Os Filhos de Duna

Frank Herbert · Capítulo 1 de 8 · parte 1/3

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Os Filhos de Duna

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

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A saga do planeta “Duna” continua. O imperador-messias, não aceita mais ser escravo da presciência e radicaliza sua situação fugindo para o deserto.

Deixando, assim, para seus filhos a gigantesca tarefa de perpetuar a raça-humana através dos tempos e para sempre.

Só mesmo a ameaça, vista através da presciência, pode impelir a um

“Atreides”, a tomar uma atitude tão inumana...

Que futuro aguarda os gêmeos de Paul Atreides, o “Muad'Dib”?

Intrigas e armadilhas continuam sendo as principais armas do poder...

Para Bev: Pelo maravilhoso compromisso de nosso amor e para compartilhar sua beleza e sabedoria, pois ela verdadeiramente inspirou este livro.

Os ensinamentos do Muad'Dib tornaram-se terreno para os pedantes, os supersticiosos e os corruptos. Ele ensinou um modo de vida equilibrado, uma filosofia com a qual os seres humanos poderiam enfrentar os problemas que surgissem de um universo em constante mutação.

Ele disse que a humanidade ainda se encontrava evoluindo, num processo que não terá fim.

E disse que a evolução se processa através de princípios mutáveis, conhecidos pela eternidade. Como pode um raciocínio corrompido funcionar com essa essência?

- palavras do Mentat Duncan Idaho.

Um oval de luz surgiu sobre o espesso tapete que cobria a rocha nua do piso da caverna. A luz brilhava sem uma fonte aparente, tendo existência apenas sobre a superfície de tecido vermelho, trançada com fibra de especiaria. Um círculo indagador, com aproximadamente dois centímetros de diâmetro, movia-se aleatoriamente ora mais alongado, ora oval.

Encontrando o lado de uma cama, ele saltou para o alto e se dobrou através da superfície do leito.

Debaixo do cobertor verde havia uma criança de cabelos ruivos, o rosto ainda gordinho de bebê, a boca generosa uma figura que carecia dos traços esguios, da magreza tradicional dos Fremen, mas que não era tão gorda de água como um estrangeiro. Quando a luz passou sobre as pálpebras cerradas, o pequeno estremeceu. A luz apagou-se.

Agora havia apenas o som regular da respiração, e mais fraco, atrás dele, o gotejar tranquilizador da água sendo coletada numa bacia de recolhimento a partir da armadilha de vento, bem acima da caverna.

Novamente a luz apareceu no aposento um pouquinho maior, alguns lúmens mais brilhante. Dessa vez, trazia uma sugestão de fonte e movimento: uma figura coberta por um manto preenchia o portal abobadado na extremidade da câmara e de lá se originava a luz. Uma vez mais ela fluiu através do aposento, sondando, testando. Tinha uma aparência ameaçadora, uma inquieta insatisfação.

Evitou a criança que dormia, parou sobre a grade do renovador de ar, no canto superior, investigou uma saliência nas cortinas verdes e douradas, que suavizavam a rocha ao redor.

Daí a pouco, a luz se apagou. A figura encapuçada moveu-se com um rumor revelador, produzido pelo agitar de seus mantos, e assumiu posição a um dos lados do portal. Qualquer pessoa consciente da rotina no Sietch Tabr teria deduzido imediatamente que se tratava de Stilgar, Naib do Sietch, guardião dos gêmeos órfãos que um dia receberiam o manto de seu pai, Paul Muad'Dib. Stilgar frequentemente realizava tais inspeções noturnas nos aposentos dos gêmeos, sempre dirigindo-se em primeiro lugar à câmara onde Ghanima dormia e terminando aqui, no quarto adjacente, onde se podia assegurar de que Leto não sofria ameaças.

“Sou um velho tolo”, pensou Stilgar.

Alisou a fria superfície do projetor de luz antes de recolocá-lo na argola do cinturão. O projetor o irritava, embora dependesse dele. Essa coisa era um sutil instrumento do Império, um engenho destinado a detectar a presença de grandes corpos vivos. Revelara apenas as crianças dormindo nos aposentos reais.

Stilgar sabia que seus pensamentos e emoções eram como a luz. Não conseguia imobilizar uma inquieta projeção interior. Algum poder maior controlava esse movimento, projetando-o nesse momento em que sentia o perigo acumulado.

Aqui estava o magneto para os sonhos de grandeza através do universo conhecido.

Aqui estavam as riquezas transitórias, a autoridade profana e o mais poderoso de todos os talismãs místicos: a autenticidade divina do legado religioso do Muad'Dib.

Nesses gêmeos, em Leto e sua irmã Ghanima, focalizava-se um poder espantoso.

Enquanto eles vivessem, o Muad'Dib, embora morto, viveria neles.

Não eram apenas duas crianças de nove anos de idade, eram forças naturais, objetos de veneração e temor. Eram os filhos de Paul Atreides, que se tornara Muad'Dib, o Mahdi de todos os Fremen. O Muad'Dib acendera uma explosão da humanidade, os Fremen se haviam espalhado num jihad, a partir de seu planeta, levando consigo seu fervor através do universo humano, numa onda de governos religiosos cuja amplitude e autoridade onipresente haviam deixado sua marca em cada planeta.

