Os Favoritos de Fortuna
resto deste ano não te ensinar mais…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
resto deste ano não te ensinar mais nada, pelo menos que sirva para aprenderes o que é manipulação política. Antes de pensarmos em marchar sobre Roma, temos de mostrar a Roma que ela, com o governo que tem neste momento, não pode vencer. Depois, se ela se revelar uma senhora sensata, virá ter connosco e oferecer-se-nos-á livremente. — E se não se oferecer? — perguntou Pompeu, sem saber que Sila já tinha discutido o problema com Metelo Pio e Crasso.
— O tempo o dirá — e foi tudo o que Sila lhe respondeu. Tinham passado já por Cápua como se Norbano, entrincheirado na cidade, não existisse, e seguiram na direcção do segundo dos exércitos consulares de Roma, chefiado por Cipião Asiágeno e pelo seu legado sénior, Quinto Sertório. As pequenas e muito prósperas cidades campanianas receberam Sila de braços abertos, pois conheciam-no bem; Sila comandara os exércitos de Roma instalados naquela região, durante a maior parte da Guerra Italiana.
Cipião Asiágeno encontrava-se acampado entre Teano Sidicino e Cales, no local onde um pequeno afluente do Volturno, alimentado por nascentes, fornecia uma água ligeiramente efervescente; mesmo no Verão, era deliciosa a suave tepidez dessas águas. — Este é um sítio excelente para um acampamento de Inverno! — disse Sila e logo decidiu instalar o seu exército na margem oposta do rio. A cavalaria foi mandada de volta para Benevento, sob a chefia de Cetego, enquanto Sila dava a um novo grupo de emissários instruções explícitas tendo em vista a negociação de tréguas com Cipião Asiágeno. — Cipião não é um antigo cliente de Caio Mário e por isso será muito mais fácil negociar com ele do que com Norbano — disse Sila a Metelo Pio e Pompeu. Tinha a pele do rosto ainda em convalescença e o seu consumo de vinho era agora menor do que durante a viagem de Benevento. Estava por isso com uma óptima disposição e com a cabeça muito desanuviada.
— Talvez — disse o Bacorinho, com um ar dubitativo. — Se se tratasse apenas de Cipião, concordaria inteiramente. Mas ele tem Quinto Sertório ao seu lado e tu sabes o que isso significa, Lúcio Cornélio.
— Significa problemas — retorquiu Sila, aparentemente despreocupado. — Não devias pensar na melhor maneira de reduzir Sertório à total impotência? — Nãovou precisar de fazer isso, meu caro Bacorinho. Cipião fá-lo-á por mim. —
Pegando numa vara, apontou para um local do percurso do rio onde havia uma curva mais acentuada; era esse precisamente o sítio onde os dois acampamentos inimigos estavam mais próximos. — Cneu Pompeu, os teus veteranos sabem escavar? Pompeu pestanejou, surpreso.
— Escavar?! Ora se sabem!
— Óptimo. Então, enquanto o resto do exército conclui as fortificações de Inverno, os teus homens podem escavar à saída da nossa muralha e fazer uma piscina enorme — disse calmamente Sila.
— Ora aí está uma ideia magnífica! — disse Pompeu com igual serenidade e um sorriso franco. — Euvou mandá-los fazer isso imediatamente. — Depois de uma pausa, tirou a vara a Sila e apontou-a para a outra margem. — Se estiveres de acordo, General Sila, deito abaixo aquela margem e trato de alargar o rio em vez de fazer uma piscina separada. E creio que será muito agradável para o nosso pessoal, se tapar pelo menos uma parte da água do rio — é que assim, quando vier o Inverno, a sensação de frio será muito menor. — Bem pensado! Faz isso então — retorquiu cordialmente Sila, ficando depois a observar Pompeu que se afastava com uma passada decidida. — Mas que raio de conversa foi essa? — perguntou Metelo Pio, de sobrolho franzido; detestava ver Sila tão afável com aquele jovem presunçoso! — Ele sabia — disse Sila, enigmaticamente.
— Pois bem: eu não sei! — replicou, irritado, o Bacorinho. — Esclarece-me! — Confraternização, meu caro Bacorinho! Achas que os homens de Cipião vão resistir às termas de Inverno de Pompeu? Mesmo no Verão? No fim de contas, os nossos homens também são soldados romanos. Não há como uma actividade colectiva verdadeiramente agradável para fomentar a amizade. Quando a piscina de Pompeu estiver acabada, haverá tantos homens deles como nossos a desfrutar dos prazeres de um bom banho termal. E, ao fim de pouco tempo, já todos conversarão animadamente — as mesmas piadas, as mesmas queixas, o mesmo tipo de vida. Aposto que não vamos precisar de travar nenhuma batalha. — E ele compreendeu isso do pouco que disseste?
— Absolutamente. — Surpreende-me que ele tenha concordado em ajudar-te! Afinal o que ele quer é guerra.
— É verdade. Mas ele já apanhou o meu ritmo, Pio, e sabe perfeitamente que não vai ter batalha nenhuma nestes meses da Primavera. Sabes, na estratégia de Pompeu não há qualquer propósito de me aborrecer. Ele precisa de mim tanto como eu preciso dele — disse Sila, e riu-se baixinho para dentro, sem mexer um palmo do rosto.
— Quer-me parecer que ele é muito capaz de decidir que não precisa de ti mais cedo do que pensas.
— Então estás enganado acerca dele.
