Os Favoritos de Fortuna

Colleen McCullough · Capítulo 10 de 15 · parte 1/3

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Os Favoritos de Fortuna

com um ar intrigado, Pompeu matutou naquelas…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

com um ar intrigado, Pompeu matutou naquelas palavras. O Bacorinho apercebia-se de que a cabeça de Pompeu continuava a funcionar na perfeição — o único problema dele era que já não possuía a confiança de outros tempos, o que o impedia de fazer os seus próprios planos. Pois bem: umas quantas vitórias e essa confiança voltaria! A natureza de Pompeu era o que era — não podia ser outra. Mas podia levar uns bons golpes.

— Mas uma marcha de Segóvia até ao Sucrão conduzir-te-á à região mais seca de toda a Hispânia! — protestou Pompeu. — É um deserto! E até que chegues ao Sucrão, terás pela frente apenas montanhas, nunca vales! É uma marcha horrenda!

— É por isso que euvou fazê-la — retorquiu Metelo Pio. — Até agora, nunca houve ninguém que escolhesse voluntariamente essa rota. E Sertório não estará por certo à espera de que eu tome uma opção dessas. O que eu espero é que consiga chegar ao Sucrão antes de os seus batedores darem pela minha presença. — Os seus olhos castanhos vigiavam Pompeu com prazer. — Tu estudaste exaustivamente os teus mapas e relatórios, Pompeu. Caso contrário, não conhecerias tão bem a geografia.

— É verdade, Quinto Cecílio. Fiz um estudo exaustivo. Não que o estudo possa substituir a experiência, mas é o melhor que uma pessoa pode fazer enquanto não tem experiência — retorquiu Pompeu, satisfeito com o elogio do outro. — Mas tu já vais tendo alguma experiência, Pompeu! Não te preocupes com isso — disse Metelo Pio, afectuosamente.

— Experiência negativa — murmurou Pompeu.

— Cneu Pompeu, nenhuma experiência é negativa, se conduzir a um êxito final. Pompeu suspirou e encolheu os ombros.

— Suponho que sim. — Olhou para as mãos, e acrescentou: — Onde queres que eu esteja quando chegares ao Sucrão? E quando achas que vais chegar a esse rio? — Sertório não se deslocará para norte do Sucrão, na direcção do Túris — disse Metelo Pio. — É possível que Herénio e Perperna tentem deter-te em Valência ou algures na região do Túris, mas creio que as suas ordens serão no sentido de irem apoiar Sertório, na zona do Sucrão. Procurarei estar nas proximidades de Sertório em fins de Quinctilis. Isso significa que, se tu chegares ao Túris em fins de Junho, terás de arranjar uma boa desculpa para permanecer na zona sem fazer nada durante um mês. Aconteça o que acontecer, não continues a marchar para sul para combater Sertório antes do final de Quinctilis! Se o fizeres, eu não estarei lá para te apoiar. O objectivo de Sertório é afastar-te por completo da guerra — assim, ficaria com muito mais soldados para me enfrentar. Eu não resistiria.

— Mas, o ano passado, resististe e venceste, Quinto Cecílio. — Provavelmente devido a circunstâncias extraordinárias. Aliás, espero que Sertório veja o caso assim. De qualquer modo, se por acaso eu tiver de combater contra Hirtuleio e voltar a vencê-lo, farei o possível para que Sertório não saiba de nada, até que possa juntar as minhas forças às tuas.

— Parece que na Hispânia é difícil ocultar seja o que for a Sertório. Diz-se que ele ouve tudo.

— Sim, é isso que se diz. Mas eu também já estou na Hispânia há alguns anos e posso garantir-te que Sertório está a perder algumas das suas vantagens. Portanto, Cneu Pompeu, anima-te! Anima-te porque nós venceremos!

Talvez houvesse algum exagero se se dissesse que o estado de espírito de Pompeu melhorara consideravelmente depois de a velha da Hispânia Ulterior o ter deixado; mas não havia a mínima dúvida de que melhorara alguma coisa e de que a sua confiança aumentara. Tratou logo de se juntar a Afrânio e Petreio, a fim de dar os últimos toques na reestruturação do seu exército. Ainda bem, pensou, que tinha insistido em ficar com uma das legiões do Bacorinho! Sem essa legião, não poderia lançar a sua campanha. O número exacto dos seus soldados oferecia-lhe duas alternativas: cinco legiões com um número de soldados inferior ao normal, ou quatro legiões com um número de soldados normal. Pompeu, que estava longe de ser um ignorante em matérias militares, preferiu as cinco legiões, pois eram mais fáceis de manobrar do que quatro. Era-lhe difícil olhar os seus soldados nos olhos — era a primeira vez que o fazia, desde a sua derrota! Porém, para sua grande surpresa, verificou que nenhum deles o recriminava pela morte de tantos e tantos camaradas. (Em vez disso, pareciam firmemente determinados a cortar as pernas a Sertório e mostravam-se tão receptivos como sempre às ordens do seu belo e jovem general. Como o Inverno nas terras baixas era suave e invulgarmente seco, Pompeu consolidou as suas novas unidades, conduzindo-as numa breve marcha pelo Ebro e levando-as a conquistar algumas das cidades de Sertório — Biscárgis e Celsa foram duas vitórias retumbantes. Então, e como o mês de Março se aproximava do fim, Pompeu retirou de novo para Empórias e deu início aos preparativos para a sua expedição junto ao litoral. Uma carta de Metelo Pio informou-o, entretanto, de que Sertório, depois de ter recebido os seus quarenta navios de guerra e os três mil talentos de ouro em Diânio, partira para a Lusitânia com Perperna, a fim de ajudar Hirtuleio a treinar mais homens, pois era preciso que o exército ibérico recuperasse a sua antiga força. Por isso, deixara Herénio à frente da cidade de Osca.

A rede de espionagem de Pompeu melhorara consideravelmente, graças aos esforços dos Balbos (agora ao seu serviço). Por outro lado, os seus batedores picentinos estavam a portar-se melhor do que ele alguma vez esperara.

Pompeu só deu início à sua marcha nos primeiros dias de Maio, avançando com extrema cautela. Ele, que era um homem do campo, não deixou de reparar, quando atravessou o Ebro em Dertosa, que aquele vale muito rico e cultivado tinha um aspecto demasiado seco para aquela época do ano, e que o trigo, para além de mais esparso do que seria de esperar, ainda não espigara.

Do inimigo não havia sinal, mas esse facto não deixou Pompeu propriamente exultante. Pelo contrário, levou-o a ter ainda mais cuidado, a manter uma atitude defensiva. Passou por Sagunto e Lauro a toda a pressa; Sagunto continuava a aguentar-se, mas Lauro era uma ruína de que a vida se ausentara. Em fins de Junho, depois de ter enviado uma mensagem para Metelo Pio em Segóvia, chegou ao vale mais vasto e fértil do rio Túris; na margem sul deste rio, ficava a cidade de Valência, enorme e muito bem fortificada.