“E no entanto estas crianças são de carne e osso”, pensou Stilgar. “Com dois únicos golpes de minha faca, eu imobilizaria seus corações. E a água deles retornaria à tribo.”

Sua mente agitou-se com tal pensamento.

“Matar os filhos do Muad'Dib!”

Entretanto, os anos o haviam tornado introspectivamente sábio. Stilgar conhecia a origem desse pensamento terrível. Ele vinha da mão esquerda dos amaldiçoados, não da mão direita dos abençoados. O ayat e o burhan da Vida guardavam poucos mistérios para ele. Em certa época, sentira-se orgulhoso por se julgar um Fremen, por pensar no deserto como um amigo e Chaniar seu planeta de Duna, e não Arrakis como estava escrito em todos os mapas imperiais.

“Como as coisas são simples quando nossos messias não passam de sonhos”, pensou. “Ao encontrar nosso Mahdi, soltamos sobre o universo incontáveis sonhos messiânicos. E cada pessoa subjugada pelo jihad sonha agora com um líder que um dia virá.”

Stilgar olhou para a escuridão dos aposentos.

“Se minha faca libertasse todas essas pessoas, será que elas fariam de mim um messias?”

Leto podia ser ouvido, agitando-se em sua cama.

Stilgar suspirou. Jamais conhecera o avô Atreides, cujo nome essa criança tomara. Mas muitos afirmavam que a força moral do Muad'Dib nele se originara.

Iria aquela tremenda capacidade para a justiça saltar uma geração agora? Stilgar sentiu-se incapaz de responder tal pergunta.

E pensou: “O Sietch Tabr é meu. Eu governo este lugar. Sou um Naib dos Fremen. Sem mim, não teria havido Muad'Dib. Estes gêmeos agora... através de Chani, mãe deles e minha parenta, meu sangue pulsa em suas veias. Eu estava lá.

Com o Muad'Dib, com Chani e todos os outros. Que foi que fizemos ao nosso universo?”

Stilgar era incapaz de explicar por que tais pensamentos vinham a seu encontro, no meio da noite, e por que faziam com que se sentisse tão culpado.

Agachou-se dentro de seu manto. A realidade não era nem um pouco como o sonho. O Deserto Amistoso, que um dia se estendera de um pólo a outro, estava reduzido à metade de seu tamanho. O paraíso mítico das extensões verdes que se ampliavam o enchia de angústia. Não era como o sonho. Enquanto seu planeta mudava, ele também mudava. Tornara-se uma pessoa mais sutil do que o chefe de sietch que um dia fora. Agora estava consciente de muitas coisas dos negócios de Estado e das profundas consequências das menores decisões. E no entanto sentia todo esse conhecimento e sutileza como uma fina camada recobrindo um núcleo férreo de consciência mais simples e determinística. E esse núcleo mais antigo o Chamava, suplicando para que retornasse aos valores mais puros.

Os sons do amanhecer no sietch começaram a interferir com seus pensamentos. Pessoas movimentavam-se na caverna. Sentiu a brisa em sua face: elas estavam saindo pelos selos das aberturas, ao encontro da escuridão que precede a aurora. A brisa revelava descuido do mesmo modo como indicava o tempo. Os moradores não mais obedeciam à rígida disciplina da água dos velhos dias. Por que deveriam, quando já se registrará chuva no planeta, quando já se viam nuvens, quando oito Fremen haviam sido cobertos de água e mortos por uma súbita enxurrada num wadi?

Até então a palavra afogado não existira na linguagem de Duna. Mas este não era mais Duna, este era Arrakis... e esta era a manhã de um dia importante.

Ele pensou: “Jessica, a mãe do Muad'Dib e avó destes gêmeos reais, retorna hoje ao nosso planeta. Por que ela termina seu exílio auto-imposto justamente nesta ocasião? Por que deixa a suavidade e a segurança de Caladan em troca dos perigos de Arrakis?”

E existiam outras preocupações: sentiria ela as dúvidas de Stilgar? Ela era uma bruxa Bene Gesserit, graduada nos profundos conhecimentos da Irmandade, e uma Reverenda Madre por seus próprios méritos. Tais mulheres eram perspicazes e muito perigosas.

Iria ela ordenar-lhe que caísse sobre a própria faca, como fora ordenado ao Umma protetor de Liet-Kynes?

“Devo obedecer a ela?”, perguntou-se.

Sentiu-se incapaz de responder a pergunta, mas começou a pensar em Liet-Kynes, o planetólogo que fora o primeiro a sonhar com a transformação do deserto planetário de Duna no planeta verde, propício à vida humana, que agora se tornava.

Liet-Kynes fora o pai de Chani. Sem ele não teria havido o sonho, não teria havido Chani nem os gêmeos reais. As consequências dessa frágil corrente assombravam Stilgar.

“Como nos encontramos neste lugar?”, ele se perguntava. “Como nos combinamos? Para que propósito? Será meu dever terminar com tudo isto?

Desarmar esta grande combinação?”

