Os Favoritos de Fortuna

Colleen McCullough · Capítulo 7 de 15 · parte 1/5

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Os Favoritos de Fortuna

— Entra, homem, vá!

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Só quando os vinte remadores, dez de cada lado, começaram a rumar a norte, é que Lúculo voltou a falar.

— Conheces mal a etiqueta militar? Mas já vais longe dos dezassete anos, não vais, tribuno? Não disseste que eras um contubernalis.

Soltando um suspiro (pelos vistos, teria ainda de explicar muitas vezes o que se passara consigo), César disse, num tom informativo:

— Tenho dezanove anos, mas esta é a minha primeira campanha. Até Junho fui o flamen Dialis.

Mas Lúculo nunca pedia pormenores desnecessários. Era um homem demasiado ocupado e demasiado inteligente. Limitou-se a aquiescer, dispensando os desenvolvimentos que a maior parte dos interlocutores de César considerava indispensáveis. — César... A tua tia não foi a primeira mulher de Sila?

— Sim.

— Então, ele favorece-te.

— Por ora.

— Bem respondido! Eu sou o mais fiel dos adeptos de Sila e estou a dizer-te isto como uma advertência que te devo, tendo em conta o teu parentesco com ele. Não permito a ninguém que o critique.

— Não ouvirás críticas da minha boca, Lúculo.

— Óptimo.

Um silêncio caiu entre os dois, rompido apenas pelo ruído uniforme dos vinte remos, mergulhando simultaneamente nas águas. Até que Lúculo, algo divertido, comentou: — Adorava saber como é que conseguiste arrebanhar uma frota tão poderosa ao rei Nicomedes.

E o secreto gozo de César emergiu de repente à superfície de uma maneira que César não aprendera ainda a controlar; por isso, disse algo de indiscreto a alguém que não conhecia. — O que aconteceu foi que o governador me irritou. Recusou-se a acreditar que eu conseguia ter quarenta navios, metade dos quais preparados para a guerra, nas Calendas de Novembro. Senti-me ferido no meu orgulho e deitei mãos à obra. E obtive os navios! Era o que o governador estava a pedir, por não acreditar que eu era capaz de cumprir a minha promessa. Esta resposta irritou fortemente Lúculo; detestava ter homens excessivamente confiantes no seu exército, fosse a que nível fosse, e achara aquela declaração odiosamente arrogante. Tratou, por isso, de pôr o rapazito presunçoso no seu lugar. — Conheço muito bem essa velha rameira maquilhada que dá pelo nome de Nicomedes — disse ele, numa voz capaz de fazer gelar qualquer um. — Evidentemente, tu és muito bonito e ele, bon, ele não é nada, mas mesmo nada inibido. Ele gostou de ti, não gostou? — Porém, como não tinha a mínima intenção de permitir que César respondesse, acrescentou imediatamente: — É claro que gostou! Pois bem, César, fizeste muito bem! É um gesto muito nobre, por Roma em primeiro lugar, à frente da nossa castidade! Julgo que ficarás conhecido como o palminho de cara que arrebatou quarenta navios. Ou deverei dizer: o rabinho? Uma ira tremenda apoderou-se de César tão rapidamente que, para manter os braços quietos, teve de enterrar as unhas nas palmas das mãos; nunca na sua vida tivera de lutar tão arduamente consigo mesmo para se conseguir conter. Mas conseguiu. Por um preço que nunca esqueceria. Os seus olhos viraram-se para Lúculo, fixos e muito abertos. E Lúculo, apesar de já ter visto muitos olhares daqueles, empalideceu. Naquele momento, daria tudo para não estar ali; no entanto, com algum esforço, decidiu-se a agüentar a situação que ele próprio criara. — Possuí pela primeira vez uma mulher — retorquiu César com uma voz calma e pausada — por volta dos meus catorze anos. São incontáveis as mulheres com quem já dormi, desde então. Isto significa que conheço muito bem as mulheres. E aquilo que me acusaste de fazer, Lúcio Licínio Lúculo, é precisamente o tipo de truque a que as mulheres precisam de recorrer. As mulheres, Lúcio Licínio Lúculo, para obterem o que querem ou o que alguns homens querem delas, só dispõem de uma arma: os seus cunni. No dia em que eu precisar de recorrer a truques sexuais para alcançar os meus fins, podes crer, Lúcio Licínio Lúculo, que a ponta da minha espada ditará o meu fim. Tu possuis um nome notável. Porém, comparado com o meu, é menos do que nada. Manchaste a minha dignitas. Não descansarei enquanto não tiver limpo essa nódoa. Como consegui a frota é algo que não te diz respeito. Nem a ti, nem a Termo! No entanto, podes ter a certeza de que a obtive honradamente, e sem precisar de ir para a cama com o rei — ou, já agora, com a rainha. O aproveitamento do sexo para tais fins é algo de desprezível. Não é com tais métodos que alcanço os meus fins. Alcanço-os, pelo contrário, usando a minha inteligência — um dom que, assim me parece, poucos homens possuem. É, pois, muito provável que, possuindo esse dom, eu vá muito longe. Mais longe, provavelmente, que tu.

Tendo concluído o seu discurso, César virou as costas a Lúculo e pôs-se a observar as construções do cerco a Mitiline, agora já esbatidas pela distância. E Lúculo, estupefacto, dava graças aos deuses por aquela conversa decorrer em latim; de outro modo, os remadores teriam compreendido tudo. Ah, obrigado, Sila! Mas que vespão que tu nos mandaste! Sempre trará alguma vivacidade à calmaria destas nossas manobras! Ah, sim, ele levantará mais problemas que um milhar de Mitilenes!

César e Lúculo passaram o resto da viagem num silêncio absoluto: César recolhido nos seus pensamentos e Lúculo revolvendo a cabeça, a pensar na melhor maneira de se retractar sem sacrificar a boa opinião que tinha de si mesmo — porque era absolutamente inconcebível que ele, o oficial que comandava as hostes romanas naquela guerra, descesse ao ponto de pedir desculpa a um tribuno militar júnior. E, no final da curta jornada, como não conseguira ainda encontrar uma solução satisfatória, subiu a escada do navio mais próximo, fazendo de conta que César não existia.

