Os Favoritos de Fortuna

Colleen McCullough · Capítulo 3 de 15 · parte 1/4

Páginas do PDF

Os Favoritos de Fortuna

Era extraordinário! Ali estavam eles, o Ésis…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Era extraordinário! Ali estavam eles, o Ésis à vista, e o velho acampamento de Pompeu à sua frente. Voltavam ao ponto de partida, como se os muitos quilômetros que tinham percorrido se resumissem a nada. Uma jornada para ver um velho sem dentes nem cabelo, e que se caracterizara apenas por algumas batalhas menores e por muitas horas de marcha. — Gostava de saber — disse Varrão, cismando — se os homens alguma vez perguntam a si mesmos o que é que andam a fazer nestas guerras.

Pompeu pestanejou, virou a cabeça para Varrão.

— Mas que questão mais estranha! Porque é que eles haviam de se perguntar o que quer que seja? Têm tudo feito! Eu faço-lhes tudo! Tudo o que têm a fazer é cumprir as ordens. — E fez uma careta para aquela hipótese revolucionária segundo a qual algum dos seus veteranos seria capaz de pensar.

Mas Varrão não estava com disposição de desistir.

— Ora, ora, Magno! Eles são homens — iguais a nós nesse aspecto, se não noutros. E, sendo homens, pensam. Ainda que muitos deles não saibam ler nem escrever. Uma coisa é nunca questionar as ordens, outra coisa é não perguntar o que andam para aqui a fazer. — Não entendo isso — retorquiu Pompeu, que de facto não entendia. — Magno, esse fenômeno chama-se curiosidade humana! Faz parte da natureza de um homem interrogar-se sobre as razões seja do que for! Mesmo que esse homem seja um soldado raso picentino que nunca foi a Roma e que não compreende a diferença entre Roma e Itália. Aquilo que fizemos até agora foi ir a Teano e voltar. Ali está o nosso velho acampamento. Não achas que alguns deles são capazes de estar a perguntar para si mesmos o que é que foram a fazer a Teano e porque é que regressámos menos de um ano depois? — Ah, mas eles sabem a resposta! — retorquiu Pompeu, impaciente. — Além disso, são veteranos. Se eles recebessem mil sestércios por cada quilômetro que fizeram nos últimos dez anos, podiam viver no Palatino e dedicar-se à criação de peixes decorativos. Até podiam mijar na fonte e cagar na horta do cozinheiro!

Saíste-me cá um excêntrico, Varrão! Nunca deixas de me surpreender — as coisas em que tu matutas! — Pompeu incitou o seu cavalo e desatou a descer a galope a última colina. De repente, soltou uma gargalhada tremenda, agitou as mãos num aceno; as suas palavras chegaram claramente aos ouvidos de Varrão. — O último a chegar é um ovo podre! Ah, que criança!, pensou Varrão. Que estou eu a fazer aqui? Qual a minha utilidade? Tudo isto é um jogo, uma imensa e magnificente aventura.

Talvez fosse isso mesmo, mas nessa noite, a altas horas, Metelo Pio convocou uma reunião com os seus três legados e Varrão, como sempre, acompanhou Pompeu. A atmosfera era de grande excitação: tinham chegado notícias.

— Carbão não está longe daqui — disse o Bacorinho. Fez uma pausa para pensar no que tinha dito e rectificou: — bom, pelo menos Carrinas está, e Censorino juntar-se-á a ele muito em breve. Aparentemente, Carbão pensou que oito legiões bastariam para deter os nossos progressos. Depois, deu-se conta da grandeza do nosso exército e enviou Censorino com mais quatro legiões. Vão chegar ao Ésis primeiro que nós e será aí que teremos de enfrentá-los. — E Carbão? Onde é que ele está? — perguntou Marco Crasso. — Continua em Arimino. Imagino que está à espera para ver o que Sila tenciona fazer. — E de que modo o jovem Mário se comportará — disse Pompeu. — É verdade — concordou o Bacorinho, erguendo as sobrancelhas. — No entanto, não nos compete a nós preocuparmo-nos com isso. Aquilo que nos compete fazer é vermo-nos livres de Carbão. Pompeu, este é o teu território. Achas que devemos levar Carrinas a atravessar o rio ou que devemos mantê-lo na outra margem?

— Isso na realidade não tem importância — disse Pompeu, calmamente. — As margens são praticamente iguais. Há imenso espaço para manobrar as tropas, alguma cobertura proporcionada pelas árvores, um bom terreno plano para uma batalha que envolva todos os homens, caso possamos provocá-la. — com um ar angélico, acrescentou docemente: — Tu é que tens de tomar uma decisão, Pio. Eu sou apenas o teu legado. — bom, como o nosso objectivo é chegar a Arimino, faz mais sentido que conduzamos os nossos homens para a outra margem — disse Metelo Pio, muito pouco perturbado. — Se conseguirmos obrigar Carrinas a uma retirada, não teremos de atravessar o Ésis para o perseguir. Segundo as nossas informações, dispomos de uma grande vantagem no que toca à cavalaria. Pompeu, se achas que o terreno e o rio o permitem, gostaria que fosses o primeiro a atravessar o rio e que mantivesses os teus soldados montados entre o inimigo e a nossa infantaria. Depois, conduzirei a infantaria para a outra margem, tu retirarás a cavalaria do caminho, e atacaremos. Não há muito que possamos fazer em termos de subterfúgios. Será uma batalha normal. No entanto, se conseguires dar a volta com a cavalaria de modo a colocá-la atrás do inimigo, depois de eu o ter atacado pela frente, então Carrinas e Censorino ficarão entalados e sofrerão uma derrota tremenda.

Ninguém levantou objecções a esta estratégia, que era imprecisa o suficiente para que se ficasse com a ideia de que Metelo Pio tinha algum talento como general. Quando foi sugerido que Varrão Lúculo comandasse as três legiões de veteranos de Pompeu, dando assim inteira liberdade a este para dirigir a sua cavalaria, Pompeu concordou sem hesitar. — Eu comandarei o centro — disse Metelo Pio em conclusão. — Crasso comandará a ala direita e Varrão Lúculo a esquerda.