Stilgar reconhecia esse terrível desejo agindo agora sobre si. Ele podia fazer uma escolha, negando o amor e a família para realizar o que se esperava de um Naib nessa ocasião: tomar uma decisão mortífera pelo bem da tribo. Por um lado, tal assassinato representava o máximo em traição e atrocidade. “Matar simples crianças!” E no entanto elas não eram simples crianças. Haviam consumido a melange, compartilhado da orgia no sietch, vasculhado o deserto em busca da truta da areia e participado de outros jogos das crianças Fremen... E se haviam sentado ante o Conselho Real.

Crianças tão novas e no entanto suficientemente sábias para participarem do Conselho. Podiam ser crianças fisicamente, mas eram ancestrais em suas experiências, nascidas com a totalidade da memória genética, a terrível consciência que os separava, junto com sua tia Alia, de todos os outros seres humanos vivos.

Muitas vezes, em muitas noites, Stilgar encontrara sua mente circulando em torno da crença compartilhada pelos gêmeos e sua tia, muitas vezes despertara em razão desses tormentos, vindo até o quarto dos gêmeos com seus sonhos interrompidos. Agora suas dúvidas focalizavam-se. A ausência de decisão já era em si uma decisão. Ele sabia disso. Esses gêmeos, assim como sua tia, haviam despertado no ventre materno, adquirindo todas as memórias legadas por seus ancestrais. O vício da especiaria fizera isso, o vício de suas mães: Lady Jessica e Chani. Lady Jessica tivera um filho, o Muad'Dib, antes de se viciar. Alia viera depois do vício. Isso era claro, em retrospecto. As incontáveis gerações da procriação seletiva dirigida pelas Bene Gesserit tinham resultado no Muad'Dib, mas em parte alguma nos planos da Irmandade elas haviam considerado a melange. Oh, elas conheciam essa possibilidade, mas a temiam, Chamando-a de Abominação. Esse era o detalhe mais angustiante. Abominação. Elas deviam ter motivos para tal julgamento. E se diziam que Alia era uma Abominação, então isso devia aplicar-se igualmente aos gêmeos, já que Chani também fora viciada, seu corpo saturado de especiaria, e seus genes de algum modo haviam complementado os do Muad'Dib.

Os pensamentos de Stilgar agitavam-se. Não havia dúvida de que esses gêmeos tinham ido além de seu pai. Mas em que direção? O menino falava na habilidade de poder ser o pai e o provara. Ainda muito pequeno, Leto revelara possuir memórias que só poderiam pertencer ao Muad'Dib. Haveria outros ancestrais aguardando nesse vasto espectro de memórias ancestrais cujas crenças e hábitos criavam perigos terríveis para os seres humanos?

Abominações, diziam as sagradas bruxas da Bene Gesserit. E no entanto a Irmandade ambicionava a genofase dessas crianças. As bruxas queriam o esperma e o óvulo sem a perturbadora carne que os carregava. Seria esse o motivo por trás do retorno de Lady Jessica? Ela havia rompido com a Irmandade para apoiar o Duque, seu marido, mas havia rumores de que retornara aos hábitos das Bene Gesserit.

“Eu poderia terminar com todos esses sonhos”, pensava Stilgar. “Como seria simples.”

E no entanto novamente se admirava de que pudesse contemplar tal escolha.

Seriam os gêmeos do Muad'Dib os responsáveis por uma realidade que destruía os sonhos dos outros? Não, eles eram meramente a lente através da qual a luz fluía para revelar as novas formas do universo.

Atormentada, sua mente refugiava-se nas velhas crenças Fremen, pensando:

“A ordem de Deus vem, assim, procure não apressá-la. Deus mostra o caminho e alguns se desviam dele.”

Era a religião do Muad'Dib que mais perturbava Stilgar. Por que haviam transformado o Muad'Dib num deus? Por que endeusar um homem que se sabia ter sido de carne e osso? O Elixir Dourado da Vida, do Muad'Dib, criara um monstro burocrático que cavalgava todos os negócios humanos. Com o Governo unido à religião, qualquer infração da lei tornava-se pecado. Um cheiro de blasfémia erguia-se como fumaça ante qualquer questionamento dos decretos governamentais. A acusação de rebelião invocava o fogo do inferno e os julgamentos farisaicos.

E no entanto eram os homens que criavam esses decretos.

Stilgar sacudiu a cabeça, amargurado, sem dar atenção aos criados que haviam penetrado na antecâmara real para os afazeres matinais.

Tocou a faca cristalina no cinturão, pensando no passado que ela simbolizava, lembrando como mais de uma vez simpatizara com os rebeldes cujos levantes haviam sido esmagados por suas próprias ordens. A confusão propagava-se em sua mente e ele desejava ter meios de controlá-la, retornando à vida simples representada pela faca. Mas o universo nunca volta atrás. Era uma grande máquina projetando-se sobre o vácuo cinzento da não-existência. Sua faca, caso provocasse a morte dos gêmeos, apenas reverberaria contra esse vazio, tecendo novas complexidades que ecoariam pela história humana, criando novas ondas de caos, desafiando a humanidade a tentar novas formas de ordem e desordem.

Stilgar suspirou, percebendo os movimentos a seu redor. Sim, esses criados representavam um tipo de ordem construída ao redor dos gêmeos do Muad'Dib. Eles se moviam sem cessar, cuidando do que fosse necessário. “É

melhor acompanhá-los”, pensou Stilgar. “É melhor enfrentar o que vem por aí quando chegar a hora.”

