Os Favoritos de Fortuna

Colleen McCullough · Capítulo 12 de 15 · parte 1/4

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Os Favoritos de Fortuna

— Marco Júnio! Tu ordenaste que os…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— Marco Júnio! Tu ordenaste que os piratas fossem crucificados! — Não ordenei nada!

Pompeu (Bitínico) estava perfeitamente atrofiado.

— Cacat!

— Qual é o problema? — repetiu Junco, alarmado.

— César chegou a Pérgamo sete dias depois de ter falado contigo. E disse-me que tu o tinhas autorizado a crucificar os homens. Admito que fiquei um bocado surpreendido, mas nunca me passou pela cabeça que ele estivesse a mentir! Marco Júnio, ele crucificou todos os piratas! — O quê?! Ele não se atrevia a fazer uma coisa dessas!

— Atreveu-se, sim, Marco Júnio! E com tal segurança, com tal descontracção...! Até me dava ordens, como se eu fosse seu criado! Eu disse-lhe que estava surpreendido com a tua autorização, mas ele reagiu com a maior calma e sem o mínimo sinal de desconforto ou culpa! com toda a franqueza, Marco Júnio, eu acreditei em tudo o que ele disse! E tu também não mandaste nenhuma mensagem — acrescentou ele, engenhosamente. Júnio estava mais que furioso; chorava até.

— Aqueles homens valiam dois milhões de sestércios! Dois milhões, Pompeu! E ele mandou mil talentos para o Tesouro sem

sequer me informar disso antecipadamente, sem sequer me oferecer uma parte dos despojos! Agora,vou ter de pedir a minha parte ao Tesouro e tu sabes muito bem como é o Tesouro! Já terei muita sorte se a decisão do Tesouro beneficiar o meu bisneto! Enquanto ele — o fellator! — deve ter ficado com milhares de talentos! Milhares! — Duvido — retorquiu Pompeu (Bitínico), tentando olhar para todo o lado menos para o desolado Junco. — Falei com o capitão dos navios de Rodes e, ao que parece, César deu mesmo todos os despojos a Rodes, Xantara e Patara. Havia grandes riquezas, mas nada comparado com um tesouro egípcio. Os Rodenses crêem que César ficou com muito pouco. Um dos libertos de César disse que ele gostava de dinheiro, mas que dava mais valor à sua carreira política do que ao dinheiro. Disse-me o mesmo homem, com um sorriso manhoso, que César nunca seria incomodado pelo Tribunal de Extorsão. Por outro lado, parece que ele tinha mesmo prometido aos piratas que os crucificaria, enquanto esperava pelo resgate. Pode vir a ser difícil provar que César ficou com o que quer que fosse dos despojos, Marco Júnio. Junco limpou as lágrimas e assoou-se.

— E também não posso provar que ele levou alguma coisa de Nicomédia ou de qualquer outra cidade da Bitínia. Mas tenho a certeza que levou! Deve ter levado! Eu já conheci muitos homens virtuosos e posso jurar que César não é um deles, Pompeu! É demasiado convencido e arrogante para ser virtuoso! Age como se fosse o dono do mundo! — Segundo o chefe dos piratas, que o achava uma criatura muito estranha, César agiu como se fosse o senhor do mundo mesmo durante o cativeiro. Dava-se ao luxo de insultar toda a gente com o humor mais requintado! O resgate foi fixado em vinte talentos mas César ficou furioso e respondeu que valia pelo menos cinqüenta talentos! E obrigou-os a subir o resgate para cinqüenta talentos!

— Sim, ele falou-me em cinqüenta talentos! Mas eu estava demasiado furioso com ele para reparar nisso! — disse Junco, abanando a cabeça. — Mas essa história do resgate é capaz de explicar tudo, Pompeu. Só posso tirar uma conclusão: o homem é louco! Cinqüenta talentos é o resgate de um censor. Sim, o homem só pode ser louco.

— Ou talvez quisesse intimidar os cidadãos de Xanto e Patara, para que pagassem rapidamente — disse Pompeu.

— Não! Ele é louco! A sua loucura é alimentada pela vaidade. Ele sempre foi assim. — Uma expressão azeda veio perturbar a contenção de Junco. — Mas os motivos dele são irrelevantes. O que eu quero é que ele pague pelo que me fez! Ah, não posso crer! Dois milhões de sestércios!

Se César sentia alguma apreensão por causa das inimizades que as suas actividades estavam a provocar, a verdade é que o ocultava perfeitamente; quando o seu navio chegou finalmente a Rodes, pagou generosamente ao capitão, alugou uma casa confortável mas despretensiosa nos arredores da cidade e deu início às suas aulas com o grande Apolónio Molão. Como esta vasta e independente ilha, situada perto da Província da Ásia, era uma encruzilhada na ponta oriental do mar Mediterrâneo, estava constantemente a receber notícias, boatos e mexericos; por isso, um estudante romano de visita a Rodes estava sempre a par do que sucedia em Roma ou da evolução dos acontecimentos em qualquer parte do mundo romano. Assim, César pôde saber da carta de Pompeu ao Senado e da reacção do Senado — incluindo a vibrante defesa de Pompeu feita por Lúculo; e soube também que o cônsul sénior do ano anterior, Lúcio Octávio, morrera em Tarso, pouco depois de ter chegado a essa cidade para governar a Cilícia. Mas era demasiado cedo para saber o que o Senado planeava fazer quanto à sua substituição. O testamento do rei da Bitínia agradara a todos os habitantes de Roma, desde as classes mais baixas às mais altas, mas, como César veio a saber em Rodes, nem toda a gente apoiara a integração da Bitínia na Província da Ásia; e as divergências não tinham terminado só porque Junco fora encarregado da incorporação da Bitínia. Lúculo e Marco Cota, os actuais cônsules, defendiam que a Bitínia fosse uma província separada, dotada do seu próprio governador, e Marco Cota gostaria de exercer esse cargo no ano seguinte. Mas os cidadãos de Rodes interessavam-se mais pelas notícias locais; o que estava a acontecer no Ponto e na Capadócia tinha para eles uma importância muito maior do que os acontecimentos em Roma ou em Hispânia. Constava que depois de o rei Tigranes ter invadido a Capadócia, quatro anos antes, não ficara ninguém em Euzebeia Mazaca, pois o rei deportara todos os seus habitantes e instalara-os em Triganocerta; o rei capadócio, que deixara uma má impressão a César, alguns anos antes, vivia no exílio em Alexandria desde a invasão; fora para Alexandria porque, segundo ele, Tarso ficava demasiado perto de Tigranes e Roma era demasiado cara para a sua bolsa.