Aí, depois de parar nas estreitas planícies entre o rio e a cidade, Pompeu descobriu que Herénio e Perperna estavam à sua espera. Segundo as informações dos batedores picentinos, tinham mais homens do que ele, embora o número de legiões fosse o mesmo: trinta mil homens contra os vinte mil de Pompeu. A maior vantagem de Herénio e Perperna residia na cavalaria; segundo os seus batedores, deveriam ser uns mil cavaleiros gauleses. Apesar de Metelo Cipião e Aulo Gabínio terem feito os possíveis e os impossíveis para recrutar cavaleiros na Gália Narbonense, Pompeu não tinha mais do que quatrocentos cavaleiros. Pelo menos podia ter a certeza de que as informações dos seus batedores eram verdadeiras. E quando os batedores lhe garantiram que o seu trabalho na Hispânia pouco diferia do que faziam em Itália, Pompeu acreditou neles. Assim, seguro de que não haveria cortes sertorianas preparadas para flanquearem a sua formação ou para caírem sobre a sua retaguarda, Pompeu ordenou ao seu exército que atravessasse o Túris. E que se preparasse para a batalha no outro lado do rio.

O rio era mais um declive do que um fosso abrupto e por isso a sua travessia não apresentava quaisquer dificuldades — o seu leito era duro como pedra e a água dava pelo tornozelo. Não havia

qualquer vantagem táctica em atacar por um lado ou por outro — daí que a batalha tivesse ganho a forma de uma colisão convencional e que a vitória pendesse certamente para o lado mais destemido e confiante. A única inovação que Pompeu usou foi motivada pela sua deficiência ao nível da cavalaria; pensando, e bem, que Perperna e Herénio usariam a sua superioridade em cavalos e cavaleiros para atacar os seus flancos, Pompeu colocara soldados dispondo das antiquadas lanças usadas pelas falanges no exterior das suas alas, e ordenara a esses homens que espetassem essas temíveis armas (tinham quatro metros e meio de comprido) não nos cavaleiros, mas sim nos cavalos.

Foi uma batalha rijamente travada e particularmente longa. Herénio, que, como general, estava muito longe de Sertório ou Hirtuleio, só demasiado tarde se apercebeu de que as coisas lhe estavam a correr mal; Perperna, postado a oeste de Herénio, ignorava todas as suas ordens. Na realidade, antes de a batalha começar, os dois homens não tinham chegado a acordo quanto à forma de a conduzir; acabaram por lutar como duas entidades distintas, embora Pompeu só se tivesse apercebido disso depois da batalha.

A batalha terminou com uma pesada derrota para Herénio, mas não para Perperna. Decidindo que era preferível morrer, já que Sertório insistia em associá-lo àquele traiçoeiro e odioso Perperna, Herénio suicidou-se em pleno campo de batalha; as três legiões e a cavalaria sob o seu comando, ao verem o general morto, perderam todo o ânimo de que precisavam. Vinte mil homens morreram. Entretanto, Perperna e dezoito mil sobreviventes retiraram para o Sucrão, onde se encontrava Sertório.

Lembrando-se dos avisos de Pio de que não deveria atingir o Sucrão antes do fim de Quinctilis, Pompeu não se lançou em perseguição de Perperna. Aquela vitória, tão decisiva e clara, curara o seu ego ferido. Que maravilha, ouvir de novo os seus homens saudando-o efusivamente! E vê-los fazendo merecidas coroas com as águias e os estandartes! Valência, evidentemente, encontrava-se agora praticamente sem defesas — entre os seus habitantes e a vingança romana, havia apenas as suas muralhas. Assim sendo, Pompeu tratou de examiná-las minuciosamente, chegando à conclusão de que eram tantas as fragilidades daqueles muros que facilmente alcançaria os seus objectivos. Algum trabalho de sapa, um incêndio propagado a uma

secção dos muros que era de madeira, a intercepção do abastecimento de água — isso bastou para que Valência se rendesse. com alguma da cautela que recentemente aprendera, Pompeu retirou todos os alimentos da cidade e escondeu-os numa pedreira abandonada, sob uma camada de turfa; depois, enviou todos os cidadãos de Valência para o mercado de escravos de Nova Cartago — e por mar, já que a frota romana da Hispânia Ulterior (graças à presciência de um certo Bacorinho romano) vinha a passar por aquelas águas e ninguém dera ainda pelos quarenta trirremes de Sertório. E seis dias antes do fim de Quinctilis, Pompeu marchou na direcção do Sucrão, onde encontrou Sertório e Perperna instalados em dois acampamentos separados, na margem mais próxima do rio.

Pompeu tinha agora de enfrentar um perturbante dilema. Não tivera notícias de Metelo Pio e, por isso, não podia concluir que os reforços estavam por perto. Tal como acontecera nas margens do Túris, também aqui a configuração física da paisagem não reservava nenhuma vantagem táctica a Sertório; não havia montes por perto, nem florestas, nem bosques, nem ravinas, o que significava que Sertório não tinha onde esconder a sua cavalaria ou os guerrilheiros. A cidade mais próxima era a pequena Sétabe, nove quilômetros a sul do rio, o qual era mais largo que o Túris e conhecido pelas suas areias movediças. Se esperasse por Metelo Pio para travar a batalha — e faltava saber se Metelo Pio viria a caminho —, Sertório poderia retirar para uma zona que lhe fosse mais propícia ou adivinhar que Pompeu estava à espera de reforços. Por outro lado, Sertório tinha muito mais soldados que ele — cerca de quarenta mil contra vinte mil. Devido às perdas de Herénio, nenhum dos lados tinha agora muitos cavaleiros.

Foi o medo de que Metelo Pio não viesse que levou Pompeu a lançar a batalha — pelo menos foi isso que ele disse para si mesmo, recusando-se a admitir que o seu velho e cobiçoso ego lhe estava a segredar que, se combatesse agora, não teria de partilhar os louros com um Bacorinho. A batalha contra Herénio e Perperna fora apenas um prelúdio a este confronto com Sertório e Pompeu ansiava por apagar na memória as feridas causadas por Sertório. Sim, a sua confiança voltava a ser o que sempre fora! Assim, ao alvorecer do penúltimo dia de Quinctilis, depois de ter construído um formidável acampamento na sua retaguarda, Cneu Pompeu Magno avançou com as suas cinco legiões e os seus 400 cavaleiros para a planície onde estavam instalados Sertório e Perperna e ordenou-lhes que formassem para travar mais uma batalha decisiva.