“Também sou um criado”, disse para si mesmo. “E meu senhor é Deus, o Piedoso, o Clemente.” E lembrou-se de uma frase: “Certamente, Nós colocamos grilhões sobre seus pescoços, cobrindo-os até o queixo, de modo que suas cabeças se erguessem. E Nós colocamos uma barreira diante deles, e outra atrás. E Nós os cobrimos para que não pudessem ver.”

Assim estava escrito na velha religião Fremen.

Assentiu para si mesmo.

A capacidade de ver, de antecipar o momento seguinte, como o Muad'Dib fizera em suas espantosas visões do futuro, acrescentava um contrapeso às atividades humanas. Criava novos lugares para decisão. Estar livre dos grilhões poderia muito bem ser o resultado de uma vontade divina. Essa era outra complexidade além da percepção humana normal.

Stilgar afastou a mão da faca, os dedos comichando com a lembrança. Mas a lâmina que uma vez brilhara na boca escancarada de um verme da areia continuava na bainha. Sabia que não puxaria a faca nesse momento para matar os gêmeos. Chegara a uma decisão. Era melhor manter aquela velha virtude que ainda nutria: a lealdade. É preferível a complexidade do que se pensa conhecer do que aquela que desafia a compreensão. Melhor o agora do que o sonho futuro. Um gosto amargo na boca dizia a Stilgar o quanto podem ser vazios e revoltantes certos sonhos.

“Não! Chega de sonhos!”

DESAFIO: “Viste o Pregador?”

RESPOSTA: “Vi um verme da areia.”

DESAFIO: “Que me dizes desse verme?”

RESPOSTA: “Ele nos dá o ar que respiramos.”

DESAFIO: “Então porque destruímos sua terra?”

RESPOSTA: “Porque o Shai-Hulud (Verme da areia endeusado) assim ordena.”

- Enigmas de Arrakis por Harq al-Ada

Como era costume dos Fremen, os gêmeos Atreides levantavam-se uma hora antes do nascer do sol. Em suas câmaras adjacentes, eles bocejaram e se espreguiçaram em secreta harmonia, sentindo a atividade na caverna-alojamento ao redor. Podiam ouvir os criados, na antecâmara, preparando o desjejum. Uma sopa simples com tâmaras e nozes misturadas num liquido obtido a partir da especiaria parcialmente fermentada. Havia globos luminosos na antecâmara e uma suave luz amarelada penetrava através das arcadas. Os gêmeos vestiram-se rapidamente a essa luz suave, um ouvindo o outro nas imediações. Como tinham combinado, ambos envergaram trajes-destiladores para se protegerem dos ventos quentes do deserto.

Dentro em pouco, o par real encontrou-se na antecâmara, notando a súbita imobilidade dos criados. Leto, como se observou, usava uma capa cor de bronze, de bordo negro, sobre o cinza lustroso do traje-desolador. Sua irmã usava uma capa verde. A gola de cada uma das capas era presa por uma fivela com a forma do falcão dos Atreides, dourado com jóias vermelhas formando os olhos.

Vendo todo esse requinte, Harah, uma das esposas de Stilgar, comentou:

— Vejo que se vestiram em honra de sua avó.

Leto apanhou sua terrina com o desjejum antes de olhar para o rosto de Harah, escuro e vincado pelo vento. Sacudiu a cabeça e perguntou:

— Como sabe que não é a nós mesmos que honramos?

Harah enfrentou seu olhar atrevido sem estremecer e disse:

— Meus olhos são tão azuis quanto os seus.

Ghanima riu alto. Harah sempre fora uma adepta do jogo de desafio dos Fremen. Em uma única frase ela dissera: “Não brinque comigo, garoto. Você pode

ser da realeza, mas ambos trazemos o estigma do vício da melange, olhos sem partes brancas. Que Fremen necessita de mais elegância ou maior honra do que essa?”

Leto sorriu sacudindo a cabeça, arrependido.

— Harah, meu amor, se você fosse mais jovem e não pertencesse a Stilgar, eu a tomaria como esposa.

Harah aceitou essa pequena vitória com tranquilidade, acenando para que os outros criados continuassem a preparar os aposentos para as importantes atividades do dia.

— Comam seu desjejum — disse. — Vão precisar de energia hoje.

— Então concorda em que não estamos suficientemente arrumados para encontrar nossa avó? — perguntou Ghanima, falando com a boca cheia.

— Não tenha medo dela, Gham — respondeu Harah.

Leto engoliu uma porção de sopa e enviou um olhar indagador para Harah. A mulher era infernalmente sábia, percebendo o jogo da elegância com tanta rapidez.

— Será que ela pensa que a tememos? — perguntou ele.

— Provavelmente não — disse Harah. — Lembre-se de que ela era nossa Reverenda Madre. Conheço seus hábitos.

— Como foi que Alia se vestiu? — perguntou Ghanima.

— Ainda não a vi — respondeu Harah de modo seco, afastando-se.

Leto e Ghanima trocaram um olhar de compreensão e se curvaram sobre sua refeição. Daí a pouco saíam para a grande passagem central.

Ghanima falou então, usando um dos antigos idiomas que ambos compartilhavam através da memória genética.

— Então, hoje temos uma avó.

— Isso deixa Alia muito incomodada — disse Leto.