Corriam insistentes boatos de que o rei Mitridates estava a mobilizar um novo e poderoso exército no Ponto, pois ficara furioso com a notícia de que a Bitínia caíra em poder de Roma; ninguém conhecia os pormenores dessa mobilização, mas uma coisa era certa: Mitridates continuava dentro das suas fronteiras.

Marco Júnio Junco também era alvo de boatos e mexericos. Dizia-se dele que confiscara os bens de alguns dos mais importantes cidadãos romanos da Bitínia — em particular, os residentes em Heracleia, no Euxino — e que o Senado já havia recebido queixas formais contra ele. Alegavam os queixosos que Junco andava a pilhar os principais tesouros do país. Depois, no início de Junho, toda a Província da Ásia tremeu de medo; o rei Mitridates deixara o Ponto, atravessara a Paflagónia e acabara de chegar a Heracleia, na fronteira da Bitínia. Chegara a Roma a notícia de que o rei do Ponto tencionava conquistar a Bitínia. O sangue, a origem e a proximidade ditavam que a Bitínia pertencia ao Ponto, e não a Roma, e o rei Mitridates não descansaria enquanto o antigo reino de Nicomedes estivesse em poder de Roma! Porém, ao chegar a Heracleia, o vasto exército do Ponto deteve-se e aquietou-se; como de costume, depois de ter lançado o desafio a Roma, Mitridates recuara, e agora estava quieto e parado, esperando pela resposta de Roma.

Marco Júnio Junco e Quinto Pompeu (Bitínico) regressaram rapidamente a Pérgamo, onde passaram mais tempo a escrever longos relatórios para o Senado do que a preparar a Província da Ásia para uma nova guerra contra o Ponto. Sem nenhum governador na Cilícia, depois da morte de Lúcio Octávio, as duas legiões estacionadas em Tarso não fizeram qualquer movimento para ajudar a Província da Ásia e Junco também não as requisitou. As duas legiões de fimbrianos, estacionadas em Éfeso e Sardes, foram chamadas a Pérgamo, mas daí não saíram. Dizia-se que Junco queria defender a sua pele, e não a Bitínia. César não pôs sequer a hipótese de se deslocar a Pérgamo, pois estava mais preocupado com as notícias de que a Província da Ásia

não queria negociar com Mitridates, mas também não queria combatê-lo — a menos que o governador desse ordens nesse sentido. Mas o governador não dava ordens nenhumas. As colheitas começariam em Quinctilis, na parte sul da província, e em Sextilis, na parte norte. No entanto, Junco continuava a não fazer nada. Nem sequer requisitava cereais para os seus soldados, numa altura em que a guerra era cada vez mais provável. Em Sextilis, chegou a Rodes a notícia de que os dois cônsules, Lúculo e Marco Cota, haviam sido autorizados pelo Senado a negociar com Mitridates; de súbito, a Bitínia tornava-se uma província separada, governada por Marco Cota, ao passo que a Cilícia ia para Lúculo. Ninguém podia prever a sorte da Província da Ásia, pois o seu governador não passava de um pretor, rodeado pelos dois cônsules do ano. Lúculo e Marco Cota estavam acima de Junco e, por isso, este teria de fazer o que lhe mandassem. Mas Junco não agradava a Lúculo porque, para além de ineficiente, tivera desde sempre uma conduta censurável. As coisas estavam a correr muito mal para Junco.

Alguns dias depois, César recebeu uma carta do irmão de Lúculo, Varrão Lúculo. Roma vive um clima de grande agitação, como podes imaginar. Escrevo-te, César, porque te encontras neste momento fora disto tudo e porque eu preciso de passar os meus pensamentos para o papel e não sou um cultor de diários e porque, de todos os meus eventuais correspondentes, é a ti que prefiro. Vejo-me obrigado a permanecer em Roma aconteça o que acontecer, a menos que os dois cônsules morram, e como o cônsul sénior é meu irmão e o cônsul júnior é teu tio, nenhum de nós desejaria que isso acontecesse. E por que razão sou obrigado a permanecer em Roma? Porque fui eleito cônsul sénior para o próximo ano! Excelente, ha? O meu colega júnior é Caio Cássio Longino — umbom homem, acho eu. Comecemos pelas notícias locais. Provavelmente já sabes que o nosso mútuo amigo Caio Verres seduziu de tal modo o eleitorado e os encarregados dos sorteios que conseguiu ser pretor urbano. Mas sabes, por acaso, que conseguiu transformar esse cargo, normalmente ingrato, em algo de lucrativo? Depois de o plutocrata Lúcio Minúcia Basílio ter morrido sem deixar testamento, Verres teve de julgar as pretensões do parente mais próximo à herança. Este parente é um sobrinho, um tal Marco Sátrio. Mas imagina só quem contestou as pretensões de Sátrio? Nem mais nem menos do que Hortênsio e Marco Crasso, a quem Basílio alugara algumas propriedades particularmente ricas. Pois Hortênsio e Crasso foram ter com Verres e alegaram que Basílio ter-lhes-ia deixado essas propriedades se por acaso tivesse feito um testamento! E Verres apoiou as pretensões deles! Hortênsio e Crasso ficaram mais ricos, Sátrio mais pobre. Quanto a Caio Verres, não é de crer que tenha agido por bondade, pois não? Claro que este ano também temos um chato entre os nossos dez tribunos da plebe. O espécime deste ano é um homem muito peculiar, Lúcio Quíncio. Tem 50 anos, venceu na vida à custa de muito esforço, gosta de se vestir com uma túnica de púrpura de Tiro quando não é obrigado a usar a toga e, nos modos e no discurso, é de uma afectação absolutamente execrável. O colégio de tribunos ainda não tinha um dia de vida e já Quíncio arengava às multidões do Fórum sobre a restauração de todos os poderes do tribunado; entretanto, no Senado, todo o seu veneno se virava para o meu irmão.

