Os Favoritos de Fortuna
— Se eu tivesse deixado, o teu…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Se eu tivesse deixado, o teu amo seria o primeiro a morrer — disse a velha, suspirando. — bom, eles não vão voltar enquanto não gastarem o dinheiro, mas hão-de voltar. Tens de levar César para as montanhas.
— Mas ele morre! — disse Burgundo, que começava a chorar. — Pode ser que sim, pode ser que não. Mas se ficar aqui é que vai morrer pela certa. O coma de César era pacífico: não delirava, não estava numa agitação constante, muito longe disso. O rapaz, pensou Ria, estava muito magro e abatido, e tinha feridas à volta da boca, causadas pelas febres, mas mesmo a dormir, mesmo dominado por aquele estranho sono, aceitava tudo o que lhe dessem a beber; por outro lado, como a sua imobilidade era relativamente recente, o seu peito não produzia ainda os ruídos que indicavam uma obstrução fatal. — É pena termos perdido o dinheiro, porque eu não tenho um trenó e tu vais ter de levá-lo sem trenó. Conheço um homem
que era capaz de me vender um, mas desde que Quinto Sertório foi proscrito que eu não vejo a cor ao dinheiro. Se fiquei com esta casa, foi porque ela era o meu dote. Burgundo ouviu estas palavras sem qualquer reacção; depois, revelou que, afinal, era capaz de ter boas ideias.
— Vende o cavalo dele! — disse e desatou a chorar. — Ah, ele vai ficar destroçado! Mas não temos outra saída.
— Muito bem, Burgundo! — disse Ria, animada. — Vai ser fácil vender o cavalo. Não pelo que ele vale, mas pelo menos ficamos com dinheiro suficiente para comprar o trenó e alguns bois e para pagar a Prisco e Gratídia pelo alojamento — mesmo que tu comas tanto como de costume!
O trenó — que, na realidade, era uma carroça com rodas e um estrado de pranchas polidas com as extremidades recurvadas — custou quatro mil sestércios e os dois bois que a puxavam mil sestércios cada. No entanto, o proprietário disse-lhes que estava interessado em readquirir a carroça e os bois no Verão seguinte, por quatro mil sestércios, o que lhe permitia obter um lucro de dois mil.
— És muito capaz de ter a carroça e os bois de volta antes do Verão — disse-lhe Ria, com um ar pesaroso.
Burgundo e Ria fizeram todos os possíveis para que César ficasse confortável no trenó, envolvendo-o com o maior número possível de mantas.
— Agora tem cuidado para que ele não dê muitas voltas! Caso contrário, ainda lhe saem os ossos pela pele — e ele é só pele e osso, coitado! com este tempo, a vossa comida aguenta-se durante muito tempo, isso sempre é uma ajuda. E tens de tentar dar-lhe leite da minha ovelha. E água também — disse-lhe Ria, qual professora de crianças. — Ah, quem me dera poder ir contigo! Mas já sou muito velha!
Ria ficou a vê-los avançando pelos prados cobertos de neve até que Burgundo e César, deitado no trenó, desapareceram; quanto à ovelha, Ria tinha-a dado, na esperança de que o leite contribuísse para a cura de César. Depois, quando deixou de os ver, voltou para casa e preparou-se para ofertar uma das suas pombas à deusa da família, Vénus, e uma dúzia de ovos a Telo e a Sol Indígete, que eram a mãe e o pai de tudo o que era italiano. A jornada até à casa de Prisco e Gratídia demorou oito dias, pois os bois eram tremendamente lentos. Esta lentidão acabou por ser benéfica para César, pois ia naquele transporte quase como se fosse numa cama; o trenó deslizava suavemente pelas terras cobertas de gelo graças à aplicação nas rodas de muitas camadas de cera. Deixaram o vale do rio Himela, onde ficava Nersas, mesmo na margem desse veloz curso de água, subindo por uma estrada que atravessava uma íngreme elevação; do outro lado, tinham uma descida igualmente íngreme até ao vale do Aterno.
Entretanto, algo de estranho se passou: César começou a melhorar logo que sentiu algum frio, depois de ter estado tanto tempo numa casa tão quente. Bebia algum leite (as mãos de Burgundo eram tão grandes que tinha a maior dificuldade em ordenhar a ovelha, felizmente um animal velho e paciente) e chegou mesmo a mastigar muito lentamente um pedaço de queijo que Burgundo lhe dera a chupar. No entanto, a prostração mantinha-se e, por outro lado, César não conseguia falar. Não encontraram casa nenhuma naquele caminho e, por isso, não puderam abrigar-se durante a noite; mas o frio era seco, o céu mantinha-se muito azul durante o dia e, à noite, enchia-se de profusas teias de estrelas.
O coma, entretanto, começou a desvanecer-se, para dar lugar à sonolência que o precedera; e, gradualmente, também essa sonolência acabou por se esfumar. Vendo as coisas por um determinado prisma, isso parecia ser uma melhoria, dizia Burgundo para si mesmo, fazendo as suas lentas conjecturas. Porém, ao olhar para César, Burgundo tinha a impressão de que alguma horrenda criatura do mundo dos mortos se apossara do seu amo e lhe chupara todo o sangue. De facto, César quase não conseguia erguer a mão. Conseguira falar uma vez, porque dera pela falta do seu querido cavalo.
— Onde está Bucéfalo? — perguntou. — Não vejo Bucéfalo! — Tivemos de deixar Bucéfalo em Nersas, César. Podes ver com os teus próprios olhos que esta estrada não era para um cavalo daqueles. Mas não te preocupes. O cavalo está em segurança, ficou com Ria. — Burgundo achou que era melhor não lhe dizer a verdade, tanto mais que César acreditou nele.