Três dias depois, Sila e Cipião Asiágeno mantiveram conversações na estrada entre Teano e Cales, e concordaram em firmar um armistício. Por essa altura, já Pompeu tinha concluído a sua piscina. Tipicamente metódico, só abriu a piscina à recreação das tropas depois de ter publicado um regulamento para o uso da mesma, o qual dava espaço suficiente aos invasores vindos do outro lado do rio. Passados dois dias, as movimentações entre os dois campos eram já tão intensas que Quinto Sertório se viu forçado a dizer ao seu comandante: — O melhor, já agora, é desistir da pretensão de que estamos em campos opostos. Cipião Asiágeno pareceu surpreendido com aquela observação. — Mas que mal é que aquilo faz? — perguntou num tom afável. O único olho que restava a Sertório ergueu-se para o céu. O seu corpulento físico, por volta dos trinta e tal anos, ganhara a sua forma definitiva — em particular o pescoço rijo e largo, como o de um touro, formidável. E, sob um certo ponto de vista, era pena que ele tivesse aquele pescoço e aquele carão, já que lhe dava um ar bovino, em tudo contrário ao poder e qualidade do seu intelecto. Sertório era primo de Caio Mário e herdara o brilhantismo pessoal e militar de Mário, muito mais do que, por exemplo, o próprio filho de Mário. Perdera um olho numa escaramuça, pouco tempo antes do cerco de Roma, mas como ficara com o olho esquerdo e era canhoto, aquela perda não lhe afectara as capacidades guerreiras. A cicatriz transformara o seu rosto agradável em algo que roçava a caricatura, pois se o lado direito ganhara em beleza, o esquerdo impunha ao todo uma horrível contradição.
Cipião subestimava-o e não o respeitava nem compreendia. E agora, fitava-o surpreendido.
Sertório fez mais um esforço para o convencer dos seus pontos de vista. — Asiágeno, pensa um pouco! Crês que os nossos homens combaterão por nós se lhes permitirmos que mantenham relações de amizade com o inimigo? — Combaterão porque receberão ordens para combater.
— Não estou de acordo. Porque achas que Sila mandou construir aquela piscina, senão para atrair as nossas tropas? Não foi a pensar nos homens dele que Sila mandou fazer aquilo! É uma armadilha e tu estás a cair nela!
— Estamos em tréguas e o outro lado é tão romano como o nosso — teimou Cipião Asiágeno.
— O outro lado é conduzido por um homem que tu devias temer tanto como se ele e o seu exército tivessem sido cuspidos da boca do dragão! Asiágeno, tu não podes ceder nem um milímetro! Se o fizeres, ele acabará por apossar-se de todas as terras que nos separam de Roma! — Exageras — disse Cipião, inflexível.
— Não passas de um idiota! — atirou-lhe Sertório, incapaz de conter as palavras. Mas Cipião não ficou nada impressionado com aquela explosão de mau-humor. Bocejou, coçou o queixo, fitou as unhas esmeradamente tratadas. Depois olhou para Sertório, que estava praticamente debruçado sobre ele, e fez-lhe um sorriso cheio de doçura. — Desaparece! — atirou-lhe.
— Desapareço e é já! — retorquiu-lhe Sertório. — Pode ser que Caio Norbano consiga fazer-te ver as coisas!
— Dá-lhe cumprimentos! — gritou-lhe Cipião, retomando imediatamente o exame das unhas.
Assim, Quinto Sertório partiu a bom galope para Cápua, onde encontrou um homem muito mais próximo dele que Cipião Asiágeno. Norbano, o mais leal dos amigos de Mário, não era um defensor fanático de Carbão; depois da morte de Cina, limitara-se a manter a sua atitude de obediência unicamente porque detestava muito mais Sila que Carbão. — Quer dizer então que aquele prodígio de cobardia da classe aristocrática concluiu um armistício com Sila? — perguntou Norbano, com um agudo na voz ao proferir o odiado nome. — Isso mesmo. E permite que os nossos soldados confraternizem com os do inimigo — disse o inabalável Sertório.
— Mas por que raio é que eu tive de emparelhar com um colega tão estúpido? — queixou-se Norbano, encolhendo depois os ombros. — bom, é a isto que a nossa Roma está reduzida, Quinto Sertório. Eu vou-lhe mandar uma mensagem muito desagradável que ele vai obviamente ignorar. Mas sugiro-te que não voltes para ele. Repugna-me a ideia de que acabarás por ser mais um prisioneiro de Sila. Sila arranjaria maneira de te matar. Trata de fazer qualquer coisa que possa perturbar os planos de Sila.
— Ora aí está o que é bom senso — disse Sertório, com um suspiro. —vou atiçar o fogo contra Sila nas cidades da Campânia. Os habitantes das cidades declararam-se a favor de Sila, mas há muitos homens que não gostam dele. — Sertório tinha um ar enojado. — As mulheres, Caio Norbano! As mulheres! Basta-lhes ouvir o nome de Sila para ficarem em êxtase, tontas de êxtase! Foram as mulheres, e não os homens, quem decidiu que partido as cidades da Campânia haviam de apoiar.
— Então seria melhor que lhe olhassem bem para a cara — disse Norbano, com um esgar. — Julgo que ele tem tudo menos um ar humano.
- Pior do que eu?
— Muito pior. Pelo menos é o que dizem. Sertório franziu a testa. — Já me chegaram alguns desses boatos, mas a verdade é que Cipião não me incluiu no grupo que negociou o tratado e por isso não pude vê-lo. Aliás, Cipião também não fez qualquer referência à sua fisionomia — disse Sertório e, com um riso soturno, acrescentou: — Ah, aposto que isso o deixa muito magoado, àquele lindo mentula! Que vaidoso que ele era! Tal e qual uma mulher.
Norbano sorriu maliciosamente.
— Não és grande apreciador de sexo, pois não?
— As mulheres são boas para um tipo se vir. Mas para esposa, muito obrigado mas não quero nenhuma! A minha mãe é a única mulher da minha vida. Essa sim, essa é que é uma mulher como deve ser! Não se mete nos assuntos dos homens, não se põe a cantar de galo, não usa a sua cunnus como uma arma. — Pegou no capacete e enfiou-o na cabeça. — Vou-me embora, Caio. Desejo-te boa sorte. Precisas muito dela se quiseres convencer Cipião de que está errado. Verpa!
