Os Favoritos de Fortuna

Colleen McCullough · Capítulo 11 de 15 · parte 1/2

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Os Favoritos de Fortuna

— Essas crianças são filhos do irmão…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

— Essas crianças são filhos do irmão de Híbrida. Existe de facto um laço de sangue, mas é com a mãe dessas crianças. A consangüinidade só poderia contar se os meus primos fossem filhos de Híbrida. E não são. Aliás, Híbrida nem sequer tem filhos! — Não podes fazer uma coisa destas a uma Júlia!

— Mãe, lamento que a família se veja envolvida num caso destes, mas a verdade é que não há nenhuma Júlia directamente envolvida.

— Os Júlios Césares aliaram-se pelo casamento aos Antónios! Isso é razão suficiente! — Não, não é! E uma tal aliança só revela uma grande estupidez da parte dos Júlios Césares! Os Antónios não passam de uns rústicos grosseiros, de uns vadios que para nada servem! E repara bem no que te digo, mãe: eu nunca permitiria que uma Júlia da minha própria família se casasse com um António! — retorquiu César, virando-lhe as costas. — Reconsidera, César, por favor! Muita gente reprovará a tua acção!

— Não, mãe, não contes com isso.

O resultado deste confronto foi uma desconfortável refeição, algumas horas depois. Incapaz de suportar estar no meio de dois adversários tão ferozes, Cinila correu para o quarto da filha logo que pôde, inventando que a filha estava com cólicas, dores de dentes, irritações de pele e mais uma quantidade de doenças próprias das crianças. César e Aurélia ficaram sozinhos, ignorando-se mutuamente, os dois de queixo espetado.

Houve de facto algumas vozes que se ergueram para reprovar César. No entanto, César, ao aceitar aquele caso, não estava a abrir um precedente. Pelos tribunais de Roma tinham passado já muitos outros casos em que a consangüinidade era muito mais forte do que as objecções técnicas que homens como Catulo apontaram na acção movida contra Caio António Híbrida. Claro que Híbrida não podia ignorar a intimação; daí que estivesse à espera no tribunal do praetor peregrinus, com uma comitiva de rostos famosos, incluindo Quinto Hortênsio e o tio de César, Caio Aurélio Cota. De Marco Túlio Cícero não havia sinal, nem mesmo entre a audiência; até ao momento em que Cetego deu início ao julgamento, como César pôde ver pelo canto do olho. Cícero ia lá perder um escândalo daqueles! Especialmente quando fora escolhida a opção legal de uma acção cível.

César reparou imediatamente que Híbrida não estava à vontade. Corpulento, musculado, com um pescoço tão grosso como uma coluna, Híbrida era um António típico; o cabelo castanho-arruivado, encaracolado, e os olhos castanhos, eram tão antoninos como o nariz aquilino e o queixo proeminente, com uma boca pequena e carnuda no meio. Antes de saber das atrocidades de Híbrida, César olhava para aquele rosto abrutalhado e dizia para si mesmo que aquela era mesmo a cara de um indivíduo que bebia em excesso, que comia em excesso e que procurava compulsivamente

o sexo. Agora percebia melhor. Aquele era o rosto de um verdadeiro monstro. As coisas começaram mal para Híbrida quando Hortênsio escolheu jogar a cartada de que a acção deveria ser recusada por aquele tribunal, alegando que, se as acusações fossem realmente tão graves como o seu oponente queria fazer crer, o tribunal criminal seria o local ideal para o julgamento. Varrão Lúculo mostrava-se o mais impassível que podia, já que só queria intervir se o seu juiz lho pedisse expressamente. E Cetego dificilmente tomaria essa atitude. Mais tarde ou mais cedo ficaria com a presidência daquele tribunal e por isso nunca mostrara o mínimo interesse em ser juiz de casos menores. E este não era um caso menor, bem pelo contrário. Era muito natural que lhe repugnasse ouvir tamanhas atrocidades, mas pelo menos não corria o risco de se aborrecer mortalmente. Daí que tivesse enfrentado inteligentemente Hortênsio e que, usando sabiamente a sua autoridade, tivesse conduzido as coisas como mais lhe convinha.

Ao meio-dia, Cetego estava já pronto para ouvir as testemunhas, cujo aparecimento provocou uma verdadeira sensação no tribunal. Ifícrates e os seus companheiros tinham escolhido as vítimas, pensando nos efeitos mais imediatos, mais teatrais, e também na compaixão que poderiam suscitar. A mais comovente das testemunhas era um homem que, na realidade, não podia testemunhar; Híbrida retalhara-lhe a cara — e cortara-lhe a língua. Mas a sua esposa testemunhou por ele — uma magnífica testemunha, já que o ódio lhe refinava a eloqüência. Cetego escutou-a atentamente, enquanto fitava o pobre marido, suando as estopinhas, lívido como a cal. Ouvida esta testemunha, Cetego encerrou os trabalhos desse dia, pedindo aos deuses que agüentasse os vômitos até chegar a casa.

Mas foi Híbrida quem tentou ter a última palavra. Ao deixar o tribunal, deteve César, agarrando-o pelo braço.

— Onde é que foste buscar estes desgraçados? — perguntou ele, compondo uma expressão de dolorida perplexidade. — Deves ter passado o mundo a pente fino! Mas fica sabendo que o teu estratagema não vai resultar. Porque, afinal, quem é aquela gente? Um punhado de marginais, de vilões! Um mero punhado de desgraçados, desejosos de receberem uma pesada indemnização romana, em vez de continuarem na vadiagem, sobrevivendo à custa das esmolas gregas!

— Um mero punhado? — rugiu César, reduzindo ao silêncio a ruidosa multidão que se afastava e que, de repente, se virou para o ouvir. — É tudo o que tens a dizer? Pois ouve bem o que eu te digo, Caio António Híbrida: um já seria demais! Apenas um já seria demais! Apenas um homem, ou uma mulher, ou uma criança, desfigurado de maneira tão horrível, já seria demais! Apenas um homem, ou uma mulher, ou uma criança, espoliado da sua juventude, da sua beleza, do seu orgulho em estar vivo, já seria demais! Vai-te embora! Vai para casa! Caio António Híbrida foi para casa, descobrindo, surpreendido, que nenhum dos seus advogados desejava acompanhá-lo. Até o seu irmão arranjara uma desculpa para não o acompanhar. No entanto, não ia sozinho; ao seu lado, vinha um homem gordinho e atarracado que se tornara seu amigo desde que Híbrida entrara para o Senado, ano e meio antes. Esse homem era Caio Élio Estaieno, uma criatura que não pensava noutra coisa senão em arranjar aliados poderosos, em comer à mesa dos outros e em acumular mais e mais dinheiro. Recebera algum dinheiro de Pompeu no ano anterior, quando fora questor de Mamerco e provocara um motim — ah, claro que não fora um motim sangrento! Tudo correra às mil maravilhas e ninguém suspeitara dele.

