Os Favoritos de Fortuna
— Não sei... — ia a dizer…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Não sei... — ia a dizer Flaco, mas desistiu logo que os seus olhos encontraram o terrível olhar de Sila.
— Pois eu sei! Portanto, acabou-se a discussão! — O olhar de Sila passeou por todos aqueles rostos acabrunhados e calou todos os eventuais protestos. — Penso também que desagrada aos nossos deuses que haja tão poucos sacerdotes. Por isso, tenciono dar a cada um dos colégios sacerdotais — tanto os principais como os secundários — um número maior de membros: quinze, em vez dos antigos dez ou doze. Já basta desta tortura de cada homem ter de fazer dois trabalhos ao mesmo tempo! Além disso, quinze é um número de sorte, o fulcro em torno do qual o treze e o dezassete — os números aziagos — giram. A magia é importante. A magia abre caminhos para as forças divinas avançarem. Acredito que os números têm uma magia muito forte. Por isso, desenvolveremos a magia para benefício de Roma, como é nosso dever sagrado.
— Talvez — ousou Metelo Pio — pu-pu-pudéssemos apresentar um ú-ú-único candidato a Pontifex Maximus... Dessa forma, mantinha-se o processo eleitoral. — Não haverá processo eleitoral! — ripostou Sila. Seguiu-se um pesado silêncio. Nada mexia naquela estreita sala. Momentos depois, Sila reatou o seu discurso. — Há um sacerdote que não vejo com bons olhos, por uma série de importantes razões. Estou a referir-me ao nosso flamen Dialis, o jovem Caio Júlio César. Depois da morte de Lúcio Cornélio Mérula, Caio Mário e o seu corrupto adepto Cina nomearam o jovem César sacerdote especial de Júpiter. Os homens que o escolheram, só por si, já são suficientemente sinistros! Infringiram o habitual processo de selecção, o qual deveria ter envolvido todos os colégios. Uma outra razão para a minha inquietação tem a ver com os meus próprios antepassados, pois o primeiro Cornélio que foi cognominado Sila era flamen Dialis. Mas o incêndio do Grande Templo é, de longe, a mais ominosa das razões. Por tudo isto, tratei de me informar acerca deste jovem e fiquei a saber que ele se recusou terminantemente a observar os regulamentos relacionados com o seu cargo antes de assumir a toga virilis. Desde então, tanto quanto sei, o seu comportamento tem sido ortodoxo. Ora, o modo como ele se comportou antes pode perfeitamente ter sido um sintoma da sua juventude. Mas aquilo que eu penso não é importante. Que pensa Júpiter Optimus Maximus? Isso é que é importante! Porque, meus colegas sacerdotes e augures, eu verifiquei que o incêndio do templo de Júpiter se extinguiu dois dias antes dos Idos de Quinctilis. Ora o flamen Dialis nasceu nesse mesmo dia do ano. Um presságio! — Podia ser um bom presságio — disse Cota, que se preocupava com a sorte daquele flamen Dialis.
— Claro que podia — retorquiu Sila. — Mas não é a mim que me cabe dizê-lo. Na minha qualidade de Ditador, tenho liberdade para determinar o método pelo qual os nossos sacerdotes e augures são nomeados, tenho liberdade para abolir as eleições. Mas o flamen Dialis é algo de diverso. São vocês todos quem tem de decidir da sua sorte. Vocês todos! Os feciais, os pontífices, os augures, os sacerdotes dos livros sagrados, até mesmo os epulones e os salii. Cota, encarrego-te da investigação, já que tu és o sacerdote com mais tempo de serviço. Dou-te um prazo até aos Idos de Dezembro, altura em que voltaremos a reunir-nos neste templo para discutirmos a posição religiosa do actual flamen Dialis. — Olhou gravemente para Cota. — Mas nada do que aqui se passou ou venha a passar deve chegar aos ouvidos de outras pessoas e, em especial, aos ouvidos do jovem César.
Terminada a reunião, Sila seguiu imediatamente para casa, soltando risinhos excitados e esfregando as mãos de contente. É que Sila tinha imaginado a mais maravilhosa das brincadeiras! O tipo de brincadeira que daria toda a força necessária a Júpiter Optimus Maximus. Uma oferenda! Uma vítima sacrificial viva, em honra de Roma — em honra da República, de que ele era o Sumo Sacerdote! Sila fora chamado a suplantar o Rex Sacrorum, a garantir que a República superasse os reis, e todos os reis tinham sido também Rex Sacrorum. Ah, que brincadeira soberba!, exclamou para si mesmo, chorando de riso. Oferecerei ao Grande Deus uma vítima que consentirá no sacrifício, e que continuará a sacrificar-se até à sua morte! Dotarei a República e o Grande Deus do melhor segmento da vida de um homem — oferecer-lhe-ei o seu sofrimento, a sua tristeza, a sua dor. E tudo isso com o consentimento dele. Porque ele nunca se recusará a ser sacrificado.
No dia seguinte, Sila publicou as primeiras das suas leis visando a regulamentação da religião do Estado, afixando-as nos rostra e nas paredes da Regia. De início, os freqüentadores desses locais pensaram que era uma nova lista de prescritos e, por isso, os caçadores de prêmios profissionais correram a ler os textos; mas logo abalaram, manifestando a sua decepção: afinal era uma lista dos actuais membros dos vários colégios sacerdotais, principais e secundários. Quinze membros para cada colégio, divididos algo ao acaso entre patrícios e plebeus (com os plebeus em maioria) e criteriosamente distribuídos pelas Famílias Famosas. Naquela lista, só havia nomes famosos: nada de Pompeus, Túlios ou Dídios! Mas sim Júlios, Servílios, Júnios, Emílios, Cornélios, Cláudios, Sulpícios, Valérios, Domícios, Múcios, Licínios, Antónios, Mânlios, Cecílios, Terêncios. Verificava-se também que Sila se tinha atribuído um cargo de sacerdote para complementar as funções de augure que já assumia — e que ele era o único homem que dispunha dos dois cargos.