Após alguma reflexão, Sertório decidiu seguir de Cápua para o litoral da Campânia, onde a pequena e bela cidade de Sinuessa Aurunca devia estar já madura para se rebelar contra Sila. As estradas da Campânia estavam sossegadas; Sila não procedera a nenhum bloqueio, a não ser no caso de um ataque formal contra Nápoles. Sem dúvida que, em breve, instalaria uma força nas cercanias de Cápua, de modo a que Norbano não pudesse sair, mas não havia o mínimo sinal de cerco quando Sertório o visitou. Mesmo assim, Sertório achou que seria melhor afastar-se das estradas principais. Gostava da sensação de viver uma vida de fugitivo; essa sensação dava uma outra dimensão à vida real; fazia-o lembrar-se dos tempos em que se disfarçara de guerreiro celtibero de uma tribo estrangeira a fim de poder espiar entre os Germanos. Ah sim, isso é que era viver! Não ter de agüentar os prodígios de cobardia da aristocracia romana! Acção constante, mulheres que sabiam qual era o seu lugar. Até tinha tido uma mulher germânica e fizera-lhe um filho e nunca sentira que ela ou o filho lhe tivessem tolhido os movimentos. Viviam agora na Hispânia Citerior, na fortaleza da montanha de Osca, e o rapaz já devia ser — ah, como o tempo voava — um homem. Não que Quinto Sertório sentisse a falta deles ou ansiasse voltar a ver o seu único filho. Só sentia falta de uma coisa — de viver. Da liberdade, pois a liberdade era o único factor verdadeiramente importante, pois só em liberdade é que um homem podia ser realmente um guerreiro. Sim, que belos tempos aqueles...
Como era seu hábito, Sertório viajava sem escolta: nem sequer um escravo levava. Tal como o primo, Caio Mário, acreditava que um soldado devia ser capaz de cuidar de si sem a ajuda de ninguém. Claro que as suas coisas tinham ficado no acampamento de Cipião Asiágeno, mas ele não voltaria lá para as ir buscar — ou voltaria? Pensando bem, havia umas quantas coisas que lhe faziam realmente falta: a espada que normalmente usava, uma cota de malha que trouxera da Gália Ulterior e que era de uma leveza e perfeição que nenhum ferreiro em Itália conseguiria igualar, as botas de Inverno da Ligúria. Sim, voltaria ao acampamento. Passariam ainda alguns dias antes que Cipião caísse.
E assim, Sertório deu meia-volta e rumou a nordeste, tencionando contornar o acampamento de Sila. A certa altura, descobriu que, na sua retaguarda, a alguma distância, vinha um pequeno grupo. Quatro homens e três mulheres. Ah, mulheres! Por pouco não mudava de direcção. Porém, no último momento, decidiu abeirar-se deles. No fim de contas, o grupo seguia na direcção do mar, ao passo que ele ia para as montanhas. Porém, à medida que se ia aproximando, o seu sobrolho franzia-se mais e mais. O homem que vinha à frente não era seu conhecido? Um verdadeiro gigante, com o cabelo cor de linho e músculos maciços, tal e qual como milhares de germanos que conhecera — Burgundo!
Por todos os deuses, era mesmo Burgundo! E atrás dele vinham Lúcio Decúmio e os seus dois filhos!
Burgundo tinha-o reconhecido; os dois homens espicaçaram os cavalos e assim correram ao encontro um do outro, enquanto o pequeno Lúcio Decúmio açoitava o seu animal para os apanhar. Ah sim, Lúcio Decúmio nunca perdia palavra de nenhuma conversa! — Mas que raio é que vocês estão a fazer aqui? — perguntou Sertório depois dos cumprimentos e das palmadas nas costas.
— Estamos perdidos: é isso o que estamos a fazer aqui — disse Lúcio Decúmio, lançando um olhar de raiva e censura a Burgundo. — Este monte de merda germânico jurou que conhecia o caminho! Mas Será que conhece? Pois bem: não conhece! Não conhece nada! Ao fim de muitos anos a ouvir as enxurradas de insultos (aliás, bem intencionados) de Lúcio Decúmio, Burgundo acabara por acostumar-se. Por isso, suportava-os agora com a paciência usual, limitando-se a fitar o pequeno romano com os olhos com que um touro olharia para um mosquito.
— Andámos à procura das terras de Quinto Pédio — disse Burgundo no seu latim muito lento, sorrindo para Sertório com uma afeição que reservava a poucos homens. — A senhora Aurélia vai levar a filha para Roma.
E ali vinha ela, montando uma robusta mula, muito direita sobre a sela, a cabeleira irrepreensivelmente penteada, o traje de viagem castanho-claro sem sinal de poeira. com ela, vinha a sua corpulenta criada gaulesa, Cardixa, e uma outra criada que Sertório não conhecia. Quinto Sertório — disse ela, juntando-se a eles e de certo modo assumindo o comando. Aquela é que era uma mulher! Sertório dissera a Norbano que, de todas as mulheres, apenas prezava a sua mãe, mas não havia dúvida que se tinha esquecido de Aurélia. Não sabia como é que ela conseguia ser bela e, ao mesmo tempo, sensata; o que ele sabia era que ela, entre todas as mulheres do mundo, era a única que conseguia ser bela e sensata. Além do que era tão honrada como qualquer homem, não mentia, não chorava nem se queixava, trabalhava duramente e não se metia onde não era chamada. Tinham praticamente a mesma idade — quarenta anos — e conheciam-se desde o casamento de Aurélia com Caio Júlio César, mais de vinte anos antes.
— Tens visto a minha mãe? — perguntou Sertório, enquanto ela conduzia a sua mula de modo a que os dois pudessem afastar-se um pouco do resto do grupo. — Não a vejo deste os ludi romani do ano passado, portanto deve-la ter visto depois disso. Mas ela vai estar connosco outra vez este ano, por altura dos Jogos. As visitas dela tornaram-se um hábito.
