. Só há uma coisa que ele não me disse: há quanto tempo a conhecia. Tenho uma pequena idéia a respeito. Peço apenas que me diga se estou certo ou errado. Tenho a impressão de que ele a viu pela primeira vez no dia em que foi à sua casa na Pont Street. Ah, estou vendo que acertei! Foi isso mesmo.

Virginia não disse nada. Pela primeira vez, sentiu algum temor daquele homem impassível e de rosto inexpressivo. Agora podia entender o que Anthony estava querendo dizer quando falou que o superintendente Battle não era um homem fácil de ser enganado.

– Ele lhe contou algum fato a respeito de sua vida, Sra. Revel? Por onde ele andou antes de ir parar na África do Sul? Estava no Canadá? Ou será que foi no Sudão? Contou-lhe algo a respeito de sua infância?

Virginia limitou-se a sacudir a cabeça negativamente.

– Contudo, Sra. Revel, não pode haver a menor dúvida de que ele deve ter muitas histórias que merecem ser contadas. Não é possível haver qualquer equívoco com o rosto de um homem que levou uma vida de aventura e destemor.

– Se está querendo saber algum fato a respeito do passado dele, por que não passa um cabograma para o seu amigo, Sr. McGrath? – sugeriu Virginia.

– Já o fizemos. Mas parece que o Sr. McGrath está no interior. Seja como for, é certo que o Sr. Cade estava realmente em Bulawayo, como disse. Mas eu gostaria de descobrir o que andava fazendo antes de aparecer na África do Sul. Estava trabalhando para a Castle há apenas um mês.

Battle tirou novamente o relógio do bolso, deu uma olhada e acrescentou:

– Tenho que ir agora. O carro já deve estar esperando.

Virginia ficou observando-o se afastar na direção da casa. Não saiu de onde estava, na esperança de que Anthony aparecesse. Em vez disso, quem apareceu foi Bill Eversleigh, com um bocejo prodigioso.

– Graças a Deus que finalmente tenho uma oportunidade de falar-lhe a sós, Virginia.

– Mas fale comigo gentilmente, Bill querido, caso contrário desatarei a chorar.

– Alguém por acaso a maltratou?

– Não se pode dizer exatamente que fui maltratada. Mas entraram em minha mente e viraram-na pelo avesso. Sinto-me como se tivesse sido pisoteada por um elefante.

– Foi Battle?

– Ele mesmo. Battle é um homem terrível.

– Não deve se preocupar com Battle. Eu a amo tanto, Virginia...

– Esta manhã, não, Bill. Não estou me sentindo bastante forte. Além do mais, já lhe disse que os verdadeiros cavalheiros não pedem uma mulher em casamento antes do almoço.

– Oh, Deus! Eu seria capaz de pedi-la em casamento antes mesmo do café da manhã!

Virginia estremeceu.

– Bill, seja sensato e inteligente por um momento. Gostaria de pedir-lhe um conselho.

– Se já tivesse se decidido e concordado em casar comigo, tenho certeza de que estaria se sentindo infinitamente melhor... mais feliz e mais tranqüila...

– Preste atenção, Bill. Pedir-me em casamento é sua idée fixe. Todos os homens costumam pedir uma mulher em casamento, quando estão entediados e não sabem o que mais dizer. Mas lembre-se da idade e da minha viuvez e procure amar uma mulher mais jovem e pura.

– Minha querida Virginia... Oh, diabo! Lá vem aquele francês idiota para cá!

Era realmente monsieur Lemoine quem se aproximava, de barba preta e impecável como sempre.

– Bom dia, madame. Está se sentindo muito fatigada?

– Absolutamente.

– Isso é ótimo! Bom dia, Sr. Eversleigh.

O francês fez uma rápida pausa, antes de sugerir:

– O que me dizem de nós três darmos um pequeno passeio?

– Vamos, Bill? – perguntou Virginia.

– Oh, está bem, está bem... – murmurou Bill, obviamente contrariado.