Nas Calendas de Abril, Quinto Cecílio Metelo Pio, o Bacorinho, deixara a sua confortável residência dos arredores de Itálica, na margem ocidental do Bétis, e iniciara a sua marcha na direcção do rio Anas. com ele, iam as suas seis legiões — um total de trinta e cinco mil homens — e mil cavaleiros numídios. Como o aristocrata fluido que lhe corria nas veias não apresentava qualquer contaminação de sangue campesino, Pio não reparou que as terras cultivadas por onde passou não tinham um aspecto tão verdejante como noutros anos. A sua coluna de abastecimentos levava uma abundante quantidade de cereais e todos os outros alimentos indispensáveis para variar a dieta dos seus homens e mantê-los de boa saúde. Quando chegou ao Anas, a uma zona situada a mais de 200 quilômetros da foz, não tinha nenhuma muralha de lusitanos à sua espera; ficou muito satisfeito com esse facto, pois significava que os lusitanos não sabiam onde ele parava e continuavam à sua espera no litoral. Naquelas margens remotas do rio não havia localidades importantes, mas apenas pequenas aldeias que cultivavam os solos do vale do Anas. A notícia da sua presença acabaria por descer o rio e chegar aos ouvidos dos lusitanos; porém, quando estes chegassem àquela zona do Anas, já ele estaria muito longe do rio. Podiam persegui-lo, mas não o apanhariam! A longa coluna romana serpenteou depois pelas suaves montanhas mais a norte, seguindo a bom ritmo na direcção de Turmúlio, nas margens do Tejo. Registaram-se entretanto algumas escaramuças de carácter puramente local, mas esses frágeis adversários foram rechaçados pelos romanos como moscas chicoteadas pela cauda de um cavalo. Como Segóvia era o seu penúltimo destino, o Bacorinho não seguiu o curso do Tejo, continuando, em vez disso, a marchar para norte, através de campos e matagais.

A estrada que seguia não passava de um caminho de terra batida, absolutamente primitivo — no entanto, entre todos os caminhos disponíveis, era sem dúvida o mais fácil, pois a sua altitude pouco variava e não chegava nunca aos mil metros. Como não conhecia aquela região, o Bacorinho estava positivamente fascinado com a paisagem e exortava a sua equipa de cartógrafos e geógrafos a fazer mapas e descrições minuciosas de tudo o que vissem. Habitantes havia poucos; e aqueles com que os romanos se cruzavam eram mortos imediatamente.

Seguiram depois por magníficas florestas de carvalhos, faias, olmos e bétulas, abrigando-se assim do tórrido calor. A vitória contra Hirtuleio, no ano anterior, tinha dado um novo ânimo aos soldados e levado o general a tomar uma nova atitude em relação ao conforto dos seus homens. Decidido a que eles não sofressem mais do que o necessário — e consciente de que dispunha de muito tempo —, a velha da Hispânia Ulterior impôs um ritmo de marcha que dificilmente os deixaria cansados — uma boa refeição e uma noite bem dormida bastavam para lhes restaurar as forças.

Após ter passado por duas elevadas cordilheiras, a coluna romana deparou com as terras que conduziam ao Douro, o qual, entre os principais rios das Hispânias, era o menos conhecido dos Romanos. Se tivesse seguido esse caminho, Pio teria ido parar à grande e próspera Salamântica; no entanto, virou para nordeste e contornou as colinas das montanhas à sua direita, pois não queria provocar a tribo dos Vetónios, cujas jazidas de ouro tinham levado o grande Aníbal a saquear Salamântica 145 anos antes. E, nas Calendas de Junho, Quinto Cecílio Metelo Pio montou o seu acampamento nas proximidades de Segóvia. Apesar de tudo, Hirtuleio tinha-o seguido até Segóvia. O que não era muito surpreendente, pois Lamínio ficava a apenas trezentos quilômetros de Segóvia, ao passo que Metelo Pio precisara de cobrir uma distância de novecentos quilômetros. Era possível que algum habitante de Turmúlio, junto ao Tejo, tivesse enviado uma mensagem a Sertório, dizendo-lhe que os romanos tinham passado — mas que não iam seguir o curso do Tejo. Sertório (como a velha previra) concluíra que o objectivo romano era o Alto Ebro, um estratagema para afastar Sertório da costa leste e de Pompeu, ou então uma tentativa genuína para atacar as regiões mais leais a Sertório. Hirtuleio recebera ordens para interceptar a velha antes que ela conseguisse chegar ao reino de Sertório. De uma coisa estava Pio certo: eles não tinham adivinhado para onde ele realmente ia. Para conseguir adivinhar isso, Sertório teria de ter uma opinião muito melhor acerca das capacidades — e da subtileza! — da velha. A primeira coisa a fazer era instalar o exército num acampamento superiormente fortificado. Prudente como sempre, Metelo Pio ordenou aos seus homens que escavassem e construíssem muros com as armaduras postas — uma carga extra de que nenhum legionário gostava, só que Hirtuleio estava por perto. Como se fossem uma vasta colônia de insectos, os seus homens lançaram-se ao trabalho a um ritmo frenético. Os carros, os bois, as mulas e os cavalos foram trazidos para dentro do campo, enquanto as bandeiras vermelhas eram colocadas e a vigilância prosseguia; depois, os animais ficaram a cargo de um número muito reduzido de homens, pois os não combatentes também eram precisos para o trabalho. Trinta e cinco mil homens labutaram com tal lógica e organização que o acampamento ficou pronto num dia; cada lado media quilômetro e meio de comprimento, as fortalezas reforçadas com madeira tinham uma altura de oito metros, havia torres em cada duzentos passos e o fosso diante das muralhas tinha mais de seis metros de profundidade. Só quando os quatro portões feitos com sólidos toros foram fechados e as sentinelas se postaram nos seus lugares é que o general se permitiu suspirar de alívio; o seu exército estava seguro contra qualquer ataque. No entanto, aquele dia não deixou de registar incidentes. Lúcio Hirtuleio não agüentou a ideia de ver a velha confortavelmente protegida por trincheiras, muralhas e paliçadas, e lançou uma incursão de cavalaria a partir do seu próprio acampamento, com o objectivo de obrigar a velha a desistir das suas construções. Mas Metelo Pio tinha aprendido muito ao longo daqueles três anos e meio na Hispânia; tinha aprendido, nomeadamente, a pensar como o inimigo. Daí que, antes de chegar a Segóvia, tivesse mandado à frente seiscentos dos seus cavaleiros numídios, ordenando-lhes que se posicionassem num local onde um possível agressor não os pudesse ver. A incursão mal tinha começado e logo os cavaleiros numídios saíram do seu esconderijo, obrigando Hirtuleio a recuar a toda a pressa para o seu acampamento. Durante os oito dias de um nundinum, nada mais aconteceu. Os homens puderam descansar, dormir sossegadamente, passar os dias numa mescla de exercícios e divertimentos — enfim, sentiam que nenhuma força inimiga ousaria perturbar a sua tranqüilidade. Saindo da sua tenda de comando, situada na junção da via praetoria com a via principalis, num pequeno monte de onde o general podia ver para além das muralhas, Metelo Pio passeava pelas duas ruas principais, metia por caminhos ladeados por tendas de couro de vaca ou cabanas de colmo, e falava com todos os seus homens, explicando-lhes cuidadosamente o que ia fazer a seguir, dando-lhes uma imagem de extrema confiança. Pio não era um homem caloroso e não se sentia muito à vontade a dialogar com os seus subordinados ou inferiores; no entanto, não era frio ao ponto de recalcar por completo os seus afectos. Desde a batalha do Bétis, em que ele cuidara dos seus soldados com tanto escrúpulo, que estes olhavam para ele com outros olhos: de início timidamente, mas agora de uma forma cada vez mais aberta. E olhavam para ele com amor, e diziam-lhe quão gratos se sentiam por ele lhes ter dado a oportunidade de obterem aquela vitória — uma vitória alcançada graças aos seus cuidados, graças à sua capacidade de previsão. Pouco lhes importava que as razões para tantos cuidados fossem eminentemente práticas, baseadas não no eventual afecto que Pio sentia por eles, mas no desejo de derrotar Hirtuleio. Eles acreditavam no afecto de Pio. Porque afinal tinham-no visto andar na maior azáfama, emocionado, atarantado, cuidando deles como uma galinha cuida dos filhos, como uma velha avó, como a velha, que era a alcunha que Sertório lhe tinha posto, por troça; porque afinal o general tinha deixado transparecer um interesse pessoal pelo bem-estar dos seus soldados.