Quando já se encontrava no convés, esticou o braço direito, com a palma da mão para fora, para deter a subida de César.

— Não te incomodes, tribuno — disse ele, friamente. — Regressa ao meu acampamento e integra-te nele. Eu não quero ver-te.

— Posso procurar os meus criados e os cavalos?

— Evidentemente.

Burgundo, que conhecia o seu senhor melhor que ninguém, ficou certo, ao vê-lo, de que algo correra muito mal durante o pouco tempo em que ele estivera afastado da frota; no entanto, tinha suficiente bom senso para não fazer qualquer observação acerca da expressão rígida e vítrea de César, enquanto se dirigiam, por terra, para o acampamento de Lúculo. Quanto a César, fez essa jornada sem dar por nada do que se passava à sua volta; nem reparou na situação e configuração do acampamento quando lá chegou. Uma sentinela indicou-lhe a via principalis e informou-o de que a residência dos tribunos militares júniores era o segundo edifício à direita. Ainda não era meio-dia, mas parecia-lhe que a manhã durara um milhar de horas; o tipo de cansaço que sentia naquele momento era inteiramente novo para ele — obscuro, aterrador, indecifrável.

Como aquele era um acampamento permanente — ou que, pelo menos, duraria até à Primavera seguinte —, os seus habitantes encontravam-se instalados mais sólida e confortavelmente do que era costume. Para os soldados, havia um sem-número de barracas de madeira de aspecto resistente, cada uma das quais dava para oito homens; para os não combatentes, havia barracões, também de madeira, que albergavam oitenta homens; para o general, havia uma casa tão grande que quase parecia uma mansão, construída com tijolos secados ao sol; para os legadores séniores, havia uma casa idêntica; para os oficiais de posto médio, fora construído um edifício com uma altura de quatro pisos, também em tijolo; e, finalmente, os tribunos militares júniores dispunham do mesmo tipo de edifício, só que mais pequeno.

César abriu a porta, hesitante, ouvindo logo as vozes dos colegas no interior, enquanto os seus criados e animais esperavam na rua.

De início pouco conseguiu ver do interior, mas os seus olhos adaptavam-se facilmente às mudanças de luz e, por isso, pôde dar-se conta da cena antes que alguém reparasse nele. Havia no meio da sala uma mesa de madeira enorme, à volta da qual estavam sentados sete jovens, com as botas em cima do tampo. César não os conhecia; essa era uma das conseqüências de ter sido flamen

Dialis. Depois, um jovem de rosto agradável e corpo possante, que estava do outro lado da mesa, olhou para a porta e viu César.

— Olá! — disse ele, jovialmente. — Quem quer que tu sejas, entra! César entrou com muito mais segurança do que efectivamente sentia, pois a acusação de Lúculo ainda o perturbava; os sete jovens que, nesse momento, se viraram para ele, viram um terrífico Apoio, nunca um Apoio lírico. Lentamente, foram retirando os pés da mesa. Depois daquela saudação inicial, todos se calaram. Limitavam-se a olhar para ele, fixamente. Depois, o jovem que o saudara levantou-se e foi ter com ele, de mão estendida. — Aulo Gabínio — disse ele, rindo-se. — Não ponhas um ar tão importante, homem! Já temos gente importante que chegue!

César cumprimentou-o fortemente.

— Caio Júlio César — disse, mas não conseguia retribuir o sorriso. — Julgo que é aqui quevou ficar. Sou tribuno militar júnior.

— Nós sabíamos que eles haviam de arranjar um oitavo tribuno — disse Gabínio, virando-se para os outros. — Pois é isso que somos: tribunos militares júniores! A escória da terra é um tormento constante para o nosso general! Ah, sim, de vez em quando trabalhamos! Mas como não nos pagam, o general não insiste muito. Olha, acabámos de almoçar. Ainda há alguma comida. Mas antes, vem conhecer os teus colegas de martírio. Nesse momento, já os outros se tinham levantado todos.

— Caio Octávio. — De baixa estatura, mas dotado de um físico musculoso, Caio Octávio possuía um tipo de beleza grego, com a sua cabeleira castanha e olhos cor de avelã. Só as orelhas de abano destoavam naquele rosto. O seu aperto de mão era agradavelmente firme. — Públio Cornélio Lêntulo. Podes tratá-lo por Lêntulo, sem mais. — Obviamente um dos ”importantes” de que Gabínio falara, e um Cornélio típico — tez morena, um rosto muito pouco atraente. Parecia inseguro mas determinado em vencer essa insegurança — inseguro, mas pertinaz.

— Este é o Lêntulo especial — Lúcio Cornélio Lêntulo Nigro. Chamamos-lhe Nigro, é claro. — Outro dos ”importantes”, outro Cornélio típico. Mais arrogante que o Lêntulo sem mais.

— Lúcio Márcio Filipe Júnior. Chamamos-lhe Lippus, e é cá um lesma! — A alcunha não era simpática nem justa, pois Lippus não tinha os olhos remelosos; pelo contrário, possuía uns olhos magníficos, grandes, negros, sonhadores, e o seu rosto era muito mais atraente do que o do pai Filipe — isso vinha-lhe evidentemente da avó, uma Cláudia, com quem se parecia. Dava imediatamente a impressão de ser uma criatura naturalmente plácida; e o seu aperto de mão era suave, embora não frágil.

— Marco Valério Messala Rufo, Conhecido como Rufo, o Vermelho. — Não, aquele não pertencia à classe dos ”importantes”, apesar de o seu nome patrício ser muito, muito importante. Neste caso, a alcunha era inteiramente justificada — todo ele vermelho: cabelos, pele, olhos. Mas não parecia ser homem capaz de ficar vermelho de raiva, bem pelo contrário. — E, em último lugar, como de costume, porque é o que se vê menos: Marco Calpúrnio Bíbulo.

