O Segredo de Chimneys
Dedicatória
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.
George concordou prontamente. O superintendente tocou a sineta e Tredwell apareceu um instante depois. Retirou-se com as devidas instruções.
Não demorou a voltar, acompanhado por um homem alto e louro, de malares salientes, olhos azuis e um semblante impassível, quase rivalizando nisso com o de Battle.
– Boris Anchoukoff?
– Sou eu mesmo, senhor.
– Era o criado particular do príncipe Michael?
– Era, sim.
O homem falava um bom inglês, embora com um sotaque nitidamente estrangeiro.
– Já sabe que Sua Alteza foi assassinado ontem à noite?
Um rosnado profundo, que mais parecia um rosnado de um animal selvagem, foi a única resposta. George ficou alarmado e retirou-se prudentemente para junto da janela.
– Quando viu o príncipe pela última vez?
– Sua Alteza foi deitar às 22h30. Como sempre, dormi no quarto ao lado. Ele deve ter saído pela outra porta, a que dava diretamente para o corredor. Não o ouvi sair. É possível que eu estivesse drogado. Fui um servo infiel, pois dormi enquanto meu amo estava desperto. E por isso sou um homem amaldiçoado.
George fitava-o com uma expressão fascinada. Battle perguntou, observando-o atentamente:
– Quer dizer que era devotado a seu amo?
As feições de Boris se contraíram de maneira terrível. Ele engoliu em seco duas vezes. Quando finalmente falou, a voz saiu rouca de tanta emoção:
– Uma coisa eu lhe digo, policial inglês: eu teria morrido por meu amo! E já que ele está morto, enquanto eu continuo vivo, meus olhos não saberão o que é o sono e meu coração não conhecerá o repouso até que o tenha vingado. Como um cão, irei farejar a pista do assassino e, quando o descobrir... Ah!
Os olhos de Boris se iluminaram. Subitamente, ele arrancou uma imensa faca de debaixo do casaco e brandiu-a ameaçadoramente.
– Não vou matá-lo imediatamente... oh, não, nada disso!... Primeiro vou cortar-lhe o nariz, depois as orelhas, arrancarei os olhos e depois... depois, enfiarei a faca em seu coração tenebroso!
Boris tornou a guardar a faca e saiu da sala. George Lomax tinha os olhos sempre saltados, mas agora estavam extremamente esbugalhados, fixos na porta fechada.
– Um verdadeiro herzoslovaco... – murmurou ele. – Não são nada civilizados. Uma raça de salteadores.
O superintendente Battle levantou-se lentamente, comentando:
– Ou esse homem está sendo sincero ou é o melhor impostor que já conheci. E se a primeira hipótese é a correta, que Deus ajude o assassino do príncipe Michael quando esse sabujo humano finalmente encontrá-lo.
15
O estranho francês
Virginia e Anthony caminharam lado a lado pelo caminho que levava ao lago. Permaneceram calados por alguns minutos, depois de deixarem a casa. Foi Virginia quem pôs fim no silêncio, soltando uma risadinha e dizendo:
– Mas isso é terrível! Aqui estou eu, transbordando de fatos que quero lhe contar, ansiosa em saber de outros tantos... e simplesmente não sei por onde começar! Em primeiro lugar...
Virginia fez uma breve pausa. Ao voltar a falar, a voz estava consideravelmente mais baixa:
– O que fez com o cadáver? Ah, mas como isso parece pavoroso! Nunca pensei que um dia ainda fosse me envolver dessa maneira num crime!
– Imagino que seja uma sensação totalmente nova para você.
– E não é para você?
– Posso lhe assegurar de que nunca antes dei sumiço num cadáver.
– Pois conte-me exatamente o que fez.
Rapidamente, Anthony relatou tudo o que fizera na noite anterior. Virginia escutou atentamente e depois disse, quando ele terminou, em tom de aprovação:
– Acho que foi extremamente hábil. Posso pegar o baú em Paddington, quando voltar. O único problema é a possibilidade de lhe pedirem que explique onde esteve ontem à noite.
– Não creio que isso possa acontecer. O corpo não deve ter sido encontrado antes da madrugada, talvez até a descoberta só tenha ocorrido esta manhã. Se tivesse acontecido antes, a notícia já teria sido publicada pelos jornais matutinos. E apesar das noções que possa ter das leituras de histórias policiais, os médicos não são mágicos capazes de determinar há quantas horas exatamente um homem foi morto. O tempo exato da morte será bastante vago. E o máximo que podem me pedir será um álibi para o fim da noite e a madrugada. O que não será problema.
– Sei disso. Lorde Caterham já me contou tudo. Acha que o homem da Scotland Yard está realmente convencido da sua inocência?
Anthony não respondeu imediatamente e Virginia acrescentou:
– Ele não me parece muito inteligente.
– A única coisa que posso dizer é que o superintendente Battle não costuma deixar transparecer o que está pensando. Dá a impressão de estar convencido da minha inocência, mas não tenho certeza. No momento, ele está engasgado com a minha aparente falta de motivo.
– Aparente? Mas que possível motivo você poderia ter para assassinar um conde estrangeiro desconhecido?
Anthony fitou-a atentamente e perguntou:
– Já esteve na Herzoslováquia, não é mesmo?
– Já, sim. Passei dois anos lá com meu marido, na embaixada.
– Pelo que sei, foi pouco antes do assassinato do rei e da rainha. Encontrou-se alguma vez com o príncipe Michael Obolovitch?
– Michael? Mas claro! Era um patife da pior espécie! Certa ocasião, chegou mesmo a sugerir que fizéssemos um casamento morganático.
– É mesmo? E o que ele pensava fazer em relação ao seu marido?
– Tinha já pronto um plano no mesmo esquema de Davi e Urias.
– E como você reagiu a essa amável proposta?
– Infelizmente, era preciso usar de diplomacia. Por isso, não pude dizer claramente o que pensava da proposta. Seja como for, Michael não ficou muito feliz. Mas por que todo esse interesse súbito a respeito de Michael?
– É que estou começando a descobrir alguns fatos, aos tropeções, como de hábito. Por acaso encontrou-se pessoalmente com o homem assassinado?
– Não. Para dizer como nos livros, “ele se recolheu aos seus aposentos assim que chegou”.
– E também não viu o cadáver?
Virginia balançando a cabeça, fitando-o atentamente.
– E acha que poderia dar um jeito de ver?
– Com a minha influência nos altos escalões... ou seja, pedindo a lorde Caterham... eu diria que isso não seria difícil. Por quê? É uma ordem?
– Mas claro que não! – exclamou Anthony, horrorizado. – Será que pareço tão prepotente assim? O problema é bem simples: o conde Stanislau era, na verdade, o príncipe Michael, da Herzoslováquia, que veio aqui incógnito.
Os olhos de Virginia se arregalaram e ela murmurou:
– Estou entendendo...
