Os Favoritos de Fortuna

Colleen McCullough · Capítulo 15 de 15 · parte 1/4

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Os Favoritos de Fortuna

— Pois eles que tentem! — retorquiu…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— Pois eles que tentem! — retorquiu César, desdenhando o perigo. — A tia Júlia partirá para a escuridão da morte com todas as honras, com todos os tributos públicos que merece! E esta determinação, evidentemente, permitia-lhe suportar melhor a dor; César tinha algo concreto a fazer, algo que considerava ser mais digno daquela notável mulher do que todas as lágrimas que pudesse chorar, do que um sentimento constante de perda, de irreparável perda. Não pararia, não choraria. Lutaria, lutaria por ela.

César sabia que ia conseguir realizar o seu desejo. Para isso, teria de impedir os magistrados de lhe levantarem obstáculos ou de o processarem. O melhor seria mesmo impedi-los de tentar fazer fosse o que fosse. O funeral foi tratado com os mais afamados agentes funerários de Roma — e o preço acordado era de cinqüenta talentos de prata. Toda a gente concordou em participar nas despesas, apesar de César tencionar exibir, perante toda a cidade de Roma, as máscaras de Caio Mário e do jovem Mário. Actores foram contratados, tal como os carros em que seguiriam: os antepassados incluiriam o rei Anco Márcio, Quinto Márcio Rex, lulo, o primeiro cônsul dos Júlios, Sexto César e Lúcio César, e Caio Mário e o filho. Mas esta não era a disposição mais importante — de facto, César decidiu que Lúcio Decúmio e a sua Confraria das Encruzilhadas deveriam espalhar por toda a cidade a notícia de que a grande Júlia, viúva de Caio Mário, tinha morrido e que seria enterrada à terceira hora, no prazo de dois dias. Todos os que quisessem podiam assistir ao funeral. Para Caio Mário, não houvera nenhum funeral público; e, para o filho, houvera apenas a visão de uma cabeia apodrecendo nos rostra. Por isso, as exéquias de Júlia teriam de ser magníficas, e Roma, assistindo às cerimónias, poderia prestar a homenagem há muito tempo devida aos Mários.

César apanhou todos os magistrados desprevenidos. De facto, ninguém informou os magistrados do que se ia passar e nenhum deles projectara estar presente no funeral de Júlia. Mas Marco Crasso compareceu, tal como Varrão Lúculo, e Mamerco, com Cornélia Sila, e também, inesperadamente, Filipe. Metelo Pio, o Bacorinho, também assistiu ao funeral. Para além dos dois Cotas, evidentemente. Mas eles tinham sido avisados; César não queria que ninguém se sentisse comprometido.

E toda a cidade compareceu em massa, milhares e milhares de pessoas do povo, que não se preocupavam com interdições, nem com condenações, por sacrilégio ou outros motivos. Teriam assim finalmente uma oportunidade de chorar Caio Mário, de ver aquele rosto orgulhoso e decidido que tanto amavam, aquele rosto grave e sério,

com aquelas sobrancelhas imensas. Para mais, a máscara era usada por um actor tão alto e tão corpulento como Caio Mário. E podiam ver também o jovem Mário, aquele belo e comovente rosto! Mais comovente ainda era a visão do sobrinho de Caio Mário — vestido com uma toga de luto, tão negra como os cavalos que puxavam os carros, uma imagem negra que contrastava com o cabelo muito louro e o rosto pálido. Tão belo! Parecia uma divindade! Era a primeira vez que César aparecia perante uma multidão tão vasta, desde os tempos em que fora a companhia predilecta do velho e doente Mário, e não queria perder aquela oportunidade — era preciso que o povo de Roma nunca mais o esquecesse. Era ele o único herdeiro de Caio Mário e queria que todos os homens e mulheres que assistissem ao funeral de Júlia soubessem quem ele era: o herdeiro de Caio Mário.

César pronunciou o elogio fúnebre nos rostra; era a primeira vez que falava dessa tribuna, a primeira vez que olhava para baixo e via um mar de rostos cujos olhos se fixavam unicamente nele. Quanto a Júlia, fora requintadamente preparada para a sua última (e a mais pública) aparição — tão engenhosamente cuidada e vestida que parecia uma jovem! Só a sua beleza chegava para deixar toda aquela multidão de lágrimas nos olhos. Três outras belas mulheres estavam perto dela, na plataforma dos rostra: uma delas, aparentando ter cinqüenta anos, era a mãe de César, conforme os agentes de Lúcio Decúmio tinham espalhado por entre a multidão; a segunda, que teria cerca de quarenta anos, só podia ser a filha de Sila, tão parecida era com ele; a terceira, era uma jovem morena, com uma gravidez já adiantada, e estava sentada numa cadeirinha de liteira negra — a mulher de César, como a multidão depressa descobriu. Ao seu colo, estava sentada uma criança de uma beleza extraordinária, que teria uns sete anos — não era difícil descobrir que se tratava da filha de César.

— A minha família — começou César, com a sua voz forte e bem colocada de orador — é uma família de mulheres! Da geração do meu pai não, não resta nenhum homem vivo e, dos homens da minha geração, eu sou o único que, hoje, em Roma, presta a derradeira homenagem à mais velha das mulheres da minha família. Júlia, cujo nome nunca foi abreviado, nem acrescentado, pois ela era a mais idosa na sua família e honrou o nome da sua gens de forma tão notável que Roma não conhece mulher que se lhe possa

comparar. Júlia possuía beleza, um temperamento afável, toda a lealdade que um homem pode pedir a uma esposa, a uma mãe, a uma tia, o fervor de uma natureza apaixonada, a simpatia de um espírito generoso. Só há uma mulher a quem posso compará-la e que também perdeu o marido e os filhos muito antes de morrer — estou a falar, evidentemente, de uma outra grande mulher patrícia, Cornélia, a mãe dos Gracos. E as vidas de Cornélia e Júlia tiveram semelhanças, pois ambas sofreram a perda dos filhos, condenados à morte por decapitação e cujos funerais não foram autorizados. E quem poderá dizer qual das duas mais sofreu, se uma teve de suportar a morte de todos os seus filhos mas não conheceu a desgraça de um marido desonrado, e a outra suportou a morte do seu único filho, mas conheceu a desgraça de um marido desonrado, e a pobreza quando chegou à velhice? Cornélia viveu até aos oitenta anos, Júlia expirou aos cinqüenta e nove anos. E se assim foi, teria sido porque faltou coragem a Júlia ou porque Cornélia tinha uma vida menos difícil? Nunca saberemos, povo de Roma. Nem devemos perguntar. Porque elas foram duas grandes mulheres, duas mulheres ilustres. ”Mas eu estou aqui para honrar Júlia, e não Cornélia. Júlia dos Júlios Césares, aquela que, em Roma, tinha a mais notável das linhagens. Porque nela juntavam-se os reis de Roma e os deuses que fundaram Roma. A mãe dela foi Márcia, a filha mais nova de Quinto Márcio Rex, o augusto descendente do quarto rei de Roma, Anco Márcio, e que é lembrado todos os dias nesta grande cidade com gratidão e louvor, pois foi ele quem conduziu para Roma a água fresca e boa que brota das fontes em todas as praças e encruzilhadas públicas. O pai dela foi Caio Júlio César, o filho mais novo de Sexto Júlio César. Patrícios da tribo Fábia, outrora reis de Alba Longa, descendentes de lulo, que era filho de Eneias, o qual era filho da deusa Vénus. Nas veias dela corria o sangue de uma deusa poderosa e o sangue de Marte e também de Rómulo — porque quem era Reia Sílvia, a mãe de Rómulo e Remo, senão uma Júlia? Assim, na minha tia, estavam associados o supremo e mortal poder dos reis e o poder imortal dos deuses, perante os quais até os maiores reis são escravos.