— Aquela velha teimosa nunca há-de querer ficar em minha casa — disse ele. — Sente-se sozinha, Quinto Sertório. A tua casa é um local tão solitário...! A nossa casa é uma barafunda e ela gosta disso. Não digo que gostasse de ficar mais tempo do que aquele que os Jogos duram, mas é bom para ela estar naquele ambiente pelo menos uma vez por ano. Satisfeito no que tocava às notícias de sua mãe, que adorava, Sertório abordou o problema que preocupava Aurélia.
— Estão mesmo perdidos? — perguntou. Aurélia acenou que sim e suspirou. — Receio bem que sim. Espera até o meu filho saber disto! Não me vai perdoar! Mas como ele é flamen Dialis, não pode ausentar-se de Roma e, por isso, tive de confiar em Burgundo. — Aurélia parecia arrependida. — Cardixa diz que ele é capaz de se perder entre o Fórum e Subura, mas confesso que sempre pensei que Cardixa era demasiado pessimista. Agora é que vejo que ela não exagerava rigorosamente nada!
— E Lúcio Decúmio e os filhos também não te podiam ajudar. — Fora das muralhas da cidade, não conhecem nada de nada — disse ela, acrescentando logo, para fazer justiça a Decúmio: — Mas a verdade é que não podia ter uma escolta mais forte e atenta e, agora que te encontrei, tenho a certeza de que chegaremos às terras de Quinto Pédio num instante. — Num instante, por certo que não. Mas posso indicar-lhes o caminho certo. — O seu único olho examinou-a atentamente. — Vais levar a miúda de volta para casa? Aurélia enrubesceu.
— Não propriamente. Quinto Pédio escreveu-me a pedir que viesse. Parece que Cipião e Sila estão acampados nos limites das suas terras e ele achou que seria mais seguro para Lia ir para outro sítio. O problema é que ela se recusou a partir!
— Uma César típica — comentou Sertório com um sorriso. — Obstinada. — Tens toda a razão! O irmão é que devia ter vindo buscá-la. Quando ele diz às irmãs que têm de fazer seja lá o que for, elas ficam cheias de medo e fazem mesmo! Mas Quinto Pédio, pelos vistos, acha que euvou conseguir. A minha tarefa não consiste em levar a miúda de volta para casa, mas sim em convencê-la a voltar para casa.
— Vais conseguir. Os Césares podem ser obstinados, mas não foi aos Césares que o teu filho foi buscar a sua autoridade. A autoridade, foi buscá-la a ti! — disse Sertório. De súbito, tinha um ar mais animado. — Vais compreender quando te disser que estou com alguma pressa.vou acompanhá-los durante uma parte do caminho, mas não poderei escoltá-los até à porta de Quinto Pédio. Infelizmente. Para isso, terás de pedir ajuda a Sila. O acampamento dele fica a meio caminho entre o sítio em que estamos agora e a casa de Quinto Pédio. — E tu vais ter com Cipião, não é? — disse ela.
— De facto não era essa a minha intenção inicial — retorquiu ele com toda a franqueza. — Só que, a dado momento, apercebi-me de que deixara no acampamento coisas de que não gostaria de me separar.
Os grandes olhos cor de púrpura de Aurélia atentaram nele tranqüilamente. — Ah, estou a ver! Cipião não está à altura.
— Alguma vez pensaste que poderia estar? — Não, nunca. Fez-se um breve silêncio. Seguiam agora pelo mesmo caminho de onde tinham vindo. O resto do grupo de Aurélia ficara para trás.
Que vais tu fazer, Quinto Sertório?
—vou causar a Sila o máximo de problemas que puder. Em Sinuessa, creio eu. Mas só depois de ir buscar as minhas coisas ao acampamento de Cipião. — Sertório pigarreou e logo acrescentou: — Posso levar-te até Sila. Num caso destes, ele nunca tentaria deter-me. — Não. Leva-nos apenas até um sítio a partir do qual possamos encontrar o acampamento sem nos perdermos outra vez. — Aurélia soltou um suspiro de prazer. — Ah, que bom voltar a ver Lúcio Cornélio! Esteve em Roma pela última vez há quatro anos. Ele visitava-me sempre antes de partir e logo que chegava. Uma espécie de tradição. Agora vou ter de quebrar a tradição, e tudo por causa de uma filha teimosa. Mas não importa. O que importa é que eu e Lúcio Cornélio vamos voltar a ver-nos. Tenho tido imensas saudades das suas visitas. Sertório quase abria a boca para a advertir. Mas não chegou a dizer-lhe nada. O que sabia sobre o estado de saúde de Sila não passava de boatos; ao passo que, o que sabia sobre Aurélia eram factos claros. Sabia que ela preferia fazer as suas próprias descobertas, disso estava certo.
Assim, quando as muralhas de terra e madeira do acampamento de Sila começaram a desenhar-se no horizonte, Quinto Sertório despediu-se gravemente da prima (por afinidade, já que casara com um primo seu), apressou o cavalo e partiu. Uma nova estrada atravessava os campos na direcção das muralhas, uma estrada já gasta pelo movimento constante das carroças do abastecimento e dos cascos dos cavalos. Agora não podia haver qualquer razão para se perderem.
— Devemos ter passado por aqui e não demos por nada — disse Lúcio Decúmio, carrancudo. — E não demos por nada porque o teu rabo nos tapava a vista, Burgundo! — Então?! — interveio calmamente Aurélia. — Parem com as discussões! E as discussões, de facto, acabaram. Uma hora depois, o pequeno grupo chegou ao portão da fortaleza e Lúcio Decúmio pediu que os levassem ao general. Aurélia, que nunca tinha visto um acampamento de tropas, nem de perto nem de longe, penetrava assim num universo que para ela era muito estranho e rigorosamente novo. Muitos foram os olhos que a miraram, à medida que o grupo avançava pela estrada, uma recta perfeita, que conduzia à pequena abertura de um outro portão, situado muito longe. A cerca de cinco quilômetros do primeiro portão, calculou ela, surpreendida.