Prisco e Gratídia viviam numa pequena quinta, a alguns quilômetros de Amiterno. Tinham sensivelmente a mesma idade que Ria e eram pobres; os seus dois filhos, que poderiam ter contribuído para uma maior prosperidade da família, haviam sido mortos durante a Guerra Italiana. Filhas, não tinham. Por isso, quando leram a carta de Ria e Burgundo lhes entregou os três mil sestércios que lhe restavam, receberam de braços abertos os fugitivos.
— Se a febre subir, levo-o lá para fora — disse Burgundo ao casal. — É que, logo que ele deixou a casa de Ria e apanhou um bocado de frio, começou a ficar melhor. — Depois, apontando para o trenó e para os bois, acrescentou: — Podem ficar com aquilo. Se César sobreviver, não precisará nem do carro, nem dos bois.
Conseguiria César vencer a morte? Aquelas três pessoas que cuidavam dele não faziam a mínima ideia, pois os dias iam passando e as melhoras eram poucas. Por vezes o vento soprava forte e a neve parecia cair durante uma eternidade. Depois, o tempo voltava a ficar mais seco e mais frio, mas César parecia não dar por nada. A febre tinha baixado e, ao mesmo tempo, César saíra do coma, mas a verdade é que as grandes melhoras demoravam e o jovem flamen Dialis continuava com o mesmo aspecto de quem ficara sem pinga de sangue. Em fins de Abril, começou o degelo e surgiu uma promessa de Primavera. Segundo diziam os habitantes daquela região de Itália, aquele fora o mais terrível Inverno de que tinham memória. Para César, fora o mais terrível Inverno de toda a sua vida. — Creio — disse Gratídia, que era prima de Ria — que César acabará por morrer, a menos que possa ir para um sítio como Roma, onde há médicos e remédios e alimentos que nós, nas montanhas, não podemos ter. Não há sinal de vida no seu sangue. É por isso que ele não melhora. Não sei que remédios lhe dar e tu proíbes-me de ir a Amiterno buscar alguém para o ver. Por isso, Burgundo, creio que chegou a hora de ires a Roma contar à mãe dele o que se passa.
Sem uma palavra, Burgundo virou-lhe as costas e correu a pôr a sela no seu cavalo; Gratídia só teve tempo de lhe dar um naco de comida antes de ele partir. — Eu já estava intrigada por não ter notícias — disse Aurélia, o rosto muito branco. Mordia no lábio inferior, como se o estímulo
de uma pequena dor a ajudasse a pensar. — Não encontro palavras para te agradecer, Burgundo. Sem ti, o meu filho estaria certamente morto a esta hora. E temos de trazê-lo para Roma antes que ele morra de facto. Agora vai ter com Cardixa. Ela e os teus filhos estão cheios de saudades.
De nada lhe serviria ir falar de novo com Sila, disso estava Aurélia ciente. Se esse processo não resultara antes do Ano Novo, não era agora, quatro meses depois do Ano Novo, que ia resultar. As proscrições continuavam a assolar gente e bens — embora ultimamente com menos virulência, ou assim parecia, e as leis começavam a sair; grandes leis ou leis terríveis: isso dependia da opinião daqueles com quem ela falava. Mas uma coisa era certa: Sila estava extremamente ocupado.
Quando soube que Sila mandara chamar Marco Púpio Pisão Frugi, alguns dias depois da sua entrevista, e que Sila ordenara a Pisão Frugi que se divorciasse de Ânia porque ela era a viúva de Cina, Aurélia chegou a ter uma réstia de esperança em relação ao futuro do filho. Porém, apesar de Pisão Frugi ter obedecido, divorciando-se rapidamente de Ânia, a verdade é que nada de especial aconteceu. Ria tinha-lhe escrito uma carta, dizendo que o dinheiro fora engolido por um homem a quem tinham posto um apelido por causa das grandes quantidades que podia engolir, e que César e Burgundo se tinham ido embora; mas Ria não mencionara a doença de César e Aurélia concluíra que tudo estava a correr bem.
—vou ter com Dalmática — decidiu por fim. — Talvez uma outra mulher me possa indicar a melhor maneira de abordar Sila.
A mulher de Sila, que chegara de Brindísio em Dezembro do ano anterior, quase não fora vista em Roma desde então. Corriam vários boatos: segundo uns, ela estaria doente; segundo outros, Sila não tinha tempo para a sua vida privada e, por isso, não dava a mínima atenção à mulher; mas ninguém murmurava que Sila a tinha substituído por outra pessoa. Assim sendo, Aurélia escreveu-lhe uma breve nota, pedindo uma entrevista, de preferência a uma hora em que Sila não estivesse em casa. Aurélia teve o cuidado de explicar que preferia que o Ditador não estivesse em casa pois tinha receio de irritá-lo. Perguntava também se seria possível que Cornélia Sila estivesse presente, pois gostaria de ver uma pessoa que em tempos conhecera tão bem; talvez Cornélia Sila
pudesse também aconselhá-la, pois debatia-se com um problema. De facto, o que pretendia, assim terminava a nota, era discutir esse problema. Sila vivia já na sua casa com vista para o Circus Maximus, que entretanto fora reconstruída; a casa tresandava ainda a estuque fresco e a cal e a todo o tipo de tintas e tinha ainda o aspecto grosseiro que só o tempo atenua. Aurélia foi conduzida através de um vasto átrio para um peristilo ainda mais vasto, e finalmente até aos aposentos de Dalmática, que eram tão grandes como o apartamento de Aurélia. As duas mulheres conheciam-se mas nunca tinham sido amigas; Aurélia não entrava no círculo do Palatino, a que pertenciam as mulheres dos homens mais poderosos de Roma, já que era senhoria de uma ínsula em Subura e estava sempre tão ocupada que não tinha tempo para aquelas reuniões fúteis em que as senhoras temperavam os mexericos com bolinhos e vinho doce misturado com água. Dalmática, justiça lhe seja feita, também não pertencia a esse círculo. De facto, os muitos anos de clausura que o seu primeiro marido, Escauro Princeps Senatus, lhe tinha imposto, tinham-na feito perder todo o interesse por esse tipo de futilidades. Depois, viera o exílio na Grécia — um idílio com Sila em Éfeso, Esmirna e Pérgamo, os gémeos e, por fim, a terrível doença de Sila. Demasiadas preocupações, infortúnios, saudades da terra natal, sofrimento. Cecília Metela Dalmática nunca mais voltaria a sentir qualquer inclinação pelas actividades fúteis de muitas senhoras da sua classe: compras, actores de comédia, pequenas contendas, escândalos, ociosidade. Além disso, o seu regresso a Roma quase ganhara as proporções de um triunfo, pois Sila parecia amá-la mais do que nunca.