Uma longa pausa e um sorriso fascinante se insinuou no rosto dela, antes que acrescentasse:
– Está por acaso insinuando que Michael retirou-se para seus aposentos simplesmente porque não queria me ver?
– Mais ou menos isso. Se acertei na suposição de que alguém desejava impedi-la de vir a Chimneys, o motivo, aparentemente, é o fato de já ter estado na Herzoslováquia. Já parou para pensar que é a única pessoa nesta casa que conhecia o príncipe Michael pessoalmente antes de sua vinda para a Inglaterra?
– Está querendo dizer que o homem assassinado era um impostor? – indagou Virginia, abruptamente.
– É uma possibilidade que me ocorreu. Se puder persuadir lorde Caterham a mostrar-lhe o cadáver, poderemos esclarecer essa questão imediatamente.
– Ele foi morto às 23h45, exatamente a hora que estava indicada naquele pedaço de papel – comentou Virginia, pensativa. O caso está me parecendo terrivelmente misterioso.
– Estou me lembrando de outra coisa. Aquela janela ali em cima, a segunda a partir do canto por cima da Câmara do Conselho, é a do seu quarto?
– Não. Meu quarto fica na ala elisabetana, no outro lado da casa. Por quê?
– Ontem à noite, quando eu me afastava, depois de ter a impressão de ouvir um tiro, vi a luz se acender naquele quarto.
– Mas que estranho! Não sei de quem é o quarto, mas posso descobrir, perguntando a Bundle. Será que a pessoa naquele quarto também ouviu o tiro?
– Se ouviu, não se apresentou para dizê-lo. Battle me disse que ninguém na casa havia ouvido o tiro. É a única pista que tenho, e reconheço que não é grande coisa, mas pretendo segui-la, na falta de outra melhor.
– É um fato realmente estranho... – murmurou Virginia, ainda pensativa.
Tinham chegado à garagem dos barcos, na beira do lago, e estavam conversando encostados nela.
– E agora vamos pegar um barco e remar até o meio do lago – disse Anthony. – Assim poderei contar-lhe toda a história, longe dos ouvidos atentos da Scotland Yard, de visitantes norte-americanos e de empregadas curiosas.
– Ouvi uma parte da história de lorde Caterham, mas não foi muita coisa. Para começar, quem é você realmente: Anthony Cade ou Jimmy McGrath?
Pela segunda vez naquela manhã, Anthony relatou a história das últimas seis semanas da sua vida, só que com uma diferença: o relato para Virginia não teve qualquer alteração ou omissão. E concluiu com o reconhecimento totalmente inesperado do “Sr. Holmes”.
– Por falar nisso, Sra. Revel, ainda não lhe agradeci por arriscar sua alma mortal ao dizer que eu era um velho amigo.
– Mas claro que você é um velho amigo! Por acaso estava pensando que eu ia impingir-lhe um cadáver e depois dar a entender que não passava de um mero conhecido, na próxima vez em que nos encontrássemos? Eu jamais faria isso!
Virginia fez uma rápida pausa, antes de continuar:
– Quer saber o que me impressiona em toda essa história? Há algum mistério naquelas memórias que nem sequer suspeitamos!
– Acho que tem razão. Mas há outra coisa que eu gostaria de lhe perguntar.
– E o que é?
– Por que ficou surpresa quando lhe falei ontem no nome de Jimmy McGrath, na Pont Street? Já tinha ouvido falar antes no nome do meu amigo?
– Já, sim, Sherlock Holmes. George... meu primo George Lomax, que já conheceu... foi me visitar e sugeriu uma porção de coisas absurdas. Propôs que eu viesse para Chimneys e envolvesse esse McGrath com meu charme, bancando a Dalila para arrancar-lhe as memórias do conde Stylptitch. É claro que não foi assim que ele apresentou a proposta. Falou uma porção de bobagens sobre as damas inglesas e coisas do gênero, mas o objetivo dele estava perfeitamente claro. Era o tipo de coisa escabrosa que se poderia esperar do pobre George. Mas como eu quis saber demais a respeito do caso, George tentou me afastar daqui com mentiras que não enganariam uma criança de 2 anos.
– Mas parece que, no fim das contas, o plano dele acabou dando certo – comentou Anthony. – Aqui estou eu, o James McGrath que ele tinha em mente, e você está se mostrando extremamente simpática comigo.
– Mas, infelizmente, para o pobre George, as memórias já não mais estão em seu poder. Agora eu também gostaria de fazer-lhe uma pergunta. Quando eu disse que não havia escrito aquelas cartas, você declarou que já sabia disso. Mas como podia saber?
Anthony sorriu.
– Não foi difícil. Tenho um bom conhecimento de psicologia.
– Está querendo dizer que chegou à conclusão de que eu possuía uma moral tão inabalável que era impossível...
Mas Anthony interrompeu-a, balançando a cabeça vigorosamente.
– Não é nada disso. Nada conheço a respeito de sua moral. Pode ter tido um amante e pode ter-lhe escrito cartas de amor. Mas a Virginia Revel daquelas cartas estava apavorada e não teria resistido à chantagem. Você, no entanto, estava disposta a lutar.
– Quem será a verdadeira Virginia Revel daquelas cartas? Onde ela estará? Tenho a sensação de que existe uma outra em algum lugar.
Anthony acendeu um cigarro.
– Sabia que uma daquelas cartas foi escrita de Chimneys?
– O quê? – disse Virginia, aturdida. – E quando foi escrita?
– Não estava datada. Mas não acha que é muito estranho?
– Tenho certeza absoluta de que nenhuma outra Virginia Revel jamais esteve em Chimneys. Se isso tivesse acontecido, Bundle ou lorde Caterham certamente teriam feito algum comentário a respeito da coincidência.
– É realmente muito estranho. Quer saber de uma coisa, Sra. Revel? Estou começando a descrer da existência dessa outra Virginia Revel.
– Ela parece de fato meio ilusória.
– Acho que até demais. Tenho a impressão de que a pessoa que escreveu aquelas cartas usou deliberadamente o seu nome.
– Mas por quê? Para que alguém iria fazer uma coisa dessas?
– É esse justamente o problema. Há muita coisa para se descobrir em toda essa história.
– Quem você acha que realmente matou Michael? – perguntou Virginia, de repente. – Os Camaradas da Mão Vermelha?
– É possível que eles sejam os culpados – respondeu Anthony, com uma voz que indicava claramente que tal solução não o satisfazia. – Um assassinato sem sentido seria típico deles.
– Mas vamos logo entrar em ação – disse Virginia. – Estou vendo lorde Caterham e Bundle dando uma volta juntos. A primeira providência é determinar imediatamente se o homem assassinado era ou não Michael.
Anthony remou até a beira do lago e poucos minutos depois eles se encontravam com lorde Caterham e a filha.
– O almoço está atrasado – comentou lorde Caterham, bastante deprimido.
– Só espero que Battle não tenha prendido a cozinheira.