Desde então, tinham viajado com ele de Gades a Empórias e voltado a Gades; depois, tinham marchado com ele novecentos quilômetros, por uma região desconhecida, infestada de bárbaros; e, em todas as circunstâncias, o general fizera tudo o que lhe era possível para que eles estivessem em segurança. Por isso, quando chegaram a Segóvia, Pio tinha perdido já toda a sua antiga frieza, e compreendido que a época, a sua própria mente e uma atitude adequadamente romana, atenta a todos os pormenores, lhe tinham permitido construir um exército do qual se separaria com lágrimas nos olhos. Aqueles homens pertenciam-lhe. Aquilo com que tinha dificuldade em lidar era o facto de que ele também lhes pertencia. Isso era algo que o seu filho não conseguia aceitar — daí que tivesse a maior dificuldade em acompanhar o pai naqueles passeios pelo acampamento. Metelo Cipião era sobretudo uma criatura pretensiosa e afectada e não um defensor das tradições e das distâncias. Por isso não conseguia aceitar o afecto daqueles que não eram seus pares — no fundo, só aceitava o afecto daqueles a quem o ligasse o sangue ou a adopção.

Quando o general conduziu os seus homens para o combate contra Lúcio Hirtuleio, os soldados já tinham percebido por que razão ele tinha apinhado seis legiões e mil cavaleiros num acampamento pequeno para tanta gente. Pio queria que Hirtuleio pensasse que ele só dispunha de cinco pequenas legiões e que construíra um acampamento tão bem fortificado porque o seu exército fora obrigado a viajar sem todos os adjuntos de que precisava; Pio pedira mesmo aos seus cavaleiros numídios que fizessem comentários a esse respeito enquanto expulsavam a cavalaria de Hirtuleio.

Seguindo deliberadamente o exemplo de Cipião Africano, Pio, quando procedeu à formação, escolheu o tipo de terreno que qualquer general escolheria se por acaso estivesse à frente de tropas mal equipadas e absolutamente desanimadas — um terreno semeado de pequenos cursos de água, com algumas irregularidades, recheado de arbustos e pequenas árvores. E era evidente, aos olhos de Hirtuleio, que, para enfrentar o poderoso exército inimigo, constituído por quarenta mil soldados soberbamente armados, Metelo Pio fora obrigado a estreitar o seu centro. Para compensar isto, alargara muito as suas alas; nas pontas das alas, a cavalaria numídia parecia comportaj-se como se não tivesse ninguém a controlá-la. Quando os seus batedores o informaram de que o exército da velha tinha deixado o acampamento, Hirtuleio não sabia ainda se aquele seria de facto o melhor momento para travar a batalha. No entanto, ao ver o inimigo e o terreno em que formara, fez um grunhido de desprezo e de imediato ordenou aos seus soldados que se preparassem para a batalha.

As alas da velha atacaram desde logo o exército de Hirtuleio, e isso era exactamente o que ele queria. Avançou então contra aquele desprotegido centro, decidido a abrir um rombo nele e a fazer entrar rapidamente três legiões que, posteriormente, atacariam a retaguarda inimiga. Mas no momento em que o exército ibérico se meteu entre as duas estranhas alas, Metelo Pio lançou a sua armadilha. Os seus melhores homens estavam escondidos dentro das alas; alguns deles, de súbito, foram reforçar o centro; outros foram para os flancos. Antes que tivesse tempo para tentar

libertar-se, Lúcio Hirtuleio deu consigo no meio de um turbilhão de homens confusos e perdeu a batalha. Ele e o irmão mais novo morreram no campo de batalha, e os soldados de Metelo Pio, cantando cânticos de triunfo, reduziram a pó o exército que Sertório tanto amava. Poucos foram os soldados que sobreviveram; e esses fugiram para a Lusitânia, levando as horrendas notícias da derrota, e não mais combateram por Quinto Sertório. Os lusitanos que em vão tinham esperado por Pio na foz do Anas, depois de o terem seguido durante algum tempo, acabaram por decidir invadir a Hispânia Ulterior, chegando mesmo a atravessar o Bétis. Porém, quando se espalhou a notícia da sorte do exército ibérico, disseram adeus à sua grande oportunidade de se libertarem dos Romanos e dispersaram pelas florestas. Segóvia, que era pouco mais do que uma aldeia empoleirada num penhasco, não agüentou as investidas de Pio mais do que um dia. Todo o seu povo foi morto e os seus edifícios foram incendiados. Metelo Pio não queria nenhum habitante vivo — porque alguém poderia avisar Sertório de que o exército ibérico fora dizimado.

Logo que os seus centuriões acharam os soldados em condições de partir, Metelo Pio deu início à marcha na direcção do rio Sucrão. Mandava o tempo que atravessasse o formidável maciço que ficava para lá de Segóvia, sem que pensasse sequer em contorná-lo: o Juga Carpetana (como era chamado) era difícil mas não impossível de atravessar, nem mesmo para os carros puxados pelos bois, e, por outro lado, não se tratava de um caminho muito longo — menos de 40 quilômetros. Depois de Segóvia, surgiram as cidades de Miaco e Sertóbriga; Metelo Pio e o seu exército passaram muito ao largo, para que os seus habitantes fossem levados a confundi-los com o exército ibérico que, se por acaso tivesse saído vitorioso, estaria nesse momento a regressar a Lamínio.