Mas Quíncio agora já está muito mais calmo e bem-comportado. O meu querido irmão Lúculo enfrentou-o com a maior das habilidades, recorrendo, para usar os termos dele, a um ataque em duas frentes. Por um lado, atirou o tribuno da plebe do ano passado, Quinto Opímio, aos cães — os cães eram Catulo e Hortênsio, que processaram Opímio pelos seus constantes abusos de autoridade e conseguiram aplicar-lhe uma multa igual a toda a sua fortuna. Opímio ficou arruinado e foi obrigado a retirar-se da vida pública. Por outro lado, Lúculo, de uma forma branda e razoável, mas constante, tratou de incutir no espírito de Quíncio a ideia de que se não se calasse e moderasse o seu tom, acabaria por ser atirado aos cães Catulo e Hortênsio e apanharia uma multa tal que ficaria como Opímio. Este exercício demorou algum tempo, mas deu os melhores resultados.

Se pensas que, devido à tua ausência, caíste no esquecimento, estás completamente enganado, meu caro César. Toda a cidade de Roma fala do teu namoro com os piratas e da crucificação a que os condenaste, contra as ordens do governador. Parece que te estou a ouvir perguntar: O quê? Então em Roma já se sabe disso? Pois sabe! E não foi por Junco ter falado! O proquestor de Junco, aquele

Pompeu que teve o descaramento de acrescentar o cognome de Bitínico ao seu vulgaríssimo nome, escreveu a toda a gente a contar a história. Aparentemente, a intenção dele era fazer de Junco o herói da história. Mas os caprichos do povo são de tal ordem que toda a gente — até mesmo Catulo! — te considera o verdadeiro herói de toda aquela trama. Na realidade, chegou-se mesmo a falar em conceder-te uma Coroa Naval, mas Catulo não estava preparado para ir tão longe e lembrou os Pais Conscritos de que tu actuaste como um privatus e que, por isso, não tinhas direito a receber uma condecoração militar. Os piratas têm sido alvo de muitas discussões no Senado, este ano, mas, por favor, põe o teu ênfase mental na palavra ”discussão”. Ou porque Filipe parece atacado de uma letargia permanente, ou porque Cetego tem comparecido muito pouco às reuniões, ou porque Catulo e Hortênsio estão mais interessados nos tribunais do que no Senado, enfim, poderão ser muitas as razões, mas uma coisa é certa: o Senado, este ano, está uma verdadeira lesma. Tomar uma decisão? Oh, é impossível! Apressar as coisas? Oh, é impossível! De qualquer modo, em Janeiro, o nosso preíor Marco António moveu mundos e fundos para que lhe fosse dada uma comissão especial, tendo em vista a erradicação da pirataria do Nosso Mar. A sua principal razão para pedir esta comissão especial parece ser o facto de, há trinta anos, o seu pai, o Orador, ter sido encarregado de uma missão idêntica. Não há dúvida que a pirataria atingiu níveis alarmantes e que, nestes tempos de escassez de cereais, temos de proteger as cargas de cereais que vêm do Oriente para Itália. No entanto, a maior parte de nós sentiu uma grande vontade de rir ao imaginar António — que não parece ser um monstro como o seu irmão Híbrida, mas que é certamente um idiota e um incapaz — com um comando tão importante como o da erradicação da pirataria de uma ponta à outra do Nosso Mar. Para além de discussões intermináveis, nada mais aconteceu. Excepto que Metelo, o filho mais velho de Caprário (que é pretor este ano), também achou boa a ideia de Marco António e tratou de mover as suas influências para obter aquele comando. Quando tais influências se transformaram numa ameaça para António, com quem achas que António foi falar? Imagina só: com Précia! Sim, essa mesma, a amante de Cetego. Ela possui um domínio absoluto sobre Cetego — tão absoluto que, quando alguém precisa do apoio de Cetego, a primeira coisa que faz é cortejar Précia. Temos de concluir que Précia deve ter uma secreta inclinação por cretinos corpulentos e robustos — mais mentula que mente —, porque foi António quem ficou com o cargo! Metelo retirou-se da arena, com a sua auto-estima completamente desfeita, mas, ou me engano muito, ou voltará à luta um dia destes. Cetego estava tão interessado em apoiar António, que este acabou por conseguir um império ilimitado nos mares e um império proconsular em terra. Disseram-lhe que podia recrutar uma legião de tropas terrestres, mas que, quanto à frota, teria de requisitá-la às cidades portuárias da zona onde estivesse a combater. Este ano, será a ponta ocidental do Nosso Mar. A crermos nas queixas das cidades portuárias ocidentais que o Senado começou já a receber, Marco António é melhor a extorquir dinheiro do que a erradicar piratas. Até agora, os seus feitos contra os piratas são incomparavelmente menores que os teus! Travou uma batalha ao largo da Campânia, clamando que obtivera uma grande vitória, mas, até agora, não vimos nenhuma prova dessa vitória, ou seja, não vimos um único esporão de navio ou um único prisioneiro. Creio que ameaçou Lipara e rugiu com toda a sua força nas Baleares, mas a costa oriental da Hispânia continua firmemente nas mãos dos piratas aliados de Sertório e a Ligúria ainda está por domar. De acordo com as queixas, Marco António gasta a maior parte do seu tempo e das suas energias em brigas e numa vida de luxo. No próximo ano — diz ele no último relatório que enviou ao Senado — irá para a ponta oriental do Nosso Mar, para Giteu, no Peloponeso. A partir desta base, acrescenta, atacará os mares de Creta, onde vogam as grandes frotas piratas. No fundo, acho que ele vai para Giteu porque Giteu é famosa pelo seu magnífico clima e pelas suas belas mulheres.

Mas agora vamos ao caso Mitridates.