— Vais perder — disse ele a Híbrida, quando entraram na bela mansão deste último, situada no Palatino.

Híbrida não estava com disposição para o contestar.

— Eu sei quevou perder.

— Mas não seria agradável se ganhasses? — perguntou Estaieno, com um ar sonhador. — Dois mil talentos é o prêmio para quem ganhar.

—vou ter de arranjar dois mil talentos. E ficarei falido para o resto da vida. — Não necessariamente — disse Estaieno, com malícia na voz. Sentou-se na cadeira dos clientes de Híbrida e olhou à sua volta. — Ainda tens daquele vinho de Quios? — perguntou. Híbrida pegou numa garrafa e encheu duas taças. Depois de estender uma taça ao seu convidado, sentou-se. Bebeu um bom gole de vinho e olhou fixamente para Estaieno. — Estás a tramar alguma — disse ele. — O quê?

— Dois mil talentos é muito dinheiro. Aliás, mil talentos já é muito dinheiro. — É verdade. — A boca pequena e carnuda abriu-se, revelando os dentes pequenos e muito brancos de Híbrida. — Eu não sou nenhum idiota, Estaieno! Já percebi onde queres chegar. Se te der metade dos dois mil talentos, garantes-me que me livro desta. É isso, não é? — Exactamente.

— Pois bem: concordo. Tu livras-me disto e recebes mil talentos. — E nem sequer vamos ter muito trabalho — disse Estaieno, com um ar pensativo. —

Tens de agradecer a Sila. Mas como ele está morto, não se importa que me agradeças a mim. — Não me atormentes mais. Conta-me o que vai na tua cabeça! — Ah, claro! Esqueci-me que preferes atormentar os outros a ser atormentado. — Tal como muitos homens nulos a quem de repente é dada uma posição de poder, Estaieno era incapaz de esconder o prazer que isso lhe proporcionava, embora soubesse que, depois de encerrado o caso, a sua amizade com Híbrida terminaria. Por muito êxito que o seu estratagema tivesse. Mas que lhe interessava aquela amizade? Mil talentos era prêmio suficiente. E, fosse como fosse, que ganharia ele tendo por amigo uma criatura como Híbrida? — Então, Estaieno? Conta-me ou vai-te embora!

— O ius auxilii ferendi — disse apenas Estaieno. — Sim. E então? — A função original dos tribunos da plebe, é a única função que Sila não lhes retirou — salvar um membro da plebe das mãos de um magistrado.

— O ius auxilii ferendil — exclamou Híbrida, espantado. Por um momento o seu rosto iluminou-se. Mas depressa as sombras voltaram. — Não. Eles não vão fazer uma coisa dessas — disse.

— Pode ser que façam — replicou Estaieno.

— Não Sicínio! Ele nunca estaria de acordo! Basta que haja um veto no colégio para que os outros nove tribunos da plebe não possam fazer nada. E Sicínio não estará de acordo, Estaieno. Ele pode ser o maior chato do mundo, mas não é subornável. — Sicínio — disse Estaieno, com o ar mais feliz deste mundo — não é popular junto dos seus colegas. Os seus nove colegas, a quem ele roubou toda a influência que tinham no Fórum, estão fartos, mais que fartos dele! De facto, ainda anteontem ouvi dois deles ameaçá-lo de que o atiravam da Rocha Tarpeia, se ele não se calasse de vez com as suas reivindicações.

— Queres dizer então que Sicínio podia ser intimidado?

— Sim. Sem a mínima dúvida. Claro que vais ter de encontrar uma boa soma até amanhã de manhã, porque nenhum deles aceitará participar nas nossas manobras se não receber uma recompensa adequada. Mas isso podes tu fazer — tanto mais que ganharás mil talentos se os conseguires convencer.

— E quanto achas quevou ter de gastar?

— Nove vezes cinqüenta mil sestércios. Dá quatrocentos e cinqüenta mil sestércios. Consegues arranjar esse dinheiro?

— Posso tentar.vou pedir ao meu irmão. Ele não quer escândalos na família. E há mais algumas fontes. Sim, Estaieno, creio que consigo arranjar essa soma. E assim tudo ficou combinado. Caio Élio Estaieno teve uma noite muito atarefada, visitando sucessivamente os nove tribunos da plebe que lhe interessavam — e entre os quais se contavam Marco Atílio Bulbo, Mânio Aquílio, Quinto Curió e Públio Popílio. Quem ele não visitou foi Cneu Sicínio.

O julgamento deveria recomeçar duas horas após o nascer do dia; antes disso, porém, já o Fórum Romano andava na maior agitação: os freqüentadores do Fórum estavam positivamente em transe, na expectativa de um dia cheio de peripécias. Mal o dia nasceu, Cneu Sicínio viu-se cercado e dominado pelos seus nove colegas do tribunado da plebe. Estes levaram-no então para o alto do Capitólio, onde o moeram de pancada. Depois, conduziram-no até à ponta da Rocha Tarpeia e deixaram-no ver bem os afloramentos pontiagudos que havia ao fundo do precipício. E gritaram-lhe que tinha de acabar com aquela agitação perpétua em torno da restauração dos poderes dos tribunos da plebe. E obrigaram-no a jurar que, de futuro, faria exactamente o que os seus nove colegas lhe mandassem. Por fim, Sicínio foi recambiado para casa numa liteira. Momentos depois de Cetego ter aberto o segundo dia de audiências, nove tribunos da plebe irromperam pelo tribunal de Varrão Lúculo, gritando que um membro da Plebe estava a ser detido, contra sua vontade, por um magistrado.

— Rogo-vos que recorram ao IMS auxilii ferendi! — exclamou Híbrida, de braços estendidos, com um ar compungido.

— Marco Terêncio Varrão Lúculo, um membro da Plebe pediu-nos que exercêssemos o recurso ao ius auxilii ferendü — disse Mânio Aquílio. — Assim sendo, devo informar-te de que vamos exercer esse recurso!