Depois, foi uma cansativa jornada por uma região tão árida que até os rebanhos de ovelhas pareciam evitá-la. No entanto, viam-se de quando em quando leitos quase secos de rios, e era possível explorar as suas águas subterrâneas. Por outro lado, a distância até ao alto Sucrão não era demasiada — não seria por isso que o exército da Hispânia Ulterior correria riscos. O calor, evidentemente, era colossal e, quanto a sombras, nem sinal. Mas Metelo Pio marchava apenas de noite, pois estava lua cheia, e, de dia, obrigava os seus homens a dormir à sombra das tendas. Pio nunca chegou a entender que instinto o levou a passar para a margem norte logo que viu o Sucrão; é que, a pouca distância dali, numa zona inferior do curso, o leito do rio era um verdadeiro atoleiro de cascalho arenoso — se o exército tivesse passado aí, teria demorado muito mais tempo a chegar à outra margem. Assim sendo, as suas legiões estavam já na margem norte quando, pouco antes do ocaso, ele e os seus homens ouviram, a alguma distância, o ruído inconfundível de uma batalha. Era o penúltimo dia de Quinctilis. Desde o alvorecer até uma hora antes do pôr do Sol, Quinto Sertório observou as legiões de Pompeu formadas para a batalha, perguntando-se, à medida que o dia ia passando, se Pompeu manteria a sua decisão de combater ou marcharia dali para fora. Era esta última alternativa que Sertório almejava; logo que virasse costas, Pompeu perceberia que tinha cometido um erro terrível. Mas o miúdo não saía dali — ou era demasiado esperto e sabia muito bem o que estava a fazer, ou então tinha alguma divindade a seu lado, convencendo-o a esperar durante horas sob aquele sol escaldante.

As coisas não estavam a correr bem a Sertório, apesar das muitas vantagens que possuía — a facilidade com que as suas tropas suportavam o calor, muita água para beber e tomar banhos, um conhecimento profundo da região circundante. No entanto, não tinha recebido nenhuma notícia de Lúcio Hirtuleio, para além de uma nota muito breve dizendo que Metelo Pio não estava em Segóvia, mas que esperaria 30 dias para ver se a velha aparecia e que, passados esses 30 dias, iria ter com Sertório. Por outro lado, os seus batedores, colocados nos montes mais elevados da região, não tinham visto nenhuma coluna de poeira avançando pelo vale ressequido do Sucrão. Logo, não havia nenhum sinal de que Hirtuleio viesse a caminho. Mas o pior de tudo é que Diana tinha desaparecido.

A pequena corça branca tinha viajado com ele desde Osca, sem que a desordem e o caos da marcha a perturbassem, sem que o sol quente a fizesse sofrer (um sol que deveria ter deixado as suas marcas nela, pois era albina, mas que, afinal, não lhe causara nenhum mal — e esse era mais um sinal das suas origens divinas). Só que, quando Sertório se instalou junto ao Sucrão, deixando Herénio e Perperna numa boa posição perto de Valência para amortecerem o avanço de Pompeu, Diana desapareceu. Certa manhã, ao acordar, não encontrou Diana ao seu lado, enroscada sob a pele de ovelha. Nesses primeiros instantes da manhã, Sertório não se preocupou com a ausência da corça. O animal tinha recebido um apurado treino e, por isso, nunca sujava o interior das tendas ou das residências com a urina ou os excrementos — daí que Sertório tivesse pensado que ela saíra para fazer as suas necessidades fisiológicas. Porém, quando ele ia tomar o pequeno-almoço, ela aparecia sempre, para comer com ele. Só que, desta feita, a corça não apareceu. E há 33 dias que não aparecia. Cada vez mais alarmado, Sertório desatou a procurá-la nas redondezas, sem dizer nada a ninguém. Até que se viu obrigado a perguntar a alguns membros do seu exército se a tinham visto. A notícia espalhou-se como fogo por mato seco — e, a certa altura, já todo o acampamento, acometido de verdadeiro pânico, andava à procura de Diana; Sertório vira-se obrigado a fazer uma severa comunicação aos seus soldados, indicando que a disciplina tinha de ser mantida mesmo que ela tivesse desaparecido. O pequeno animal tinha um significado portentoso para aquele exército e em especial para os soldados ibéricos. À medida que os dias foram passando sem que houvesse da corça o mínimo sinal, o moral dos homens foi decaindo; um tal desânimo foi ainda ampliado pelo estúpido desastre de Valência, motivado pela recusa de Perperna em associar-se aos esforços do leal Herénio. Sertório sabia perfeitamente que o erro fora de Perperna, mas os seus homens estavam convencidos de que fora o desaparecimento de Diana que provocara aquela derrota. A corça branca era a sorte de Sertório — e a sua sorte tinha desaparecido. Estava quase o Sol no ocaso quando Sertório deu ordem de batalha ao exército, seguro de que as suas tropas estavam em muito melhores condições para combater do que as tropas de Pompeu, as quais se encontravam sob um sol impiedoso há já longas horas. O próprio Pompeu comandava a ala direita e Lúcio Afrânio a esquerda; quanto ao centro, era comandado por um legado que Sertório pensava ser novo na Hispânia, pois nenhum dos seus batedores conseguira identificá-lo. A batalha de Lauro, no ano anterior, confirmara o desdém que Sertório sentia em relação às capacidades

de comando de Pompeu; por isso, optou por combater contra a ala de Pompeu, deixando a Perperna a tarefa de enfrentar Afrânio; o centro pertencia também a Sertório. De início, a batalha correu magnificamente para Sertório — sobretudo quando Pompeu foi levado para fora do campo de batalha, com a carne da coxa desfeita por uma lança farpada. No campo, deixou o seu Cavalo Público, morto pela mesma lança. Apesar das valorosas tentativas do jovem Aulo Gabínio para reconstruir a ala direita, a verdade é que esta, vendo-se sem chefe, começou a recuar.

Infortunadamente, Perperna estava a sair-se muito mal com Afrânio, que conseguira abrir um buraco nas suas linhas e atingido mesmo o acampamento inimigo. Sertório viu-se obrigado a ir salvar Perperna e só conseguiu expulsar Afrânio do acampamento depois de ter sofrido pesadas baixas. A noite caíra entretanto, mas a batalha continuava à luz da lua cheia e dos archotes; Sertório estava decidido a só parar o confronto quando conseguisse assegurar uma boa posição para vencer na manhã seguinte.

Assim, quando as hostilidades finalmente foram interrompidas, Sertório tinha boas razões para estar confiante em relação ao dia seguinte.

—vou pendurar a carcaça do miúdo numa árvore para que os pássaros venham comê-la — disse ele, com um sorriso perverso. Depois, com um ar ansioso, desesperado, perguntou: — E Diana? Diana ainda não apareceu, pois não?

Não, Diana ainda não tinha aparecido.

À primeira luz do dia, a batalha recomeçou. Pompeu continuava no seu posto de comando, deitado numa maca, suportada, à altura dos ombros, por alguns dos seus homens mais altos. Restaurado durante a noite, o seu exército juntou-se numa formação cerrada; era óbvio que Pompeu tinha dado ordens para que os seus homens corressem riscos mínimos — precisamente o género de inimigo que Sertório mais detestava.

Até que, pouco depois do alvorecer, um novo rosto e um novo exército penetraram no campo de batalha: Quinto Cecílio Metelo Pio, vindo de oeste e atravessando as hostes de Perperna como se elas não existissem. Pela segunda vez em menos de vinte e quatro horas, o acampamento de Perperna caía. Metelo Pio avançou então na direcção do acampamento de Sertório. E, para este, era tempo de fugir.