A notícia de que o rei Nicomedes tinha morrido só chegou a Roma em Março — atrasada pelas tempestades de Inverno, ao que parece. O testamento foi imediatamente guardado no templo das Vestais e, por outro lado, Junco já tinha recebido instruções para incorporar a Bitínia na Província da Ásia logo que tu o informasses da morte do rei; daí que o Senado tivesse concluído que tudo deveria estar a correr como previsto. Porém, pouco depois, recebemos uma carta formal do rei Mitridates, dizendo que a Bitínia pertencia a Nisa, a idosa filha de Nicomedes, e que, por isso, marcharia sobre Nicomédia para dar o trono a Nisa. Ninguém levou a sério essa ameaça; há muito que não havia notícias da filha de Nicomedes. Enviámos então a Mitridates uma mensagem bastante dura, informando-o de que não reconhecíamos nenhum pretendente ao trono da Bitínia e ordenando-lhe que se mantivesse dentro das suas fronteiras. Normalmente, quando o ameaçamos ele fica com medo; daí que nunca mais se tenha pensado no caso.

Na realidade, houve alguém que continuou a pensar no caso: o meu irmão. Lúculo viveu tantos anos no Oriente que desenvolveu um faro muito apurado: e cheirava-lhe a guerra. Tentou mesmo falar no Senado da eventualidade de uma guerra — os senadores aproveitaram para dormir uma soneca. A província que Lúculo vai governar no próximo ano é a Gália Italiana. Quando viu que era esse o resultado do sorteio do Dia de Ano Novo, ficou deliciado! O que mais temia, nesse momento, era que o Senado retirasse o governo da Hispânia Citerior a Pompeu e lho desse a ele! Foi por isso que ele defendeu Pompeu com tanto vigor — Lúculo queria tudo, menos ir para a Hispânia Citerior!

Porém, em fins de Abril, quando soube que Lúcio Octávio morrera em Tarso, o meu irmão pediu que lhe dessem o governo da Cilícia e que a Gália Italiana fosse atribuída a um dos seus pretores. Ia haver guerra contra Mitridates, insistiu ele. E como é que o Senado reagiu a estes presságios? com a maior letargia! com bocejos! Quem visse aqueles senadores, era capaz de pensar que afinal Mitridates não tinha massacrado oitenta mil pessoas na Província da Ásia, há apenas quinze anos! Ou que não tinha dominado toda a região, até que Sila correu com ele! Os senadores discutiram, discutiram, discutiram... Mas não conseguiram chegar a nenhuma conclusão.

Quando chegou a notícia de que Mitridates chegara a Heracleia com trezentos mil homens, era natural que acontecesse qualquer coisa, não era? Pois bem, nada aconteceu. O Senado não conseguiu chegar a acordo sobre o que deveria ser feito, quanto mais sobre quem deveria ir para o Oriente — a certa altura, Filipe levantou-se e sugeriu que o comando fosse entregue a Pompeu Magno! O qual (façamos-lhe justiça) está muito mais interessado em recuperar a sua reputação, que tão abalada ficou na Hispânia. Por fim, o meu pobre irmão tomou uma decisão que o levou a sentir o maior desprezo por si mesmo — foi ter com Précia. Como podes imaginar, a sua abordagem dessa mulher foi completamente diferente da de Marco António. Lúculo é demasiado senhor do seu nariz para adular seja quem for e demasiado orgulhoso para pedir. Por isso, em vez de lhe oferecer presentes caros, suspiros lânguidos ou declarações de amor eterno, não usou de rodeios e foi direito ao assunto. O Senado, disse-lhe, estava cheio de tontos e ele estava farto de gastar o seu latim com aquela gente. Em contrapartida, sempre ouvira dizer que Précia era uma criatura não só bem educada, como também extremamente inteligente. Perceberia ela porque é que era necessário que alguém fosse negociar com Mitridates o mais depressa possível? Perceberia ela que a melhor pessoa para essa tarefa era Lúcio Licínio Lúculo? Se de facto percebia, importar-se-ia por acaso de dar um pontapé no traseiro de Cetego, para que este fizesse qualquer coisa para melhorar a situação? Pelos vistos, ela adorou que lhe dissessem que era mais inteligente e mais polida do que qualquer membro do Senado (e é natural que tenha atirado à cara de Cetego que os senadores eram todos uns tontos!), pois deve ter dado a Cetego um pontapé monumental — e, num ápice, as coisas mudaram no Senado!

O governo da Gália Italiana foi entregue a um pretor (ainda por nomear) e a Cilícia foi entregue ao meu irmão. com ordens de seguir para o Oriente durante o seu consulado e de assumir as funções de governador da Província da Ásia no primeiro dia do próximo ano, sem abandonar a Cilícia. Estava previsto que Junco permanecesse na Província da Ásia, mas tal decisão foi cancelada. Junco volta para Roma no final do ano; houve tantas queixas quanto à sua conduta no pobre reino da Bitínia que o Senado acabou por se mostrar unânime no que toca a este caso.

Há apenas uma legião de tropas em Itália. Os seus homens estavam a ser recrutados e treinados para irem para Hispânia, mas afinal irão para o Oriente, com Lúculo. O pontapé que Précia deu em Cetego foi tão forte que os Pais Conscritos aprovaram a soma de setenta e dois milhões de sestércios para que Lúculo reunisse uma frota, ao passo que Marco António não recebeu dinheiro nenhum. Marco Cota foi nomeado governador da nova província romana da Bitínia, mas ele tem a marinha bitínia à sua disposição e, por isso, está perfeitamente bem quanto a navios —

daí que não lhe tivessem dado nenhum dinheiro! A que estado chegámos nós, César, se uma mulher tem já mais poder que os cônsules ?

O meu querido irmão cobriu-se de glória, recusando a oferta dos setenta e dois milhões de sestércios. Disse que as medidas que Sila tomara na Província da Ásia bastavam para as suas necessidades — requisitaria a sua frota às várias cidades e distritos da Província da Ásia e, depois, deduziria o seu custo dos tributos. Como há muito pouco dinheiro nos nossos cofres, os senadores agradeceram sinceramente ao meu irmão.

Estamos a chegar ao fim de Quinctilis e Lúculo e Marco Cota partirão para o Oriente dentro de menos de um mês. Felizmente que, segundo a constituição de Sila, os cônsules eleitos para o ano seguinte têm mais poder do que o pretor urbano; por isso, sou eu e Cássia que ficaremos à frente de Roma, em vez dessa horrenda criatura que dá pelo nome de Caio Verres. A viagem decorrerá totalmente por mar — o que não é nada de especial, pois só há uma legião para transportar —, porque, no Verão, é mais rápido ir por mar do que atravessar a Macedónia. Creio também que o meu irmão não quer ser detido por nenhuma campanha a oeste do Helesponto, como aconteceu com Sila. Ele acredita que Curió é capaz de enfrentar uma invasão da Macedónia pelas tropas do Ponto — o ano passado, Curió e Coscónio, na Ilíria, funcionaram como uma equipa e com tão bons resultados que esmagaram os Dárdanos e os Escordiscos e Cario está agora a lançar incursões contra os Bessos. Lúculo deve chegar a Pérgamo em fins de Setembro. O que acontecerá depois, não posso prever. Nem o meu irmão.