Bíbulo era o mais altivo de todos, talvez por ser, de longe, o mais pequeno, tanto em altura como em constituição física. Os seus traços prestavam-se naturalmente a uma expressão de superioridade, pois os ossos do rosto eram salientes, tal como o seu nariz abatatado, muito romano; os lábios moldavam-se num esgar grave e as sobrancelhas eram rigorosamente direitas, sobre uns olhos proeminentes, de um tom cinzento-pálido. O cabelo e as sobrancelhas eram de um louro tão desmaiado que quase parecia branco: por isso parecia mais velho, ele que afinal só tinha 21 anos.

Acontece, por vezes, que, num primeiro encontro, dois indivíduos se detestam imediatamente, sem que haja, para tal aversão, qualquer fundamento, seja em factos palpáveis, seja na lógica. Foi isso exactamente o que se passou entre Caio Júlio César e Marco Calpúrnio Bíbulo mal trocaram o seu primeiro olhar. O rei Nicomedes falara de inimigos — ali estava um, disso estava César certo.

Gabínio foi buscar a oitava cadeira e colocou-a junto à mesa, entre a sua e a de Octávio. — Senta-te e come — disse ele.

—vou sentar-me, mas desculpa quanto ao comer. Não tenho fome. — Vinho! Bebe uma taça!

— Nunca toco em vinho. Octávio soltou um risinho.

— Ah, vais adorar isto aqui! — exclamou. — Só se vê é gente a vomitar! — Tu és o flamen Dialis! — exclamou o filho de Filipe.

— Eu fui o flamen Dialis — disse César, sem qualquer intenção de aprofundar o assunto. Um segundo depois, porém, pensou melhor e acrescentou: — bon, se eu lhes contar a história agora, nunca mais me importunam com perguntas. — E narrou a história num estilo muito vivo, escolhendo tão bem as palavras que os seus colegas — nenhum deles com tendências eruditas, bem pelo contrário — se aperceberam rapidamente de que o novo tribuno era um intelectual, ou mesmo um erudito.

— Mas que história! — disse Gabínio quando César terminou. — Nesse caso, ainda estás casado com a filha de Cina — disse Bíbulo. — Sim.

— E agora — comentou Octávio, com um riso desabrido — estamos empatados no velho combate, Gabínio! com César, são quatro os patrícios! Vitória ou morte! Os outros lançaram-lhe um olhar fulminante; Octávio aquietou-se. — Acabas de chegar de Roma? — perguntou Rufo.

— Não. Da Bitínia.

— Que foste fazer à Bitínia? — perguntou Lêntulo.

— Fui buscar uma frota para o assalto a Mitilene.

— Aposto que aquele velho maricas do Nicomedes gostou de ti. — atirou-lhe Bíbulo, malicioso. Sabendo que uma questão daquelas revelava uma falta de tacto e educação que ofenderia a maior parte dos seus colegas, Bíbulo procurara resistir-lhe; contudo, a tentação fora mais forte.

— Gostou, de facto — retorquiu friamente César.

— E conseguiste a frota? — insistiu Bíbulo.

— Naturalmente — replicou César, com uma altivez que Bíbulo, por muito que fizesse, nunca conseguiria imitar.

Bíbulo riu-se: um riso ácido, como a sua expressão.

— Naturalmente? Não quererás dizer por acaso confra-naturalmente? Ninguém viu muito bem o que a seguir se passou. Quando os outros seis deram por isso, já César tinha dado a volta à mesa e pegado em Bíbulo, mantendo-o a alguma distância de si e com os pés bem acima do chão. O efeito era francamente cômico. Bíbulo dava aos braços, tentando alcançar o rosto sorridente de César; mas os braços eram demasiado pequenos para lhe causar sequer um arranhão. Uma cena que parecia ter saído do mais inspirado dos mimos. — Se não fosses tão insignificante como uma pulga — disse César — levava-te lá para fora e esmagava-te essa cara contra as lajes do chão. Infelizmente, Pulex, isso seria considerado homicídio. Mas tu és demasiado insignificante para que eu te transforme em polpa. Por isso, aconselho-te a que não te metas no meu caminho, miserável lêndea! — Segurando Bíbulo ainda bem alto, César procurou um sítio onde o pôr — um armário com quase dois metros de altura. Sem parecer fazer um grande esforço, atirou com Bíbulo para cima do armário, evitando airosamente os pontapés deste. — Dá aos pés aí em cima, Pulex! Feito isto, César saiu.

— Ora aí está um bom nome para ti, Bíbulo! Pulex! — disse Octávio, rindo. — A partir de agora, chamar-te-ei Pulex! Bem mereces a alcunha! Que achas, Gabínio? — Eu preferia chamar-lhe Podex! — exclamou Gabínio, vermelho de raiva. — Que te levou a dizer aquilo, Bíbulo? Veio completamente despropósito e só serviu para que ficássemos todos mal vistos! — Lançando um olhar feroz para os outros, acrescentou: — Não me interessa o que vocês vão fazer, mas euvou ajudar César a descarregar as bagagens. — Ajudem-me a descer — pediu Bíbulo, no alto do armário. — Não contes comigo — retorquiu Gabínio, com um ar de troça. Nenhum dos outros tribunos se ofereceu para ajudar Bíbulo; este teve de se atirar do alto do armário, pois o móvel era demasiado frágil e instável para que ele pudesse descer agarrando-se aos rebordos. Para além de uma monumental raiva, Bíbulo experimentava também uma mistura de perplexidade e mortificação — Gabínio tinha razão. O que é que o levara a dizer aquilo? Que ganhara com aquilo? Portara-se como um grosseirão, perdera a estima dos companheiros e nem sequer tinha o consolo de ter vencido a contenda. César obtivera uma vitória fácil, e com honra, pois não batera num homem mais pequeno e fraco, limitando-se a pôr a nu essa pequenez e fraqueza. Era natural que Bíbulo sentisse inveja em relação aos homens de elevada estatura e forte compleição física — eram coisas que ele não tinha, em absoluto. E o mundo, como ele muito bem sabia, pertencia aos homens grandes, aos homens imponentes. Só o aspecto físico de César — aquele rosto, aquele corpo, aquela altura — chegara para o pôr fora de si; e ainda por cima, o homem falava bem e sabia escolher as palavras certas! Não era justo!