– Esse é um amigo meu, Bundle – disse Virginia. – Seja amável com ele.
Bundle ficou olhando fixamente para Anthony, durante algum tempo, dirigindo-se em seguida a Virginia, como se ele não estivesse presente:
– Onde é que consegue arrumar esses homens tão atraentes, Virginia? – Como consegue essas coisas? – pergunta ela, invejosa.
– Pode ficar com ele – disse Virginia, generosamente. – Prefiro lorde Caterham.
Ela sorriu para o nobre lisonjeado, passou a mão pelo braço dele e os dois se afastaram.
– Você fala? – pergunta Bundle. – Ou é apenas um homem forte, atraente e silencioso?
– Se eu falo? Ora, eu balbucio, murmuro, suspiro... feito um papagaio. Às vezes, até mesmo faço perguntas.
– Como o que, por exemplo?
– Quem ocupa o segundo quarto a partir daquele canto? – Anthony apontou para a janela, enquanto falava.
– Mas que pergunta extraordinária! Devo dizer que me intriga cada vez mais. Aquele quarto... deixe-me pensar... ah, sim, é o quarto de mademoiselle Brun, a governanta francesa. Ela se esforça para manter minhas irmãs menores na linha. Dulcie e Daisy... como a canção que deve conhecer. Tenho a impressão de que a próxima filha iria receber o nome de Dorothy May. Mas mamãe se cansou de só ter filhas e morreu. Achou que outra mulher poderia assumir a incumbência de providenciar um herdeiro.
– Mademoiselle Brun... – repetiu Anthony, pensativo. – Há quanto tempo ela está com a família?
– Há dois meses. Foi contratada quando estávamos na Escócia.
– Hum... Estou sentindo o cheiro de algo estranho.
– Pois eu preferia sentir o cheiro do almoço. Acha que devo convidar o homem da Scotland Yard para almoçar conosco, Sr. Cade? É um homem vivido, conhece a etiqueta nesses casos. Nunca antes tivemos um assassinato em casa. Não acha emocionante? Confesso que fiquei um pouco desapontada quando foi inocentado esta manhã. Sempre desejei conhecer um assassino e verificar se é de fato tão amável e simpático como os jornais dominicais costumam descrever. Ei, mas o que é aquilo?
“Aquilo” parecia ser um táxi se aproximando da casa. Tinha dois passageiros, um homem alto e calvo, de barba preta, outro menor e mais jovem, de bigode preto. Anthony reconheceu o primeiro e calculou que fora ele e não o veículo que o transportava que arrancara a exclamação de espanto de Bundle.
– A menos que eu esteja enganado, é o meu velho amigo, o barão Lollipop.
– Barão o quê?
– Chamo-o de Lollipop por conveniência. A pronúncia do nome dele pode dar um nó na língua da gente.
– Quase quebrou o telefone esta manhã – comentou Bundle. – Quer dizer que aquele é o barão, hein? Estou com o pressentimento de que ele vai acabar caindo nas minhas mãos esta tarde... e já passei a manhã inteira agüentando Isaacstein. Mas que George faça o seu próprio trabalho sujo e que a política vá para o diabo! Desculpe por deixá-lo, Sr. Cade, mas tenho que dar o apoio de que meu pobre pai está precisando neste momento.
Bundle afastou-se rapidamente, voltando para a casa.
Anthony ficou parado, contemplando-a, pensativo. Depois, acendeu outro cigarro. E foi nesse momento que ouviu um ruído furtivo perto dele. Não estava muito longe da garagem de barcos e o ruído parecia vir do outro lado. A imagem mental que lhe ocorreu foi a de um homem tentando em vão conter um súbito espirro.
“Quem poderá estar escondido atrás da garagem de barcos?”, pensou Anthony. “O melhor é verificar logo de uma vez.”
E entrando em ação prontamente, ele jogou fora o fósforo que acabara de apagar e contornou rapidamente a garagem de barcos, sem fazer barulho.
Deparou com um homem que estava antes evidentemente ajoelhado e acabara de se levantar. Era alto, usava um sobretudo claro e óculos. No mais, tinha uma barba preta pontuda e uma atitude ligeiramente afetada. Situava-se na faixa entre 30 e 40 anos de idade. A aparência geral estava mais para a respeitável.
– O que está fazendo aqui? – perguntou Anthony.
Tinha certeza de que o homem não era um dos hóspedes de lorde Caterham.
– Desejo voltar à Jolly Cricketers e perdi-me no caminho – respondeu o estranho, com um sotaque nitidamente estrangeiro e o que obviamente buscava ser um sorriso cativante. – Monsieur poderia fazer a gentileza de indicar-me o caminho?
– Claro. Mas não chegará até lá pela água.
– Como? – murmurou o estranho, com o ar de quem se sentia inteiramente desorientado.
Olhando sugestivamente para a garagem de barcos, Anthony disse:
– Falei que não poderia chegar até lá pela água. Há um caminho pelo parque. Seja como for, o fato é que acabou invadindo uma propriedade particular.
– Lamento muito. Perdi-me completamente. E pensei em ir até a casa para pedir uma orientação.
Anthony absteve-se de comentar que se ajoelhar atrás de uma garagem de barcos era uma maneira um tanto estranha de indagar o caminho de volta à hospedaria. Segurou o estranho pelo braço e disse-lhe:
– Siga por ali. Contorne o lago e depois siga em frente direto. Não pode errar o caminho. Ao alcançá-lo, vire para a esquerda e chegará à aldeia. Está hospedado na Cricketers?
– Estou, monsieur. Cheguei lá esta manhã. Muito grato por sua gentileza em orientar-me.
– Não precisa agradecer. Espero que não tenha apanhado um resfriado.
– Como?
– Por ficar ajoelhado no chão úmido – explicou Anthony. – Tive a impressão de ouvi-lo espirrar.
– É bem possível que eu tenha mesmo espirrado.
– Aconselho-o a não tentar conter um espirro. Um dos nossos médicos mais eminentes outro dia mesmo fazia um comentário a esse respeito. É terrivelmente perigoso. Não me lembro exatamente do que pode acontecer... se é uma inibição ou um endurecimento das artérias. Seja o que for, não deve nunca fazê-lo. Muito bom dia.
– Bom dia e obrigado por ter-me indicado o caminho, monsieur.
Observando o homem se afastar, Anthony murmurou para si mesmo:
– É o segundo estranho suspeito que aparece na hospedaria da aldeia. E também não consigo situá-lo. A aparência é a de um viajante comercial francês. Não tem cara de ser um Camarada da Mão Vermelha. Será que representa um terceiro grupo na atormentada Herzoslováquia? A governanta francesa é que ocupa o quarto no qual a luz se acendeu na hora do crime. Um francês misterioso é encontrado a rondar furtivamente pela propriedade, escutando conversas que não eram destinadas aos seus ouvidos. O caso está se tornando cada vez mais misterioso.
