O Segredo de Chimneys
Dedicatória
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.
– Eu a amo tanto, Virginia...
– Eu sei, Bill, eu sei... E simplesmente adoro ser amada. Não é terrível e perverso da minha parte? Eu bem que gostaria que todos os homens simpáticos do mundo estivessem apaixonados por mim.
– Tenho quase certeza de que a maioria está mesmo – comentou Bill, sombriamente.
– Só espero que George não esteja também apaixonado por mim. Não creio que ele possa estar, já que parece casado com sua mulher. O que mais ele disse?
– Apenas que era muito importante.
– Estou começando a ficar intrigada, Bill. As coisas que George considera importantes são terrivelmente limitadas. Acho que vou adiar a ida ao Ranelagh. Afinal, sempre poderei ir lá em outro dia qualquer. Diga a George que o estarei esperando, submissamente, às 4 horas da tarde.
Bill olhou para o relógio.
– Acho que não vale a pena voltar ao escritório antes do almoço. Não quer ir comer algo comigo, Virginia?
– Eu já tinha um compromisso para o almoço.
– Não tem importância. Aproveite o dia para dar um bolo em todos os seus compromissos.
– Até que seria bom... – murmurou Virginia, sorrindo.
– Oh, Virginia, querida, você é maravilhosa! Diga-me: você gosta um pouco de mim, não é mesmo? Mais que dos outros?
– Adoro você, Bill. Se tivesse de casar com alguém... se fosse num livro e um mandarim perverso me dissesse “Case com alguém ou morrerá lentamente sob torturas”, eu o escolheria imediatamente. Pode estar certo de que eu declararia em alto e bom som: “Quero o pequeno Bill.”
– Nesse caso...
– Acontece que não estou obrigada a casar com alguém, Bill. Adoro ser uma viúva perversa.
– Poderia continuar a fazer as mesmas coisas, ter a sua vida e tudo o mais. Quase não perceberia a minha presença na casa.
– Acho que não está entendendo, Bill. Sou do tipo de mulher que só casa quando se apaixona loucamente, ou então não casa.
Bill deixou escapar um resmungo de desespero ao murmurar:
– Acho que um dia desses vou acabar dando um tiro na cabeça...
– Não, Bill querido, tenho certeza de que jamais fará algo assim. Em vez disso, levará uma bela moça para jantar fora... como fez na noite de anteontem.
O Sr. Eversleigh ficou momentaneamente confuso.
– Se está se referindo a Dorothy Kirkpatrick, a moça que está em Hooks and Eyes, devo dizer... Oh, diabo, ela é uma ótima moça e muito simpática. Mas não houve nada demais em nosso encontro.
– Claro que não houve, Bill querido. Adoro quando você se diverte. Mas não finja que está morrendo com o coração desolado.
O Sr. Eversleigh tratou de recuperar a dignidade.
– Não está compreendendo, Virginia. Os homens são...
– Polígamos! Sei disso. Às vezes, tenho a desconfiança de que sou poliandra. Se realmente me ama, Bill, leve-me imediatamente para almoçar.
5
Primeira noite em Londres
Freqüentemente ocorrem falhas nos melhores planos. George Lomax cometera um erro, havia um ponto fraco em seus preparativos. E esse ponto fraco era Bill.
Bill Eversleigh era um ótimo rapaz. Bom jogador de críquete e ótimo golfista, tinha maneiras polidas e um comportamento sempre cordial. Mas sua posição no Ministério das Relações Exteriores fora conquistada não por causa da inteligência, mas sim graças a boas ligações. Era perfeitamente capaz do trabalho que realizara até então. Era o que se podia chamar de pau-mandado de George. Não tinha qualquer responsabilidade nem precisava fazer um trabalho cerebral. Sua função era estar sempre perto de George, receber as pessoas sem importância com as quais George não queria falar, cumprir pequenas missões e ser útil, de um modo geral. E Bill executava tudo isso fielmente. Quando George estava ausente, Bill refestelava-se na poltrona e lia as notícias de esporte. Ao se comportar dessa maneira, estava simplesmente cumprindo uma tradição consagrada pelo tempo.
Acostumado a mandar Bill cumprir pequenas missões, George não teve a menor dúvida em despachá-lo para o escritório da Union Castle, a fim de descobrir o horário da chegada do Granarth Castle. Em comum com a maioria dos jovens ingleses bem-educados, Bill tinha uma voz agradável, mas quase inaudível. Qualquer professor de dicção teria verificado a maneira errada como ele pronunciava a palavra “Granarth”. Podia ser qualquer outra coisa. E o funcionário da Union Castle achou que era “Carnfrae”.
O Carnfrae Castle deveria chegar na quinta-feira seguinte. E foi o que ele disse. Bill agradeceu e foi embora. George Lomax aceitou a informação e fez seus planos de acordo com essa informação. Nada sabia a respeito dos navios da Union Castle e não teve a menor dúvida de que James McGrath só chegaria mesmo na quinta-feira seguinte.
Assim, no momento em que estava segurando lorde Caterham na escada do clube, na manhã de quarta-feira, teria ficado consideravelmente surpreso se soubesse que o Granarth Castle atracara em Southampton na tarde anterior. Às duas horas daquela tarde, Anthony Cade, viajando com o nome de Jimmy McGrath, desembarcou de um trem em Waterloo e fez sinal para um táxi. Depois de um momento de hesitação, ordenou ao motorista que o levasse ao Blitz Hotel. E pensou: “Afinal, não custa nada ter um pouco de conforto.”
Ficou olhando pelas janelas do táxi, com algum interesse. Fazia exatamente 14 anos que estivera em Londres pela última vez.
Chegando ao hotel, Anthony alugou um quarto e depois saiu para dar uma volta pela Embankment. Era agradável estar de volta a Londres. É verdade que estava tudo mudado. Ali, um pouco além da Blackfriars Bridge, existira um pequeno restaurante, onde ele costumava jantar com alguns amigos. Nessa ocasião era socialista e usava uma gravata vermelha. Era muito jovem na época...
Voltou para o Blitz. No momento em que estava atravessando a rua, um homem esbarrou nele, quase o fazendo perder o equilíbrio. Era um homem baixo, corpulento, das classes operárias e de aparência um tanto estrangeira. Murmurou uma desculpa quando ambos recuperaram o equilíbrio, e examinou atentamente o rosto de Anthony.
Entrando no hotel, Anthony procurava imaginar o que causara aquele olhar inquisitivo. Provavelmente não era nada demais. O bronzeado de seu rosto era mesmo algo raro entre os londrinos pálidos, e certamente fora isso o que atraíra a atenção do homem. Anthony subiu para o seu quarto. Num súbito impulso, foi até o espelho e contemplou atentamente o próprio rosto. Entre os poucos amigos dos velhos tempos, apenas uns poucos escolhidos, seria provável que algum o reconhecesse agora, se por acaso se encontrassem cara a cara? Anthony balançou a cabeça, lentamente.
