O Segredo de Chimneys
Dedicatória
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.
Bill vestiu um roupão de seda horrendo e pegou um atiçador de lareira, comentando:
– É a arma ortodoxa...
– Vamos embora, Bill. E tome cuidado para não fazer barulho.
Os dois saíram do quarto, percorreram o corredor e desceram furtivamente a escadaria ampla. Virginia franziu o rosto ao chegar lá embaixo e sussurrou:
– Essas suas botas não chegam a ser muito silenciosas, Bill.
– Uma biqueira de ferro é sempre uma biqueira de ferro. Estou fazendo o melhor possível.
– Vai ter que tirá-las – disse Virginia, de modo incisivo.
Bill soltou um gemido.
– Pode levá-las nas mãos, Bill. Quero ver se você é capaz de descobrir o que está acontecendo na Câmara do Conselho. É algo terrivelmente misterioso, Bill. Por que ladrões haveriam de desmontar uma armadura antiga?
– Deve ser porque não podem levá-la inteira sem fazer barulho. Por isso a desmontam, porque é mais fácil levar as peças separadamente.
Virginia balançou a cabeça, insatisfeita.
– Mas por que alguém iria querer roubar uma velha armadura bolorenta? Afinal, Chimneys está repleta de tesouros muito mais fáceis de transportar.
Bill sacudiu a cabeça e perguntou, empunhando o atiçador com maior firmeza:
– Quantos são?
– Não pude ver direito. A visão por um buraco de fechadura é muito limitada. E eles só usavam uma lanterna.
– Espero que, a essa altura, eles já tenham ido embora – murmurou Bill, esperançoso.
Ele sentou no último degrau da escada e tirou as botas. Depois, levando-as na mão, avançou pelo corredor que levava à Câmara do Conselho, com Virginia logo atrás. Pararam diante da porta de carvalho. Estava tudo silencioso lá dentro. Mas, subitamente, Virginia apertou o braço de Bill, que assentiu. Pelo buraco da fechadura, surgira o brilho rápido de uma luz.
Bill ficou de joelhos e encostou um dos olhos na abertura. E o que viu era extremamente confuso. O cenário do drama que se desenrolava lá dentro ficava um pouco à esquerda, fora do seu campo de visão. Um retinido de metal ocasional parecia indicar que os invasores ainda estavam mexendo na armadura. Bill recordou-se de que havia duas armaduras lá dentro – perto da parede, debaixo do retrato de Holbein. A luz da lanterna elétrica estava sendo obviamente focalizada nas operações em andamento. O restante da sala estava quase que totalmente mergulhado na escuridão. Em determinado momento, um vulto passou pelo campo de visão de Bill. Mas não havia luz suficiente para distingui-lo direito. Podia perfeitamente ser um homem ou uma mulher. Um instante depois, o vulto tornou a aparecer no campo de visão de Bill e soou novamente o retinido de metal. Dali a pouco, veio novo barulho, o de alguém batendo levemente em madeira.
Bill ficou de cócoras subitamente.
– O que foi? – sussurrou Virginia.
– Nada. Não vai adiantar nada continuar desse jeito. Não podemos ver nada e não podemos sequer adivinhar o que eles estão fazendo. Tenho que entrar e dominá-los.
Bill sentou-se no chão, calçou as botas e depois levantou-se.
– Agora, Virginia, preste bastante atenção. Vamos abrir a porta o mais silenciosamente possível. Sabe onde fica o interruptor de luz?
– Sei, sim. Logo ao lado da porta.
– Não creio que sejam mais do que dois. E talvez seja apenas um. Quero avançar o máximo possível pela sala. Depois, quando eu disser “agora”, acenda a luz. Entendido?
– Perfeitamente.
– E não grite nem desmaie ou faça qualquer outra tolice do gênero. Não vou deixar que ninguém a machuque.
– Meu herói! – sussurrou Virginia.
Bill fitou-a, desconfiado, em meio à escuridão. Ouviu um ruído quase inaudível, que podia ser de um soluço ou de uma risada abafada. Empunhou firmemente o atiçador, pronto para entrar em ação, sentindo que estava plenamente à altura da situação.
Lentamente, ele girou a maçaneta, não encontrando a menor resistência. Empurrou silenciosamente. Podia sentir Virginia quase colada nele. Juntos, os dois entraram na sala.
Na outra extremidade da sala, a lanterna elétrica estava iluminando o retrato de Holbein. Era possível definir o vulto de um homem de pé numa cadeira que batia de leve no painel de madeira que revestia a parede. Estava de costas para Bill e Virginia e meramente parecia uma sombra gigantesca.
Os dois jamais souberam o que mais poderiam ver, pois nesse momento as botas de Bill rangeram no assoalho. O homem virou-se rapidamente, focalizando neles a potente lanterna elétrica, quase ofuscando-os com o clarão repentino.
Bill não hesitou.
– Agora! – gritou ele para Virginia, avançando na direção do seu homem, enquanto ela obedientemente apertava o interruptor.
O lustre imenso deveria inundar a sala de luz; em vez disso, porém, tudo que aconteceu foi o clique do interruptor. A sala continuou mergulhada na escuridão.
Virginia ouviu Bill soltar imprecações furiosas. No instante seguinte, o ar estava impregnado de ruídos de luta e respirações ofegantes. A lanterna caiu no chão e apagou-se na queda. Podia-se ouvir o barulho de uma luta desesperada na escuridão, mas Virginia não tinha a menor idéia de quem estava levando a melhor, nem mesmo de quem estava participando. Será que havia mais alguém na sala além do homem que estava batendo na parede? Era possível. Só havia conseguido identificar algo momentaneamente.
Virginia estava paralisada. Não sabia o que fazer. Naquela escuridão, não se atrevia a participar da luta, pois podia atrapalhar Bill, ao invés de ajudá-lo. Sua única idéia foi a de ficar postada na porta, a fim de impedir a passagem de quem quer que tentasse escapar por ali. Ao mesmo tempo, ela desobedeceu às instruções expressas de Bill e gritou o mais alto que podia, repetidas vezes, clamando por socorro.
Ela ouviu portas se abrindo lá em cima e viu o brilho súbito da luz se acendendo no corredor superior e iluminando a grande escadaria. Se ao menos Bill conseguisse segurar o homem até que chegasse ajuda...
Mas, nesse instante, houve uma última e terrível convulsão. Os homens engalfinhados deviam ter esbarrado numa das armaduras, que caiu ao chão e fez um barulho ensurdecedor. Virginia percebeu vagamente um vulto correndo para a porta do terraço e ouviu Bill praguejando, enquanto se desvencilhava dos fragmentos da armadura.