— Eu tenho de ter um pé nos dois campos — disse ele para si mesmo quando estudou o caso. — Eu sou o Ditador.
No dia seguinte, publicou uma adenda contendo um único nome. O nome do novo Pontifex Maximus. Quinto Cecílio Metelo Pio, o Bacorinho. O Sumo Gago. O povo de Roma ficou horrorizado quando viu aquele nome aterrador nos rostra e na Regia — o novo Pontifex Maximus era Metelo Pio? Como poderia isso ser? Que se passava com Sila? Teria enlouquecido?
Uma delegação foi ter com ele à casa de Aenobarbo, uma delegação receosa e aflita, constituída por sacerdotes e augures, incluindo o próprio Metelo Pio. Por razões óbvias, Metelo Pio não era o porta-voz; gaguejava tanto ultimamente que ninguém queria passar pela aflição de o ver, frente a Sila, travando uma luta terrível com a sua própria afecção. O porta-voz era Catulo. — Porquê, Lúcio Cornélio? — lamentou-se Catulo. — Não temos o direito de nos pronunciar sobre isto?
— Eu não que-que-que-quero o car-car-car-cargo! — disse o Bacorinho, gaguejando mais do que nunca, os olhos revirando-se nas órbitas, as mãos numa agitação imparável. — Não podes fazer uma coisa destas, Lúcio Cornélio! — exclamou Vátia. — É impossível! — gritou o cunhado de Sila, Mamerco. Sila deixou-os desabafar tudo antes de responder, sem sinal de emoção nem no rosto, nem nos olhos; mandava a brincadeira que congeminara que eles nunca se apercebessem de que era uma brincadeira. Era preciso que eles vissem sempre um Sila sério e grave. E ele estava de facto sério e grave! Estava mesmo! Júpiter tinha-lhe aparecido num sonho, a noite anterior, e dissera-lhe que estava encantado com aquela brincadeira maravilhosa, perfeita. E a delegação lá foi desabafando. Caiu então um silêncio feito de apreensão, um silêncio só interrompido pelo choro do Bacorinho. — Na realidade — disse Lúcio Cornélio Sila num tom informal —, o meu cargo de Ditador permite-me fazer tudo o que quiser. Mas a questão não é essa. A questão é que eu sonhei que Júpiter Optimus Maximus veio ter comigo e me pediu, muito concretamente, que nomeasse Quinto Cecílio Pontifex Maximus.
Quando acordei, fui verificar os augúrios e concluí que eram muito propícios. A caminho do Fórum, quando fui afixar os pergaminhos nos rostra e na Regia, vi quinze águias voando da esquerda para a direita ao longo do Capitólio. Nenhuma coruja piava, nenhum relâmpago atravessou os céus.
A delegação fitou Sila, mas depois baixou os olhos. Ele estava a falar a sério. E, pelos vistos, Júpiter Optimus Maximus também tinha falado a sério. — Mas um ritual não pode conter um único erro! — exclamou Vátia. — Nenhum gesto, nenhuma acção, nenhuma palavra podem estar errados! Se alguma coisa é feita ou dita erroneamente, toda a cerimónia tem de recomeçar desde o princípio! — Estou consciente disso — retorquiu afavelmente Sila.
— Lúcio Cornélio, com certeza que estás a ver o problema! — exclamou Catulo. — Pio gagueja em todas as frases que diz! Por isso, sempre que tiver de falar na sua qualidade de Pontifex Maximus, vamos ter de estar a ouvi-lo uma eternidade. — Vejo o problema da forma mais clara possível — disse Sila com a maior seriedade. — Lembra-te de que também eu terei de ouvi-lo durante uma eternidade. — Encolhendo os ombros, prosseguiu: — Que poderei eu dizer, a não ser que, provavelmente, se trata de um novo sacrifício que o Grande Deus nos pede, por nós não termos cumprido correctamente os nossos deveres perante os deuses? — Virou-se para Metelo Pio e envolveu nas suas mãos uma das mãos nervosas e inquietas do seu antigo legado. — É claro que podes recusar, caro Bacorinho. Não há nada nas nossas leis religiosas que te impeça de recusar.
E Bacorinho usou a mão que tinha livre para pegar numa dobra da toga e limpar os olhos e o nariz. Respirou fundo e disse:
— Eu aceito o cargo, Lúcio Cornélio, se é isso que o Grande Deus quer de mi-mi-mim. — Ah, estão a ver?! — disse Sila, acariciando a mão do outro. — Quase não gaguejaste! Pratica, querido Bacorinho! Pratica!
Aquele era um momento extremamente perigoso: Sila quase não conseguia reprimir uma gargalhada. Por isso, despediu-se rapidamente da delegação e correu para o seu estúdio, onde se trancou. Os seus joelhos cederam; caiu em cima de um divã, envolveu o corpo com os braços e uivou de riso, enquanto lágrimas de alegria lhe corriam pela face. Não conseguindo respirar facilmente, rolou para o chão e aí ficou, guinchando, arquejando, as pernas pontapeando o ar, com tantas dores de tanto rir que chegou a pensar que ainda morria. Mas continuou a rir, seguro no conhecimento de que os augúrios tinham de facto sido propícios. E durante o resto do dia, sempre que a expressão de nobre sacrifício do Bacorinho lhe vinha à lembrança, dobrava-se sobre si mesmo, acometido de novo paroxismo de riso; e com a mesma violência se ria sempre que se lembrava das expressões de Catulo, de Vátia, do seu cunhado. Que maravilha, que maravilha! Esta brincadeira jupiteriana era a justiça na sua máxima perfeição. Toda a gente tinha recebido exactamente o que merecia. Incluindo Lúcio Cornélio Sila. Nos Idos de Dezembro, cerca de sessenta homens — membros de todos os colégios sacerdotais, tanto os principais como os secundários — comprimiam-se no reduzido espaço do templo de Júpiter Ferétrio.