— Quem gosta de conceder tal autoridade? — perguntou Ghanima.

Leto riu baixinho, um som adulto saindo curiosamente de uma carne tão jovem.

— É mais do que isso.

— Será que os olhos da mãe dela observarão o que já observamos? — E por que não?

— Sim... deve ser disso que Alia tem medo.

— Quem conhece a Abominação melhor do que uma Abominação? —

indagou Leto.

— Nós podemos estar errados, você sabe — comentou Ghanima.

— Mas não estamos. — E citou o Livro de Azhar das Bene Gesserit: — “É

com razão e terrível experiência que nós Chaniamos de Abominação aos pré-nascidos. Pois quem sabe que esquecida e amaldiçoada personalidade de nosso passado mais maligno poderia se apoderar da carne viva?”

— Conheço a história — disse Ghanima. — Mas se isso fosse verdade, por que então não sofremos esse assalto interior?

— Talvez porque nossos pais montem guarda dentro de nós — respondeu Leto.

— Então, por que Alia não teve guardiães?

— Não sei. Pode ser pelo fato de um dos pais ainda permanecer entre os vivos. Ou simplesmente porque ainda somos jovens e fortes. Talvez quando formos mais velhos e cínicos.

— Devemos ter muito cuidado com essa avó — disse Ghanima.

— E não discutir esse Pregador que anda pelo planeta propagando a heresia?

— Não acredita realmente que ele seja o nosso pai!

— Eu não faço julgamentos a respeito, mas Alia o teme.

Ghanima sacudiu a cabeça bruscamente:

— Eu não acredito nessa besteira de Abominação!

— Você tem tantas memórias quanto eu. Pode acreditar no que desejar.

— Você acha que é porque ainda não nos atrevemos a experimentar o transe da especiaria, enquanto Alia já o fez.

— É exatamente o que penso.

Ficaram em silêncio ao penetrarem no fluxo de pessoas que usavam a passagem central. Fazia frio no Sietch Tabr, mas os trajes-destiladores estavam quentes e os gêmeos mantiveram os capuzes condensadores por sobre os cabelos ruivos. Seus rostos denunciavam a marca dos genes compartilhados: a boca ampla e os olhos bem separados, na tonalidade inteiramente azul dos viciados na especiaria.

Leto foi o primeiro a notar a aproximação de sua tia Alia.

— Aí vem ela — disse ele, usando a linguagem de batalha dos Atreides como advertência.

Ghanima acenou com a cabeça para a tia, quando esta parou diante deles, e disse:

— Uma presa de guerra saúda sua parenta ilustre.

Usando a mesma linguagem Chakobsa, Ghanima enfatizou o significado de seu próprio nome Presa de Guerra.

— Como vê, adorada tia — disse Leto, — nos preparamos para nosso encontro com sua mãe.

Alia, a única pessoa no apinhado lar real que não nutria a menor surpresa ante o comportamento adulto dessas crianças, olhou furiosa de uma para a outra. E

disse:

— Cuidado com a língua, vocês dois!

O cabelo cor de bronze de Alia estava preso atrás com dois anéis de água dourados. Seu rosto oval apresentava-se carrancudo e a boca ampla, com seu traço de auto-indulgência, comprimia-se em linha reta. Vincos de preocupação expandiam-se nos cantos dos olhos de cor azul sobre azul.

— Já lhes avisei para que se comportassem hoje — disse ela. —

Conhecem as razões tão bem quanto eu.

— Nós conhecemos as suas razões, mas talvez a senhora não conheça as nossas — disse Ghanima.

— Gham! — censurou Alia.

Leto olhou para a tia com raiva e disse:

— Hoje, dentre todos os dias, não fingiremos ser crianças idiotas!

— Ninguém quer que finjam — respondeu Alia. — Mas acreditamos que não seja prudente provocar pensamentos perigosos em minha mãe. Irulan também concorda comigo. Quem sabe que papel Lady Jessica escolherá desempenhar?

Apesar de tudo, ela é uma Bene Gesserit.

Leto sacudiu a cabeça, imaginando: “Por que Alia não nota o que nós suspeitamos? Será que está ficando velha?” Observou a sutileza dos traços genéticos no rosto de Alia que traíam seu avô materno. O Barão Vladimir Harkonnen não fora uma pessoa agradável. Ante essa observação, Leto sentiu sua própria inquietação, pensando: “Ele é meu ancestral também.”

— Lady Jessica foi treinada para governar — disse ele. Ghanima assentiu com a cabeça. — Por que ela escolheu esta ocasião para retornar?

Alia franziu a testa e respondeu:

— É possível que apenas deseje ver os netos?

Ghanima pensou: “É isso que a senhora espera, querida tia. Mas sabe que não é provável.”

— Ela não pode governar este lugar — explicou Alia. — Ela tem Caladan.

Isso devia ser suficiente.

Ghanima falou de modo conciliador:

— Quando nosso pai partiu para morrer no deserto, ele deixou a senhora como Regente. Ele...

— Tem alguma queixa? — perguntou Alia.

— Foi uma escolha justa — disse Leto, aproveitando a deixa de sua irmã.

— Era a única pessoa que sabia como é nascer do modo como nascemos.

— Há rumores de que minha mãe retornou à Irmandade — disse Alia.