Como o dia estava bom e o terreno não estava demasiado molhado, as coisas correram praticamente como Metelo Pio planeara. Pompeu atravessou o rio facilmente e os combates de infantaria que se seguiram demonstraram a grande vantagem que as tropas veteranas representavam para um general quando soava a hora da batalha. Embora as legiões de Cipião fossem bastante inexperientes, Varrão Lúculo e Crasso conduziram soberbamente as cinco legiões de veteranos e a sua confiança acabou por contagiar os homens de Cipião. Carrinas e Censorino não tinham tropas veteranas e foram derrotados sem que Metelo Pio tivesse de se esforçar muito. O resultado final teria sido uma derrota fragorosa se Pompeu tivesse conseguido cair sobre a retaguarda do inimigo. Porém, ao dar a volta ao campo para o fazer, deparou com um novo factor. Carbão tinha chegado com mais seis legiões — e três mil cavalos — para impedir o avanço de Pompeu.

Carrinas e Censorino conseguiram retirar sem perderem mais do que três ou quatro mil homens, após o que acamparam perto de Carbão, a pouco mais de um quilômetro do campo de batalha. O avanço de Metelo Pio e dos seus legados deteve-se aí.

— Vamos voltar para o nosso primeiro campo, a sul do rio — disse Metelo Pio, tomando rapidamente uma decisão. — Prefiro que eles pensem que estamos com receio de avançar e também creio que nos convém manter uma boa distância entre as nossas tropas e as deles.

Apesar do resultado algo decepcionante da batalha, o moral entre os soldados era elevado; mais moralizados ainda estavam os chefes, que se reuniram ao crepúsculo na tenda do general. A mesa estava cheia de mapas, desordenadamente espalhados, o que indicava que o Bacorinho tinha estado a examiná-los atentamente.

— Muito bem — disse ele, erguendo-se atrás da mesa. — Quero que examinem isto e que vejam qual será o melhor processo para derrotarmos Carbão. Juntaram-se todos à volta da mesa. Varrão Lúculo segurava num castiçal de cinco velas por sobre os mapas, feitos em pele de ovelha e cuidadosamente desenhados a tinta. O mapa representava a costa adriática entre Ancona e Ravena e também a região interior que se entendia para lá da crista dos Apeninos.

— Nós estamos aqui — disse o Bacorinho, apontando para um local a sul do Ésis. — Para norte, o próximo grande rio é o Metauro, um rio de travessia muito traiçoeira. Toda esta terra pertence ao Ager Gallicus — aqui — e aqui também — Arimino fica na parte norte do Ager Gallicus — alguns rios, mas nenhum, segundo este mapa, apresenta uma travessia difícil. Até que chegamos a este aqui — entre Arimino e Ravena, estão a ver? É o Rubicão, a nossa fronteira natural com a Gália Italiana. — O Bacorinho, metodicamente, procurava abordar todos os aspectos do problema. — Percebe-se perfeitamente porque é que Carbão se instalou em Arimino. Pode subir pela Via Emília na direcção da Gália Italiana, sem grandes problemas; pode seguir pela estrada do Sápis até à Via Cássia, em Arécio, e ameaçar Roma a partir do vale do alto Tibre; pode atingir a Via Flamínia e Roma ITÁLIA (NORTE) E GÁLIA ITALIANA (CENTRO SUL) dessa maneira; pode marchar junto à costa do Adriático até Piceno e, se necessário, deslocar-se até à Campânia através da Apúlia e do Sâmnio. — Nesse caso, vamos ter de desalojá-lo — disse Crasso, constatando o óbvio. — É possível de se fazer.

— Mas há um obstáculo — disse Metelo Pio, franzindo o sobrolho. — Parece que Carbão já não está inteiramente confinado a Arimino. Carbão tomou a inteligente decisão de enviar oito legiões, sob o comando de Caio Norbano, para Fórum Cornélios, na Via Emília — estão a ver? Não muito longe de Favência. Ora bem, Fórum Cornélios não dista muito de Arimino — talvez uns sessenta quilômetros.

— O que significa que ele poderia fazer regressar essas oito legiões a Arimino num dia só, em marcha rápida, se se visse obrigado a isso — disse Pompeu. — Precisamente. Ou conduzi-las para Arécio ou Placência em dois ou três dias — disse Varrão Lúculo, que nunca perdia de vista a situação geral. — Temos Carbão instalado do outro lado do Ésis com Carrinas e Censorino — e dezoito legiões, mais três mil soldados de cavalaria. Há mais oito legiões em Fórum Cornélios, sob o comando de Norbano, e outras quatro, acompanhadas por vários milhares de soldados de cavalaria, defendendo Arimino. — Preciso de uma estratégia global antes de avançar um passo que seja — disse Metelo Pio, olhando para os seus legados.

— É fácil — disse Crasso, fazendo lentamente as suas contas. — Temos de impedir que Carbão se junte a Norbano, temos de separar Carbão de Carrinas e Censorino, temos de separar Carrinas de Censorino. Temos de impedi-los a todos de se juntarem novamente. Aquilo que Sila disse. Fragmentação.

— Um de nós — eu, provavelmente — terá de conduzir cinco legiões para lá de Arimino. Depois, terá de isolar Norbano e de tentar ocupar a Gália Italiana — disse Metelo Pio, sempre de testa franzida. — Não será fácil.

— É fácil! — exclamou Pompeu, impaciente. — Repara — aqui é Ancona, o segundo melhor porto do Adriático. Nesta altura do ano, Ancona está cheia de navios à espera de partirem para o Oriente e para o comércio de Verão. Se levares as tuas cinco legiões para Ancona, Pio, poderás embarcá-las nesses navios e dirigi-las para Ravena. A viagem é fácil, com terra à vista e sem tempestades. Não são mais do que cem milhas — poderás fazer essa viagem em oito ou nove dias, mesmo que tenhas de remar. Se apanhares vento de feição — o que não é improvável nesta altura do ano — conseguirás fazer a viagem em quatro dias. — A sua mão estava fincada no mapa. — Uma marcha rápida de Ravena até Favência, e impedirás que Norbano volte a Arimino.