— Já prestámos as devidas homenagens ao deus — disse Sila. — Creio que ele não se importará se nos reunirmos ao ar livre.
Sila sentou-se no muro baixo que separava o velho Asilo dos terrenos que se elevavam, de ambos os lados, na direcção dos montes gémeos do Capitólio e do Arx, e, com um gesto, indicou aos outros que deviam sentar-se na relva.
Aquela era uma das características mais estranhas da personalidade de Sila, pensou o desesperadamente infeliz Bacorinho: era capaz de dar a maior dignidade a coisas sem grande importância e, ao mesmo tempo, como sucedia agora, não tinha qualquer pejo em reduzir situações de uma extrema importância à mais absoluta informalidade. Para os visitantes e turistas do monte Capitólio — para os homens e mulheres que chegavam ofegantes ao alto dos degraus do Asilo ou dos degraus Gemonianos, tomando um atalho entre o Fórum Romano e o Campo de Marte —, aquele conjunto faria por certo lembrar os filósofos que passeavam com os seus discípulos, ou um velho pai do campo com todos os seus irmãos, sobrinhos, filhos e primos. — Que tens a dizer-nos, Caio Aurélio? — perguntou Sila a Cota, que estava sentado a meio da primeira fila.
— Em primeiro lugar, Lúcio Cornélio, que esta foi, para mim, uma tarefa muito difícil — respondeu Cota. — Sabes com certeza que o jovem César, o flamen Dialis, é meu sobrinho... — Também é meu sobrinho, ainda que por casamento e não por sangue — retorquiu calmamente o Ditador.
— Então, gostaria de te pôr uma questão. Tencionas proscrever os Césares? Sem que o desejasse, Sila deu consigo a pensar em Aurélia; com ênfase, abanou a cabeça.
— Não, Cota, não tenciono fazer isso. Os Césares que foram meus cunhados há tantos anos atrás estão ambos mortos. Na realidade, nunca cometeram crimes contra o Estado, apesar de serem homens de Mário. Havia razões para isso. Mário ajudou financeiramente a família e eles sentiam-se ligados a ele pelos laços da gratidão. A viúva do velho Caio Mário é tia do rapaz e a irmã dela foi a minha primeira mulher.
— Mas proscreveste as famílias de Mário e de Cina.
— Sim, isso é verdade.
— Obrigado — disse Cota, com ar de quem se sentia aliviado. Pigarreou e prosseguiu: — O jovem César tinha apenas treze anos quando foi solene e devidamente consagrado como sacerdote de Júpiter Optimus Maximus. Preenchia todos os critérios, excepto um: era um patrício com os pais ainda vivos, mas não se encontrava casado com uma mulher patrícia com ambos os pais vivos. No entanto, Mário arranjou-lhe uma noiva, com a qual o jovem se casou antes das cerimónias de tomada de posse e consagração. A noiva era a filha mais nova de Cina. — Que idade tinha ela? — perguntou Sila, fazendo um sinal para o criado, que imediatamente lhe trouxe um chapéu de palha de abas largas. O chapéu, depois de convenientemente ajustado à cabeça, dava-lhe um ar dissimulado, realçando a manha do olhar: enfim, o aspecto de um verdadeiro patriarca da província.
— Tinha sete anos.
— Estou a ver. Um casamento de crianças, sem tirar nem pôr. Que nojo! Cina estava faminto de poder, não era?
— Sem sombra de dúvida — retorquiu Cota, pouco à vontade. — Seja como for, a verdade é que o rapaz não recebeu de braços abertos o seu cargo de flâmine. Insistiu que, enquanto não vestisse a toga de homem adulto, deveria dedicar-se às práticas que são comuns entre a juventude nobre romana. Por isso, não deixou de ir fazer os seus exercícios militares no Campo de Marte. Esgrimiu, lançou setas, arremessou lanças — e revelou muito talento em todas essas práticas. Segundo me disseram, costumava fazer algo de notável: cavalgava um cavalo muito veloz, no máximo do seu galope, com as mãos atrás das costas — e sem sela! Os velhos instrutores do Campo de Marte lembram-se muito bem dele e consideram que, dadas as suas naturais aptidões para o exército, é uma pena o rapaz ter sido nomeado flâmine. Quanto a outros pontos do seu comportamento, a minha fonte é a mãe dele — a minha meia-irmã Aurélia.
Segundo ela, o jovem César não aderia, nessa altura, ao regime alimentar estipulado, aparava as unhas com uma faca de ferro, mandava que lhe cortassem o cabelo com uma navalha de ferro e usava nós e fivelas no vestuário.
— Que aconteceu depois de ter vestido a toga virilis?
— Mudou radicalmente — disse Cota, expressando uma imensa surpresa. — A rebelião, se é que, de facto, foi rebelião, cessou por completo. Ele sempre cumprira os seus deveres religiosos com o maior escrúpulo. Porém, a partir desse momento, passou a usar permanentemente o apex e a laena e obedeceu a todas as proibições. A mãe diz que ele não passou a gostar mais do seu cargo, mas que acabou por aceitá-lo. — Estou a ver — disse Sila, batendo ligeiramente com os calcanhares no muro. — bom, parece-me muito satisfatório o teu inquérito, Cota. A que conclusão chegaste acerca do jovem César e do seu cargo de flâmine?
Cota franziu o sobrolho.
— Há um problema. Se pudéssemos dispor agora de todos os livros proféticos que possuíamos, então o caso seria sem dúvida esclarecido. Mas não dispomos desses livros. Por isso, achámos que era impossível formular uma opinião conclusiva. Não há dúvida de que o rapaz é, legalmente, flamen Dialis, mas, do ponto de vista religioso, já não estamos tão certos. — Porquê?