Enquanto ele e Perperna retiravam apressadamente, Sertório teria sido ouvido a lamentar-se:

— Se aquela velha maldita não tem aparecido, o miúdo não me escapava! — teria ele dito.

A retirada terminou nos contrafortes a oeste de Sétabe. Aí, extraindo alguma ordem daquele caos, Sertório, procurando ignorar Perperna, contou as suas perdas — talvez quatro mil homens ao todo — e integrou os homens das cortes mais afectadas (sobretudo as pertencentes a Perperna) em cortes com falta de efectivos. Perperna, quando soube disto, pensou apresentar um protesto formal, mas bastou-lhe olhar para o rosto severo e o olho estropiado de Sertório para desistir das suas intenções. Ficaria para mais tarde.

E foi nos contrafortes onde se refugiou que Sertório recebeu finalmente a notícia de que Lúcio e Caio Hirtuleio tinham sido mortos em Segóvia e de que o exército ibérico havia sido dizimado. Um golpe terrível, e um golpe que Sertório nunca esperara. E sobretudo quando o inimigo era a velha da Hispânia Ulterior! Não, Sertório nunca contara com a esperteza da velha, que dera tantas e tão estranhas voltas que nunca ninguém suspeitara das suas intenções, que passara ao largo de Miaco e Sertóbriga para dar a impressão de que era Hirtuleio, que depois marchara à luz da lua e sem levantar poeira para não denunciar a sua presença! Os meus soldados ibéricos têm razão, pensou. Quando Diana desapareceu, a minha sorte evaporou-se. A deusa Fortuna já não me favorece. Se é que alguma vez me favoreceu. O miúdo e a velha, segundo o informaram, tinham decidido evidentemente que não valia a pena continuar a marchar para sul; depois de terem limpo o campo de batalha e pilhado todos os alimentos da infeliz Sétabe, os seus exércitos tinham seguido para norte. Pois bem, essa era uma decisão acertada. Sextilis não tardava e tinham ainda um longo caminho a percorrer até ao acampamento de Inverno do miúdo. Mas que tencionaria a velha fazer? Voltaria à Hispânia Ulterior, ou acompanharia o miúdo até ao acampamento? Consciente de uma horrível lassidão que não sabia como combater, Quinto Sertório decidiu que lambera já as suas feridas o suficiente para que elas sarassem; iria atrás da velha e do miúdo e provocaria todos os danos que pudesse sem incorrer numa confrontação directa.

O seu acampamento estava já desfeito e o exército preparado para partir, quando duas crianças da região se aproximaram dele timidamente, com os pés nus ainda mais sujos de terra e lama que os corpos igualmente nus e os narizes e as orelhas perfurados por reluzentes brincos de ouro em forma de bola. Entre as duas crianças, com uma corda ao pescoço, encontrava-se uma corça com a pelagem muito suja, tão suja de terra e lama que parecia castanha. As lágrimas brotaram irreprimíveis do único olho são de Quinto Sertório — que acto tão nobre, tão bondoso! A gente da região, sabendo da perda da sua bela corça branca, viera oferecer-lhe uma outra corça, o animal de estimação daquelas crianças.

Sertório agachou-se, virando para as crianças apenas a parte do seu rosto que não fora desfigurada. Para sua grande surpresa, o animal que as crianças traziam começou a saltar e a tentar libertar-se; os animais nunca tinham medo de Quinto Sertório, bem pelo contrário! — Trouxeram-me o vosso animal de estimação? — perguntou ele, afavelmente. — Obrigado, obrigado! Mas eu não posso ficar com ele.vou lutar contra os Romanos, portanto ele ficará muito melhor convosco.

— Mas esta é a tua corça! — retorquiu uma das crianças.

— A minha corça?! Não! A minha corça era branca!

— E esta também é branca — disse a criança, raspando um pouco da lama que cobria a pelagem do bicho. — Estás a ver?

Nesse momento, a corça conseguiu libertar-se da corda e correu para Sertório. com a face direita molhada pelas lágrimas, Sertório abraçou-se ao animal e encheu-o de beijos. Não conseguia separar-se dele. — Diana! A minha Diana! Diana, Diana! Quando as crianças se foram embora, acompanhadas por um escravo que levava um grande saco de ouro para os pais delas, Quinto Sertório deu um banho à corça na nascente mais próxima e inspeccionou-a de alto a baixo, com um desvelo maternal. Fosse qual fosse a razão do seu desaparecimento, a verdade é que a vida selvagem não lhe tinha trazido nada de bom. Um felino atacara-a, pois ela trazia ainda as marcas profundas e semicuradas das garras de ambos os lados da rabadela, como se tivesse sido atacada por trás e atirada ao chão. Só a deusa sabia como é que ela conseguira escapar. As suas pequenas patas estavam gastas e ensangüentadas, as orelhas estavam rasgadas nas pontas, e havia sinais de

feridas no focinho. As crianças tinham-na encontrado quando conduziam o rebanho da família para o pasto. A corça correra para as crianças e descansara o focinho nas mãos de uma delas, suspirando de alívio, tremendo muito.

— Pois bem, Diana — disse Sertório, instalando-a numa caixa, numa das carroças do exército. — Espero que tenhas aprendido a lição! O mundo selvagem é para os selvagens! Estavas com o cio quando fugiste? Ou foram os cães do campo que te assustaram? De futuro, minha menina, vais viajar assim. Não suporto a ideia de te voltar a perder. A notícia espalhara-se mais depressa que um bando de pássaros levantando vôo; Diana voltara! E, com ela, voltara a sorte de Quinto Sertório.

Pompeu e Metelo Pio deixaram Valência, seguindo para norte, na direcção de Sagunto. Os alimentos que tinham pilhado em Sétabe (não havia mais nada para pilhar) foram um acrescento bem-vindo aos seus então reduzidos abastecimentos, tal como a comida que Pompeu escondera na pedreira perto de Valência. Tinham acordado marchar juntos ao longo da costa leste, até Empórias; por outro lado, Metelo Pio passaria esse Inverno na Gália Narbonense — embora os seus homens não se tivessem queixado do desvio de mil e quinhentos quilômetros, o Bacorinho pensou que outra marcha de setecentos e cinqüenta quilômetros seria demasiado para um ano só. Além disso, queria estar no auge da acção na Primavera e sabia que o aniquilamento do exército hispânico manteria a sua província a salvo de quaisquer ataques dos Lusitanos. Sagunto enviara uma delegação para os informar de que faria o possível por ajudá-los e que permanecia entranhadamente romana. O que não surpreendia ninguém — fora a dedicação de Sagunto (e também de Massiliote) a Roma que desencadeara a segunda guerra púnica contra Cartago, um século e meio antes. Mas a cidade tinha poucos alimentos para lhes dar — e os dois generais não tiveram dificuldade em acreditar nisso. A colheita fora pobre porque as chuvas de Inverno e da Primavera não tinham ajudado as espigas a encher-se de grãos. Era portanto imperioso que os dois exércitos seguissem tão depressa quanto possível para o Ebro, onde as colheitas eram mais tardias e mais ricas. Se conseguissem lá chegar em fins de Sextilis,

a colheita seria deles e não de Sertório. Por isso, agradeceram à embaixada de Sagunto e mandaram-na para a sua cidade; Metelo Pio e Pompeu não ficariam nem um dia em Sagunto. A coxa de Pompeu estava a sarar, mas lentamente; as farpas da lança tinham rasgado tendões e músculos, e Pompeu teria ainda de esperar algum tempo até que os novos tecidos se consolidassem. O Bacorinho não deixou de reparar que a perda do Cavalo Público parecia afectá-lo muito mais do que a ferida da perna ou o feio aspecto que a sua bela perna tinha agora. O que não admirava, pensou ele, pois um cavalo era muito mais belo que a perna de um homem. Pompeu não encontraria ali um cavalo igual àquele: os cavalos hispânicos eram pequenos, mal alimentados e mal tratados.