”Aos dezoito anos, Júlia casou-se com um homem que todos conhecem e que muitos de vós conheceram enquanto vivo. Casou-se com Caio Mário, o primeiro homem a ser cônsul de Roma por sete vezes, a quem chamaram o Terceiro Fundador de Roma, que dominou o rei Jugurta da Numídia, que venceu os Germanos, que

venceu as primeiras batalhas da Guerra Italiana. E até ao momento da morte deste homem, no auge do seu poder, Júlia foi-lhe sempre leal e fiel. Júlia deu-lhe o seu único filho, Caio Mário Júnior, que foi cônsul sénior de Roma com a idade de vinte e seis anos. ”Não foi por culpa dela que as reputações do marido e do filho ficaram manchadas após a sua morte. Não foi por culpa dela que, em conseqüência de uma interdição, foi obrigada a mudar-se do seu lar de vinte e oito anos para uma casa modesta, exposta ao frio vento norte que assobia nas cercanias do Quirinal. Não foi por culpa dela que Fortuna a deixou sem razões para viver, a não ser a ajuda que prestava a todas as pessoas carenciadas do sítio onde vivia. Não foi por culpa dela que morreu prematuramente. Não foi por culpa dela que proibiram, para todo o sempre, a exibição das máscaras do seu marido e do seu filho. ”Na minha infância, privei muito com ela, pois fui o companheiro predilecto de Caio Mário durante aquele ano terrível em que o antigo cônsul de Roma sofreu uma segunda trombose, que o afectou horrivelmente. Todos os dias ia a casa de Júlia cumprir os meus deveres para com o seu marido e receber dela os mais ternos agradecimentos. Junto dela, conheci um amor que mais nenhuma mulher me deu, pois a minha mãe tinha de ser mãe e pai ao mesmo tempo e não se podia permitir o luxo de me encher de abraços e beijos, que não pertencem aos domínios de um pai. Mas para tal eu tinha a tia Júlia e, mesmo que vivesse um milhar de anos, nunca esqueceria um único abraço, um único beijo, um único olhar de amor dos seus belos olhos cinzentos. E por isso vos digo, gente de Roma, chorai por ela! Chorai por ela como eu choro! Chorai o seu destino e a triste vida que ela não merecia. Chorai também os destinos do seu marido e do seu filho, cujas imagens vos mostro neste dia infortunado. Dizem que eu não posso mostrar-vos as máscaras dos Mários, que me podem retirar os meus cargos e mesmo a cidadania por cometer um crime tão ultrajante, por exibir aqui, no Fórum — que conhecia tão bem esses dois homens! —, dois rostos inanimados, feitos com cera e tinta e com os cabelos de outra pessoa! Pois eu respondo: então tirem-me os meus cargos, tirem-me a cidadania, se assim o entenderem! Porque eu tinha de honrar esta tia do meu sangue como ela merecia e toda a sua honra está concentrada na sua devoção aos Mários, que eram marido e filho. É pensando em Júlia que vos mostro estas imagens e não permitirei

a nenhum magistrado desta cidade que as retire do desfile fúnebre! Avança, Caio Mário, avança, Caio Mário Júnior! Honrem a vossa esposa e mãe, Júlia dos Júlios Césares, filha dos reis e dos deuses!” A multidão chorava desolada, mas quando os actores envergando as máscaras de Caio Mário e do jovem Mário avançaram para prestar uma derradeira homenagem a Júlia, o choro deu lugar a um murmúrio que, rapidamente, se transformou num coro de exclamações até que explodiu num clamor imenso. E Hortênsio e Metelo Cabrito, observando atônitos o que se passava, do alto da escadaria do Senado, viraram as costas derrotados. Ao crime de Caio Júlio César só podiam responder com o silêncio, pois Roma aprovava esse crime de todo o coração.

— Foi brilhante! — disse Hortênsio a Catulo, pouco depois. — Não só desafiou as leis de Sila e do Senado, como ainda aproveitou a oportunidade para lembrar a toda aquela gente que ele descende de reis e de deuses!

— Pois bem, César, conseguiste fazer o que querias — disse Aurélia, no final desse longo dia.

— Eu sabia que conseguiria — retorquiu ele, deixando cair a sua toga preta com um suspiro de profundo cansaço. — O grupo conservador pode estar no poder este ano, mas nenhum dos seus membros sabe se os eleitores do próximo ano apoiarão essa tendência. Os Bomanos gostam de mudar de governo. E gostam de um homem que tenha a coragem de defender as suas convicções. Especialmente quando esse homem eleva Caio Mário ao pedestal de que o povo nunca o retirou, por muitas estátuas suas que tenham sido derrubadas. Caminhando como uma velha que sofresse de hidropisia, Cinila arrastou-se até à sala e foi sentar-se ao lado de César.

— Foi muito bonito — disse ela, dando-lhe a mão. — Estou contente por o meu estado me ter permitido assistir pelo menos ao elogio. Falaste tão bem! César rodeou-lhe o rosto com as mãos e afastou-lhe o cabelo da testa.

— Minha pobrezinha! — disse ele, ternamente. — Já não falta muito! — Depois, ergueu as pernas dela e deixou-as repousar no seu colo. — Não devias sentar-te assim, com as pernas a balançar!

— Ah, César, esta gravidez parece durar uma eternidade! com Júlia, foi completamente diferente. Não me custou nada. Quem

havia de dizer que a segunda gravidez seria tão difícil? Não compreendo — disse ela, com lágrimas nos olhos.

— Eu compreendo — disse Aurélia. — É que desta vez é um rapaz. com as raparigas, não tive qualquer problema durante a gravidez. Mas contigo, César, foi uma gravidez terrível. — Acho que vou para o meu apartamento. Preciso de dormir — disse César, depondo as pernas de Cinila no divã e levantando-se.

— Ah, não vás, César, por favor! — rogou a mulher, aflita. — Fica cá esta noite. Prometo-te que não falaremos de bebês nem de problemas de mulheres. Aurélia, não fales mais de gravidezes, senão ele vai-se embora. — Ora! — retorquiu Aurélia, levantando-se. — Onde está Eutico? Do que nós precisamos é de comer.

— Eutico ficou a fazer companhia a Estrofantes — disse Cinila com um ar triste. Ao ver que César voltara a sentar-se no divã, o seu rosto, porém, alegrou-se um pouco. — Pobre velho! Ficou sozinho naquela casa. Só lhe restava Júlia e Júlia morreu. — Também ele morrerá em breve — disse César.