Contudo, Sila não confiava nela e, por isso, Dalmática nada sabia quanto à sorte do flamen Dialis, aliás, nem sequer sabia que Aurélia era a mãe do flamen Dialis. E Cornélia Sila apenas sabia que Aurélia fora uma presença constante da sua infância, que Aurélia era um elo apenas nas suas vagas recordações de uma mãe que bebia demasiado e que se matara, e nas recordações, bem mais nítidas, da sua querida madrasta, Élia. O seu primeiro casamento — com o filho do colega de Sila no seu consulado — terminara em tragédia: o marido morrera em tumultos ocorridos no Fórum, durante o período em que Sulpício fora tribuno da plebe; o segundo casamento, com o irmão mais novo de Druso, Mamerco, era um casamento feliz.
Cada uma das três mulheres apreciava a beleza das outras e, já que eram consideradas em Roma como três das mais belas mulheres da cidade, era fácil deduzir que todas elas sentiam ter suportado as corrosivas tempestades do tempo melhor do que a maioria das mulheres. com 42 anos, Aurélia era a mais velha; Dalmática tinha 37 anos; e Cornélia Sila ia apenas nos 26. — Agora estás mais parecida com o teu pai — disse Aurélia a Cornélia Sila. com os seus olhos demasiado azuis e cintilantes para serem parecidos com os de Sila, Cornélia desatou a rir.
— Ah, não digas uma coisa dessas, Aurélia! A minha pele está intacta e, além disso, não uso peruca!
— Pobre homem — disse Aurélia. — É uma verdadeira provação para ele. — Assim é, de facto — concordou Dalmática, cuja formosura de morena era mais suave do que a imagem que Aurélia guardava dela, e cujos olhos acinzentados se mostravam agora muito mais tristes.
A conversa girou em torno de futilidades durante algum tempo, graças ao tacto de Dalmática, que evitou os temas desagradáveis que a sua enteada desejaria abordar. Como não era uma conversadora nata, Aurélia limitou-se a contribuir com um ou outro comentário insignificante.
Dalmática, que tinha um rapaz e uma rapariga do seu primeiro casamento e gémeos do segundo, estava preocupada com a filha mais velha, Emília Escaura. — É a mais bela das raparigas! — disse ela, exultante e feliz. — Cremos que está grávida, mas ainda é um bocado cedo para se ter a certeza. — com quem casou ela? — perguntou Aurélia; nunca estava a par dos casamentos. — com Mânio Acílio Glábrio. Escauro insistiu que ficassem noivos desde muito cedo. Laços tradicionais entre as famílias.
— Glábrio? É boa pessoa — disse Aurélia num tom cuidadosamente neutral; em privado, considerava-o um homem demasiado presunçoso e espalhafatoso, o contrário do pai, uma excelente pessoa.
— Não passa de um presunçoso e adora dar nas vistas — comentou Cornélia Sila sem o mínimo embaraço.
— Ora, Cornélia! Está certo que Glábrio não fosse homem para ti, mas já o mesmo não podemos dizer de Emília Escaura — disse Dalmática.
— E como está a nossa querida Pompeia? — perguntou rapidamente Aurélia. Cornélia Sila ficou radiante.
— Ah, está linda de morrer! Tem oito anos, já anda na escola. — Como era filha de Sila e tinha muito do desprendimento do pai, acrescentou: — Só é pena que seja de uma estupidez abismal! Já me dou por feliz se ela aprender latim que chegue para escrever uma nota de agradecimentos! De certeza que não vai conseguir aprender grego... De maneira que estou muito contente pelo facto de ela ser tão bonita. Para uma rapariga, é melhor ser bonita que brilhante. — Claro que é bom ser-se bonita quando é preciso encontrar um marido, mas um dote decente também ajuda — retorquiu secamente Aurélia.
— Ah, mas ela vai ter um dote em condições! — replicou a mãe de Pompeia. — O meu pai está riquíssimo e ela herdará uma parte dos bens dele e também uma parte dos bens dos Pompeus Rufos — os quais mudaram completamente em relação aos tempos em que fui viúva e vivi em casa deles! Nessa altura transformaram a minha vida na pior das provações! Mas agora, como eu tenho o meu pai ao meu lado, estão completamente diferentes! Além disso, têm medo que ele os proscreva.