O moral do miúdo estava uma vez mais muito por baixo. E com razão. Metelo Pio não só fora a razão determinante para a vitória no Sucrão, como também aniquilara o melhor general e o melhor exército de Sertório. Até mesmo Lúcio Afrânio, Marco Petreio e o novo legado de Pompeu, Lúcio Titúrio Sabino, tinham tido melhor sorte que Pompeu. Claro que era verdade que todo o veneno de Sertório se abatera sobre Pompeu; mas ele sabia que não tinha estado à altura de tamanho desafio. E agora, conforme lhe disseram os batedores, o renegado vinha atrás deles, espreitando sem dúvida uma próxima oportunidade. As suas unidades de guerrilha tinham já entrado em acção, perseguindo todas as unidades inimigas enviadas em missões de exploração de alimentos; mas a sabedoria de Pompeu, nestas questões, igualara já a de Metelo Pio, e, por isso, os dois exércitos pouco sofreram. Em contrapartida, poucos víveres conseguiram arrecadar nessas surtidas.

Então — aparentemente, por um mero acidente — deram com o exército de Quinto Sertório nas planícies costeiras, logo após terem passado Sagunto. E Sertório decidiu oferecer-lhes batalha, certificando-se antes de que ele e as suas próprias legiões combateriam Pompeu. Pompeu é que era o elo fraco do inimigo, e não Metelo Pio. A estratégia revelou-se errada. Sertório teria feito melhor se tentasse conter Metelo Pio e deixasse Pompeu a cargo de Perperna; Pompeu apareceu no campo de batalha deitado na sua maca, pois não queria que dissessem dele o mesmo que haviam dito de Aquiles: que se enfiara na tenda enquanto os seus aliados combatiam.

As hostilidades começaram às primeiras horas da tarde e, quando terminaram, já a noite tinha caído. Apesar de ligeiramente ferido no braço, Metelo Pio tinha ganho o dia. Provocara a perda de cinco mil homens do lado de Perperna, mas sofrera muito poucas baixas. O azar de Pompeu continuava a persegui-lo: toda a sua cavalaria foi morta e as suas baixas elevavam-se a seis mil — legião e meia. Pompeu e Pio podiam clamar vitória unicamente por causa das baixas de Perperna e dos três mil homens que morreram nas hostes de Sertório. — Ele vai Voltar ao alvorecer — disse o Bacorinho, muito jovial, quando foi ver como estava Pompeu.

— Não, estou convencido de que vai retirar — retorquiu Pompeu. — As coisas não lhe correram bem e, quanto a Perperna, foi um desastre.

— Ele vai voltar, Cneu Pompeu. Eu conheço-o bem.

Ah, que tormento, que ódio! Aquele maldito Bacorinho conhecia-o bem! E, como seria de esperar, o Bacorinho tinha razão. Sertório voltou de manhã, decidido a vencer. Desta feita rectificou os seus erros, concentrando as suas energias em Metelo Pio, cujo campo atacou aos primeiros alvores. Mas a velha já estava à espera dele. Tinha colocado Pompeu e os seus homens no seu próprio campo e foi assim que, sem grande dificuldade, desfeiteou Sertório. Metelo Pio, que parecia ter rejuvenescido nos últimos tempos, perseguiu então Sertório até Sagunto, onde este se refugiou com o exército; enquanto isso, Pompeu era levado de maca para a sua tenda.

Apesar da vitória, a batalha provocara em Pompeu uma dor pessoal. Caio Mémio, seu cunhado, amigo e questor, fora morto — era o primeiro dos seus legados a perecer numa batalha. Enquanto Pompeu chorava, escondido a um canto de uma carroça, Metelo Pio comandava a marcha para norte, deixando que Sertório e Perperna fizessem o que muito bem entendessem — provavelmente exerceriam represálias sobre os habitantes de Sagunto. Mas não ficariam lá muito tempo, disso estava ele certo: Sagunto não tinha comida para os seus habitantes, quanto mais para um exército.

No final de Sextilis, os dois exércitos romanos chegaram ao Ebro; mas a colheita já se encontrava nos celeiros das imponentes fortalezas sertorianas, nas montanhas, enquanto que as planícies tinham sido incendiadas, não passando agora de um deserto negro. Sertório não se demorara em Sagunto. Fora mais rápido que Pompeu e Pio e, antes que o inimigo viesse, devastara as suas possíveis fontes de alimentos.

Empórias e as terras dos Indigentes também não estavam melhor; dois Invernos de ocupação pelo exército de Pompeu tinham feito engordar as bolsas do povo, mas as colheitas eram escassas.

—vou mandar o meu questor Caio Urbínio à Hispânia Ulterior, a fim de recrutar tropas bastantes para que as minhas terras possam ficar em segurança — disse o Bacorinho. — Mas se quisermos acabar com Sertório, terei de estar perto de ti na Primavera. Por isso, e como pensámos, o melhor será eu ir para a Gália Narbonense.

— Mas as colheitas aí também não são boas.

— É verdade. Mas há muitos anos que não têm lá nenhum exército instalado e por isso creio que hão-de ter o suficiente para os meus homens — retorquiu o Bacorinho. Franzindo o sobrolho, prosseguiu: — O que mais me preocupa é o que tu vais fazer. Não creio que haja aqui alimentos suficientes para os teus soldados — e se eles não se alimentarem bem durante o Inverno, chegarão à Primavera magros e sem forças.

— Euvou partir para o Alto Douro — replicou Pompeu calmamente. — Por todos os deuses!

— É uma região que fica demasiado longe das cidades de Sertório. Por isso, deverá ser mais fácil dominar as fortalezas locais do que conquistar cidades como Calagorre ou Yareia. O Ebro pertence a Sertório de uma ponta a outra. Mas o Douro não. Os poucos nativos em que confio disseram-me que a região não é tão alta como os Pirenéus, longe disso. E, por outro lado, o frio é muito menor.