— Ah, não digas isso!

— Basta olhar para ele, mulher. E para Estrofantes, será uma bênção. — Espero não ter a sorte dele — disse Cinila. — É a pior de todas as sortes, sobreviver a todos os entes queridos.

— Pior sorte — disse César, que não queria que lhe lembrassem coisas que o faziam sofrer — é só falar de coisas tristes.

— Isso é porque estás em Roma — disse Cinila, sorridente. — Quando fores para Hispânia, sentir-te-ás melhor. Quando viajas, sentes-te muito mais feliz do que quando estás em Roma.

— Partirei no próximo nundinus, mulher. Por mar. No início do Inverno. Tens toda a razão. Eu não gosto de estar em Roma. Por isso, seria boa ideia se tivesses o bebê antes do próximo nundinusl Gostava de ver o meu filho antes de partir. César viu o filho antes de partir. Porém, quando a parteira e Lúcio Túcio conseguiram retirá-lo do ventre da mãe, tornou-se óbvio que o menino estava morto há vários dias. E Cinila, tomada de convulsões, com um dos lados paralisados devido a uma violenta trombose, morreu praticamente no mesmo momento em que dava à luz o nado-morto. Ninguém queria acreditar no que tinha acontecido. Se a morte de Júlia causara choque e dor, a perda de Cinila era insuportável. César chorou como nunca tinha chorado em toda a sua vida, e pouco se preocupou se os outros o viam chorar. Hora após hora, desde o momento em que se dera a primeira e horrenda convulsão até ao momento em que a enterrou. Uma morte, ainda era suportável, apesar de tudo. Duas era um pesadelo, um pesadelo de que pensava nunca mais poder acordar. Não pensava na criança morta — não havia espaço na sua mente torturada para lhe dedicar os seus pensamentos; Cinila estava morta e Cinila pertencera à sua família desde que ele fizera 14 anos, sofrera com ele o flaminato, aquela pequenita morena que amara como a uma irmã mesmo quando ela fora sua esposa. Dezassete anos! Tinham sido meninos juntos, os únicos meninos naquela casa.

A morte de Cinila afectou Aurélia de uma maneira que a morte de Júlia não poderia afectar. E aquela mulher de ferro chorou lágrimas tão tristes como as do seu filho. Apagara-se uma luz na vida de Aurélia. Uma luz que prometia iluminar o resto da sua vida: aquela que em parte fora para ela como uma neta, apesar de ser sua nora, era agora apenas uma sombra, um lugar vazio ao tear, uma cama vazia. Burgundo chorava, Cardixa chorava, os seus filhos choravam, e Lúcio Decúmio, Estrofantes, Eutico, todos os criados que dificilmente conseguiriam imaginar a casa de Aurélia sem a presença de Cinila. Os inquilinos da ínsula choravam e, com eles, muita da gente de Subura.

O funeral de Cinila foi muito diferente do de Júlia. Nas exéquias de Júlia, houvera algo de grandioso, de glorioso, tanto mais que o orador César aproveitara a ocasião para falar a toda a cidade daquela grande mulher e da sua própria família. No entanto, houve semelhanças; César foi buscar as imagines dos Cornélios Cinas à arrecadação onde as escondera durante muito tempo, ao lado das máscaras dos dois Mários. Para grande escândalo de Hortênsio e Metelo Cabrito, as máscaras dos Cinas foram também exibidas. E, embora o elogio fúnebre de uma mulher jovem não constituísse uma prática aceite, César resolveu afrontar também esse desafio. Mas sem qualquer resquício de glória. Desta feita, o seu discurso foi feito de palavras ternas e saudosas. Limitou as suas observações ao prazer que sentira na companhia dela e à recordação dos anos em que ela o consolara pela perda da sua liberdade de rapaz. Falou do sorriso dela e dos trajes pobres que ela envergara — pois esse era o seu dever — enquanto fora flaminica Dialis. Falou da sua filha, que tinha ao colo enquanto falava. E chorou. Terminou o seu elogio, dizendo:

— Não conheço dor maior do que a que sinto agora. Essa é a tragédia da dor — cada um de nós considera sempre a sua própria dor maior do que a dos outros. Mas estou pronto a confessar-vos que eu talvez seja um homem frio e duro, que ama a sua dignitas mais do que qualquer pessoa ou coisa. Pois que assim seja. Em tempos, recusei-me a divorciar-me da filha de Cina. Na altura, pensei que me recusava a obedecer às ordens de Sila para meu próprio benefício e por causa das possibilidades que essa recusa me poderia proporcionar. Pois bem, já vos expliquei o que é a tragédia da dor. Mas essa tragédia não é nada, se a compararmos com a tragédia de só sabermos o que uma pessoa significava para nós depois de ela estar morta. Ninguém saudou a imago de Lúcio Cornélio Cina, nem as dos seus antepassados. Mas Roma chorou com tal tristeza pela segunda vez em dois nundinae que os inimigos de César se viram impotentes para o julgar ou condenar.

Aurélia estava de repente mais velha, absolutamente destroçada. Um problema nada fácil para o filho, cujas tentativas para a confortar com abraços e beijos continuavam a ser rejeitadas.

Serei eu tão duro e frio porque ela também o é?, perguntava-se César. Mas ela só é dura e fria comigo! Por que razão se comporta assim comigo? Ela, que chorou tanto a morte de Cinila! Ela, que chorou tanto a morte daquele horrendo Sila!

Se eu fosse uma mulher, os meus filhos seriam um consolo, uma bênção! Mas sou um nobre romano, e os filhos de um nobre romano, na melhor das hipóteses, estão sempre na periferia da sua vida. Quantas vezes vi eu o meu pai? E mesmo que o visse mais vezes, de que ia falar com ele?

— Mãe — disse ele —, quero que fiques com Júlia como se ela fosse tua filha. Júlia tem praticamente a mesma idade que Cinila quando ela veio viver connosco. A seu tempo, a menina acabará por preencher a tua vida, agora tão vazia. Não farei nada para a tirar de ti. — Ela é minha filha desde que nasceu — retorquiu Aurélia. O velho Estrofantes entrou na sala, olhou com um ar desolado para a mãe e para o filho, e saiu imediatamente, arrastando-se penosamente.

— Tenho de escrever ao tio Públio — disse Aurélia. — Pobre tio Públio, também ele sobreviveu a toda a gente.

— Sim, mãe, escreve-lhe.

— Não te compreendo, César, quando tu te comportas como a criança que chora porque comeu o bolo de mel todo e pensa que, mesmo assim, o bolo não devia ter acabado. — E qual é a razão desse comentário?