— Tudo isso terá de ser feito em segredo — disse o Bacorinho, com um brilho nos olhos. — Sim, sim, Pompeu, isto vai resultar! A eles nunca lhes passará pela cabeça que haverá tropas nossas a caminho de Ancona — porque têm todos os seus batedores a norte do Ésis! Pompeu, Crasso, vocês vão ter de ficar aqui, fingindo que têm mais cinco legiões, até que Varrão Lúculo e eu possamos deixar Ancona. Depois, avançam. Tentam alcançar Carrinas, fazendo com que a coisa pareça séria. Se possível, mantenham-no parado — e a Censorino também. Carbão estará com eles de início, mas quando souber que eu desembarquei em Ravena, marchará na direcção de Norbano a fim de o ajudar. É claro que ele pode optar por ficar nesta região e enviar Carrinas ou Censorino para ajudar Norbano. Mas não creio. Carbão precisa de uma localização central.

— Ah, isto vai ser muito divertido! — exclamou Pompeu. Tal era o contentamento na tenda de comando que ninguém achou esta afirmação exagerada; nem mesmo Marco Terêncio Varrão, tranqüilamente sentado num canto a tirar notas.

A estratégia resultou. Enquanto Metelo Pio e Varrão Lúculo conduziam rapidamente as suas cinco legiões para Ancona, as outras seis, mais a cavalaria, fingiam que eram onze. Depois, Pompeu e Crasso abandonaram o acampamento e atravessaram o Ésis sem oposição; pelos vistos, Carbão decidira atraí-los a Arimino, planeando, sem dúvida, uma batalha decisiva num terreno que conhecia melhor.

Pompeu ia à frente, com a sua cavalaria, sempre no encalço da retaguarda de Carbão, constituída por cavalaria chefiada por Censorino; com uma regularidade satisfatória, lançava escaramuças contra essa retaguarda. Esta táctica irritava Censorino, que nunca fora um homem paciente; perto da cidade de Sena Gálica, deu meia-volta e fez-se ao combate, cavalaria contra cavalaria. Pompeu venceu; estava a desenvolver um verdadeiro talento para comandante de cavalaria. Censorino, ferido no seu orgulho, retirou então para Sena Gálica com a infantaria e a cavalaria — mas não por muito tempo. Pompeu tomou de assalto as modestas fortificações da cidade.

Censorino tomou então uma decisão sensata. Sacrificou o cavalo, saiu de Sena Gálica pelas portas traseiras da fortaleza e, com oito legiões de infantaria, seguiu para a Via Flamínia. Por esta altura, Carbão já sabia da indesejável presença do Bacorinho em Favência; Norbano, agora, não podia voltar para Arimino. E assim, Carbão marchou sobre Favência, deixando Carrinas segui-lo com mais oito legiões; em relação a Censorino, decidiu que ele teria de valer-se a si mesmo.

Porém, a meio da marcha, Bruto Damasipo veio ao seu encontro, com a notícia de que Sila tinha aniquilado o exército do jovem Mário em Sacriporto. Sila subia agora a Via Cássia, na direcção da fronteira da Gália Italiana, em Arécio, apesar de não ter mais do que três legiões. Nesse momento, Carbão alterou os seus planos. Só havia uma coisa a fazer. Norbano teria de defender a Gália Italiana sozinho, contra as arremetidas de Metelo Pio; Carbão e os seus legados tinham de deter Sila em Arécio, o que, em princípio, não seria difícil, dado que Sila dispunha apenas de três legiões.

Pompeu e Crasso souberam da vitória de Sila sobre o jovem Mário, mais ou menos na mesma altura em que Carbão soube, e saudaram-na com grande júbilo. Viraram então para oeste, a fim de perseguirem Carrinas e Censorino, cada um dos quais levava oito legiões para Carbão, que havia de esperá-los em Arécio. O ritmo da marcha era imparável, a perseguição determinada. Aquela não seria uma campanha adequada para a cavalaria, decidiu Pompeu quando se dirigia, com Crasso, para a Via Flamínia; de facto, iam entrar nas montanhas. Assim, mandou regressar ao Ésis a sua cavalaria e retomou o comando dos veteranos do pai. Pompeu apercebeu-se entretanto de que Crasso parecia gostar que fosse ele a comandar, desde que aquilo que Pompeu sugerisse não andasse longe do que aquela cabeça dura pensava. Uma vez mais, foi a presença dos veteranos que fez a diferença; Pompeu e Crasso alcançaram Censorino num diverticulum da Via Flamínia, entre Fulgino e Espoleto, e nem sequer precisaram de travar batalha. Exaustas, esfomeadas e cheias de medo, as tropas de Censorino desintegraram-se. Censorino conseguiu reter apenas três das suas oito legiões e estes tão preciosos soldados tinham de ser salvos. com eles abandonou a estrada e cortou pelos campos na direcção de Arécio e de Carbão. Os homens das restantes cinco legiões tinham ficado de tal modo dispersos que nenhum deles conseguiu, posteriormente, integrar-se em novas unidades. Três dias depois, Pompeu e Crasso detiveram Caninas à saída de Espoleto, uma grande e bem fortificada cidade. Desta feita, registou-se uma batalha, mas as tropas de Caninas portaram-se tão mal que ele se viu obrigado a fechar-se na cidade com três das suas oito legiões; das cinco legiões que perdeu, três fugiram para Túder, onde foram capturadas; as duas restantes desapareceram e nunca mais foram encontradas.

— Que maravilha! — exclamou Pompeu, exultante, em conversa com Varrão. — Já sei como é que mevou ver livre daquele pateta do Crasso!

Para se ver livre de Crasso, Pompeu sugeriu-lhe que levasse as suas três legiões para Túder a fim de cercar a cidade, deixando Pompeu sozinho a conduzir o cerco de Espoleto. Crasso dirigiu-se para Túder, todo contente por poder conduzir a sua própria campanha. E Pompeu montou o cerco a Espoleto com o mais elevado dos morais, sabendo que toda a glória iria para quem cercasse Espoleto, pois era o general Caninas em pessoa quem lá estava dentro. Infortunadamente, as coisas não lhe correram de feição! Astuto e ousado, Carrinas, aproveitando uma tempestade nocturna, escapuliu-se de Espoleto e pôs-se a caminho de Arécio, com três das suas legiões intactas.

Pompeu assumiu como um desaire pessoal a fuga de Carrinas; fascinado, Varrão ficou a saber como eram os ataques de cólera de Pompeu: chorava, mordia os nós dos dedos, anancava os cabelos, batia com os calcanhares e com os punhos no chão, partia chávenas e pratos, destruía cadeiras e outras peças de mobiliário. Até que, tal como a tempestade nocturna que tão benéfica fora a Caninas, a raiva de Pompeu amansou.