— Tudo depende do estatuto cívico da mulher de César. Cinila, como lhe chamam. Agora com doze anos. De uma coisa estamos absolutamente certos — o flamen Dialis é uma entidade dual que envolve tanto o marido como a mulher. Ela tem o título religioso de flaminica Dialis, ela tem de respeitar os mesmos tabus, ela tem de cumprir os seus próprios deveres religiosos. Se não preencher os critérios religiosos, então todo o flaminato ficará posto em causa. E nós chegámos à conclusão de que ela não preenche os critérios religiosos, Lúcio Cornélio. — A sério? Como chegaram a essa conclusão, Cota? — Sila batia com mais força na parede, enquanto pensava noutra coisa. — O casamento foi consumado? — Não, não foi. Cinila tem vivido com a minha irmã e a família da minha irmã desde que casou com o jovem César. E a minha irmã é uma nobre romana da maior decência — disse Cota.
Um breve sorriso aflorou aos lábios de Sila.
— Eu sei que ela é decente — disse.
— Sim, bom... — Cota mexeu-se, desconfortável, lembrando-se das discussões que houvera em sua casa a propósito da natureza da amizade entre Aurélia e Sila; por outro lado, estava consciente de que teria forçosamente de criticar uma das novas leis de prescrição de Sila. Mas mergulhou corajosamente no assunto, decidido a não deixar nada de lado. — Pensamos que César é o flamen Dialis, mas que a sua mulher não é a flaminica. Pelo menos, foi assim que interpretámos as tuas leis da proscrição, as quais, no caso dos filhos de menor idade dos prescritos, não dizem com clareza se esses filhos estão sujeitos à lex Minicia. O filho de Cina era maior quando o seu pai foi prescrito, logo a sua cidadania não estava em causa. Mas que dizer do estatuto de cidadão dos filhos de menor idade, e especialmente das raparigas? A tua lei implica a aplicação da lex Minicia, ou — como acontece quando um tribunal decide exilar alguém — será que a perda de cidadania por parte do pai o afecta apenas a ele? Era sobre isto que tínhamos de decidir. E, dada a severidade das tuas leis de proscrição no que toca aos direitos dos filhos e de outros herdeiros, chegámos à conclusão de que a lex Minicia de liberis deve ser aplicada. — Meu caro Bacorinho, que tens tu a dizer? — perguntou, muito sério, Sila, ignorando inteiramente as implicações daquela obscuridade legislativa. — Demora o tempo que for preciso! Eu hoje não tenho mais nada que fazer.
Metelo Pio corou.
— Como diz Caio Cota, a lei relativa ao estatuto de cidadão de uma criança deve ser aplicada. Quando um dos pais não é cidadão romano, então a criança não pode ser cidadã romana. Por isso, a mulher de César não é uma cidadã romana e, por isso, segundo as leis religiosas, não poderá ser flaminica Dialis. — Brilhante! Brilhante! Disseste isso tudo sem te engasgares uma única vez, Bacorinho! — Os calcanhares de Sila batiam cada vez mais forte no muro. — Nesse caso, a culpa é toda minha, não é? Deixei uma lei aberta a interpretações em vez de definir todos os pormenores, como deveria ter feito. É isso, não é? Cota respirou fundo.
— É — disse ele, heroicamente.
— É de facto verdade — disse Vátia, juntando a sua pequena acha para a discussão. — No entanto, estamos perfeitamente conscientes de que a nossa interpretação pode estar errada. Por isso, gostaríamos de saber qual a tua orientação.
— Muito bem — disse Sila, descendo do muro. — Parece-me que a melhor maneira de resolver este dilema é permitir que César case com uma nova flaminica. Embora o seu casamento tenha sido por certo confarreatio, do ponto de vista civil e religioso o divórcio é perfeitamente possível. Penso, por isso, que César deve divorciar-se da filha de Cina, pois esta não pode ser aceite pelo Grande Deus como sua flaminica.
— Uma anulação, por certo! — disse Cota.
— Um divórcio — retorquiu firmemente Sila. — Ainda que toda a gente possa jurar que o casamento não foi consumado — e, aliás, até podíamos mandar as Vestais examinar o hímen da jovem —, o problema é que, neste caso, estamos a lidar com Júpiter Optimus Maximus. Disseram-me vocês que as minhas leis estão abertas à interpretação. Na realidade, vocês chegaram mesmo ao ponto de as interpretar — sem me consultarem antes de tomar uma decisão. É aí que reside o vosso erro. Deviam ter-me consultado. Mas como não o fizeram, agora têm de suportar as conseqüências. Um divórcio diffarreatio. Cota estremeceu. — Diffarreatio! Isso é terrível! — A tua dor faz-me chorar, Cota. — Nesse caso, informarei o rapaz — disse Cota, com a boca seca. Sila estendeu a mão.
— Não! — disse ele, bruscamente. — Não digam nada ao rapaz! Nada de nada! Digam-lhe apenas que vá a minha casa amanhã, antes do jantar. Prefiro ser eu próprio a dizer-lho. Entendido?
— Tens de ir falar com Sila, sobrinho — disse Cota a César e Aurélia, pouco tempo depois.
Tanto César como a mãe ficaram com um ar apreensivo, mas despediram-se de Cota sem um comentário. Mal o irmão saiu, Aurélia acompanhou o filho ao seu gabinete. — Senta-te, mãe, por favor — disse-lhe ele com ternura. Ela sentou-se, mas na ponta da cadeira.
— Não estou a gostar disto — disse ela. — Por que razão é que ele te quererá ver em privado?
— Ouviste o que disse o tio Caio. Sila está a reformar as ordens religiosas e quer falar comigo na minha qualidade de flamen Dialis.
— Não acredito nisso — retorquiu a obstinada Aurélia.
Preocupado, César descansou o queixo na mão direita e examinou atentamente a mãe. César não estava preocupado consigo mesmo, pois sabia que estava preparado para enfrentar tudo o que pudesse suceder-lhe. Não, era com ela que ele estava preocupado, com ela e com todas as mulheres da família.