Pela primeira vez, desde que tudo começara, ela largou seu posto e correu freneticamente para o vulto que se aproximava da porta do terraço. Mas esta já estava destrancada. O intruso não teve necessidade de parar a fim de puxar a tranca. Ele saiu da sala, correu pelo terraço e contornou a casa. Virginia correu atrás dele. Ela era jovem e atlética, por isso conseguiu contornar o canto da casa apenas alguns segundos depois da presa que perseguia.
E foi nesse momento que esbarrou nos braços de um homem que acabava de sair por uma porta lateral. Era o Sr. Hiram P. Fish.
– Mas é uma mulher! – exclamou ele. – Oh, Sra. Revel, peço que me desculpe! Pensei que fosse um dos malfeitores fugindo da justiça!
– Ele acaba de passar por aqui! – gritou Virginia, ofegante. – Será que não poderemos alcançá-lo?
Mas no momento em que falava, ela já sabia que era tarde demais. Àquela altura, o homem já devia ter chegado ao parque e era uma noite escura e sem lua. Virginia voltou para a Câmara do Conselho, acompanhada pelo Sr. Fish, a discorrer monotonamente sobre os hábitos dos ladrões em geral, assunto sobre o qual parecia ter uma ampla experiência.
Lorde Caterham, Bundle e diversos criados assustados estavam parados à entrada da Câmara do Conselho.
– Mas que diabo aconteceu aqui? – indagou Bundle. – Eram ladrões? O que estava fazendo lá fora com o Sr. Fish, Virginia? Dando um passeio à meia-noite?
Virginia explicou os acontecimentos da noite. E Bundle comentou:
– Mas que coisa emocionante! Não é sempre que se consegue ter um assassinato e um assalto no mesmo fim de semana. O que haverá com a luz dessa sala? Não há problema nenhum no restante da casa.
O mistério foi logo explicado. As lâmpadas tinham sido apenas removidas e estavam encostadas na parede, perfiladas. Subindo numa pequena escada de mão, o distinto Tredwell, que não perdia a compostura mesmo em trajes de dormir desalinhados, rapidamente restaurou a iluminação na sala em desordem.
– Se não estou enganado – murmurou lorde Caterham, em tom desolado, correndo os olhos pelo aposento –, esta sala foi recentemente o palco de alguma atividade um tanto violenta.
O comentário dele era procedente. Tudo o que podia ser derrubado o fora devidamente. O chão estava coalhado de lascas de cadeiras, porcelanas quebradas e fragmentos de armadura.
– Quantos eram? – perguntou Bundle. – Pelo que parece, houve aqui uma luta desesperada.
– Acho que era apenas um – respondeu Virginia.
Mas ela hesitou um pouco ao responder. Certamente apenas uma pessoa, um homem, passara pela porta do terraço. Mas ao correr na direção dele, tivera a vaga impressão de ouvir um ruído mais próximo. Se havia mesmo uma segunda pessoa na sala, ela poderia ter escapado pela porta interior. Mas talvez o ruído fosse apenas um produto da imaginação dela.
Bill apareceu subitamente na janela. Estava sem fôlego, ofegando ruidosamente.
– Desgraçado! – exclamou ele, furioso. – O sujeito conseguiu escapar. Estive procurando por toda a parte e não encontrei o menor sinal dele.
– Ânimo, Bill – disse Virginia. – Terá mais sorte na próxima vez.
– O que devemos fazer agora? – indagou lorde Caterham. – Voltarmos para a cama? Não vou conseguir encontrar Badgworthy a esta hora da noite. Tredwell, creio que sabe o que é necessário. Tome todas as providências, está certo?
– Está certo, milorde.
Com um suspiro de alívio, lorde Caterham preparou-se para ir embora. E comentou, com um tom de inveja:
– Isaacstein continua a dormir profundamente. Era de esperar que toda esta confusão o acordasse e o fizesse descer.
Ele olhou para o Sr. Fish e acrescentou:
– Estou vendo que encontrou tempo para se vestir.
– Consegui realmente pôr algumas peças de roupa.
– O que foi uma precaução das mais sensatas – disse lorde Caterham. – É horrível e faz muito frio para ficar andando de um lado para outro de pijama.
Ele bocejou. E com um humor longe de ser dos melhores, todos foram se deitar novamente.
18
Segunda aventura à meia-noite
A primeira pessoa que Anthony avistou, ao desembarcar do trem na tarde seguinte, foi o superintendente Battle. O rosto dele se iluminou com um sorriso e não pôde resistir ao comentário:
– Voltei de acordo com o combinado. Veio até aqui para se certificar?
– Não estava preocupado com isso, Sr. Cade. Acontece apenas que estou de partida para Londres, mais nada – disse.
– Tem uma natureza bastante confiante, Battle.
– Acha mesmo, senhor?
– Não. Acho que é um homem profundo... muito profundo até. Águas serenas e o restante da história. Quer dizer que vai para Londres?
– Isso mesmo, Sr. Cade.
– Posso saber o motivo?
O detetive não respondeu.
– É sempre bastante loquaz, Battle. É a sua qualidade que mais aprecio.
Um brilho fraco surgiu por um rápido instante nos olhos de Battle.
– Como se saiu em sua pequena empreitada, Sr. Cade? Descobriu alguma coisa?
– Não, Battle, não descobri nada. Pela segunda vez, constatei que estava redondamente enganado. Não acha que isso é irritante?
– O que tinha em mente, senhor, se me permite perguntar?
– Eu desconfiava da governanta francesa, Battle. A: porque ela era a pessoa mais improvável, segundo os cânones da melhor ficção policial; B: porque vi uma luz se acender no quarto dela, na noite da tragédia.
– Não era muita coisa em que se basear.
– Tem toda razão. Não era mesmo. Mas descobri que ela está trabalhando para a família há pouco tempo e, além disso, encontrei um francês suspeito espionando pela propriedade. Mas já sabe da existência dele, não é mesmo?
– Está se referindo ao homem chamado monsieur Chelles, que está hospedado na Cricketers? É um viajante comercial.
– E o que a Scotland Yard pensa a respeito dele?
– As ações dele têm sido um tanto suspeitas – respondeu o superintendente Battle, com o rosto inexpressivo, como de hábito.
– Eu diria que muito suspeitas mesmo. O fato é que somei dois e dois. A governanta francesa na casa, um francês estranho do lado de fora. Cheguei à conclusão de que os dois estavam de conluio e fui conversar com a dama para quem mademoiselle Brun dizia ter trabalhado ao longo dos últimos dez anos. Estava preparado para descobrir que ela jamais tinha ouvido falar em mademoiselle Brun. Mas eu estava redondamente enganado, Battle. Mademoiselle é autêntica.
Battle limitou-se a assentir e Anthony acrescentou:
– Devo admitir que no instante em que tive a oportunidade de conversar com mademoiselle fiquei com a impressão desagradável de que havia embarcado na canoa errada. Ela parecia ser realmente uma governanta legítima.