Bíbulo ficou sem saber quem mais odiava — se ele próprio, se Caio Júlio César. O homem que tinha tudo. Da rua vinham gargalhadas, demasiado estrondosas para que Bíbulo não sentisse vontade de ir espreitar. Lentamente, foi-se encostar ao vão da porta e, furtivamente, lançou uma olhadela. Lá estavam eles, os seus seis colegas tribunos, estourando de riso, enquanto o homem que tinha tudo, no meio deles, montava uma mula! Bíbulo não conseguia ouvir o que César dizia, mas sabia que as palavras eram espirituosas, divertidas, encantadoras, irresistíveis, fascinantes, interessantes, soberbamente escolhidas, mágicas. ”Pois bem!”, disse ele para si mesmo enquanto, com passos furtivos, regressava à privacidade do seu quarto. ”Ele nunca mais se há-de ver livre desta pulga!” com a chegada do Inverno, o cerco a Mitilene entrou num período lento, aquele período em que os sitiantes nada faziam, a não ser esperar que os sitiados morressem à fome; por isso, Lúcio Licínio Lúculo teve finalmente tempo para escrever ao seu muito estimado Sila. Nutro grandes esperanças de que isto acabe na Primavera, graças a um acontecimento surpreendente, de que falarei mais abaixo. Em primeiro lugar, gostaria que me concedesses um favor. Se conseguir concluir esta missão na Primavera, posso voltar a Roma? Já passou tanto tempo, meu caro Lúcio Cornélio, e, francamente, preciso de voltar a ver Roma — e de te voltar a ver a ti. O meu irmão, Varrão Lúculo, já tem agora a idade e a experiência necessárias para ser um edil curul, e eu

gostaria de partilhar a edilidade curul com ele. Não há mais nenhum cargo que dois irmãos possam partilhar a contento de todos. Pensa só nos jogos que nós vamos dar! Isto para não falar dos prazeres. Eu estou com 38 anos, o meu irmão tem 36 — quase a idade dos pretores, e, no entanto, ainda não fomos edis. O nosso nome exige que sejamos edis. Por favor, deixa-nos assumir este cargo, e depois deixa-me ser pretor logo que possível. Mas se achares que a minha pretensão é insensata ou imerecida, é evidente que compreenderei. Na Província da Ásia, as coisas parecem estar a correr bem a Termo; caso contrário, não me teria dado o cerco de Mitilene — assim mantém-me ocupado e longe dele. Não é mau tipo. As populações locais gostam dele, porque ele tem paciência para ouvir as suas longas histórias sobre as razões por que não podem pagar o tributo; e eu gosto dele, porque, depois de ter escutado com tanta paciência, insiste em que paguem o tributo. Estas duas legiões que tenho aqui são compostas por homens muito difíceis. Murena comandou-os na Capadócia e no Ponto e, antes dele, comandou-os Fímbria. Demonstram uma independência de espírito de que não gosto nada e tenho um trabalho imenso para os pôr na ordem. É claro que estão ressentidos com o teu edicto. Nunca mais poderão voltar a Itália por terem apoiado o assassínio de Flaco por Fímbria. Regularmente, manddtn-me uma delegação pedindo que esse edicto seja anulado. Não vão a lado nenhum e, neste momento, já me conhecem suficientemente bem para compreender que os dizimarei a todos se me derem o mínimo pretexto para o fazer. São soldados de Roma e, portanto, farão o que eu lhes mandar. Não há nada que mais me irrite do que um soldado ou um tribuno júnior pensar que tem voto seja em que matéria for — mas já voltarei a este assunto.

Parece-me agora que Mitilene estará já muito por baixo na Primavera, altura em que tenciono lançar um assalto frontal. Disporei de várias torres, e portanto é natural que o assalto seja um êxito. Se conseguir submeter esta cidade antes do Verão, toda a Província da Ásia ficará quieta e mansa.

A principal razão da minha confiança reside no facto de que possuo uma frota verdadeiramente extraordinária. Uma

frota — imagina só — de Nicomedes! Termo enviou o teu sobrinho (por casamento) Caio Júlio César à Bitínia, com a missão de arrancar uma frota a Nicomedes antes do fim de Quinctilis. Termo escreveu-me a informar-me disso, mas nenhum de nós esperava pela frota antes de Março ou mesmo Abril do próximo ano. Mas, pelos vistos, Termo teve a audácia de se rir da confiança do jovem César nas suas capacidades. Por isso, César virou-se para Termo todo empertigado e, com o ar mais arrogante deste mundo, pediu-lhe que lhe indicasse, com todos os pormenores, a dimensão da frota e a data de entrega. Quarenta navios, metade dos quais quinquerremes ou trirremes, a entregar nas Calendas de Novembro. Estas foram as ordens que Termo deu ao seu arrogante interlocutor.