A tragédia avançara inexoravelmente desde o momento em que o jovem Mário convocara a família para discutir a sua eventual aceitação do cargo de cônsul. Depois de um primeiro período, dominado por uma alegria e uma confiança que eram absolutamente artificiais, veio aquele Inverno terrível e, com ele, a lenta e progressiva queda do jovem Mário, até que se abriu sob os seus pés o abismo sem fundo que fora a derrota de Sacriporto. Ninguém o vira desde que se tornara cônsul, incluindo a mãe e a mulher. Uma amante tinha surgido na sua vida, uma bela romana de uma família de cavaleiros, Précia de seu nome, a qual monopolizou todos os momentos livres que o jovem Mário conseguia encontrar. Suficientemente rica para dispor de independência financeira, Précia, quando seduzira o jovem Mário, tinha já 37 anos e não revelava a mínima inclinação para o casamento. Havia casado aos 18 anos, mas apenas para obedecer aos ditames do pai, que morrera pouco tempo depois; Précia envolvera-se depois numa série de casos amorosos e o marido acabara por divorciar-se. O que lhe convinha perfeitamente, pois depressa começou a fazer o tipo de vida que mais lhe agradava: ser dona do seu próprio estabelecimento e amante de alguns interessantes nobres, os quais levavam amigos, problemas e intrigas políticas para o divã e para a cama dela, permitindo-lhe assim combinar a política com a paixão — uma combinação irresistível para Précia, tendo em conta as suas inclinações. O jovem Mário fora o maior peixe que Précia apanhara na sua rede. Mas aquela mulher de 37 anos acabara por gostar muito dele. Divertiam-na as poses juvenis, fascinava-a o poder inerente ao nome Caio Mário, e agradava-lhe muito o facto de o jovem cônsul sénior a preferir à mãe, Júlia, e à mulher, Múcia. Por isso, abrira as portas da sua casa — uma casa enorme e decorada com muito gosto — a todos os amigos do jovem Mário, e a sua cama a um pequeno e selecto grupo que constituía o círculo mais próximo do cônsul sénior. Logo que Carbão (que ela odiava) partiu para Arimino, Précia tornou-se o principal conselheiro do jovem Mário, e imaginava mesmo que era ela, e não o jovem, quem de facto governava Roma. Por isso, quando chegou a notícia de que Sila ia deixar Teano Sidicino e o jovem Mário anunciou que era tempo de se ir juntar às suas tropas em Ad Pictas, Précia gracejara com a ideia de se tornar uma cortesã de acampamento guerreiro, acompanhando o jovem cônsul nas manobras da guerra. Mas o gracejo não deu qualquer fruto; o jovem Mário encontrou uma solução típica para o problema em que ela se tinha transformado: deixou Roma já de noite sem lhe dizer para onde ia. Mas Précia não chorou uma lágrima. Pelo contrário, tratou de procurar outra diversão.
Por tudo isto, nem a mãe, nem a mulher de Mário tinham tido oportunidade de se despedir dele, de lhe desejar a sorte de que ele por certo precisaria. Quando deram por isso, já ele tinha partido. E nunca mais voltaria. A notícia de Sacriporto só se espalhara por Roma depois de Bruto Damasipo (um homem demasiado ligado a Carbão para poder gostar de Précia) ter lançado o seu banho de sangue. Entre as suas vítimas, contava-se Quinto Múcio Cévola Pontifex Maximus, o sogro do jovem Mário e um bom amigo de Júlia. — Foi o meu filho que mandou fazer isto — disse Júlia a Aurélia quando esta a procurou na esperança de que pudesse fazer alguma coisa. — Ora, Júlia, que disparate! — retorquiu Aurélia, afável e terna. — Foi Bruto Damasipo, mais ninguém. — Eu vi a carta que o meu filho mandou de Sacriporto — disse Júlia, recuperando por um instante do choro e dos soluços. — Ele não conseguiu aceitar a derrota sem ter de ordenar esta miserável retaliação. E agora, como posso esperar que a minha nora volte a falar comigo?
César tinha-se escondido num recanto da sala e observava, com extrema concentração, os rostos das duas mulheres. Como podia o filho da tia Júlia ter feito uma coisa daquelas à mãe? Em particular, depois de o seu pai, já senil e louco, ter feito o que fez? Júlia estava presa numa teia de tristeza e dor, tão presa como uma mosca num bocado de âmbar. Mas a sua beleza, naquela postura estática em que ela estava, era ainda maior, e a dor parecia não se reflectir nos seus traços, como se tivesse refluído toda para o seu coração. Nem nos seus olhos se reflectia esse imenso sofrimento.
Nesse instante entrou Múcia; Júlia encolheu-se, tratou de evitar o olhar da nora. Aurélia tinha-se sentado muito direita; os traços do seu rosto tinham ganho uma qualidade acerba, quase pétrea.
— Múcia Tércia, censuras Júlia pelo assassínio do teu pai? — perguntou. — É claro que não — retorquiu a mulher do jovem Mário, sentando-se perto de Júlia o suficiente para lhe poder envolver as mãos. — Júlia, por favor, olha para mim! — Não posso!