Novamente Battle assentiu, mas dessa vez comentou:
– Seja como for, Sr. Cade, nem sempre se pode confiar nas impressões iniciais. As mulheres, sobretudo, podem mudar muito com um pouco de maquiagem. Já vi moças bonitas mudarem a cor dos cabelos, empalidecerem o rosto, avermelharem ligeiramente as pálpebras e se vestirem com trapos, mudando inteiramente de figura, a ponto de não serem reconhecidas por nove entre dez pessoas que as viram em suas caracterizações anteriores. Os homens não têm a mesma facilidade, mas sempre podem alterar as sobrancelhas e usar dentes postiços, conseguindo assim alterar toda a expressão. A única coisa que não se pode mudar são as orelhas, Sr. Cade. As orelhas são muito mais características do que se pode imaginar.
– Pois não fique olhando tanto para minhas orelhas, Battle – queixou-se Anthony. – Isso me deixa nervoso.
– Não estou me referindo a barbas postiças, pois isso só é eficaz nos livros. Há bem poucos homens que podem se disfarçar a ponto de escaparem à identificação. Na verdade, só conheci um homem que era um verdadeiro gênio do disfarce: rei Victor. Já ouviu falar no rei Victor, Sr. Cade?
Havia algo brusco e estranho na maneira como o detetive formulou a pergunta, o que fez com que Anthony reprimisse as palavras que lhe afloraram aos lábios, limitando-se, em vez disso, a murmurar, pensativo:
– Rei Victor? Tenho a impressão de que já ouvi falar nesse nome.
– Um dos mais famosos ladrões de jóias do mundo. Pai irlandês, mãe francesa. Sabe falar fluentemente pelo menos cinco línguas. Estava na prisão, cumprindo uma sentença, mas foi solto há poucos meses.
– É mesmo? E onde ele pode estar neste momento?
– É justamente o que gostaríamos de saber, Sr. Cade.
– O caso se torna cada vez mais misterioso – comentou Anthony, entusiasmado. – Existe a possibilidade de esse rei Victor aparecer por aqui? Suponho que ele não esteja interessado em memórias políticas, apenas em jóias.
– Não há como se saber, Sr. Cade. É possível até que ele já esteja aqui.
– Disfarçado como o segundo lacaio? Mas que idéia maravilhosa! Certamente irá reconhecê-lo pelas orelhas e se cobrirá de glórias.
– Está satisfeito com o seu gracejo, hein, Sr. Cade? Por falar nisso, o que acha daquele estranho caso de Staines?
– Staines? O que aconteceu em Staines?
– A notícia saiu nos jornais de sábado. Pensei que a tivesse lido. Um homem foi encontrado morto à beira da estrada. Baleado. Era um estrangeiro. Os jornais de hoje voltaram a falar do caso.
– Estou lembrando agora que li algo a respeito – disse Anthony, procurando imprimir à voz o tom mais indiferente possível. – Aparentemente, não foi suicídio.
– Tem razão, não foi mesmo. A arma não foi encontrada. E, até agora, o homem ainda não foi identificado.
– Parece muito interessado no caso – disse Anthony, sorrindo. – Acha que tem alguma relação com a morte do príncipe Michael?
A voz de Anthony estava firme, assim como os olhos. Seria mera impressão sua ou será que o superintendente Battle o estava mesmo fitando de uma maneira estranha?
– Parece-me que está havendo ultimamente uma epidemia de assassinatos estranhos – comentou Battle, finalmente. – Mas eu diria que não há qualquer ligação entre os dois casos.
Ele se afastou, fazendo um sinal para um carregador no momento em que o trem para Londres ruidosamente se aproximou da plataforma. Anthony deixou escapar um suspiro de alívio.
Atravessou o parque, mergulhado em seus pensamentos. De propósito, aproximou-se da casa na mesma direção que percorrera naquela fatídica noite de quinta-feira. Ao se aproximar, puxou pela memória, procurando confirmar qual fora o quarto em que vira a luz se acender. Fora mesmo na segunda janela a partir da extremidade?
E foi então que Anthony fez uma descoberta surpreendente. Havia um ângulo no canto da casa em que se situava uma janela bastante recuada. De um ponto determinado, essa janela seria contada como a primeira e a segunda seria a primeira na parte saliente da casa onde ficava a Câmara do Conselho. Mas, afastando-se uns poucos metros para a direita, tinha-se a impressão de que a parte saliente da Câmara do Conselho era a extremidade daquele lado da casa. A primeira janela ficava invisível e as duas janelas dos quartos por cima da Câmara do Conselho pareciam a primeira e a segunda daquele lado. Onde exatamente ele estava parado na noite em que vira a luz se acender lá em cima?
Anthony constatou que era muito difícil determinar. Um metro ou pouco mais de distância fazia uma enorme diferença. Mas uma coisa era evidente. Era bem possível que ele tivesse se enganado ao dizer que a luz se acendera no segundo quarto a contar da extremidade. Podia igualmente ter sido no terceiro.
E quem estaria ocupando o terceiro quarto? Anthony resolveu descobrir o mais depressa possível. A sorte o ajudou. No hall de entrada, encontrou Tredwell, que acabava de colocar o imenso bule de chá na bandeja de prata. Não havia mais ninguém à vista.
– Olá, Tredwell. Estava querendo perguntar algo a você. Quem ocupa o terceiro quarto a contar da extremidade, no lado oeste da casa, por cima da Câmara do Conselho?
Tredwell pensou por um momento, antes de responder:
– É o quarto do cavalheiro norte-americano, Sr. Fish.
– É mesmo? Obrigado.
– De nada, senhor.
Tredwell fez menção de se afastar, mas hesitou por um instante e acabou virando-se novamente para Anthony. O desejo de ser o primeiro a dar uma notícia faz com que até mesmo mordomos irrepreensíveis se tornem humanos.
– Já ouviu falar do que aconteceu ontem à noite, senhor?
– Não, não sei de nada. O que houve?
– Uma tentativa de roubo, senhor!
– É mesmo? E levaram alguma coisa?
– Não, senhor. Os ladrões estavam desmontando as armaduras na Câmara do Conselho quando foram surpreendidos e tiveram que fugir. Infelizmente, conseguiram escapar.
– Mas que coisa extraordinária... – murmurou Anthony. – E novamente na Câmara do Conselho! Foi por lá que eles entraram?
– Ao que parece, senhor, eles arrombaram uma das janelas.
Satisfeito com o interesse despertado por sua informação, Tredwell virou-se novamente para ir embora. Mas parou novamente, confuso, murmurando apressadamente um pedido de desculpas:
– Oh, perdoe, senhor! Não o ouvi se aproximar e não podia imaginar que estava parado logo atrás de mim.
O Sr. Isaacstein, que fora a vítima do esbarrão, acenou com a mão, num gesto amistoso.