Pois queres crer que César apareceu no meu acampamento, precisamente nas Calendas de Novembro, com uma frota estupenda, uma frota que qualquer romano dificilmente conseguiria arrancar a uma pessoa do género de Nicomedes? Incluindo dois navios com fileiras de dezasseis remadores, pelos quais não tenho de pagar mais do que os salários e a comida da tripulação! Quando vi a conta, fiquei de boca aberta — bon, é verdade que a Bitínia acabará por ter algum lucro, mas não é um lucro desmedido, bem pelo contrário. É evidente que me sinto obrigado a devolver a frota logo que Mitilene caia em nosso poder. E a pagar a conta. Espero poder pagá-la com os despojos, mas se estes não forem tão avultados como prevemos, há alguma possibilidade de convenceres o Tesouro a conceder-me um empréstimo especial? Devo acrescentar que o jovem César se mostrou arrogante e insolente quando me entregou a frota. Vi-me obrigado a pô-lo no seu lugar. É evidente que ele só poderia ter conseguido uma frota tão boa, e em tão curto espaço de tempo, de uma maneira: dormindo com aquele velho maricas. E foi isso que eu lhe disse, para o pôr no seu lugar. Mas duvido que haja no mundo algum modo de pôr César no seu lugar! Virou-se para mim como uma serpente venenosa e informou-me de que não precisava de recorrer a truques de mulheres para obter o que quer que fosse — e que, no dia em que o fizesse, a sua espada ditaria o seu fim. Deixou-me perfeitamente intrigado quanto à melhor maneira de o disciplinar — e esse é um problema que, como tu sabes, normalmente não me atormenta. Concluí que talvez os colegas dele fizessem o trabalho por mim. Lembras-te deles, com certeza — deves tê-los visto antes da partida. Gabínio, dois Lêntulos, Octávio, Messala Rufo, Bíbulo e o filho de Filipe. Parece que Bíbulo, o pequenino, tentou pô-lo na ordem. Coitado! Acabou em cima de um armário que fazia dois dele! Entretanto, assiste-se a uma divisão nítida entre os tribunos militares júniores. César conquistou Gabínio, Octávio e o filho de Filipe. Rufo mostra-se neutral. E os dois Lêntulos e Bíbulo odeiam-no. Há sempre problemas com os jovens durante as operações de cerco, o que é natural, pois são períodos em que não acontece nada. Por outro lado, é difícil, até para mim, obrigá-los a trabalhar. Mas César atrai mais problemas do que o habitual. Detesto ter de me incomodar com militares de tão baixo posto, mas houve alturas em que não tive outra alternativa. César é insuportável. Demasiado bonito, demasiado confiante nas suas capacidades, demasiado consciente da sua (infelizmente) grande inteligência. Mas façamos-lhe justiça: é um verdadeiro trabalhador. Nunca pára. Não sei como, mas a verdade é que, em todo o acampamento, não há soldado que não o conheça — e, o que é pior, todos gostam dele. O problema é que escapa a todo e qualquer controlo. Os meus legados até já o evitam, porque ele só aceita ordens para fazer um trabalho se achar que o trabalho vai ser bem feito. E infortunadamente as suas ideias são sempre as melhores! Ele é um daqueles tipos que já tem tudo planeado na cabeça antes de se avançar para uma batalha ou para uma obra. O resultado é que, a maior parte das vezes, os meus legados passam pelas maiores vergonhas. Até agora, só encontrei uma maneira de abalar a sua confiança — referindo-me à forma como ele conseguiu a sua magnífica frota por um preço tão baixo. E funciona num certo sentido, porque ele fica desvairado de raiva. Mas crês que ele me responde como eu desejaria — atacando-me fisicamente e dando-me assim um pretexto para eu o levar a tribunal marcial? Não! É demasiado inteligente e autocontrolado para fazer uma coisa dessas. Não gosto dele, claro. E tu? Ele teve o descaramento de me dizer que o meu nascimento, comparado com o dele, é menos que nada!

Mas já chega de tribunos júniores. Devia tentar falar de homens mais importantes — legados séniores, por exemplo. Mas, francamente, não me consigo lembrar de nada que tenha interesse.

Soube que serviste de casamenteiro há pouco tempo e que deste a Pompeu, o Miúdo Carniceiro, uma esposa muito acima da sua posição. Pois uma coisa te peço, se tiveres tempo: arranja-me uma esposa. Tenho andado longe de Roma desde que fiz trinta anos. E agora, quase com idade para ser pretor, não tenho esposa e, muito menos, um filho varão. O problema é que eu prefiro bom vinho, boa comida e muita diversão ao tipo de mulher com que um Licínio Lúculo tem de casar-se. Além disso, gosto de rapariguinhas, e não há ninguém tão necessitado de dinheiro que me dê em casamento uma filha de treze anos! Se descortinares alguém, informa-me. O meu irmão recusa-se redondamente a fazer de casamenteiro; por isso, podes imaginar como fiquei contente ao saber que te tinhas iniciado nesse nobre ofício. Recebe a minha estima e as minhas saudades, meu querido Lúcio Cornélio. Em fins de Março, Marco Minúcio Termo chegou de Pérgamo e concordou que Lúculo devia atacar. Quando lhe contaram todos os pormenores relacionados com a frota bitínia de César, desatou numa gargalhada pegada, embora Lúculo não estivesse em condições de ver o lado divertido da questão; com efeito, já estava farto de ouvir queixas sobre os seus indisciplinados e briguentos tribunos militares júniores.

Havia, contudo, uma lei militar muito antiga e que nunca precisara de ser formulada por escrito: se um homem constitui uma fonte permanente de conflitos, o melhor será dar-lhe, na próxima batalha, um lugar tal que a sua morte seja certa. E ao fazer os seus planos para o assalto a Mitilene, Lúculo decidiu precisamente seguir esta antiga lei militar. César teria de morrer. Era Lúculo quem comandava por inteiro as hostes romanas; Termo estaria presente apenas na qualidade de observador.