Espero que tenhas ficado actualizado, César. Escreve-me, manda-me todas as notícias que tenhas — não creio que Lúculo tenha tempo para me manter informado! A carta provocou em César um suspiro consternado; de repente, os exercícios respiratórios e a retórica tinham perdido todo o interesse. No entanto, não recebera nenhuma ordem de Lúculo e duvidava que alguma vez viesse a receber. Tanto mais que a sua história com os piratas já era conhecida em toda a Roma. Lúculo teria aprovado a proeza — mas não o seu autor. Lúculo gostava das coisas burocraticamente limpas, oficialmente claras. Um aventureiro privatus usurpando a autoridade do governador era coisa que não lhe agradava, por muito que compreendesse as razões de César.

Será que os nossos desejos têm influência na realidade?, pensava César no dia seguinte. Poderá um homem influenciar os acontecimentos através do poder dos seus desejos não expressos? Ou será tudo obra de Fortuna? Pois eu tenho sorte, sou um dos favoritos de Fortuna. E ei-la de novo comigo, a minha sorte. Uma grande oportunidade! E oferecida num momento em que ninguém poderá deter-me. bom, ninguém a não ser gente como Junco. Mas essa gente não conta.

Rodes insistia agora que Mitridates tinha lançado não uma, mas três invasões, cada uma das quais com origem em Zela, no Ponto, onde ele tinha o seu quartel-general e treinava os seus vastos exércitos. Era ele quem dirigia o grosso do exército, chefiando trezentos mil soldados de infantaria e cavalaria que desciam a costa da Paflagónia na direcção da Bitínia, e contando com o apoio dos seus primos Hermócrates e Taxiles — e de uma frota de mil navios (muitos dos quais piratas) sob o comando de um outro primo, Aristónico. Porém, um segundo exército comandado pelo sobrinho do rei, Diofanto, avançava pela Capadócia na direcção da Cilícia; esse exército integrava cem mil soldados. Havia ainda um terceiro exército, composto também por cem mil homens, sob o comando de um outro primo de Mitridates, Eumaco, e do filho bastardo de Caio Mário, Marco Mário, que Sertório enviara para a corte do Ponto. Esta terceira força tinha ordens para penetrar na Frígia e tentar invadir a Província da Ásia pela porta das traseiras. É pena, lamentou César, que Lúculo e Marco Cota não tenham podido saber destas notícias a tempo; as duas legiões que pertenciam à Cilícia estavam já a caminho de Pérgamo, por mar, cumprindo assim as ordens de Lúculo e deixando a Cilícia sem protecção nenhuma contra a invasão de Diofanto. Portanto, não havia nada a fazer excepto esperar que os acontecimentos obrigassem Diofanto a abrandar o seu ímpeto; encontraria pouca oposição na Capadócia, graças ao rei Tigranes.

As duas legiões de fimbrianos encontravam-se já em Pérgamo com o cobarde Junco e não havia qualquer probabilidade de que Junco as mandasse para Sul, para enfrentar Eumaco e Marco Mário; Junco queria as legiões para protegerem a sua fuga quando a Província da Ásia caísse em poder de Mitridates pela segunda

vez em menos de quinze anos. E, sem umbom exército e umbom general para os comandar, os habitantes da Província da Ásia não resistiriam. Não podiam resistir. O mês de Sextilis estava a chegar ao fim, mas Lúculo e Marco Cota tinham ainda pelo menos um mês de viagem à sua frente — e esse mês, pensou César, revelarse-ia absolutamente vital para a Província da Ásia.

”Não há mais ninguém”, disse César para si mesmo.

O outro lado de César respondeu: ”Mas ninguém me agradecerá se eu tiver êxito.” ”Eu não faço isso para me agradecerem, mas por uma questão de satisfação pessoal.” ”Satisfação? Que queres dizer com isso?”

”Quero dizer que tenho de provar a mim mesmo que posso fazê-lo.” ”Não te vão adorar como adoraram Pompeu Magno.”

”Claro que não! Pompeu Magno é um picentino, sem importância alguma, nunca poderia ser um perigo para a República. Falta-lhe o sangue. Sila tinha o sangue. E eu também.” ”Sendo assim, por que hás-de correr riscos? Ainda acabas condenado por traição — e não vale a pena dizeres que não há traição nenhuma! Não é preciso que haja. As tuas acções serão alvo de todo o tipo de interpretações. Mas qual será a interpretação dominante?” A de Lúculo.”

”Precisamente! Há muito que Lúculo te considera um indivíduo conflituoso e desordeiro. E continuará a considerar-te assim, se fizeres o que pensas fazer. Apesar de teres ganho uma Coroa Cívica. E não te congratules por teres tomado a sensata decisão de dar a maior parte dos despojos dos piratas — porque ainda ficaste com uma fortuna que não declaraste, e homens como Lúculo suspeitarão sempre disso.”

”Mesmo assim, tenho de o fazer.”

”Então, procura fazê-lo como um Júlio, e não como um Pompeu! Nada de fanfarras, nada de espalhafato, nada de gritos, nada de te mostrares inchado, mesmo que tenhas todo o êxito deste mundo!”

”Ou seja: o cumprimento do dever, sem qualquer alarido, unicamente para minha satisfação pessoal.”

Isso mesmo.”

César chamou Burgundo.

— Amanhã de manhã partimos para Prieno. Tu, eu e os dois escribas mais discretos. Um cavalo e uma mula para cada um de nós — ou melhor, para mim são três: o Dedos e um cavalo ferrado, tal como uma mula. Tu e eu precisaremos de armaduras e armas. Longos anos ao serviço de César tinham imunizado Burgundo contra a surpresa. — E Demétrio? — perguntou.