A meio da Via Principalis, via-se a única elevação que havia no campo; uma elevação obviamente artificial, sobre a qual fora construída uma grande casa de pedra. A enorme bandeira vermelha do general ondeava ao vento, sinal de que o general estava nos seus aposentos. O oficial de serviço, um jovem ruivo, sentado à sua mesa debaixo de um toldo, levantou-se desajeitadamente quando reparou que a visita do general era uma mulher. Lúcio Decúmio e os filhos, Burgundo, Cardixa e a outra criada ficaram junto dos cavalos, enquanto Aurélia avançou tranqüilamente até ao oficial de serviço e as sentinelas que o ladeavam. Porque Aurélia estava inteiramente envolvida por uma volumosa túnica de lã castanho-clara, o máximo que o jovem Marco Valério Messala Rufo pôde ver foi a cara dela. Mas isso, pensou ele, recuperando da surpresa, já era o bastante! com a idade da mãe dele e, no entanto, a mais bela de todas as mulheres! Helena de Tróia também já não era nova quando deu que falar de si. Os anos não tinham afectado a magia que havia em Aurélia; ainda agora todas as cabeças se viravam para vê-la, sempre que saía à rua.
— Por favor, gostaria de falar com Lúcio Cornélio Sila. Messala Rufo não lhe perguntou o nome, nem pensou em avisar Sila da sua chegada; limitou-se a fazer-lhe uma vénia e a apontar-lhe a porta. Aurélia entrou, com um sorriso de agradecimento. Embora as ripas das persianas fossem estreitas para que o ar pudesse entrar em abundância, a sala estava mergulhada na sombra, em especial no canto onde um homem sentado a uma secretária escrevia atarefadamente, sob a luz de um grande castiçal. Aquela voz só podia ser de Aurélia:
— Lúcio Cornélio?
Algo de muito especial aconteceu então. Os ombros curvados endireitaram-se, sobressaltaram-se como que para se defenderem de um murro tremendo, e a pena e o papel deslizaram pela secretária, com tal violência que acabaram no chão. Porém, depois deste sobressalto inicial, Sila ficou muito quieto na sua cadeira, os olhos postos nela. Aurélia avançou alguns passos.
— Lúcio Cornélio?
Nenhuma resposta. No entanto, os olhos dela começavam a habituar-se à escuridão. Reparou numa cabeleira que não pertencia a Lúcio Cornélio Sila. Pequenos caracóis ruivos, perfeitamente ridículos.
Depois, ele ergueu-se nervosamente, como que percorrido por espasmos, e Aurélia não teve mais dúvidas de que era realmente Lúcio Cornélio Sila que ali estava porque aqueles olhos que a fitavam só poderiam ser os olhos de Lúcio Cornélio Sila. Uns olhos inconfundíveis. Por todos os deuses! Como posso ter-lhe feito uma coisa destas?! Mas eu não sabia! Se soubesse, não haveria nada deste mundo capaz de me arrastar até aqui! Será que ele descortina alguma coisa na minha expressão?
— Ah, Lúcio Cornélio, que bom voltar a ver-te! — disse ela, no tom que convinha, avançou na direcção da secretária e beijou-o nas faces cobertas de cicatrizes. Depois, sentou-se numa cadeira que estava ao pé da secretária, juntou as mãos sobre o colo, sorriu para ele sem qualquer constrangimento e esperou.
— Tencionava nunca mais te voltar a ver, Aurélia — disse ele, sem desviar os olhos dos olhos dela. — Não podias esperar até que eu chegasse a Roma? Isto que fizeste é uma alteração aos nossos hábitos, uma alteração de que não estava de modo nenhum à espera. — Pelos vistos, só chegarás a Roma depois de uma difícil experiência. com um exército atrás de ti. Ou talvez eu pressentisse que esta seria a primeira vez que não me visitarias. Mas não é nada disso, Lúcio Cornélio, eu não estou aqui por nenhuma razão evidente. Vim ter contigo porque me perdi.
— Perdeste-te?
— Sim. Pretendo encontrar a casa de Quinto Pédio. A tonta da minha filha não quer ir para Roma e Quinto Pédio — é o segundo marido dela, isso tu não podias saber — não quer que ela permaneça num sítio onde estão acampados dois exércitos inimigos — explicou Aurélia, dizendo para si mesma que tinha conseguido manter um tom despreocupado e convincente. Ele vai ficar mais à vontade agora, pensou.
Mas aquele homem chamava-se Sila. Por isso retorquiu:
— Ficaste chocada, não foi? Aurélia não procurou disfarçar — Sim, de certo modo. A cabeleira, sobretudo. Ficaste calvo, não é?
— Fiquei sem cabelo e sem dentes — respondeu Sila, mostrando as gengivas como um macaco.
— bom, todos nós chegamos a isso se vivermos o tempo suficiente. — Agora já não quererias que eu te beijasse como te beijei há alguns anos, pois não? Aurélia inclinou levemente a cabeça, sorriu.
— Nem mesmo então quis que me beijasses daquela maneira. Apesar de realmente ter gostado. Mas era um perigo demasiado grande para a minha paz de espírito. Ah, o que tu me odiaste então!
— De que estavas à espera? Rejeitaste-me. Não gosto que as mulheres me rejeitem. — Recordo-me perfeitamente!
— Eu recordo-me das uvas.
— Também eu.
Sila respirou fundo, comprimiu as pálpebras.
— Ah, quem me dera ser capaz de chorar!
— Ainda bem que não és capaz, meu amigo — disse ela, ternamente. — Naquela altura, choraste por mim.
— Sim, chorei. Mas nãovou chorar por ti agora. Seria chorar uma imagem que há muito desapareceu das águas do rio. O que interessa é que estás aqui. Fico contente por isso.
Ele levantou-se finalmente. Um homem velho e cansado.
— Um copo de vinho?
— De bom grado.