— Mas tens de olhar para mim! Eu não tenciono mudar-me para casa de meu pai e viver com a minha madrasta. Nem quero ir para casa de minha mãe, onde teria de viver com os horrendos filhos dela. Quero ficar aqui, com a minha querida sogra. E as coisas acabaram por se compor. Júlia e Múcia Tércia conseguiram ter alguma paz para continuar a fazer a sua vida normal, ainda que não recebessem notícias do jovem Mário, então cercado em Preneste, e que todas as notícias vindas dos vários campos de batalha fossem favoráveis a Sila. Se fosse filho de Aurélia, pensou César, o jovem Mário não se sentiria muito confortado por mandar notícias para a mãe, enquanto os dias em Preneste se arrastavam interminavelmente. Aurélia não era tão terna, tão carinhosa, tão clemente como Júlia — mas se Aurélia o fosse, concluiu César com um sorriso, então ele era muito capaz de se parecer com o jovem Mário! César possuía a capacidade de desapego da mãe. E também a sua dureza. Mas as más notícias foram-se acumulando: Carbão fugira pela calada da noite; Sila obrigara os Samnitas a recuar; Pompeu e Crasso tinham derrotado os homens que Carbão abandonara em Clúsio; o Bacorinho e Varrão Lúculo controlavam a Gália Italiana; Sila entrara em Roma apenas por algumas horas a fim de nomear um governo provisório — e deixara Torquato com a cavalaria trácia, a fim de garantir o funcionamento desse governo provisório. Mas Sila não fora visitar Aurélia, facto que fascinou o filho dela o suficiente para tentar levá-la a falar sobre o assunto. Do inesperado encontro que tivera com Sila em Teano Sidicino, Aurélia quase nada dissera; e agora ali estava ela, sempre calma, mas debatendo-se com o rompimento de uma tradição.
— Ele devia ter vindo visitar-te! — disse-lhe nessa altura César. — Ele nunca mais me vai visitar — retorquiu Aurélia.
— Porque não?
— Essas visitas pertencem a outros tempos, a tempos diferentes destes. — Pertecem a um tempo em que ele era suficientemente bonito para despertar paixões? — atirou-lhe o filho, deixando que o seu génio, rigidamente controlado, viesse de súbito ao de cima.
Mas ela reagiu glacialmente, lançando-lhe um olhar esmagador.
— Além de estúpido, ainda és grosseiro! Deixa-me! — disse ela. Ele deixou-a. E não mais voltou a tocar no assunto. O que Sila significava para a mãe, era assunto só dela. Entretanto, souberam da torre que o jovem Mário construíra e do seu miserável fim, bem como das outras tentativas que fez para vencer o cerco de Ofela. Até que, no último dia de Outubro, chegou a terrível notícia de que noventa mil samnitas se encontravam no acampamento de Pompeu Estrabão, à saída da Porta Colina.
Os dois dias que se seguiram foram os piores dias da vida de César. Sufocando debaixo das suas vestes sacerdotais, impossibilitado de tocar numa espada ou de assistir à morte de quem quer que fosse, trancou-se no seu gabinete e começou a trabalhar num novo poema épico — em latim, não em grego —, optando pelo hexâmetro dactílico para tornar a sua tarefa mais difícil. O ruído da batalha chegava de forma nítida aos seus ouvidos, mas ele fazia o possível por se abstrair dele, entregando-se à construção de desvairados espondeus e expressões vazias, ansiando por estar no campo de batalha, admitindo para si mesmo que tanto lhe faria lutar por um lado como lutar pelo outro, o que lhe interessava era combater... E depois de os ruídos da batalha se terem esbatido durante a noite, saiu disparado do seu gabinete e foi encontrar a mãe no escritório, debruçada sobre as suas contas. Parou no vão da porta, convulsionado por uma raiva imensa.
— Como posso eu escrever aquilo que não faço? — perguntou. — O tema da grande literatura não é a guerra, não são os guerreiros? Será que Homero perdeu o seu tempo com histórias ocas e floreados de estilo? Será que Tucídides considerou a arte da apicultura um assunto adequado à sua pena?
Aurélia sabia muito bem como acalmá-lo. Por isso, respondeu-lhe num tom rigorosamente neutral:
— Provavelmente não. — E logo regressou ao seu trabalho. E essa noite marcou o fim da paz.. O filho de Júlia estava morto — todos estavam mortos e Roma pertencia a Sila. O qual não vinha visitá-los nem mandava qualquer mensagem.
Toda a gente ficou rapidamente a saber que o Senado e a Assembleia das Centúrias o tinham nomeado Ditador. E toda a gente falava do caso a todo o momento. Mas foi Lúcio Decúmio quem informou César e o jovem Caio Macio, que vivia no outro apartamento térreo, acerca do mistério dos cavaleiros desaparecidos.
— Todos os homens que fizeram riqueza sob os governos de Mário, Cina ou Carbão, desapareceram. E não foi por acidente. Sorte para ti que o teu pai tenha morrido há alguns anos, Borbulha — disse Lúcio Decúmio para Caio Macio, que suportava a desagradável alcunha de Pústula — Borbulha — desde que começara a andar. — E tu também tens sorte pelo mesmo motivo, meu jovem Pavão — acrescentou, para César.
— Que queres dizer com isso? — perguntou Macio, intrigado. — Quero dizer que andam para aí uns tipos, todos com um ar muito discreto, a caçar cavaleiros ricos — disse o zelador das encruzilhadas. — A maior parte desses tipos são homens libertos, mas não têm nada a ver com esses gregos linguarados que andam para aí e que por acaso até andam metidos uns com os outros. Não, a esses tipos chamam-lhes os não sei quê de Lúcio Cornélio, mas eu e os meus confrades chamamos-lhes Silanos. São os Silanos porque pertencem a Sila. Reparem bem no que lhes digo: essa gente não pode trazer nada de bom! E o que eu prevejo é que ainda lhes falta caçar um ror de cavaleiros ricos. — Mas Sila não pode fazer uma coisa dessas! — disse Macio, com os lábios comprimidos.
— Sila pode fazer tudo o que lhe apetecer — disse César. — Ele tornou-se Ditador. É melhor do que ser rei. Os seus edictos têm força de lei e, além disso, não está preso à lex Caecilia Didia, que prevê um prazo de dezassete dias entre a promulgação e a ratificação. Nem sequer precisa de discutir as suas leis no Senado ou nas Assembleias. E não tem de responder pelas suas acções presentes, nem passadas. — Fez uma pausa e, com um ar pensativo, acrescentou: — No entanto, creio que Roma estaria condenada a morrer se por acaso não fosse dirigida agora com mão de ferro. Por isso, espero que tudo lhe corra bem. E espero que tenha a visão e a coragem para fazer tudo o que é preciso fazer.