— Vamos ter com Sila! Vamos para Clúsio! — anunciou. — Despacha-te, Varrão! Não fiques para aí especado!

Abanando a cabeça, Varrão tratou de despachar-se.

Foi no princípio de Junho que Pompeu e os seus veteranos chegaram ao acampamento de Sila, nas margens do rio Clânis, encontrando o comandante-chefe algo irritado e desanimado. As coisas não lhe tinham corrido muito bem quando Carbão descera de Arécio na direcção de Clúsio, pois Carbão quase vencera uma batalha que resultara de um encontro casual e que, portanto, não poderia ter sido planeada. Só a presença de espírito de Sila, que decidiu parar com as hostilidades e retirar para um campo bem fortificado, tinha salvo o dia. — Mas isso não interessa — disse Sila, agora muito mais animado. — Tu agora estás comigo, Pompeu, e Crasso não anda longe. O facto de os ter aos dois comigo vai alterar tudo. Carbão está acabado.

— E como é que as coisas correram com Metelo Pio? — perguntou Pompeu, pouco satisfeito por Sila ter mencionado Crasso.

— Metelo Pio assegurou a conquista da Gália Italiana. Obrigou Norbano a travar batalha nas cercanias de Favência, ao passo que Varrão Lúculo, que teve de fazer um longo caminho até Placência, encarregou-se de Lúcio Quíncio e Públio Albinovano perto de Fidência. Tudo correu muitíssimo bem. O inimigo, ou dispersou, ou morreu. — E Norbano? Que lhe aconteceu?

Sila encolheu os ombros; nunca se preocupava muito com o que acontecia aos seus inimigos militares depois de os ter derrotado e Norbano nunca fora seu inimigo pessoal. — Imagino que foi para Arimino — retorquiu Sila, e virou-lhe as costas para dar instruções acerca do acampamento de Pompeu.

Crasso chegaria de Túder no dia seguinte, à frente de três legiões de homens furiosos; de facto, corria nas suas hostes o boato de que, após a queda de Túder, Crasso encontrara uma fortuna em ouro e ficara com ela, sem sequer pensar em dar algum aos seus soldados. — Isso é verdade? — perguntou Sila, franzindo muito os sulcos que lhe percorriam o rosto e apertando tanto os lábios que estes quase não se viam. Mas não havia nada que pudesse alterar a expressão bovina de Crasso. Limitou-se a abrir muito os olhos pachorrentos: parecia surpreendido, mas não preocupado. — Não — respondeu. — Tens a certeza?

— Não havia nada para arrebanhar em Túder, a não ser uma quantas velhas, e nenhuma delas me agradou.

Sila atirou-lhe um olhar desconfiado, perguntando-se se Crasso não estaria a ser intencionalmente insolente; se assim era, não o poderia saber. — Tu és tão astuto como sinuoso, Marco Crasso — disse Sila, por fim. —vou levar em conta a família de onde vens e a posição que ocupas e por isso opto por acreditar em ti. Mas toma bem atenção! Se descubro que, à custa do Estado, tiras proveito do meu trabalho e dos meus objectivos, nunca mais te quero ver à minha frente!

— Perfeitamente — retorquiu Crasso, aquiescendo, e logo se foi embora. Públio Servílio Vátia tinha ouvido a conversa. Sorria agora para Sila. — Não se pode gostar deste tipo — disse.

— Há poucos homens de quem eu goste — disse Sila, pondo o braço à volta dos ombros de Vátia. — És um homem com sorte, não és, Vátia? — Porquê?

— Porque eu gosto de ti. Tu és um bom camarada — nunca excedes a tua autoridade e nunca discutes comigo. Fazes tudo o que te peço. — Sila bocejou tanto que os seus olhos se alagaram. — Estou seco. Um copo de vinho, é disso que preciso! Vátia, um homem elegante e atraente de tez mate, não pertencia aos patrícios Servílios; no entanto, a sua família era antiga o suficiente para passar nos mais rigorosos dos exames sociais; por outro lado, a sua mãe era uma das mais augustas Cecílias Metelas, filha de Metelo Macedónico — o que significava que Vátia era parente, mais ou menos próximo, das pessoas mais importantes de Roma. Era inclusivamente parente de Sila, pelo casamento. Sentia-se por isso perfeitamente à vontade com aquele braço pesado à volta dos ombros e foi assim que os dois se encaminharam para a tenda de comando; Sila já tinha bebido muito naquele dia e precisava de se equilibrar.

— Que vamos fazer com esta gente quando Roma for minha? — perguntou Sila enquanto Vátia lhe enchia uma taça com o seu vinho especial; Vátia serviu-se de uma garrafa diferente e tratou de misturar água bastante no vinho.

— Que gente, Sila? É a Crasso que te referes?

— Sim, é a Crasso que me refiro. E Pompeu Magno. — Os lábios de Sila abriram-se e franziram-se, deixando à mostra as gengivas. — Repara só, Vátia! Magno! com a idade que ele tem!

Vátia sorriu, sentou-se numa cadeira de desarmar.

— bom, se ele é demasiado jovem, eu sou demasiado velho. Eu devia ter sido cônsul há seis anos. Agora, suponho eu, nunca mais serei.

— Se eu vencer, serás cônsul. Não duvides. Eu sou um péssimo inimigo, Vátia, mas também sei ser um óptimo amigo.

— Eu sei, Lúcio Cornélio — disse Vátia, com um ar terno. — Que farei com eles? — perguntou de novo Sila.

— com Pompeu, posso perceber a tua dificuldade. Não consigo imaginá-lo a regressar à inércia depois de terminada esta guerra. E não sei como conseguirás impedi-lo de aspirar a cargos para que não tem a idade necessária.

Sila riu-se.

— Mas não é cargos que ele quer! O que ele quer é a glória militar! E acho quevou tentar dar-lha. Ele pode ser-me muito útil. — Estendeu a taça para que Vátia a enchesse de novo, e acrescentou: — E Crasso? Que hei-de fazer com Crasso?