Anthony voltou para a casa. No terraço, encontrou lorde Caterham, que parecia convenientemente deprimido, e os dois recém-chegados. O nobre animou-se um pouco ao ver Anthony e disse:
– Ah, ei-lo que volta! Deixe-me apresentá-lo ao barão... barão... e ao capitão Andrassy. Sr. Anthony Cade.
O barão olhou para Anthony, aturdido, com uma expressão de crescente suspeita.
– O Sr. Cade? Não, acho que não...
– Uma palavra a sós, barão, e poderei explicar-lhe tudo – pediu Anthony.
O barão fez uma pequena mesura e os dois se afastaram alguns metros pelo terraço.
– Coloco-me à sua mercê, barão. Sei que infringi a honra de um cavalheiro inglês, viajando para este país sob um nome falso. Disse-lhe que era o Sr. James McGrath, mas espero que compreenda que a fraude envolvida foi mínima. Conhece as obras de Shakespeare e os comentários dele a respeito da insignificância da nomenclatura das rosas? Pois este caso é o mesmo. O homem que desejava ver era o que estava de posse das memórias. Pois eu era esse homem. E agora, como sabe perfeitamente, não estou mais na posse das memórias. Um golpe muito hábil, barão, realmente hábil. Quem o orquestrou, você mesmo ou seu superior?
– A idéia foi de Sua Alteza. E a ninguém a não ser ele a execução do plano quis permitir.
– Pois ele se saiu muito bem. Jamais me passou pela cabeça que ele não fosse inglês.
– A educação de um cavalheiro inglês o príncipe recebeu – explicou o barão. – O costume da Herzoslováquia é esse.
– Nenhum profissional conseguiria arrancar-me as memórias com mais habilidade. Posso perguntar-lhe, sem indiscrição, o que aconteceu com as memórias?
– Entre cavalheiros...
– É muito generoso, barão – interrompeu-o Anthony. – Nunca fui chamado de cavalheiro tantas vezes quanto nas últimas 48 horas.
– Digo ao senhor isso... acho que as memórias queimadas foram.
– Acha... mas não tem certeza? É isso o que está querendo dizer?
– Sua Alteza com as memórias ficou. Seu propósito era ler e depois pelo fogo destruí-las.
– Entendo. Seja como for, não se tratava do tipo de literatura digestiva que se pode ler do princípio ao fim em meia hora.
– Entre os pertences de Sua Alteza martirizada as memórias não foram encontradas. É claro, portanto, que queimadas estão.
– Hum... Será mesmo?
Anthony ficou em silêncio por um momento, antes de continuar:
– Fiz todas essas perguntas, barão, porque estou implicado no crime, como já deve saber. E preciso estabelecer totalmente a minha inocência, a fim de que não haja mais qualquer suspeita contra mim.
– Indubitavelmente. Sua honra isso exige.
– Exatamente. Sabe expressar as situações muito bem, barão. Jamais tive essa capacidade. Mas permita que eu continue. Só posso estabelecer inteiramente a minha inocência se descobrir o verdadeiro assassino. Para isso, preciso saber de todos os fatos. A questão das memórias é muito importante. É possível que o motivo do crime tenha sido o roubo das memórias. O que me diz, barão? Acha por acaso que é uma possibilidade muito remota?
O barão hesitou por um momento, antes de finalmente indagar, cautelosamente:
– O senhor mesmo as memórias leu?
– Acho que já tenho a minha resposta – comentou Anthony, sorrindo. – Agora, barão, só desejo dizer-lhe mais uma coisa. Acho que é justo avisá-lo de que ainda pretendo entregar aquele manuscrito aos editores, na próxima quarta-feira, 13 de outubro.
O barão ficou desconcertado.
– Mas como, se as memórias não mais tem?
– Eu disse que tencionava entregá-las na próxima quarta-feira. Hoje é sexta-feira. Portanto, tenho cinco dias para recuperá-las.
– Mas se queimadas estiverem?
– Não creio que isso tenha acontecido. Tenho bons motivos para não acreditar nessa possibilidade.
Enquanto falavam, foram se aproximando do canto do terraço. Um vulto imenso encaminhou-se na direção deles. Anthony, que ainda não conhecera o grande Sr. Herman Isaacstein, fitou-o com considerável interesse.
– Ah, barão, mas que fato terrível foi acontecer logo agora! – disse Isaacstein, sacudindo o imenso charuto preto que estava fumando. – Algo realmente terrível.
– Meu bom amigo, Sr. Isaacstein, realmente terrível é! Todo o nosso nobre castelo em ruínas está!
Com o tato indispensável, Anthony deixou os dois a sós e começou a voltar pelo terraço. Parou de forma abrupta. Uma fina espiral de fumaça estava se elevando pelo ar, saindo aparentemente do meio da cerca viva de teixos.
“Deve haver um espaço no meio”, pensou Anthony. “Já ouvi falar dessas coisas.”
Ele olhou rapidamente para um lado e outro. Lorde Caterham estava na outra extremidade do terraço, junto com o capitão Andrassy, ambos de costas para ele. Anthony avançou, abaixou-se e foi se embrenhando pela cerca viva.
Acertara em sua suposição. A cerca de teixos não era na verdade uma só, mas duas, com uma passagem estreita a dividi-las. A entrada para essa passagem ficava no lado da casa. Não havia realmente nada de misterioso. Mas quem quer que a olhasse de frente, não teria imaginado tal possibilidade.
Anthony deu uma olhada na passagem estreita. Na metade do caminho para a abertura no lado da casa havia um homem refestelado em uma cadeira de vime. Um charuto pela metade repousava no braço da cadeira. O homem parecia estar dormindo.
“Hum, hum...”, pensou Anthony. “Parece evidente que o Sr. Hiram Fish prefere descansar à sombra.”
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16
Chá na sala de aula
Anthony voltou ao terraço com a sensação de que o único lugar seguro para conversas particulares, ali em Chimneys, era o meio do lago. Veio da casa o estrondo de um gongo e Tredwell apareceu, de maneira pomposa, saindo de uma porta lateral.
– O almoço está servido, milorde.
– Ah, finalmente! – exclamou lorde Caterham, reanimando-se um pouco.
Nesse momento, duas meninas saíram correndo da casa. Tinham 12 e 10 anos e eram bastante alvoroçadas. Podiam se chamar Dulcie e Daisy, como Bundle informara, mas eram mais conhecidas como Guggle e Winkle. Realizaram uma espécie de dança de guerra, intercalada com gritos estridentes, até que Bundle apareceu e silenciou-as.
– Onde está mademoiselle? – perguntou Bundle.
– Ela está com enxaqueca! – gritou Winkle, com um ar triunfante.
– Viva! – berrou Guggle.
Lorde Caterham conseguiu levar a maioria dos seus hóspedes para a casa. Pôs a mão no braço de Anthony e sussurrou-lhe:
– Vamos ao meu gabinete. Tenho algo muito especial lá.