Ele se levantou da relva e os três puseram-se a andar, lentamente. Virginia ia no meio. Tinha percebido imediatamente uma intensa excitação no francês, embora não soubesse determinar a causa.

Com sua habilidade habitual, conseguiu logo deixá-lo à vontade, começou a formular perguntas e a escutar atentamente as respostas. Não demorou muito para que Lemoine começasse a contar histórias do famoso rei Victor. Havia uma certa amargura na voz dele, ao descrever as diversas maneiras pelas quais a polícia parisiense fora enganada pelo famoso ladrão.

Mas durante todo o tempo, apesar de Lemoine parecer inteiramente absorto na narrativa, Virginia teve a impressão de que era outro o objetivo que o detetive tinha em mente. Além disso, achou também que Lemoine, sob a cobertura de seu relato, estava seguindo um caminho premeditado pelo parque. Não estavam apenas passeando a esmo. O francês os levava para um local determinado.

Subitamente, Lemoine parou de falar e olhou ao redor. Estavam no ponto em que o caminho cruzava o parque, antes de uma curva fechada, e depois desaparecia por trás de um amontoado de árvores. Lemoine ficou olhando para um veículo que se aproximava, vindo da casa.

Virginia olhou também e comentou:

– É a carroça que está levando a bagagem e o criado particular de Isaacstein para a estação.

– É mesmo? – disse Lemoine, consultando o relógio, e acrescentou: – Mil perdões! Já fiquei aqui por mais tempo do que pretendia... uma companhia tão agradável! Será que eu conseguiria uma carona até a aldeia?

Ele saiu para o caminho e fez sinal para o cocheiro. A carroça parou. Depois de uma rápida explicação, Lemoine subiu atrás, levantou o chapéu para Virginia, polidamente, ao começar a se afastar.

Virginia e Bill ficaram parados, observando a carroça desaparecer, um tanto perplexos. No momento em que a carroça dobrava a curva do caminho, uma maleta caiu no chão. A carroça seguiu adiante.

– Vamos depressa! – disse Virginia para Bill. – Tenho a impressão de que vamos testemunhar alguma cena interessante. Aquela maleta não caiu por acaso, mas foi deliberadamente jogada.

– Ninguém notou nada – comentou Bill.

Os dois correram pelo caminho, na direção da maleta. No momento em que a alcançaram, Lemoine dobrou a curva, a pé. Estava vermelho de andar depressa e um tanto ofegante, mas comentou num tom alegre:

– Fui obrigado a descer. Descobri que tinha deixado uma coisa para trás.

– Isto? – indagou Bill, indicando a maleta.

Era uma bela maleta de pele de porco, com as iniciais H. I. gravadas.

– Mas que pena! – disse Lemoine, suavemente. – Deve ter caído num solavanco. Vamos tirá-la do caminho?

Sem esperar por uma resposta, ele pegou a maleta e levou-a para o meio das árvores. Abaixou-se com algo que refletia nas mãos. Um instante depois a maleta estava aberta.

Lemoine falou de novo, com uma voz totalmente diferente, rápida e autoritária:

– O carro deverá passar por aqui daqui a pouco. Já se pode avistá-lo?

Virginia olhou para a casa e respondeu:

– Não.

– Ótimo!

Com mãos extremamente hábeis, o francês tirou os objetos que estavam na maleta. Havia uma garrafa com tampa de ouro, pijamas de seda, diversos pares de meias. Subitamente, ele congelou. Tirou o que parecia ser uma trouxa de roupa de baixo de seda e desenrolou-a rapidamente.

Uma exclamação de espanto saiu dos lábios de Bill. No meio das roupas, havia um revólver de grosso calibre.

– Estou ouvindo a buzina – informou Virginia.

Como um relâmpago, Lemoine tornou a guardar tudo dentro da maleta. Pegou seu lenço de seda e enrolou o revólver com ele, guardando-o no bolso. Fechou a maleta e virou-se para Bill.