— Ah, esse sabe tratar de si mesmo — disse Vátia, servindo o vinho. — Vai ganhar muito dinheiro. É uma coisa que eu percebo. Quando o pai e o irmão, o Lúcio, morreram, Crasso deveria ter herdado mais do que uma viúva rica. A fortuna dos Licínios Crassos chegava aos trezentos talentos. Mas foi confiscada. A mão de Cina! Não lhe escapava nada. E o pobre Crasso não tinha nenhuma influência política, se comparado com Catulo. Sila riu-se com desdém.

— Sim, pobre Crasso! Ele roubou o ouro de Túder, sei muito bem que roubou. — Provavelmente — disse Vátia, com a maior calma. — Mas agora não podes persegui-lo. Precisas dele! E ele sabe disso. É um risco irremediável. A chegada das tropas de Pompeu e Crasso foi levada imediatamente ao conhecimento de Carbão. Perante os seus legados, mostrou uma expressão calma e não referiu uma única vez a hipótese de dar uma nova localização às suas tropas. Continuava a ter muito mais homens que Sila, e isso implicava que Sila não saísse do seu acampamento para provocar outra batalha. E enquanto Carbão esperava que os acontecimentos se consolidassem e lhe ditassem o que havia de fazer, chegaram notícias da Gália Italiana: Norbano e os seus legados Quíncio e Albinovano tinham sido derrotados, Metelo Pio e Varrão Lúculo haviam conquistado a Gália Italiana. Poucos dias depois, chegaram mais notícias da Gália Italiana: notícias mais deprimentes que as primeiras, ainda que talvez não tão importantes. O legado lucaniano Públio Albinovano tinha atraído Norbano e os restantes membros do seu comando a uma conferência em Arimino e assassinado todos eles à excepção de Norbano; depois, Albinovano entregara Arimino a Metelo Pio em troca de um perdão. Tendo expresso o desejo de viver no exílio algures no Oriente, Norbano pudera embarcar num navio. Só um legado escapara: Lúcio Quíncio, que se encontrava sob a custódia de Varrão Lúculo aquando dos assassínios.

O desalento abateu-se sobre o acampamento de Carbão; homens mais dados à acção, como Censorino, começaram a ficar inquietos. Mas Sila continuava a não provocar a batalha. Desesperado, Carbão resolveu dar trabalho a Censorino: teria de levar oito legiões para Preneste, a fim de acabar com o cerco montado ao jovem Mário. Dez dias depois de ter partido, Censorino regressava. Segundo ele, era impossível acabar com o cerco: as fortificações que Ofela construíra eram, pura e simplesmente, inexpugnáveis. Carbão enviou uma segunda expedição a Preneste, mas a única coisa que conseguiu foi perder dois mil bons soldados em conseqüência da emboscada que Sila lhes montou. Finalmente, enviou uma terceira força, sob o comando de Bruto Damasipo, com a missão de encontrar uma estrada que atravessasse as montanhas e de entrar em Preneste através dos caminhos de cabras situados nas traseiras da fortaleza. Esta expedição também falhou; Bruto Damasipo olhou, perdeu todas as esperanças e regressou a Clúsio.

Nem mesmo as notícias de que o chefe samnita, Caio Pápio Mutilo, paralisado da cintura para baixo, reunira quarenta mil homens em Esérnia com a intenção de libertar Preneste, tiveram o poder de animar Carbão; a sua depressão agravava-se de dia para dia. A sua disposição nem sequer melhorou quando Mutilo lhe mandou uma carta, dizendo que a sua força seria afinal constituída por setenta mil homens, pois a Lucânia e Marco Lampónio iam- lhe enviar vinte mil homens e Cápua e Tibério Guta iam pôr à sua disposição mais dez mil. Havia apenas um homem em que Carbão realmente confiava: o velho Marco Júnio Bruto, seu proquestor. Assim, no início de Julho, foi ter com o velho Bruto, mas continuava incapaz de tomar uma decisão que lhe permitisse ter alguma paz de espírito. — Se Albinovano foi capaz de assassinar homens com quem tinha comido e rido durante meses a fio, como é que poderei confiar nos meus legados? — perguntou. Caminhavam pela Via Principalis, uma das duas principais estradas dentro do campo, e suficientemente larga para lhes permitir manter uma conversa privada. Pestanejando ligeiramente por causa do sol, o velho Bruto, com os seus lábios azulados, não lhe deu uma resposta rápida, capaz de o tranqüilizar; em vez disso, matutou no problema e, no momento de responder, disse, com um ar muito grave:

— Não creio que possas confiar, Cneu Papírio. Carbão soprou por entre os dentes, estremeceu.

— Por todos os deuses, Marco, que hei-de fazer?

— Por ora, nada. Mas creio que deves abandonar esta triste história antes que o assassínio se transforme numa alternativa desejável para um ou mais dos teus” legados. — Abandonar.

— Sim, abandonar — insistiu o velho Bruto.

— Eles não mo vão permitir! — exclamou Carbão, tremendo agora. — É provável que não. Mas eles não precisam de saber.vou começar a fazer os preparativos. Entretanto, deveras dar a ideia de que a única coisa que te preocupa é o destino do exército samnita. — O velho Bruto levou a sua mão ao braço do general. — Não desesperes. Tudo vai ficar bem no fim.

Em meados de Julho, o velho Bruto tinha concluído os seus preparativos. A meio da noite, sem fazerem o mínimo ruído, ele e Carbão escapuliram-se do acampamento, sem bagagem nem criados ou animais, à excepção de uma mula carregada de lingotes de ouro inocentemente disfarçados com uma camada de chumbo, e uma bolsa cheia de denários para as despesas da viagem. com um ar de mercadores exaustos, seguiram para a costa etrusca e, em Telamão, embarcaram para África. Ninguém os molestou, ninguém manifestou o mínimo interesse pela mula ou pelos sacos que carregava. A deusa Fortuna, pensou Carbão no momento em que o navio se fez ao mar, estava do seu lado!

Devido à sua paralisia, Caio Pápio Mutilo não podia conduzir o exército formado por samnitas, lucanianos e capuanos. No entanto, viajou com a força samnita desde Esérnia até Teano Sidicino, onde a totalidade do exército ocupou os velhos acampamentos de Sila e Cipião. Depois, Mutilo regressou à sua casa de Teano.