— E vocês dois sabem o que as Bene Gesserit pensam a respeito de Abominações — disse Leto.

— Sim!

— Uma vez bruxa, sempre bruxa assim dizem — completou Ghanima.

“Mana, você joga um jogo perigoso”, pensou Leto. Ainda assim, acompanhou a irmã, dizendo:

— Nossa avó era uma mulher muito simples, mais simples que as outras de seu gênero. A senhora compartilha das memórias dela, tia Alia. Certamente devia saber o que esperar.

— Simples! — disse Alia, sacudindo a cabeça. Olhou para a passagem cheia de gente antes de voltar sua atenção para os gêmeos. — Se minha mãe fosse menos complexa, nenhum de vocês estaria aqui. Nem eu. Eu teria sido sua primogênita e nada disto... — Ela estremeceu, dando de ombros. — Eu os aviso para que sejam muito cuidadosos com o que disserem hoje. — Alia olhou para cima. — Aí vem a minha guarda.

— Ainda não considera seguro que a acompanhemos até o espaçoporto?

— indagou Leto.

— Esperem aqui — respondeu Alia. — Eu a trarei.

Leto trocou olhares com a irmã e disse:

— Já nos disse muitas vezes que as memórias que guardamos daqueles que viveram antes de nós carecem de certa utilidade até que tenhamos experimentado o suficiente, em nossa própria carne, para lhes emprestar a realidade. Minha irmã e eu acreditamos nisso. E previmos mudanças perigosas com a chegada de nossa avó.

— Não deixem de acreditar nisso — disse Alia, e se virou, sendo envolvida por sua guarda e caminhando rapidamente para a entrada, onde os omitópteros os aguardavam.

Ghanima enxugou uma lágrima do olho direito.

— Água para os mortos? — sussurrou Leto, tomando-lhe o braço. Ghanima suspirou fundo, pensando em como observara sua tia usando os modos que conhecia a partir de sua própria acumulação de experiências ancestrais.

— O transe da especiaria causou isto? — indagou, sabendo de antemão o que Leto lhe diria.

— Tem alguma sugestão melhor?

— Só para argumentar, por que o nosso pai... ou mesmo a nossa avó não sucumbiu a isso?

Ele a observou por um momento. Então acrescentou:

— Sabe a resposta tão bem quanto eu. Eles tinham personalidades formadas quando vieram para Arrakis. O transe da especiaria... — deu de ombros.

— Eles não nasceram neste mundo já possuídos por seus ancestrais.

— Já Alia...

— Por que ela não acreditou nos avisos das Bene Gesserit? — Ghanima mordeu o lábio inferior. — Alia tinha a mesma informação que nós para tomar por base.

— Elas já a estavam Chamando de Abominação — disse Leto. — Não acharia tentador tentar descobrir se você é mais forte que todos aqueles?

— Não, eu não!

Ghanima fugiu ao olhar questionador de seu irmão, estremecendo. Era só consultar suas memórias genéticas e os avisos da Irmandade tomavam forma nítida.

“Os pré-nascidos possuem uma tendência observável a se tornarem adultos de hábitos perversos. E a causa provável...” Novamente estremeceu.

— É uma pena que não tivéssemos alguns pré-nascidos em nossa ancestralidade — disse Leto.

— Talvez tenhamos.

— Mas nós... Ah, sim, a velha pergunta sem resposta: teremos realmente acesso aberto ao arquivo total de experiências de cada um de nossos ancestrais?

A partir de sua própria inquietação interior, Leto sabia como essa conversa devia ser perturbadora para a irmã. Eles já haviam discutido muitas vezes essa questão, sem nunca chegar a conclusão alguma. Ele acrescentou:

— Devemos retardar e retardar sempre, cada vez que ela nos pressionar para o transe da especiaria. Devemos ter um cuidado extremo com superdoses de especiaria. Esse é o nosso melhor curso de ação.

— Uma superdose teria que ser muito grande — comentou Ghanima.

— Nossa tolerância é provavelmente muito alta — concordou Leto. —

Veja de quanto Alia precisa.

— Tenho pena dela — disse Ghanima. — A atração deve ter sido sutil e insidiosa, rastejando em seu subconsciente até que...

— Ela é uma vítima, sim — disse Leto. — Abominação.

— Nós podemos estar errados.

— Certo.

— Eu sempre me pergunto — meditou Ghanima — se a próxima memória ancestral que buscarmos não será aquela que o passado não se encontra mais distante do que seu travesseiro.

— Devemos buscar uma oportunidade para discutir isso com nossa avó.

Assim me incita a memória dentro de mim. — disse Leto.

Ghanima olhou para ele.

— O conhecimento demasiado não torna fáceis as decisões.

O sietch era na orla do deserto

Era de La'et, era de Kyne,

Era de Stilgar, era do MuadVib.

E, uma vez mais, era de Stilgar.

Os Naibs, um por um, dormem na areia.

Mas o sietch continua.

- de uma canção Fremen

Alia sentia o coração batendo forte enquanto caminhava para longe dos gêmeos.

Durante alguns segundos pulsantes, sentira-se compulsivamente próxima de ceder ao desejo de ficar com eles e pedir-lhes ajuda. Que tola fraqueza.