– Leve a maleta, junto com a madame. Pare o carro e explique que a maleta caiu no caminho. Não fale em mim.

Bill avançou rapidamente para o caminho, no instante em que a grande limusine Lanchester, levando Isaacstein, dobrava a curva. O motorista parou o carro e Bill entregou-lhe a maleta, dizendo:

– Caiu da carroça. Por sorte, estávamos passando por aqui e vimos.

Ele vislumbrou rapidamente o rosto pálido e surpreso do financista, antes que o carro novamente arrancasse, afastando-se. Os dois voltaram para junto de Lemoine, que segurava o revólver, com uma expressão de intenso regozijo.

– Um tiro no escuro... – murmurou ele. – Um tiro muito no escuro, mas que acertou em cheio...

 

22

O sinal vermelho

 

O superintendente Battle estava de pé na biblioteca de Wyvern Abbey.

George Lomax, sentado atrás de uma escrivaninha repleta de papéis, estava de rosto franzido, com uma expressão sombria.

O superintendente Battle iniciara a reunião com um relato sucinto e objetivo dos últimos acontecimentos. Desde então, a conversa estava quase que exclusivamente aos cuidados de George. Battle contentava-se em dar respostas lacônicas, em geral monossilábicas, às perguntas que lhe eram feitas.

Sobre a escrivaninha, diante de George, estava o maço de cartas que Anthony encontrara na cômoda de seu quarto.

– Não consigo entender mais nada – disse George, irritado, pegando novamente as cartas. – Disse que as cartas estão em código?

– Isso mesmo, Sr. Lomax.

– E onde foi que ele disse que as encontrou? Na cômoda?

Battle repetiu, palavra por palavra, o relato que Anthony Cade lhe fizera sobre a maneira como recuperara as cartas.

– E ele entregou-as imediatamente a você? Foi uma atitude das mais apropriadas... muito apropriada mesmo. Mas quem as teria deixado no quarto?

Battle sacudiu a cabeça.

– É o tipo de coisa que deveria saber – queixou-se George. – Está me parecendo uma história suspeita... muito suspeita mesmo. O que sabemos a respeito desse tal de Cade? Ele sempre aparece de maneira misteriosa, nas circunstâncias mais suspeitas... e nada sabemos a respeito dele. Devo dizer que, pessoalmente, as atitudes dele não me interessam em nada. Mas andou fazendo indagações a respeito de Cade, não foi?

O superintendente Battle permitiu-se um sorriso paciente.

– Passamos imediatamente um cabograma para a África do Sul. A história dele foi confirmada, em todos os pontos. Estava em Bulawayo com o Sr. McGrath, na ocasião em que assim o declarou. Antes desse encontro, trabalhava para a Castle, uma agência de turismo.

– Justamente o que se podia esperar – comentou George. – Ele possui o tipo de segurança ordinária que pode ser bem-sucedida em determinados empregos. Mas as cartas... temos que tomar providências imediatas... imediatas...

O grande homem bufou e avolumou-se de modo importante. O superintendente Battle abriu a boca para falar, mas George antecipou-se:

– Não pode haver nenhuma demora. As cartas devem ser decifradas sem perda de tempo. Deixe-me pensar... Quem é mesmo o homem? Sei que há um especialista nisso... ligado ao Museu Britânico. Conhece tudo sobre códigos. Dirigiu o departamento para nós, durante a guerra. Onde está a Srta. Oscar? Ela deve saber. O nome era Win... Win...

– Professor Wynwood – disse Battle.

– Exatamente. Estou lembrando agora. Devemos mandar-lhe um telegrama imediatamente.

– Já o fiz, Sr. Lomax, há cerca de uma hora. Ele deverá chegar no trem das 12h10.

– Muito bom, muito bom... Graças a Deus que pelo menos um problema me foi tirado da cabeça. Tenho que ir a Londres hoje. Acha que poderá continuar sem a minha ajuda?

– Acho que posso, senhor.