— Façamos votos para que Pompeia encontre um óptimo marido — disse Dalmática, após o que olhou para Aurélia com um ar mais sério. — Estou muito contente por te ver, Aurélia, e espero que, a partir de agora, possa contar contigo como amiga, mas sei perfeitamente que não vieste cá apenas para me fazer uma visita de cortesia — tanto mais que tu és uma mulher famosa pela tua sabedoria e sensatez e por não te imiscuíres na vida de ninguém! Há algum problema, Aurélia? De que modo te posso ajudar?
Aurélia contou imediatamente a sua história, no estilo despojado que a caracterizava. Quanto à audiência, Aurélia não poderia censurá-la, pois as duas mulheres escutavam-na em absoluto silêncio.
— Temos de fazer qualquer coisa — disse Dalmática, mal Aurélia terminou. — Lúcio Cornélio tem demasiados assuntos a tratar e temo que ele não seja propriamente o mais afável dos homens. — Remexeu-se no seu assento, pouco à vontade. — Tu és amiga dele há muitos anos — disse ela, algo embaraçada. — Se tu não conseguiste influenciá-lo, custa-me a crer que eu consiga.
— Espero que isso não seja verdade — disse Aurélia num tom severo. — Sila visitava-me de quando em quando, mas garanto-lhes que não houve nada de menos próprio entre nós. Não era a minha suposta beleza que o atraía. Ainda que isto possa soar muito pouco romântico, a verdade é que aquilo que o atraía em mim era o meu senso prático. — Acredito no que dizes — disse Dalmática, com um sorriso nos lábios. Cornélia Sila tomou as rédeas da conversa.
— bom, mas tudo isso já se passou há muito tempo — disse ela bruscamente — e a vossa amizade de outros tempos já não exerce qualquer influência hoje. Tens toda a razão, Aurélia, quando dizes que não faz sentido encontrares-te de novo sozinha com o tata. Mas isso não quer dizer que não devas vê-lo uma vez mais. E quanto mais depressa melhor. Neste momento, ele está numa pausa entre duas leis. Creio que o melhor será reunir uma delegação formal. Sacerdotes, parentes homens, Virgens Vestais e tu. Mamerco ajudará, eu falo com ele. Quais são os parentes de César mais próximos que não estejam nas listas de proscritos? — Os Cotas — os meus três meio-irmãos.
— Óptimo, os Cotas vão contribuir para dar peso à delegação! Caio Cota é pontífice e Lúcio Cota é augure, e isso dá-lhes um peso religioso, para além do mais. Quanto a Mamerco, estou certa de que te apoiará. E vamos precisar de quatro Virgens Vestais. Ponteia, porque é a Chefe das Vestais. Fábia. Licínia. E a filha de César Estrabão, Júlia, que é parente de César. Conheces alguma das Vestais?
— Nenhuma delas. Nem sequer Júlia Estrabão — respondeu Aurélia. — Não faz mal. Eu conheço-as a todas. Deixa o caso comigo. — Que posso eu fazer para ajudar? — perguntou Dalmática, algo intimidada com a extrema eficiência da filha de Sila.
— A tua missão vai ser convencer o tata a receber a delegação amanhã à tarde — disse Cornélia Sila.
— Como? Ele anda tão ocupado!
— Disparate! És demasiado humilde e tímida, Dalmática. O tata faz tudo o que tu lhe pedires. O problema é que tu não pedes, de maneira que não fazes a mínima ideia do que ele adora satisfazer os teus pedidos. Pede-lhe hoje ao jantar, não tenhas medo — disse a filha de Sila. Depois, virando-se para Aurélia, assegurou-lhe. — Euvou arranjar as coisas para que a delegação esteja cá algum tempo antes da entrevista. Poderás falar com eles antes de entrares. — Que achas que vista amanhã? — perguntou Aurélia, preparando-se para partir. Cornélia Sila pestanejou, surpreendida, tal como Dalmática. — Só perguntei — disse Aurélia, como que a desculpar-se — porque, da última vez, ele comentou o que eu trazia vestido. Negativamente, é claro.
— Porquê? — perguntou Cornélia Sila.
— Creio que achou que eu trazia uma roupa demasiado descolorida. — Então veste cores vivas!
Mal chegou a casa, Aurélia pôs-se a remexer nos seus baús e a tirar vestidos que deixara de usar há muitos anos porque os considerava demasiado provocantes para uma mãe de família da aristocracia romana. Azul? Verde? Vermelho? Rosa? Lilás? Amarelo? Pouco antes de sair, optou por camadas de rosa, mais escuras por baixo, o todo coberto por uma gaze do mais pálido rosa.
Cardixa abanou a cabeça.
— Assim ataviada, ficas tal e qual como quando o pai de César veio jantar com o teu tio Rutílio Rufo. E nem um dia mais velha!
— Ataviada, Cardixa?
— Sim, como os Cavalos Públicos na parada!
—vou já mudar de roupa!
— Ah, nem pensar! Não tens tempo para isso. Vai-te embora já. Lúcio Decúmio vai contigo — disse firmemente Cardixa, empurrando-a para a rua, onde Lúcio Decúmio a esperava com os seus dois filhos.