— Aquilo que tu disseste no elogio fúnebre de Júlia. Disseste que eu tinha sido tua mãe e teu pai, e que, por isso, não podia dar-te os abraços e os beijos que Júlia te deu. Quando te ouvi dizer isso, fiquei aliviada. Finalmente tinhas compreendido. Mas agora encontro-te mais amargo do que nunca. Aceita o teu destino, meu filho. Para mim, tu significas mais do que a vida, mais do que a pequenita Júlia, mais do que Cinila, mais do que qualquer pessoa no mundo. Para mim, tu significas mesmo mais do que o teu pai. E muito mais do que Sila poderia ter significado, se por acaso eu tivesse tido alguma fraqueza. Se não pode haver paz entre nós, não poderemos pelo menos declarar tréguas?

César sorriu para ela, de esguelha.

— Porque não? — perguntou.

”— Ficarás melhor logo que saíres de Roma, César.

— Era isso o que Cinila dizia.

— E tinha razão. Nada conseguirá apagar a dor causada por esta morte. No entanto, uma viagem por mar, como a que vais fazer, limpará a tua mente de toda a perturbação, de todas as confusões, que por ora a impedem de funcionar convenientemente. Porque ela voltará a funcionar devidamente. Não pode deixar de ser assim.

Não pode deixar de ser assim: as palavras da mãe ecoavam no cérebro de César enquanto, montado no seu cavalo, seguia na direcção de Óstia, onde o esperava o barco que havia de levá-lo a Hispânia. É verdade, pensava ele. O meu espírito pode estar destroçado, mas a minha mente não foi afectada. Há novas coisas a fazer, novos povos para conhecer, uma região desconhecida a explorar — e Lúculo não estará por perto! Sim, eu hei-de sobreviver! NOTA DÁ AUTORA Embora não seja o último livro desta série, marca de facto o término de um período da história romana sobre o qual as fontes antigas se revelam um pouco escassas, devido à ausência de textos de Lívio e Cássio Dião, já para não falar de Cícero. Em termos práticos, isto traduziu-se no facto de que, nos três primeiros livros, pude abarcar quase todos os acontecimentos históricos de uma ponta a outra do Mediterrâneo. Assim, marca também um ponto de viragem na forma como tenho abordado o meu tema, a queda da República Romana. Os livros futuros, em vez de uma vasta abordagem histórica, terão de concentrar-se em menos aspectos, o que, em minha opinião, será uma vantagem tanto para quem escreve como para quem lê.

No entanto, até mesmo é enriquecido por material que encontramos nas fontes antigas, como se pode ver pelo aparecimento das personagens de dois animais — o cão da mulher do rei Nicomedes da Bitínia, e a famosa corça de Quinto Sertório. Estes dois animais são confirmados por essas fontes: o cão por Estrabão, a corça por Plutarco. atinge também o início de um período da história romana que muito seduziu Hollywood, para grande prejuízo da história, senão mesmo de Hollywood. O leitor encontrará no meu livro uma versão de Espártaco muito diferente da que o cinema lhe facultou. Não tenho espaço (nem a inclinação) para discutir aqui por que motivos resolvi retratar Espártaco desta forma; os eruditos, ao lerem o meu texto, entenderão o retrato e os motivos que me levaram a tal opção.

O glossário foi reescrito especificamente para este livro; algumas das entradas mais genéricas, como aço e vinho, foram retiradas.

com a acumulação de volumes, ver-me-ia forçada a aumentar o glossário; daí que a única solução fosse seleccionar as entradas, já que o tempo e o espaço ditam a impossibilidade de fazer um glossário que acabaria por ser maior do que o próprio livro. Os leitores mais interessados poderão combinar os glossários dos volumes anteriores com o deste volume e obter assim informações sobre a maior parte das questões. As entradas sobre a estrutura governamental da Roma republicana serão sempre incorporadas, embora assumindo uma forma diferente, consoante os vários homens e leis que foram moldando essa estrutura. Quanto a lugares e/ou povos, seleccionei uns quantos — aqueles que, em minha opinião, estariam mais esquecidos pelos leitores. Das novas entradas, as mais interessantes são as que dizem respeito aos navios, que começam agora a tornar-se mais importantes. Daí que tenha incluído birreme, hemiolia, navio mercante, quinquerreme, trirreme e outras entradas relativas a esse tema no glossário de Os Favoritos de Fortuna.

Quanto aos desenhos, tanto o Pompeu jovem (”rejuvenescido” ainda mais) como o Pompeu trintão foram realizados a partir de bustos autenticados. O jovem César é um desenho ”rejuvenescido”, realizado a partir de um busto de um homem de meia-idade — um exercício mais fácil do que com Pompeu, já que César manteve inalterável a sua figura. O desenho de Sua baseou-se também num busto. Existe uma forte controvérsia em torno dos dois eventuais bustos de Sua que sobreviveram até aos nossos dias: um deles representa um homem bem-parecido, com cerca de 40 anos; o outro dá-nos a ver um velho. Penso que ambos os bustos são de Sila. São idênticos o nariz, o queixo, as orelhas, a configuração e as rugas do rosto. Mas o homem maduro e bem-parecido usa agora uma cabeleira muito encaracolada (o facto de ser um postiço é confirmado pelas duas línguas de cabelo absolutamente liso que espreitam por debaixo dela, junto às orelhas), perdeu os dentes (um fenômeno que, obviamente, aumenta as dimensões do queixo) e, num passado recente, perdeu muito peso. Como Sila tinha no máximo 62 anos quando morreu, a doença deve ter tido um efeito terrível no seu aspecto físico — um facto absolutamente consistente com aquilo que Plutarco nos diz. Ficamos assim com Metelo Pio, Quinto Sertório e Crasso, desenhos feitos a partir de bustos não identificados do tempo da República. Em O Primeiro Homem de Roma, ”rejuvenesci” um busto

anónimo para executar o desenho de Sertório; este busto serviu-me para o desenho deste livro, sem qualquer rejuvenescimento — no entanto, removi o olho esquerdo do busto original e substituí-o por tecido cicatrizado (para o que me inspirei numa fotografia de um dos meus livros médicos).

De todos os homens realmente grandes da época, só Marco Licínio Crasso não possui nenhum retrato autenticado que tenha resistido até aos nossos dias. Por isso, escolhi um busto não identificado de um homem atarracado e de aspecto plácido, já que aquilo que sabemos de Crasso sugere que ele era um indivíduo forte, atarracado e fleumático. Fleumático pelo menos à superfície: de outro modo, as piadas acerca dos touros e dos cornos não teriam razão de ser.