– Pois então faça o melhor possível, Battle, o melhor possível. Estou terrivelmente ocupado no momento.

– Está certo, senhor.

– Por falar nisso, por que o Sr. Eversleigh não veio junto com você?

– Ele ainda estava dormindo quando parti, senhor. Passamos a noite inteira acordados, conforme lhe contei.

– Ah, é mesmo, é mesmo... Freqüentemente também passo quase toda a noite acordado. Fazer o trabalho de 36 horas em apenas 24 horas... é isso o que constantemente tenho de fazer! Assim que voltar, Battle, pode fazer o favor de mandar Eversleigh para cá imediatamente?

– Darei o recado, senhor.

– Obrigado, Battle. Compreendo perfeitamente que precisasse depositar alguma confiança nele. Mas acha que era realmente necessário revelar os fatos à minha prima, a Sra. Revel?

– Já que era o nome dela que estava assinado nas cartas, Sr. Lomax, achei que era minha obrigação.

– Uma desfaçatez incrível – murmurou George, franzindo o rosto, a olhar para o maço de cartas. – Lembro-me do falecido rei da Herzoslováquia. Era um sujeito muito simpático, mas fraco... lamentavelmente fraco. Um simples joguete nas mãos de uma mulher inescrupulosa. Tem alguma teoria a respeito da maneira como as cartas voltaram às mãos do Sr. Cade?

– Tenho a opinião de que as pessoas, ao não conseguirem algo de um jeito... tentam de outro.

– Não estou entendendo, Battle.

– Esse criminoso, rei Victor, já deve saber que a Câmara do Conselho está sendo vigiada. Por isso, devolveu-nos as cartas, a fim de que possamos decifrá-las e encontrar o esconderijo. E depois... ele entrará em ação! Mas Lemoine e eu estaremos preparados.

– Quer dizer que tem um plano?

– Não chego a dizer que seja um plano. Mas tenho uma idéia. De vez em quando, é muito útil ter uma idéia.

Logo depois disso, o superintendente Battle foi embora. Não tinha a menor intenção de revelar seus esquemas a George.

Na volta para Chimneys, ele passou por Anthony na estrada e parou.

– Quer me dar uma carona até a casa? – perguntou Anthony.

– Seria ótimo!

– Onde esteve, Sr. Cade?

– Fui até a estação para indagar sobre os horários dos trens.

Battle franziu as sobrancelhas.

– Está pensando em nos deixar novamente, Sr. Cade?

– Não no momento – respondeu Anthony, rindo. – Por falar nisso, sabe por acaso o que deixou o Sr. Isaacstein tão transtornado? Ele chegou à estação de carro no instante em que eu saía e parecia bastante abalado.

– O Sr. Isaacstein?

– Exatamente.

– Não tenho certeza. Mas imagino que seria necessário um golpe e tanto para deixá-lo abalado.

– Concordo plenamente. Ele é um dos homens pálidos, fortes e silenciosos que controlam as nossas finanças.

Subitamente, Battle inclinou-se para a frente e bateu no ombro do motorista.

– Quer fazer o favor de parar? E fique esperando por mim aqui.

Ele saltou do carro, para surpresa de Anthony. Mas um instante depois, Anthony avistou monsieur Lemoine avançando para se encontrar com o detetive inglês. Calculou que fora um sinal dele que atraíra a atenção de Battle.

Houve uma rápida conversa entre os dois e depois Battle voltou para o carro e disse ao motorista que seguisse adiante. Sua expressão mudara inteiramente.

– Encontraram o revólver – disse ele, de maneira abrupta.

– O quê?

Anthony fitava-o com a maior perplexidade.

– Onde?

– Na maleta de Isaacstein.

– Mas é impossível!

– Nada é impossível. Eu devia ter-me lembrado disso.

Battle estava perfeitamente imóvel e seu único movimento era bater ligeiramente com a mão no joelho.

– Quem o encontrou?

Battle inclinou a cabeça para trás.