– Não foi nada, meu caro. Posso lhe assegurar que não foi absolutamente nada.
Tredwell afastou-se, com uma expressão ligeiramente desdenhosa. Isaacstein adiantou-se e afundou numa poltrona.
– Olá, Cade. Já está de volta, hein? Soube do pequeno espetáculo que houve aqui ontem à noite?
– Já soube, sim. Parece que é um dos fins de semana dos mais emocionantes.
– Eu diria que o trabalho da noite de ontem foi de ladrões locais. Parece-me que foi um trabalho dos mais desajeitados, típico de amadores.
– Será que há alguém por aqui que coleciona armaduras? – indagou Anthony. – Acho que é algo muito estranho para se roubar.
– Tem toda razão, é de fato muito estranho...
O Sr. Isaacstein fez uma pausa, antes de acrescentar:
– Toda essa situação está me parecendo muito estranha e lamentável...
Havia algo quase ameaçador em seu tom, e Anthony disse:
– Não estou entendendo onde quer chegar.
– Por que estamos sendo todos mantidos aqui? O inquérito foi realizado ontem. O corpo do príncipe será removido para Londres, onde tem-se comentado que ele morreu de parada cardíaca. Apesar disso, ninguém tem permissão para deixar Chimneys. O Sr. Lomax alega que não sabe mais do que eu. E quando o procuro para protestar, ele me encaminha ao superintendente Battle.
– O superintendente Battle parece ter um trunfo escondido na manga – Anthony comentou, pensativo. – E, ao que tudo indica, a essência do plano dele é não permitir que ninguém deixe a casa.
– Mas esteve longe daqui, Sr. Cade.
– Com uma corda presa ao meu pé. Não tenho a menor dúvida de que fui seguido durante todo o tempo. Não teria a menor oportunidade de me livrar do revólver ou fazer qualquer outra coisa no gênero.
– E por falar no revólver, ainda não o encontraram, não é mesmo?
– Ainda não.
– Possivelmente foi jogado no lago, de passagem.
– É possível.
– Onde está o superintendente Battle? Ainda não o vi esta tarde.
– Ele foi para Londres. Encontrei-o na estação.
– Foi para Londres? Tem certeza? E disse por acaso quando voltaria?
– Tenho a impressão de que ele vai voltar amanhã de manhã.
Virginia apareceu nesse momento, acompanhada de lorde Caterham e do Sr. Fish. Presenteou Anthony com um sorriso de boas-vindas.
– Ah, que bom que está de volta, Sr. Cade! Já ouviu falar em nossas aventuras ontem à noite?
– Foi uma noite de emoções intensas, Sr. Cade – disse o Sr. Fish. – Já soube que tomei a Sra. Revel por um dos malfeitores?
– E, enquanto isso, o malfeitor...
O Sr. Fish arrematou a frase iniciada por Anthony, dizendo tristemente:
– Conseguiu escapar.
– Sirva o chá, por favor – pediu lorde Caterham a Virginia. – Não sei onde Bundle está.
Virginia atendeu ao pedido e depois foi sentar-se ao lado de Anthony, dizendo-lhe, em voz baixa:
– Vá até a garagem de barcos depois do chá. Bill e eu temos muito para lhe contar.
E no instante seguinte, Virginia passou a participar, despreocupadamente, da conversa geral.
Todos compareceram na hora aprazada ao encontro na garagem de barcos.
Virginia e Bill estavam transbordando de novidades. Concordaram que um barco no meio do lago era o único lugar seguro para uma conversa confidencial. Depois de remarem até uma distância segura da margem, os dois fizeram um relato completo da aventura da noite anterior para Anthony. Bill estava um pouco mal-humorado, pois preferia que Virginia não insistisse em envolver aquele colonial na história.
– É realmente muito estranho – Anthony ressaltou, quando o relato terminou. – O que acha de tudo isso, Sra. Revel?
– Tenho a impressão de que eles estavam procurando algo – respondeu Virginia, sem a menor hesitação. – A idéia de um roubo é totalmente absurda.
– E eles acharam que esse algo, o que quer que possa ser, estava escondido numa das armaduras. Mas por que ficar batendo nos painéis de madeira? Dá a impressão de que estavam procurando uma escada secreta ou algo assim.
– Sei que Chimneys tem um esconderijo para padres, feito no tempo da perseguição – contou Virginia. – E creio que existe também uma escada secreta. Lorde Caterham já me falou a respeito. Mas acho que a pergunta que devemos fazer é outra: o que eles estavam procurando?
– Não podiam ser as memórias – comentou Anthony. – Afinal, o manuscrito era volumoso. Só pode ser algo pequeno.
– Tenho a impressão de que George sabe – falou Virginia. – Mas não sei se conseguirei arrancar a verdade dele. O fato é que, desde o início, tenho sentido que há algo mais por trás de todo esse caso.
– Disse que só pôde ter certeza da presença de um homem, mas sentiu que podia haver também outra pessoa na sala, pois teve a impressão de que alguém se encaminhava para a porta interior no instante em que correu para a porta do terraço. Ainda acha que isso é possível, Sra. Revel?
– O barulho foi quase inaudível. Talvez tenha sido apenas a minha imaginação.
– É bem possível. Mas, se não foi a sua imaginação, a segunda pessoa deve ser alguém da casa. Fico imaginando...
– O que está imaginando? – insistiu Virginia.
– Estava pensando na meticulosidade do Sr. Hiram Fish, que se vestiu inteiramente, ao ouvir gritos de socorro lá embaixo.
– Tem razão. Isso é muito estranho. E há também o caso do Sr. Isaacstein, que não acordou com todo aquele barulho. O que é bastante suspeito.
– E não podemos nos esquecer de Boris, o criado do príncipe Michael – lembrou Bill. – Ele me parece um celerado consumado.
– Chimneys está repleta de tipos suspeitos – comentou Virginia. – Tenho a impressão de que os outros também desconfiam de nós. Gostaria que o superintendente Battle não tivesse ido para Londres. Acho que foi uma estupidez da parte dele. Por falar nisso, Sr. Cade, vi duas ou três vezes aquele francês esquisito rondando furtivamente pelo parque.
– Não consigo entender mais nada – confessou Anthony. – Tenho a sensação de estar atirando no escuro. E tenho que admitir que banquei o idiota ao empreender a missão que me afastou daqui. Mas parece-me que toda a questão pode ser resumida em uma única questão: será que os homens encontraram o que estavam procurando ontem à noite?
– E se eles não tiverem encontrado? – indagou Virginia. – Tenho quase certeza de que não encontraram, diga-se de passagem.
– Nesse caso, creio que eles tornarão a aparecer. Já sabem ou logo saberão que Battle está em Londres. Correrão o risco e voltarão esta noite.
– Acha mesmo?