A sua riqueza não parara de crescer desde a Guerra Italiana; agora, possuía villas em meia dúzia de localidades do Sâmnio e da Campânia e era mais rico do que nunca: uma compensação irônica — pensava ele, por vezes — para a perda de todos os movimentos e sensações abaixo da cintura.

Esérnia e Boviano eram as suas cidades favoritas, mas a mulher, Bastia, preferia viver em Teano, onde nascera. O facto de Mutilo não levantar objecções a esta separação quase constante devia-se exclusivamente ao seu estado físico; ele sabia que, como marido, pouco presumo tinha e, por isso, se a sua mulher, compreensivelmente, precisasse de algum consolo físico, seria melhor que o procurasse sem que ele estivesse presente. Mas, até então, não tinha ouvido qualquer boato sobre um eventual comportamento escandaloso da esposa; daí que pudesse concluir que Bastia, se não era, voluntariamente, tão continente como ele, pelo menos era de uma discrição exemplar. Não admira que, ao chegar à sua casa em Teano, Mutilo sentisse uma vontade muito grande de estar com Bastia.

— Não esperava ver-te — disse ela, perfeitamente à vontade. — Não havia razão para tal, já que não te escrevi — disse ele num tom simpático. —

Pareces estar bem.

— Sinto-me bem.

— Tendo em conta as minhas limitações, posso dizer que também estou bem de saúde — prosseguiu ele, dando-se conta de que o encontro entre os dois se estava a revelar mais constrangedor do que esperara; Bastia mostrava-se distante, demasiado cortês. — Que te trouxe a Teano? — perguntou ela.

— Tenho um exército nos arredores da cidade. Vamos combater contra Sila. Ou pelo menos vai o meu exército. Eu ficarei aqui, contigo.

— Até quando? — perguntou ela, educadamente.

— Até que tudo isto tenha um desfecho.

— Estou a ver — retorquiu ela, recostando-se na cadeira. Era uma mulher magnífica, na casa dos trinta, uma mulher que o fitava sem um átomo do desejo ardente que ele costumava encontrar nos olhos dela quando se tinham casado — no tempo em que ele fora um homem por inteiro. — Que posso fazer para que fiques mais confortável, marido? Há alguma coisa especial de que precises?

— Eu tenho o meu criado. Ele sabe o que fazer. Dispondo de um modo mais artístico as faixas de dispendiosa gaze que envolviam o seu corpo esplêndido, Bastia continuou a fitá-lo com aqueles olhos enormes e negros, tão grandes e tão negros que lhe haviam valido um epíteto homérico: A Dama dos Olhos de Camomila.

— És só tu para o jantar? — perguntou ela.

— Não, vêm também os meus três legados. Algum problema? — Não, de modo nenhum. Vais ficar satisfeito com a ementa, Caio Pápio. E tinha razões para ficar. Bastia era uma excelente dona de casa. Conhecia dois dos três homens que tinham vindo jantar com o comandante: Pôncio Telésino e Marco Lampónio. Telésino era um samnita de famílias muito antigas que, na altura da Guerra Italiana, era ainda demasiado jovem para poder ser um dos grandes chefes militares do Sâmnio. Agora com trinta e dois anos, era um homem bem-parecido e suficientemente atrevido para fitar a sua anfitriã com um apetite de que só ela poderia dar-se conta. O bom senso ordenou-lhe que ignorasse esse olhar; Telésino era um samnita e isso significava que odiava os Romanos mais do que poderia admirar alguma mulher.

Marco Lampónio era o chefe máximo da Lucânia e fora um inimigo portentoso de Roma durante a Guerra Italiana. Na casa dos cinqüenta, mostrava-se ainda pronto para a guerra, e desejoso de que o sangue romano corresse. Nunca mudam, estes italianos não romanos, pensou Bastia; destruir Roma significa mais para eles do que a vida, ou a prosperidade, ou a paz. Mais ainda do que os filhos.

O único dos três que Bastia nunca vira era campaniano como ela, o dirigente máximo de Cápua. Chamava-se Tibério Guta, e era um indivíduo gordo, abrutalhado, egoísta e tão ansioso por matar romanos como os outros.

Bastia abandonou o triclinium logo que o marido lhe deu autorização para se retirar, ardendo de raiva, uma raiva que ocultara cuidadosamente. Não era justo! As coisas estavam a correr tão bem, tão bem que até parecia que a Guerra Italiana nunca tinha acontecido, e afinal agora começava tudo de novo. Quisera gritar que nada iria mudar, que Roma iria reduzi-los a pó, a eles e às suas fortunas, uma vez mais; mas controlara-se o suficiente para não abrir a boca. Mesmo que eles se sentissem inclinados a acreditar nela, o patriotismo e o orgulho impedi-los-iam de arrepiar caminho.

A raiva consumia-a, a raiva negava-se a desaparecer. Caminhava de um lado para o outro da sua sala de estar, sufocando o desejo que tinha de bater naqueles homens, naqueles estúpidos homens. Especialmente no marido, dirigente da sua nação, aquele em que todos os Samnitas viam o chefe e o guia. E para onde os guiava ele? Para a guerra contra Roma. Para a ruína. Preocupar-se-ia ele com o facto de que, quando caísse, todos cairiam com ele? Claro que não! Ele era um homem por inteiro, com toda a imbecilidade nacionalista e vingativa de um homem. Um homem por inteiro e, no entanto, apenas metade de um homem. E a metade que lhe restava de nada lhe servia a ela, nem para a procriação nem para o prazer. Bastia decidiu que tinha de conter-se: era demais aquela raiva que a abrasava. Tinha mordido os lábios, sentia uma gotinha de sangue nos lábios. Ardia, Bastia ardia. Havia um escravo... Um daqueles gregos da Samotrácia com o cabelo tão negro que, à luz, ganhava um brilho azul, e fartas sobrancelhas que se uniam por sobre a cana do nariz, e olhos da cor de um lago da montanha... E uma pele tão suave, clamando por beijos... Bastia bateu palmas.

Quando o chefe dos criados apareceu, ela olhou para ele com o queixo espetado e os lábios tão cheios e vermelhos como morangos.

— Os senhores que estão na sala de jantar têm tudo o que precisam? — Sim, domina.

— Óptimo. Continua a atendê-los. E manda-me Hipólito. Preciso dele para uma coisa — disse ela.