Ao deixar Londres, tinha pouco mais de 18 anos, um rapaz pálido, um pouco acima do peso, com uma expressão enganadoramente angelical. Não havia muita possibilidade de que o rapazinho daquele tempo fosse reconhecido no homem esguio, de rosto bronzeado e expressão irônica.
O telefone na mesinha-de-cabeceira tocou e Anthony foi atender:
– Alô?
A voz do recepcionista indagou:
– É o Sr. James McGrath?
– Ele mesmo.
– Um cavalheiro deseja falar-lhe.
Anthony ficou surpreso.
– Comigo?
– Exatamente, senhor. É um cavalheiro estrangeiro.
– Como é o nome dele?
Houve uma ligeira pausa, antes que o recepcionista dissesse:
– Vou mandar um rapaz levar o cartão dele, senhor.
Anthony pôs o fone no gancho e ficou esperando. Poucos minutos depois, houve uma batida na porta. Era o rapaz da portaria, com um cartão numa salva de prata.
Anthony pegou-o. E viu o seguinte nome impresso:
Barão Lolopretjzyl
Podia agora compreender perfeitamente a hesitação do recepcionista. Ficou imóvel por um momento, com o cartão na mão, e depois tomou uma decisão:
– Mande o cavalheiro subir.
– Está certo, senhor.
Alguns minutos depois, o barão Lolopretjzyl entrou no quarto. Era um homem imenso, com uma grande barba preta e a testa alta e calva.
Bateu os calcanhares ruidosamente e fez uma reverência.
– Sr. McGrath – disse ele.
Anthony procurou imitar-lhe os movimentos, da melhor forma possível, dizendo:
– Barão.
Depois, puxando uma cadeira, acrescentou:
– Sente, por favor. Não tive o prazer de conhecê-lo antes, não é mesmo?
– Tem razão – confirmou o barão, sentando e acrescentando, polidamente: – Para meu infortúnio.
– E meu também – respondeu Anthony, no mesmo tom.
– Vamos tratar de negócios – disse o barão, bruscamente. – Represento em Londres o Partido Lealista da Herzoslováquia.
– E tenho certeza de que o representa admiravelmente.
O barão fez uma nova mesura, agradecendo o elogio.
– É um homem generoso. Sr. McGrath, nada irei esconder. Chegou o momento para a restauração da monarquia, temporariamente suspensa desde o martírio de sua majestade o rei Nicolau IV, de abençoada memória.
– Amém – completou Anthony. – Isto é, entendo, entendo.
– Ao trono subirá sua alteza o príncipe Michael, que contou com o apoio do governo britânico.
– Esplêndido! É muita bondade sua contar-me tudo isso.
– Tudo acertado já estava... quando veio para aqui a problemas criar.
O barão fitou-o com uma expressão firme e Anthony tratou de protestar:
– Ora, meu caro barão!
– É isso mesmo. Sei do que falando estou. Tem consigo as memórias do falecido conde Stylptitch.
A expressão do barão tornou-se acusadora.
– E se eu trouxe, barão? O que as memórias do conde Stylptitch têm a ver com o príncipe Michael?
– Escândalos irá causar.
– É o que em geral acontece com quase todas as memórias – comentou Anthony, suavemente.
– O falecido conde Stylptitch a par de muitos segredos estava. Se um quarto deles apenas revelasse, a Europa em guerra mergulharia.
– Ora, barão, não pode ser tão ruim assim.
– Uma opinião desfavorável sobre os obolovitches se espalhar irá. E muito democrático é o espírito inglês.
– Posso perfeitamente acreditar que os Obolovitch tenham de vez em quando sido um tanto despóticos. Está no sangue. Mas os ingleses esperam que fatos assim aconteçam nos Bálcãs. Não sei a razão disso, mas o fato é que é justamente essa a reação por aqui.
– Não compreende, não compreende absolutamente – disse o barão. – E meus lábios selados estão.
O barão suspirou e Anthony perguntou:
– O que exatamente está receando?
– Até eu ler as memórias, não sei – respondeu o barão, com a maior simplicidade. – Mas é certo que algo há. Esses grandes diplomatas são sempre indiscretos. E desastrosas serão as conseqüências.
– Tenho certeza de que está sendo muito pessimista, barão. Sei como são os editores. Costumam ficar chocando um original durante muito tempo. Irá se passar pelo menos um ano até que o livro seja publicado.
– Ou muito ardiloso ou muito simplista é, Sr. McGrath. Tudo está providenciado para que as memórias num jornal de domingo saiam imediatamente.
– Ah... – murmurou Anthony, um tanto aturdido, para logo acrescentar, esperançoso: – Mas sempre podem negar tudo, não é mesmo?
O barão balançou a cabeça, tristemente.
– Não, não, um dispositivo é o que está dizendo. Vamos de negócios tratar. Mil libras vai receber, não é mesmo? Como vê, a boa informação sempre recebo.
– Não posso deixar de dar os parabéns ao serviço secreto dos lealistas.
– Então eu a você ofereço 1.500 libras.
Anthony ficou mais aturdido do que nunca e acabou balançando a cabeça, pesaroso.
– Infelizmente, não posso aceitar.
– Ótimo. Então a você ofereço 2 mil libras.
– Está me tentando, barão, está me tentando... Mas continuo a dizer que é impossível.
– Pois diga o seu próprio preço então.
– Receio que não esteja compreendendo a minha posição, barão. Estou perfeitamente disposto a acreditar que está ao lado dos anjos, que as memórias podem prejudicar sua causa. Não obstante, aceitei a missão e tenho que levá-la a cabo. Entende agora? Não posso me deixar comprar pelo outro lado. Esse tipo de coisa é inteiramente impossível.
O barão ficou escutando atentamente. Ao fim do pequeno discurso de Anthony, ele balançou a cabeça diversas vezes.
– Entendo. Sua honra de inglês é o problema, não?
– Não costumamos colocar os fatos dessa maneira. Mas eu diria, descontando-se as diferenças de vocabulário, que ambos estamos falando da mesma coisa.
O barão levantou-se.
– Pela honra inglesa muito respeito tenho. Um outro meio temos que tentar. Eu lhe desejo um muito bom dia.
O barão bateu os calcanhares, fez uma mesura e saiu do quarto, muito ereto.
E Anthony pensou: “O que será que ele quis insinuar? Teria sido uma ameaça? Não que eu tenha algum receio do velho Lollipop. Por falar nisso, eis um bom nome para ele. A partir de agora, vou chamá-lo de barão Lollipop, o barão-pirulito.”