— Nessa região vivem os Vaceus, que é um povo guerreiro. — Mas todos os povos das Hispânias o são, Metelo Pio! — retorquiu, fatigado, Pompeu, mudando a posição da perna.

O Bacorinho aquiesceu, com um ar pensativo.

— Sabes uma coisa, Pompeu: quanto mais penso na tua ideia, mais gosto dela! Vai! Mas parte depressa, pois o Inverno poderá dificultar a travessia do Alto Ebro.

— Não te preocupes, eu escaparei ao Inverno. Mas primeiro — disse ele, com um ar triste — tenho de escrever uma carta.

— Para Roma e para o Senado.

— Isso mesmo, Pio. Para Roma e para o Senado. — Os olhos azuis, mais velhos e circunspectos nos últimos tempos, fixaram os olhos castanhos do Bacorinho. — Só quero perguntar-te uma coisa: deixar-me-ás escrever e falar em teu nome? — Absolutamente! — retorquiu Metelo Pio.

— Tens a certeza de que não preferes escrever a tua carta? — Tenho. É melhor que sejas tu a escrever. Foi a ti que aqueles especialistas de divã deram a comissão especial. Eu não passo de um velho e vulgar governador que teve de enfrentar uma guerra terrível. Eles não me ligam nenhuma, sabem perfeitamente que eu sou um dos seus velhos criados. É a ti que eles não conhecem, Magno. É em ti que eles provavelmente não confiam. Porque tu não és um deles. Escreve-lhes! E mete-lhes um bom susto, Magno! — Não te preocupes, é isso que euvou fazer. O Bacorinho levantou-se. — Pois bem,vou partir amanhã de manhã para Narbona. Quanto mais depressa partirmos, menos comeremos da tua comida.

— Não queres pelo menos retocar a minha prosa? Varrão costumava fazer-me isso. — Não, eu não! — retorquiu o Bacorinho, rindo. — Eles conhecem muito bem o meu estilo literário. Dá-lhes algo que eles nunca tenham visto antes. E foi isso mesmo que Pompeu fez.

Para o Senado e o Povo de Roma:

Escrevo esta carta em Empórios, nos Nonos de Outubro do ano do consulado de Lúcio Octávio e Caio Aurélio Cota. Nos Idos de Outubro, inicio a minha marcha até ao rio Douro e à sua confluência com o rio Pisoraca, onde existe uma cidade chamada Septimanca, no meio de férteis montanhas. Espero passar aí o Inverno, dando aos meus homens o conforto e os alimentos de que precisam. Felizmente, já não tenho tantos homens como tinha há dois anos, quando cheguei a Empórios. Disponha apenas de quatro legiões, cada uma das quais com menos de quatro mil homens, e já não tenho cavalaria. Porque é que tenho de levar os meus catorze mil homens a atravessar um território hostil e a marchar setecentos e cinqüenta quilômetros para lhes proporcionar um bom acampamento de Inverno? Porque não há nada que comer na Hispânia Oriental. É essa a razão. Nesse caso, porque é que não compro comida à Gália ou à Gália Italiana, tanto mais que os ventos, nesta época do ano, favorecem as viagens dos navios dessas regiões até à Hispânia? Porque não tenho dinheiro. Não tenho dinheiro para comprar comida, nem para pagar aos navios. É essa a razão. Não tenho outra hipótese senão roubar comida às tribos nativas, as quais, assim espero, não deverão resistir ao assalto de catorze mil romanos esfomeados. É por isso que tenho de me deslocar para tão longe — porque nessas regiões as tribos devem ser tão fracas que não resistirão aos nossos ataques. Para obter comida no Ebro, teria de conquistar uma das fortalezas de Sertório — e não tenho condições para tal. Quanto tempo demorou Roma a submeter a Numância? E a Numância é um galinheiro, se comparada com Calagorre ou Clúnia. Além disso, a Numância não era comandada por um general romano. Sabem, através das minhas cartas, que não tive boas campanhas nestes dois últimos anos, embora o meu colega Quinto Cecília Metelo Pio Pontifex Maximus tenha registado êxitos notáveis. É preciso algum tempo para nos habituarmos a Quinto Sertório. Este é o país dele. Ele conhece-o e conhece o seu povo. Eu não. Fiz o melhor que podia. Não creio que outra pessoa no meu lugar pudesse ter feito melhor. O meu colega Pio teve de esperar três anos para arrancar a sua primeira vitória. Eu, pelo menos, colaborei em duas vitórias neste segundo ano, quando as minhas forças e as de Pio se juntaram para derrotar Sertório junto ao rio Sucrão e, depois, perto de Sagunto.

Eu e o meu colega Pio acreditamos que venceremos. Não tenho a mínima dúvida de que venceremos. Mas, para vencermos, precisamos de alguma ajuda de Roma. Precisamos de mais legiões. Precisamos de dinheiro. Não digo ”mais dinheiro” porque, até agora, não recebi dinheiro nenhum. E creio que o meu colega Pio também não recebeu nenhum, para além do estipêndio que lhe foi concedido para o seu primeiro ano como governador. Parece que vos estou já a ouvir: alcança umas quantas vitórias, saqueia umas quantas cidades e logo terás dinheiro. Pois bem, isso não é possível na Hispânia. Não há dinheiro na Hispânia. Quando conquistamos uma cidade, o saque resume-se a alguns víveres. Não há dinheiro. Caso estejam confusos com a minha escrita,vou repetir: NÃO HÁ DINHEIRO. Quando me mandaram para aqui, deram-me seis legiões e mil e quinhentos cavaleiros e dinheiro suficiente para pagar a toda a gente e para pagar abastecimentos durante meio ano. Isso foi há dois anos. O meu tesouro de guerra ficou vazio ao fim de meio ano. Isso foi há ano e meio. E o dinheiro acabou-se. E não vieram mais tropas.

Sabem — eu sei que sabem, porque eu e o meu colega Pio os informámos nas nossas cartas — que Quinto Sertório fez um pacto com o rei Mitridates do Ponto. Sertório concordou em aceitar todas as conquistas do rei Mitridates e em permitir mais conquistas ao reino do Ponto a partir do momento em que se torne Ditador de Roma. Devem entender, portanto, que Quinto Sertório não vai parar quando se tornar rei da Hispânia. Ele tenciona ser também rei de Roma — seja qual for o título que atribua a si mesmo. Há apenas duas pessoas em condições de detê-lo. Eu e o meu colega Pio. Digo isto porque somos nós que estamos aqui e porque temos hipóteses de o deter. Mas não podemos detê-lo com aquilo que temos. Sertório possui todo o potencial humano que a Hispânia pode oferecer e tem a capacidade de transformar os bárbaros hispânicos em bons soldados romanos. Eu e o meu colega Pio não podemos recrutar soldados na Hispânia. Ninguém no seu juízo perfeito se juntaria aos nossos exércitos. Não temos dinheiro para pagar aos nossos homens. Nem sequer temos comida para lhes dar. E — os deuses são minhas testemunhas!— não há despojos para partilhar.

Continuar: parte 2 de 3