A expressão do chefe dos criados permaneceu inalterável; como o seu senhor, ao contrário da senhora, não manifestava qualquer interesse em viver em Teano Sidicino, Bastia era mais importante para ele do que Mutilo. Era preciso que Bastia se sentisse feliz. — Mandar-lhe-ei Hipólito imediatamente, domina — disse ele, fazendo tantas vénias quantas pôde até deixar os aposentos dela.

No tricünium, Bastia fora esquecida desde que se retirara. — Carbão garante-me que tem Sila atado de pés e mãos em Clúsio — disse Mutilo aos seus legados.

— Acreditas nisso? — perguntou Lampónio. Mutilo franziu o sobrolho. — Não tenho nenhuma razão para pensar o contrário, mas, como é evidente, não posso ter a certeza absoluta. Tens alguma razão para achar o contrário? — Nenhuma, excepto que Carbão é um romano.

— Muito bem! Apoiado! — exclamou Pôncio Telésino.

— Os ventos da fortuna mudam — disse Tibério Guta de Cápua, com a boca e o queixo brilhando da gordura de um capão assado com recheio de castanha. — Por ora, lutamos por Carbão. Depois da derrota de Sila, podemos virar-nos contra Carbão e todos os romanos e dar cabo deles todos.

— Absolutamente — concordou Mutilo, sorrindo.

— Devíamos marchar sobre Preneste imediatamente — disse Lampónio. — Devíamos ir já amanhã — observou logo Telésino. Mutilo abanou a cabeça. — Não. Deixamos os homens descansar aqui mais cinco dias. Eles tiveram uma marcha muito dura e ainda têm de percorrer toda a Via Latina. É preciso que estejam frescos quando avistarem o cerco de Ofela.

Tomadas estas decisões — e dada a perspectiva de um relativo descanso nos cinco dias seguintes — o jantar terminou. Muito mais cedo do que o chefe dos criados previra. Ocupado na cozinha, o chefe dos criados não deu pelo fim da reunião. E não estava na sala de jantar quando Mutilo chamou o seu criado germânico, a fim de o levar para o quarto da senhora. Bastia estava nua, ajoelhada sobre as almofadas do seu divã, as pernas afastadas, e, entre as suas sedosas e brilhantes coxas, estava enterrada uma cabeça com um cabelo muito negro, asa de corvo; o corpo compacto e musculado que pertencia à cabeça estava estirado em cima do divã, num abandono tão completo que parecia pertencer a um gato dormindo um sono profundo. Os dois corpos só se tocavam no sítio onde a cabeça estava enterrada; os braços de Bastia estavam estendidos para trás, as mãos apertando as almofadas, e os braços dele caíam junto ao seu corpo.

A porta fora aberta silenciosamente; o escravo germânico parou, com o senhor ao colo, como se fossem dois noivos a entrar na sua nova casa, e aguardou pelas próximas instruções, com toda a resistência entorpecida que caracterizava esses homens, para sempre longe de casa, sem qualquer conhecimento de latim ou grego, permanentemente atormentados pela dor da perda e sempre incapazes de a exprimirem.

Os olhos do marido e da esposa encontraram-se. Nos dela, surgiu um clarão de triunfo, de júbilo; nos dele, a perplexidade, sem o paliativo amortecedor do choque. Os olhos de Mutilo pareciam não lhe obedecer; e assim percorreram aqueles seios gloriosos e a suavidade do ventre e assim se inundaram de lágrimas.

O jovem grego, totalmente absorvido pelo que estava a fazer, apercebeu-se de súbito de uma mudança, de uma tensão, na sua senhora, que nada tinha a ver com ele; por um momento, ergueu a cabeça. Como duas serpentes lançando-se sobre a vítima, as mãos dela aferraram-se ao cabelo negro e fizeram com que a cabeça voltasse à posição inicial. — Não pares! — gritou ela. Incapaz de desviar os olhos, Mutilo reparou que o tecido, ingurgitado de sangue, dos mamilos dela, começava a inchar; as coxas moviam-se enquanto a cabeça cavalgava em cima delas. E então, diante do marido, Bastia gritou e gemeu todo o prazer do seu poderoso orgasmo. Aquele momento pareceu a Mutilo durar uma eternidade. Satisfeita, Bastia largou a cabeça e esbofeteou o jovem grego, que caiu para o lado, dando então pela presença de Mutilo; o seu terror era tão grande que parecia não respirar. — Não podes fazer nada com aquilo! — disse Bastia, apontando para a erecção do escravo, agora quase inexistente. — Mas não há nenhum problema com a tua língua, Mutilo!

— Tens razão, não há — disse ele, agora que todas as lágrimas tinham já secado. — A minha língua ainda é capaz de saborear e sentir. Mas não tem nenhum apetite por carne podre. O escravo germânico levou-o então para o seu quarto e, com todo o cuidado, deitou-o na cama. Depois de ter cumprido todos os seus deveres, deixou Caio Pápio Mutilo sozinho. Nenhum comentário, nenhum sinal de compreensão, simpatia, nada. O que era afinal a maior das graças, pensou Mutilo enquanto enterrava o rosto na almofada. Parecia-lhe estar ainda a ver o corpo da mulher incendiado pelo desejo, os seios, os mamilos inchados, e aquela cabeça — aquela cabeça! Aquela cabeça... Abaixo da cintura, nem sinal de vida, nenhum sinal de vida nunca. Mas o resto do seu corpo conhecia tormentos e sonhos e ansiava por tudo o que o amor representava. Por tudo!

— Eu não estou morto! — disse ele para a almofada, sentindo as lágrimas regressar. — Não estou morto! Mas, por todos os deuses, quem me dera estar morto! No final de Junho, Sila deixou Clúsio. Consigo levou as suas cinco legiões mais três de Cipião; deixou Pompeu a comandar, uma decisão que não deixara deslumbrados os seus outros legados. Mas, como Sila era Sila e ninguém discutia abertamente as suas decisões, tiveram de aceitar Pompeu.

— Limpa isto tudo — disse Sila a Pompeu. — Eles são mais que nós, mas estão desmoralizados. No entanto, quando descobrirem que eu me fui embora para não voltar, é certo e sabido que provocarão a batalha. Toma atenção a Damasipo, é o mais competente de todos. Crasso enfrentará Marco Censorino e Torquato terá de se haver com Carrinas. — E Carbão? — perguntou Pompeu.