Aurélia reparou que, ao servir o vinho, Sila usava duas garrafas. — Não gostarias da urina que sou forçado a beber. É tão seca e amarga como eu próprio.
— Olha que eu também sou bastante seca e amarga, mas nãovou insistir em provar o teu vinho, já que não mo recomendas. — Aurélia pegou no copo que ele lhe estendia e bebeu com agrado o vinho. — Obrigado, é muito agradável depois de uma jornada tão longa e cansativa.
— Que se passa com o teu marido para te deixar fazer o que lhe competia? Está outra vez fora? — perguntou Sila, sentando-se mais descontraidamente. Os olhos luminosos de Aurélia ganharam uma gravidade vítrea. — Há dois anos que sou viúva, Lúcio Cornélio. Esta notícia deixou-o espantado. — Caio Júlio morto?! Mas ele estava tão bem como um rapaz! Foi morto nalguma batalha?
— Não. Morreu de repente.
— E eu aqui estou, mil anos mais velho que Caio Júlio, e ainda agarrado à vida — disse Sila num tom amargo.
— Tu és o Cavalo de Outubro, ao passo que ele ficou sempre numa posição intermédia. Era um homem bom e eu gostei de estar casada com ele. Mas nunca pensei nele como um homem que precisava de se agarrar à vida — disse Aurélia. — Talvez tivesse sido bom para ele. Partindo do princípio que conquistarei Roma, as coisas poderiam ficar feias para ele, caso fosse vivo. Julgo que ele teria optado por apoiar Carbão. — Ele apoiou Cina, por respeito a Caio Mário. Mas Carbão? Não sei se o apoiaria. — Aurélia mudou de assunto, menos chocada agora com o aspecto daquele que fora tão belo como Apolo. — Como está a tua mulher, Lúcio Cornélio? Bem?
— Sim, segundo as últimas notícias que tive dela. Continua em Atenas. Deu-me dois gémeos o ano passado. Um rapaz e uma rapariga. — Soltou uma risadinha e prosseguiu: — Ela tem medo que se venham a parecer com o tio, o Bacorinho.
— Ah, coitadinhos! Mas é bom, ter filhos. Nunca pensas nos teus outros gémeos, os filhos da tua esposa germânica? Já devem estar uns homens. — Ah, os jovens Queruscos! Devem ter andado por aí a escalpar e a queimar romanos vivos em aulas de vime!
Tudo ia ficar bem: ele estava mais calmo agora, menos atormentado. Aurélia pensara em muitos destinos possíveis para Sila. Mas a perda daquela atracção única e tão especial não estava nas suas previsões. E, no entanto, ele continuava a ser Sila. Provavelmente, pensou Aurélia, a mulher dele continua a amá-lo como quando ele era a imagem de Apolo. Conversaram ainda durante algum tempo, passando em revista os anos passados à medida que iam trocando notícias sobre muitas e variadas pessoas; Aurélia reparou que ele gostava de falar do seu protegido, Lúculo, e Sila apercebeu-se de que ela gostava de falar do seu único filho varão, que agora se chamava César.
- Se bem me lembro, o jovem César era um verdadeiro erudito. O cargo de flamen Dialis deverá assentar-lhe bem.
Aurélia hesitou, pareceu ir dizer qualquer coisa, mas acabou por dizer algo aparentemente diverso do que tinha pensado:
— Ele tem feito um esforço tremendo para ser um bom sacerdote. Franzindo o sobrolho, Sila olhou pela janela mais próxima. — O sol está já a caminhar para o ocaso, é por isso que está tão escuro aqui dentro. São horas de te pores a caminho.vou arranjar-te alguns guias — a casa de Quinto Pédio não fica muito longe do meu acampamento. E podes dizer à tua filha que será muito estúpida se ficar. Os meus homens não são propriamente uns selvagens, mas uma verdadeira Júlia, como julgo que ela é, constitui sempre uma tentação a que é muito difícil resistir, e nós não podemos impedir os soldados de beber, para mais quando estão presos num acampamento. Leva-a para Roma imediatamente. Arranjo-te uma escolta que te acompanhará até Farentino depois de amanhã. Desse modo, poderás fazer a tua viagem em segurança, longe das garras dos exércitos que aqui estão acampados.
Aurélia levantou-se.
— Eu trouxe comigo Burgundo e Lúcio Decúmio, tal como os filhos deste. Mas se realmente podes dispor dos homens, aceitarei de bom grado a escolta. Não há nenhuma batalha iminente entre as tuas tropas e as de Cipião?
Ah, que triste, nunca mais voltar a ver aquele belo sorriso! O máximo que ele podia fazer agora era um risinho grunhido, algo que não perturbava as crostas e cicatrizes do seu rosto. — com as tropas daquele imbecil? Não, não estou a prever nenhuma batalha — disse ele, no vão da porta. Depois, empurrou-a ligeiramente. — Agora vai, Aurélia. E não esperes que eu te visite em Roma. Aurélia foi ter com a sua escolta enquanto Sila dava já instruções a Messala Rufo. E, poucos instantes depois, seguiam já pela Via Pretória, na direcção de outro dos quatro portões do vasto acampamento de Sila.
Os companheiros de viagem de Aurélia olharam para ela, mas não se sentiram encorajados a dirigir-lhe a palavra. Assim, Aurélia pôde dispor da paz necessária para mergulhar nos seus pensamentos até ao final da jornada.
Sempre gostei dele, apesar de ele se ter tornado nosso inimigo. Apesar de ele não ser um homem bom. O meu marido era genuinamente uma boa pessoa, e eu amava-o, e fui-lhe fiel de corpo e alma. No entanto — e isto, sei-o agora, só agora — houve uma pequena porção de mim mesma que dei a Lúcio Cornélio Sila. A parte que o meu marido não queria, a parte com que o meu marido não teria sabido o que fazer. Lúcio Cornélio e eu só nos beijámos uma vez. Mas foi um beijo tão belo quanto sinistro. Uma lama apaixonante e envolvente. Eu não cedi. Mas os deuses sabem o quanto eu desejava ceder! De certo modo, foi uma batalha que venci. No entanto... não terei por acaso perdido uma guerra?