Passando pela entrada furtivamente, mais como um ladrão do que como o dono da casa, lorde Caterham finalmente chegou ao seu santuário. Abriu um armário e tirou várias garrafas.
– Conversar com estrangeiros sempre me deixa com sede – explicou, como se pedisse desculpas. – Não sei por que isso acontece.
Houve uma batida na porta, que foi entreaberta, e Virginia apareceu.
– Tem um coquetel especial para mim?
– Claro, claro – respondeu lorde Caterham, de forma hospitaleira. – Vamos, entre logo.
Os minutos seguintes foram absorvidos por rituais extremamente sérios.
– Estava precisando disso – comentou lorde Caterham, com um suspiro, largando por fim o copo. – Como acabei de dizer, conversar com estrangeiros sempre me deixa extremamente fatigado. Deve ser porque eles são tão polidos. E agora vamos almoçar.
Ele saiu na frente, a caminho da sala de jantar. Virginia pôs a mão no braço de Anthony, fazendo-o retardar-se um pouco. E murmurou-lhe:
– Já fiz minha boa ação hoje. Persuadi lorde Caterham a levar-me para ver o cadáver.
– E então? – perguntou Anthony, ansioso.
Uma de suas teorias estava para ser confirmada ou refutada.
Virginia balançou a cabeça.
– Você estava enganado. É mesmo o príncipe Michael.
– Oh, não! – exclamou Anthony, desolado, para acrescentar um instante depois, com um tom de insatisfação:
– E mademoiselle está com enxaqueca!
– E o que tem isso a ver com o caso?
– Provavelmente nada, mas eu gostaria de falar com ela. Descobri que mademoiselle é que ocupa o segundo quarto a partir da extremidade... o quarto onde vi a luz se acender.
– E acha que isso pode ser importante?
– Provavelmente não, mas mesmo assim eu gostaria de conversar com mademoiselle antes de o dia terminar.
O almoço foi uma verdadeira provação. Nem mesmo a animada imparcialidade de Bundle conseguira conciliar o grupo heterogêneo. O barão e Andrassy estavam solenes, formais, respeitando a etiqueta, dando a impressão de que faziam a refeição em um mausoléu. Lorde Caterham estava apático e deprimido. Bill Eversleigh não desviava os olhos anelantes de Virginia. George, consciente da posição difícil e delicada em que se encontrava, conversava solenemente com o barão e com o Sr. Isaacstein. Guggle e Winkle, quase delirando de alegria porque um assassinato fora cometido na casa, tinham que ser contidas a todo instante. O Sr. Hiram Fish mastigava lentamente e de vez em quando fazia algum comentário seco, em seu idioma peculiar. O superintendente Battle tivera a consideração de sumir e ninguém sabia o que fora feito dele.
Ao deixarem a mesa, Bundle murmurou para Anthony:
– Graças a Deus que terminou! E George vai levar o contingente estrangeiro para Abbey esta tarde, a fim de discutirem segredos de Estado.
– Creio que isso vai aliviar o ambiente consideravelmente – concordou Anthony.
– O norte-americano não me incomoda muito. Ele e papai podem perfeitamente conversar sobre primeiras edições em algum canto isolado.
O norte-americano se aproximou naquele momento e Bundle acrescentou:
– Sr. Fish, estava pensando em proporcionar-lhe uma tarde tranqüila.
O norte-americano fez uma mesura.
– É muita bondade sua, lady Eileen.
– O Sr. Fish teve uma manhã das mais tranqüilas – comentou Anthony.
O Sr. Fish olhou para ele.
– Quer dizer que me viu no meu refúgio isolado, hein? Há ocasiões, meu caro senhor, em que ficar longe da multidão furiosa é a única solução para um homem que aprecia a tranqüilidade.
Bundle tinha se afastado e Anthony estava agora a sós com o norte-americano. O Sr. Fish baixou a voz para dizer:
– Tenho a impressão de que há muitos mistérios por aqui.
– E está com toda razão.
– Aquele homem calvo por acaso está ligado à família do falecido?
– É mais ou menos isso.
– Essas nações da Europa Central são realmente extraordinárias! Ouvi o rumor de que o cavalheiro falecido era uma alteza real. Sabe se isso é verdade?
– Ele estava hospedado aqui como conde Stanislau – respondeu Anthony, de maneira evasiva.
A reação do Sr. Fish foi uma exclamação totalmente enigmática:
– Oh, boy!
Depois disso, ele ficou em silêncio por um longo tempo, antes de finalmente comentar:
– Esse capitão de polícia de vocês, Battle ou algum nome parecido... ele é mesmo bom?
– A Scotland Yard acha que sim – respondeu Anthony, de forma seca.
– Pois a mim ele parece um tipo meio tacanho. Não dá a impressão de ser dos bons. E essa grande idéia dele, de não deixar ninguém ir embora desta casa, qual o motivo?
O norte-americano olhava atentamente para Anthony enquanto falava.
– É que todo mundo tem que comparecer ao inquérito preliminar, que deverá ser realizado amanhã de manhã.
– Então é por isso? Somente isso? Quer dizer que nenhum dos hóspedes de lorde Caterham é suspeito?
– Ora, meu caro Sr. Fish!
– Eu estava começando a ficar um pouco inquieto... afinal, sou um estrangeiro neste país. Mas é claro que o crime foi cometido por alguém de fora... estou lembrando agora. Uma das janelas estava destrancada, não é mesmo?
– Estava, sim – confirmou Anthony, olhando para a frente, fixamente.
O Sr. Fish suspirou. Depois de um momento de silêncio, ele voltou a falar, em tom queixoso:
– Meu jovem, sabe por acaso como se tira água de uma mina?
– Como?
– Bombeando-se... mas é um trabalho terrivelmente árduo! Estou observando o nosso jovial anfitrião se desligar do grupo ali adiante. Tenho de ir ao encontro dele.
O Sr. Fish afastou-se e Bundle voltou a se aproximar de Anthony.
– Um sujeitinho engraçado, não é mesmo? – comentou ela.
– Tem razão.
– Não adianta procurar por Virginia, Sr. Cade.
– Não estava procurando.
– Estava, sim. Não sei como Virginia consegue isso. Não é o que ela diz, acredito que também não seja a aparência dela. Mas o fato é que sempre acaba conseguindo. Seja como for, Virginia está neste momento ocupada por aí. Ela me disse que o tratasse com toda amabilidade e é justamente o que vou fazer... nem que tenha de recorrer à força.
– Não será necessário, minha cara. Mas, se não se importa, eu preferia que fosse amável comigo lá no lago, dentro de um bote.
– Não é uma má idéia – concordou Bundle, pensativa.
Os dois seguiram para o lago. Remando gentilmente, afastando o bote da margem, Anthony disse:
– Há uma pergunta que eu gostaria de fazer a você antes de passarmos a temas realmente interessantes. Os negócios antes do prazer.