— Aquele homem tem desplante suficiente para fazer tudo o que muito bem entender! — disse Lúcio Decúmio.
Vivendo no centro do bairro de Subura — a zona mais pobre e mais poliglota de Roma —, qualquer deles pôde verificar que as proscrições de Sila não tiveram na vida do bairro o mesmo efeito que tiveram em zonas como as Carinas, o Palatino, o alto Quirinal e o Viminal. Embora houvesse em Subura bastantes cavaleiros da Primeira Classe vivendo no meio de gente muito pobre, poucos eram os que tinham um estatuto acima do tribunus aerarius ou os que tinham mantido contactos políticos agora considerados perigosos. Quando foi publicada a primeira lista e se verificou que o nome do jovem Mário era o segundo, Júlia e Múcia Tércia foram ter com Aurélia; esta não deixou de ficar surpreendida porque normalmente era ela quem as visitava. Surpreenderam-na ainda mais as notícias sobre a lista, as quais não tinham ainda chegado a um local tão distante como era Subura; Sila não tinha mantido Júlia na expectativa quanto ao seu destino.
— O pretor urbano, o jovem Dolabela, trouxe-me a notícia — disse Júlia, estremecendo ao pronunciar aquele nome. — Que homem horrendo! Todos os bens do meu pobre filho foram confiscados. Não há nada que se possa salvar.
— A tua casa também foi confiscada? — perguntou Aurélia, lívida. — Tudo. Aquele homem tinha uma lista de tudo. Todos os interesses mineiros na Hispânia, as terras da Etrúria, a nossa villa em Cumas, a casa de Roma, outras terras que Caio Mário comprara na Lucânia e na Umbria, os latifúndios, de trigo junto ao rio Brágada, na Província de África, as tinturarias de lã em Hierápole, as fábricas de vidro de Sídon. Nem a quinta de Arpino escapou. Agora pertence tudo a Roma e, segundo me informaram, todos esses bens serão postos em hasta pública.
— Oh, Júlia!
Mas Júlia, sendo a pessoa que era, conseguia ainda ter um sorriso, um sorriso que por momentos lhe iluminou os olhos.
— Ah, mas nem tudo são más notícias! Sila enviou-me uma carta que me autoriza a retirar cem talentos de prata do conjunto dos bens. Enfim, foi o cálculo que ele fez relativamente ao meu eventual dote, eventual porque Caio Mário nunca se preocupou em dar-me um dote. Porque, de facto, e os deuses bem o sabem, quando me casei com ele não tinha uma moeda! Mas terei direito aos cem talentos porque, segundo Sila, sou irmã de Julila. Por respeito por Julila, que foi mulher dele, Sila não quis ver-me na total penúria. Para dizer a verdade, a carta até tinha algum encanto.
— Parece ser muito dinheiro. Mas, depois de tudo o que tiveste, não é nada — disse Aurélia, muito tensa.
— Chega para comprar uma boa casa na Rua Longa ou na Alta Semita e para me proporcionar um rendimento razoável. Claro que os escravos irão com os bens, mas Sila autorizou-me a ficar com Estrofantes. Ah, isso deixou-me tão contente! O pobre velhote já sofreu demais. — Parou por um momento, os olhos cheios de lágrimas, não por ela mas por Estrofantes. — Seja como for — prosseguiu —, creio quevou poder levar uma vida confortável. O mesmo não podem dizer as mães ou esposas de outros homens que vêm na lista. Essas não ficarão com nada.
— E tu, Múcia Tércia? — perguntou César. — És considerada como pertencendo aos Múcios ou aos Mários? — César não notava nela qualquer sinal de tristeza pela morte do marido, nem sequer um pouco de autocomiseração face à sua situação de viúva. Sabia-se que a tia Júlia sofria, e muito, ainda que ela nunca o mostrasse. Mas Múcia Tércia? — Fui considerada como pertencendo aos Mários — disse ela. — Por isso perdi o meu dote. Os bens do meu pai sofreram uma forte redução nos últimos tempos. Aliás, no testamento dele, não havia nada para mim. E ainda que houvesse, a minha madrasta ter-se-ia encarregado de me afastar da posse de tudo. Quanto à minha mãe, está bem — Metelo Nepo é apoiante de Sila. Mas os dois filhos dela estão à minha frente, como seria de esperar. Eu e Júlia discutimos o problema quando vínhamos para aqui. Eu ficarei com ela. Sila proibiu-me de casar novamente, já que eu era mulher de um Mário. Não que eu quisesse voltar a casar. Não tinha a mínima intenção de o fazer.
— É um pesadelo! — exclamou Aurélia. Olhou para as suas mãos, sujas de tinta e um pouco inchadas nas articulações. Depois, acrescentou: — Provavelmente, também nós acabamos por ir parar à lista. O meu marido sempre apoiou Caio Mário. E apoiava Cina quando morreu. — Mas esta ínsula está em teu nome, Mater. Como todos os Cotas apoiam Sila, a ínsula deverá continuar na tua posse — disse César. — Quanto a mim, pode ser que perca as minhas terras. Mas pelo menos, enquanto flamen Dialis, terei o meu salário pago pelo Estado e uma casa do Estado no Fórum. Suponho que Cinila perderá o seu dote. — Julgo que os parentes de Cina perderão todos os seus bens — disse Júlia, com um suspiro. — Sila pretende acabar com todo o tipo de oposição. — E que vai ser de Ânia? E da filha mais velha, Cornélia Cina? — perguntou Aurélia. — Eu nunca gostei de Ânia. Foi fraca mãe para a Cinila e voltou a casar-se, com uma pressa indecente, após a morte de Cina. Por isso, atrevo-me a dizer que sobreviverá. — Tens toda a razão. Está casada com Púpio Pisão Frugi há tempo suficiente para ser considerada como membro da família Púpia — disse Júlia. — Eu soube muitas coisas através de Dolabela, ele estava ansioso por me dizer quem é que ia ser castigado! Cornélia Cina, coitada, é considerada como pertencendo aos Cneus Aenobarbos. Logo que Sila chegou, apossou-se da casa dela; e Ânia, por seu lado, não a quis receber. Creio que está a viver com uma velha tia, uma Vestal, na Via Recta.