— Isto é um ultraje! — gritou Varrão Lúculo, erguendo-se num ápice. — Eu não vos autorizo a exercerem esse direito! Onde está o décimo tribuno? — Ficou em casa, porque está muito doente — retorquiu Mânio Aquílio, com um sorriso trocista. — Mas podes mandá-lo buscar. Ele não vetará a nossa decisão. — Estão a transgredir a lei! — berrou Cetego. — Isto é um ultraje! Uma vergonha! Um escândalo! Quanto é que Híbrida lhes pagou?

— Libertem Caio António Híbrida! Caso contrário, pegaremos em todos os homens que se opõem à sua libertação e atirá-los-emos da Rocha Tarpeia! — gritou Mânio Aquílio. — Estás a impedir que se faça justiça! — retorquiu Varrão Lúculo. — Como tu muito bem sabes, Varrão Lúculo, num tribunal de um magistrado nunca há justiça! — atirou-lhe Quinto Curió. — Um homem não é um júri! Se queres processar Caio António, então fá-lo num tribunal criminal, onde o ius auxilii ferendi não pode ser exercido! César não se mexeu, nem tentou protestar. Os seus clientes juntaram-se atrás dele, muito agitados. Impassível, César virou-se para eles e disse-lhes com a maior das calmas: — Eu sou um patrício e não um magistrado. Devemos deixar o praetor peregrinus resolver o caso. Não digam nada!

— Muito bem, levem o vosso membro da Plebe! — disse Varrão Lúculo, enquanto segurava Cetego.

— Nesse caso — disse Caio António Híbrida, rodeado pelos nove tribunos da plebe —, deverá ser-me pago o sponsio depositado pelos clientes do nosso advogado César, que tanto gosta dos Gregos.

A farpa da referência aos Gregos cravou-se no espírito de César, levando-o a reviver imediatamente todo o sofrimento causado pelos boatos acerca do seu relacionamento com Nicomedes. Sem a mínima hesitação, avançou pelo meio dos tribunos da plebe e agarrou com toda a força o pescoço de Híbrida. Este sempre se considerara um verdadeiro Hércules, mas a verdade é que não conseguia libertar-se

daquelas mãos poderosas nem responder, fosse de que forma fosse, à violência do agressor. Foram precisos sete homens (Varrão Lúculo e seis lictores) para arrancar César. Entre a multidão, alguns homens começaram logo a falar do estranho comportamento dos nove tribunos da plebe. De facto, nenhum deles mexeu um dedo para ajudar Híbrida. — O julgamento está encerrado! — berrou Varrão Lúculo com toda a sua força. — Dadas as circunstâncias, não há nenhuma acção em julgamento! Eu, Marco Terêncio Varrão Lúculo, assim o declaro! Os queixosos podem levar o seu sponsio. E vão todos para casa! — O sponsio! O sponsio pertence a Caio António! — gritou uma outra voz, a voz de Caio Élio Estaieno.

— Não pertence a Híbrida! — berrou Cetego. — O caso foi encerrado pelo praetor peregrinus e o sponsio encontra-se sob a sua jurisdição! O sponsio será devolvido a quem o depositou! Quanto a isso, não há a menor dúvida judicial!

— Levem o vosso membro da Plebe e deixem o meu tribunal! — gritou Varrão Lúculo, perfeitamente fora de si, aos tribunos da plebe. — Vá, rua! Todos para a rua! É assim que defendem a causa do tribunado da plebe? Desfigurando, de uma maneira escandalosa, aquela que foi a sua função original? Pois fiquem sabendo uma coisa: farei tudo o que estiver ao meu alcance para manter os tribunos da plebe amordaçados para sempre! Os nove homens foram-se embora com Híbrida, com Estaieno atrás deles lamentando a perda do sponsio. Híbrida não parava de afagar o pescoço magoado. Enquanto a multidão excitada dispersava, Varrão Lúculo e César olharam um para o outro.

— Teria gostado muito que estrangulasses aquele animal, mas espero que compreendas que não podia permitir uma coisa dessas — disse-lhe Varrão Lúculo. — Compreendo, sim — retorquiu César, ainda tremendo. — E eu que pensava que conseguia controlar-me! Não sou um homem facilmente excitável. Mas não posso permitir que um sabujo como Híbrida faça insinuações acerca da minha virilidade. — É evidente — retorquiu secamente Varrão Lúculo, lembrando-se do que o seu irmão afirmara sobre tal assunto.

César lembrou-se também nesse instante de que estava perante o irmão de Lúculo, mas decidiu que Varrão Lúculo era perfeitamente

capaz de ter as suas próprias opiniões, sem se deixar influenciar por boatos. — Mas vejam só o descaramento daquele verme! Por todos os deuses! Então não é que ele queria o sponsio! — disse Cícero, aproximando-se agora que a violência tinha acabado. — De facto, é preciso muito descaramento! — concordou César, apontando para o homem mutilado e para a sua esposa.

— É nojento! — exclamou Cícero, sentando-se nos degraus do tribunal, enquanto limpava o suor com um lenço.

— bom, pelo menos conseguimos salvar os vossos dois mil talentos — disse César a Ifícrates, que rondava, hesitante, o seu advogado. — E, se vocês queriam criar alguma agitação em Roma, não há dúvida que o conseguiram. Creio que o Senado passará a ter muito mais cuidado com os governadores que manda para a Macedónia. Agora volta para a tua estalagem e leva estes pobres infelizes contigo. Só lamento que os seus concidadãos se vejam obrigados a gastar fortunas para os ajudar. Mas eu tinha-te avisado.

— Não é isso que eu lamento — retorquiu Ifícrates, afastando-se. — O que eu lamento é que não tenhamos conseguido castigar Caio António Híbrida. — Não conseguimos arruiná-lo financeiramente — retorquiu César. — Mas ele terá de abandonar Roma. Tão cedo não se atreverá a aparecer em público nesta cidade. — Acham — perguntou Cícero — que Híbrida subornou mesmo os nove tribunos da plebe?

— Não tenho a mínima dúvida! — atirou-lhe Cetego, cuja fúria custava a amansar. — Por muito pouco que eu goste de Sicínio, tenho de reconhecer que ele é uma excepção. Os outros tribunos da plebe deste ano são absolutamente miseráveis! — E por que não haviam de ser miseráveis? — perguntou César, cuja fúria amansara já por completo. — O cargo deles nada tem de glorioso actualmente. Os tribunos da plebe encontram-se num beco sem saída.

— O que eu gostava de saber é quanto Híbrida teve de pagar por nove tribunos da plebe — disse Cícero, que não queria abandonar a linha dos seus pensamentos. Cetego franziu os lábios.