Ele deu algumas voltas pelo quarto, sem saber o que iria fazer em seguida. Ainda faltava pouco mais de uma semana para a última data de entrega do manuscrito. Ainda era o dia 5 de outubro e Anthony não tinha a menor intenção de entregar as memórias antes do último instante. É verdade que, àquela altura, ele estava ansioso em ler as memórias. Pensara em fazê-lo no navio, mas ficara com febre, sem a menor disposição de decifrar uma letra garranchada e quase ilegível, pois o manuscrito não fora datilografado. Estava agora mais decidido do que nunca a descobrir por que toda aquela confusão.
Mas tinha outra missão a cumprir.
Num súbito impulso, pegou o catálogo telefônico e procurou o nome Revel. Havia seis Revels relacionados: Edward Henry Revel, médico, de Harley Street; James Revel & Cia., seleiros; Lennox Revel, de Abbotbury Mansions, Hampstead; Srta. Mary Revel, com um endereço em Ealing; honorável Sra. Timothy Revel, da Pont Street, 487; e Sra. Willis Revel, da Cadogan Square, 42. Eliminando os seleiros e a Srta. Mary Revel, ficavam quatro nomes para serem investigados... e ele não tinha motivo algum para supor que a mulher sequer morasse em Londres! Anthony fechou o livro, sacudindo firmemente a cabeça. E murmurou para si mesmo:
– No momento, vou deixar tudo entregue ao acaso. Sempre acaba acontecendo algo.
Talvez se possa atribuir a sorte dos Anthony Cade deste mundo à sua própria crença nela. Anthony descobriu o que estava procurando menos de meia hora depois, quando estava folheando um jornal. Era uma apresentação performática, organizada pela duquesa de Perth. Abaixo da imagem central, havia a seguinte legenda:
A honorável Sra. Timothy Revel, como Cleópatra. Antes do
casamento, a Sra. Revel era a honorável Virginia Cawthron, filha de
lorde Edgbaston.
Anthony ficou olhando por algum tempo para a fotografia, contraindo os lábios, lentamente, como se fosse assoviar. Depois arrancou toda a página, dobrou-a e a colocou no bolso. Subiu novamente para seu quarto, abriu a maleta e tirou o maço de cartas. Tirou a página do jornal dobrada do bolso e enfiou-a por baixo do barbante que prendia as cartas.
Nesse momento ouviu um barulho às suas costas, e virou-se bruscamente. Um homem estava parado na porta, o tipo de homem que Anthony pensava que só existia nas óperas cômicas. Uma figura de aparência sinistra, com uma cabeça atarracada, de aparência brutal, os lábios repuxados num sorriso diabólico.
– Que diabos está fazendo aqui? – perguntou Anthony. – E quem o deixou subir?
– Vou onde quero.
A voz era gutural, obviamente estrangeira, embora o inglês fosse vernacular.
“Outro carcamano”, pensou Anthony, e disse em voz alta:
– Pois quer fazer o favor de se retirar do meu quarto?
Os olhos do homem estavam fixos no maço de cartas que Anthony pegara.
– Irei embora depois que me entregar o que vim buscar.
– E o que é, se me permite perguntar?
– As memórias do conde Stylptitch.
– É inteiramente impossível levá-lo a sério, meu caro. Parece demais com o vilão das óperas. E devo dizer que aprecio intensamente o seu estilo. Quem o mandou até aqui? O barão Lollipop?
– O barão?
O homem deixou escapar uma sucessão de consoantes de som áspero.
– Quer dizer que é assim que se pronuncia, um meio-termo entre gargarejar e latir como um cachorro? Creio que eu jamais conseguiria pronunciá-lo. Minha garganta não foi feita para isso. Acho melhor continuar a chamá-lo de Lollipop. Então foi ele quem o mandou até aqui, hein?
Mas ele recebeu uma negativa veemente. O visitante chegou até a cuspir diante da sugestão de maneira extremamente realista. Depois, tirou do bolso uma folha de papel e jogou em cima da mesa.
– Veja! Veja e trema, inglês maldito!
Anthony deu uma olhada, interessado, sem dar muita importância à parte final da ordem. No papel estava desenhada uma mão humana, um tanto tosca, em vermelho.
– Parece com uma mão. Mas, se assim o disser, estou disposto a admitir que é uma representação cubista do pôr-do-sol no Pólo Norte.
– É a marca dos Camaradas da Mão Vermelha. E eu sou um Camarada da Mão Vermelha.
– Não me diga! – Anthony exclamou, fitando-o com algum interesse. – E os outros são como você? Gostaria de saber o que a Sociedade de Eugenia tem a dizer a respeito.
O homem grunhiu, furioso.
– Cão! Pior do que cão! É um escravo pago de uma monarquia fracassada! Entregue-me as memórias e nada lhe acontecerá. Assim é a clemência da irmandade.
– Tenho certeza de que são muito generosos, mas estão incorrendo num erro. Minhas instruções são para entregar o manuscrito... não à sua amável sociedade, mas sim a determinada editora.
– Essa é boa! – disse o homem, soltando uma risada. – E acha por acaso que vai conseguir chegar vivo ao escritório dessa editora? Mas já chega dessa conversa tola! Entregue-me o manuscrito ou eu atiro!
Ele sacou um revólver do bolso e brandiu-o.
Mas havia se enganado em relação a Anthony Cade. Não estava acostumado a homens que podiam agir rapidamente... mais depressa até do que podiam pensar. Anthony não esperou que o revólver lhe fosse apontado. Quase no instante mesmo em que o outro tirou a arma do bolso, avançou e derrubou-a de sua mão. A violência do golpe foi tão grande que o homem cambaleou e virou-se, ficando de costas para Anthony.
Era uma oportunidade boa demais para ser perdida. Com um pontapé vigoroso e certeiro, Anthony enviou-o quase a voar pela porta afora, até o corredor, onde ele se esborrachou no chão.
Anthony foi atrás dele, mas o bravo Camarada da Mão Vermelha não queria saber de mais nada. Levantou-se agilmente e saiu correndo pelo corredor. Anthony não se deu ao trabalho de persegui-lo, preferindo voltar para o quarto.
“Isso resolve o problema dos Camaradas da Mão Vermelha”, pensou ele. “A aparência é pitoresca, mas são facilmente derrotados por uma ação direta. Mas como será que aquele sujeito conseguiu entrar aqui? Porém, de uma coisa já posso ter certeza: não será um trabalho tão fácil quanto eu pensava. Já fui alvo das ações dos partidos Lealista e Revolucionário. Daqui a pouco receberei as delegações dos Nacionalistas e dos Liberais Independentes. Uma coisa é certa: vou começar a ler o manuscrito esta noite mesmo.”
Olhando para o relógio, Anthony verificou que já eram quase 9 horas. Decidiu jantar onde estava. Não previa mais nenhuma visita de surpresa, mas achou que devia se prevenir. Não pretendia permitir que sua maleta fosse vasculhada enquanto estava lá embaixo, no restaurante. Assim, tocou a campainha e pediu o cardápio. Escolheu dois pratos e pediu também uma garrafa de Chambertin. O garçom retirou-se.