O desenho do rei Nicomedes não se baseia num retrato autenticado; embora dispunhamos de moedas com perfis, a verdade é que continua a registar-se muita controvérsia sobre a questão de saber se houve ou não dois reis depois de Nicomedes II (o rei Nicomedes com quem Mário se encontrou em 97 a. C.) — Nicomedes III e Nicomedes IV. Segundo alguns autores, houve apenas um Nicomedes III, que cumpriu dois reinados, separados por um exílio em Roma. Creio que o último Nicomedes a reinar na Bitínia foi Nicomedes III. Assim sendo, escolhi um busto não identificado da época da República, o qual, de perfil, tem um forte aspecto Nicomédiano, embora o busto não possua diadema — e, portanto, não possa ser de um rei. Quis sobretudo que os meus leitores vissem o aspecto do diadema quando usado. Para poupar a certos leitores a canseira de me escreverem, gostaria de dizer, desde já, que conheço a descrição que Suetónio faz dos olhos de César: ”nigris vegestique oculis”, o que normalmente é traduzido por ”fogosos olhos negros” ou ”penetrantes olhos negros” ou ”olhos negros muito vivos”. Contudo, Suetónio também diz que César era branco de tez, e estava a escrever cento e cinqüenta anos depois da morte de César; ora, durante século e meio, os bustos em que Suetónio se baseava terão sido, por certo, reparados e pintados de novo, pelo que é muito natural que já não reflectissem, nessa altura, a verdadeira cor dos olhos. Ter uma tez branca e olhos negros é muito raro. O sobrinho-neto de César, Augusto, também tinha tez branca; os seus olhos, segundo as fontes, eram cinzentos, uma cor mais condizente com a brancura da pele. Os olhos de tons

pálidos, com um anel escuro nos limites da íris, têm sempre uma qualidade penetrante — e por isso optei por me afastar da descrição de Suetónio, ainda que unicamente nesse ponto; Plutarco, embora decepcionante no que toca à descrição física de César, refere a tez branca de César. Veleio Paterculo diz que César ”superava todos os outros na beleza da sua pessoa”. É Suetónio quem nos diz que César era alto e magro, embora com uma excelente constituição física. Não gostaria que os meus leitores ficassem a pensar que, sucumbindo a tentações de romancista e mulher, resolvi dar a uma importante personagem histórica uma atracção física que ela não possuía! É que, na realidade, o nosso pobre César tinha tudo — inteligência, beleza, uma elevada estatura e um corpo magnífico.

Só mais um comentário sobre os bustos: os desenhos foram executados rigorosamente à escala e, por isso, os rostos com olhos invulgarmente grandes reflectem, pura e simplesmente, a fantasia do escultor original, o qual, muito provavelmente, pretendia lisonjear o modelo, atribuindo-lhe uns olhos demasiado grandes. Os olhos grandes eram o maior sinal de beleza para um romano.

A fim de esclarecer aqueles que possam ficar intrigados porque as cartas de Pompeu ao Senado diferem muito do que vem em Salústio, ou porque os discursos de Cícero nos tribunais são muito diferentes dos discursos publicados que resistiram até aos nossos dias gostaria de dizer o seguinte: existem muitas dúvidas quanto à veracidade de Salústio, no que respeita à correspondência de Pompeu; por outro lado, Cícero reescreveu os seus discursos quando se dispôs a publicá-los. Por isso, optei por usar as minhas próprias palavras. Quanto à questão dos elefantes, não nos esqueçamos de que os Romanos conheciam bem os paquidermes africanos, e não os indianos, e de que a espécie africana é mais corpulenta e muito menos propensa à domesticação do que a espécie indiana.

Os leitores eventualmente interessados em receber uma bibliografia sobre os temas tratados, poderão escrever-me ao cuidado dos meus editores. O próximo livro desta série terá o título de As Mulheres de César. ABSOLVO Termo utilizado pelo júri de um tribunal ao absolver o réu. Este termo era usado unicamente nos tribunais, e não nas Assembleias.

Ager Gallicus Literalmente, terra gaulesa. A localização e as dimensões exactas da Ager Gallicus não são conhecidas, mas sabemos que ficava no litoral adriático de Itália, uma parte dentro da Itália peninsular, outra parte dentro da Gália Italiana. A sua fronteira sul era provavelmente o rio Ésis e a fronteira norte não devia ficar muito longe de Arimino. Originalmente, foi a região onde viveu a tribo gaulesa dos Sénones, que aí se instalaram depois da invasão do rei Breno I, em 390 a.C. Foi integrada na ager publicus romana quando assumiu o controlo dessa parte de Itália. Em 232 a.C., foi distribuída por Caio Flamínio e deixou de pertencer ao Estado.

ager publicus Terrenos pertencentes ao Estado romano. A maior parte desses terrenos eram adquiridos por direito de conquista ou confiscados aos seus proprietários como punição por deslealdade. Este último caso era bastante comum dentro das fronteiras de Itália. A ager publicus romana existia em todas as províncias ultramarinas, na Gália Italiana e no interior da península italiana. A responsabilidade pelo seu uso (normalmente sob a forma de arrendamento de vastas propriedades) cabia aos censores; no entanto, muita da ager publicus ultramarina não era cultivada.

Agger Parte das Muralhas Sérvias de Roma, o Agger protegia a cidade na sua zona mais vulnerável, o Campo Esquilino. O Agger consistia de uma dupla muralha na qual se integravam poderosas fortificações.

agora Espaço ao ar livre, usualmente rodeado por colunatas ou edifícios públicos, que, em qualquer cidade grega ou helénica, tinha

as funções de praça pública e centro cívico. O equivalente romano era o Fórum. Aliados Qualquer nação, povo ou indivíduo formalmente investido do título de ”Amigo e Aliado do Povo Romano” era um Aliado. Este título traduzia-se normalmente por determinados privilégios nas relações comerciais e nas actividades políticas (ver também Aliados Italianos, socii).

Aliados Italianos Certos estados e/ou tribos dentro da Itália peninsular não conseguiram a cidadania romana mesmo depois de se terem erguido contra Roma em 91 a.C. (uma guerra abordada pormenorizadamente em Coroa de Erva). Eram considerados socii, ou seja, Aliados de Roma. Só no final do ano 82 a.C., já na ditadura de Sila, é que estes Aliados Italianos se tornaram cidadãos romanos.

AMOR Porque ”Amor” é ”Roma” ao contrário, os Romanos dos tempos da República acreditavam que ”Amor” era o nome secreto e vital de Roma. Anatólia Grosseiramente, eqüivalerá à actual Turquia Asiática. Incorporava as antigas regiões da Bitínia, Mísia, Província da Ásia, Frígia, Pisídia, Panfília, Cilícia, Paflagónia, Galácia, Ponto, Capadócia e Armênia Menor.

Anco Márcio O quarto rei de Roma, considerado pela família Márcio (em particular, o ramo da família cognominado Rex) como o seu fundador; o que não parece provável, já que os Márcios eram plebeu. Anco Márcio poderá ter colonizado Óstia; no entanto, há dúvidas quanto aos seus feitos: não se sabe ao certo se colonizou Óstia ou se conquistou as minas de sal do estuário do Tibre aos Etruscos. Só uma das suas obras públicas resistiu à passagem do tempo — a Ponte de Madeira, ou Ponte Sublício. Faleceu em 617 a.C., deixando filhos que não herdaram o trono — o que viria a originar sérios conflitos.

arcada Um longo alinhamento de lojas de ambos os lados de uma passagem estreita, coberta por um telhado. O Bazar Coberto de Istambul é, provavelmente, muito parecido (ainda que muito maior) com uma antiga arcada.

Armênia Maior (Magna) Na Antigüidade, a Armênia Maior estendia-se desde o Sul do Cáucaso até ao rio Araxes; a leste, ia até ao mar Cáspio e, a oeste, chegava às nascentes do Eufrates. Era uma região extremamente fria e montanhosa.