Como Lúcio Decúmio tinha suficiente bom senso para não se pronunciar sobre o aspecto de Aurélia e os seus dois filhos
não se pronunciavam sobre nada sem autorização do pai, a longa caminhada até ao extremo do Palatino decorreu em silêncio. Aurélia esperava e temia que chegassem notícias de Prisco e Gratídia; temia que viesse a notícia fatal, a notícia de que era demasiado tarde, de que César morrera, e cada momento sem notícias era um golpe mais no seu coração. A verdade é que se espalhara nas redondezas da ínsula o boato de que César estava às portas da morte; a todo momento chegavam à casa de Aurélia pequenas oferendas, desde ramos de flores dos Mercados Cupedenis até peculiares amuletos dos Licianos que viviam no quinto andar, passando pelos sons lamentosos das orações especiais que vinham do piso dos Judeus. A maior parte dos inquilinos de Aurélia vivia na ínsula há anos e conhecia César desde bebê. Criança muito viva, conversadora e curiosa, César passeava de andar em andar, pondo à prova a dúbia (a sua mãe achava-a muito dúbia) qualidade que possuía em abudância, o encanto pessoal. Muitas das mulheres que ali viviam tinham sido suas amas-secas, davam-lhe a provar as suas iguarias nacionais, cantarolavam-lhe ladainhas nas suas próprias línguas até que, a certa altura, já ele cantava com elas — e César era extremamente musical — e tocava naqueles estranhos instrumentos, tanto os de cordas como os de sopro. Mais tarde, César e o seu melhor amigo, Caio Macio, que vivia no outro piso térreo, alargaram os seus contactos para lá da ínsula, passando a fazer parte integrante da vida de Subura; e agora, a notícia da sua doença espalhava-se por todo o bairro e as oferendas vinham cada vez de mais longe. Como hei-de explicar a Sila que César significa diferentes coisas para diferentes pessoas? Que ele é o mais romano dos homens e que, ao mesmo tempo, contém em si uma série de nacionalidades? Não é a questão sacerdotal que me interessa: o que me interessa é aquilo que César representa para toda a gente que ele conhece. César pertence a Roma, mas não à Roma do Palatino. César pertence à Roma de Subura e do Esquilino e, quando for um dos grandes de Roma, dará uma dimensão ao seu cargo que nenhum homem poderá igualar, unicamente por causa da vastidão da sua experiência, da sua vida. Só Júpiter sabe quantas raparigas — e mulheres tão velhas como eu! — já dormiram com ele, quantas incursões ele já fez com Lúcio Decúmio e aqueles rufiões do colégio das encruzilhadas, quantas vidas ele já influenciou, porque nunca está quieto, porque está sempre pronto a escutar, porque tudo lhe interessa. O meu filho tem apenas 18 anos. Mas eu também acredito na profecia, Caio Mário! Aos 40 anos, o meu filho será uma criatura formidável! E aqui e agora, perante todos os deuses, faço este voto: para salvar o meu filho, eu farei não importa o quê! Nem que tenha de ir ao mundo dos mortos e trazer o cão de três cabeças de Hades!
Claro que quando chegou à casa de Sila e foi conduzida para uma sala cheia de gente importante, Aurélia perdeu toda a eloqüência que os seus pensamentos prometiam; o seu rosto não revelava o que se passava na sua mente; tinha um ar apenas austero, severo. Intimidante. Como Cornélia Sila prometera, estavam presentes quatro Vestais, todas elas mais novas que Aurélia; as Vestais entravam para a ordem com 7 ou 8 anos e só a deixavam ao fim de trinta anos: e nenhuma daquelas quatro mulheres, incluindo a Chefe, estava prestes a retirar-se. Traziam vestidos brancos com longas mangas dotadas de belas dobras, apanhadas por uma nervura longitudinal, e, por cima dos vestidos, usavam faixas também brancas e a corrente e a medalha da bulla de Vestal; nas cabeças, tinham coroas feitas de sete fiadas de lã enrolada, sobre as quais flutuavam finíssimos véus brancos. A vida que levavam, que não implicava o seqüestro mas obrigava à virgindade, transformava mesmo a mais jovem das Vestais numa presença poderosa; ninguém sabia melhor do que elas que a sua castidade significava a boa sorte de Roma e era nítido que elas tinham uma consciência muito clara do seu estatuto particular. Poucas eram as contemplavam a possibilidade de quebrar os votos, já que quase todas entravam para a ordem ainda crianças e sentiam imenso orgulho pelas funções que desempenhavam na sociedade romana.
Os homens traziam a toga vestida: Mamerco com o debrum púrpura que agora podia usar, pois era praetor peregrinus; e os Cotas, demasiado jovens para usarem togas com debrum púrpura, vestiam togas inteiramente brancas. O que significava que Aurélia, com todos aqueles matizes de rosa, era a presença mais colorida naquela sala! Atormentada por esse facto, sentia-se rígida e emperrada e previa já que as coisas não iam correr bem. — Estás com um aspecto magnífico! — segredou-lhe Cornélia Sila. — Já me tinha esquecido de que eras a mais bela das mulheres.
Basta que decidas trazer cá para fora essa beleza. Tu fecha-la bem fechada como se não existisse e, de repente, basta um pequeno toque... e ei-la cá fora, para todos verem! — Será que os outros compreendem? Concordam comigo? — murmurou Aurélia, arrependida por não ter trazido um conjunto bege ou marfim. — Claro que concordam. Em primeiro lugar, porque ele é o flamen Dialis. E, além disso, acham que ele é tremendamente corajoso. Imagina só: enfrentar o Ditador. Ninguém o enfrenta. Nem Mamerco. Eu às vezes dou-lhe luta. E olha que ele gosta. O tala, quero dizer. A maior parte dos tiranos gosta. Desprezam os cobardes, embora se rodeiem deles. Portanto, quem vai à frente da delegação és tu. E trata de enfrentá-lo!