Enquanto esperava pela refeição, Anthony tirou o manuscrito e colocou-o na mesa, juntamente com as cartas.
Houve uma batida na porta e o garçom entrou, empurrando uma mesa pequena e os acessórios necessários para a refeição. Anthony foi até a lareira. Ficou de pé ali, de costas para o quarto, observando distraidamente tudo pelo espelho. E notou de repente algo estranho.
Os olhos do garçom estavam grudados no manuscrito. Olhando a todo instante para as costas imóveis de Anthony, ele contornou silenciosamente a mesa. As mãos tremiam ligeiramente e a todo instante ele passava a língua pelos lábios ressequidos. Anthony observou-o mais atentamente. Era um homem alto, ágil como todos os garçons, o rosto barbeado. Deve ser um italiano e não um francês, pensou Anthony.
No momento decisivo, Anthony virou-se abruptamente. O garçom estremeceu, mas fingiu que estava arrumando o saleiro.
– Como é o seu nome? – perguntou Anthony, de maneira brusca.
– Giuseppe, monsieur.
– Italiano?
– Isso mesmo, monsieur.
Anthony falou-lhe em italiano e o homem respondeu com toda fluência. Finalmente, Anthony dispensou-o com um aceno de cabeça. Depois, enquanto punha-se a comer a excelente refeição que Giuseppe servira, começou a pensar na situação.
Será que se enganara? Teria Giuseppe se interessado pelo pacote do manuscrito apenas por curiosidade? Era possível. Mas recordando o interesse quase febril do homem, Anthony decidiu-se contra essa teoria. Mas continuava desconcertado e pensou:
“Mas que diabo! Não é possível que todo mundo esteja interessado no maldito manuscrito! Devo estar imaginando coisas!”
Terminado o jantar e removidos os pratos, Anthony dedicou-se à leitura das memórias. Como a letra do falecido conde era quase ilegível, foi um trabalho árduo e lento. Os bocejos foram se sucedendo, com uma rapidez cada vez maior. Acabou desistindo de continuar a leitura ao fim do quarto capítulo.
Até aquele ponto, descobrira apenas que as memórias do conde eram insuportavelmente insípidas, sem a menor insinuação de um escândalo de qualquer espécie.
Pegou as cartas e o embrulho do manuscrito, trancando-os na maleta. Em seguida, trancou a porta e, como precaução adicional, nela encostou uma cadeira. E pôs sobre a cadeira a garrafa d’água do banheiro.
Examinou tais preparativos com algum orgulho, depois tirou as roupas e meteu-se na cama. Ainda tentou ler mais um pouco das memórias, mas sentiu as pálpebras caindo. Enfiou o manuscrito debaixo do travesseiro, apagou a luz e dormiu quase que imediatamente.
Deviam ter-se passado cerca de quatro horas quando despertou, com um sobressalto. Não soube direito o que o acordou. Talvez tenha sido algum ruído, talvez a consciência do perigo, sempre plenamente desenvolvida em homens que levam vidas de aventuras.
Ficou imóvel por um momento, tentando focalizar os sentidos. Ouviu um ruído furtivo e depois percebeu uma sombra mais densa entre ele e a janela, perto do lugar onde deixara a maleta.
Com um salto súbito, Anthony saiu da cama e acendeu a luz. Um homem levantou-se abruptamente do lugar onde estava, ajoelhado junto à valise.
Era o garçom, Giuseppe. Uma faca comprida e fina faiscava em sua mão direita. Atacou Anthony no mesmo instante. Anthony imediatamente compreendeu o perigo que corria, pois estava desarmado e era evidente que Giuseppe sabia manejar muito bem a arma que tinha na mão.
Anthony pulou para o lado e a faca deixou de atingi-lo por um triz. No instante seguinte, os dois estavam rolando pelo chão, engalfinhados. Anthony se concentrava totalmente em segurar o braço direito de Giuseppe para evitar que a faca o atingisse. Ao mesmo tempo, podia sentir a outra mão do italiano a apertar-lhe a traquéia, sufocando-o. Desesperadamente, dobrou para trás o braço direito do atacante.
Ouviu o barulho da faca caindo ao chão. No mesmo instante, o italiano desvencilhou-se das mãos de Anthony, com uma rápida torção do braço. Anthony também se levantou, mas cometeu o erro de encaminhar-se na direção da porta, a fim de barrar a fuga do italiano. Só tarde demais é que percebeu que a cadeira e a garrafa estavam exatamente como deixara.
Giuseppe entrara pela janela e foi para a janela que se dirigiu naquele momento. Aproveitando a trégua proporcionada pelo movimento errado de Anthony, ele saiu para o balcão, pulou para o balcão contíguo e desapareceu pela janela do outro quarto.
Anthony sabia muito bem que não adiantava persegui-lo. Não podia haver a menor dúvida de que o homem providenciara devidamente o caminho de fuga. Se ele fosse atrás, só iria se meter em encrencas.
Aproximou-se da cama, meteu a mão debaixo do travesseiro e tirou as memórias. Felizmente as deixara ali e não na maleta. Foi até a maleta e abriu-a para tirar as cartas.
E deixou escapar uma imprecação.
As cartas tinham desaparecido.
6
A nobre arte da chantagem
Faltavam exatamente cinco minutos para 4 horas quando Virginia Revel, subitamente pontual por causa de uma saudável curiosidade, voltou à sua casa, na Pont Street. Abriu a porta com a sua chave e deparou-se com o impassível Chilvers na entrada.
– Peço perdão, madame, mas... uma pessoa esteve aqui à sua procura...
Por um momento, Virginia não percebeu o significado oculto por trás da fraseologia sutil de Chilvers.
– Foi o Sr. Lomax? Onde ele está? Na sala de visitas?
– Oh, não, madame, não é o Sr. Lomax – Chilvers a corrigiu em tom de censura velada. – Era uma pessoa... relutei em deixá-lo entrar, mas ele disse que era um assunto importante... relacionado com o falecido capitão, pelo que entendi. Pensando que talvez desejasse falar-lhe, deixei-o entrar e... ahn... mandei-o esperar no gabinete.
Virginia ficou parada por um momento, pensando. Já estava viúva havia alguns anos e o fato de raramente se referir ao marido era encarado por alguns como uma atitude deliberada, para disfarçar uma ferida ainda não cicatrizada. Outros achavam que era justamente o oposto, que Virginia jamais gostara muito de Tim Revel e achava insincero manifestar uma dor que não sentia.
– Devo ainda mencionar, madame, que o homem parece ser estrangeiro.
O interesse de Virginia aumentou ligeiramente. O marido pertencera ao Serviço Diplomático e haviam estado juntos na Herzoslováquia pouco antes do sensacional assassinato do rei e da rainha. O tal homem provavelmente era um herzoslovaco, algum criado antigo, que caíra em desgraça e ia suplicar alguma ajuda.