— Como não estarei muito tempo longe, não precisarei dele. Além disso, é preferível que fique aqui. É um mexeriqueiro.

— Apanhamos o próximo barco para Prieno ou alugamos um? — Aluga. Pequeno, leve e muito rápido.

— Mais rápido que os navios piratas?

César sorriu. i — É evidente, Burgundo. Uma vez já me chegou. A viagem durou quatro dias — Cnido, Mindo, Brânquidas, Prieno, na foz do rio Meandro. Foi a viagem por mar de que César mais gostou, uma viagem rápida num navio leve e veloz, impulsionado por cinqüenta remadores que remavam ao ritmo de um tambor, com os músculos peitorais e os ombros fortemente desenvolvidos por anos e anos desse mesmo exercício; o navio levava uma segunda tripulação e os homens revezavam-se antes de se sentirem cansados, comendo e bebendo sem restrições no intervalo do trabalho.

Chegaram a Prieno às primeiras horas da manhã e César foi logo ter com o etnarca, um homem de nome etíope, Mémnon.

— Presumo que não serias agora etnarca, depois de Mitridates ter reinado na Província da Ásia, se tivesses simpatizado com a sua causa — disse César, dispensando as habituais cortesias. — Portanto, devo perguntar-te: agrada-te a ideia de Mitridates voltar a dominar a tua cidade?

Mémnon recuou, surpreendido.

— Não, César! Claro que não!

— Óptimo. Nesse caso, Mémnon,vou pedir-te um grande esforço e no mais breve prazo.

— Tentarei. Que queres?

— Quero que convoques as milícias de Prieno e que peças a todas as cidades e comunidades, desde Halicarnasso a Sardes, que

façam o mesmo. Quero o máximo de homens possível, o mais rapidamente possível. Quatro legiões, e todas elas comandadas pelos seus oficiais habituais. O ponto de encontro será Magnésia, junto ao Meandro, daqui a oito dias.

Mémnon julgou perceber o que se passava. E ficou radiante. — Ah, finalmente! Finalmente o governador fez alguma coisa! — Ah, sim, claro — retorquiu César. — Colocou-me à frente das milícias da Ásia, embora infelizmente não possa dispensar-vos mais militares romanos. Isto significa, Mémnon, que a Província da Ásia terá de lutar com os seus próprios meios e homens, em vez de ficar à espera de que as legiões romanas recebam os louros.

— Já não era sem tempo! — disse Mémnon, com um brilho marcial no olhar. — É o que eu acho também. As milícias locais, treinadas pelos romanos e equipadas pelos romanos, são normalmente muito subestimadas. Mas, depois disto, garanto-te que as coisas mudarão.

— E quem vamos combater? — perguntou Mémnon.

— Contra um general do Ponto chamado Eumaco e um renegado hispânico chamado Marco Mário, que não tem nada a ver com o meu tio, o grande Caio Mário — mentiu César, que não queria que a sua milícia ficasse impressionada com aquele nome.

Mémnon tratou imediatamente de convocar as milícias asiáticas, sem pedir qualquer documento oficial, sem sequer se perguntar se César era realmente quem e o que dizia ser. Quando César espicaçava os outros, ninguém parava para lhe fazer perguntas. Nessa noite, depois de se retirar para os seus aposentos em casa de Mémnon, César conferenciou com Burgundo.

— Meu velho amigo, não estarás a meu lado nesta campanha — disse ele. — E não vale a pena protestares que Cardixa deixará de te falar se tu não me protegeres! Preciso de ti para uma tarefa mais importante do que ficar a ver uma batalha sem nada poder fazer, porque não és um legionário romano, nem um miliciano local. Preciso que vás a Ancira falar com Deiotaro. — O nobre da Galácia — disse Burgundo, aquiescendo. — Sim, lembro-me bem dele. — E ele deve lembrar-se de ti. Nem mesmo entre os Gauleses da Galácia há homens tão altos e corpulentos como tu. Tenho a

certeza de que ele sabe mais do que eu acerca dos movimentos de Eumaco e Marco Mário, mas não é para o avisares que eu quero que vás. Quero que lhe digas que estou a organizar um exército de milicianos asiáticos e quevou tentar atrair as forças pônticas ao Meandro. Algures junto ao Meandro, espero montar-lhes uma armadilha e derrotá-los. Se o conseguir, eles retirarão para a Frígia antes de tentarem uma nova invasão. Quero que digas a Deiotaro que ele nunca terá uma oportunidade melhor de correr de vez com o exército pôntico: mas é preciso que ele o apanhe na Frígia, enquanto se recompõe. Por outras palavras: diz-lhe que eu e ele agiremos como uma equipa. Se eu, na Província da Ásia, e ele, na Frígia, cumprirmos bem as nossas tarefas, então não haverá invasão da Província da Ásia ou da Galácia este ano. — E como vou, César? Quer dizer, com que aspecto?

— Acho que devias ter o aspecto de um deus da guerra, Burgundo. Veste a armadura dourada que Caio Mário te deu, põe as maiores penas púrpuras que encontres no mercado na crista do teu capacete e canta uma canção germana, daquelas mais guerreiras, tão alto quanto puderes. Se encontrares soldados do Ponto, passa pelo meio deles como se eles não existissem. Tu, com o teu cavalo de Neso, serás a personificação do terror marcial. — E depois de ter falado com Deiotaro?

— Voltas para ao pé de mim, seguindo o curso do Meandro. Os cem mil soldados pônticos que tinham partido com Eumaco e Marco Mário de Zela, no Ponto, tinham como primeira prioridade a infiltração na Província da Ásia. No entanto, para seguirem uma linha mais ou menos directa entre Zela e qualquer remota localidade frígia significaria atravessar a Galácia; ora Mitridates não se sentia muito seguro relativamente à Galácia: uma nova geração de chefes surgira entretanto, substituindo aquela que ele assassinara num banquete, cerca de trinta anos antes. Por outro lado, a autoridade pôntica sobre a Galácia era algo de muito tênue. Seria necessário um dia enfrentar aquela nova geração de Galacianos, descendentes de Gauleses, mas não era essa a sua primeira prioridade. Mitridates reservara os melhores soldados para as suas próprias divisões e, por isso, os soldados comandados por Eumaco e Marco Mário caracterizavam-se por uma grande falta de experiência guerreira. Uma campanha ao longo do Meandro contra comunidades desorganizadas de gregos asiáticos daria experiência e confiança às tropas.