A memória transmitiu uma calma advertência através de seu corpo. Será que os gêmeos se atreveriam a praticara presciência? O caminho que lhes engolfara o pai devia atraí-los, o transe da especiaria, com suas visões ondulantes do futuro, como gaze soprada por um vento inconstante.

“Por que não posso ver o futuro?”, perguntou-se Alia. “Por mais que eu tente, por que ele me escapa?”

Os gêmeos devem ser levados a tentar, disse ela a si mesma. Eles podem ser atraídos para isso. Afinal, possuem a curiosidade das crianças aliada a memórias que abrangem milênios.

“Exatamente como eu”, pensou Alia.

Sua guarda abriu os selos de umidade da Entrada Oficial do sietch e formou de lado, enquanto ela emergia para a plataforma de pouso onde os ornitópteros aguardavam. Havia um vento do deserto soprando poeira através do céu,

entretanto, o dia era radioso. Emergir da luminosidade dos brilho-globos do sietch para a luz do dia lançou adiante seus pensamentos.

Por que Lady Jessica retornava nesse momento? Alguém teria contado histórias em Caladan, histórias sobre como a Regência era...

— Devemos apressar-nos, minha senhora — disse um dos guardas, erguendo sua voz acima dos sons do vento.

Alia deixou que a ajudassem a subir no ornitóptero e prendeu o arreio de segurança, mas seus pensamentos continuavam saltando adiante.

“Por que logo agora?”

Enquanto as asas do ornitóptero batiam e a aeronave deslizava no ar, Alia sentiu a pompa e o poder de sua posição como se fossem coisas físicas...

Mas eram tão frágeis, oh, como eram frágeis!

“Por que logo agora, quando seus planos ainda não estavam concluídos?”

As névoas poeirentas se ergueram, levadas pelo vento, e ela pôde ver a luz do sol brilhando sobre a nova paisagem do planeta: amplas extensões de vegetação verde onde um dia predominara a terra ressequida.

“Sem uma visão do futuro, eu posso falhar. Oh, que mágica eu poderia realizar se ao menos pudesse ver como Paul via! Não é amargura o que me trazem as visões prescientes.”

Uma fome atroz estremeceu através dela e Alia desejou poder abdicar de tal poder. Oh, ser como os outros eram, cegos na mais segura de todas as cegueiras, vivendo apenas a hipnótica meia vida na qual o choque do nascimento precipita a maioria dos humanos. Mas não! Nascera uma Atreides, vítima de uma consciência com a profundidade de eras que lhe fora imposta pelo vício de sua mãe.

“Por que minha mãe está de volta hoje?”

Gurney Halleck estaria com ela sempre o servo dedicado, o assassino de aluguel de modos feios, leal e direto, um músico que executava um assassinato ou alegrava o ambiente com igual tranquilidade, tocando seu baliset de nove cordas.

Alguns diziam que ele se tornara o amante de sua mãe. Isso era algo que devia descobrir. Podia revelar-se uma informação valiosa.

O desejo de ser como os outros a abandonou.

“Leto deve ser levado ao transe da especiaria.”

Lembrava-se de ter perguntado ao garoto como ele se portaria com relação a Gurney Halleck. E Leto, sentindo os significados subjacentes à pergunta, dissera que Halleck era leal, mas “com uma falha”. E acrescentara:

— Ele adorava... meu pai.

Notara a pequena hesitação. Leto quase dissera “me adorava” em vez de

“adorava meu pai”... Sim, às vezes era difícil distinguir a memória genética da pessoa. E Gurney Halleck só tornaria essa distinção mais difícil para Leto.

Um sorriso cruel tocou os lábios de Alia.

Gurney preferira retornar a Caladan com Lady Jessica após a morte de Paul. Sua volta deixaria muitas coisas emaranhadas. Voltando a Arrakis, ele adicionaria suas próprias complexidades às linhas já existentes. Ele servira ao pai de Paul, e desse modo prosseguia na sucessão: de Leto I para Paul, de Paul para Leto

II. E, saindo do programa de procriação Bene Gesserit, de Jessica para Alia, de Alia para Ghanima uma ramificação.

Gurney, aumentando a confusão de identidades, poderia revelar-se valioso.

“Que faria ele se descobrisse que carregamos o sangue dos Harkonnen que ele odeia tanto?”

O sorriso nos lábios de Alia tornou-se introspectivo. Os gêmeos eram, apesar de tudo, crianças. Eram como crianças com incontáveis ancestrais, cujas memórias pertenciam a outros e a elas próprias. Iriam ficar de pé, na saliência da entrada do Sietch Tabr, e observar o rastro deixado pela nave de sua avó ao pousar na Bacia de Arrakeen. Aquela marca flamejante da passagem da nave, bem visível no céu... isso tornaria a chegada de Jessica mais real para seus netos?

“Minha mãe vai me indagar quanto ao treinamento deles”, pensou Alia.

“Terei misturado as disciplinas prana bindu com a ponderação adequada?

E eu lhe direi que eles treinam a si mesmos, exatamente como eu fiz. E lhe citarei as palavras de seu próprio neto: “Entre as responsabilidades do comando está a necessidade de punir... mas somente quando a vítima assim o exige.”

Alia concluiu então que, se ao menos conseguisse manter a atenção de Lady Jessica suficientemente voltada para os gêmeos, outros poderiam escapar de sua inspeção minuciosa.