– Fez muito bem, Chilvers – ela o congratulou com um rápido aceno da cabeça. – Onde foi que o mandou esperar? No gabinete, não é mesmo?
Ela atravessou o corredor em passos rápidos e abriu a porta da pequena sala ao lado da sala de jantar.
O visitante estava sentado em uma cadeira junto à lareira. Levantou-se rapidamente e ficou olhando para ela. Virginia possuía uma excelente memória para rostos e no mesmo instante teve certeza de que nunca antes vira aquele homem. Era alto e moreno, o corpo esguio, inegavelmente um estrangeiro. Mas Virginia teve a impressão de que não era de origem eslava, mas sim um italiano ou talvez um espanhol.
– Desejava falar comigo? Sou a Sra. Revel.
O homem demorou algum tempo para responder. Contemplou-a lentamente, como se a estivesse avaliando. Havia uma insolência velada em sua atitude que Virginia não tardou a perceber.
– Quer fazer a gentileza de declarar o que deseja? – ela solicitou, com um toque de impaciência.
– É a Sra. Revel... Sra. Timothy Revel?
– Exatamente. Foi o que acabei de lhe dizer.
– Tem razão. Foi ótimo que tenha consentido em me receber, Sra. Revel. Caso contrário, como disse ao seu mordomo, eu teria sido obrigado a procurar seu marido.
Virginia ficou atônita, mas um impulso súbito deteve a resposta que lhe aflorou aos lábios. E contentou-se em comentar, secamente:
– Poderia encontrar alguma dificuldade para fazê-lo.
– Acho que não. Sou um homem muito persistente. Mas vou direto ao ponto. A senhora reconhece isto?
O homem sacudiu alguma coisa com a mão. Virginia olhou, sem muito interesse.
– E então, madame, pode dizer-me o que é isso?
– Parece ser uma carta – respondeu Virginia, e a essa altura estava convencida de que o homem era mentalmente desequilibrado.
– E talvez já tenha percebido a quem está endereçada – o homem comentou, sugestivamente, estendendo a carta.
– Sei ler perfeitamente – disse Virginia, ironicamente. – Está endereçada ao capitão O’Neill, na rue de Quenelles, 15, em Paris.
O homem examinava ansiosamente o rosto dela, em busca de algo que não conseguiu encontrar.
– Não quer ler?
Virginia pegou o envelope, abriu-o e deu uma olhada. Empertigou-se quase que imediatamente e devolveu a carta, dizendo:
– É uma carta particular... certamente não foi escrita para que uma estranha como eu a lesse.
O homem riu de forma sardônica.
– Dou-lhe os parabéns pelo admirável desempenho, Sra. Revel. Está representando seu papel com perfeição. Contudo, tenho certeza de que não poderá negar a assinatura!
– A assinatura?
Virginia deu uma olhada no fim da carta e ficou aturdida. A assinatura, em letra delicada e inclinada, era de Virginia Revel. Contendo a exclamação de espanto que aflorou em seus lábios, ela voltou deliberadamente ao início da carta e leu-a toda. Depois, ficou em silêncio por um minuto, imersa em seus pensamentos. A natureza da carta deixava bem claro o que estava para acontecer.
– E então, madame? Não é esse o seu nome?
– É, sim... é meu nome.
“Mas não a minha letra”, Virginia poderia ter acrescentado. Em vez disso, porém, ela sorriu cordialmente para o visitante e disse, de maneira suave:
– Não poderíamos sentar para conversar sobre o assunto?
O homem ficou desconcertado. Não era essa a reação que esperava. O instinto disse-lhe que a mulher não estava com medo dele.
– Em primeiro lugar, eu gostaria de saber como me descobriu.
– Isso foi muito fácil.
O homem tirou do bolso uma página de revista ilustrada e estendeu a ela. Anthony Cade a teria reconhecido. Virginia pegou a página, deu uma rápida olhada e devolveu-a, com o rosto ligeiramente franzido e a expressão pensativa. E murmurou:
– Tem razão. Foi mesmo muito fácil.
– Tenho certeza de que sabe, Sra. Revel, que não é a única carta. Há muitas outras.
– Santo Deus! Parece que fui terrivelmente indiscreta.
Virginia percebeu que sua atitude despreocupada novamente deixava o homem desconcertado. A essa altura, ela já estava começando a gostar da cena. E foi sorrindo de forma gentil que falou:
– Seja como for, é muita bondade sua ter vindo me procurar para devolver as cartas.
Houve uma pausa prolongada, ao fim da qual o homem limpou a garganta e disse, com um jeito expressivo:
– Sou um homem pobre, Sra. Revel.
– Nesse caso, certamente terá mais facilidade em entrar no reino dos céus, pelo que sempre ouvi dizer.
– Não posso me dar ao luxo de entregar-lhe as cartas a troco de nada.
– Creio que está incorrendo num equívoco. Essas cartas pertencem à pessoa que as escreveu.
– Isso é o que a lei pode dizer, madame, mas há um ditado neste país: “A posse é nove décimos da lei.” Além do mais, está disposta a recorrer à lei?
– A lei é muito rigorosa com os chantagistas.
– Ora, Sra. Revel, não sou nenhum tolo. Li todas as cartas... as cartas de uma mulher para o amante, uma mulher apavorada com a possibilidade de o marido descobrir. Quer que eu as entregue ao seu marido?
– Está esquecendo uma possibilidade. Essas cartas foram escritas há alguns anos. E se eu me tornei viúva?
O homem balançou a cabeça, confiante.
– Nesse caso... se nada tinha a temer... não estaria sentada aqui a conversar comigo.
Virginia sorriu.
– Qual é o seu preço? – indagou ela, com uma atitude prática e objetiva.
– Por mil libras, eu lhe entregarei todas as cartas. Sei que estou pedindo muito pouco, mas assim faço porque o negócio absolutamente não me agrada.
– Eu jamais sequer sonharia em lhe pagar mil libras – disse Virginia, com um ar decidido.
– Quero que saiba, madame, que eu jamais barganho. Mil libras e entregarei as cartas em suas mãos.
Virginia refletiu por um momento.
– Precisa me dar algum tempo para pensar. Não me será fácil conseguir essa quantia.
– Algumas libras por conta... talvez umas 50... e virei procurá-la mais tarde.
Virginia deu uma olhada no relógio. Já passavam 5 minutos das 4 horas e teve a impressão de ouvir tocar a campainha da porta.
– Está certo – disse ela, apressadamente. – Volte amanhã, mas não tão cedo. Só apareça por volta das seis horas.
Ela atravessou a sala, até uma escrivaninha encostada na parede, abriu uma gaveta e tirou um punhado de notas desarrumadas.
– Aqui estão cerca de 40 libras. Terá que se contentar com isso.
O homem arrebatou o dinheiro ansiosamente.
– E agora saia imediatamente, por favor – pediu Virginia.