— Deve ter pago cerca de quarenta mil por cada tribuno. Os olhos de Varrão Lúculo dançaram-lhe nas órbitas.

— Como é que podes estar tão certo disso, Cetego? Como é que sabes? O rei dos senadores das últimas bancadas esqueceu por fim a sua ira; a ira, ainda que desculpável, era algo que não convinha ao seu estilo. E tratou de responder ao praetor peregrinus com as sobrancelhas muito erguidas e a sua característica fala arrastada. — Meu caro praetor peregrinus, no que toca à ganância dos senadores, não há nada que eu ignore! Podia fazer-te uma lista com o preço de todos os senadores subornáveis. E, quanto àqueles miseráveis, não tenhas dúvidas: quarenta mil é o seu preço. E, como Híbrida depressa descobriu, foi mesmo esse o preço que Caio Élio Estaieno pagou por cada tribuno; ou seja, tinha ficado com noventa mil sestércios para si.

— Devolve-me o dinheiro! — gritou o homem que gostava de torturar e mutilar os seus semelhantes. — Devolve-me o dinheiro, Estaieno, ou arranco-te os olhos com os meus próprios dedos! Porque só gastaste trezentos e sessenta mil sestércios! E eu não ganhei os dois mil talentos!

— Não te esqueças — retorquiu Estaieno, com um sorriso perverso e muito pouco impressionado com aquelas ameaças — de que fui eu quem tive a ideia do recurso ao ius auxili ferendi. Por isso, acho que devo ficar com os noventa mil sestércios. Quanto a ti... bom, quanto a ti, o melhor é agradeceres aos deuses por não teres perdido toda a tua fortuna! O julgamento que não chegou a sê-lo teve um impacte que ainda se fez sentir por algum tempo. Várias foram as suas conseqüências, e duradouras. Uma delas foi que o Colégio dos Tribunos da Plebe desse ano ficou nos anais dos cronistas políticos como o mais infame de sempre; outra foi que a Macedónia passou a ser governada por homens responsáveis (ainda que belicosos); Cneu Sicínio nunca mais reivindicou a restauração dos poderes dos tribunos da plebe; a fama de César como advogado não parou de crescer; e Caio António Híbrida ausentou-se de Roma e das localidades freqüentadas pelos Romanos durante vários anos. De facto, fez uma pequena viagem até à ilha de Cefalénia, no mar Jónio, onde verificou que era o único homem civilizado (se é que tal qualificativo lhe podia ser aplicado) em toda a região e descobriu vários túmulos incrivelmente antigos repletos de tesouros — punhais requintadamente cinzelados e embutidos, máscaras feitas de ouro puro, frascos de electro, taças de cristal de rocha e uma grande quantidade de jóias. Tesouros que valiam muito mais que dois mil talentos. Tesouros que bastavam para lhe garantir o consulado mal regressasse a Roma, mesmo que, para isso, tivesse de comprar todos os votos.

No ano seguinte, nenhum acontecimento importante ocorreu na vida de César, que permaneceu em Roma e continuou a sua carreira de advogado com um êxito notável. No entanto, Cícero não se encontrava em Roma nesse ano. Eleito questor, calhou-lhe por sorteio a cidade de Lilibeu, na Sicília Ocidental, onde trabalharia sob as ordens do governador, Sexto Peduceu. Como a questura implicava que passava a ser membro do Senado, Cícero preferia deixar Roma (embora quisesse ficar em Itália e tivesse ficado furioso com o seu azar) e entregar-se com entusiasmo ao seu trabalho, relacionado basicamente com o abastecimento de cereais. Aquele era um ano pobre, mas os cônsules tinham enfrentado eficazmente a escassez anunciada; haviam comprado enormes quantidades de cereais armazenados na Sicília, que depois venderam a preços baixos em Roma, recorrendo à promulgação de uma lex frumentaria. Como quase todos os literatos, Cícero adorava escrever e receber cartas, e fora um ávido correspondente durante muitos anos. Mas durante a sua estada na Sicília Ocidental, tinha então trinta e um anos, que a sua arte epistolar atingiu o auge — ainda que, praticamente, tivesse apenas um correspondente: o erudito plutocrata Tito Pompónio Ático. Graças a Ático, a solidão de muitos meses em Lilibeu foi aliviada por um fluxo constante de informações e mexericos acerca de tudo e de toda a gente em Roma.

Afirmava Ático numa missiva enviada já perto do final da missão siciliana de Cícero: Ao contrário do que muitos previam, não houve nenhum motim provocado por falta de alimentos. E isto, unicamente porque Roma teve muita sorte com os cônsules deste ano. Tive oportunidade de conversar com o irmão de Caio Cota, Marco, que será cônsul no próximo ano. Nesta nação de homens inteligentes, perguntei, porque é que o povo miúdo ainda é obrigado, de quando em quando, a uma dieta de painço e nabos? Creio que já é tempo, acrescentei, de Roma enfrentar os agricultores privados da Sicília e das nossas outras províncias cerealíferas e de os obrigar a vender ao Estado em vez de ficarem à espera que os mercadores privados lhes paguem mais, pois que, normalmente, isso implica que os cereais fiquem armazenados na Sicília, em vez de virem para Roma, onde o povo miúdo passa fome. Reprovo absolutamente o açambarcamento, quando isso afecta o bem-estar de uma nação cheia de homens inteligentes. Marco Cota escutou-me com imensa atenção e prometeu fazer alguma coisa a esse respeito no próximo ano. Como eu não tenho qualquer interesse nos negócios cerealíferos, posso perfeitamente mostrar-me patriótico e altruísta neste particular. E pára de rir, se fazes favor, Marco Túlio.