Tal coisa poderia ser feita. Leto era muito parecido com Paul. E por que não seria? Ele poderia ser Paul quando quisesse. Até mesmo Ghanima possuía essa perturbadora habilidade.

“Exatamente como eu posso ser minha mãe, ou qualquer uma das outras que partilharam suas vidas conosco.”

Desviou-se desse pensamento e olhou para a paisagem da Muralha Escudo, que passava. E então: “Como terá sido deixar a morna segurança de Caladan, com sua riqueza de água, e retornar a Arrakis, este planeta desértico onde seu Duque foi assassinado e seu filho morreu como um mártir?”

Por que Lady Jessica estaria voltando agora?

Alia não encontrou resposta, nenhuma resposta certa. Ela podia compartilhar a consciência do ego de outras, mas, onde as experiências seguiam seus diferentes caminhos, seus motivos igualmente divergiam. A matéria-prima para as decisões jazia em ações particulares executadas por indivíduos. Para os pré-nascidos, para os muito-nascidos Atreides, esta permanecia como uma realidade suprema. Em si mesma, outro tipo de nascimento: fora a separação absoluta da carne que vivia e respirava ao deixar o ventre materno que a afligira com a consciência múltipla.

Alia não achava estranho que ao mesmo tempo amasse e odiasse sua mãe.

Era uma necessidade, um equilíbrio necessário que não deixava espaço para culpa ou remorso. Onde poderia acabar o amor ou o ódio? Seria possível culpar as Bene Gesserit por terem colocado Lady Jessica em determinado caminho? A culpa torna-se difusa quando a memória abrange milênios.

A Irmandade buscara apenas gerar um Kwisatz Haderach: o equivalente masculino de uma Reverenda Madre plenamente desenvolvida... e mais um ser

humano de sensibilidade e consciência superiores, o Kwisatz Haderach, que poderia estar em muitos lugares simultaneamente. Lady Jessica fora meramente um peão nesse programa de procriação e tivera o mau gosto de se apaixonar pelo parceiro a que fora destinada. Respondendo aos desejos de seu Duque, ela gerara um filho em vez da filha que a Irmandade desejava como primogênita.

“Deixando-me para nascer somente depois que já se viciara na especiaria.

E agora elas não me querem. Agora elas me temem! Com boas razões...”

Elas conseguiram Paul, seu Kwisatz Haderach, uma geração mais cedo um pequeno erro de cálculo num plano muito amplo. E agora tinham outro problema: a Abominação, que carregava consigo os preciosos genes que elas buscaram por tantas gerações.

Alia sentiu uma sombra passar sobre si e olhou para o alto. Sua escolta estava assumindo uma posição de guarda mais elevada, preparatória para o pouso.

Sacudiu a cabeça, admirada com o modo como seus pensamentos tinham vagueado. Qual era a vantagem de recuperar a memória de antigas vidas só para misturar seus erros? Essa era uma vida nova. Duncan Idaho voltara sua consciência mentat sobre a questão do motivo pelo qual Lady Jessica escolhera essa ocasião para retornar. Avaliara o problema no estilo de computador humano que era sua habilidade , dissera que ela voltava para entregar os gêmeos à Irmandade. Os gêmeos também tinham os preciosos genes, e Duncan podia estar certo. Isso poderia ser o suficiente para ter retirado Lady Jessica de sua auto-imposta reclusão em Caladan. Se a Irmandade ordenasse... Bem, por que mais ela voltaria ao cenário de tanta coisa que lhe devia ser tão dolorosa?

Veremos murmurou Alia.

Sentiu o ornitóptero tocar o teto de seu Castelo, uma pontuação positiva e incisiva que a enchia de sombrias expectativas.

“melange (mé-lange também malanj) origem incerta (embora se acredite que derive do antigo fran. Zh terrano): o comporto de es b. especiaria de Arrakis (Duna) com propriedades getiátricas percebidas pela primeira vez por Yanrhuph Arhkoko, químico real do reino de Shakkad, o Sábio, melange de Arrakeen, encontrada apenas nas areias mais profundas do deserto de Arakeen, ligada às visões proféticas de Paul Muad' Dib (Atreide) primeiro Mahdi dos Premera, também empregada pelos Navegadores da Corporação e pelas Bene Gesserit. “

- Dicionário Real quinta edição

Os dois grandes felinos aproximaram-se do penhasco à primeira luz da aurora, andando com facilidade. Ainda não se encontravam em plena caçada, apenas patrulhavam seu território. Eram conhecidos como tigres Laza, uma raça especial trazida para o planeta Salusa Secundus quase 8 mil anos atrás. A manipulação genética da antiga espécie terrana apagara algumas características desses tigres, ao mesmo tempo em que aperfeiçoara outros elementos. As presas

permaneciam longas. As faces eram largas, com olhos alertas e inteligentes. As patas haviam sido aumentadas para lhes dar suporte em terreno acidentado, e suas unhas embainhadas podiam estender-se por mais de 10 centímetros, as pontas afiadas como navalhas pela compressão abrasiva das bainhas. A pelagem era de uma tonalidade bronze uniforme para torná-los quase invisíveis sobre o terreno arenoso.

Continuar: parte 2 de 3