Não era incomum um general reunir todos os seus oficiais, fosse qual fosse o seu posto, para uma prelecção final; mas, em Lúculo, isso era uma raridade — daí que a sua convocatória provocasse muitos comentários. Não que os outros oficiais achassem estranho ver os tribunos júniores presentes; de facto, aqueles oito eram invulgarmente conflituosos e o general não tinha confiança neles — daí que precisassem bem de ouvir as palavras do chefe. Normalmente, os tribunos júniores serviam, essencialmente, como mensageiros, sob a direcção dos tribunos legionários. Foi isso mesmo que Lúculo decidiu no final do seu conselho de guerra. Mas não em relação a todos. De acto, a única excepção a essa regra era César, a quem Lúculo disse, no tom mais frio deste mundo: — Tu só me tens dado problemas, mas reparei que gostas de trabalhar. Decidi, por isso, dar-te o comando de uma coorte especial, formada pelos piores elementos de entre os fimbrianos. Manterei de reserva essa coorte até ao momento em que detectar o mais poderoso foco de resistência da cidade. Depois, mandá-la-ei combater precisamente para essa secção da batalha. Como comandante, terás de levar esses homens a inverter a situação. — És um homem morto — comentou Bíbulo, complacentemente, depois do conselho. — Não sou tal! — retorquiu César, jovialmente, cortando um cabelo com a espada e outro com a adaga.

Gabínio, que tinha por César grande afeição, estava preocupado. — Mas que mentula que tu me saíste! Nunca vi mentula assim, que desse tanto nas vistas — disse ele. — Se calasses essa báca e não desses nas vistas, não terias sido escolhido para comandar a coorte. Ele nunca deveria ter dado tais funções a um júnior, quanto mais a um júnior que faz a sua primeira campanha. Todos os soldados dele são fimbrianos, condenados ao exílio para toda a vida. Pois ele juntou precisamente os mais refractários e pôs-te a ti a comandá-los! Se queria dar-te o comando de uma coorte, então deveria ter escolhido homens das legiões de Termo.

— Eu sei, eu sei — retorquiu César, pacientemente. — Que hei-de eu fazer? Estou condenado a ser um mentula que dá nas vistas! Ora pergunta às mulheres do acampamento e vais ver o que elas te dizem...!

A ironia de César provocou risinhos nuns e olhares sombrios noutros; aqueles que o detestavam talvez lhe tivessem perdoado mais facilmente se, durante o Inverno, ele não houvesse ganho uma invejável reputação entre as mulheres que seguiam o acampamento — tanto mais que ele introduzira uma novidade que as divertia e espicaçava: a felizarda teria de ser um modelo de higiene.

— Não estás mesmo preocupado? — perguntou Rufo, o Vermelho. — Não — disse César. — Eu tenho sorte e talento. Espera e verás. — Meteu cuidadosamente a espada e a adaga nas respectivas bainhas e dirigiu-se depois para o seu quarto. Ao passar por Bíbulo, fez-lhe uma cócega sob o queixo. — Não tenhas medo, Pulex — disse ele. — És tão pequenino que o inimigo nem vai dar por ti.

— Se ele não fosse um tipo tão convencido, talvez o suportasse melhor — disse Lêntulo a Lêntulo Nigro ao subirem para os seus quartos.

— Ele há-de deixar de ser um convencido — disse Nigro. — Então espero lá estar para ver, quando isso acontecer — retorquiu o outro, tremendo só de pensar no que esperava César. — Vai ser terrível amanhã, Nigro. — Sobretudo para César — disse Nigro, com um sorriso de satisfação. — Lúculo vai transformá-lo a ele e à sua coorte num alvo fácil para as setas inimigas. Havia seis torres montadas junto às muralhas de Mitilene, cada uma das quais suficientemente grande para permitir a passagem de centenas de soldados até ao cimo das muralhas; por outro lado, os soldados podiam movimentar-se de forma suficientemente rápida para atacarem em massa os defensores e arremessá-los do alto das muralhas. Infelizmente para Lúculo, os defensores estavam conscientes de que tinham menos hipóteses de resistir a um tal assalto do que de vencer uma batalha campal fora das muralhas. A meio da noite, Lúculo acordou com a notícia de que todas as portas da cidade estavam abertas e que sessenta mil homens tinham saído para ocupar posições no espaço entre as muralhas de Mitilene e o fosso e as torres que ele construíra. Num instante, ouviu-se o toque das trombetas e o atroar dos tambores e o acampamento romano, obedecendo às ordens de Lúculo para que se aprontasse para a guerra, transformou-se no palco de uma frenética actividade. Lúculo dispunha agora das quatro legiões da Ásia, pois Termo trouxera as duas que faltavam; estas duas últimas legiões não tinham pertencido ao exército de Fímbria e, por isso, poderiam voltar a Roma com Termo, logo que este concluísse o seu mandato como governador. A sua presença no acampamento acabou por avivar na memória dos fimbrianos a inevitabilidade da sua condenação ao exílio e por atiçar ainda mais o seu descontentamento. Agora que a batalha campal se tornava inevitável, Lúculo temia que os fimbrianos não combatessem. O que tornava ainda mais imperativo que a coorte de César fosse separada do resto do exército.

Lúculo tinha vinte e quatro mil homens contra os sessenta mil de Mitilene. Porém, entre os soldados de Mitilene, não havia apenas guerreiros experimentados: como sempre acontecia nos combates contra as forças sitiantes, os sitiados recorriam a todos os homens, e inclusivamente aos velhos e às crianças.

— Sou um idiota! Devia ter pensado nesta possibilidade! — exclamou Lúculo, furioso, em conversa com Termo.

— E como é que eles souberam que nós íamos atacar hoje? — perguntou Termo. — Espiões. Provavelmente algumas das mulheres do acampamento — disse Lúculo. — Mandarei matá-las mais tarde. — Depois, voltando a debruçar-se sobre o que interessava, acrescentou: — O pior de tudo é que ainda está demasiado escuro para podermos ver de que modo é que eles se distribuíram. Tenho de mantê-los longe até conseguir elaborar um plano. — Tu és um táctico brilhante, Lúculo — disse Termo. — Apesar disto, vai tudo correr bem.