– O quarto de quem você deseja conhecer agora? – indagou Bundle, no tom de quem começava a perder a paciência.
– No momento, não estou interessado em saber do quarto de ninguém. Mas eu gostaria de saber onde conseguiu a governanta francesa.
– Oh, Deus, mas o homem é sempre surpreendente! Consegui-a por intermédio de uma agência; pago a ela 100 libras por ano e o primeiro nome dela é Geneviève. Deseja saber mais alguma coisa?
– E ela apresentou referências?
– Mas que coisa! Ela passou dez anos com a condessa Sei-lá-o-quê.
– Que condessa?
– Deixe-me pensar... Ah, sim, a condessa de Breteuil, Château de Breteuil, Dinard.
– Chegou a falar pessoalmente com a condessa ou simplesmente confirmou as referências por carta?
– Claro que foi tudo por carta.
– Hum...
– Está me deixando cada vez mais intrigada. É amor ou crime?
– Provavelmente pura idiotice da minha parte. Vamos esquecer.
– Vamos esquecer – disse ele, negligentemente, depois de ter arrancado a informação que desejava. – De quem está desconfiando, Sr. Cade? Da minha parte, suspeito de Virginia por ser a mais improvável. Ou talvez Bill.
– E o que me diz de você mesma?
– Uma jovem representante da aristocracia se une secretamente aos Camaradas da Mão Vermelha. Tenho certeza de que a notícia iria causar a maior sensação.
Anthony não pôde conter uma risada. Gostava de Bundle, embora tivesse algum receio da astúcia que percebia nos olhos castanhos e penetrantes que o fitavam atentamente.
– Deve se sentir muito orgulhosa por tudo isso – comentou ele, subitamente, acenando com a mão na direção da casa distante.
Bundle semicerrou os olhos e inclinou a cabeça ligeiramente para o lado.
– É... acho que tudo isso deve significar algo. Mas a verdade é que a gente acaba se acostumando. Seja como for, não passamos muito tempo aqui... é um lugar insípido demais. Passamos o verão inteiro em Cowes e Deauville e depois fomos para a Escócia. Chimneys passou quase cinco meses coberta por lençóis para protegê-la da poeira. Uma vez por semana, os lençóis eram removidos e bandos de turistas basbaques davam uma volta pela casa, ouvindo Tredwell dizer: “À direita, podem ver o retrato da quarta marquesa de Caterham, pintado por sir Joshua Reynolds.” E sempre há um engraçadinho no grupo, um Ed ou um Bert qualquer, que cutuca a namorada e diz: “Ei, Gladys, eles têm aqui uns bonecos tão engraçadinhos!” E eles continuam a ver os retratos, abafando os bocejos e arrastando os pés, torcendo para chegar logo a hora de irem embora.
– Mas, pelo que dizem, já se fez história em Chimneys, em mais de uma ocasião.
– Estou vendo que andou ouvindo George – comentou Bundle, bruscamente. – É o tipo de coisa que ele vive dizendo.
Anthony soergueu-se de repente, olhando para a praia.
– Não é um terceiro estranho suspeito que está parado lá na margem, ao lado da garagem de barcos, com um ar desconsolado? Ou será que é um dos hóspedes?
Bundle levantou a cabeça da almofada vermelha para olhar.
– Aquele é Bill.
– Parece que ele está procurando por alguma coisa.
– Provavelmente está à minha procura – murmurou Bundle, sem muito entusiasmo.
– Vamos remar rapidamente na direção oposta?
– Essa é a resposta correta, mas deveria ser dita com mais entusiasmo.
– Remarei com um vigor redobrado, depois dessa censura.
– Nada disso. Também tenho orgulho. Vamos até o lugar em que aquele jovem está esperando. Acho que alguém tem de cuidar dele. Virginia deve tê-lo desiludido. Um dia desses, por mais incrível que possa parecer, pode me dar uma vontade súbita de casar com George. Assim sendo, é melhor eu começar logo a praticar a arte de ser “uma das nossas mais conhecidas anfitriãs políticas”.
Obedientemente, Anthony remou na direção da margem.
– E o que será de mim? – indagou ele, em tom queixoso. – Recuso-me a ser a terceira e indesejável pessoa. São as meninas que estou vendo lá adiante?
– Exatamente. Mas tome cuidado ou elas acabarão atraindo-o irremediavelmente.
– Até que gosto de crianças. Poderia ensinar às duas alguma brincadeira intelectual.
– Depois não diga que não o avisei.
Depois de entregar Bundle aos cuidados do desconsolado Bill, Anthony encaminhou-se para o lugar em que gritos estridentes estavam perturbando a tranqüilidade da tarde. Foi recebido com palmas e Guggle perguntou-lhe:
– Sabe brincar de pele-vermelha?
– Um pouco. Devia ouvir o barulho que faço quando estou sendo escalpelado. É mais ou menos assim.
E ele fez uma demonstração.
– Não está muito ruim – disse Winkle, um tanto relutante. – Mas agora eu gostaria de ouvir o grito do escalpelador.
Anthony atendeu ao pedido, soltando um grito de fazer gelar o sangue nas veias. Um minuto depois, a brincadeira de pele-vermelha estava a pleno vapor.
Cerca de uma hora depois, Anthony enxugou o suor da testa e se arriscou a indagar sobre a enxaqueca de mademoiselle. Ficou satisfeito ao ser informado de que ela já se recuperara inteiramente. Àquela altura, Anthony já se tornara tão popular que foi insistentemente convidado a tomar chá com as meninas na sala de aula.
– E depois pode nos contar a história do homem que viu ser enforcado – disse Guggle.
– Não disse que tinha um pedaço da corda? – indagou Winkle.
– Está na minha mala – declarou Anthony, solenemente. – Darei um pedaço para cada uma.
No mesmo instante, Winkle soltou um estridente grito índio de satisfação. E Guggle disse, desolada:
– E agora temos que ir, a fim de nos lavarmos para o chá. Não vai se esquecer de ir tomar o chá conosco?
Anthony jurou solenemente que nada o impediria de atender ao compromisso. Satisfeitas, as duas meninas voltaram apressadamente para a casa. Anthony ficou parado por um momento, contemplando-as. De repente, divisou um homem saindo de trás de alguns arbustos e afastando-se rapidamente pelo parque. Teve quase certeza de que era o mesmo estranho de barba preta que encontrara naquela manhã. Enquanto hesitava, sem saber se deveria ou não ir atrás dele, os arbustos diretamente à sua frente se entreabriram e o Sr. Hiram Fish apareceu. Ele estremeceu ligeiramente ao deparar com Anthony.
– Teve uma tarde tranqüila, Sr. Fish?
– Tive sim, obrigado.