— Foi sempre isso o que eu fiz — disse a mãe de César. Crisógono estava presente, falando com todos os membros da delegação no tom falso e melífluo que lhe era habitual, ainda que a untuosidade dos seus modos variasse conforme a importância ou qualidade de cada um dos seus interlocutores; começava a tornar-se conhecido como um dos homens que mais ganhava com as proscrições e a verdade é que já estava riquíssimo. Quando um criado veio ter com ele e lhe segredou qualquer coisa, Crisógono encaminhou-se para as grandes portas duplas que davam para o átrio de Sila e afastou-se para deixar a delegação entrar. Sila esperava a delegação com uma disposição particularmente azeda, já que caíra numa armadilha montada por mulheres; por outro lado, sentia-se furioso por não ter conseguido resistir a essa armadilha. Não era justo! O que a mulher e a filha não tinham feito para conseguirem o que queriam! Primeiro, defenderam a sua causa; depois, tentaram persuadi-lo com mimos e agrados; quando foi preciso, puseram um ar triste e melancólico ou deram-lhe a perceber que ficariam eternamente em dívida para com ele se vissem aquele insignificante pedido satisfeito — e que ficariam muito, muito aborrecidas, se ele não o satisfizesse. Dalmática não era a pior, de maneira nenhuma, ela ficara com aquele feitio de cãozinho a quem tinham batido desde que Escauro a condenara à clausura, mas Cornélia Sila era do seu sangue e de que maneira! Um virago! Como é que Mamerco conseguia suportá-la e ainda por cima ter um ar feliz? Provavelmente porque evitava sempre os conflitos.
Aí estava uma atitude inteligente. Ah, o que nós não fazemos pela harmonia doméstica! Incluindo aquilo que estou prestes a fazer.
No entanto, aquela reunião era pelo menos uma mudança, uma diversão na longa e cansativa rotina dos deveres ditatoriais. Ah, como tudo aquilo o entediava! Estava farto, farto, farto... Roma sempre o entediara. E o tédio levava-o a pensar nos prazeres proibidos, nas festas onde não podia ir, nos círculos onde não podia entrar... E em Metróbio. A sua imaginação conduzia-o sempre a Metróbio. Que ele não via — há quanto tempo? Quando teria sido a última vez? No meio da multidão, sim, vira-o no meio da multidão, mas onde? No seu triunfo? Na tomada de posse como cônsul? Nem disso conseguia lembrar-se? Do que ele se lembrava claramente era da primeira vez em que vira o jovem Metróbio. Naquela festa em que se mascarara de Medusa, a Górgona, com uma grinalda de cobras vivas. A berraria que as cobras tinham provocado! Mas Metróbio não berrara, Metróbio, o jovem grego mascarado de Cupido, com o interior das coxas, muito suaves, pintadas de açafrão, e o mais belo rabo do mundo...
A delegação entrou. No local onde estava, para lá do enorme rectângulo azul da piscina, a meio da vasta sala, o olhar de Sila era ainda suficientemente forte para absorver todo o quadro. Talvez porque a sua mente estivera a pairar pelo mundo do teatro (concentrando-se em especial num actor), aquilo que Sila viu não foi uma delegação romana cerimoniosa e respeitável mas um esplêndido quadro vivo, chefiado por uma mulher esplêndida, vestida em todos os tons de rosa, a sua cor favorita. E que inteligente que ela fora, ao rodear-se de pessoas vestidas de branco e algumas delas com um pequeno nada de púrpura!
O mundo dos deveres ditatoriais evaporou-se nesse instante, tal como a disposição azeda de Sila. O seu rosto iluminou-se, todo o seu corpo vibrou deliciado.
— Ah, que maravilha! Isto é melhor do que uma peça, melhor do que os jogos! Não, não, não se aproximem mais! Fiquem desse lado da piscina! Aurélia à frente. Quero que pareças uma rosa, uma rosa muito alta e esbelta. As Vestais — para a direita, acho eu, mas a mais jovem pode ficar atrás de Aurélia, quero que Aurélia fique com um pano de fundo branco. Sim, isso mesmo, isso mesmo!
Agora, os outros: todos para esquerda. Isso. Mas acho que seria melhor que o jovem Lúcio Cota se postasse também atrás de Aurélia, porque ele é o mais jovem e, portanto, não deve ter nenhuma fala nesta peça. Gosto muito das pequenas sugestões de púrpura, mas francamente, Mamerco, tu estragas o efeito geral. Não devias ter vestido a praetexta, é púrpura a mais. De maneira que... sim, vais para a esquerda, para a ponta. Isso. — O Ditador levou a mão ao queixo e examinou-os atentamente; finalmente, aquiesceu. — Óptimo! Estou a gostar! Mas preciso de uma atmosfera mais mágica! Sim, porque afinal eu estou aqui sozinho, deste lado, pareço mesmo o Mamerco, até tenho praetexta e tudo, e estou com um ar tão pesaroso como o dele! Bateu as palmas; Crisógono saiu de detrás da delegação e correu para o amo, fazendo várias vénias.
— Crisógono, manda vir os meus lictores em... em túnicas carmins... sim, túnicas carmins, nada de togas brancas... ah, e traz-me a cadeira egípcia! Sabes qual é. Aquela que tem crocodilos nos braços e áspides nas costas. E um pequeno pódio. Sim, preciso de um pequeno pódio! Coberto com um tecido... púrpura. Púrpura de Tiro, não quero imitações! Vá, homem, despacha-te!
A delegação — que não tinha dito palavra — preparou-se para uma longa espera, mas por alguma razão Crisógono era chefe-administrador das proscrições e chefe dos criados do Ditador. Em pouco tempo, realizava todas as instruções do encenador: de facto, instantes depois, entravam na sala vinte e quatro lictores, vestidos com túnicas carmins, com os fasces e a machadinha, os rostos estudadamente inexpressivos. Atrás deles vinha o pequeno pódio, transportado por quatro corpulentos escravos, que o colocaram precisamente no centro da sala, para lá da piscina, cobrindo-o depois com uma tapeçaria que de facto tinha sido tingida com púrpura de Tiro, tão escura que era quase negra. A cadeira chegou a seguir, uma magnífica cadeira de ébano com dourados; as serpentes das costas tinham rubis nos olhos e, nos olhos dos crocodilos das pernas, havia esmeraldas; finalmente, no centro das costas, brilhava um magnífico escaravelho multicolorido.