Quinto Hortênsio, o mais presunçoso dos nossos edis plebeus numa geração, proporcionou-nos uns jogos magníficos. Para além da distribuição gratuita de cereais à arraia-miúda. É que ele quer ser cônsul quando chegar o seu ano! Claro que a tua ausência faz com que ele se esteja a sair muito bem nos tribunais, mas o jovem César tem-lhe pregado muitos sustos e, freqüentemente, rouba-lhe os louros. Hortênsio não gosta nada disso e, ainda outro dia, ouviram-no dizer que adoraria que César também se fosse embora de Roma por uns tempos. Mas estes disparates típicos de Hortênsio não são nada, se comparados com o banquete que ele ofereceu por ocasião da sua tomada de posse (sim, finalmente aconteceu!) como augure. E que serviu ele? Pavão assado! Sim, leste bem: pavão assado! Os pássaros (seis, no total) foram assados e trinchados e, depois, os cozinheiros, não faço ideia como, devolveram todas as penas aos bichos. De tal modo que os pavões chegaram à mesa em bandejas de ouro, exibindo toda a sua bela plumagem, com as caudas abertas como leques e as cristas levantadas. Foi um verdadeiro espectáculo e outros gastrónomos como Cetego, Filipe e o cônsul sénior do próximo ano, Lúculo, ficaram tão impressionados que devem ter pensado em suicidar-se. No entanto, meu caro Marco, a degustação das aves foi um verdadeiro anticlímax. Uma velha bota do exército tem, com toda a certeza, melhor sabor, além do que é muito mais fácil de mastigar. A morte de Ápio Cláudio Fulcro, na Macedónia, o ano passado, conduziu a uma situação particularmente divertida. Aquela família não parece ter muita sorte, pois não? Primeiro foi o sobrinho Filipe que, quando era censor, tirou tudo o que pôde a Ápio Cláudio; depois, Ápio Cláudio não se mostrou suficientemente empreendedor para fazer boas compras nos leilões das proscrições; a seguir, ficou doente e não pôde ir para a sua província; e, para cúmulo, quando finalmente foi para a Macedónia, portando-se excelentemente em termos militares, morreu antes de conseguir consolidar a sua fortuna. Evidentemente, todos conhecemos de sobejo os seis filhos que deixou. São um horror! Em especial os mais novinhos. Mas Ápio Cláudio, o filho mais velho, está a revelar-se muito inteligente e empreendedor. Primeiro, mal o pai virou costas, deu a irmã mais velha, Cláudia, em casamento a Quinto Márcio Rei, apesar de ela não ter dote nenhum. Ou me engano muito, ou Rei pagou os olhos da cara por ela! Tal como todas as Cláudias Pulcras, ela é um verdadeiro encanto, e isso deve ter ajudado. É de crer que Rei se dê por feliz com este matrimônio, já que, das três filhas de Ápio Cláudio, esta é a única que tem fama de ser simpática. Três rapazes é sempre um problema, quanto a isso ninguém tem dúvidas. E a adopção é uma hipótese que não se põe. O rapaz mais novo (que se atribuiu o nome de Públio Clódio — tal e qual) é uma criatura tão repelente e selvática que ninguém quer adoptá-lo. Caio Cláudio, o rapaz do meio, é idiota. Também ninguém o quer. De maneira que o jovem Ápio Cláudio, apenas com 20 anos, vê-se obrigado a financiar não só a sua carreira no Senado, mas também as carreiras dos outros dois irmãos. O dinheiro com que Quinto Márcio Rei contribuiu para a família é capaz de ser apenas uma gota no deserto dos Cláudios Fulcros. Mas a verdade, meu caro Marco Túlio, é que o jovem Ápio Cláudio se tem saído muitíssimo bem. Sabendo que qualquer pai de família com um mínimo de juízo o recusaria, decidiu procurar uma noiva rica e tratou de cortejar — imagina quem! Nem mais nem menos do que aquela solteirona enfezada que dá pelo nome de Servília Cneia! Estás a ver quem é? Aquela rapariga que foi contratada por Escauro e Mamerco para viver com os seis órfãos de Druso. Não só não tinha dote, como ainda por cima era filha da mais horrenda criatura de Roma, uma Pórcia Liciniana. Mas parece que, entretanto, Escauro e Mamerco lhe providenciaram um dote de duzentos talentos, a que teria direito logo que os órfãos de Druso crescessem. E estes já estão bem crescidos!

Marco Pórcio Catão, o mais novo, já está com 18 anos, vive em casa do pai e declarou a sua independência.

Quando percebeu que aquele rapazinho de 20 anos estava interessado em casar-se com ela, Servilia Cneia não perdeu tempo. Ao que parece, vai já nos 32 e ainda é donzela. Não acredito no boato segundo o qual Cneia se barbeia! A mãe barbeia-se, é verdade, mas isso toda a gente sabe. Para Ápio Cláudio, o melhor do negócio foi que a sua sogra, a referida Pórcia Liciniana, se retirou para uma simpática villa junto ao mar, a qual, segundo se diz, lhe foi oferecida por Escauro e Mamerco no momento em que contrataram a filha. De maneira que Ápio Cláudio não tem de viver com a sogra. Os duzentos talentos vieram mesmo a calhar! Mas ainda não te contei o melhor. E o melhor é que Ápio Cláudio casou a sua irmã mais nova, Clodila, imagina só com quem! com Lúculo! Diz ele, e diz Lúculo, que a rapariga tem 15 anos. Eu dava-lhe 14, mas pode ser que esteja enganado. Mas que negócio, ha?! Graças a Sila, Lúculo é fabulosamente rico e, além disso, é ele quem controla as fortunas dos Divinos Gémeos. Ah, não, não quero dizer com isto que o nosso honrado e vertical Lúculo é capaz de deitar a mão às fortunas de Fausto e Fausta — mas há algo que o impeça de guardar os juros na sua bolsa? E assim, graças à espantosa energia e ao notável espírito de iniciativa deste jovem de 20 anos, a fortuna da família Ápio Cláudio Fulcro tomou um novo e surpreendente rumo. Toda a cidade de Roma se ri, mas não deixa de sentir sincera admiração pelo rapaz. O nosso Ápio Cláudio merece, sem dúvida, a nossa atenção! Públio Clódio, que tem 14 anos — bom, então Clodila tem mesmo 15 —, constitui já uma verdadeira ameaça, e o seu irmão mais velho não conseguirá discipliná-lo. É muito bonito e precoce, é um perigo com as raparigas e está sempre pronto para todo o tipo de patifarias. Creio, porém, que é intelectualmente brilhante, de modo que é muito capaz de assentar e de vir a ser um modelo para os nobres patrícios romanos. E que mais te hei-de contar? Ah, sim. Aquela famosa frase de Cneu Sicínio acerca de Marco Crasso — aquela da palha nos dois cornos de Crasso! — tem muito mais razão de ser do que nós pensámos na altura. Soube-se há pouco tempo que Sicínio tinha uma dívida brutal para com Crasso há uma série de anos. De modo que