Armênia Menor (Parva) Embora chamada Armênia Menor, esta região, que se estendia pelas montanhas do Alto Eufrates e do

Alto Arsânio, não pertencia à Armênia. Antes de ser conquistada por Mitridates VI do Ponto, foi governada pela sua própria casa real, a qual se encontrava vinculada por um juramento de fidelidade ao Ponto, e não à Armênia.

armillae Largas braceletes de ouro ou prata, concedidas como prêmio por actos valorosos aos legionários, centuriões, cadetes e tribunos militares de estatuto inferior. Arvernos Tribo gaulesa que vivia na parte norte do maciço central de Cebena, na Gália Transalpina.

Assembleia (Comícios) Qualquer reunião do Povo Romano convocada para tratar de assuntos governamentais, legislativos ou eleitorais. Na época de Caio Mário havia três Assembleias — das Centúrias, do Povo e da Plebe. A Assembleia Centurial dividia o Povo em classes, que eram definidas por uma prova de posses e eram de natureza econômica. Como era originariamente uma reunião militar, cada classe agrupava-se nas suas centúrias (que na época de Mário eram em número muito superior a cem homens, como fora decidido, para manter o número de centúrias em cada classe num determinado valor). A sua designação latina era Comitia Centuriata e reunia-se para eleger cônsules, pretores e (de cinco em cinco anos) censores; também reunia para julgamentos que envolvessem acusações de traição. As outras duas Assembleias eram de natureza tribal e não econômica. A Assembleia do Povo permitia a participação total dos patrícios; o seu nome latino era Comitia Populi Tributa e reunia as trinta e cinco tribos em que se dividiam todos os cidadãos romanos. A Assembleia do Povo (também denominada Assembleia Popular) era convocada por um cônsul ou um pretor, podia formular leis e elegia os edis curuis, os questores e os tribunos dos soldados. Podia ainda realizar julgamentos. A Assembleia da Plebe ou Assembleia Plebéia era conhecida em latim como Comitia Plebis Tributa ou Concilium Plebis. Não era permitida a participação dos patrícios e era convocada por um tribuno da plebe. A Assembleia da Plebe tinha o direito de fazer leis (conhecidas como plebiscitos) e conduzir julgamentos. Elegia os edis da plebe e os tribunos da plebe. Em nenhuma Assembleia romana o voto de um indivíduo podia ser creditado directamente às suas vontades; na Assembleia Centurial, o seu voto era creditado à centúria da sua classe, e o voto global da sua centúria era creditado no sentido da vontade da maioria; nas Assembleias tribais do Povo e da Plebe, o seu voto era creditado à tribo, e o voto global da tribo era creditado no sentido do que a maioria dos seus membros decidisse. atrium A principal sala de recepção de uma casa privada romana (ou domus); tinha uma abertura rectangular no telhado (o compluvium) sob a qual se situava um tanque (o impluviuni). De início, o tanque servia de reservatório para a água usada em casa, mas, no final da República, o seu uso era já puramente ornamental.

auctoríías Uma palavra latina muito difícil de traduzir, pois significa mais que o termo ”autoridade”. Este termo implicava proeminência, influência, chefia, importância pública e privada e — acima de tudo — a capacidade de influenciar o curso dos acontecimentos através da mera reputação pública ou pessoal. A auctoritas fazia parte da natureza de todas as magistraturas, mas não se limitava aos detentores delas; o Princeps Senatus, Pontifex Maximus, Rex Sacrorum, os consulares e ainda alguns indivíduos podiam acumular auctoritas. augure Sacerdote cujos deveres tinham a ver com a adivinhação. Os augures estavam reunidos num Colégio, uma instituição oficial do Estado que teve doze membros (normalmente seis patrícios e seis plebeus) até ao ano de 81 a.C., altura em que Sila aumentou esse número para quinze, de forma a que o Colégio tivesse pelo menos um plebeu ou um patrício a mais. Até 104 a.C., ano em que Cneu Domício Aenobarbo fez aprovar a sua lex Domitia de sacerdotis, os novos augures eram escolhidos pelos que já formavam o Colégio; depois dessa lei, os augures passaram a ser eleitos por uma Assembleia de dezassete tribos, escolhidas à sorte entre as trinta e cinco existentes. Sila acabou com essa eleição em 81 a.C., reimpondo a cooptação. O augure não previa o futuro, nem investigava os augúrios consoante os seus caprichos; examinava determinados objectos ou sinais, a fim de verificar se este ou aquele empreendimento contava ou não com a aprovação dos deuses (e o empreendimento em questão podia ser uma guerra, uma nova lei, uma reunião, ou qualquer outro assunto do Estado, incluindo as eleições). Havia um manual de interpretação que o augure tinha de seguir: os augures procediam ”conforme o que vinha nos livros”. O augure usava a toga trabea e empunhava um bastão recurvado, denominado lituus.

auxiliar Uma legião de não cidadãos incorporada num exército romano era denominada auxiliar; os seus soldados eram também chamados auxiliares, estendendo-se este termo igualmente à cavalaria. No tempo da ditadura de Sila, a infantaria auxiliar tinha praticamente desaparecido, ao contrário do que sucedia com a cavalaria auxiliar. báquico Relativo a Baco (Dioniso, para os Gregos), deus do vinho e, por extensão, patrono das bebedeiras. Durante os primeiros tempos da República, os excessos báquicos eram vistos com maus olhos, chegando mesmo a ser proibidos por lei; contudo, no tempo de Sila, eram encarados com alguma tolerância.

bárbaro Este termo deriva de uma palavra grega com fortes raízes onomatopaicas; de facto, quando ouviram esses povos falar pela primeira vez, os Gregos acharam que o seu linguajar fazia lembrar o ”bar-bar”, ou seja, o latido dos cães. A palavra ”bárbaro” foi usada para descrever raças e nações consideradas incivilizadas, e às quais faltava uma cultura admirável ou atraente. Gauleses, Germanos, Citas, Sármatas e Dácios eram considerados bárbaros. basílica Um grande edifício para serviços públicos como julgamentos e também serviços comerciais, desde lojas a escritórios. A basílica tinha dois pisos e era iluminada por clerestórios e incorporava uma arcada de lojas sob aquilo a que poderíamos chamar de terraços. Embora a sua manutenção estivesse a cargo dos edis, era construída a expensas de um nobre romano de elevado estatuto. A primeira basílica foi construída por Catão, o Censor, na Clivus Argentarius, ao lado do edifício do Senado, e era conhecida como a Basílica Pórcia; além de acomodar casas bancárias, era ainda a sede do Colégio dos Tribunos da Plebe. Na época que este livro abarca, havia também a Basílica Emília, a Basílica Semprónia e a Basílica Opímia, todas na orla do baixo Fórum Romano.