De madrugada, Lúculo subiu a uma das suas torres, instalada junto às suas próprias muralhas, e observou as formações do inimigo; as tropas de Lúculo encontravam-se já na terra de ninguém, aglomeradas do outro lado do seu fosso, de onde haviam sido retiradas à pressa centenas de milhar de estacas pontiagudas. Lúculo não queria que os soldados romanos morressem empalados se por acaso o seu exército fosse obrigado a recuar. Havia desde já um factor positivo: naquela batalha, não haveria escapatória possível. As muralhas de Lúculo impediriam as suas tropas de abandonar o campo. Não que ele tivesse previsto isso; os fimbrianos, quando estavam decididos a lutar, eram tão bons como quaisquer soldados que tinha comandado.

Antes de o Sol nascer, Lúculo deslocou-se à terra de ninguém, rodeado pela sua cadeia de comando, a quem indicava as últimas instruções.

— Não posso falar aos soldados, eles nunca me ouviriam — disse ele, tenso. — Por isso, tudo depende da vossa atenção neste momento. E da vossa total obediência. Como ponto de orientação, usarão a grande porta norte de Mitilene, pois fica mesmo no centro da nossa esfera de operações. O meu exército distribuir-se-á sob a forma de um quarto crescente, com as alas esquerda e direita mais avançadas que o centro. Porém, no meio da concavidade, na exacta direcção da porta norte, quero que haja um pico. Este pico avançará à frente de todas as outras unidades, a passo, sendo a porta norte o seu objectivo. A minha táctica consiste em usar esse pico, de forma a dividir as hostes inimigas em duas partes e a encerrar cada uma dessas partes dentro dos arcos do crescente. Isto significa que os homens devem manter integralmente a formação inicial, ficando as pontas das alas praticamente ao mesmo nível que o pico central. Como não tenho cavalaria, tenho de pedir aos homens que se encontram nas pontas do crescente que se comportem como alas de cavalaria. Devem atacar em peso e depressa. Cerca de setenta homens estavam reunidos à sua volta. Lúculo tivera de subir para uma pequena caixa, a fim de que todos o pudessem ver. Os centuriões das coortes também estavam presentes. A certa altura, o olhar de Lúculo fixou-se em César e no centurião pilus prior que comandava essa coorte de rebeldes que, originalmente, Lúculo pensara transformar em pasto das setas inimigas. Lúculo lembrava-se bem do nome do pilus prior — Marco Sílio, um indivíduo arrogante, agressivo e grosseiro que chefiava sempre as delegações dos fimbrianos que, regularmente, lhe iam pedir a revogação da pena de exílio. Aquele não era o momento azado para Lúculo se vingar; do que ele precisava, era de tomar uma decisão ditada pelo bom senso. E tinha duas hipóteses: ou esta coorte ia para a dianteira do pico central (e, nesse caso, seria certo que quase todos os seus homens morreriam), ou então ficava escondida na retaguarda de uma das duas curvas do crescente, onde pouco poderia fazer para além de servir de reforço. Mas Lúculo depressa tomou a sua decisão.

— César e Sílio — colocam a vossa coorte na dianteira do pico central e avançam para a porta norte. Logo que cheguem à

porta, agüentam a vossa posição aconteça o que acontecer. — E prosseguiu com as suas instruções.

— Que os deuses me ajudem! Aquele cunnus deu-me um menino como comandante! — resmungou Sílio para César, pelo canto da boca, enquanto aguardava que Lúculo terminasse. César não se irritou com o comentário, pois respeitava um centurião tão experiente na arte da guerra como era Sílio. Em vez disso, riu-se.

— Preferes ser comandado por um menino que aprendeu a combater com Caio Mário ou por um legado que só na aparência é bom militar, pois, no fundo, nem sabe distinguir a frente da rectaguarda?

Caio Mário! Esse era o nome que fazia bater mais forte os corações de todos os soldados romanos. Marco Sílio fitou o seu comandante com um olhar perscrutador, e mesmo um pouco mais brando.

— E qual é a tua relação com Caio Mário? — perguntou.

— Caio Mário era meu tio. E acreditava em mim — disse César. — Mas esta é a tua primeira campanha! A tua primeira batalha! — contestou Sílio. — Tu sabes tudo, não sabes, Sílio? Então, já que sabes tudo, acrescenta isto aos teus conhecimentos: eu nãovou deixar ficar mal os teus homens. Mas se vocês me deixarem ficar mal, podem ter a certeza de que os mando açoitar a todos — disse César. — Negócio fechado! — retorquiu prontamente Sílio, afastando-se para comunicar as instruções do comando aos seus centuriões júniores.

O general Lúculo não gostava de perder tempo. Logo que os seus oficiais puseram os soldados em formação, deu ordens para avançar. Era evidente para Lúculo que o inimigo não tinha nenhum plano de batalha; de facto, os soldados de Mitilene limitavam-se a esperar, numa grande aglomeração, sob as suas muralhas; e quando o exército romano começou a avançar, não fizeram qualquer tentativa para carregar. Esperariam pelo asssalto; só depois combateriam. Mitilene estava convicta da sua vitória, unicamente porque tinha muito mais soldados. Tão astuto como era truculento, Sílio apressou-se a espalhar a notícia pelos seus seiscentos homens: o comandante era um

menino que por acaso também era sobrinho de Caio Mário — e Caio Mário acreditara nas suas capacidades.

César avançava sozinho, à frente do estandarte, segurando com o braço esquerdo o enorme escudo retangular. Tinha ainda a espada embainhada; Mário dissera-lhe que a espada só devia ser desembainhada no último momento, porque, acrescentara ele, ”um homem, quando avança para o combate, seja em passo de corrida ou em passo normal, não pode olhar para o chão”. E dissera-lhe ainda: ”Se levares a espada na tua mão direita e tropeçares num buraco ou numa rocha, o mais natural é que acabes por ficar bastante ferido.”

César não tinha medo, nem mesmo nos recessos mais secretos do seu ego, e não lhe passava pela cabeça que pudesse morrer naquela batalha. Depois, deu-se conta de que os seus homens estavam já a entoar um cântico:

”Nós — somos — os fim — bria — nos! Cui — da — do — com — os fim — bria — nos! Nós — apanhámos — o rei — do — Ponto! Nós — somos — os melhores — do — Mundo!”