Ele se retirou de maneira obediente. Pela porta aberta, Virginia vislumbrou George Lomax na entrada, sendo recebido por Chilvers. No momento em que a porta da frente se fechou, ela chamou:
– Venha para cá, George. Chilvers, quer fazer o favor de nos trazer chá?
Depois, foi abrir as duas janelas da sala. Quando George Lomax entrou, avistou-a de pé no meio da sala, ereta, os olhos brilhando intensamente, os cabelos esvoaçando ao vento.
– Já vou fechar as janelas, George. Mas precisava arejar a sala. Esbarrou no chantagista lá na entrada?
– Com o quê?
– O chantagista, George, C-H-A-N-T-A-G-l-S-T-A, chantagista. Aquele que faz chantagem.
– Ora, minha cara Virginia, não pode estar falando sério!
– Mas claro que estou, George!
– Mas quem o homem veio chantagear aqui?
– A mim, George.
– Mas o que andou fazendo, minha cara Virginia?
– Para ser franca, desta vez eu não fiz coisa alguma. O cavalheiro tomou-me por outra pessoa.
– E já chamou a polícia?
– Não, não chamei. Acha que eu deveria tê-lo feito?
– Bom...
George fez uma pausa, pensando nas circunstâncias.
– Não, talvez não... talvez você tenha tomado a decisão mais sensata. Poderia se envolver em alguma publicidade desagradável relacionada com o caso. Poderia até ser chamada a prestar depoimento...
– Pois eis algo de que eu gostaria, meu caro George. Tenho vontade de verificar se os juízes dizem mesmo aqueles gracejos ordinários sobre os quais a gente costuma ler. Seria emocionante! Outro dia mesmo estive na Vine Street para falar sobre um broche de brilhantes que perdi e fui recebida por um inspetor amável... o homem mais simpático que já conheci!
Como era seu costume, George ignorou as irrelevâncias.
– Mas o que fez com o patife, Virginia?
– Lamento dizer, George, mas deixei que ele agisse.
– O quê?
– Deixei que ele fizesse chantagem comigo.
A expressão horrorizada de George era tão pungente que Virginia teve que morder o lábio inferior para não rir.
– Está querendo dizer... que não procurou esclarecer o equívoco em que o chantagista estava incorrendo?
Virginia sacudiu a cabeça, lançando-lhe um olhar de lado.
– Deus do céu, Virginia! Você deve estar louca!
– Eu já imaginava que ia pensar assim.
– Mas por quê? Em nome de Deus, por quê?
– Por várias razões. Em primeiro lugar, ele estava se saindo tão bem... fazendo chantagem comigo... e detesto interromper um artista quando está fazendo o seu trabalho tão bem. E, além disso, eu nunca tinha sido chantageada antes...
– Eu não esperava que fosse de outro modo.
– Quis descobrir qual era a sensação.
– Confesso que não consigo compreendê-la, Virginia.
– Sabia que não compreenderia.
– Espero que não tenha lhe dado nenhum dinheiro.
– Dei um pouquinho – disse Virginia, como quem pedia desculpas.
– Quanto?
– Quarenta libras.
– Virginia!
– Ora, meu caro George, é apenas o que costumo pagar por um vestido novo. E comprar uma experiência nova é tão emocionante quanto comprar um vestido novo... mais até, para ser franca.
George Lomax limitou-se a sacudir a cabeça. Chilvers apareceu nesse momento com o chá, salvando-o da necessidade de expressar seus sentimentos ultrajados. Depois que Chilvers se retirou, Virginia voltou a abordar o assunto enquanto servia o chá:
– Tive também outro motivo, George... e este mais inteligente e melhor. Nós, mulheres, em geral somos consideradas inimigas. Mas, esta tarde, fiz uma boa ação para outra mulher. O homem não irá agora sair à procura da outra Virginia Revel. Acha que já encontrou quem estava procurando. A pobre coitada estava apavorada quando escreveu aquela carta. O Sr. Chantagista teria o trabalho mais fácil de sua vida. Mas agora, embora ele ainda não saiba, encontrou pela frente um osso duro de roer. Começando com a grande vantagem de sempre ter levado uma vida impecável, pretendo fazê-lo cair em desgraça, como se costuma dizer. Astúcia, George, usarei muita astúcia...
Mas George Lomax ainda sacudia a cabeça e insistiu:
– Continuo não gostando, nem um pouco.
– Mas não pense mais nisso, George querido. Não veio até aqui para falar sobre chantagistas. Por falar nisso, o que o trouxe até aqui? Resposta correta: “O desejo de vê-la!” É preciso falar em tom emocionado e apertar a mão dela expressivamente, a menos que por acaso tenha comido um sonho com muito açúcar, caso em que tudo deve ser feito apenas com os olhos.
– Vim realmente para conversar com você e estou satisfeito por encontrá-la sozinha – disse George, muito sério.
– Oh, George, isso é tão súbito – diz ela, engolindo uma passa.
– Queria pedir-lhe um favor, Virginia. Sempre a considerei uma mulher de considerável charme.
– Oh, George!
– E também uma mulher inteligente.
– É mesmo? Mas como me conhece a fundo!
– Minha cara Virginia, eu gostaria que conhecesse um homem que vai chegar à Inglaterra amanhã.
– Está certo, George, mas a festa é sua... não vamos nos esquecer disso.
– Tenho certeza de que, se quiser, poderá exercer o seu charme considerável.
Virginia inclinou a cabeça para o lado, ligeiramente.
– George, querido, não faço charme profissionalmente, e você sabe disso. Freqüentemente gosto das pessoas... e elas gostam de mim. Mas não creio que eu seja capaz de fascinar a sangue-frio um estrangeiro indefeso. Não posso fazer esse tipo de coisas, George. Para isso, há sereias profissionais que podem se sair muito melhor do que eu.
– Essa possibilidade está totalmente excluída, Virginia. O jovem é um canadense, diga-se de passagem, chamado McGrath...
– “Um canadense descendente de escoceses”, diz ela, numa brilhante dedução.
– Provavelmente ele não está acostumado aos altos escalões da sociedade britânica. E eu gostaria que ele apreciasse devidamente o charme e a distinção de uma verdadeira dama inglesa.
– Está se referindo a mim?
– Exatamente.
– Por quê?
– Como?
– Eu perguntei por quê. Não costuma impingir às verdadeiras damas inglesas todos os canadenses desgarrados que pisam em nossas praias. Qual é a idéia, George? Ou, em termos mais vulgares, o que está esperando ganhar com isso?
– Acho que isso não lhe diz respeito, Virginia.
– Eu não poderia sair com um estrangeiro e fasciná-lo, a menos que saiba os porquês.
– Possui uma maneira extraordinária de expressar as coisas, Virginia. Qualquer pessoa que a ouvisse...
– Não é mesmo? Ora, George, trate logo de me dar mais algumas informações.