a tal frase continha ainda outra nuance. Faenum é ”palha” e faenerator é ”todo aquele que empresta dinheiro”. A palha que envolvia os cornos de Crasso era o dinheiro que este emprestara a Sicínio! Roma ficou a saber desta nova nuance porque Sicínio está falido e não tem dinheiro para pagar a dívida. Eu não sabia que Crasso emprestava dinheiro. Infelizmente, ninguém lhe pode pegar. Empresta apenas a senadores e não cobra juros. Foi a maneira que ele encontrou de arranjar uma clientela senatorial. Creio que valerá a pena seguir com atenção os movimentos do nosso amigo Crasso. Mas não lhe peças dinheiro emprestado, Marco! A ausência de juros é uma grande tentação, mas Crasso exige o pagamento da dívida quando muito bem lhe apetece e manda que lhe paguem imediatamente. Se não lhe pagas, estás arrumado. E não há nada que os censores (se nós tivéssemos censores) possam fazer, porque ele não cobra juros. Quod erat demonstrandum: ele não pode ser considerado um usurário. É apenas um indivíduo muito, muito simpático, que gosta de ajudar os seus amigos senadores que se vêem em apuros. E creio que é tudo. Terência está bem, tal como a pequena Túlia. Que bela menina que tu tens! O teu irmão está na mesma. Quem me dera que ele se desse melhor com a minha irmã! Mas creio que tanto eu como tu já desistimos de tentar melhorar aquele casamento. Pompónia é um virago e Quinto um verdadeiro camponês com isso quero dizer que ele é teimoso, frugal e orgulhoso. E quer ser o senhor da casa.

Espero que tudo te corra bem. Escrever-te-ei uma vez mais antes de partir para o Epiro, onde o meu rancho continua florescente. É claro que a região é demasiado húmida para os rebanhos de ovelhas — as patas das ovelhas apodrecem. Mas as pessoas interessam-se tanto pelo fabrico de lã que acabam por esquecer-se de que o mundo consome uma quantidade enorme de couro de vaca. Não há dúvida: o investimento no gado é muito subestimado. Em fins de Sextilis, César recebeu uma mensagem urgente da Bitínia. O rei Nicomedes estava a morrer e pedia-lhe que fosse vê-lo. Era precisamente disso que César precisava; Roma estava a tornar-se um sítio cada vez mais sufocante e os tribunais não saíam do habitual ramerrão. E embora as notícias da Bitínia não fossem agradáveis, a morte de Nicomedes não era nada de inesperado.

Um dia depois de ter recebido a mensagem de Oradaltis, César estava pronto para partir.

Burgundo, como sempre, acompanhá-lo-ia. Demétrio, o depilador, e Brasidas, o espartano que fazia as suas Coroas Cívicas com folhas de carvalho, também tinham de ir com ele. Agora, com efeito, era natural que César se rodeasse de um maior fausto para viajar — a sua importância na sociedade romana tinha aumentado, o que implicava que precisasse de um secretário, de vários escribas, de vários criados pessoais e de uma pequena escolta dos seus próprios libertos. Daí que a sua comitiva fosse constituída por vinte pessoas: a viagem ia sair-lhe cara. No entanto, César, com 25 anos apenas, era senador há já cinco anos. — Mas não pensem — disse Burgundo para os novos membros da comitiva — que vão viajar calma e confortavelmente. Quando Caio Júlio arranca, ninguém o apanha! Nicomedes vivia ainda quando César chegou à Bitínia; no entanto, era já demasiado tarde para que o velho rei conseguisse recuperar da sua doença. — É apenas velhice, nada mais — disse a rainha Oradaltis, chorando. — Ah, a falta que ele me vai fazer! Sou mulher dele desde os quinze anos. Como é quevou conseguir passar sem ele?

— Conseguirás passar sem ele, porque tens de passar sem ele — retorquiu César, secando as lágrimas. — O teu velho Sila ainda tem muita vida, vai fazer-te companhia. Pelo que me disseste, Nicomedes aceita de bom grado a morte. Eu compreendo-o. Também eu receio chegar a uma idade em que já não servimos para nada.

— Ele meteu-se na cama, à espera de morrer, já lá vão dez dias — disse Oradaltis. — Os físicos dizem que ele pode morrer a qualquer momento. Hoje, amanhã, daqui a um mês. Ninguém sabe.

Quando viu a figura definhada do rei na enorme cama de madeira entalhada, César não acreditou que Nicomedes passasse daquele dia. O corpo do rei mais não era agora que pele e osso. Perdera todas as suas características físicas: estava tão seco e mirrado como uma maçã de Inverno. Mas quando César disse o seu nome, abriu imediatamente os olhos, estendeu os braços e, enquanto as lágrimas lhe corriam pelas faces, um sorriso grato desenhou-se nos seus lábios. — Vieste! — exclamou, com uma voz surpreendentemente forte. — Tinha de vir! — retorquiu César, sentando-se na beira da cama para pegar nas mãos esqueléticas do rei. — Quando me pedes para vir, eu venho. Agora que tinha a companhia de César, o qual o levava da cama para o divã e do divã para uma cadeira num sítio ensolarado e sem correntes de ar, Nicomedes animou-se. No entanto, as suas pernas já não tinham vida e estava tão fraco que ficava a cochilar a meio de uma frase e, quando acordava, momentos depois, já não se lembrava do tema da última conversa. Não conseguia já ingerir alimentos sólidos; limitava-se a beber leite de cabra, misturado com vinho fortificado e mel — mas babava-se tanto que acabava por beber muito pouco. É curioso, pensou o susceptível e imaculado César, que quando uma coisa destas acontece a pessoas que nos são queridas, nós não tenhamos as reacções habituais. De facto, não sinto qualquer espécie de repulsa. Não sinto a mínima tentação de chamar um criado para o limpar. Pelo contrário: é para mim um prazer cuidar dele. Não me importava sequer de despejar o seu bacio. — Tiveste notícias da tua filha? — perguntou-lhe César, num dos seus melhores dias. — Não directamente. Mas parece que ainda é viva e que está bem, na cidade de Cabeira. — Não podes negociar com Mitridates para que ela volte à Bitínia? — O preço é o reino, César. Sabes bem disso.

— Mas se ela não voltar, não haverá herdeiro.

— A Bitínia tem um herdeiro aqui mesmo — disse Nicomedes. — Em Nicomédia? Quem é?

— Eu pensei deixar-te a Bitínia em testamento.

— A mim?

— Sim, a ti. Serias o rei da Bitínia.

— Não, meu querido amigo, isso não é possível.

— Darias um grande rei, César. Não gostavas de governar a tua própria terra? — A minha terra é Roma, Nicomedes, e, como todos os Romanos, eu fui educado na crença de que a República é o melhor dos sistemas.

O lábio inferior do rei tremeu.

— Não consigo sequer tentar-te?

— Não.

— A Bitínia precisa de um homem jovem e muito forte, César. Não encontro ninguém melhor do que tu.