– Lemoine. É um sujeito esperto. Ele é muito estimado na Sûreté.

– Mas isso não contradiz todas as suas idéias?

– Não, não se pode dizer propriamente isso. Reconheço que, a princípio, fiquei um tanto surpreso. Mas o fato se ajusta perfeitamente a uma das minhas idéias.

– E que idéia é essa?

Mas o superintendente enveredou por um assunto totalmente diferente:

– Será que se incomodaria de procurar o Sr. Eversleigh para mim, senhor? Tenho um recado do Sr. Lomax para ele. Ele deve ir para Abbey imediatamente.

– Está certo – disse Anthony, no momento em que o carro parava diante da porta da casa. – Ele provavelmente ainda está na cama.

– Creio que não. Se olhar bem, poderá vê-lo passeando entre as árvores com a Sra. Revel.

– Tem bons olhos, hein, Battle? – comentou Anthony, afastando-se em seguida para cumprir a missão de que fora incumbido.

Deu o recado a Bill, que ficou devidamente irritado.

– Mas que diabo! – resmungou Bill para si mesmo, voltando para casa. – Por que Lomax não pode me deixar em paz de vez em quando? E por que esses malditos coloniais não podem permanecer nas Colônias? Para que eles querem vir aqui e conquistar as nossas melhores garotas? Já estou cansado de tudo!

Assim que Bill se afastou, Virginia perguntou a Anthony:

– Já ouviu falar do revólver?

– Battle me contou. Um fato surpreendente, não é mesmo? Isaacstein estava bastante assustado ontem, querendo ir embora o mais depressa possível. Mas pensei que fosse apenas nervosismo por tudo o que aconteceu aqui. Considerava-o a única pessoa acima de qualquer suspeita. Pode imaginar algum motivo para Isaacstein querer eliminar o príncipe Michael?

– Nenhum que justifique – concordou Virginia, pensativa.

– Toda essa história está muito estranha, nenhum fato parece se ajustar – comentou Anthony, visivelmente insatisfeito. – No início, imaginei que era um grande detetive amador e poderia desvendar tudo. Mas, até agora, tudo que consegui foi comprovar a inocência da governanta francesa, com grande esforço e alguma despesa.

– Para isso é que foi à França?

– Exatamente. Fui até Dinard e tive uma entrevista com a condessa de Breteuil, imensamente satisfeito com a minha própria esperteza, esperando que ela me dissesse que nunca ouvira falar de nenhuma mademoiselle Brun. Em vez disso, a informação que recebi foi de que mademoiselle havia sido o alicerce daquele lar durante os últimos sete anos. Assim, a menos que a condessa seja também uma criminosa, essa minha engenhosa teoria cai por terra.

Virginia sacudiu a cabeça.

– Madame de Breteuil está acima de qualquer suspeita. Conheço-a muito bem e tenho a impressão de que cheguei a ver mademoiselle no château. Sei que já conhecia o rosto dela... dessa maneira vaga como reconhecemos os rostos de governantas, damas de companhia e pessoas que viajam à nossa frente num compartimento de trem. É terrível, eu sei, mas a verdade é que nunca olho direito para essas pessoas. E você?

– Só olho bem quando são excepcionalmente bonitas.

– Neste caso... O que houve?

Anthony estava olhando para um vulto que emergira do meio das árvores e estava parado a alguma distância, imóvel, quase em posição de sentido. Era Boris, o herzoslovaco.

– Com licença – disse Anthony para Virginia. – Tenho que falar com o meu cachorro.

Ele se encaminhou para Boris.

– O que houve? Está querendo algo?

– Amo – disse Boris, fazendo uma mesura.

 

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– Está bem, está bem, só que não devia ficar me seguindo desse jeito. Parece muito esquisito.

Sem dizer nada, Boris tirou do bolso um pedaço de papel bem sujo, obviamente rasgado de uma carta, e entregou-o a Anthony.

– O que é isso? – indagou Anthony.