– Minha cara Virginia, não demora muito para que a situação se torne um pouco tensa numa certa nação da Europa Central. É muito importante, por motivos que não vêm ao caso neste momento, que esse Sr. McGrath, se assim me permite chamá-lo, compreenda que a restauração da monarquia na Herzoslováquia é indispensável à paz na Europa.
– Essa parte sobre a paz na Europa não passa de baboseira – disse Virginia, calmamente. – Mas sou sempre favorável à monarquia, em quaisquer circunstâncias, sobretudo para um povo tão pitoresco quanto o herzoslovaco. Quer dizer que pretende lançar um rei para disputar o grande prêmio da Herzoslováquia, hein? Quem é ele?
George relutou um pouco em responder. Mas não encontrou um meio de esquivar-se à pergunta. A conversa não estava absolutamente transcorrendo como planejara. Imaginara que Virginia se mostraria um instrumento complacente e dócil, acatando as sugestões dele com a maior gratidão e não fazendo perguntas embaraçosas. Mas não era o que estava acontecendo. Virginia parecia determinada a saber de tudo a respeito do caso. E George, sempre desconfiado da discrição feminina, estava determinado a evitar a qualquer custo que ela soubesse. Cometera um erro, como só agora percebia. Virginia não era a mulher talhada para o papel. Ao contrário, podia até causar sérios problemas. O relato que fizera de sua entrevista com o chantagista deixara George consideravelmente apreensivo. Era uma criatura com quem não se podia contar, que não sabia como levar a sério o que quer que fosse.
– O príncipe Michael Obolovitch – respondeu George por fim, já que Virginia esperava obviamente pela resposta com uma determinação inabalável. – Mas, por favor, peço que essa informação fique entre nós.
– Não diga bobagem, George. Os jornais já estão publicando insinuações e a todo instante aparecem artigos sobre a dinastia Obolovitch e sobre o assassinato de Nicolau IV, como se ele fosse um meio-termo entre um santo e um herói, em vez de um homenzinho estúpido e fascinado por uma atriz de terceira categoria.
George estremeceu. Estava mais do que nunca convencido de que cometera um grande erro ao recrutar a ajuda de Virginia. Tinha agora de livrar-se dela, o mais depressa possível.
– Tem toda razão, minha cara Virginia – disse ele, apressadamente, levantando para se despedir. – Eu não deveria ter feito a sugestão que lhe apresentei. Mas estamos ansiosos em fazer com que os domínios tenham a mesma posição que nós na crise herzoslovaca e McGrath possui, pelo que sei, grande influência nos meios jornalísticos. Como é uma ardorosa monarquista e conhece bem o país, achei que seria um bom plano conhecê-lo.
– E é essa mesmo a explicação?
– É, sim. Mas já estou vendo que não terá o menor interesse por ele.
Virginia fitou-o em silêncio por um momento e depois soltou uma gargalhada.
– George, você é um péssimo mentiroso!
– Virginia!
– É isso mesmo, George, você é um péssimo mentiroso. Se eu tivesse todo o seu aprendizado, certamente teria imaginado uma mentira melhor... uma mentira que pelo menos tivesse alguma possibilidade de merecer credibilidade. Mas descobrirei tudo por mim mesma. Não se preocupe mais com isso. O Mistério do Sr. McGrath! Não ficarei espantada se descobrir algumas indicações em Chimneys neste fim de semana.
– Em Chimneys? Quer dizer que vai passar o fim de semana em Chimneys?
George não pôde disfarçar sua inquietação. Esperava falar com lorde Caterham a tempo de evitar que o convite fosse formulado.
– Bundle telefonou esta manhã e convidou-me.
George ainda fez um último e desesperado esforço:
– Tenho a impressão de que vai ser um grupo dos mais insípidos, Virginia. Não vai gostar nem um pouco.
– Ora, meu pobre George, por que não me conta logo a verdade e confia em mim? Ainda não é tarde demais.
George segurou a mão dela, mas logo tornou a largá-la e disse, friamente, sem corar:
– Eu lhe disse a verdade.
– Está melhorando, meu caro – comentou Virginia, com um aceno de aprovação. – Mas ainda não é suficiente. Vamos, George, anime-se. Estarei em Chimneys, exercitando o meu charme considerável... conforme você mesmo o disse. A vida tornou-se subitamente muito mais divertida para mim. Primeiro me aparece um chantagista e depois o meu caro George com seus problemas diplomáticos. Será que ele irá contar tudo à linda mulher que pede a sua confiança de maneira tão patética? Não, ele nada irá revelar, até o último capítulo. Adeus, George. Um último olhar afetuoso antes de ir embora? Não? Oh, George querido, não fique tão mal-humorado só por causa disso.
Assim que George foi embora, com um ar desolado, Virginia correu para o telefone. Descobriu o número que procurava e ligou, pedindo para falar com lady Eileen Brent.
– É você, Bundle? Vou mesmo para Chimneys, amanhã. O quê? Aborrecer-me? Não, pode estar certa de que isso não acontecerá! Nem mesmo um terremoto conseguiria evitar minha ida para Chimneys, Bundle! Pode me esperar!
7
O Sr. McGrath recusa um convite As cartas haviam desaparecido!
Depois de acostumar a mente ao desaparecimento das cartas, nada mais podia fazer senão aceitar o fato. Anthony sabia perfeitamente que não podia perseguir Giuseppe pelos corredores do Blitz Hotel. Agir assim seria atrair uma publicidade indesejável e, de qualquer forma, provavelmente acabaria falhando em seu objetivo.
Chegou à conclusão de que Giuseppe pensara que as cartas, por estarem no embrulho errado, eram as memórias. Ao descobrir o erro, provavelmente faria outra tentativa de se apoderar das memórias. E Anthony tencionava estar plenamente preparado quando isso acontecesse.
Outra idéia que lhe ocorreu foi anunciar discretamente um pedido para a devolução das cartas. Supondo que Giuseppe fosse um emissário dos Camaradas da Mão Vermelha ou, o que parecia mais provável, do Partido Lealista, as cartas não teriam o menor interesse para nenhum dos dois lados. Assim, Giuseppe provavelmente trataria de aproveitar a oportunidade de obter uma pequena quantia pela devolução das cartas.
Depois de pensar em tudo isso, Anthony voltou para a cama e dormiu tranqüilamente até de manhã. Sabia que Giuseppe não ia querer um segundo encontro naquela mesma noite.
Levantou-se com um plano de campanha já formulado. Comeu muito bem, deu uma olhada nos jornais, repletos de notícias sobre a descoberta de petróleo na Herzoslováquia, e depois pediu para falar com o gerente. Como era Anthony Cade, com o dom de conseguir tudo o que desejava fazendo uso de uma determinação inabalável, não demorou a obter o que queria.
O gerente, um francês com um comportamento excepcionalmente suave, recebeu-o em seu escritório particular.
– Deseja falar comigo, Sr.... McGrath?