Sempre que ele penetrava no meu confortável e ordenado mundo, trazia consigo um vendaval; se ele era Apolo, também era Éolo, e governava os ventos do meu espírito, a tal ponto que a lira que havia no fundo de mim mesma dedilhava uma melodia que o meu marido nunca por nunca ouviu... Ah, isto é pior que a dor do luto e da separação derradeira! Estive perante os destroços de um sonho, de um sonho que era tanto meu como dele, e ele sabe-o, pobre Lúcio Cornélio. Mas quanta coragem! Um homem mais fraco teria caído sobre a sua espada. Quanta dor, quanta dor! Mas por que motivo sinto isto? Eu sou uma mulher de acção, uma mulher prática que não se perde nos labirintos da imaginação. Tenho uma vida organizada e muito satisfatória. Mas agora compreendo que parte de mim mesma pertenceu sempre a Sila; a parte do pássaro, da ave que poderia ter subido pelos ares, fazendo espirais a grande altura, dando voz às melodias do seu coração, enquanto que, lá em baixo, toda a terra se incendiava por um nada. Mas não, não estou triste por ter mantido os meus pés bem presos à terra, por nunca ter voado naquelas altas paragens. É algo que se ajusta à minha pessoa. Eu e Sila nunca teríamos tido um momento de paz. Ah, mas sofro por ele! Sim, sofro por ele e choro... E como Aurélia seguia à frente de todos, excepto dos oficiais romanos que os guiavam, nenhum dos membros da sua comitiva pôde ver as lágrimas que lhe corriam pelo rosto. Tal como não puderam ver os destroços de um sonho que se chamava Lúcio Cornélio Sila. A paciente carta de protesto que Caio Norbano enviou a Cipião Asiágeno em nada contribuiu para impedir o desastre que Cipião a si próprio infligiu; no entanto, ninguém ficou mais surpreendido que Cipião quando, após ter finalmente decidido que combateria, descobriu que as suas tropas não lutariam por ele. Pelo contrário: as suas oito legiões desertaram em massa para o inimigo.
De facto, mesmo depois de Sila lhe ter retirado as insígnias consulares e lhe ter ordenado que partisse sob a escolta de um esquadrão de cavalaria, Cipião Asiágeno continuou sem perceber que Roma estava de facto numa situação muito difícil. Tranqüila e complacentemente, dirigiu-se para a Etrúria, onde começou a recrutar outro exército, recorrendo aos inúmeros clientes de Caio Mário que aí viviam. Caio Mário podia estar morto, mas a sua memória nunca se esbateria. Ao passo que Cipião Asiágeno não passava de uma presença transitória.
— Ele nem sequer compreende que, dessa forma, está a desrespeitar um solene acordo de tréguas — comentou Sila, perplexo. — Eu bem sei que os Cipiões estão muito por baixo, mas este abusa! Não merece o nome de Cornélio Cipião. Se conquistar Roma, mandarei executá-lo. — Devias tê-lo executado quando o tiveste na mão — disse o Bacorinho, um tanto irritadiço. — Aquele homem só nos vai trazer chatices.
— Nada disso. Cipião é o cataplasma que euvou aplicar no furúnculo da Etrúria — retorquiu Sila. — com esse cataplasma, retiro o veneno enquanto há apenas um furúnculo para tratar. Desse modo, os furúnculos não se alastram e não se tornam malignos. De novo a sabedoria de Sila, pensou Metelo Pio com um sorriso malicioso. — Mas que bela metáfora! — comentou.
Embora se estivesse ainda em Quinctilis e o Verão se encontrasse, portanto, longe do fim, Sila não viria a abandonar aquele acampamento durante todo o ano. Após a partida de Cipião, os dois acampamentos juntaram-se e os experimentados centuriões de Sila começaram a treinar os soldados, jovens e pouco conhecedores da guerra, que haviam pertencido à Roma de Carbão. O medo e o respeito que sentiam pelos veteranos de Sila tinham tido mais efeito sobre esses soldados do que a amistosa confraternização; em poucos dias, tinham ficado a conhecer um tipo de soldado que desconheciam em absoluto — duro, resistente, inteiramente profissional. O tipo de militar que nenhum recruta recente conseguiria vencer num campo de batalha. A deserção parecia ter sido, de facto, a melhor alternativa.
A defecção de Sinuessa Aurunca, sob a influência de Quinto Sertório, não passava de um mero acidente de percurso; Sila acabou por atacar a cidade, mas apenas para que o exército de Cipião pudesse treinar, e não para que a cidade morresse à fome ou visse destruídas as suas formidáveis muralhas. Sila não estava interessado em lançar, nesse ano, operações susceptíveis de causarem pesadas baixas em vidas humanas. A grande utilidade do cerco a Sinuessa consistia no facto de constituir uma prisão para Quinto Sertório, um homem extremamente capaz do ponto de vista militar. Isolado em Sinuessa, Quinto Sertório era uma pedra inútil no jogo de Carbão, que poderia tê-lo utilizado de uma forma incomparavelmente melhor. Entretanto, chegaram notícias da Sardenha segundo as quais Filipe e as suas coortes hispânicas tinham tomado facilmente o poder. Filipe estaria em condições de enviar todo o produto das colheitas da ilha: e, de facto, no tempo previsto, sem qualquer oposição de navios de guerra ou de piratas, os navios do transporte de cereais chegaram a Putéolos e descarregaram tudo aquilo de que Sila precisava.