Havia um endereço rabiscado no pedaço de papel e mais nada.

– Ele deixou cair e eu trouxe para o amo.

– Quem deixou cair?

– O cavalheiro estrangeiro.

– Mas por que me trouxe isso?

Boris fitou-o com uma expressão de censura.

– Está bem, está bem... Mas pode ir embora agora. Estou ocupado.

Boris bateu continência, virou-se abruptamente e afastou-se. Anthony voltou para junto de Virginia, guardando no bolso o pedaço de papel. Ela perguntou, curiosa:

– O que ele queria? E por que o chamou de seu cachorro?

– Porque ele se comporta como um cachorro – Anthony falou, respondendo primeiro à última pergunta. – Deve ter sido um cachorro de verdade na encarnação anterior. Acaba de me trazer um pedaço de papel, dizendo que o cavalheiro estrangeiro deixou-o cair. Creio que está se referindo a Lemoine.

– Deve ser isso mesmo.

– Boris está sempre me seguindo. Como se fosse um cachorro fiel. Quase nunca diz nada. Simplesmente fica olhando para mim, com aqueles seus olhos redondos. Não consigo entendê-lo.

– Quem sabe se ele não estava se referindo a Isaacstein? – sugeriu Virginia. – Isaacstein tem cara de estrangeiro.

– Isaacstein... – repetiu Anthony, impaciente. – Onde será que ele entra na história?

– Está arrependido de ter-se envolvido neste caso? – indagou Virginia, inesperadamente.

– Arrependido? Mas claro que não! Ao contrário, estou adorando. Passei a maior parte da minha vida procurando encrencas. Talvez agora eu tenha encontrado um pouco mais do que podia querer.

– Mas agora você já está livre de dificuldades – comentou Virginia, um pouco surpresa com a inesperada seriedade de Anthony.

– Nem tanto.

Os dois andaram por mais de um minuto em absoluto silêncio, que foi finalmente rompido por Anthony:

– Há algumas pessoas que não se conformam com os sinais. Uma locomotiva comum, bem ajustada, diminui a velocidade ou pára quando avista um sinal vermelho à sua frente. Talvez eu tenha nascido cego para as cores. Quando avisto um sinal vermelho, não consigo deixar de seguir adiante. No fim, isso sempre acaba em desastre. É inevitável. E também justo. Esse tipo de atitude prejudica o tráfego em geral.

Anthony ainda estava extremamente sério. Virginia perguntou:

– Assumiu muitos riscos em sua vida?

– Praticamente todos, a exceção de um... o casamento.

– É uma atitude um tanto cética.

– Nem tanto. O casamento, o tipo de casamento a que estou me referindo, seria a maior de todas as aventuras.

– Gosto disso – murmurou Virginia, corando de ansiedade.

– Só há um tipo de mulher com quem eu gostaria de casar... o tipo que está a muitos mundos de distância da vida que eu levo. Mas o que iríamos fazer depois? Ela deveria se enquadrar na minha espécie de vida ou eu deveria adotar a vida dela?

– Se ela o amasse...

– É uma atitude sentimental, Sra. Revel. E sabe disso. O amor não é uma droga que pode ser tomada para ignorarmos inteiramente o ambiente que nos cerca. Pensando bem, isso talvez seja possível, mas é uma pena... porque o amor pode ser muito mais do que isso. O que acha que o rei e sua plebéia mendiga pensaram da vida de casados, depois de um ou dois anos de casamento? Será que ela não sentia saudade de seus andrajos, dos pés descalços e da vida despreocupada? Pode apostar que sim. E será que adiantaria alguma coisa ele renunciar ao trono por causa dela? Não adiantaria coisa alguma. Ele daria um péssimo mendigo, tenho certeza. E nenhuma mulher respeita um homem que está fazendo algo da pior forma possível.

– Por acaso se apaixonou por alguma mendiga, Sr. Cade? – indagou Virginia, suavemente.

– Comigo aconteceu justamente o inverso. Contudo, o princípio é o mesmo.