— Há alguém melhor: Roma.

— E romanos como Caio Verres.

— Tens razão. Mas também há romanos como eu. Roma é a única resposta possível, Nicomedes. A menos que prefiras o Ponto.

— Tudo é preferível ao Ponto!

— Então deixa a Bitínia a Roma.

— Podes fazer-me o testamento segundo os preceitos romanos? — Claro.

— Então, fá-lo, César. Deixarei o meu reino a Roma.

Em meados de Dezembro, o rei Nicomedes in da Bitínia morreu. Uma das suas mãos repousava na mão de César; a outra, na mão da esposa. No entanto, não chegou a acordar do seu longo sonho para se despedir daqueles que mais amava.

O testamento foi enviado para Roma, logo que César recebeu uma resposta do Senado, confirmando que o governador da Província da Ásia, Marco Júnio Junco, se deslocaria à Bitínia para tratar da incorporação deste reino na Província da Ásia, após a morte do rei; como César tencionava permanecer em Nicomédia até que o rei morresse, seria ele quem deveria informar Junco do triste desenlace.

A notícia de que Junco seria o primeiro governador da Bitínia constituiu para César uma profunda decepção: o primeiro governador da Bitínia não era um homem compreensivo ou sequer simpático.

— Quero que sejam inventariados todos os tesouros e obras de arte existentes no reino — disse César à viúva. — E também o conteúdo do tesouro, o tamanho e as características da frota e do exército, e todas as armaduras, espadas, lanças, peças de artilharia e engenhos de cerco que a Bitínia possui.

— Assim farei. Mas porquê, César? — perguntou Oradaltis, intrigada. — Porque se o governador da Província da Ásia quiser enriquecer à custa da Bitínia, só assim poderei saber. Nem que ele desvie uma só lança ou um só dracma, é preciso que eu saiba — retorquiu César, com um ar soturno. — Se ele o fizer, processá-lo-ei e garantirei a sua condenação! Enquanto estiveres a fazer o teu

inventário, precisarás de ter pelo menos seis dos mais importantes cidadãos romanos nas tuas terras: eles testemunharão que o teu inventário está correcto. Dessa forma, o inventário será uma prova tão forte que nem mesmo um júri senatorial poderá ignorá-la. — Que os deuses me valham! — disse a rainha. — Achas que corro perigo? — Não. Mas se puderes mudar-te para outro local e para uma casa privada, levando contigo tudo o que quiseres, creio que poderás viver em paz e conforto para o resto da tua vida. De qualquer modo, é melhor que deixes Nicomédia e que não vás nem para Calcedónia, nem para Prusa.

— Não gostas nada desse Marco Júnio Junco.

— Não gosto mesmo nada.

— É outro Caio Verres?

— Duvido, Oradaltis. É apenas um indivíduo venal, igual a tantos outros. Sendo ele o primeiro representante de Roma na Bitínia, imagino que tentará roubar tudo aquilo que pense que Roma o deixa levar — disse César, calmamente. — Roma pedir-lhe-á um inventário de todas as riquezas, mas aposto que a tua lista e a lista dele não vão coincidir. E essa será a melhor altura para o apanharmos!

— E ele não suspeitará da existência de um inventário? César riu-se. — Não, ele não! Os reinos orientais, habitualmente, não são tão meticulosos com essas coisas — só Roma o é. Claro que, sabendo que eu estou aqui, ele pensará que eu já desviei alguma coisa. Por isso, nunca lhe passará pela cabeça que eu possa ter conspirado contigo para o apanhar. Em finais de Dezembro, o plano de César tinha já sido posto em prática. A rainha fora viver para a pequena aldeia piscatória de Reba, à entrada do Bósforo, nas margens do Euxino. Nicomedes possuía nessa aldeia uma villa privada e Oradaltis considerou que essa era a residência ideal para uma rainha retirada.

— Quando Junco pretender anexar a villa, mostra-lhe uma cópia do título de propriedade e informa-o de que o original está em poder dos teus banqueiros. A propósito: já escolheste os teus banqueiros?

— Eu tinha pensado nos banqueiros de Bizâncio. É a cidade mais próxima de Reda.

— Excelente! Bizâncio não pertence à Bitínia e, portanto, Junco não poderá investigar as tuas contas, nem poderá deitar a mão aos teus fundos. Informa também Junco de que o conteúdo da villa é inteiramente teu, pois constitui uma parte do teu dote. Dessa forma, ele não poderá levar nada do que tens dentro da villa. Por isso, não incluas no inventário nenhuma das coisas que levares! Se há alguma pessoa com direito a fazer dessas coisas o que muito bem entender, essa pessoa és tu.

— Tenho de pensar em Nisa também — disse a velha rainha, com um ar tristonho. — Sabe-se lá! Pode ser que um dia ela volte para mim.

Chegou entretanto a notícia de que Junco vogava já no Helesponto e estaria em Nicomédia passados alguns dias; segundo o seu mensageiro, tencionava parar em Prusa para inspeccionar a cidade. César conduziu a rainha para a sua villa, certificou-se de que o tesouro lhe concedia dinheiro bastante para que ela mantivesse um rendimento adequado, depositou os fundos de Oradaltis e o inventário nos bancos de Bizâncio que ela escolhera e, por fim, embarcou, nessa cidade, com a sua comitiva. Seguiria junto à costa trácia da Propôntide rumo ao Helesponto, evitando assim encontrar-se com Marco Júnio Junco, o governador da Província da Ásia — e agora também governador da Bitínia.

César não ia directamente para Roma. Em vez disso, seguiu para Rodes, onde tencionava estudar com Apolónio Molão durante um ou dois anos. Cícero convencera-o de que as aulas com Molão contribuiriam decisivamente para o refinamento da sua oratória, embora estivesse consciente de que a oratória de César alcançara já um nível óptimo. Ao contrário de Cícero, não sentia saudades de Roma, nem sentia a falta da família. Apesar de a companhia da família ser algo de muito agradável e tranqüilizante, a mulher, a filha e a mãe estariam em Roma quando ele voltasse. Nunca lhe passou pela cabeça que uma ou mais dessas pessoas lhe pudessem ser arrancadas pela morte enquanto ele estivesse fora.