– Quero, sim. Cheguei a seu hotel ontem à tarde e o jantar foi servido em meus aposentos por um garçom chamado Giuseppe.
Anthony fez uma pausa e o gerente confirmou, em tom indiferente:
– Creio que temos de fato um garçom com esse nome.
– Achei o comportamento desse garçom um tanto estranho, mas na ocasião não me preocupei muito com isso. Mais tarde, fui despertado pelo ruído de alguém se movendo furtivamente em meu quarto. Acendi a luz e descobri esse mesmo Giuseppe a vasculhar minha maleta de couro.
A indiferença do gerente desapareceu bruscamente.
– Mas eu não soube disso! Por que não fui informado antes?
– O homem e eu tivemos uma luta rápida... ele estava armado de faca, diga-se de passagem. Ao fim, ele conseguiu escapar, pela janela.
– E o que fez então, Sr. McGrath?
– Examinei o conteúdo da maleta.
– E alguma coisa havia desaparecido?
– Nada... de importante.
O gerente recostou-se na cadeira, com um suspiro de alívio.
– Fico contente em saber disso. Mas permita que lhe diga, Sr. McGrath, não posso compreender sua atitude. Por que não avisou à portaria para que se perseguisse o ladrão?
Anthony deu de ombros.
– Nada de valor havia desaparecido. Claro que sei que, a rigor, é um caso para a polícia...
Ele fez uma pausa e o gerente murmurou, sem o menor entusiasmo:
– Para a polícia... claro... claro...
– Seja como for, eu tinha quase certeza de que o homem conseguiria escapar. E como nada importante fora levado, por que incorrer em todos os incômodos que seriam inevitavelmente causados pela presença da polícia?
O gerente sorriu.
– Estou vendo que compreende, Sr. McGrath, que não estou absolutamente ansioso em chamar a polícia. Para mim, isso seria quase desastroso. Quando os jornais tomam conhecimento de algum acontecimento desse gênero, ligado a um hotel elegante como este, tratam de fazer o maior estardalhaço, não importa quão insignificante seja o fato propriamente dito.
– Tem toda razão. Falei que nada de valor fora levado. Num certo sentido, isso é verdade. Não desapareceu coisa alguma que pudesse ter valor para o ladrão, mas ele levou algo que possui considerável valor para mim.
– E o que foi?
– Algumas cartas.
Uma expressão de discrição sobre-humana, que somente os franceses são capazes de alcançar, estampou-se no rosto do gerente.
– Compreendo perfeitamente – murmurou ele. – E é claro que não se trata de um caso para a polícia.
– Concordamos inteiramente nesse ponto. Mas espero que compreenda também que minha intenção é recuperar essas cartas. Na parte do mundo de onde venho, as pessoas estão acostumadas a agir por si mesmas. Assim, tudo o que lhe peço é o máximo de informações que possa me fornecer a respeito do garçom chamado Giuseppe.
– Não tenho qualquer objeção a isso – respondeu o gerente, depois de uma breve pausa. – Claro que não posso lhe dar as informações de imediato. Mas se quiser voltar dentro de meia hora, já terei tudo pronto para apresentar-lhe.
– Muito obrigado. Está perfeito para mim.
Anthony voltou ao escritório meia hora depois para descobrir que o gerente cumprira a palavra. Em uma folha de papel estavam anotados todos os fatos relevantes conhecidos a respeito de Giuseppe Manelli.
– Ele começou a trabalhar aqui há cerca de três meses. Um garçom hábil e experiente. Deu todas as referências necessárias. Está na Inglaterra há cinco anos.
Os dois homens verificaram a relação dos hotéis e restaurantes em que o italiano trabalhara. Houve um fato que Anthony observou imediatamente, achando que podia ser significativo. Em dois hotéis nos quais Giuseppe trabalhara, tinham ocorrido roubos vultosos. Mas, em nenhum dos dois casos, haviam sequer suspeitado dele. Mesmo assim, o fato não deixava de ser significativo.
Será que Giuseppe não passava de um esperto gatuno de hotel? Será que vasculhar a maleta de Anthony não era simplesmente uma parte de sua tática profissional habitual? Era bem possível que o italiano estivesse com o maço de cartas nas mãos, no momento em que ele, Anthony, acendera a luz. Metera as cartas no bolso, mecanicamente, apenas para ficar com as mãos livres. Nesse caso, seria um simples roubo.
Contra tal hipótese, havia a inegável perturbação do italiano na noite anterior, ao avistar os papéis em cima da mesa. Não havia dinheiro ou qualquer objeto de valor que pudesse despertar daquele jeito a cupidez de um ladrão comum.
Anthony acabou se convencendo de que Giuseppe agira como um instrumento para terceiros. Com as informações que o gerente lhe fornecera, poderia descobrir algo sobre a vida particular de Giuseppe e, por fim, localizá-lo. Pegou a folha de papel e levantou-se.
– Muito obrigado por tudo. Creio que é desnecessário perguntar se Giuseppe ainda está no hotel, não é mesmo?
O gerente sorriu.
– A cama dele não foi desfeita e todos os seus pertences foram deixados no quarto. Ele deve ter fugido imediatamente após o seu ataque. Não creio que haja muita possibilidade de tornarmos a vê-lo.
– É o que também penso. Mais uma vez, muito obrigado por tudo. Continuarei hospedado aqui no hotel, por mais algum tempo.
– Espero que tenha sucesso em sua missão, mas confesso que tenho minhas dúvidas.
– Sempre espero pelo melhor.
Uma das primeiras providências de Anthony foi a de interrogar alguns garçons que tinham sido amigos de Giuseppe. Mas não descobriu praticamente nada. Escreveu um anúncio, nos termos que planejara, e mandou publicar em cinco dos jornais de maior circulação. Já ia sair, para visitar o restaurante em que Giuseppe trabalhara antes de ser contratado pelo hotel, quando o telefone tocou. Atendeu imediatamente.
– Alô?
Uma voz sem inflexão perguntou:
– Estou falando com o Sr. McGrath?
– Ele mesmo. E com quem estou falando?
– Aqui é da Messrs Balderson and Hodgkins. Um momento, por favor. Vou pôr o Sr. Balderson na linha.
“Nossos dignos editores”, pensou Anthony. “Quer dizer que eles também estão preocupados, hein? Mas não precisavam, ainda resta uma semana até o prazo fatal.”
Uma voz calorosa soou subitamente em seu ouvido:
– Alô? É o Sr. McGrath?
– Ele mesmo.
– Sou o Sr. Balderson, da Balderson and Hodgkins. O que me diz do manuscrito, Sr. McGrath?
– O que deseja saber a respeito?
– Quero saber de tudo. Ouvi dizer que acaba de chegar, procedente da África do Sul. Sendo assim, possivelmente não está em condições de compreender a situação. Haverá problemas e bem grandes por causa desse manuscrito, Sr. McGrath. Há momentos em que eu desejaria nunca termos prometido editá-lo.