– E não há saída?

– Há sempre uma saída – respondeu Anthony, de maneira sombria.

– Tenho a teoria de que uma pessoa sempre pode conseguir o que deseja, desde que esteja disposta a pagar o preço. E sabe qual é o preço, em nove a cada dez vezes? A transigência. O que é uma coisa terrível, mas que sempre acaba se impondo a todos nós quando nos aproximamos da meia-idade. É o que está acontecendo comigo agora. Para conquistar a mulher que desejo, sou capaz... até mesmo de arrumar um trabalho regular.

Virginia soltou uma risada.

– Fui educado para exercer um determinado ofício – continuou Anthony.

– E abandonou-o?

– Exatamente.

– Por quê?

– Uma questão de princípio.

– Ahn...

– É uma mulher muito estranha – disse Anthony bruscamente, virando-se para fitá-la.

– Por quê?

– Consegue se abster de fazer perguntas.

– É porque não perguntei qual era o seu ofício?

– Exatamente.

Caminharam em silêncio por mais algum tempo. Estavam agora se aproximando da casa, passando pelas extremidades do roseiral, de onde vinha um aroma delicioso.

– Eu diria que você compreende os fatos muito bem – comentou Anthony, rompendo o silêncio. – Sabe quando um homem está apaixonado por você. Não creio que se interesse muito por mim... nem por qualquer outro homem, diga-se de passagem. Mas, por Deus, como eu gostaria de fazer com que se importasse!

– E acha que poderia? – perguntou Virginia, em voz baixa.

– Provavelmente não. Mas valeria a pena tentar.

– Está arrependido de ter-me conhecido?

– Mas claro que não! É o sinal vermelho outra vez. Quando a vi pela primeira vez, naquele dia na Pont Street, compreendi que estava diante de algo que ia doer um bocado. Seu rosto fez isso comigo... apenas seu rosto. Há magia em você, da cabeça aos pés... Algumas mulheres são assim, mas jamais conheci uma que tivesse tanta magia. Irá casar com algum homem respeitável e próspero. Enquanto isso, voltarei para a minha vida ignominiosa. Mas irei beijá-la uma vez antes de partir... juro que irei.

– Só que não pode fazê-lo agora – disse Virginia, suavemente. – É que o superintendente Battle está nos observando da janela da biblioteca.

Anthony fitou-a atentamente e disse com calma:

– Você é um verdadeiro demônio, Virginia. Mas também é um amor.

Depois, Anthony acenou para o superintendente Battle e gritou:

– Pegou muitos criminosos esta manhã, Battle?

– Ainda não, Sr. Cade.

– Mas parece esperançoso.

Com uma agilidade surpreendente para um homem tão corpulento, Battle pulou pela janela da biblioteca e foi se juntar aos dois no terraço.

– O professor Wynwood está aqui – anunciou ele, falando baixinho. – Chegou há poucos minutos. E já está decifrando as cartas. Gostariam de vê-lo em ação?

O tom dele sugeria o de um mestre-de-cerimônias a apresentar um espetáculo. Recebendo uma resposta afirmativa, levou-os até a janela e convidou-os a darem uma olhada.

Sentado à mesa, com as cartas espalhadas à sua frente e escrevendo rapidamente numa folha de papel grande, estava um homem pequeno, de meia-idade, com cabelo avermelhado. Resmungava sozinho, irritado, enquanto escrevia. De vez em quando, coçava o nariz vigorosamente, até que a cor deste ficasse quase igual à dos cabelos.

Dali a pouco levantou a cabeça.

– É você, Battle? Por que me trouxe aqui para decifrar essa bobagem? Uma criança de colo poderia fazê-lo. Um bebê de 2 anos conseguiria fazer isso de olhos fechados. Chama isso de código? O negócio salta aos olhos, meu caro!

– Fico contente em saber disso, professor – murmurou Battle, humildemente. – Mas nem todos somos tão espertos quanto o senhor.