Aquela era uma viagem dispendiosa e César recusara-se a receber o dinheiro que Nicomedes e Oradaltis lhe queriam dar. Pedira apenas uma recordação e os reis tinham-lhe dado uma esmeralda genuína da Cítia, muito melhor que as pedras do Sino Arábico, que eram mais pálidas e sombrias; tratava-se de um cabochão do tamanho de um ovo de galinha e tinha os perfis do rei

e da rainha da Bitínia gravados. Aquela era uma recordação invendável. No entanto, César nunca se preocupava com dinheiro. Para já, tinha o suficiente, e, quanto ao futuro, estava convencido de que as coisas acabariam por arranjar-se; este tipo de atitudes provocava na mãe de César a maior perturbação. E, de facto, uma coisa era certa: uma comitiva de vinte pessoas e navios contratados significavam dez vezes mais despesas do que as viagens anteriores! Em Esmirna, César passou algum tempo com Públio Rutílio Rufo e foi com grande prazer que ouviu as histórias do velho tio acerca de Cícero, que o visitara no regresso de Rodes a Roma.

— Um tipo espantoso de novo-rico! — foi o veredicto de Rutílio Rufo. — Nunca se sentirá feliz em Roma, embora adore a cidade. Eu diria que ele é como o sal da terra — um indivíduo decente, afectuoso e ultrapassado.

— Percebo o que queres dizer — anuiu César. — O problema, tio Públio, é que ele tem uma cabeça soberba e uma ambição extraordinária.

— Tal e qual como Caio Mário.

— De modo nenhum — retorquiu firmemente César. — Ele não é outro Caio Mário. Em Mileto, César ficou a saber que Verres tinha roubado as meltores lãs, tapeçarias e tapetes que a cidade possuía, e aconselhou o etnarca a apresentar queixa ao Senado de Roma. — Mas tiveste sorte — disse-lhe César, preparando-se para embarcar rumo a Halicarnasso. — Tiveste sorte por ele não te ter roubado as obras de arte e não ter pilhado os teus templos. Foi isso o que ele fez por todo o lado.

O navio que alugara em Bizâncio era um belo cargueiro de quarenta remos, com a popa alta e saliente pois era aí que ficavam os dois grandes remos de comando, e possuindo, a meia-nau, uma cabina para seu uso pessoal. Trinta cavalos e mulas — incluindo o cavalo de Neso e o seu querido Dedos — foram acomodados nos estábulos, situados entre a cabina de César e a popa. Como não viajavam mais de cinqüenta milhas sem descansarem num porto, os preparativos para reatar a viagem provocavam sempre a maior confusão, pois os cavalos e as mulas eram levados de novo para bordo e instalados no estábulo. Mileto não se comportou de maneira diferente de Esmirna, de Pitane e da outra meia-dúzia de cidades costeiras por onde tinham passado. Toda a gente que estava no porto sabia que aquele navio fora alugado por um senador romano — e não havia ninguém que se mostrasse indiferente. Ali vinha ele! Aquele jovem encantador, vestido com a sua imaculada toga, que caminhava como se fosse o dono do mundo! E não seria mesmo o dono do mundo? Afinal, ele era um senador romano! Claro que alguns dos membros menos importantes da sua comitiva não deixaram de alimentar as conversas: daí que todos os freqüentadores do porto de Mileto soubessem que César era um aristrocrata de elevada linhagem e um homem brilhante, além do que fora ele quem convencera o rei Nicomedes da Bitínia a deixar o seu reino a Roma. Não admira que César se sentisse especialmente contente quando as pranchas de embarque eram retiradas e as âncoras subidas, e o navio se fazia de novo ao mar. Mas como estava um belo dia e o mar estava calmo e a brisa enfunava a grande vela de linho, dispensando mesmo o trabalho dos remadores, o capitão garantiu a César que chegariam a Halicarnasso no dia seguinte.

Sete ou oito milhas a sul de Mileto, a ponta de um promontório avançava mar dentro; o navio de César vogava placidamente entre o promontório e uma ilha esbatida pela distância. — É Farmacussa — disse o capitão, apontando para a ilha. O navio passou perto da ilha, e bastante longe de laso, a cidade fronteira no continente, tomando um rumo que contornaria a próxima península dessa costa retalhada. Farmacussa era uma ilha muito pequena e tinha a forma de um par de seios de mulher, ainda que assimétricos, pois o monte situado a sul era maior que o outro.

— Vive alguém na ilha? — perguntou César.

— Nem sequer um pastor mais o seu rebanho.

Estavam quase a passar a ilha quando uma bela galera de guerra emergiu atrás do maior dos montes, avançando rapidamente na direcção do navio de César. — Piratas! — gritou o capitão, lívido.

César, que se virara para ver o navio, aquiesceu.

— Sim. E estou a ver outra galera. Quantos homens vêm na da frente? — perguntou. — Combatentes? Pelo menos cem, armados até aos dentes. — E na de trás?

O capitão esticou o pescoço.

— É um navio maior. Talvez cento e cinqüenta.

— Nesse caso, não recomendas que resistamos, pois não?

— Não, senador, por todos os deuses! — retorquiu o homem, assustado. — Matar-nos-iam num abrir e fechar de olhos! É de crer que pretendam um resgate, pois sabem com toda a certeza que não levamos uma carga valiosa.

— Quer dizer então que eles sabem que vem alguém a bordo capaz de lhes proporcionar um bom resgate?

— Eles sabem tudo, senador! Têm espiões em todos os portos à volta do Egeu. Aposto que os espiões deixaram ontem Mileto e foram contar aos piratas que o nosso navio trazia um senador romano.

— Então, a base dos piratas é Farmacussa?

— Não, senador. Se a base deles fosse Farmacussa, Mileto e Priena correriam com eles com a maior facilidade. Eles devem ter-se escondido na ilha apenas por alguns dias — à espera de uma vítima. E não precisam de esperar muito. Há sempre um navio interessante a passar por perto. Estamos com pouca sorte. Como estamos no Inverno e o Inverno costuma trazer tempestades, sempre pensei que escaparíamos aos piratas. Mas infelizmente o tempo tem estado demasiado bom!

— Que vão eles fazer connosco?

— Vão levar-nos para a base deles e esperar pelo resgate. — E onde crês que será essa base?

— Na Lícia, provavelmente. Algures entre Patara e Mira.

— É muito longe daqui.

— Vários dias de viagem.

— Porque é que escolheram uma região tão distante?

— Porque é absolutamente segura — aquilo é um paraíso para os piratas! Centenas de enseadas e vales ocultos! Nessa região, há pelo menos trinta grandes colônias de piratas. César mantinha um ar imperturbável, apesar de as duas galeras se encontrarem já muito próximas do seu navio. Podia ver os homens armados alinhados nas amuradas e ouvir os seus gritos.

Continuar: parte 2 de 2