— Ah, ainda bem que as minhas filhas se casaram com dois homens que pouco mais são que uns zés-ninguéns! — exclamou Aurélia.
— Eu também tenho as minhas notícias — disse César, para desviar as atenções das mulheres dos seus próprios problemas.
— Que notícias? — perguntou Múcia Tércia.
— Lépido deve ter tido uma premonição do que ia acontecer. Ontem, divorciou-se da mulher. Da filha de Saturnino, Apuleia.
— Ah, que coisa terrível! — exclamou Júlia. — Posso aceitar o facto de que aqueles que lutaram contra Sila devem ser castigados. Mas por que motivo hão-de os seus filhos e netos sofrer também? Toda essa história com Saturnino já se passou há tanto tempo! Sila não daria a mínima importância a Saturnino. Sendo assim, por que motivo fez Lépido uma coisa dessas à mulher? Ela deu-lhe três filhos esplêndidos, todos rapazes! — Não lhe dará mais filhos a ele, nem a mais ninguém — disse César. — Apuleia meteu-se num banho quente e abriu as veias. E agora Lépido anda por aí chorando e soluçando, roído pela dor. Vejam só!
— Ah, mas ele sempre foi assim — disse Aurélia com desprezo. — Não nego que deve haver um lugar no mundo para os homens insignificantes, mas o problema de Marco Emílio Lépido é que ele acredita sinceramente que tem alguma substância dentro de si. — Pobre Lépido! — suspirou Júlia.
— Pobre Apuleia — disse Múcia Tércia, num tom seco e duro. Agora, porém, depois do que Cota lhes dissera, parecia que os Césares não seriam efectivamente prescritos. Os seiscentos iugera de Bovilas encontravam-se a salvo, César teria um censo senatorial. Não que ele precisasse de se preocupar com o censo senatorial!, pensou ele, com um ar de superioridade, enquanto via a neve caindo como se fosse uma cascata de pó. O flamen Dialis, de facto, era automaticamente membro do Senado.
Enquanto ele contemplava o súbito aparecimento do Inverno, a mãe observava-o. Uma pessoa notável, pensava Aurélia — e isso deve-se a mim, unicamente a mim, a mais ninguém. Mas apesar de ter muitas e excelentes qualidades, a verdade é que está longe de ser perfeito. Não é tão compreensivo, ou indulgente, ou terno, como o pai, ainda que tenha coisas do pai. Do pai, mas também minhas. É um homem tão brilhante sob tantos pontos de vista! Se há alguma coisa estragada cá em casa, basta chamá-lo que ele arranja tudo — canos, telhas, estuque, persianas, escoadouros, pinturas, madeira. E as melhorias que ele introduziu nos travões e nas gruas do nosso velho inventor! Até consegue escrever em hebreu e médio! E fala uma dúzia de línguas, porque conviveu com muitos estrangeiros nesta ínsula. Ainda rapaz, já era uma lenda no Campo de Marte, pelo menos é o que diz Lúcio Decúmio. Nada, monta, corre, como o melhor dos atletas. Os poemas e as peças que escreve — tão bons como os de Flauto e Énio, embora eu seja sua mãe e não devesse dizer uma coisa dessas. E domina a retórica como ninguém, segundo Marco António Gnifão. Como é que Gnifão disse? Ah, sim, disse que o meu filho consegue fazer chorar as pedras e irritar as montanhas. E percebe de leis. E consegue ler tudo num ápice, mesmo que a caligrafia seja horrenda! Não há mais ninguém em Roma que consiga uma coisa dessas: nem mesmo aquele prodígio, o Marco Túlio Cícero. Quanto a mulheres — ah, todas atrás dele! Em todo o bairro... não o largam, é uma loucura! Ele pensa que eu não sei, claro. Ele pensa que eu o julgo casto, que eu o imagino à espera da sua querida esposa. Pois bem, antes assim. Os homens são estranhas criaturas quando chegam ao momento de se tornar homens. Mas o meu filho não é perfeito. Apenas soberbamente dotado. Tem um temperamento terrível, mas esconde-o bem. Nalguns aspectos está demasiado virado para si mesmo e nem sempre é sensível aos sentimentos e às necessidades dos outros. Quanto à sua obsessão pela limpeza, bom, agrada-me que ele seja assim, tão niquento, tão picuinhas, mas também não sei onde é que ele foi buscar isso, a mim não foi com certeza. Recusa-se a ir para a cama com uma mulher se ela não vier directamente do banho e imagino que a inspecciona da cabeça aos pés. No bairro de Subura! No entanto, as mulheres são loucas por ele, e por isso essa mania até foi boa para o bairro: desde que ele fez 14 anos, que as mulheres deste bairro andam muito mais limpas! Catorze anos! Mas que precoce! Sempre desejei que o meu marido conhecesse outras mulheres durante os longos anos em que ele esteve fora, mas ele dizia-me sempre que não, que não queria outras mulheres, que preferia esperar por mim. Se havia coisa que eu não gostasse nele, era essa. Porque, para mim, aquela atitude culpabilizava-me. Imagine-se: guardava-se para mim e, afinal, só muito raramente estava comigo. O meu filho nunca fará isso à sua mulher. Espero que ela aprecie a sorte que tem. Sila. Sila mandou-o chamar. Quem me dera saber porquê. Quem me dera.