Mas o Sr. Fish não parecia tão tranqüilo como de costume. O rosto estava vermelho e a respiração era ofegante, como se tivesse acabado de correr. Tirou o relógio do bolsinho, consultou-o e comentou suavemente:
– Acho que está na hora da afamada instituição britânica do chá da tarde.
Fechando o relógio bruscamente, o Sr. Fish tornou a guardá-lo no bolsinho e afastou-se, seguindo na direção da casa.
Anthony ficou imóvel por algum tempo, só despertando de seus devaneios com um sobressalto, ao descobrir que o superintendente Battle estava ao seu lado. Absolutamente nenhum ruído anunciara a aproximação dele e parecia até que ele, literalmente, se materializara de forma súbita em pleno ar.
– De onde é que você surgiu? – perguntou Anthony, irritado.
Com um movimento de cabeça, Battle indicou os arbustos atrás deles. Anthony comentou:
– Parece que se trata de um lugar extremamente popular esta tarde.
– Estava imerso em pensamentos, Sr. Cade?
– Estava, sim. E quer saber mesmo o que eu fazia, Battle? Estava tentando somar dois mais um e cinco mais três para conseguir quatro. E isso não é possível, Battle, simplesmente não é possível...
– Tais dificuldades são sempre inevitáveis.
– Estava mesmo querendo falar com você, Battle. Gostaria de sair daqui. Vai ser possível?
Sempre firme em seu credo, o superintendente Battle não demonstrou qualquer emoção ou surpresa. Sua resposta foi tranqüila, quase indiferente:
– Isso depende, senhor, do lugar para onde deseja ir.
– Vou lhe dizer exatamente, Battle. Porei minhas cartas na mesa. Quero ir a Dinard, ao castelo de madame condessa de Breteuil. É possível?
– E quando deseja partir, Sr. Cade?
– Digamos amanhã, depois do inquérito. Posso estar de volta no fim da tarde de domingo.
– Entendo – murmurou o superintendente, calmamente.
– E então, o que me diz?
– Não tenho a menor objeção, contanto que vá para onde está dizendo e depois volte diretamente para cá.
– É um homem extraordinário, Battle. Ou tomou-se de simpatias por mim ou então é mais esperto do que jamais imaginei. Qual das duas hipóteses é a verdadeira?
O superintendente Battle limitou-se a sorrir, sem responder.
Anthony acrescentou:
– Mas já estou esperando que tome as suas precauções. Certamente os agentes da lei irão seguir meus passos, discretamente. Está certo, não há problema. Mas eu bem que gostaria de saber do que tratava.
– Não estou entendendo, Sr. Cade.
– As memórias, Battle... por que tanta confusão em torno delas? Eram apenas memórias? Ou será que sabe de algo que eu ignoro?
Battle tornou a sorrir.
– Vamos ser práticos, Sr. Cade. Estou lhe fazendo um favor, porque me causou uma impressão favorável. Gostaria que trabalhasse junto comigo neste caso. O amador e o profissional podem se completar perfeitamente. Um conta com a possibilidade de um acesso mais íntimo às pessoas, o outro dispõe da experiência.
– Não me importo em admitir que sempre desejei ter a oportunidade de desvendar um crime misterioso.
– Tem algumas idéias a respeito do caso, Sr. Cade?
– Tenho muitas... mas quase todas são simplesmente perguntas.
– Por exemplo?
– Quem vai tomar o lugar de Michael? Não acha que isso é importante?
Um sorriso um tanto contrafeito se esboçou no rosto do superintendente Battle.
– Já estava esperando que pensasse nisso, senhor. O príncipe Nicolau Obolovitch, primo do cavalheiro assassinado, é o herdeiro seguinte do trono da Herzoslováquia.
– E onde ele está neste momento? – perguntou Anthony, virando a cabeça ligeiramente para acender um cigarro. – E não venha me dizer que não sabe, Battle, porque não acreditarei.
– Temos razões para acreditar que ele se encontra nos Estados Unidos. Ou pelo menos estava, até recentemente, levantando recursos para apoiar sua reivindicação ao trono.
Anthony deixou escapar um assovio de surpresa e depois disse:
– Estou começando a perceber tudo. Michael era apoiado pela Inglaterra, Nicolau, pelos norte-americanos. Nos dois países há financistas ansiosos para obter as concessões para a exploração do petróleo herzoslovaco. O Partido Lealista adotou Michael como seu candidato. Agora, terão que procurar outro. Isaacstein e o Sr. George Lomax estão desolados, reina a alegria em Wall Street. É isso mesmo?
– Não está muito longe da verdadeira situação.
– Ahn... Tenho a impressão de que sei muito bem o que estava fazendo atrás daqueles arbustos.
O detetive novamente limitou-se a sorrir, sem responder.
– A política internacional é algo fascinante, meu caro Battle, mas prefiro deixá-la aos seus cuidados. Agora, se me dá licença, tenho um encontro marcado na sala de aula.
Anthony afastou-se rapidamente, voltando para a casa. Perguntou ao solene Tredwell, que lhe indicou o caminho para a sala de aula. Bateu na porta e entrou, sendo recebido com gritos estridentes de alegria. Guggle e Winkle prontamente correram em sua direção e quase o arrastaram para ser apresentado a mademoiselle.
Pela primeira vez, Anthony sentiu uma apreensão. Mademoiselle Brun era uma mulher pequena, de meia-idade, rosto pálido, cabelos grisalhos. Tinha até buço!
Ela não se ajustava absolutamente à imagem de uma aventureira estrangeira.
E Anthony pensou: “Acho que estou bancando o tolo. Mas agora não importa. Tenho que ir até o fim de qualquer maneira.”
Ele tratou mademoiselle com toda amabilidade e ela, por sua vez, ficou visivelmente deliciada pela presença de um homem ainda jovem e de boa aparência em sua sala de aula. O chá foi um sucesso absoluto.
Mas naquela noite, sozinho no quarto que lhe fora designado, Anthony sacudiu a cabeça por diversas vezes, pensando: “Estou errado. Pela segunda vez, descubro que estou enganado. Não consigo fincar o pé neste caso.”
Ele parou de andar pelo quarto de repente e murmurou:
– Mas que diabo...
Não continuou, ao verificar que a porta estava sendo realmente aberta. Um instante depois, um homem havia entrado no quarto e estava parado junto à porta, numa atitude deferente. Era alto, corpulento, os malares salientes típicos de um eslavo, os olhos vagos de um fanático.
– Mas quem diabo é você? – indagou Anthony, aturdido.
O homem respondeu num inglês perfeito:
– Sou Boris Anchoukoff.
– O criado do príncipe Michael?
– Exatamente. Servi ao meu amo. Ele está morto. E agora sirvo ao senhor.
– É muita gentileza da sua parte, mas acontece que não estou querendo um criado de quarto.
– É meu amo agora. Irei servi-lo fielmente.
– Mas... mas... escute aqui, não estou precisando de um criado. E não tenho condições de pagar seus serviços.