– É mais do que possível. Nós três devemos formar um grupo unido. Eversleigh e eu vamos nos esconder, com todas as precauções necessárias, na Câmara do Conselho...
– E eu, o que vou fazer? – interrompeu-o Virginia. – Pensa por acaso que vai conseguir me deixar de fora?
– É um trabalho para homens, Virginia – Bill informou.
– Não seja tolo, Bill. Estou metida no caso e não vou deixar que me tirem. Não se enganem a respeito disso. O grupo todo ficará de vigília esta noite.
Não houve a menor possibilidade de demovê-la e os três trataram de definir os detalhes do plano. Depois que todos foram deitar, os três desceram silenciosamente, um de cada vez. Todos estavam armados com potentes lanternas elétricas e no bolso do casaco de Anthony havia um revólver.
Anthony acreditava que seria realizada naquela noite outra tentativa de encontrar o que os desconhecidos estavam procurando. Mas não acreditava que a tentativa fosse feita por alguém de fora. Estava convencido de que Virginia não se enganara ao supor que alguém passara por ela no escuro na noite anterior. E agora, escondido atrás de uma antiga cômoda de carvalho, era para a porta e não para a janela que ele olhava. Virginia estava agachada por trás de uma armadura, na parede do lado oposto, e Bill, perto da janela.
Os minutos foram passando, com uma lentidão interminável. Soou 1 hora, depois a 1h30, 2 horas, 2h30. Anthony sentia o corpo doído de ficar parado por tanto tempo na mesma posição. Estava começando a chegar à conclusão de que se enganara, que nenhuma tentativa seria efetuada naquela noite.
E foi então que, subitamente, ficou tenso, todos os sentidos alertas. Ouvira passos no terraço lá fora. O silêncio voltou a reinar, mas um instante depois soou o barulho de algo raspando no vidro. O barulho logo cessou e a janela se abriu. Um homem entrou na sala.
Ficou parado por algum tempo, inteiramente imóvel, olhando ao redor, como se escutasse atentamente. Depois de mais de um minuto de espera, o homem ficou aparentemente satisfeito e acendeu uma lanterna que trazia, correndo a luz por toda a sala. Aparentemente, ficou convencido de que nada havia de anormal. Os três vigilantes prenderam a respiração.
O homem encaminhou-se para a mesma parede que estivera examinando na noite anterior.
E foi nesse momento que Bill foi invadido por uma certeza terrível. Ia espirrar! A corrida pelo parque cheio de orvalho, na noite anterior, deixara-o com uma ameaça de resfriado. Durante o dia inteiro, espirrara de maneira intermitente. E sabia que agora iria espirrar novamente, que nada no mundo poderia impedir o espirro.
Adotou todos os recursos de que se lembrou. Comprimiu o lábio superior, engoliu em seco, inclinou a cabeça para trás e ficou olhando para o teto. Como último e desesperado recurso, apertou o nariz vigorosamente. Mas nada adiantou. E ele espirrou.
Foi um espirro abafado, sufocado, emasculado, mas soou como um estrondo terrível na quietude da sala.
O estranho virou-se abruptamente e no mesmo instante Anthony entrou em ação. Acendeu a lanterna e correu na direção do intruso. Um instante depois, os dois estavam rolando pelo chão, engalfinhados.
– Acendam a luz! – gritou Anthony.
Virginia já estava ao lado do interruptor. Desta vez, todas as lâmpadas se acenderam. Anthony estava por cima do intruso. Bill se aproximou para ajudá-lo, em caso de necessidade.
– E agora vamos ver quem é o nosso amigo – disse Anthony. Ele rolou a sua vítima, que estava deitada de costas. Era o estranho de barba preta que estava hospedado na Cricketers.
– Um bom trabalho – uma voz falou de forma aprovadora. Todos se viraram para olhar, sobressaltados. O vulto corpulento do superintendente Battle estava parado na porta aberta.
– Pensei que estivesse em Londres, superintendente Battle – disse Anthony.
Os olhos de Battle faiscaram.
– É mesmo, senhor? Achei que poderia obter resultados se todos pensassem que eu tivesse me afastado.
– E foi justamente o que aconteceu – concordou Anthony, olhando para o seu inimigo prostrado.
Para sua surpresa, descobriu que o estranho estava sorrindo.
– Permitem que eu me levante, cavalheiros? – solicitou ele. – Afinal, são três contra um.
Anthony ajudou-o a ficar de pé. O homem ajeitou o casaco, olhando atentamente para Battle. E disse:
– Com licença, mas pode me confirmar se é mesmo um representante da Scotland Yard?
– Sou, sim.
– Neste caso, permita que lhe apresente as minhas credenciais.
O estranho sorriu, um tanto pesaroso, antes de acrescentar:
– Tenho a impressão de que seria mais sensato se o tivesse feito antes.
Ele tirou alguns documentos do bolso e entregou ao detetive da Scotland Yard. Ao mesmo tempo, virou a lapela do casaco e mostrou algo que ali estava pregado.
Battle soltou uma exclamação de espanto. Deu uma rápida olhada nos documentos e devolveu-os, com uma pequena mesura, dizendo:
– Lamento que tenha sido tratado dessa forma, monsieur, mas deve saber que foi por sua própria iniciativa que se expôs a tal situação. – Battle sorriu, ao notar o espanto dos outros, e acrescentou:
– Esse é um colega que estamos esperando há algum tempo. Monsieur Lemoine, da Sûreté, de Paris.
19
História secreta
Todos ficaram olhando para o detetive francês, que retribuiu o espanto geral com um sorriso, comentando:
– É verdade, sim.
Houve uma pausa prolongada, para que todos se ajustassem à nova situação. Só depois é que Virginia se virou para o superintendente Battle e disse:
– Sabe o que estou pensando, superintendente Battle?
– O que é, Sra. Revel?
– Acho que chegou o momento de nos dar algumas explicações.
– Explicações? Não estou entendendo, Sra. Revel.
– Está entendendo, perfeitamente, superintendente Battle. Eu diria que o Sr. Lomax recomendou-lhe que mantivesse sigilo absoluto a qualquer custo. Isso é típico de George. Mas é melhor nos contar tudo, antes que acabemos tropeçando com o segredo por nossa própria conta, talvez causando danos irreparáveis. Não concorda comigo, monsieur Lemoine?
– Concordo inteiramente, madame.
– Não se pode manter segredo para sempre – resignou-se Battle. – Foi o que eu disse ao Sr. Lomax. Como o Sr. Eversleigh é o secretário do Sr. Lomax, creio que não pode haver a menor objeção em contar-lhe a história. Quanto ao Sr. Cade, foi envolvido no caso independentemente de sua vontade e acho que tem todo o direito de conhecer a verdadeira situação. Mas...