— Carbão é uma nulidade. São os seus legados quem comanda. Mas não percas tempo, Pompeu! Tenho outro trabalho para ti.

Não surpreendeu ninguém que Sila tivesse levado consigo os seus principais legados; nem Vátia nem o velho Dolabela teriam agüentado a humilhação de pedir instruções a um jovem de 23 anos. A partida de Sila surgiu na seqüência das notícias sobre os Samnitas. Precisava de se abeirar urgentemente da região de Preneste. Teria de tomar as necessárias disposições antes que os samnitas se aproximassem demasiado da cidade.

Tendo mandado esquadrinhar cuidadosamente toda essa região próxima de Roma, Sila sabia exactamente o que tencionava fazer. A Via Prenestina e a Via Labicana encontravam-se agora impraticáveis devido à muralha e ao fosso construídos por Ofela, mas a Via Latina e a Via Ápia continuavam abertas e ligavam ainda Roma e o Norte com a Campânia e o Sul. Se queria ganhar a guerra, era vital que todos os acessos militares entre Roma e o Sul pertencessem a Sila; a Etrúria estava exausta, mas o Sâmnio e a Lucânia continuavam a ter muitos recursos, tanto humanos como alimentares.

A região entre Roma e a Campânia não era fácil. Junto à costa, os campos davam lugar aos Pauis Pontinos, que a Via Ápia, vinda da Campânia, atravessava, numa linha recta infestada de mosquitos, até que, perto de Roma, subia pelos flancos dos montes Albanos. Estes montes eram na realidade formidáveis montanhas nascidas de um velho vulcão que fendera e elevara a planície aluvial latina inicialmente existente. O monte Albano propriamente dito, centro dessa antiga actividade vulcânica, erguia-se entre a Via Ápia e uma outra estrada, mais interior, a Via Latina. A sul dos montes Albanos, uma outra cordilheira continuava a separar a Via Ápia da Via Latina, impedindo assim qualquer conexão entre essas duas grandes estradas desde a Campânia até um local muito próximo de Roma. Para a marcha militar, a Via Latina era sempre preferida à Via Ápia; os homens ficavam doentes quando marchavam pela Via Ápia. Era portanto preferível que Sila se instalasse perto da Via Latina — mas num sítio de onde, se necessário, pudesse transferir rapidamente as suas forças para a Via Ápia. As duas estradas atravessavam os flancos exteriores dos montes Albanos, mas a Via Latina fazia-o através de um desfiladeiro que cavava uma brecha na escarpa oriental da cordilheira e que permitia que a estrada seguisse na direcção de Roma no espaço mais plano situado entre aquela escarpa e o próprio monte Albano. No local onde o desfiladeiro se abria na direcção do monte Albano, uma pequena estrada virava para oeste, dando a volta a este pico central, e ia juntar-se à Via Ápia, muito perto do lago sagrado de Nemi e do seu templo.

Foi nesse desfiladeiro que Sila se instalou, tratando logo de construir, em cada extremidade do mesmo, gigantescas muralhas fortificadas, de novo com blocos de tufo; desta forma, fechava a estrada secundária que conduzia ao lago Nemi e à Via Ápia. Ocupava agora o único sítio da Via Ápia onde todos os progressos, fosse em que direcção fosse, podiam ser detidos. Concluídas em pouco tempo as suas fortificações, colocou uma série de observadores na Via Ápia, a fim de se certificar de que nenhum inimigo tentava flanqueá-lo usando essa estrada, viesse ele de Roma ou da Campânia. Todas as suas provisões eram encaminhadas ao longo da estrada secundária que conduzia à Via Ápia.

Na altura em que as hostes samnito-lucaniano-capuanas chegaram a Sacriporto, toda a gente chamava já a esse exército ”os Samnitas”, apesar da sua natureza heteróclita (reforçada ainda mais por soldados das legiões dispersas por Pompeu e Crasso que tinham decidido ingressar numa força que, para além de forte, tinha bons comandantes. Em Sacriporto, os samnitas optaram pela Via Labicana, mas logo descobriram que Ofela se encontrava protegido por uma segunda linha de fortificações, de onde não poderia ser desalojado. Brilhando nas alturas com uma mirídade de cores, Preneste parecia um local tão longínquo como o Jardim das Hespérides. Pôncio Telésino, Marco Lampónio e Tibério Guta inspeccionaram cuidadosamente as muralhas de Ofela, mas não encontraram nenhum ponto fraco; por outro lado, era impossível realizar uma marcha através dos campos com setenta mil homens sem um sítio concreto para onde ir. Reuniu então um conselho de guerra, do qual resultou uma mudança de estratégia; a única maneira de forçar Ofela a abandonar o seu abrigo era atacar Roma. Assim, o exército samnita seguiria pela Via Latina a caminho de Roma.

Regressaram então a Sacriporto e meteram pela Via Latina, na direcção de Roma. Mas depressa descobriram que Sila, protegido por enormes muralhas, controlava por completo a estrada. A fortaleza de Sila parecia, apesar de tudo, mais frágil que a de Ofela; daí que as hostes samnitas tivessem atacado. Atacado e falhado. Atacaram uma vez mais. Falharam uma vez mais. Do alto das suas muralhas, Sila troçava daquelas investidas, com tanto prazer como o que Ofela sentira.

Depois, surgiram notícias ao mesmo tempo animadoras e desagradáveis; os homens que tinham ficado em CMsio haviam lançado uma batalha contra Pompeu. A notícia triste era que tinham sofrido uma derrota tremenda; no entanto, os sobreviventes, cerca de vinte mil homens, marchavam agora para Sul, sob o comando de Censorino, Caninas e Bruto Damasipo. Carbão tinha desaparecido, mas a guerra, jurava Bruto Damasipo na sua carta a Pôncio Telésino, continuaria. Se a posição de Sila fosse atacada de ambos os lados ao mesmo tempo, ele acabaria por cair. Ele tinha de cair!

— Disparates! — disse Sila a Pompeu, a quem chamara para uma conferência no desfiladeiro logo que fora informado da vitória de Pompeu em Clúsio. — Podem pôr o monte Pélio em cima do monte Ossa que não conseguirão desalojar-me. Esta construção é inexpugnável, é inatacável.

Continuar: parte 2 de 4