Em conseqüência destas cogitações, o rei do Ponto manteve Eumaco e Marco Mário consigo enquanto avançava pela Paflagónia. Mitridates estava soberbamente equipado para esta investida contra Roma; nos celeiros pônticos, havia dois milhões de medimni de trigo, e um medimnus dava para produzir dois pães de meio quilo por dia durante trinta dias. Tinha, portanto, nos seus silos, trigo suficiente para alimentar todo o seu povo e todos os seus exércitos durante vários anos. Daí que não estivesse minimamente preocupado com o facto de levar consigo para a Paflagónia mais cem mil homens. Também não estava preocupado com os pormenores relativos ao transporte destas enormes quantidades de cereais e de outros víveres; isso era tarefa para os seus subordinados — estes, assim pensava Mitridates, limitar-se-iam a dar as ordens certas a outros subordinados, os quais executariam o transporte. Na realidade, estes diversos subordinados não tinham nem o treino nem a imaginação necessários para fazer aquilo que um praefectus fabrum executava com a maior naturalidade — ainda que nenhum general romano alguma vez tivesse posto sequer a hipótese de movimentar um exército com mais de dez legiões ao longo de tão extensas distâncias.

Consequentemente, quando Eumaco e Marco Mário separaram os seus cem mil homens dos trezentos mil homens de Mitridates, os abastecimentos eram já tão escassos que o rei se viu obrigado a mandar longas filas de homens buscar mais víveres para o exército; estas longas filas tinham de se deslocar muitos quilômetros para encontrar os alimentos precisos e, depois, regressavam com pesadas cargas aos ombros. O que implicava que muitos dos seus soldados estavam permanentemente exaustos, por terem de trabalhar como carregadores. Disseram então ao rei que a frota levaria abastecimentos para Heracleia; em Heracleia, o problema ficaria resolvido.

No entanto, Heracleia não resolvia o problema de Eumaco e Marco Mário, que deixaram o grosso do exército para descerem o curso do rio Bileo, atravessaram uma cordilheira e emergiram no vale do Sangário. Nesta fértil região da Bitínia, já puderam comer em condições, à custa dos agricultores locais, mas depressa tiveram

de partir para as terras altas, densamente florestadas e onde os vales cultivados eram poucos e pequenos.

Não admira, pois, que Eumaco e Marco Mário tivessem acabado por separar-se, devido à sua incapacidade para alimentar os cem mil soldados pônticos. — Não vais precisar do exército todo para enfrentar uns quantos gregos asiáticos — disse Marco Mário a Eumaco. — E por certo não precisarás de cavalaria. Por isso,vou ficar no trio Tembris com alguns dos soldados de infantaria e com toda a cavalaria. Cultivaremos a terra e faremos batidas para encontrar comida. E esperaremos as tuas notícias. Mas faz por regressar no Inverno — e põe metade dos habitantes da Província da Ásia a trabalhar como carregadores! O Alto Tembris não fica muito longe das terras dos Tolistobógios Galacianos e, por isso, atacá-los-emos e aniquilá-los-emos na Primavera. Dessa forma, teremos muita comida da Galácia para comer no próximo Inverno.

— Não creio que o rei meu primo gostasse de te ouvir apoucar a sua gloriosa aventura militar, falando dela apenas em termos de comida — retorquiu Eumaco, mas sem qualquer altivez ou arrogância; tinha demasiado medo de Mitridates para conhecer a altivez ou a arrogância.

— O rei teu primo precisa desesperadamente de uma boa orientação romana: seria a única forma de ele saber, antecipadamente, como é difícil alimentar tantos homens numa marcha tão longa — replicou Marco Mário, imperturbável. — Mandaram-me para aqui para vos ensinar a arte da emboscada, mas, até agora, tudo o que fiz foi comandar um exército. E eu não sou um comandante profissional. Mas tenho algumbom senso e o que obom senso diz é que metade desta força tem de permanecer algures junto de um rio, que é onde há terras boas para cultivar e para arrecadar alimentos. É pena que o rei não goste de falar de uma campanha em termos de comida! Se queres saber a minha opinião, sempre te digo que ele nem sequer vive na mesma terra que nós!

Perderam entretanto mais algum tempo enquanto Marco Mário se reinstalava, pois Eumaco recusou-se a partir enquanto não tivesse a certeza do local onde encontraria Mário, no seu regresso. E, assim, foi já em Setembro que Eumaco e os seus cerca de cinqüenta mil soldados de infantaria atravessaram as montanhas Díndimo e seguiriam depois um dos afluentes do Meandro. Naturalmente, quanto

mais desciam o curso do rio, melhores eram as terras e os cultivos, o que era um estímulo para avançarem até que toda aquela rica região do mundo pertencesse de novo ao rei Mitridates do Ponto.

Como a maior parte das principais cidades ao longo do sinuoso rio ficava na sua margem sul, Eumaco seguiu pela margem norte, servindo-se de uma estrada pavimentada que principiava na cidade de Trípolis. Prometendo aos soldados que poderiam entregar-se ao saque e à pilhagem logo que a Província da Ásia estivesse segura, Eumaco passou por Nisa, a primeira grande cidade que encontraram, e continuou a seguir o curso do Meandro na direcção de Trales. Era impossível manter os homens completamente juntos durante a marcha, já que era preciso encontrar comida freqüentemente, e, por vezes, certas atracções, como um suculento rebanho ou um bando de gordos gansos, desencadeavam uma verdadeira caçada generalizada, provocando, nas tropas, uma agitação incontrolável.

De facto, aquele avanço, plácido e agradável, ao longo de terras muito produtivas, introduzira na marcha um elemento de festa. Os batedores que inspeccionavam a região duas vezes por dia, voltavam sempre com a mesma notícia: nenhum sinal de oposição. O que era natural, pensou Eumaco desdenhosamente, pois, a sul de Pérgamo, não havia nenhum foco de resistência! Todas as legiões romanas (até mesmo as da Cilícia) estavam aquarteladas nos arredores de Pérgamo, com a missão de protegerem a preciosa pessoa do governador; todos os generais pônticos sabiam disso há já algum tempo e Marco Mário confirmara-o, enviando batedores ao Caico.