Battle fez uma pausa e Virginia apressou-se em dizer:
– Já sei, já sei... As mulheres são tão indiscretas! Já ouvi George dizer isso uma porção de vezes.
Lemoine estava olhando atentamente para Virginia. Agora, virou-se subitamente para Battle e indagou:
– Estou certo ao pensar que dirigiu-se à madame pelo nome de Revel?
– É esse o meu nome – confirmou Virginia.
– Seu marido não esteve no Serviço Diplomático? E não estava com ele na Herzoslováquia, pouco antes do assassinato do rei e da rainha?
– Exatamente.
Lemoine tornou a se voltar para Battle.
– Acho que madame tem o direito de ouvir a história. Ela está indiretamente envolvida. Além do mais...
O francês fez uma pausa, os olhos faiscando rapidamente, antes de acrescentar:
– Madame tem uma extraordinária reputação de discrição nos círculos diplomáticos.
– Fico contente por saber que me têm em alta conta – disse Virginia, rindo. – E fico contente também por não ser deixada de fora.
– E o que me dizem dos refrescos? – indagou Anthony. – Vamos fazer a conferência aqui mesmo?
– Se não se incomoda, senhor, prefiro não deixar esta sala até o amanhecer – afirmou Battle. – E compreenderá a razão, depois de ouvir a história.
– Neste caso, vou buscar algo – disse Anthony.
Bill acompanhou-o e os dois não demoraram a voltar, com uma bandeja cheia de copos, sifões e outras necessidades da vida.
O grupo, assim ampliado, instalou-se confortavelmente no canto próximo da janela, em torno de uma mesa de carvalho. Battle começou a falar:
– Antes de mais nada, gostaria de ressaltar que tudo o que será dito aqui é absolutamente confidencial. Nada deve vazar. Sempre achei que a história iria se espalhar, a qualquer momento. Cavalheiros como o Sr. Lomax, que gostam de abafar todos os acontecimentos, correm riscos maiores do que imaginam. O começo da história ocorreu há pouco mais de sete anos. Estava então ocorrendo o que se chamava de reconstrução, especialmente no Oriente Médio. Muitas negociações se realizaram na Inglaterra, numa base estritamente confidencial, com aquele cavalheiro idoso, o conde Stylptitch, trabalhando nos bastidores, mexendo os pauzinhos. Todos os Estados balcânicos eram partes interessadas e havia muitos personagens reais aqui na Inglaterra. Não vou entrar em detalhes, mas algo desapareceu... e desapareceu de uma maneira inacreditável, a menos que se admitissem dois fatos: que o ladrão era um dos personagens reais e que, ao mesmo tempo, era o trabalho de um profissional da mais alta categoria. Monsieur Lemoine poderá contar-lhes como isso foi possível.
O francês fez uma mesura cortês e assumiu o relato:
– É possível que vocês, aqui na Inglaterra, não tenham ouvido falar do nosso famoso e fantástico rei Victor. Ninguém sabe qual é o seu nome verdadeiro. Mas indubitavelmente é um homem de coragem e audácia extraordinárias, fala cinco línguas fluentemente e é inigualável na arte do disfarce. Embora se saiba que o pai dele era inglês ou irlandês, o rei Victor trabalhava quase que exclusivamente em Paris. E foi lá, há quase oito anos, que ele realizou uma sucessão de assaltos audaciosos, vivendo sob o nome de capitão O’Neill.
Virginia deixou escapar uma débil exclamação de espanto. Monsieur Lemoine fitou-a rapidamente, antes de continuar:
– Creio que compreendo por que madame ficou tão apreensiva. Todos compreenderão também, dentro de mais um momento. Nós, da Sûreté, desconfiávamos de que esse capitão O’Neill era na verdade o famoso “rei Victor”, mas não podíamos obter as provas necessárias. Nessa ocasião, estava também em Paris uma atriz jovem e inteligente, Angèle Mory, do Folies Bergères. Também desconfiávamos havia algum tempo de que ela participava das operações do rei Victor. Mas, novamente, não podíamos conseguir as provas indispensáveis.
Ele continuou a narrativa:
– Nessa ocasião, Paris estava se preparando para a visita do jovem rei Nicolau IV, da Herzoslováquia. Recebemos, na Sûreté, instruções especiais sobre as medidas que deveriam ser adotadas para garantir a segurança de Sua Majestade. Em particular, fomos alertados para vigiar as atividades de determinada organização revolucionária, que se intitulava Camaradas da Mão Vermelha. Temos agora certeza quase absoluta de que os Camaradas procuraram Angèle Mory e ofereceram-lhe uma quantia fabulosa para ela ajudá-los em seus planos. O papel dela seria o de seduzir o jovem rei e atraí-lo a um local previamente combinado. Angèle Mory aceitou o suborno e prometeu desempenhar seu papel. Mas a jovem era mais esperta e mais ambiciosa do que os Camaradas da Mão Vermelha imaginavam. Conseguiu seduzir o jovem rei, que se apaixonou loucamente por ela e cobriu-a de jóias. Foi nessa ocasião que ela concebeu a idéia de se tornar não apenas uma amante de rei, mas sim uma rainha! E, como todo mundo sabe, conseguiu realizar sua ambição. Foi apresentada na Herzoslováquia como a condessa Varaga Popoleffsky, descendente dos Romanoff. Acabou se tornando a rainha Varaga, da Herzoslováquia. Não era nada mau para uma insignificante atriz parisiense! Sempre ouvi dizer que ela desempenhou o seu novo papel extremamente bem. Mas o triunfo foi de curta duração. Os Camaradas da Mão Vermelha, furiosos com a traição dela, tentaram matá-la por duas vezes. Finalmente, conseguiram levar o país a tal estado de agitação que irrompeu uma revolução, na qual morreram o rei e a rainha. Seus corpos, horrivelmente mutilados e praticamente irreconhecíveis, foram recuperados, comprovando a fúria do populacho contra a rainha estrangeira de nascimento humilde.
Lemoine continuou:
– Parece certo que, durante todo o tempo, a rainha Varaga manteve-se em contato com seu antigo associado, o rei Victor. É bem possível que o audacioso plano tenha sido formulado por ele. De qualquer forma, ela continuou a se corresponder com o rei Victor, num código secreto, da Corte da Herzoslováquia. Como medida de segurança, as cartas eram escritas em inglês e assinadas com o nome de uma dama inglesa cujo marido estava na ocasião na Embaixada da Inglaterra na Herzoslováquia. Se houvesse uma investigação e a referida dama negasse a autoria das cartas, era bem possível que não acreditassem nela. É que as cartas eram típicas de uma mulher culpada para seu amante. Era o seu nome que ela usava nas cartas, Sra. Revel.
– Sei disso – murmurou Virginia, o rosto ficando alternadamente pálido e vermelho, de maneira irregular. – Então é essa a explicação das cartas! Há algum tempo que venho pensando nisso.