Belona Deusa romana da guerra. O seu templo situava-se fora do pomerium, ou limite sagrado da cidade, no Campo de Marte, e a sua construção partiu de uma iniciativa do grande Ápio Cláudio Cego, em 296 a.C. Um grupo especial de sacerdotes, denominados fetiales, conduzia os seus rituais.

birreme Navio de guerra, que dependia mais da força dos remos do que das velas (embora possuísse mastro e vela, normalmente dispensados quando era preciso entrar em acção). Alguns birremes tinham convés, total ou parcialmente, mas a maior parte eram abertos. Parece provável que as duas fileiras de remadores estivessem sentadas a níveis diferentes; a fileira superior estaria acomodada numa estrutura projectada para o exterior do costado; os remos da fileira inferior seriam enfiados por portinholas nos costados. O birreme era construído com madeira de abeto ou pinheiro e só podia fazer-se ao mar combom tempo e travar batalhas em mares muito calmos. Era muito mais comprido do que largo pelo través (a proporção era aproximadamente de 7 para 1) e tinha provavelmente 30 metros de comprimento. Levava mais de cem remadores. Um esporão feito com madeira de carvalho e reforçado a bronze projectava-se da proa, imediatamente abaixo da linha de água. Este esporão era usado para abrir brechas e afundar outros navios. O birreme não fora concebido para transportar guerreiros marinheiros ou para provocar abordagens e combates corpo-a-corpo. Ao longo das eras grega e romana (republicana ou imperial), todos os navios eram propulsionados por remadores profissionais, nunca por escravos. O remador escravo foi um produto da era cristã. Bóreas Vento norte.

cadeira curul Em latim, sella curulis. Era a cadeira de marfim reservada exclusivamente aos homens que ocupavam magistraturas séniores; nela tinha lugar um edil curul, mas não o edil da plebe. O pretor e o cônsul tinham direito a cadeiras curuis, que eram propriedade dos magistrados que detinham imperium, tal como os lictores. A cadeira curul era belamente trabalhada, e as suas pernas cruzavam-se num X largo; tinha braços muito baixos mas não tinha costas. Um romano de toga sentava-se nela muito direito, para que nada perturbasse o modo como tombava a complicada massa composta pelas pregas da toga sobre o braço, costas e ombros.

caelum grave et pestilens Malária.

Calábria Que confuso para os que conhecem o Itália dos nossos dias! Actualmente, a Calábria fica na ponta da bota, mas em tempos idos ficava no salto. Calendas O primeiro dos três dias nomeados de cada mês e que representavam os pontos fixos do mês. Os dias eram contados de trás para a frente a partir de cada um desses pontos — Calendas, Nonas e Idos. As Calendas eram consagradas a Juno e, originalmente, coincidiam com o aparecimento da Lua Nova.

Campo de Marte Situado a nor-noroeste das Muralhas Sérvias de Roma, o Campo de Marte era limitado pelo Capitólio a sul e pela Colina Pinciana a leste; o resto era limitado por uma vasta curva do rio Tibre. No Campo de Marte, acampavam exércitos aguardando o triunfo do seu general; realizavam-se exercícios militares, bem como o treino dos jovens; decorriam também neles as assembleias dos Comitia Centuriata. Situavam-se no Campo de Marte os estábulos e as pistas

para os treinos dos cavalos que participavam nas corridas de carros. A enseada do Trigário ficava no ápice da curva do Tibre e, a norte dela, havia nascentes de águas minero-medicinais quentes (as nascentes do Tarento). A Via Lata (Via Flamínia) atravessava o Campo de Marte, a caminho da ponte Múlvia, e a Via Recta seccionava-o, fazendo um ângulo recto com a Via Lata.

Campo Esquilino Área plana fora das Muralhas Sérvias e da dupla muralha do Agger, entre a Porta Querquetulana e a Porta Colina. Aqui ficava a necrópole de Roma. Campo Lanatário Área plana dentro das Muralhas Sérvias, na zona do Aventino adjacente às muralhas. Ficava entre a Porta Raudusculana e a Porta Naevia. Situavam-se no Campo Lanatário vastas instalações para gado e também matadouros. capite censi Ou proletarii: os mais pobres de Roma. Eram chamados capite censi (”cabeças contadas”) porque, num censo, tudo o que os censores faziam era contar as suas cabeças. Demasiado pobres para pertencerem a uma Classe, os proletarii urbanos pertenciam normalmente a uma tribo urbana e por isso os seus votos não tinham qualquer peso. Tal facto tornava-os politicamente inúteis; era apenas necessário que tivessem alimentos e divertimentos suficientes, de modo a que não se amotinassem. Esta gente não tinha consciência política, nem tão pouco se interessava pela forma como Roma era governada; por outro lado, não conheciam a opressão que caracterizou os seus pares aquando da Revolução Industrial. Evitei cuidadosamente os termos ”massas” ou ”proletários”, por causa dos preconceitos pós-marxistas que esses termos veiculam e que não se aplicam às classes baixas da Antigüidade. Na realidade, os proletarii parecem ter constituído uma classe activa, feliz e nada servil, perfeitamente consciente do seu valor e com escasso respeito pelos grandes. Contudo, não dispensavam os heróis: o principal parece ter sido Caio Mário — até ao aparecimento de César, a quem adoravam. Isto, em contrapartida, pode sugerir que os capite censi não eram imunes ao poder militar e à ideia de que Roma era a maior potência do mundo.

carcer Masmorras. O outro nome para o Tuliano era simplesmente Carcer. Carinas Um dos bairros mais ricos de Roma. As Carinas ficavam situadas na ponta norte do monte Opiano, no seu lado ocidental; estendia-se entre a Vélia e a Clivus Pullius. Tinham vistas para sudoeste, para os pântanos do Palus Ceroliae e o Aventino. Cassitérides As Ilhas do Estanho. Actualmente conhecidas pelo nome de ilhas Scilly, situadas ao largo da ponta sudoeste da Cornualha, Inglaterra. O estanho das minas da Cornualha era embarcado para as Cassitérides, usadas como ponto intermediário. O pai de Crasso viajou até essa região em 95 a.C.