– Não é preciso nenhuma esperteza para decifrar algo assim. Não passa de um trabalho de rotina. Quer que eu decifre todas as cartas? E um trabalho demorado, exige aplicação e atenção... e dispensa qualquer inteligência. Já decifrei a que tem o cabeçalho de “Chimneys” e que me disse ser importante. Posso levar as outras para Londres e entregar a um dos meus assistentes para decifrar. Eu mesmo não posso perder tempo com essas bobagens. Interrompi um trabalho realmente difícil para vir até aqui e quero voltar o mais depressa possível.

Os olhos do professor Wynwood brilhavam ligeiramente.

– Não há problema, professor – disse Battle. – Lamento muito que seja algo tão insignificante e fácil. Explicarei tudo ao Sr. Lomax. E essa carta era realmente a única da qual tínhamos urgência. Mas creio que lorde Caterham está esperando que fique para o almoço.

– Jamais almoço, Battle. É um péssimo hábito. Uma banana e uma bolacha de água e sal é tudo o que um homem sadio e saudável precisa comer no meio do dia.

Ele pegou o sobretudo, que deixara no encosto de uma cadeira. Battle deu a volta até a frente da casa. Poucos minutos depois, Anthony e Virginia ouviram o barulho de um carro se afastando.

Battle voltou a se juntar a eles, trazendo a folha de papel que o professor lhe dera.

– Ele é sempre assim – comentou Battle. – Nunca o vi sem pressa. Mas é um homem muito inteligente. Bom, aqui está o verdadeiro teor da carta de Sua Majestade. Não querem dar uma olhada?

Virginia pegou o papel e Anthony leu por cima do ombro dela. Ele se lembrava de que era uma carta longa e que transbordava de paixão e desespero. O gênio do professor Wynwood reduzira-a a um comunicado essencialmente prático e objetivo:

Operações realizadas com pleno sucesso, mas S. traiu-nos. Tirou a pedra do esconderijo. Não está no quarto dele. Já procurei. Mas encontrei o texto seguinte, que deve se referir à pedra: RICHMOND SETE RETO OITO ESQUERDA TRÊS DIREITA.

– S.? – Anthony falou. – Só pode ser Stylptitch. Era um velho astucioso. Mudou o esconderijo da pedra.

– Richmond... – murmurou Virginia, pensativa. – Será que o diamante está escondido em Richmond?

– É um dos lugares prediletos da realeza – comentou Anthony.

Battle sacudiu a cabeça.

– Continuo achando que é uma referência a algum lugar desta casa.

– Já sei! – exclamou Virginia, abruptamente. Os dois homens se viraram para fitá-la. – É o retrato de Holbein na Câmara do Conselho. Estavam batendo na parede logo abaixo. E o retrato é do conde de Richmond!

– É isso mesmo! – Battle concordou, dando um tapa na própria perna.

Ele falou com um entusiasmo inesperado.

– O quadro é o ponto de partida, mas os criminosos sabem tanto quanto nós a que se referem os números. As duas armaduras ficam diretamente por baixo do quadro e a primeira idéia deles foi a de que o diamante poderia estar escondido numa delas. Mas nada descobriram. A idéia seguinte deles foi a existência de uma passagem ou escada secreta, talvez um painel corrediço. Sabe algo a esse respeito, Sra. Revel?

Virginia sacudiu a cabeça.

– Sei que existe pelo menos uma câmara e uma passagem secretas. Tenho a impressão de que já me mostraram uma vez, mas não consigo me lembrar. Mas aí vem Bundle. Ela deve saber.

Bundle se aproximava pelo terraço, caminhando apressadamente. E informou:

– Vou para a cidade no Panhard logo depois do almoço. Alguém quer uma carona? Não gostaria de ir junto, Sr. Cade? Estaremos de volta na hora do jantar.

– Não, obrigado – respondeu Anthony. – Estou me sentindo bem e tenho muito o que fazer aqui.

Continuar: parte 8 de 9