Montado o cenário, Sila virou-se para os seus lictores.
— Gosto das machadinhas no meio dos feixes, por isso estou contente por ser o Ditador e por ter o poder de executar no interior do pomerium! Agora deixem-me ver... Doze para a minha
esquerda e doze para a minha direita — em linha, mas próximos uns dos outros. Distribuam-se de maneira a que a distância entre os primeiros seja menor do que a distância entre os últimos... Isso, isso! — Virou-se então para a delegação, observou-a minuciosamente e, franzindo muito a testa, disse: — Há um problema! Não consigo ver os pés de Aurélia! Crisógono, vai buscar aquele banquinho de ouro que eu surripiei a Mitridates. Quero que ela fique sobre o banquinho. Depressa, homem, despacha-te!
Finalmente, Sila ficou satisfeito com o palco em que se iria dar a representação. Sentou-se na sua cadeira com crocodilos e serpentes, aparentemente esquecido de que deveria estar sentado numa cadeira curul, feita em marfim, e não naquela espaventosa cadeira egípcia. Não que qualquer dos presentes sentisse o mínimo impulso para o criticar; o que era preciso era que o Ditador se sentisse o melhor possível, que desfrutasse o mais possível daquele momento. É que o prazer do Ditador representava meio caminho andado para um veredicto favorável. — Fala! — disse ele num tom retumbante.
— Lúcio Cornélio, o meu filho está a morrer.
— Mais alto, Aurélia! Estás a falar para a cavea!
— Lúcio Cornélio, o meu filho está a morrer! Eu vim com os meus amigos suplicar-te que lhe perdoes!
— com os teus amigos? Estas pessoas são todas tuas amigas? — perguntou ele, exagerando um pouco o tom divertido.
— Sim, são todas minhas amigas. Associaram-se à minha súplica para que tu deixes o meu filho voltar a Roma antes de morrer. — Aurélia enunciava de forma muito clara, representando para as últimas filas da cavea, decidida a executar na perfeição o seu papel. Se ele queria uma tragédia grega, pois teria uma tragédia grega! Estendeu os braços e os drapeados cor-de-rosa esvoaçaram ao afastar-se da sua pele branco-marfim. — Lúcio Cornélio, o meu filho tem dezoito anos! É o meu único filho! — Uma vibração especial na voz: tudo estava a correr bem. Sim, tudo estava a correr bem, nem que fosse pela sua magnífica expressão! — Tu conheces o meu filho. Um deus! Um deus romano! Um descendente de Vénus e digno de Vénus! E com tal coragem! Não teve ele a coragem de te desafiar, a ti que és o homem mais poderoso do mundo? E houve da parte dele alguma demonstração de receio? Não! — Ah, que maravilha! — exclamou Sila. — Não sabia que tinhas tanto talento, Aurélia! Continua, continua!
— Lúcio Cornélio, suplico-te! Poupa o meu filho! — Conseguiu dar meia-volta no pequeno banco de ouro e estendeu as mãos para Ponteia, na esperança de aquela mulher austera entendesse o papel que tinha de representar. — Peço-te, Ponteia, Chefe das Vestais de Roma, suplica pela vida do meu filho!
Felizmente que os outros presentes já tinham recuperado da estupefacção inicial, ou pelo menos faziam uma tentativa para recuperar. Ponteia estendeu os seus braços e o seu rosto ganhou uma expressão de sofrimento que não conhecia desde a infância. — Poupa-o, Lúcio Cornélio! — exclamou. — Poupa-o!
— Poupa-o! — murmurou Fábia.
— Poupa-o! — gritou Licínia.
Nesse momento, a jovem Júlia Estrabão, desfeita em lágrimas, tornou-se o foco de todas as atenções.
— Por Roma, Lúcio Cornélio! Poupa-o por Roma! — atroou Caio Cota, com a mesma voz estentória que tornara o seu pai famoso. — Suplicamos-te, Lúcio Cornélio, poupa o jovem César!
— Por Roma, Lúcio Cornélio! — gritou Marco Cota.
— Por Roma, Lúcio Cornélio! — clamou Lúcio Cota.
Só restava Mamerco, que não conseguiu mais que uma voz sumida: — Poupa-o!
Silêncio. Os dois lados fitavam-se, expectantes.
Sila endireitou-se na sua cadeira, com o pé direito para a frente e o pé esquerdo ligeiramente recuado, na pose clássica dos grandes romanos. Tinha o queixo todo franzido e a cabeça pendia, ameaçadora. Esperava. Até que por fim veio a resposta: — Não!
As súplicas repetiram-se. E a rotunda recusa também:
— Não!