Castor O imortal Gémeo Sagrado. Embora o imponente templo do Fórum Romano se chamasse de facto Templo de Castor e Pólux (também denominados os Dioscuros), os Romanos referiam-se sempre a ele como o Templo de Castor. Tal facto deu origem a muitas piadas sobre empreendimentos conduzidos por dois homens em que um deles era sistematicamente menosprezado. Do ponto de vista religioso, Castor e Pólux encontravam-se entre as principais divindades adoradas pelos Romanos, talvez porque, a exemplo de Rómulo e Remo, eram gémeos. cavalaria Soldados montados. Na época final da República, toda a cavalaria incorporada nos exércitos romanos era auxiliar: ou seja, formada por não cidadãos. Germanos, Gauleses, Trácios, Galacianos e Numídios abasteciam normalmente as unidades de cavalaria romanas, pois eram povos que possuíam muitas tribos habituadas a montar. Ao que parece, raramente houve falta de voluntários para as hostes da cavalaria; crê-se que os Gauleses e os Numídios eram os mais numerosos. A cavalaria distribuía-se por regimentos de quinhentos homens, dividindo-se cada regimento em dez esquadrões constituídos por cinqüenta soldados. Eram conduzidos por oficiais da sua própria nacionalidade, ainda que o comandante-chefe fosse sempre romano. Cavaleiros Os Equites, os membros do Ordo Equester. Tudo começou quando os reis de Roma inscreveram os cidadãos mais importantes da cidade numa unidade especial de cavalaria com cavalos pagos pelos fundos públicos. Nessa época, em Itália, os cavalos de boa qualidade eram raros e extremamente caros. Na altura em que os reis de Roma cederam à jovem República, havia mil e oitocentos nessas unidades, agrupados em dezoito centúrias. À medida que a República foi crescendo, também aumentou o número de cavaleiros, mas todos os cavaleiros excedentários pagavam os seus cavalos e a sua manutenção; os mil e oitocentos homens que detinham o ”cavalo público”, como era chamado, formavam agora o ramo sénior do Ordo Equester. Contudo, no séc. II a.C., já não era Roma que abastecia a sua cavalaria; o Ordo Equester passara a ser uma entidade social e econômica que pouco tinha a ver com questões militares. Os cavaleiros eram agora definidos pelos censores em termos econômicos, e enquanto as dezoito centúrias originais que detinham o cavalo público permaneciam ainda com uma centena de homens cada uma, as outras (cerca de setenta e uma) iam aumentando em número, de forma que todos os homens que preenchiam os requisitos no censo dos cavaleiros eram incluídos na Primeira Classe. Até 123 a.C., os senadores ainda faziam parte do Ordo Equester, foi Caio Graco que as separou numa ordem isolada de trezentos homens. No entanto, os seus filhos e os homens da sua família que não pertenciam ao Senado eram ainda classificados como cavaleiros.

Para ser classificado como cavaleiro no censo (reunido num tribunal especial no Fórum Romano), um homem tinha de possuir bens ou rendimentos que excedessem 400000 sestércios. Embora nem sempre ocorresse, alguns censores insistiam numa parada de mil e oitocentos cavaleiros detentores do Cavalo Público, para garantir que esses homens se mantivessem a si e aos seus cavalos. A parada do Cavalo Público (quando se verificava) ocorria por volta dos Idos de Julho, com os censores sentados em trajo de gala num tribunal no topo do templo de Castor e Pólux no Fórum Romano, enquanto cada um dos possuidores do Cavalo Público conduzia a sua montada numa espécie de desfile de tropas diante dos censores. Desde a época de Caio Mário até ao fim da República, os cavaleiros controlaram ou perderam o controlo dos tribunais que julgavam os senadores por traições menores ou extorsões nas províncias, e estavam-com freqüência em desacordo com o Senado. Nada impedia um cavaleiro que preenchesse os requisitos de posse senatoriais de candidatar-se ao Senado; o facto de, de um modo geral, não aspirarem ao Senado devia-se unicamente à paixão dos cavaleiros pelos negócios e pelo comércio, fruto proibido aos senadores. O Ordo Equester (este nome formal não existia antes de Caio Graco) gostava mais da excitação do fórum dos negócios do que da excitação do fórum político.

cavalo de Neso O cavalo mais corpulento conhecido na Antigüidade. Ao que se crê, era pelo menos tão grande como o cavalo medieval que transportava o cavaleiro envergando armadura, já que os reis da Armênia e dos Partos usavam os cavalos de Neso como montadas para os catafractos (cavaleiros vestidos com cota de malha da cabeça aos pés, tal como os cavalos). Era originário das regiões a sul e a oeste do mar Cáspio, na Média, mas, no período final da República, havia cavalos de Neso espalhados pela maior parte das regiões do mundo antigo. Cavalo de Outubro Nos Idos de Outubro (altura em que normalmente terminavam as campanhas militares), escolhiam-se os melhores cavalos de batalha desse ano que depois eram arreados aos carros aos pares. Esses cavalos disputariam as corridas no relvado do Campo de Marte e não num dos circos. O cavalo da direita do par vencedor era sacrificado a Marte, num altar especialmente construído para o efeito perto do recinto onde se disputara a corrida. O animal era morto com uma lança, após o que a sua cabeça era retalhada e enfeitada com pequenos bolos, enquanto a sua cauda e os órgãos genitais eram levados a correr para a Regia, no Fórum Romano, sendo o sangue derramado no altar da Regia. Concluídas as cerimónias com a cabeça do cavalo decorada com bolos, ela era atirada para duas multidões separadas: uma compreendendo os habitantes do bairro de Subura, a outra formada pelos residentes na Via Sacra; as duas multidões lutavam pela posse da cabeça. Se ganhassem os da Via Sacra, pregavam a cabeça na parede exterior da Regia; se ganhassem os de Subura, pregavam-na na parede exterior da Torre Mamília (o mais imponente edifício do bairro). Desconhecemos a razão que estava por detrás de todo este cerimonial; os eruditos modernos tendem a pensar que o ritual tinha a ver com o encerramento das campanhas numa época muito anterior àquela em que viveram Mário e Sila. Nem os próprios Romanos do tempo de Mário e Sila conheceriam as origens das cerimónias. Não sabemos se os cavalos envolvidos nas corridas eram ou não Cavalos Públicos; mas podemos presumir que o eram.

Cavalo Público Um cavalo que pertencia ao Estado — ao Senado e ao Povo de Roma. Já no tempo dos reis, era política do Estado fornecer cavalos de batalha aos mil e oitocentos cavaleiros das dezoito Centúrias mais séniores — não nos esqueçamos de que, originalmente, a Assembleia Centurial era uma assembleia militar e de que as Centúrias séniores formavam a cavalaria. O direito destes cavaleiros séniores ao Cavalo Público era extremamente considerado e defendido.

cavea ver teatros.

cella Uma divisão de uma casa ou edifício sem um nome específico (ou função, nas habitações). A uma sala de um templo chamava-se apenas cella. Celtiberos Termo genérico usado para designar as tribos que viviam no Norte e no Centro-norte de Espanha. Como o nome sugere, eram uma mistura dos Celtas que haviam emigrado da Gália e dos

indígenas, os Iberos. As suas cidades eram quase sempre erigidas em locais montanhosos de difícil acesso. Os Celtiberos foram os mestres do passado na guerra de guerrilha. censo De cinco em cinco anos, os censores actualizavam o registo, ou censo, dos cidadãos romanos. Nesses registos, ficavam inscritos os nomes de todos os cidadãos romanos do sexo masculino, acompanhados de informações sobre a tribo a que cada um pertencia, a classe econômica, propiedades e meios de subsistência, e ainda sobre a família. As mulheres e as crianças não eram formalmente registadas como cidadãos romanos, embora haja casos de mulheres que, devido aos seus méritos, conquistaram a cidadania romana (casos referidos pelas fontes antigas). O censo da cidade de Roma era realizado no Campo de Marte, em instalações construídas para o efeito; aqueles que viviam noutras regiões de Itália tinham de apresentar-se às autoridades do registo municipal mais próximo; os que viviam fora de Itália apresentavam-se ao governador provincial. No entanto, há indícios de que os censores do ano 97 a.C, Lúcio Valério Flaco e Marco António Orador, alteraram o processo de registo dos cidadãos vivendo fora de Roma mas dentro de Itália.

Continuar: parte 2 de 4