Eumaco sentia-se tão seguro que nem sequer ficou preocupado quando, certa noite, os seus batedores não voltaram à hora habitual, uma hora antes do ocaso. A cidade de Trales estava agora mais perto deles do que Nisa, e as suaves ondulações do vale, por onde serpenteava o Meandro, ganhavam àquela hora do dia uma coloração dourada, cobertas do restolho das colheitas. Eumaco deu ordens para passarem ali a noite. Não havia fortificações, não havia qualquer organização naquele improvisado acampamento; os homens limitaram-se a espalhar-se por aquelas terras junto ao rio, tagarelando, discutindo, lutando pelos melhores sítios. Era já muito tênue a luz do dia quando quatro legiões de milicianos asiáticos, numa formação esplendidamente romana, caíram de surpresa sobre o exército pôntico, que ceava calmamente, provocando uma verdadeira carnificina. Embora houvesse dois pônticos para cada miliciano asiático, as tropas pônticas foram apanhadas tão desprevenidas que não ofereceram resistência.

Porque tinha cavalos e porque se instalara na ponta mais afastada do acampamento em relação ao ataque de César, Eumaco e os seus legados conseguiram fugir; sem se preocuparem com a sorte do exército, correram para o rio Tembris e para Marco Mário. No entanto, a sorte não estava, nesse ano, do lado do rei Mitridates. Eumaco chegou ao Tembris a tempo de ver Deiotaro e os Tolistobógios atacarem o exército invasor de Marco Mário. Tratava-se essencialmente de uma batalha entre cavaladas. No entanto, não chegou a ser uma batalha renhida; os recrutas sármatas e cítios que se tinham alistado no exército do Ponto lutavam bem na estepe, mas tinham a maior dificuldade em manobrar no abrupto vale do Alto Tembris. Milhares desses recrutas morreram.

Em Dezembro, o que restava do exército frígio conseguira regressar a Zela sob o comando de Eumaco; Marco Mário fora procurar Mitridates, pois preferia contar pessoalmente ao rei o que sucedera do que enviar um relatório.

A milícia asiática ficou exultante e associou-se a toda a população do vale do Meandro nas celebrações da vitória, que duraram muitos dias.

No seu discurso às tropas antes da batalha, César tinha ressaltado o facto de que a Província da Ásia se estava a defender com os seus próprios meios, que Roma estava muito longe e não podia naquele momento ajudá-la, que, desta feita, a sorte da Província da Ásia dependia inteiramente dos Gregos Asiáticos. Falando no grego coloquial da região, espicaçou de tal modo os sentimentos de patriotismo e auto-suficiência que os vinte mil homens da Lídia e da Caria que conduzia acabaram por transformar a batalha contra Eumaco numa vulgar razia. Durante quatro nundinae, César treinara-os e disciplinara-os, durante quatro nundinae imbuíra-os da consciência do seu próprio valor, e os resultados desse trabalho corresponderam em pleno às suas expectativas.

— Este ano, não aparecerão mais exércitos pônticos — disse ele a Mémnon, durante a celebração da vitória em Trales, dois dias após a derrota de Eumaco. — Mas no próximo ano é natural que apareçam. Ensinei-vos o que devem fazer e como o devem fazer. Agora, cabe aos homens da Província da Ásia defenderem-se a si

mesmos. Roma terá tanto que fazer noutras frentes, que não poderá canalizar legiões ou generais para a Província da Ásia. Mas vocês agora sabem que são capazes de enfrentar sozinhos o inimigo.

— E isso, devemo-lo a ti — disse Mémnon.

— Não, de modo nenhum! Tudo o que vocês precisavam era de alguém que vos organizasse e atirasse para a frente e eu tive a sorte de estar disponível. Mémnon inclinou a cabeça.

— Tencionamos construir um templo a Vitória o mais perto possível do local da batalha; fala-se já numa pequena colina nos arredores de Trales. Autorizas-nos a erigir uma estátua tua dentro do templo para que as pessoas nunca esqueçam quem as conduziu? Mesmo que Lúculo estivesse presente e vetasse tal pedido, César não teria declinado tão singular honra. Trales ficava muito longe de Roma e não era uma das principais cidades da Província da Ásia; poucos (ou nenhuns) romanos da sua classe visitariam um templo a Vitória que, para além de não ser antigo, não deveria possuir grandes obras de arte. Mas uma tal honra, para César, tinha um grande significado. Aos 26 anos, teria uma estátua, adornada com todas as insígnias de um general, no interior de um templo dedicado a Vitória. Porque, aos 26 anos, conduzira um exército ao triunfo.

— Ficaria extremamente satisfeito — retorquiu ele, num tom grave. — Nesse caso, pedirei a Glauco que te vá ver amanhã, a fim de tomar nota das tuas medidas. Glauco é umbom escultor. Trabalha nos estúdios de Afrodisíade, mas, como pertence à milícia, agora está cá connosco.vou pedir-lhe também que traga o pintor, para que este faça alguns esboços coloridos. Depois, poderás partir, caso tenhas algo a fazer noutro sítio qualquer. César tinha de facto coisas a fazer noutro sítio. A principal era deslocar-se a Pérgamo, para falar com Lúculo antes que as notícias da vitória de Trales chegassem aos seus ouvidos por outras vias. Como Burgundo regressara da Galácia sete dias antes da batalha, podia mandá-lo escoltar os dois escribas e o seu precioso Dedos até Rodes. Viajaria sozinho até Pérgamo. Fez os cento e setenta e cinco quilômetros de seguida, parando apenas para mudar de cavalo; e mudou freqüentemente de cavalo,

de forma a conseguir fazer quinze quilômetros por hora, durante o dia, e dez quilômetros por hora, durante a noite. A estrada era romana e encontrava-se embom estado, e, embora a lua estivesse em quarto minguante, o céu não apresentava qualquer nuvem: sim, a sorte estava pelo seu lado. Tendo partido de Trales às primeiras horas do dia seguinte ao final da festa, chegou a Pérgamo nesse mesmo dia, três horas depois do ocaso. O mês de Outubro estava a chegar a meio.

Continuar: parte 2 de 4