Ainda que fragilizada e angustiada, Aurélia, melhorando cada vez mais a sua representação, pediu uma terceira vez que a vida do seu filho fosse poupada. As mãos tremiam-lhe e, na voz, reflectia-se toda a força de um coração destroçado. Nesse momento já Júlia Estrabão perdera por completo o controlo de si mesma e, da sua boca, só saíam gemidos portentosos; Licínia, pelo seu lado, parecia
prestes a imitar a sua colega vestal. O coro de suplicantes voltou a erguer-se, até que, chegando à vez de Mamerco, se desvaneceu uma vez mais num quase murmúrio. Um silêncio pesado impôs-se em toda a sala. Sila esperou um ror de tempo; parecia ter adoptado uma pose que, aos seus olhos, se assemelharia à de Zeus, imponente e ameaçadora, magnificente e portentosa. Por fim, levantou-se da cadeira e desceu até à extremidade do seu pequeno pódio, onde se postou com imensa dignidade, exibindo um cenho horrendo. Depois, soltou um suspiro que, num teatro, teria sido facilmente ouvido na última fila da cavea, cerrou os punhos e ergueu-os na direcção das esplendorosas estrelas do tecto dourado. — Muito bem, que seja feito como pretendem! — exclamou. — Euvou poupá-lo! Mas de uma coisa vos advirto: nesse jovem, eu vejo muitos Mários! Depois, saltou como um cabrito do pódio para o chão e, com um passo leve e jovial, contornou a piscina.
— Ah, eu precisava disto! Magnífico, magnífico! Não me divertia tanto desde que dormi entre a minha madrasta e a minha amante! Ser Ditador não é nada agradável! Nem sequer tenho tempo de ir ao teatro! Mas isto é melhor do que qualquer peça que já vi e, além do mais, fui eu o protagonista! Foram todos muito bem. Excepto tu, Mamerco, estragaste tudo com a tua praetexta e com a tua vozinha. Estás demasiado rígido, homem! Tens de tentar entrar na personagem! Abeirando-se de Aurélia, ajudou-a a descer do banquinho de ouro e abraçou-a uma série de vezes.
— Esplêndido, esplêndido! Parecia Ifigénia em Áulida, minha querida. — Senti-me como uma peixeira num mimo.
Sila já se esquecera dos lictores, que continuavam nos seus postos, rodeando o trono vazio; o cargo de lictores nunca mais lhes reservaria uma surpresa tão grande!
— Vá, vamos para a sala de jantar, quero dar uma festa! — disse o Ditador, empurrando toda a gente do coro enquanto punha um braço sobre os ombros da aterrada Júlia Estrabão. — Não chores, minha tonta, está tudo bem! Foi apenas um pequeno divertimento em minha intenção — disse ele, empurrando Júlia Estrabão para Mamerco. — Vá, Mamerco, limpa estas lágrimas com o teu
lenço! — O braço de Sila encontrou então Aurélia. — Magnífico! Verdadeiramente magnífico! Devias vestir-te sempre de rosa.
Tão aliviada que sentia os joelhos tremendo, Aurélia fitou-o com um olhar feroz e disse-lhe com uma voz cavada:
— ”Eu nele vejo muitos Mários!” Devias ter tido: ”Eu nele vejo muitas Silas!” Estaria mais correcto. Ele não é nada parecido com Mário, mas por vezes é tremendamente parecido contigo.
Dalmática e Cornélia Sila estavam à espera lá fora, perfeitamente intrigadas; quando os lictores entraram não ficaram especialmente surpreendidas; porém, quando viram o pequeno pódio e a tapeçaria em púrpura de Tiro e a cadeira egípcia e, por fim, o banquinho de ouro maciço, uma estupefacção total tomou conta delas. Agora saíam todos a rir — e por que raio é que só Júlia Estrabão vinha a chorar? — e Sila abraçava Aurélia e o sorriso desta dir-se-ia ser eterno.
— Uma festa! — exclamou Sila, envolvendo o rosto da mulher com as mãos e beijando-a. — Vamos dar uma festa e euvou embebedar-me até cair! Só passado algum tempo é que Aurélia se apercebeu de que nenhum daqueles actores encontrara algo de aviltante naquela inacreditável cena ou cometera o erro de menosprezar Sila por ter posto em cena aquele drama improvisado. No fundo, o efeito tinha sido precisamente o oposto; como não temer um homem que ligava tão pouco às aparências? Nenhum dos participantes naquele teatro contou o que ali se passara, nenhum deles tentou tirar proveito do episódio ou do comportamento de Sila, fosse em jantares, em festas ou em reuniões de senhoras condimentadas com bolinhos e vinho doce misturado com água. Não por que temessem pelas suas vidas. Nada disso. Apenas porque ninguém pensava que Roma viesse alguma vez a acreditar que aquele drama fora efectivamente representado. Quando César chegou a casa, pôde sentir imediatamente os resultados da peça em um acto que a sua mãe protagonizara; Sila enviou-lhe o seu médico pessoal, Lúcio Túcio. — Para ser sincera, não me parece que Sila seja um caso muito recomendável — disse Aurélia a Lúcio Decúmio. — É caso para pensar que, sem Lúcio Túcio, Sila seria a personificação da degradação física e mental.
— Lúcio Túcio é romano — disse Lúcio Decúmio. — O que já é qualquer coisa. Eu cá não confio nos físicos gregos.
— Os físicos gregos são muito perspicazes.
— Nas teorias, são. Tratam os doentes com novas ideias e não com as velhas receitas. Mas as velhas receitas são as melhores. Aranhas cinzentas trituradas e arganazes secos, não há melhor remédio!
— bom, Lúcio Decúmio, como tu dizes, este é mesmo romano! Como o médico de Sila saía nesse momento do quarto de César, Aurélia e Decúmio calaram-se. Túcio era um homem de baixa estatura, muito redondo de formas e com um ar simpático e lavado; fora cirurgião-chefe do exército de Sila e, por outro lado, fora ele quem tivera a ideia de mandar Sila para Edepso em conseqüência da doença deste.
— Creio que a curandeira de Nersas tinha razão. A doença do teu filho é uma daquelas sezões fora do comum — disse ele, com a maior alegria. — É um rapaz com sorte. Poucos são os homens que conseguem curar-se.