– Mas que truque infame! – gritou Bill, indignado.
– As cartas eram dirigidas ao capitão O’Neill, para o endereço dele em Paris. O principal propósito dessas cartas talvez jamais fosse descoberto, se não fosse por um fato estranho, que só veio à luz mais tarde. Depois do assassinato do rei e da rainha, descobriu-se que muitas das jóias da Coroa tinham caído nas mãos da quadrilha e sido despachadas para Paris. Verificou-se que, em nove de cada dez casos, as principais jóias haviam sido substituídas por imitações. Cabe ressaltar que havia muitas pedras famosas entre as jóias da Herzoslováquia. Assim, mesmo depois que se tornou rainha, Angèle Mory continuou a se dedicar às suas atividades anteriores. Já devem estar percebendo agora onde chegamos. Nicolau IV e a rainha Varaga vieram para a Inglaterra e foram hóspedes do falecido marquês de Caterham, que era na ocasião o Secretário de Estado de Negócios Exteriores. A Herzoslováquia é um país pequeno, mas não podia ser ignorado. A rainha Varaga foi recebida com todas as honras. E temos assim uma personagem real que era também uma ladra experiente. Também não resta a menor dúvida de que a... ahn... a substituição, tão espetacular que podia enganar qualquer um que não fosse um perito, só pode ter sido feita pelo rei Victor. Na verdade, todo o plano, por sua própria audácia, apontava-o como o autor.
– O que aconteceu? – indagou Virginia.
– O caso foi abafado – explicou o superintendente Battle. Até hoje, ainda não se divulgou uma só notícia a respeito. Fizemos tudo o que era possível na surdina, algo muito mais difícil do que se pode imaginar, diga-se de passagem. Mas dispomos de métodos especiais que os deixariam espantados. Temos certeza absoluta de que a jóia não deixou a Inglaterra com a rainha da Herzoslováquia. Sua majestade escondeu-a em algum lugar, mas jamais conseguimos descobrir onde. Eu não ficaria surpreso...
O superintendente Battle fez uma pausa, olhando lentamente ao redor, antes de arrematar:
– ...se a pedra estivesse escondida em algum lugar desta sala. – Anthony levantou-se bruscamente.
– Depois de tantos anos? – perguntou ele, incrédulo. – Mas isso seria totalmente impossível!
– Não conhece as circunstâncias peculiares que envolvem o caso, monsieur – alertou o francês. – Apenas 15 dias depois, irrompeu uma revolução na Herzoslováquia e o rei e a rainha foram assassinados. Na mesma ocasião, o capitão O’Neill foi preso em Paris e condenado por uma acusação sem muita importância. Esperávamos encontrar as cartas em código na casa dele, mas parece que foram roubadas por algum intermediário herzoslovaco. O homem apareceu na Herzoslováquia pouco antes da revolução e depois desapareceu completamente.
Anthony comentou, pensativo:
– Ele provavelmente foi para o exterior. E deve ter ido para a África. Sou capaz de apostar que guardou zelosamente as cartas. Para ele, devia valer tanto quanto uma mina de ouro. É estranho como as coisas acontecem. Lá na África, ele devia ser conhecido como Pedro, o holandês, ou algum outro nome parecido.
Ele percebeu que o superintendente Battle o fitava, inexpressivo como sempre. Sorriu-lhe e acrescentou:
– Não se trata realmente de clarividência, Battle, embora possa parecer. Daqui a pouco contarei toda a história.
Virginia voltou a intervir na conversa:
– Há algo que ainda não foi esclarecido. Qual a relação entre o roubo e as memórias? Deve haver alguma ligação, não é mesmo?
– Madame apreende as coisas bem depressa – comentou Lemoine, de maneira aprovadora. – Há realmente uma ligação. Na ocasião do roubo, o conde Stylptitch também estava em Chimneys.
– Quer dizer que ele talvez soubesse de tudo?
– Parfaitement.
– E se ele tivesse revelado tudo em suas preciosas memórias, haveria um escândalo de grandes proporções, sobretudo por causa da maneira como o caso foi abafado – disse Battle.
Anthony acendeu um cigarro e depois perguntou:
– Será que não há possibilidade de haver nas memórias uma pista indicando o esconderijo da pedra?
– É bastante improvável – respondeu Battle, taxativamente. O conde Stylptitch nunca esteve em boas relações com a rainha, até se opôs ao casamento com unhas e dentes. Não se pode imaginar que ela lhe tenha feito confidências.
– Não era isso o que eu estava sugerindo – explicou Anthony. – Por tudo o que se sabe, o conde era um velho extremamente esperto. É possível que tenha descoberto o esconderijo da pedra sem que a rainha o soubesse. Se isso tivesse acontecido, o que acham que ele teria feito?
– Ficaria calado – respondeu Battle, depois de um momento de reflexão.
– Concordo plenamente – completou o francês. – Era uma ocasião extremamente delicada. A devolução anônima da pedra teria acarretado enormes dificuldades. Além do mais, o conhecimento do esconderijo da pedra teria proporcionado um grande poder ao conde Stylptitch... e aquele estranho velho apreciava intensamente o poder. Não apenas ficaria em condições de dominar a rainha, como também passaria a dispor de uma arma poderosa para negociar, na ocasião mais oportuna. Não era o único segredo que ele possuía. Ao contrário, o conde Stylptitch colecionava segredos como alguns homens colecionam peças raras de porcelana. Comenta-se que, antes de sua morte, ele gabou-se algumas vezes dos fatos incríveis que poderia revelar se lhe desse na veneta. E pelo menos em uma ocasião ele declarou que tencionava fazer algumas revelações surpreendentes em suas memórias.
O francês fez uma pausa, sorrindo um tanto contrafeito.
– É justamente por isso que há tanta ansiedade de muitas pessoas em se apoderarem das memórias. Nossa própria polícia secreta tencionava se apoderar delas, mas o conde tomou a precaução de despachá-las para longe antes de sua morte.
– Apesar de tudo, não há nenhuma razão concreta para se acreditar que ele estivesse a par desse segredo em particular – comentou Battle.
– Ao contrário, há um motivo muito sólido: as próprias palavras dele – disse Anthony, calmamente.
– O quê?
Os dois detetives olharam para Anthony, aturdidos, como que incapazes de acreditar no que tinham acabado de ouvir. Anthony apressou-se em explicar:
– Quando o Sr. McGrath entregou-me o manuscrito para que o trouxesse para a Inglaterra, relatou-me também as circunstâncias de seu único encontro com o conde Stylptitch. Foi em Paris. Assumindo um considerável risco pessoal, o Sr. McGrath salvou o conde de um bando de apaches. Parece que o conde estava um pouco... digamos, inebriado. Em tal estado, fez alguns comentários dos mais interessantes. Um deles foi o de que sabia onde estava o Koh-i-noor... uma declaração à qual o meu amigo não deu maior importância. Disse, também, que os homens que o haviam atacado eram da quadrilha do rei Victor. Os dois comentários, reunidos, tornam-se extremamente interessantes.