O Inverno, naquele ano, começou cedo e foi invulgarmente severo. A fim de melhor distribuir as suas tropas, que entretanto tinham aumentado para mais do dobro, Sila enviou algumas coortes atacar Cápua, Sinuessa e Nápoles, obrigando assim outras zonas da Campânia, para além de Teano, a contribuírem para o sustento das suas tropas. Verres e Cetego revelaram-se notáveis abastecedores, chegando mesmo a inventar um método de conservação do peixe do Adriático em recipientes cheios de neve comprimida; os soldados de Sila, que adoravam peixe mas nunca tinham bastante peixe fresco à sua disposição, deleitaram-se com este inesperado banquete, de tal modo que os cirurgiões do exército não tiveram mãos a medir para extrair espinhas das gargantas mais ávidas.
Nada disto tinha a mínima importância para Sila, que tinha arrancado algumas das crostas do rosto e que, por isso, suportava agora mais um surto de comichão. Toda a gente lhe suplicara que deixasse cair as crostas naturalmente, mas aquele temperamento inquieto não era capaz de esperar; arrancava as crostas mal elas começavam a dar de si. Aquele foi um surto terrível e que (talvez por causa do frio, pensava Varrão, que agora assistia Sila por ter revelado curiosidade científica) o importunou sem cessar durante três meses. Três meses em que Sila viveu embrutecido pelo álcool, um Sila perfeitamente desvairado que gemia e se arranhava, que berrava e bebia. A certa altura, Varrão atou-lhe as mãos para que ele não tocasse na cara, e embora Sila (como Ulisses atado ao mastro enquanto as Sereias cantavam) desejasse aquela prisão, ao mesmo tempo implorava que o libertassem. Até que acabou por conseguir libertar-se sozinho. E por coçar e arranhar a pele do rosto. Estava o ano quase no fim quando Varrão, sentindo-se desesperado, advertiu Metelo Pio e Pompeu de que duvidava que Sila estivesse recuperado na Primavera. — Chegou uma carta para ele, vinda de Tarso — disse Metelo Pio, que se resignara a ter Pompeu por companhia ao longo de todo o Inverno; Crasso estava entre os Marsos e Ápio Cláudio e Mamerco comandavam cercos noutros locais.
— De Tarso? — perguntou Varrão, com súbito interesse. — Isso mesmo. Do etnarca Mórsimo.
— E não mandou nenhum frasco?
” — Não, apenas uma carta. Ele está em condições de lê-la? — Não, de modo nenhum.
— Então o melhor é seres tu a lê-la, Varrão — disse Pompeu. Metelo Pio fitou Pompeu escandalizado.
— Francamente, Pompeu!
— Ora, Bacorinho, deixa-te de falsos formalismos! — retorquiu Pompeu, entediado. — Nós sabemos que ele não pensa noutra coisa senão no unguento mágico que o há-de curar. Sabemos também que tinha encarregado Mórsimo de descobrir esse unguento. E agora vêm notícias de Mórsimo, mas ele não está em condições de ler. Não achas — pelo menos para o bem de Sila. — que Varrão devia ler o que Mórsimo tem para nos dizer? Perante tais argumentos, Metelo Pio autorizou Varrão a ler a carta de Mórsimo. Aqui vai a receita, meu caro Lúcio Cornélio, meu amigo e patrono: é o máximo que posso fazer por ti. Parece que o unguento tem de ser preparado de fresco mais vezes do que a extensão de uma jornada desde o rio Píramo, na Cilícia Pedia, até Roma, permitiria. Por isso, terás de ser tu a procurar os ingredientes e a preparar a pomada. Afortunadamente, nenhum dos ingredientes é exótico, embora muitos deles sejam difíceis de extrair. O curativo obtém-se a partir de uma ou muitas ovelhas. Em primeiro lugar, tens de ter um tosão de lã rigorosamente não tratada. Depois, mandas alguém raspar as fibras com um instrumento aguçado o suficiente para as alisar, mas não para as cortar. Verificarás que, na ponta do strigilis, começará a formar-se uma substância — particularmente oleosa, mas com a consistência do coalho do queijo. É preciso raspar a lã até se obter uma grande quantidade desta substância — segundo a minha fonte, são necessários muitos velos. Depois, deitas a substância assim obtida em água lépida: tépida, não quente! O melhor teste é meter um dedo na água — tens de sentir que está quente, mas de modo nenhum insuportável. A substância dissolver-se-á parcialmente numa camada que flutua no topo. Essa camada é a parte que interessa: terás de ter um copo grande cheio dela.
Posteriormente, pegas num tosão com o couro, certificando-te de que fica agarrada alguma gordura às costas do couro — o animal tem de ser morto no momento, aliás, todos os animais têm de ser mortos no momento —, e pões esse tosão a cozer. A gordura de uma ovelha, assim me disse a minha fonte, precisa também de uma gordura especial que existe dentro do animal, porque a gordura das ovelhas é muito dura: mesmo num quarto quente, não derrete. A minha fonte — a velha mais fedorenta e detestável que existe ao cimo da terra e por certo a mais
gananciosa de todas as criaturas! — disse que esta gordura interna tem de ser retirada da porção mais dura de gordura que existe ao cimo dos rins da ovelha e depois esmagada. Em seguida, tem de ser dissolvida em água tépida, tal e qual como se faz com a substância obtida a partir da raspagem da lã. A camada que se forma ao cimo da água tem de encher dois terços de um copo alto. A isto, junta um terço de um copo de bílis retirada da vesícula biliar da ovelha imediatamente após a matança.
Finalmente, misturas todos os ingredientes de uma maneira suave mas eficaz. O unguento é bastante duro, mas não tão duro como a gordura logo após a sua extracção. Aplica-o pelo menos quatro vezes ao dia. Aviso-te, meu caro Lúcio Cornélio, de que deita um fedor atroz. Mas a minha fonte insiste que o unguento tem de ser usado sem qualquer mistura de perfumes, fragrâncias ou resinas.
Informa-me, por favor, sobre os resultados! A velhaca da velha jura que foi ela quem fabricou o unguento que te causou melhoras temporárias, embora eu tenha algumas dúvidas. Vale de Mórsimo.