Fascinante!, disse César para si mesmo enquanto as hordas de Mitilene iam ficando cada vez mais próximas. Há quatro anos que Fímbria morrera, quatro anos em que aqueles homens tinham lutado sob o comando de dois Licínios, de Murena e, finalmente, Lúculo. Fímbria era um fora-da-lei. E, apesar disso, aqueles soldados permaneciam-lhe fiéis. Eles não são — e suspeito que nunca serão — os licinianos. Não faço ideia de como se sentiram sob o comando de Murena. Mas o que sei é que odeiam Lúculo! bon, mas quem é que não odeia Lúculo? Não passa de um aristocrata emproado! E não acredita que é bon, que é útil, que os seus soldados gostem dele. Está completamente equivocado.

No momento exacto, César deu ordem ao corneteiro para tocar o sinal de arremessar as lanças; e manteve a calma necessária para não se baixar repentinamente quando mais de mil lanças assobiaram sobre a sua cabeça. Essas mil lanças, arremessadas em duas séries, afectaram fortemente os homens de Mitilene. Chegara o momento de avançar! César desembainhou a espada e brandiu-a no ar, enquanto ouvia o peculiar ruído de seiscentas espadas a serem desembainhadas no mesmo momento. Depois, avançou calmamente na direcção do inimigo, tão calmamente como um senador avançando para uma multidão do Fórum, sem pensar uma única vez no que pudesse estar a acontecer nas suas costas. O gládio, uma arma pequena, dotada de dois gumes, muito afiada, não era uma arma que se pudesse fazer girar à volta da cabeça e arremessar depois contra o inimigo; César usava-a correctamente, ou seja, ao nível das virilhas, com a lâmina formando a hipotenusa do triângulo e a terrível ponta virada para cima e para o inimigo. Golpear e entranhar, entranhar e golpear. O inimigo não gostava desta forma de ataque, dirigido precisamente às preciosas partes baixas dos soldados, e a coorte dos turbulentos fimbrianos não parava de avançar, dando aos homens de Mitilene poucas hipóteses de brandir e desferir as suas espadas. O choque fê-los recuar e a pressão romana manteve-os recuados o tempo suficiente para que o pico de Lúculo se enterrasse profundamente nas hostes inimigas.

Momentos depois, porém, ganharam coragem e atiraram-se à luta de todas as maneiras possíveis: todos eles odiavam profundamente Roma e estavam decididos a morrer para que a sua amada Mitilene não voltasse a cair nas mãos dos Romanos. César depressa descobriu que muito do ardor guerreiro era uma questão de teatro. Quando um militar inimigo vinha lutar connosco, não devíamos mostrar terror nem ceder terreno; se o fizéssemos, perderíamos psicologicamente o confronto e as nossas hipóteses de morrer tornavam-se muito maiores. Atacar, atacar, atacar sempre. Fazer crer aos outros que éramos invencíveis: se fizéssemos isso, quem recuava era o inimigo. E César era perito nisto, pois possuía óptimos reflexos e uma visão extremamente apurada. E de tal modo se envolveu na luta que, durante muito tempo, combateu sem parar para pensar no que estaria a suceder por detrás dele.

Por outro lado, descobriu que, mesmo no mais ardoroso combate, havia lugar para a inteligência; ele era o comandante da coorte e, no entanto, quase se esquecera de que ela existia. Mas como havia ele de se virar para trás e ver o que se passava sem apanhar com uma espadeirada inimiga? Como chegar a um local de onde pudesse ter uma visão clara da situação? O seu braço

estava a ficar algo cansado, embora a posição baixa e o pouco peso da espada não lhe provocasse a fadiga que acometia já o inimigo, o qual dispunha de armas muito mais pesadas; de facto, os soldados inimigos brandiam as suas espadas de forma cada vez mais desvairada e desferiam os seus golpes de um modo cada vez menos entusiástico. Perto de César, via-se já uma pilha de cadáveres de inimigos; então, depois de um súbita explosão de violência para se libertar dos vivos que estavam por perto, César aproveitou a oportunidade para saltar para o alto daquele monte de cadáveres. As suas pernas, naquelas circunstâncias, podiam transformar-se num ponto fraco; mas a pilha era suficientemente vasta para que, ao chegar ao cimo, pudesse virar-se sem precisar de se preocupar com as pernas. Os seus homens desataram aos vivas quando o viram e isso deixou-o imensamente feliz. Mas havia um problema: a sua coorte encontrava-se isolada; o pico de Lúculo tinha feito o seu trabalho, mas não fora convenientemente apoiada pela retaguarda. Somos uma ilha no meio do inimigo, pensou César. Graças a Lúculo. Mas nós vamos agüentar-nos, nós não vamos morrer! Descendo da pilha de cadáveres com uma série de desenfreados saltos que confundiram o inimigo, César postou-se ao lado de Marco Sílio, dando instruções. — Estamos isolados. Manda tocar o sinal de ”formar quadrado” — disse ele ao corneteiro da coorte, que combatia ao lado do porta-estandarte. As suas instruções foram cumpridas com uma precisão e uma rapidez extraordinárias — ah, mas que belos soldados aqueles! César e Sílio deram então uma volta pelo quadrado, incitando os homens e providenciando para que os pontos mais fracos fossem reforçados. — Se eu tivesse aqui a minha mula, podia ficar a saber num instante o que se está a passar em todo o campo — disse César a Sílio. — Mas um tribuno júnior encarregado de uma simples coorte não tem direito a ter uma montada. É um erro! — Não há nada mais fácil — disse Sílio, que agora sentia o maior respeito por César. Deu um assobio e logo apareceu uma dúzia de soldados de reserva. — Vamos fazer-te uma tribuna com homens e escudos!

Continuar: parte 2 de 5