– Santo Deus! – exclamou o superintendente Battle. – E como são! Em vista disso, até mesmo o assassinato do príncipe Michael assume um aspecto diferente.
– O rei Victor jamais matou alguém – lembrou-lhe o francês.
– E se ele tivesse sido surpreendido no momento em que procurava a pedra?
Anthony interveio na conversa, indagando de forma brusca:
– Quer dizer que ele está na Inglaterra? Disse que ele foi solto há poucos meses. Por acaso não tomaram a precaução de segui-lo?
Um sorriso triste estampou-se no rosto do francês.
– Bem que tentamos, monsieur. Mas aquele homem é um verdadeiro demônio. Conseguiu nos despistar quase que imediatamente. Pensávamos que ele fosse seguir diretamente para a Inglaterra. Mas nada disso aconteceu. O rei Victor foi... para onde imagina que ele possa ter ido, monsieur?
– Para onde foi?
Anthony olhava atentamente para o francês, enquanto brincava, distraidamente, com uma caixa de fósforos.
– Para a América! Ou, para ser mais preciso, foi para os Estados Unidos.
– O quê? – exclamou Anthony, visivelmente surpreso.
– Exatamente. E pode imaginar qual foi o nome que ele escolheu? Tem alguma idéia do papel que decidiu assumir? Nada mais, nada menos que o do príncipe Nicolau da Herzoslováquia!
A caixa de fósforos caiu da mão de Anthony, cujo espanto foi igualado pelo de Battle.
– Impossível!
– Nem tanto, meu amigo. Deverão receber a notícia pela manhã. Foi um embuste colossal. Como sabem, correu o rumor de que o príncipe Nicolau morreu no Congo, há alguns anos. Nosso amigo, o rei Victor, aproveitou essa oportunidade, pois é sempre difícil comprovar tal morte. Ressuscitou o príncipe Nicolau e assumiu o papel, a fim de se apoderar de uma quantia fabulosa em dólares norte-americanos... tudo por conta de supostas concessões para a exploração do petróleo herzoslovaco. Mas, por um mero acaso, ele acabou sendo desmascarado e foi obrigado a deixar os Estados Unidos às pressas. E dessa vez veio mesmo para a Inglaterra. É por isso que estou aqui. Mais cedo ou mais tarde, o rei Victor irá aparecer em Chimneys... se é que já não está aqui!
– Acha que isso é possível?
– Estou convencido de que o rei Victor se encontrava aqui na noite em que o príncipe Michael morreu, e apareceu novamente ontem à noite.
– Fazendo outra tentativa de recuperar a pedra? – indagou Battle.
– Exatamente.
– Havia um fato que estava me preocupando – comentou Battle. – O que teria acontecido com monsieur Lemoine? Recebi o aviso de Paris de que ele estava a caminho da Inglaterra, a fim de trabalhar comigo no caso. Não podia entender por que ele demorava tanto a aparecer.
– Devo pedir desculpas – falou o francês. – Cheguei na manhã seguinte ao crime. Achei que seria melhor investigar o caso de forma não oficial, sem me apresentar como seu colega. Pensei que, assim, teria mais chance de descobrir algo. Claro que sabia que inevitavelmente iriam suspeitar de mim, mas isso reforçava o meu plano de evitar que as pessoas ficassem prevenidas contra a minha presença. E posso assegurar que vi muitos acontecimentos interessantes nos últimos dois dias.
– Mas pode me dizer o que realmente aconteceu ontem à noite? – perguntou Bill.
– Receio ter-lhe proporcionado um exercício um tanto violento – monsieur Lemoine comentou.
– Quer dizer que foi a você que persegui?
– Exatamente. Vou contar tudo. Vim até aqui para observar, pois estava convencido de que a chave para o mistério estava nesta sala, já que o príncipe havia sido morto aqui. Fiquei lá fora, no terraço, esperando. Não demorou muito e percebi que alguém estava aqui na sala. De vez em quando, podia avistar o brilho de uma lanterna. Experimentei a porta que dá para o terraço do meio e descobri que estava destrancada. Não sei dizer se o homem tinha entrado por ali antes da minha chegada ou se a deixara destrancada como um caminho de fuga, caso fosse incomodado. Empurrei a porta devagarinho e entrei. Passo a passo, sem fazer qualquer barulho, fui me esgueirando pela sala, até chegar a um ponto de onde podia observar tudo, sem correr o risco de ser descoberto. Não podia, é claro, enxergar o homem direito. Ele estava de costas para mim e dava apenas para ver sua silhueta, delineada pelo clarão da lanterna. As ações dele deixaram-me espantado. Desmontou primeiro as duas armaduras, examinando meticulosamente cada peça. Ao se convencer de que ali não estava o que procurava, o homem começou a bater de leve no revestimento de madeira, embaixo daquele quadro. Não posso dizer o que ele iria fazer a seguir, pois foi nesse momento que houve uma interrupção. Você entrou abruptamente na sala...
Lemoine parou de falar e olhou para Bill. E Virginia aproveitou a pausa para comentar, pensativa:
– O que significa que a nossa interferência bem-intencionada no fundo foi desastrosa.
– De certa forma, madame, foi mesmo. O homem apagou a lanterna. E eu, que ainda não estava querendo revelar minha identidade, corri para a porta. Na escuridão, esbarrei nos outros dois homens, que estavam engalfinhados, e caí no chão. Levantei-me no mesmo instante e saí correndo pela porta. O Sr. Eversleigh, pensando que eu fosse o atacante, saiu em minha perseguição.
– Fui eu que o persegui inicialmente – disse Virginia. – Só depois é que Bill saiu também em seu encalço.
– Enquanto isso, o outro homem teve o bom senso de ficar imóvel e depois esgueirar-se pela porta interior. Não sei como não esbarrou na multidão que veio em socorro.
– Isso não seria difícil – comentou Lemoine. – Ele poderia se apresentar como um salvador que tinha chegado antes dos outros.
– Acha mesmo que esse Arsène Lupin pode ser uma das pessoas que estão nesta casa? – perguntou Bill, com os olhos faiscando.
– Por que não? Ele poderia passar facilmente por um criado. Pelo que sabemos, talvez seja até Boris Anchoukoff, o criado de confiança do falecido príncipe Michael.
– Ele é realmente um sujeito muito esquisito – concordou Bill.
Mas Anthony estava sorrindo e disse:
– Não devia fazer algo assim, monsieur Lemoine.
O francês também sorriu. O superintendente Battle perguntou:
– Não o contratou agora como seu criado, Sr. Cade?