Boris Anchoukoff fitou-o com uma ligeira expressão de desdém.
– Não estou pedindo dinheiro. Servi ao meu amo. E agora irei servi-lo... até a morte.
Avançando rapidamente, ele abaixou-se, apoiado num dos joelhos, pegou a mão de Anthony e colocou-a sobre sua testa. Depois levantou-se de forma abrupta e saiu do quarto, tão subitamente quanto chegara.
Anthony ficou olhando para a porta, perplexo. Seu rosto era a própria máscara do espanto.
– Mas que coisa mais estranha... – murmurou ele, para si mesmo. – Um criado fiel, assim como um cachorro fiel. Esses sujeitos têm os instintos mais estranhos...
Anthony recomeçou a andar de um lado para outro do quarto e um instante depois voltou a murmurar para si mesmo:
– Seja como for, é muito estranho... e constrangedor...
17
Uma aventura à meia-noite O inquérito preliminar foi realizado na manhã seguinte. Foi totalmente diferente dos inquéritos descritos pela ficção mais sensacionalista. Até mesmo George Lomax ficou satisfeito com a supressão de todos os detalhes mais importantes. O superintendente Battle e o magistrado encarregado do inquérito, com o apoio do chefe da polícia local, conseguiram reduzir o inquérito ao nível mais baixo de tédio.
Assim que o inquérito preliminar foi encerrado, Anthony partiu discretamente.
Sua partida foi um dos raros momentos de alegria para Bill Eversleigh naquele dia. George Lomax, obsedado pelo temor de que algo prejudicial ao seu departamento pudesse vazar, estava sendo por demais exasperante. Miss Oscar e Bill tinham que estar a toda a sua disposição. Mas tudo o que era útil e importante ficava aos cuidados de miss Oscar. A parte que cabia a Bill era simplesmente correr de um lado para outro levando incontáveis mensagens, decifrar telegramas e escutar George se repetir interminavelmente.
Foi um Bill totalmente exausto que se retirou para o seu quarto, na noite de sábado. Durante o dia inteiro não tivera praticamente a menor oportunidade de falar com Virginia, por causa das exigências de George. Sentia-se lesado e injuriado. Graças a Deus que aquele sujeito das colônias fora embora. Ele quase monopolizara a companhia de Virginia. E é claro que se George Lomax continuasse a bancar o idiota daquele jeito... A mente fervilhando de ressentimentos, Bill por fim adormeceu. E, nos sonhos, encontrou algum conforto. É que sonhou com Virginia.
Foi um sonho de heroísmo. Uma casa estava em chamas e ele, Bill, desempenhava o papel do galante salvador. Trazia Virginia do último andar em seus braços. Ela estava inconsciente. Deitava-a na relva com extremo cuidado. E depois se afastava, à procura de um pacote de sanduíches. Era da maior importância que encontrasse os sanduíches. Estavam com George. Mas em vez de entregá-los, George começou a ditar telegramas. Estavam agora na sacristia de uma igreja e Virginia podia chegar a qualquer momento para se casar com ele. Oh, mas que horror! Ele estava de pijama. Devia ir para casa imediatamente e vestir roupas apropriadas. Correu para o carro. Mas o carro não queria pegar. Não tinha gasolina! Bill estava ficando cada vez mais desesperado. E foi nesse momento que um ônibus imenso se aproximou e parou. Virginia saltou, de braço dado com o barão careca. Ela estava deliciosamente tranqüila e delicadamente vestida de cinza. Aproximou-se dele e sacudiu-o pelos ombros alegremente.
– Bill! Oh, Bill!
Ela sacudiu-o com mais força ainda.
– Bill! Acorde! Oh, Bill, acorde logo!
Aturdido, Bill acordou. Estava em seu quarto, em Chimneys. Mas uma parte do sonho ainda estava com ele. Virginia ali estava, inclinada sobre a cama, repetindo as mesmas palavras, com algumas variações ligeiras.
– Acorde, Bill! Oh, acorde, por favor, Bill!
– Olá! – disse Bill, sentando na cama. – Qual é o problema? Virginia deixou escapar um suspiro de alívio.
– Graças a Deus! Pensei que você nunca mais fosse acordar. Estou sacudindo-o há horas! Já está bem acordado?
– Acho que sim – murmurou Bill, ainda em dúvida.
– Ah, seu preguiçoso! Não imagina o trabalho que me deu! Meus braços estão até doendo de tanto sacudi-lo!
– Os insultos são desnecessários – disse Bill, com um ar de dignidade ofendida. – Permita que lhe diga, Virginia, que considero o seu comportamento dos mais inconvenientes. Não é assim que uma viúva jovem e pura deve se comportar.
– Não banque o idiota, Bill. Uma porção de coisas está acontecendo.
– Que espécie de coisas?
– Coisas estranhas. Na Câmara do Conselho. Pensei ter ouvido uma porta bater em algum lugar da casa e resolvi descer para dar uma olhada. Vi que a luz estava acesa na Câmara do Conselho. Avancei pelo corredor sem fazer barulho e espiei por uma fresta na porta. Não deu para ver muita coisa, mas o que avistei era tão extraordinário que senti vontade de ver um pouco mais. E foi nesse momento que, subitamente, senti necessidade de ter um homem grande e forte ao meu lado. E como você era o homem maior e mais forte de que pude me lembrar, vim até aqui para chamá-lo. Mas há séculos que estou tentando acordá-lo.
– E o que está querendo que eu faça agora? Que me levante e me atraque com os ladrões?
Virginia franziu as sobrancelhas.
– Não tenho certeza se são mesmo assaltantes, Bill. É muito estranho. Mas não vamos mais perder tempo conversando. Levante-se logo de uma vez!
Bill saiu da cama, obedientemente.
– Espere um pouco enquanto calço as botas... as grandes, com biqueiras de ferro. Por mais forte que eu seja, não pretendo enfrentar criminosos calejados com os pés descalços.
– Gosto do seu pijama, Bill – comentou Virginia, pensativa. – Consegue ser vistoso sem vulgaridade.
– Já que estamos falando do assunto – disse Bill, pegando a segunda bota –, também gosto disso que você está usando. É um lindo tom de verde. Como se chama isso? Não é apenas um chambre, não é mesmo?
– É um négligé. E fico contente por verificar que tem levado uma vida casta, Bill.
– Não é verdade! – reagiu Bill, indignado.
– Acaba de se trair, Bill. É um homem maravilhoso e gosto de você. Estou até pensando que amanhã de manhã, por volta das 10 horas, uma hora segura em que as emoções não devem se excitar indevidamente, sou bem capaz de beijá-lo.
– Sempre achei que isso deve ser feito no impulso do momento – insinuou Bill.
– Neste momento, meu querido, temos outras coisas a fazer. Se não tiver que colocar também uma máscara contra gases e uma veste de malha de ferro, podemos começar?
– Já estou pronto, Virginia.